Blogue dedicado a pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, videojogos, música, livros e centros comerciais) e das indústrias criativas (museus, exposições, teatro, espectáculos). Blogueiro desde 26 de Dezembro de 2002. Endereço electrónico: Rogério Santos.

20.11.09

MARTIM AVILLEZ

  • Como é que vamos cobrar aqui conteúdos online se o Murdoch não consegue cobrar os seus? Também sabemos que se amanhã fosse anunciado o fim de todos os títulos de imprensa em Portugal íamos ver aquelas manifestações de solidariedade, com velinhas e tudo. Mas nós não queremos velinhas, queremos é sentar-nos antes das velinhas, para todos percebermos do que é que estamos a falar. Às vezes parece que não sabemos do que estamos a falar (Martim Avillez Figueiredo, administrador da Sojormedia Capital e director do jornal i, Meios & Publicidade de hoje).

A entrevista de Martim Avillez é interessante. Mas acho estranho o modo como se posiciona. Primeiro, ele é director de um jornal em papel. O discurso das "velinhas" é obviamente deslocado num responsável que quer ver fortificado o seu produto. Segundo, Rupert Murdoch, um magnata dos media (media mogul em inglês), está a tentar o pagamento dos conteúdos do online desde meados deste ano. Se conseguir - e ele tem possibilidades disso - pode mudar a face da internet. A questão, sempre, é a do modelo de negócio.

Continuarei a acompanhar a discussão em torno dos conteúdos gratuitos versus pagos na internet, pois é uma questão apaixonante.

19.11.09

LETÍCIA MORALES

A ARTE COMUNICANTE NO DIA 26

Em organização do Centro Nacional de Cultura e da Universidade Católica, no âmbito do Ano Europeu da Criatividade e Inovação (AECI), e em conjugação com a organização portuguesa do AECI, foi desenvolvido o projecto Metamorfoses da Criatividade, uma "reflexão que pretende juntar a produção teórica académica com a prática artística" (informação dos organizadores). Os grandes impulsionadores foram os estudantes dos Mestrados em Estudos de Cultura e Ciências da Comunicação (Gestão Cultural) daquela universidade, com a criação de "um programa multidisciplinar e transversal às várias dimensões criativas", em torno de três linhas: Os Novos Híbridos – De Ovídio ao Vídeo; A Arte Comunicante; A Natureza da Criatividade.

A conferência A Arte Comunicante decorre no próximo dia 26 de Novembro, pelas 18:00, no Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, nº 10; metro Chiado), com os seguintes intervenientes: António Pinto Ribeiro, João Salaviza e Alexandre Melo. Moderação: Rogério Santos.

Para saber mais, clicar
aqui.

MOSCOVO (Москва)

1. Os media (e a arte) dão conta de como a vida (social, cultural, política, económica, religiosa) evoluiu ao longo dos séculos, em especial desde finais do século XIX. A pintura da galeria Tretyakov (Moscovo) mostra o povo russo a trabalhar a terra, a indústria, os labores, as canseiras, a vida dura. Por exemplo, a luta contra a neve, o transporte de bens e mercadorias como a água executado apenas pela força dos homens. Aí, os pintores usavam cores vivas, mesmo ingénuas. Já a televisão que se vê nos canais comerciais de Moscovo apresenta talk-shows, com piadas abundantes (os frequentadores do café riam abundantemente), imitando actores e contando histórias. Nesses programas, vê-se gente jovem e feliz à volta de uma mesa - já não numa atitude de trabalho, mas de lazer e de prazer.

2. A guia do museu zoológico referiu-se a uma espécie de veados da zona norte e fria da Rússia: as fêmeas tinham de lutar muito para obter o alimento dos musgos, num permanente trabalho de sobrevivência. Impressionou-me muito ver os animais embalsamados, de bisontes a leões e de tigres a aves (embalsamadas, as aves mais bonitas, de longas penas, são as mais estúpidas, dada a fragilidade da sua constituição física no combate com outros animais). No museu, a vida acaba ali - o homem quis preservar as espécies como se fosse um desenho a três dimensões, um volume de formas e cores estático.

3. A época em que o museu zoológico foi criado (finais do século XIX) marcou uma época complexa na história da Rússia. Os homens lutavam contra a natureza, que, pela adversidade, obriga a uma selecção. A televisão de hoje dá a imagem de tudo já conquistado, de uma certa lassidão até. Os temas dos quadros da galeria Tretyakov seriam pessimistas - mas também há quadros que retratam czares e príncipes ao lado de cenas de grande violência na história da Rússia. A televisão, que apresenta as desgraças do mundo na informação, ocupa todo o resto do tempo a propagandear a beleza, a fortuna e o optimismo. Os marginais, os excluídos e os miseráveis, que surgiam na pintura, são esquecidos na televisão.

4. No congresso de jornalismo de Moscovo em Outubro passado uma comunicação tratava do revisionismo do revisionismo. A ideia central é que o regime comunista e as suas obsessões vinham da alma russa, do tempo dos czares. Isto é, as perseguições, a falta de liberdade de imprensa e o regime securitário têm raízes na tradição russa. Daí, os tiques de autoritarismo do actual regime, apesar da ocidentalização de Moscovo, com lojas de marcas internacionais e modos de vestir e consumir que não distinguimos de outras cidades europeias ocidentais.



5. O culto religioso demorou mais de uma hora, com os crentes em pé (ausência total de cadeiras). Na área de culto, há três portas, sendo a do meio (a régia) aquela onde os sacerdotes ortodoxos circulam entre o santuário, atrás do iconostácio, e a assembleia. Os sacerdotes rezam de costas voltadas para os crentes e estes benzem-se frequentemente. As mulheres usam lenço mas não estão separadas dos homens, ao contrário do que vi na igreja ortodoxa grega. Os ícones preenchem todo o espaço das paredes e dos tectos. Em algumas igrejas, no seu exterior, vê-se o tijolo da estrutura do edifício. Se, nas igrejas de culto, os crentes são russos, nas igrejas do Kremlin há muitos visitantes estrangeiros. A entrada para a praça das catedrais é de 350 rublos (700 para visitar também os museus). Compra-se o bilhete num sítio, guardam-se objectos como mochilas noutro e entra-se num terceiro local, com detecção de metais como se fosse a entrada de uma fronteira no aeroporto.

6. As empregadas da galeria Tretyakov têm todas mais de 50 anos, falam apenas o russo e são tipo funcionárias de Estado, mal encaradas a cumprir uma obrigação, possivelmente uma herança do regime soviético (em Portugal, ainda há surpresas semelhantes). Apesar de antiquada, a informação disponível nos quadros contempla o título em inglês.

7. Ver uma peça em russo sem entender a língua, durante três horas, foi das experiências mais ricas da minha vida. Primeira dificuldade: a empregada não me quis vender o bilhete por ausência total de comunicação. Valeu-me o espectador que se me seguia na fila; embora falasse apenas russo, mostrou uma nota de 100 rublos (o preço médio de entrada, bem barato), e a empregada vendeu-me um bilhete desse valor. Segunda dificuldade: para encontrar o lugar, já na galeria, fui recebendo sinaléctica sucessiva, o mesmo acontecendo para os binóculos que aluguei para ver melhor os intérpretes. Terceira dificuldade: apesar de entender o enredo da peça, não ri quando os outros espectadores riam. Mas percebi como um analfabeto compreende um filme apenas pelas imagens (eu sou analfabeto a ler cirílico, ficando sem perceber o título da peça e o autor).

8. O taxista que me levou do hotel para o aeroporto (cinquenta quilómetros) usou as cinco faixas de rodagem da auto-estrada mais a berma da estrada, chegando a atingir nesta os cem quilómetros à hora. Eu julgava estar dentro de um videojogo, com a posição do automóvel em constante mudança de fila de carros. Eram duas da tarde, chovia muito e havia algum nevoeiro, com pouca luz diurna e um tráfego intenso, onde bons automóveis emparelhavam com camiões antigos. Pensava: se houver um acidente, perco o avião. Mas não pensei que me podia magoar. Ao lado da auto-estrada vislumbrava uma floresta e, mais perto do aeroporto, uma povoação com casas de madeira e telhado de inclinação acentuada preparado para receber a neve. Já no aeroporto passei por um aparelho de raios-X, colocando os pés em marcas indicadas e levantando os braços (será o tipo de aparelho usado já em Manchester e noutras cidades inglesas noticiado há semanas atrás?). Dentro do aeroporto, as lojas não vendiam os objectos em rublos mas em euros e dólares, embora aceitassem o pagamento em moeda russa.

9. O centro comercial GUM, mesmo em frente ao túmulo de Lenine, o que é uma enorme ironia, repleto de lojas de marcas ocidentais, deve ser um insucesso. Quase ao meio-dia de uma segunda-feira, ele estava deserto, com as empregadas a olharem para fora das lojas.

10. Quando passeava na Arbatskaya, vi o que me pareceu uma grande catedral (como nos países do ocidente da Europa). Afinal, era um edifício do Partido Comunista, cheio de símbolos (foices e martelos) esculpidos na pedra e datado de 1951. Pensei como o regime de Moscovo dessa época buscava formas gigantes e simbolizando o poder como as igrejas cristãs o fizeram durante séculos (o pináculo mais alto, a maior visibilidade do sítio mais longínquo) ou as torres de Nova Iorque ou os edifícios do Qatar e de outros países exportadores de petróleo.

18.11.09

INDÚSTRIA CULTURAL GLOBAL (II)

[continuação e conclusão da mensagem de 11 de Novembro último]

No seu livro, Scott Lash e Celia Lury (2007) fazem a biografia do campeonato de futebol Euro 96, contando com a intersecção de várias perspectivas: 1) música e estrelas pop, 2) jornais e revistas, 3) televisão e rádio, 4) estilos de vida, 5) patrocinadores de marcas globais, 6) história do futebol inglês e europeu, 7) instituições governamentais, e 8) conjunto de pequenas, médias e grandes empresas comerciais.

A biografia de um produto cultural específico reside na transformação de uma ocasião desportiva em propriedade cultural, de um torneio em marca. No Euro 96, houve reposicionamento de marcas, com organização de actividades extra e fora da programação oficial inicial. Com um trio permanente: acontecimento desportivo, música, produto comercial (Coca-Cola, outros patrocinadores). Um elemento central foram as bandas musicais como plataformas comerciais: os Simply Red e os Lightning Seeds (ver vídeo Three Lions
aqui). O vocalista dos Lightning Seeds, Ian Broudie, fã de futebol que comprava bilhetes para assistir aos jogos do Liverpool, foi ao programa televisivo Fantasy Football, programa apreciado pelos ingleses de 13 a 20 anos que gostavam de música. A Coca-Cola associou-se à música dos Lightning Seeds. Aquela não era apenas o objecto manufacturado, não apenas uma identidade ou um objecto cultural; é também um meio.

Por outro lado, os futebolistas de sucesso tornaram-se muito bem pagos, e alguns tornam-se estrelas como os músicos. Como estrelas, relacionam-se bem com outras estrelas. Quando futebolistas e músicos se encontram, eles falam da actividade dos outros. Temos um exemplo nacional: Cristiano Ronaldo.

Uma terceira linha de investigação: o futebol era um desporto territorializado, na cultura sólida dos trabalhadores e em contacto com as famílias das classes trabalhadoras. Ele tornou-se desterritorializado quando vieram duas vagas de grupos que instauraram a violência: os hooligans e os casuals enquanto subculturas jovens no Reino Unido. Os casuals, jovens à volta dos 14 anos que vestiam roupa de marca, sentiam uma experiência incrível e excitante ao ir ao futebol e causar problemas. Nascidos no final dos anos 1960, liam a revista Smash Hits e estavam ligados à cultura de dança em Manchester (ouviam os Happy Mondays e os Stone Roses), sendo a origem de muitos fanzines de futebol aparecidos em meados da década de 1980. O que o Euro 96 procurou mostrar foi não agressividade (ligada aos hooligans e casuals ingleses), modernidade e europeização, criando uma identidade europeia. Isto é, mais uma celebração que uma competição, uma ocasião de mostrar a família europeia.


Os media são um actor chave na biografia do Euro 96 e dos acontecimentos desportivos mais recentes. As pessoas mais velhas conheceram o futebol através dos jornais de grande tiragem. A geração seguinte segue o futebol através da televisão. A geração mais jovem experimenta o futebol através do jogo de computador FIFA’97 e todos os outros jogos de Playstation, Nintendo e computador, além de notícias especializadas lidas nos sítios que os clubes desportivos têm na internet e via mensagens de telefone móvel.

Uma última linha de investigação apresentada no livro é a dos direitos de autor a vender (e a comprar). A UEFA (Union of European Football Associations) é uma organização quase-pública e sem fins lucrativos mas existe uma relação muito lucrativa entre a UEFA e as empresas que compram os direitos, inscrevendo-se na economia da cultura que é uma mistura público-privado. Os direitos incluem ecrãs de televisão, publicidade nos bilhetes, táxis, autocarros, outdoors, latas de Coca-Cola, dentro dos restaurantes McDonald’s, nos cartões do Master Cards. Por isso, há um ambiente de marcas muito forte nas competições desportivas caso do Euro 96.

Leitura: Scott Lash e Celia Lury (2007). Global culture industry. Cambridge e Malden, MA: Polity Press, pp. 39-56

JOEL FREDERICO DA SILVEIRA

Sabia que estava muito doente, como se comentava no recente congresso de jornalismo em Moscovo, onde alguns conferencistas estrangeiros perguntaram por ele, prova de estima e reconhecimento. O médico aconselhara-o a estar em repouso absoluto. Joel da Silveira faleceu ontem, em Lisboa.

Retiro da mensagem que circula na lista de associados da SOPCOM alguns dos elementos: "Professor de Ciências da Comunicação na Escola Superior de ComunicaçãoSocial, do Instituto Politécnico de Lisboa, Joel da Silveira foi um grande entusiasta do movimento associativo das Ciências da Comunicação em Portugal. Membro fundador da SOPCOM, integrou, por diversas vezes, os seus Órgãos Sociais. Presidiu à Comissão Organizadora do primeiro Congresso da SOPCOM, realizado na Gulbenkian, em 1999. Secretariou a primeira Comissão de Avaliação Externa dos Cursos de Ciências da Comunicação, da FUP, presidida pelo Professor Lopes da Silva. Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social".

Dele, fica a ideia de indivíduo envolvido, sempre a cogitar na acção mas calmo.

16.11.09

LIVRO SOBRE JORNALISMO

João Figueira lança, no próximo dia 24, pelas 18:00, o seu livro Jornalismo em liberdade. A apresentação está marcada para a livraria Almedina (Atrium Saldanha, Lisboa).

[informação recebida por SMS]

OS JORNALISTAS SEGUNDO FIALHO DE ALMEIDA


O texto Os jornalistas é de 1889, tendo Fialho de Almeida publicado esse e outros textos no ano seguinte no livro Pasquinadas, agora em edição da Palimpsesto (2009).

É um livrinho fantástico. Sobre o jornalismo e os jornalistas, escreveu Fialho de Almeida:


"Compreende-se o jornalismo em França ou na Inglaterra, onde quase tudo o que há de instruído, de liberal, de inteligente, nos três quartos da nação, existe ali [...] Da imprensa deriva toda a espécie de incentivo e de energia fecunda e transformável, que depois vai propulsar em todos os distritos gerais da actividade, moral e ciência, indústria e arte, política e religião. [...] Falem-me agora da acção da imprensa em Portugal, nos últimos anos [...] Quanto aos jornalistas, dêem-me seis que tenham passado a vida a defender os interesses do povo, sem fazer da redacção elevador para uma aposentadoria; dêem-me quatro aonde eu escolha um grande homem de letras, ou simplesmente um grande homem de espírito" [pp. 35-39].

PRESIDENTE DA TELEVISÃO PÚBLICA ESPANHOLA PEDE DEMISSÃO

O presidente do serviço público espanhol de televisão pediu a demissão. Alegou questões pessoais, mas a razão deve prender-se com a eliminação total de publicidade nos canais públicos TVE1 e TVE2 (em França, recentemente tomou-se a mesma decisão).

O presidente demitido, que fora eleito em Dezembro de 2006, vai ser substituído pelo antigo ministro Alberto Oliart, de 81 anos. Oliart, que já disse não perceber nada de televisão, está a ser criticado por causa da sua idade, uma vez que a RTVE introduziu um plano de reestruturação em 2007, forçando os empregados com mais de 52 anos de idade a sairem da empresa. A principal crítica considera que o PSOE está a dar uma mão a dois grupos de media em apuros - Prisa e Mediapro -, bastante alinhados com as políticas do actual governo.

15.11.09

MONTEMOR-O-NOVO - MARCAS DA HISTÓRIA E DA VIDA

O moderno fado de Duarte e a música e estilo sofisticados de Margarida Guerreiro não surpreenderam os espectadores do Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo, a maioria com idade já avançada. O segundo é oriundo de Évora, a menos de 30 quilómetros dali, a cantora é filha da terra, agora a viver profissionalmente na Itália. O cosmopolitismo dos artistas parece contrastar com o tempo de vida dos habitantes - o espectáculo começou com mais de meia hora de atraso sem qualquer protesto. As pessoas aproveitavam para conversar: sobre os maridos, as namoradas dos filhos, a última festa em que estiveram, a conversa de ontem à janela. E mudavam de sítio, pois se tinham sentado no lugar errado.


Talvez o futebol em que a selecção nacional participava fosse a razão ou justificação para o atraso. Os rapazes bebiam mini-cervejas e comiam bifanas no café Almansor, exultando com o único golo da partida, às vezes saindo para fumar; as raparigas preferem o Alkimia, onde bebiam café ou chá, mas saindo igualmente para fumar. Eles falavam alto e com basófia; elas baixo, talvez a traçarem as qualidades do pretendente a namorado. Mas todos e todas exercitavam os dedos das mãos em sucessivas e imparáveis mensagens de telemóvel. O Alkimia é também ponto de encontro de senhoras de idade e reformadas, que tomam o pequeno almoço e convivem juntas desde o meio da manhã, possivelmente a discutirem as aulas da Universidade Sénior, que este ano lectivo conta com mais de 50 inscritos em História Local, Cidadania, Francês e outras disciplinas, com um custo anual à volta de 60 euros.

Não sei a taxa de desemprego de Montemor-o-Novo, com quase onze mil habitantes na cidade e dezoito mil no concelho, como me disseram. A câmara emprega toda a gente que pode empregar na cidade, ouvi num comentário crítico. O barbeiro de 85 anos falou-me de como permanecia ali no seu estabelecimento há 58 anos. Os estrangeiros conseguem emprego, aceitando as ofertas que os locais podem desprezar, disse-me uma brasileira; consigo, há um compatriota seu e uma uruguaia. No apoio agrícola de um monte, um casal de moldavos, já com dois filhos pequenos, aproveitara um dos dias de descanso para ver o espectáculo do Cine-Teatro Curvo Semedo. Sem falar de chineses, com as suas lojas tradicionais (uma delas bem grande), que já vendem pais natais a treparem à chaminé e flores em plástico típicas deste período do ano no seu país natal.


Na sexta à noite, o magusto ao ar livre fora animado com a banda CO2, com letras pimba, mas que a assistência sabia de cor e dançava animadamente. No sábado, com o lançamento da revista Memória Alentejana no Auditório Almeida Faria, em que se falaria também da agricultura, da importância do montado e do sobreiro (por Alexandre Pirata) e da pintura de Manuel Casa Branca, e o espectáculo no Cine-Teatro Curvo Semedo, dei-me conta da actividade cultural e recreativa da cidade, enquanto ouvia estar a decorrer um torneio de damas numa outra associação. Cem associações activas no concelho, disseram-me igualmente. O Grupo dos Amigos de Montemor-o-Novo tem dinamizado o convento de S. Domingos (Museu de Arqueologia), com biblioteca e espólio de arte sacra ricos e uma boa recuperação do edifício. Com apoio da câmara municipal, o Centro Interpretativo do Castelo representa uma interessante transformação da função da igreja de S. Tiago (não me foi permitido fotografar), mesmo ao lado do Espaço do Tempo, no convento da Saudação, onde está Rui Horta e o seu grupo de dança contemporânea. Montemor-o-Novo parece uma cidade em construção - melhor, em recuperação do seu património.


Na livraria Fonte das Letras, ouvia-se música barroca; no Centro Interpretativo, a guia baixou o som musical durante a nossa visita a fim de nos deixar compreender melhor a recuperação da pintura e do sítio. Conjugando a tradição (a barbearia, o mercado público) com a inovação (igreja de S. Tiago), dentro de escala social aceitável, uma cidade pequena como Montemor-o-Novo torna-se um agradável local de residência permanente ou temporária, ajudada por uma paisagem exterior agradável, que elimina a esquizofrenia dos sítios pequenos e do seu oposto, os espaços residenciais saturados. A dúvida que não se elimina é: que empregos, que negócios rentáveis? Pode viver-se de turismo e da cultura? As indústrias culturais - ou criativas - são suficientes ou fortemente complementares de actividades primárias (agricultura) e secundárias (indústrias)?


12.11.09

GERAGHTY EM LISBOA


Christine Geraghty, docente da Universidade de Glasgow (Escócia), hoje na Universidade Católica, junto a Eduardo Cintra Torres, que a apresentou, conferência enquadrada no projecto AAQUA (Análise e Avaliação da Qualidade no Audiovisual).



Algumas ideias sobre o trabalho de Christine Geraghty

1) Televisão clássica – implica boa televisão, com padrões de qualidade (valores e juízos subjectivos), longevidade (caso das séries inglesas), individualidade dos programas, apresentação, contexto social e cultural, relação com o espectador (e não tanto com a audiência), prazer extraído dos programas (caso das telespectadoras), do ver televisão no tempo real da emissão (e não através de DVD ou da internet, em arquivo), categorias de análise (narrativa, realismo, género), complexidade de narrativa.
2) Quatro modos de estudar a televisão – comparação com os estudos fílmicos, assinalando as distinções (significado visual, vocabulário e métodos, análise textual, aproximação da câmara, géneros), nacionalidade (a televisão foca a perspectiva nacional ao passo que o cinema tende a ser tematicamente mais internacional), telenovela (crescente qualidade formal, em termos de narrativas, personagens, organização, com reavaliação do trabalho feminino e da posição da família), audiências (os estudos etnográficos estimulam a definição de audiência, com os seus prazeres secretos e rituais, como assistir a acontecimentos nacionais, desporto).
3) Estudos de televisão – comunicação de massa (jornalismo, produção, efeitos de media, impacto democrático), estética do meio (directo, entretenimento de massa), estudos culturais, complexidade dos produtos de televisão (notícias, ficção, drama, serialização), televisão como relógio (organizador do dia, conversas públicas e privadas), funções (criar cidadãos, cria consumidores), fronteiras nacionais.

Textos:
Christine Geraghty, The making and remaking of classic television, Opening address na Universidade de Warwick, em 19 de Março de 2009
Christine Geraghty, Exhausted and exhausting: television studies and British soap operas, Universidade de Glasgow, Setembro de 2009
Reunião com grupo AAQUA, Novembro de 2009
Conferência sobre television studies na Universidade Católica, Novembro de 2009

11.11.09

INDÚSTRIA CULTURAL GLOBAL (I)


Em Global culture industry (2007), Scott Lash e Celia Lury recordam os 60 anos da primeira edição da Dialéctica do Iluminismo de Max Horkheimer e Theodor Adorno. A dialéctica clássica da teoria crítica nasceu do estudo do ancien regime: feudalismo, absolutismo, relações sociais colectivas, sociedade com servos adstritos à gleba (solo), e peso elevado da monarquia absoluta, aristocracia e Igreja. Após essa idade vieram as Luzes, o Iluminismo, com as ideias de mercado, liberdade de expressão, cidadania burguesa, emergência do povo, autonomia, emancipação, contrato social e direitos naturais.

Mas o Iluminismo continha uma lógica contraditória, segundo Horkheimer e Adorno, que falam da nova escuridão do mito – a qualidade torna-se em quantidade, o poder em dominação. O saber, ou conhecimento, liga-se ao poder. A emancipação da natureza interna transformou-se no poder institucional sobre a natureza interna como a clínica, a prisão, a escola e a fábrica.

Uma esfera principal da dialéctica do Iluminismo foi aquilo a que Horkheimer e Adorno chamaram indústria cultural. O que era uma esfera relativamente autónoma ficou dentro do princípio industrial. O que quer dizer que a cultura, outrora um espaço de liberdade, resultou no princípio da racionalidade instrumental, nas mãos de Hollywood e da emergente concentração de capital monopolista na edição, registo e publicidade. A cultura, antes uma fonte de edificação, ficou uma máquina de controlo, cujo principal interesse é o lucro financeiro dos oligopólios corporativos.

Lash e Lury, ambos docentes no Goldsmiths, da University of London, dizem que a indústria cultural de Horkheimer e Adorno é uma linha fundadora do que mais tarde veio a chamar-se estudos culturais. No livro, Lash e Lury argumentam que muitas coisas se alteraram, do tempo de Horkheimer e Adorno ao tempo do que chamam indústria cultural global. O livro segue os traços de objectos culturais. A cultura tem uma lógica diferente na transição da indústria cultural para a indústria cultural global: a globalização dá à indústria cultural um modo diferente de operação. A cultura já não trabalha como superestrutura, não é uma ideologia hegemónica, símbolos, representação. Agora, a cultura articula-se com a economia e a vida do quotidiano, torna-se coisificada. Na indústria cultural global, há a mediação das coisas.

Os autores apresentam sete conjuntos de mudanças, nem sempre muito entendíveis para o leitor: 1) da identidade à mudança [em Horkheimer e Adorno, o produto cultural é uma questão de cultura, tem um efeito na família, no lar. Na indústria cultural global, produção e consumo são processos de construção da diferença. Na indústria cultural, a produção toma o lugar na produção de identidade fordista e trabalho intensivo; na indústria cultural global, assenta na produção do design intensivo da diferença], 2) do bem (commodity) à marca [o bem é um produto (commodity) caracterizado pelo seu valor de troca, expresso em dinheiro. O bem é produzido; a marca é fonte de produção. O bem não tem relações, a marca estabelece relações. O bem não tem memória, uma marca é (tem) memória], 3) das representações às coisas [para Horkheimer e Adorno, apesar da “industrialização”, a cultura era ainda superestrutura. Agora, os bens tornam-se informacionais, o trabalho é mais afectivo, a propriedade torna-se intelectual, a economia transforma-se em cultural. Os media viram coisas. A imagem é coisificada, fica matéria-imagem. Na indústria cultural de Horkheimer e Adorno, a mediação era feita através da representação, na indústria cultural global, há uma mediação das coisas, uma coisificação dos media quando os filmes se tornam jogos de computador. Os objectos dos media no quotidiano rivalizam com os objectos manufacturados], 4) do simbólico ao real [a indústria cultural de Horkheimer e Adorno trabalhava o simbólico, a luz do Iluminismo, o prazer do texto, e a representação. A indústria global traz a cultura ao real (através do virtual). Relaciona-se com o brutal (ver Matrix, como os autores estudaram) e o desperdício. Opera com a simulação, com a hiperrealidade], 5) as coisas tornam-se vivas: o bio-poder [a indústria cultural de Horkheimer e Adorno trabalhava na lógica do bem; a indústria global lida com singularidades (Appadurai)], 6) da externalidade à intensidade [a propriedade intelectual é a sua expressão legal e de regulação. O ambiente dos media, ou mediascape, é uma floresta de intensidades extensivas. Horkheimer e Adorno falavam da intensidade de uma paisagem (landscape), a indústria cultural global tem a intensidade de uma mediascape, é uma scape de fluxos (Appadurai)], 7) o nascimento do virtual [a experiência da marca é um sentimento, não uma percepção concreta. As marcas podem ser virtuais, actualizadas, num dado número de produtos. Para o semiólogo Peirce, a marca pode ser um ícone. Peirce via a significação através de três modos: símbolo, índice, ícone].

Leitura: Scott Lash e Celia Lury (2007). Global culture industry. Cambridge e Malden, MA: Polity Press, pp. 1-13

10.11.09

VALORES FUNDADORES DA UNIVERSIDADE

Embora com atraso, pois o post de Mark Deuze é de 25 de Setembro último, vale a pena ler as suas reflexões sobre a instituição universidade voltada para valores como eficiência, resultados, retorno do investimento. Para Deuze, os valores fundadores da universidade, liberdade académica e governação universitária, devem manter-se como essenciais.

9.11.09

GALERIA TRETYAKOV


A galeria Tretyakov (Moscovo) tem obras de arte do século XII (ícones) até ao XX, como pintura, desenhos e escultura, num total de 62 salas. Admirei a pintura do século XIX, com cenas de vida rural, gente trabalhadora mas pobre, mesmo miserável, ao lado de retratos de burgueses e artistas, de grande realismo. A principal atracção é a Trindade (1420), de Andrei Rublev (um belo filme de Tarkovsky evoca essa pintura e esse tempo).

Retiro algumas ideias do livro editado pela galeria (Masterpieces of the State Tretyakov Gallery, 2007; textos de Yulia Kozlova, Svetlana Stepanova, Lyubov Zakharenkova, Maria Zinger-Golovkina e Eugenia Plotnikova), dividido em cinco partes: arte medieval russa (século XII-XVII), pintura (século XVIII à primeira metade do século XIX), pintura (segunda metade do século XIX), pintura (finais do século XIX e inícios do século XX) e desenho (do século XVIII ao XX). De um lado, a tradição de pintar ícones chegou à Rússia vinda de Constantinopla no momento da adopção do cristianismo em 988, em que a palavra grega ícone significa imagem ou representação. O elemento fundamental da cultura cristã seria a representação do homem em harmonia interior. A pintura surgida na Rússia no século XVIII ilustra o modo como a Rússia se associou à Europa moderna, afastada até aí de contactos com o ocidente. O retrato, os detalhes do vestuário, a vida política e estatal e as reformas do Estado russa reflectem-se nas obras de arte. O terceiro núcleo de obras de arte (segunda metade do século XIX) foi adquirido pelo próprio Pavel Mikhailovich Tretyakov (1832-1898), comerciante e industrial moscovita. Nota-se uma articulação com a cultura democrática e a sua perspectiva cívica, além do excelente gosto mostrado na aquisição de peças de estúdio e de exposições. Com a revolução russa de 1917, a colecção passou para o Estado, que ali depositou outras colecções, tornando hoje a galeria um local de inestimável qualidade da arte russa ao longo dos séculos.



A Procissão religiosa na província de Kursk, de Ilya Repin (1880-1883) [imagem retirada da Wikipedia] é espantosa, tendo-me feito lembrar uma pintura de José Malhoa.

A galeria Tretyakov fica na Zamoskvoreche ("para lá do rio de Moscovo") e a rua principal é a Pyatnitskaya Ulitsa, frente da linha dos russos contra os mongóis (século XIII). A zona não foi danificada no tempo de Estaline, mantendo casas neoclássicas e igrejas do século XIX, como as da Ressurreição, S. Clemente e Consolação de Todas as Dores.

8.11.09

NEW YORK TIMES SOBRE O JORNAL I

No jornal New York Times de hoje, o novo jornal i é tema de um artigo assinado por Eric Pfanner (a partir de Paris). O artigo começa por dizer que Portugal é dos países com menor leitura de jornais; logo, lançar um novo diário é uma grande aventura. Além disso, o investimento publicitário nos jornais desceu 40% este ano.

O jornal americano ouviu José-Manuel Nobre-Correia (professor da Universidade Livre de Bruxelas), João Palmeiro (presidente da Associação Portuguesa de Imprensa) e Avillez Figueiredo (director do jornal e detentor de 5% do seu capital). O New York Times aponta algumas características do novo jornal: parece mais uma revista que um jornal, é agrafado, não segue o alinhamento tradicional dos jornais (notícias, editoriais e páginas de opinião, economia, desporto e cultura), mas coloca os editoriais e artigos de opinião no princípio do jornal, a que se seguem histórias políticas, económicas e outras mas sem estarem desligadas umas das outras. A secção final, Mais, agrupa as notícias de entretenimento, cultura e desporto.

O jornal i atingia 16,3 mil exemplares diários em termos de vendas no passado mês de Agosto, valor ainda abaixo dos outros jornais de qualidade (Público com 37 mil e Diário de Notícias com 31 mil). A publicidade no i está abaixo das expectativas (em 45%), mas o grupo Lena, que investiu €10 milhões, está satisfeito com os resultados, esperando atingir resultados positivos em cinco anos e o pagamento do investimento em oito anos.

Martim Avillez espera criar com o i uma marca forte, alargando-a para outros media. O grupo Lena (cujo negócio central é a construção civil) tem um conjunto sólido de jornais regionais.

NÃO COMPREENDI ECT

Eduardo Cintra Torres (ECT), na sua página de ontem do Público, escreveu sobre a irrelevância da rádio. Começou o artigo com o desaparecimento de António Sérgio, considerando-o um grande profissional da rádio, apesar do anacronismo das propostas do radialista: o rock e o pop. ECT encetara outras audições, a da música clássica e da pop-jazz. Certamente que não o fez na rádio, pois a Antena 2 tornou-se uma rádio de palavra para desespero de quem gosta de música clássica (o fim de programas como Ritornello, de Jorge Rodrigues, não foi compensado) e há pouca tradição em Portugal de programas de jazz, para não falar de emissoras. Por isso, ECT migrou para outro meio que não a rádio, como à frente diz: CD e mp3.

Mas isso aconteceu não no tempo que ECT escreve, foi sucedendo lentamente. Depois de António Sérgio ter debutado, a rádio mudou muito, no mundo como em Portugal. Os programas de autor haviam renascido com a FM na segunda metade da década de 1960 e durante a década de 1970, como Em Órbita e Página Um. Até aí, havia uma anemia de programas de autor. Aconteceu à rádio como o que os Cahiers du Cinéma fizeram ao cinema, relevando os realizadores. No caso específico do nosso país, o fim da ditadura (1974) trouxe muitos programas novos. E, com a década de 1980, vieram as rádios livres (ou piratas, se preferirem a designação). Se podemos falar de meio com inovação foi a rádio desse período. Não tanto com programas de autor mas com novos temas, novas abordagens, mesmo que ingénuas e pouco continuadas. Ficaram a TSF e um conjunto de animadores de rádio que ainda estão hoje no mercado. O CD é dos anos 1980, o mp3 da nossa década. O que significa uma décalage quanto à pretensão de ECT na sua evolução de gosto. Claro que a qualidade da rádio se perdeu com as playlists de muitas estações, mas elas também automatizaram a emissão, despedindo os animadores e eliminando os programas de autor. Abandonou-se a ideia de programas de stock para criar um fluxo contínuo, sem grelha de programas excepto no período pendular da manhã e do fim da tarde (quando se vai e regressa do emprego conduzindo o automóvel; daí as intermináveis paragens de programação radiofónica com informação sobre os acidentes e engarrafamentos na segunda circular de Lisboa ou na ponte 25 de Abril ou no IC19 em Sintra ou Queluz ou na VCI do Porto).

A meu ver, e discordando de ECT, António Sérgio não levou a sua qualidade para uma rádio local. A Radar - com autores de programas como Inês Meneses, o dr. Ramos e Nuno Galopim - tem uma frequência hertziana local mas uma emissão global, graças à internet. A rádio é o meio mais implantado na internet. Podemos dizer que a rádio já não o é porque está toda na internet, e já faz vídeos, ocupando territórios de outros media. Nas ondas hertzianas, a rádio vai acabar o ano de 2009 com uma perda de investimento publicitário, mas inferior à perda na televisão e nos jornais. E com uma subida de audiências no último trimestre, o que contraria os que anunciam a sua morte. Os jornais perdem leitores - e eu jamais escreverei que os jornais são irrelevantes -, e continuam à procura do modelo de negócio na internet. Ontem, um jornal noticiava que um grupo (Cofina) falava dos enormes prejuízos de outro grupo (Controlinveste). O jornal onde lia a notícia está ele próprio com muitos prejuízos. Escrever num jornal pode ser perigoso, pelo risco de fechar ou de não ter quem o leia. E a televisão, o objecto de trabalho de ECT, está a perder espectadores nos canais generalistas e porque as gerações mais novas preferem a internet, o telemóvel e o convívio (restaurantes, discotecas, concertos ao vivo, viagens).

Olhando para outros lados, poderíamos ter a visão pessimista de ECT: as salas de teatro nem sempre enchem, o cinema nacional é suportado pelos impostos dos portugueses, as produções de ópera e de bailado são caríssimas e dependem de mecenas, pois o bilhete pago não cobre as despesas, a pintura de óleo transformou-se em instalações (quase eléctricas), o gosto muda rapidamente sem aparentemente surgir uma qualidade equivalente ou alicerçada pelos pares e pela cultura. Isto num tempo em que se fala de economia da cultura e das indústrias culturais.

Esperemos que a rádio, apesar de já ter passado o seu período de ouro - e que foi na década de 1950 -, não se torne irrelevante.

A RÁDIO EM PORTUGAL: UMA APROXIMAÇÃO AO LOCAL

  • O texto abaixo inserido foi publicado no livro de vários autores, Ecos da lusofonia. 7 anos de rádio em cooperação (2006), editado pela Fundação Evangelização e Culturas. As imagens acompanharam dois textos meus na revista Jornalismo e Jornalistas, números 4 (2000) e 15 (2003). As fotografias das primeiras quatro imagens foram tiradas por José Frade no desaparecido Museu da Rádio. Algumas das imagens seguintes foram retiradas do Boletim da Emissora Nacional (1935-1936). Agora que se aproximam os 75 anos da rádio pública (Agosto de 2010), este é o meu preparativo para a comemoração.
O texto dá uma ideia sucinta do surgimento da rádio em Portugal, de iniciativa privada e popular em 1924. Inicialmente com alcance local, as possibilidades tecnológicas permitiram chegar a distâncias mais elevadas, perdendo-se o conceito de proximidade. Após décadas de rádios nacionais, os anos 80 marcaram uma viragem e uma reaproximação ao local, com atribuição de licenças para emitir a partir das cerca de 350 autarquias.

Do começo da rádio até finais do século XX
As primeiras emissões de rádio em Portugal começaram no Outono de 1924. Um dos pioneiros foi Abílio Nunes dos Santos Júnior, que instalou o emissor CT1AA, com programação constituída por peças tocadas ao vivo, dentro de um reportório de música clássica. As estações pertenciam a comerciantes, gestores de hotelaria e militares, chamados amadores da rádio ou senfilistas.

Em 1931, apareceu a primeira estação moderna, o Rádio Clube Português (RCP), liderado por Jorge Botelho Moniz, que apresentou uma programação voltada para a música popular (portuguesa, espanhola e americana), programas infantis, informação, religiosos e de crítica musical. Pouco tempo depois, em 1935, começou a Emissora Nacional, com outra estrutura. Um dos maiores êxitos na sua programação foi o “Retiro da Severa”, local de transmissão de música popular (fado). A terceira grande estação a inaugurar as suas emissões foi a Rádio Renascença, ligada à Igreja Católica, em 1937. No final da década, estava formado o panorama da rádio em Portugal, e que perduraria até à mudança de regime político, em 1974. Para além das três estações mencionadas, havia conjuntos de pequenas estações agrupadas em Lisboa (Emissores Associados de Lisboa) e no Porto (Emissores do Norte Reunidos).

Em termos tecnológicos, a grande novidade, nos anos 60, seria a transmissão em simultâneo de ondas médias e por modulação de frequência, significando maior qualidade na recepção. Já nos anos 80, irrompeu o fenómeno das rádios piratas, reconvertidas em rádios locais, de proximidade ou temáticas, de que se destacou a TSF, que apostaria na informação, nomeadamente a política. Já na viragem para o século XXI, o desafio tecnológico da rádio chama-se digitalização, com vantagens como melhor qualidade de registo de programa, perfeita fiabilidade na transmissão e recepção, articulação com vários suportes (imagem, por exemplo), disponibilização de cópias em vários suportes (caso da internet). Isso permite que, com uma estrutura mínima, se faça uma estação de rádio local mas com alcance mundial.



Presente e futuro
Em Portugal, existem quatro grupos de dimensão e notoriedade nacionais (RDP, Grupo Renascença, Media Capital e TSF) e cerca de 350 rádios locais ou de proximidade. Enquanto as rádios de cobertura nacional se integram, por regra, em grupos e apresentam maior estabilidade e volumes de negócios, as rádios locais são pequenas e médias empresas que facturam anualmente pouco acima de €100 mil. O número médio de colaboradores é de cinco por estação, equivalente a um mínimo de três a quatro animadores para todo o dia de emissão e fim-de-semana, para além de um técnico ou jornalista. O ordenado médio do jornalista situa-se entre o salário mínimo nacional e os €498,80. Mas outras rádios locais têm dificuldade em ultrapassar €10 mil por ano, o que dá uma média mensal de pouco mais de €800, insuficiente para pagar além de um colaborador a tempo inteiro, sem contar com instalações, electricidade e discos). A falta de quadros (programadores, jornalistas) traduz-se em programação fácil e indiferenciada. A que se acrescenta a crise económica da presente década, que implicou uma baixa de investimentos publicitários, com redução do custo dos blocos de publicidade, passando de €30 euros por 30 segundos no começo dos anos 1990 a €12,5 dez anos depois, acarretando problemas de solvência.

Muitas das rádios locais vivem da música portuguesa e promovem os artistas da região em que se inserem, apostam na defesa dos concelhos a que pertencem e dão a conhecer realidades que, de outro modo, não seriam divulgadas. Com frequência, atingem níveis etários mais velhos e estabelecem interacção com os ouvintes, num reflexo de rádio de proximidade.

Nos últimos anos, os governos apoiaram a renovação tecnológica das estações e criação de cadeias de rádios locais, impondo a obrigatoriedade de emissão em 24 horas diárias e um mínimo de oito horas de programação própria. Integradas em duas associações, Associação Portuguesa de Radiodifusão (APR) e ARIC, esta de tendência cristã, poucas rádios locais formam cadeias de programação e transmissão. Em vez de fundir projectos, imprescindível para garantia de continuidade, preferem políticas de rivalidades locais. As únicas cadeias de rádio existentes sobrepuseram o plano geográfico e o plano económico, retirando a característica de proximidade das rádios através de ligações nacionais (noticiários da TSF, programação da Capital). Isto é um indício forte de falta de economia de escala nas rádios locais, que continuam a viver na dependência do Estado e das autarquias (subsídios, publicidade institucional), com perda de independência editorial.


Bibliografia
Azevedo, Ana Paula (2001). “As rádios locais no pós-25 de Abril”. Observatório, 4: 113-122
Azinheira, Nuno (2002). “Rádios locais. O mundo… ao virar da esquina”. JJ – Jornalismo e Jornalistas, 12: 28-29
Bonixe, Luís (2003). As rádios locais em Portugal: informação e função social. Uma análise dos noticiários das rádios do distrito de Setúbal. Tese de mestrado defendida na Universidade Nova de Lisboa
Duarte, Feliciano Barreiras (2005). Informação de proximidade. Jornais e rádios. Lisboa: Âncora Editora
Marinho, Sandra (2000). “Um percurso da rádio em Portugal”. In Manuel Pinto (coord.) A comunicação e os media em Portugal (1995-1999). Cronologia e leitura de tendências. Braga: Universidade do Minho
Meditsch, Eduardo (1999). A rádio na era da informação. Coimbra: Minerva
Ribeiro, Nelson (2002). A Rádio Renascença e o 25 de Abril. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa
Ribeiro, Nelson (2005). A Emissora Nacional como instrumento de propaganda do Estado Novo, 1933-1945. Lisboa: Quimera
Santos, Rogério (2005). As vozes da rádio, 1924-1939. Lisboa: Caminho
Serejo, Fernando (2001). “Rádio – do marcelismo aos nossos dias (1968-1990)”. Observatório, 4: 65-95
Servirádio (2004). Rádio de proximidade, um investimento de qualidade. Lisboa: Associação Portuguesa de Radiodifusão

7.11.09

COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL

A revista da APCE (Associação Portuguesa de Comunicação de Empresa), Comunicação Empresarial, teve o seu número inicial em Setembro/Dezembro de 1995. Com projecto gráfico de Luís Filipe Trigo, o director seria Vítor Baltasar. O primeiro número destacaria um texto de Rogério Ferreira Andrade, Boatos, rumores e zunzuns, então um dos principais investigadores nacionais de comunicação interna nas empresas, a par do destaque à Universidade Fernando Pessoa (Porto). O meu nome surgiu como coordenador técnico-científico e desapareceu no 13º número da revista ((Setembro/Dezembro de 1999). Nesses magníficos quatro anos de colaboração, recordo as reuniões havidas na EPAL, onde funcionava a sede da associação. Por ali passou tudo o que era comunicação interna nas empresas. Colaborei com artigos, organização de encontros nacionais e internacionais e formação.

REFERÊNCIAS AO BLOGUE INDÚSTRIAS

Os jornais O Ribatejo e Jornal da Madeira fizeram ontem referências ao blogue Indústrias, o que agradeço.



6.11.09

AINDA O COLÓQUIO "OS DIAS DA RÁDIO"

No passado dia 31, antes do colóquio Os Dias da Rádio - de Franklin D. Roosevelt à Internet (ver aqui), Carlos Riley, director da Biblioteca Pública de Ponta Delgada, apresentou o livro coordenado por Maria Filomena Mónica, Os Dabney. Uma família americana nos Açores. Depois, Riley conduziu uma visita guiada à exposição sobre Roosevelt, patente no mesmo local, na sede do Clube Asas do Atlântico (Santa Maria, Açores).

5.11.09

NO REINO UNIDO - EM DEFESA DO SERVIÇO PÚBLICO

No Reino Unido, foi criado um grupo de pressão para apoiar o serviço público de televisão e rádio (The Citizens' Coalition for Public Service Broadcasting, CCPSB), com 30 organizações que incluem fundações, sindicatos e grupos de consumidores, e que se opõe ao governo, que pretende reduzir a actividade da BBC (ver notícia do Guardian de anteontem).

Ao contrário, o CCPSB pede ao governo um aumento de 375 milhões de libras, a retirar dos impostos industriais ou das vendas de espectro radiofónico para criar noticiários regionais e locais, programas infantis e géneros em perigo como os documentários.

CONFERÊNCIA SOBRE BROADBAND MEDIA

No dia 23 de Novembro, pelas 10:00, vai realizar-se no ISCTE (Auditório Afonso de Barros), em Lisboa, a conferência Internacional Broadband Media. Changing Times, Changing Media. O evento é promovido pela revista Observatório(OBS*) (do Obercom) em comemoração dos seus mais de 130.000 downloads de artigos, nos últimos três anos.

A conferência será moderada pela equipa editorial da revista e tem como "objectivo discutir como a banda larga está a mudar os consumos, os modelos de negócio e os conteúdos de jornais, rádio, TV, Internet e telemóveis" (informação da entidade organizadora).

O evento conta com a presença de autores que publicaram na revista e se encontram entre os mais lidos, como é o caso de Jonathan Taplin (USC), Roberto Suarez (Univ. Pompeu i Fabra), François Bar (USC), Eduardo Cintra Torres (Univ. Católica Portuguesa), Piet Bakker (Univ. Amsterdam), João Paulo Meneses (ISLA-Gaia), David Domingo(Univ. Rovira e Vigilli), Bridgette Wessels (Univ. Sheffield) e David Fernandéz-Quijada (Univ. Autonoma de Barcelona).

MOSCOVO

Vendo a televisão de Moscovo, pode concluir-se que há equivalentes de Murdoch e Berlusconi na Rússia, com a rápida transição do serviço público de propaganda para o entretenimento. Os canais captados na capital são falados em russo (vi um filme em inglês com a língua russa falada por cima da banda sonora original). Há muitos talk-shows em diversos canais de televisão, alguns aproximando-se do karaoke (ou seriam os Ídolos ou a Chuva de Estrelas locais?).

De repente, lembrei-me de Marc Augé e dos seus não-lugares, como os aeroportos, autoestradas e gasolineiras. Quando descobri o McDonald's, as letras cirílicas ao lado dos arcos amarelos do logo não traíam o meu conhecimento. Há uma língua global, a das marcas globais, mas permanecem coisas locais ou regionais, como a comida, o modo de fazer fila (para comprar o bilhete de teatro ou de metro, com uma sequência de uns atrás dos outros diferente da portuguesa) e as prendas que se compram para trazer para familiares e amigos.

Sem falar da beleza grandiosa das estações de metro, construídas no tempo de Estaline, que mandou arrasar quarteirões para erguer largas avenidas onde agora os automóveis circulam a grande velocidade, das catedrais do Kremlin com magníficos ícones (as mais belas igrejas que vi na vida), da superstição dos recém-casados que vão à ponte onde estão "árvores" de cadeados que "garantem" força e felicidade, da nostalgia da União Soviética (bonés com os símbolos da foice e do martelo em alguns velhos, t-shirts com imagens de Lenine), da riqueza de lojas muito vastas com as grandes marcas ocidentais, da pobreza no vestuário de alguns passageiros do metro.


4.11.09

THE CULTURAL LIFE OF MONEY


The Cultural Life of Money é um congresso organizado pelo CECC (Centro de Estudos de Comunicação e Cultura) da Universidade Católica Portuguesa, nos próximos dias 12 e 13 de Novembro.

3.11.09

A MORTE DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS


Com cem anos, e na noite de sábado para domingo, morreu o etnólogo Claude Lévi-Strauss [imagem retirada do jornal Le Monde] .

Escreve o jornal Le Monde, hoje às 18:25, em texto de Roger-Pol Droit: "Peu de savants se sont aventurés aussi loin que Claude Lévi-Strauss dans l'exploration des mécanismes cachés de la culture. Par des voies diverses et convergentes, il s'est efforcé de comprendre cette grande machine symbolique qui rassemble tous les plans de la vie humaine, de la famille aux croyances religieuses, des œuvres d'art aux manières de table. Le paradoxe des très grandes œuvres, celles qui sont vraiment décisives et novatrices, est de pouvoir se caractériser en peu de mots".

Mais à frente, lê-se: "Révoqué de l'enseignement au titre des lois antijuives de Vichy, il se retrouva à New York, où il fréquenta les surréalistes, et se lia avec Jakobson, dont l'apport fut déterminant dans la construction de son œuvre. L'après-guerre fut une période instable pour ce chercheur dont les œuvres maîtresses commençaient seulement à s'imprimer et que les institutions savantes ne reconnaissaient pas encore. Attaché culturel à New York, puis en mission en Inde et au Pakistan pour l'Unesco, il fut nommé en 1950 à l’Ecole pratique des hautes études avec l’appui de Dumézil".

CHRISTINE GERAGHTY EM PORTUGAL


No próximo dia 12, pelas 18:30, Christine Geraghty dará uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa (Faculdade de Ciências Humanas, sala 121), com o título Soap Operas and Television Studies (As Telenovelas e os Estudos Televisivos).

Christine Geraghty é professora de Estudos Fílmicos e Televisivos da Universidade de Glasgow [imagem retirada do sítio da
Universidade de Glasgow]. Os seus interesses são ficção televisiva e cinematográfica (em especial as adaptações de romances e peças ao ecrã), cinema inglês desde 1939, teoria da televisão, géneros ficcionais, audiências, estrelas de cinema e estudos culturais. É editora do Journal of British Cinema and Television e membro do conselho editorial das publicações Screen, International Journal of Media and Cultural Politics, Art, Design and Communication in Higher Education e Critical Studies in Television. Dirige a Media, Communications and Cultural Studies Association. Para saber mais dela, clicar aqui.

Embora a conferência se integre no mestrado de Ciências da Comunicação da Universidade Católica, ela está aberta ao público interessado.