sexta-feira, 9 de janeiro de 2004

ARTIGO DE JEAN CHALABY

O jornalismo como invenção anglo-americana: comparação entre o desenvolvimento do jornalismo francês e anglo-americano, 1830-1920 é um notável artigo de Jean Chalaby, inicialmente publicado na revista European Journal of Communication (1996) e agora traduzido na revista Media & Jornalismo, nº 3, Outono/Inverno de 2003, do CIMJ, em edição da MinervaCoimbra.

Para o autor, foram os jornais americanos e ingleses que inventaram a concepção moderna de notícia e de jornalismo - séc. XIX -, ao contrário de Mitchell Stephens (A history of news, 1997, para versão recente), para quem o jornalismo tinha raízes tão antigas como o séc. XVI. Além disso, Chalaby demonstra que os jornais de língua inglesa traziam mais notícias e informação e organizavam melhores serviços de recolha de informação (caso de correspondentes em capitais estrangeiras). Maior exactidão, rapidez, internacionalização e credibilidade tornaram-se as marcas do jornalismo praticado nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Outro argumento de Chalaby é o do aparecimento de formas discursivas próprias do jornalismo - como a reportagem e entrevista - no jornalismo anglo-americano, muito antes delas se desenvolverem em França. Uma primeira definição francesa de repórter dava-o como "o tipo de jornalista inglês, espécie de secretário que considerava ser seu dever tomar notas sobre o decorrer do acontecimento" (Faucher, citado em Chalaby, p. 34). Desde muito cedo que os jornais anglo-americanos faziam uso extensivo dos telegramas fornecidos por agências de informação, garantindo uma maior variedade de fontes e de locais de acontecimentos.

Também a distinção entre facto e opinião marca a diferença do jornalismo em língua inglesa do jornalismo praticado em língua francesa. A notícia anglo-americana assenta no facto, a francesa acrescenta - ou dá mais valor - ao comentário. A notícia francesa é de índole mais literária, como Chalaby chama a atenção. O ideal do jornalista francês é o romancista (Balzac, Dumas, Hugo). Aliás, estes escritores passaram, num dado momento das suas carreiras, pelas redacções dos jornais. O jornalismo era visto como uma passagem para as belas-letras e o seu prestígio e reconhecimento social.

Chalaby enumera ainda razões políticas, económicas, linguísticas e culturais para provar a diferença dos dois universos jornalísticos em análise. Retenho a pressão do poder político e económico sobre os jornais. A independência dos jornais americanos, por exemplo, consistiu na carteira de publicidade angariada, o que evitou a corrupção gerada por dinheiros vindos do poder político. Claro que houve sempre um difícil equilíbrio para garantir a não ingerência económica dos anunciantes.

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