quinta-feira, 21 de julho de 2005

O ENSINO E A INVESTIGAÇÃO DO JORNALISMO EM PORTUGAL (II)

[continuação de ontem]

2) Outro ponto aqui a destacar é o da importância dos mestrados na investigação do jornalismo. A Universidade Nova de Lisboa continuou na frente. Recordo-me de ser um dos alunos do primeiro seminário de Teoria da Notícia, dado por Nelson Traquina, aqui presente, e que seria meu orientador nas teses de mestrado e de doutoramento. Já lá vão treze, catorze anos. A sala funcionava na rua Luís Bívar, quase por detrás da maternidade Alfredo da Costa. Todas as semanas, havia um pacote de cerca de 40 páginas de textos clássicos do jornalismo – ainda em inglês – e logo depois traduzidos na antologia Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Nessa altura, residia aqui no Porto [a comunicação foi apresentada naquela cidade], mas era com muito prazer que semanalmente discutia com a turma e o professor as matérias.

Sem qualquer espécie de falsa modéstia, pode dizer-se que nasceu ali um conjunto de investigadores, hoje seniores. Basta falar em Cristina Ponte e Maria João Silveirinha, com obra sólida já publicada. Outros cursos se seguiram: o Helder Bastos e a Estrela Serrano são exemplos. A investigação seguida combinou logo dois elementos: a componente teórica, de que a revisão bibliográfica do tema a estudar era imprescindível, a investigação empírica, nomeadamente um estudo de caso. Depois, instalou-se a rotina de investigação e outras universidades seguiram o exemplo. Claro que ao mestrado se seguiu o doutoramento: recordo-me ainda do primeiro doutoramento na área de jornalismo ainda na mesma universidade: o candidato era Eduardo Meditsch, professor brasileiro, que defendeu uma bela tese sobre rádio, mais tarde publicada no nosso país.

3) Lentamente, formou-se um corpo de investigadores pelo país, que começaram a criar redes de contacto. A formação de associações foi o passo seguinte. Lembro duas: a SOPCOM, que aglutina investigadores das várias áreas de saber das ciências da comunicação, do jornalismo às relações públicas, do marketing ao cinema; o CIMJ, preocupado apenas com os media e o jornalismo. Interessante o facto de muitos dos sócios de uma serem da outra e de, actualmente, as duas partilharem um espaço comum como sede. O ano de arranque foi comum: 1997.



Este meu excurso algo histórico – que tem a ver com a minha formação académica inicial – permite-me ainda contar uma pequena história relacionada com a vida destas duas associações. Fui eu quem tratou de registar o nome do CIMJ – Centro de Investigação Media e Jornalismo – no Registo Nacional de Pessoas Colectivas do Ministério da Justiça, à Praça Silvestre Pinheiro Ferreira, em Lisboa. Terei ido lá duas ou três vezes até ser aceite o nome. Com esta minha experiência, ofereci-me para fazer o mesmo com a SOPCOM. Na altura, queríamos uma sigla que se aproximasse do nome Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação. Propusemos APCOM, mas havia uma associação com o nome APECOM, ligada à publicidade. Assim, eu, de um lado, com um telemóvel dos pesadões, e o professor Aníbal Alves (Un. Minho) do outro lado, em Torres Vedras, onde ele tem uma casa, fomos combinando nomes até ficar a designação actual, SOPCOM (que até poderia ser lida como Sociedade Portuguesa de Ciências da Comunicação).

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Claro que as duas associações têm objectivos diferentes, até pela composição de sócios. A SOPCOM é mais conhecida pela realização de congressos e pela criação de ligações a comunidades semelhantes no Brasil e em Espanha; o CIMJ tem-se dedicado mais à investigação no jornalismo. Neste momento, tem em curso vários projectos de investigação financiados pela FCT e, da primeira investigação, já saiu um livro de Cristina Ponte e projecta-se para breve a saída de outro, com Nelson Traquina e duas jovens investigadoras alocadas ao projecto.

[continua]

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