terça-feira, 31 de março de 2015

O Primeiro de Janeiro e a prisão de Álvaro Cunhal em anúncio de classificados (30 de Março de 1949)

Em 1949, três militantes do Partido Comunista Português eram presos: Álvaro Cunhal, o seu secretário-geral, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira. Gonçalo Pereira recupera a história no seu blogue ecosferaportuguesa:

"quatro pessoas no Café A Brasileira, da Rua Sá da Bandeira, ponderam as suas opções. Virgínia Moura, Lobão Vital, Manuel de Azevedo e Osvaldo Santos Silva temem que, se o silêncio prevalecer, os detidos possam ser espancados até à morte. Receando os ouvidos indiscretos, saem do café e caminham até à Menina Nua, a estátua da Juventude, de Henrique Moreira, discutindo «várias hipóteses mais ou menos impraticáveis». Acabam por concluir, como n’O Escaravelho de Ouro de Edgar Allan Poe (1843), que o melhor sistema é uma mensagem à vista de todos num jornal que todos leiam: O Janeiro. Redigem por isso uma mensagem que, do ponto de vista da encriptação, possa ter dupla valência: por um lado, não desperte o alerta dos empregados do jornal que processam os classificados; por outro, que possa ser descodificada após publicação. Escrevem então um anúncio de 8 centímetros por cinco: «Álvaro Cunhal Duarte Advogado (Rua do Heroísmo) Vem por este meio agradecer a todos os seus Amigos os cuidados manifestados pelo seu estado de saúde, na impossibilidade de o fazer pessoalmente»". Duarte era o nome porque Cunhal era conhecido na clandestinidade e a sede portuense da PIDE (hoje museu militar) funcionava na rua do Heroísmo, mesmo junto ao cemitério do Prado do Repouso.


No mesmo texto, Gonçalo Pereira escreve: "O Primeiro de Janeiro, alma da cidade, orgulho dos homens de letras do Porto e paixão contínua da vida de Manuel Pinto de Azevedo Júnior (1905-1978). Pinto de Azevedo herdou o jornal do pai, que o comprara com outros sócios em 1919. Ao contrário do pai, porém, o seu coração pulsa sobretudo com as vicissitudes do Janeiro. Até final da década, viverá a dois passos da redacção, no n.º 326. Toda a sua vida concentra-se naquele quarteirão. Nem os negócios da vinha, nem as fábricas alguma vez o motivaram. É o jornal que o faz mexer e assim será até à sua morte. Inova e moderniza o jornal: O Primeiro de Janeiro é a primeira redacção do país onde se escreve à máquina ao invés da caneta e tinteiro que fazem escola nas restantes. Experimenta novas soluções, abre o jornal à cultura: em 1946, foi composta uma marcha sobre o jornal por António João de Brito e desde o ano anterior que os mais importantes pintores do país expõem no piso térreo do edifício do jornal (Pequena História de um Grande Jornal, 1948). Generoso e dedicado, marca os jornalistas que com ele convivem. Nuno Rocha, que teve n’O Primeiro de Janeiro a sua primeira grande experiência jornalística, lembra «o bravo lutador antifascista» nas suas Memórias de um Ano de Revolução, contando que, quando foi a Paris pela primeira vez, o director do jornal despediu-se dele e meteu-lhe no bolso, comovido, dois mil escudos para ajudar às despesas".

Gonçalo Pereira é director da edição portuguesa da National Geographic, autor de A Quercus nas Notícias (Porto Editora) e tem o doutoramento em Sociologia pelo ISCTE.

A nova vida do lançamento de discos

O artigo assinado por Vítor Belanciano no Público de hoje, sobre a planificação da edição de discos, merece ser lido com reflexão. Segundo o jornalista, mais "do que planificar com antecedência o lançamento de discos, o que as editoras e artistas fazem hoje é reagir aos acontecimentos, principalmente quando eles vão parar à internet ilegalmente".

Dantes, cada editora preparava com pormenor o lançamento de um disco. A internet interrompeu esse modelo. Agora, como aconteceu recentemente com discos de Madonna e Björk, a edição digital pirateada antecedeu a edição legal. E os Blur revelaram a semana passada no Youtube as canções de disco a lançar no final de Abril. Conclui o jornalista que, mais do que o lançamento do disco, o que agora desperta a atenção é o modo como o disco surge no mercado. À estratégia planificada sucedem condições não previstas antes por músicos e editoras, uma espécie de caos lançado por ataques informáticos - que actuam noutras áreas como a política (CIA, Casa Branca) e o cinema (Sony Pictures).

segunda-feira, 30 de março de 2015

Armando Ferreira (1893-1968) e a cultura

Armando Ferreira foi alguém com uma carreira curiosa. Com o curso do Instituto Superior Técnico, ele empregou-se na APT (Anglo-Portuguese Telephone), mais conhecida como Companhia dos Telefones, com actividade nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, e uma das antecessoras da Portugal Telecom. Na APT, ele foi responsável pela publicação de folhetos de relações públicas e promoção de serviços e por campanhas de comunicação de que resultariam cartazes assinados por nomes como Carlos Botelho, de 1930, reproduzido a seguir.

Logo após a conclusão do curso universitário, entrou para o jornal A Capital, onde chegou a chefe de redacção. A crítica literária, teatral e de espectáculos foi um meio onde se expressou abundantemente, naquele jornal mas também no Notícias Ilustrado, no Jornal do Comércio e no Diário Popular, aqui durante 21 anos (os recortes de notícias abaixo inseridos pertencem ao Diário Popular, de 3 e 4 de Dezembro de 1968). Alguns trabalhos humorísticos dele seriam Lisboa sem Camisa, O Casamento de Fifi Antunes, O Baile dos Bastinhos, O Galão de Alcântara, Amor de Perdigão, A Família Piranga e A Baratinha Loira. No seu obituário, nas peças noticiosas aqui impressas, indica-se que os textos dele alcançariam tiragens elevadas para o nosso mercado durante a década de 1940. A colaboração de Armando Ferreira estendeu-se ainda pelos júris dos concurso de peças de teatro patrocinado pelo SNI. Foi sócio fundador da Sociedade de Autores e Compositores Portugueses.


domingo, 29 de março de 2015

Vão os Gato Fedorento desaparecer?


O texto vem hoje no Diário de Notícias, assinado por Carla Bernardino. Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis formam o quarteto humorístico Gato Fedorento. Embora não haja separação oficial, não se sabe o que o grupo fará no futuro, disse Digo Quintela, empresário de Padaria Portuguesa. Mas Ricardo Araújo Pereira vai regressar sozinho à TVI na altura das eleições legislativas para o final deste ano, embora não seja em programa semelhante ao Esmiuçar os Sufrágios (SIC, Setembro de 2009), que atingiu uma média de 1,3 milhões de espectadores por sessão. No terreno da publicidade, o grupo terá chegado ao fim, pois Ricardo Araújo Pereira está sozinho na campanha da Meo.

Imagens

Não seu como hei-de chamar às imagens. Talvez mercado de sabores e parece que é um teatrinho.


sábado, 28 de março de 2015

Conduta jornalística nas redes sociais

Vêm aí regras para os jornalistas nas redes sociais, lê-se no Expresso: "Diário de Notícias, Expresso, SIC e TVI discutem os primeiros códigos de conduta para regular a actividade dos seus jornalistas nas redes sociais. RTP vai debater o tema. Polémicas e confusões entre os planos pessoal e profissional aceleram debate sobre ética jornalística".

sexta-feira, 27 de março de 2015

Laços de família

São quatro gerações da mesma família em exposição: Menez (1926-1995), Ruy Leitão (1949-1976), Joana Leitão Salvador e Madalena Leitão (desta não tenho imagem). Em exposição no Centro de Arte Manuel de Brito (Palácio Anjos, Algés).



quinta-feira, 26 de março de 2015

Música no Coração

O Diário Popular, de 2 de Setembro de 1968, publicava este anúncio sobre o filme Música no Coração, então em 58ª e última semana em exibição no cinema Tivoli, em Lisboa. 700 mil espectadores tinham já passado pela sala.

Não sei se houve algum filme com maior extensão em termos de tempo de exibição contínua. Certamente hoje não seria possível, até porque os gostos mudaram e existem diversas plataformas para ver filmes.

Na mesma semana, os milionários Schlumberger e Patiño davam festas espectaculares, onde estariam muitas figuras da aristocracia mundial, estrelas de cinema americano e gente do jet-set de então, divididos entre o Estoril e Azeitão, com crónicas de página inteira escritas por Vera Lagoa e Nuno Rocha (este disfarçado de engenheiro com a responsabilidade da electricidade, aproveitando os momentos disponíveis para fazer fotografias com uma pequeníssima máquina). Salazar adoecia e era, pouco depois, a 26 de Setembro, substituído por Caetano na chefia do governo.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Diploma sobre propriedade dos media

Lisboa, 25 mar (Lusa) - "O jurista Paulo Câmara disse hoje à Lusa que o diploma relativo aos donos dos media é «bem direccionado», mas «deveria ir mais longe» e cobrir todos os casos de titularidade e impor um relatório de corporate governance. Paulo Câmara, que é professor da Faculdade de Direito de Lisboa, da Universidade Católica e da Universidade Nova de Lisboa, foi hoje ouvido na comissão parlamentar para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, no âmbito do requerimento apresentado pelo PSD e CDS/PP sobre a discussão do projecto de lei da iniciativa do PS que regula a promoção da transparência e da gestão dos media. «Eu acho que é um diploma bem direccionado na medida em que o reforço da transparência sobre a titularidade e a gestão das empresas de comunicação social serve a opinião pública, a sociedade civil e também as próprias empresas e o ambiente de governo societário geral, no entanto o diploma deveria ir mais longe, sobretudo, fundamentalmente, em três aspectos», afirmou à Lusa Paulo Câmara, no final da sua audição parlamentar". 12:39 Quarta feira, 25 de Março de 2015

Dia Mundial do Teatro 2015 (27 de Março)

"Na sua infinita diversidade, o Teatro de Arte faz parte do património vivo através das novas dramaturgias e das traduções dos clássicos que vêm enriquecer a nossa língua em movimento, a verdadeira moeda de troca entre cidadãos, entre povos, entre culturas – no caso do Português, por esse mundo fora e a crescer. Urge fazer circular o nosso teatro, confrontando-o com outros públicos, abrindo espaço no mapa-mundo do saber" (da mensagem de Nuno Carinhas para o Dia Mundial do Teatro).

Festa do jazz em Lisboa

A Festa do Jazz, agora na 13ª edição, está de volta ao São Luís com três dias de concertos, de 27 a 29 de Março. Pedro Branco Trio, Lina Nyberg Band, Orquestra de Jazz do Hot Club de Portugal, Pablo Lapidusas e Joel Silva, André Santos, Gileno Santana, Maria João, Ensemble Super Moderne, Demian Cabaud Trio com Leo Genovese e Jeff Williams, Combo da Escola de Jazz do HCP (2014), João Guimarães Octeto, Deux Maisons, Kaja Draksler, Desidério Lázaro, Afonso Pais e Rita Maria e André Matos Trio + Tony Malaby são os músicos e cantores que animarão os concertos.

terça-feira, 24 de março de 2015

A profissionalização de um blogue

Na aula de hoje, tivemos uma escritora profissional de blogues. Licenciada em ciências da comunicação e antiga jornalista especializada nas áreas da cultura, moda, beleza e consumo, começou a escrever o seu blogue nessas temáticas. Onze anos depois de o iniciar, tem mais de 50 milhões de visitas, 200 mil seguidores no Facebook e Instagram, parcerias rentáveis com marcas e um público alvo estimado de mulheres vivendo em Lisboa e Porto entre os 20 e os 45 anos. Já em 2008, uma editora convidara-a a escrever um livro em papel com os melhores textos publicados no blogue. A evolução do blogue levou-a a criar uma marca de produtos e a abrir uma loja com uma amiga e agora sócia.

Para a convidada na aula, as empresas descobriram os blogues como veículos de maior propagação que os meios de comunicação mais tradicionais. A escrita em blogues é mais directa que esses outros meios. O estilo da sua escrita oscila entre o humor e a ironia, com um lado de cronista social. No começo, escreveu também sobre colegas, ainda numa fase de anonimato. Depois, quando o seu primeiro livro saiu, ela publicitou o nome e, apesar de perder alguma originalidade inicial, continuou a crescer em número de visitantes e comentários, granjeando mais popularidade.

As perguntas da turma foram estimulantes. Porque não criou uma revista em papel, que papéis desempenha, onde trabalha, como trabalha, como se relaciona com as marcas e os leitores, é isenta ou parcial, o sucesso foi preparado ou foi acontecendo por acaso, vê-se a escrever no blogue até à reforma, como articula texto e imagem (fixa e em movimento), como separa a informação que lhe chega à caixa de correio.

Agora, o trabalho da turma vai ser enquadrar a actividade desta autora de blogue e livros com a de criadora de negócios numa área emergente das indústrias culturais e criativas.

domingo, 22 de março de 2015

Ucrânia em Lisboa


Hoje, começou a semana da Ucrânia na freguesia de Arroios (Lisboa). À missa celebrada por um padre ucraniano e um português, dentro do ritual bizantino, seguiu-se a apresentação do Coro Católico Ucraniano, dirigido pela Maestrina Ivanna Stasiv, com temas adaptados das obras do grande poeta ucraniano Taras Shevchenko (1814-1861). O vídeo mostra um desses temas.



Na semana agora iniciada, há exposições, música, dança, cinema, poesia, teatro e gastronomia. Destaque para o documentário Stronger than Arms, no dia 24 de Março, às 18:30, no auditório do liceu Camões. Em Portugal, vivem atualmente cerca de 40 mil ucranianos, dos quais dez mil na Grande Lisboa.


sábado, 21 de março de 2015

Calçada de Santana (Lisboa)



Luís de Camões faleceu em 10 de Junho de 1580 nesta casa da Calçada de Santana, no número 139. Amália Rodrigues nasceu na rua Martim Vaz, paralela aquela, no número 84-86, a 23 de Julho de 1920. O mais importante poeta e a mais importante fadista do país, ambos a descansar agora no Panteão Nacional. Tão perto viveram, tão perto estão.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Organizações não governamentais e media segundo Sónia Lamy

Em 2007, cruzámo-nos no mestrado dela enquanto arguente da sua dissertação (A presença da AMI nas notícias. O contributo da ONG no discurso sobre Direitos Humanos) (ler aqui). Agora (2015), foi a vez da prova de doutoramento (As fontes não governamentais nos media. As ONG enquanto fontes de informação). 

Em 2007, entre outras coisas, disse: "Trata-se de um capítulo bem construído e aquele em que aprendi mais [capítulo 1 – os direitos humanos e a sociedade]. Foca, nomeadamente, a consciência histórica dos conceitos relacionados a direitos humanos. […] Em Portugal, o sucesso de uma ONG é, simultaneamente: 1) resultado de organizações pequenas mas maleáveis e colocadas no terreno, desburocratizadas e não ligadas a fortes poderes identificados, 2) apoio do Estado (subsídios, participação em comissões, encomenda de estudos). Por outro lado, torna-se essencial uma classificação de ONG e a sua variada origem; por exemplo, a partir de movimentos sociais, grupos de pressão ou resultado de lóbingue. Uma ONG, ao formar-se, tem um ideal, uma causa. Qualquer causa é política. Há que distinguir causa política, no sentido nobre do envolvimento numa causa, e apoio a um campo partidário ou de grupo. [Depois], as ONG em geral sabem da importância do papel dos media e treinam e refinam a metodologia de abordagem aos media. Creio que a AMI [tema do seu trabalho] aprendeu nesse sentido. Qualquer pequena queixa de menor acompanhamento por parte dos media é, certamente, compreendida pela AMI (em especial a área de comunicação)".

Ontem, disse: "A tese está bem dividida em sete capítulos, indo dos temas em geral (jornalismo e ONG) para o seu cruzamento e temas em particular. Saliento o que escreve na p. 3 sobre a compreensão do processo de produção das notícias e o modo com se constrói a agenda e se reflete a realidade. Igual impressão positiva sobre a análise das notícias com vozes não-governamentais tais como ambiente, exclusão social e violação de direitos humanos (p. 152). Destaco igualmente o número de entrevistas feitas (17), como indica na p. 139, valor apreciável. A caracterização que decorre nas pp. 139-145 é clara e sucinta, que saúdo. Gosto ainda das regras para a comunicação das ONG e para a maior pluralidade nas notícias no final do texto".

 

Da esquerda para a direita: Francisco Rui Cádima, Cristina Ponte, Rogério Santos, Carla Cerqueira, Sónia Lamy, António Granado e Vasco Ribeiro (fotografia: Pedro Pereira Neto).

quinta-feira, 19 de março de 2015

Música moderna em 1968

O concurso de música moderna teve momentos de apuro. No dia 19 de Abril de 1968, promovido pelo CITU, no cinema Império, em Lisboa, agora transformado em sala de confissão religiosa, deviam apresentar-se quatro bandas. Faltaram duas. Das outras, os membros de uma vestiam smoking preto e ostentavam grandes cabeleiras, com "aplausos habituais, os gritos da praxe, os saltos no ar", e os da outra "casacas orientais (vermelhas e amarelas, com muitas fantasias), cantavam e tocavam os últimos ritmos ié-ié, mais à la page" (Diário Popular, 20 de Abril de 1968). O júri, constituído por locutores e gente ligada ao mundo dos espectáculos, classificou as bandas, mas a assistência não gostou. A segunda parte do espectáculo já não se realizaria. A banda Psycho ganhou o concurso a 17 de Maio de 1968, com direito a fotografia no Diário Popular (18 de Maio de 1968).

Nesse ano, Salazar teve um AVC, longo abalo no Estado Novo e cujo regime entraria num longo estertor. Nos Estados Unidos, o pastor Martin Luther King e o senador democrata Robert Kennedy eram assassinados, a França vivia uma revolução social e cultural, que ficou com a designação de Maio de 68, a guerra no Vietname chegava a um ponto sem retorno para as tropas americanas e a Checoslováquia era invadida pelos tanques russos, acabando a primavera de Praga. Com uma frequência assustadora, o Diário Popular publicava fotografias de soldados portugueses mortos nas guerras coloniais (Moçambique, Guiné). Em Lisboa, a juventude alienava-se com o festival ié-ié.

 

quarta-feira, 18 de março de 2015

FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo -Programação Beja


Em 2014, a companhia de teatro Lendias d’Encantar fez a primeira edição do FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo, com cerca de meia centena de artistas portugueses, uruguaios, colombianos, espanhóis, brasileiros e cubanos, em trinta espectáculos de teatro e de música em Beja e Évora. Em 2015, a programação do FITA estende-se durante todo o mês de Março (4 a 28). Além de Beja e Évora, a programação chega ainda a Portalegre. Ver a programação restante do festival aqui.

Audiências de rádio (Fevereiro de 2015)

De acordo com os resultados divulgados pela Marktest (estudo Bareme Rádio) relativos à primeira vaga de 2015 (Fevereiro), a Rádio Comercial (grupo Media Capital Rádios) obteve um reach semanal de 32,6%, audiência acumulada de véspera de 16,2% e share de audiência de 23,6%. Seguiram-se a RFM (grupo r/com), com reach semanal de 31,8%, audiência acumulada de véspera de 15,3% e share de audiência de 21,3%, e a Rádio Renascença com reach semanal de 15,3%, audiência acumulada de véspera de 6,6% e share de audiência de 8,0%. Por grupos de estações, o grupo r/com assegurou 34,3% de share de audiência, com um reach semanal de 48,0% e 24,7% de audiência acumulada de véspera.

terça-feira, 17 de março de 2015

Apresentação do livro sobre protocolo empresarial


Isabel Amaral, especialista em questões de imagem, comunicação e protocolo, presidente da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo (APOREP) (à esquerda), apresentou hoje o livro de Cristina Fernandes (à direita), com o título Manual de Protocolo Empresarial, uma edição da Universidade Católica Editora. A diretora da editora, Anabela Antunes (ao centro), apresentou Isabel Amaral e a autora.

Diretores da RTP

A nova administração da RTP escolheu Paulo Dentinho para diretor de informação da televisão, Daniel Deusdado (produtora Farol de Ideias) para diretor de programas da RTP1, RTP Informação e Internacional, Teresa Paixão para diretora da RTP2, Gonçalo Madaíl para a RTP Memória, José Arantes para a RTP África, João Paulo Baltazar (ex-TSF) para diretor de informação da rádio, Rui Pêgo que mantém a direção da Antena 1, Antena 2, RDP África e RDP Internacional, e Nuno Reis para a direção da Antena 3. Mantêm-se ainda os diretores da RTP e RDP Açores, Maria do Carmo Figueiredo, e da RTP e RDP Madeira, Martim Santos.

12 anos do blogue Indústrias Culturais

Foi a 17 de Março de 2003 que iniciei este espaço. Para trás, ficam 8070 mensagens publicadas! Muito obrigado a quem me tem lido.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Curto apontamento sobre a escrita de um guião

Hoje, na aula de Indústrias Culturais e Criativas, esteve presente como convidado um produtor de conteúdos televisivos, em especial telenovelas. Ele falou sobre escrita para televisão e guiões. Um guião não é um processo literário mas visual, uma história contada em imagens, diálogos e descrição de uma estrutura dramática dentro de um contexto. O autor do guião já se transformou, nos Estados Unidos, em alguém de importância crescente na indústria cultural da televisão, enquanto na Europa ainda se fala do estatuto do realizador.

Nas indústrias culturais, existe um triângulo: autor, público, crítica. Com frequência, despreza-se o público. mas também se olha a televisão como mau produto cultural, incluindo a novela. O reconhecimento pela novela portuguesa, a nível de prémios internacionais, como o Grammy, indica que tem qualidade enquanto artefacto. Uma novela conta uma história, que pode ser iniciática, de catarse, e que lembra mitos e elementos da relação humana desde sempre. Assim, um guião significa uma história dentro de um contexto, enquanto organização linear de incidentes, episódios e eventos relacionados, com associação de conflitos internos e externos e escolhas. O desenho clássico de um guião que a indústria audiovisual desenvolveu é composto por tempo linear, um protagonista rapidamente identificado, uma realidade coerente, um final fechado e causalidade.

Como conclusão, não se deve esquecer que escrever um guião significa conhecer a audiência e que a arte da escrita reside na capacidade de provocar pensamento e sentimentos nos espectadores.

3.ª edição do Fronteira — Festival Literário de Castelo Branco


















O Festival Literário de Castelo Branco, em 10 e 11 de abril e 4 de maio, agora em terceira edição, toma o nome de Fronteira. Alguns dos autores presentes irão a escolas do concelho, no sentido de criar novos públicos. Entre os autores, destaque para Bruno Vieira Amaral, Francisco José Viegas, o músico João Afonso, João de Melo, João Tordo, José Manuel Fajardo, Valério Romão e Valter Hugo Mãe.

domingo, 15 de março de 2015

Memórias, por Joana Craveiro

"O «Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas» é uma criação de Joana Craveiro, constituída por sete palestras performativas que reconstituem e analisam um mosaico de memórias da Ditadura portuguesa, Revolução e Processo Revolucionário em Curso, ao mesmo tempo que interrogando e desconstruindo algumas das narrativas oficiais sobres estes períodos ainda hoje em circulação. Construído a partir de uma abrangente recolha de testemunhos, bem como da angariação de arquivos privados, cruzados com a história pessoal de Joana Craveiro, o «Museu Vivo» é um projecto que questiona as formas de produção da história e da memória e a sua transmissão" (informação da organização).

Dia 20 de Março, às 15:30, na Universidade Nova de Lisboa, integrada na "Oficina de História e Imagem (OHI) [...] um lugar de reflexão e debate entre criadores, investigadores e arquivistas de diferentes áreas do saber que se interessam pelo papel da imagem (fotografia, cinema, artes visuais) na mediação do passado" (http://oficinahistoriaima.wix.com/historiaeimagem).

sábado, 14 de março de 2015

Ourivesaria Aliança

Desde novembro de 2014, na rua das Flores (Porto), a servir chás e scones. Quando chegar o calor, talvez granizados ou sorvetes. O edifício é de 1906, com interiores a anteciparem a art déco, e já serviu para vender joias e roupa (casa Moura Fernandes).


sexta-feira, 13 de março de 2015

O Fim das Possibilidades

Jean-Pierre Sarrazac, que foi reescrevendo a peça com o título O Fim das Possibilidades desde 2014, estreou-a hoje, no Porto, a nível mundial. De início, Deus (Ivo Alexandre) e Satã ou o Adversário (Fernando Mora Ramos) discutem os problemas da humanidade. O desemprego, os sem papéis (imigrantes clandestinos) e os sem abrigo - os novos "danados da terra" - têm aumentado de número, baixando a esperança entre os homens, a que sobrevém o suicídio. Satã, qual funcionário superior de Deus numa empresa corporativa, propõe uma alternativa, semelhante à da publicidade de habitações e férias de sonho.

A personagem principal da peça é JB (Paulo Calatré) - que pode ser o Job bíblico ou João Baptista, aquele que anuncia o Messias, ou a marca de uísque com o mesmo nome. JB não é um indivíduo mas a multidão que sofre os problemas modernos do desemprego, da desqualificação tecnológica, da reciclado ou do descartável, perde o lar, a família e os filhos já não acreditam no pai.  Os sem rosto podem também ser irmãos ou irmãs de JB e contam as suas histórias e embarcam para um mundo subterrâneo e sem luz (onde se desce mas nunca se volta a subir à superfície), espécie de nova transumância humana. Os sem rosto lembram o velho coro da tragédia grega, implicitamente associada à atual condição política de contestação do governo grego de Tsipras.

JB, um vencido com orgulho de vencedor, inicia o seu percurso miserável quando tem um pesadelo durante a noite e acorda a mulher Gladys (Joana Carvalho). Depois, começa a embriagar-se enquanto conta ao seu amigo Mamadou (Alberto Magassela) que tem um chefe Pitbull que o exaspera com dificuldades diárias. Mamadou, trabalhador africano sem papéis, acaba por ser denunciado porque protegeu uma larápia (Maria Quintelas) que roubou para dar comida ao filho. JB decidiu suicidar-se e entra no inferno clamando contra Satã. Este, que fizera um acordo com Deus para evitar o desespero final, o suicídio, sentiu-se derrotado, o que confessa a Deus, pessoal ou através de telemóvel de última geração. Deus diria: "Deixar que Job se tenha enforcado não é apenas uma falta, é um crime, um falhanço". JB versus Satão ou o Adversário é, nas palavras do autor Sarrazac, uma tensão permanente entre o mais mítico e o mais quotidiano. JB anteciparia o fim das possibilidades, isto é, atuara de modo não previstos pelo demiurgo.

Em texto de Pedro Sobrado, os sem rosto que se apresentam diante de Satã são memórias distantes do Job bíblico: o que espera uma reparação, o que manifesta uma obsessão por buracos e lugares escuros, o que ecoa os lamentos da personagem bíblica, o impaciente, o que transporta a versão benigna do nazismo (serões recreativos, excursões, saídas em grupo, festas).

O Fim das Possibilidades - que resultou do esforço conjunto do Teatro Nacional de São João (Porto) e do Teatro da Rainha (Caldas da Rainha), com encenação partilhada por ambos os diretores artísticos (Nuno Carinhas e Fernando Mora Ramos) - é a extensão da desesperança. O "fim das possibilidades" é, ainda para Sarrazac, a deportação dos mais desfavorecidos da América Latina, uma parábola e ainda um palimpsesto, com memórias de outras peças do autor, mas também do expressionismo, de Kafka, de Woyzeck ou de Strindberg. A cenografia e os figurinos, de Nuno Carinhas, dão uma dimensão mais profunda, a que se associam sons de fábrica e de delírio coletivo.

Depois do Porto, a peça será representada em Lisboa e Caldas da Rainha. Duas conversas sobre a peça estão marcadas: Porto no dia 21 de março e Lisboa no dia 11 de abril.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Estuário do Sado


Do barco abandonado, recupero mentalmente os seus remos, dois poderosos braços que percorriam o rio e eram a base de sustentação do pescador na busca de peixe ou marisco. E lembrei-me de um senhor de 81 anos, nascido em Portalegre e que sempre trabalhou na construção civil. Ele esteve em Caminha, trabalhou na altura de um terramoto em ilhas dos Açores, vivia em Queluz e calcorreava Lisboa. Ali, na rua de Entrecampos, ele lembrava-se do tempo em que ainda não havia os prédios actuais mas moradias (burguesas, acrescento eu), e rebanhos de carneiros que pastavam no Campo Grande. Nos últimos cinco anos, vive com uma filha em Madrid. Ele viera a Lisboa tratar de um assunto na Segurança Social. Sem ter dormido durante a viagem, voltaria a casa no mesmo dia.

Lembrei-me dele, porque, ainda rijo mentalmente, trazia duas muletas de apoio ao andar. O equivalente aos remos do barco Dilar Espada.


terça-feira, 10 de março de 2015

Mais elementos sobre as indústrias criativas

Hoje, a aula andou à volta da instituições, propriedade e empreendedorismo, a partir do texto de Davies e Sigthorsson (Introducing Creative Industries, 2013). Os autores partem de três tipos de estrutura organizacional: freelancers, PME e grandes empresas. Uma tendência empresarial resultado das transformações sociais e económicas da década de 1980 foi a desregulação, a desarticulação de empresas organizadas verticalmente, com subcontratação (outsourcing), e a abertura de mercados internacionais (globalização).

Os autores identificam outra tendência - o empreendedorismo - articulada com uma ecologia especial, composta de grandes empresas e um número maior de freelancers. Tal leva à discussão sobre prós e contras do trabalho flexível. Por um lado, há mais liberdade de participar em projectos que se gosta mais; por outro lado, a concorrência e a precariedade conduzem a um permanente desgaste psicológico do desemprego, a pagamentos mais baixos e a mais horas de trabalho.

Um outro elemento destacado no texto de Davies e Sigthorsson é o ligado aos locais de trabalho das indústrias criativas (do lar ao estúdio, à garagem e ao palco), com contactos face a face mais privilegiados que os contactos via internet, estruturas de trabalho (pequenas empresas e trabalhadores criativos independentes) e padrões de trabalho, no que eu também chamo cadeia de valor ou cadeia de produção (investigação da ideia e pré-produção, produção e pós-produção). Davies e Sigthorsson aconselham a que o trabalhador criativo trabalhe a sua trajectória da carreira e o seu portefólio. Finalmente, o texto traça perspectivas nacionais e internacionais do mercado das indústrias criativas.

A análise teórica completou a apresentação prática de ontem. A artista convidada, trabalhando áreas distintas como a fotografia, o vídeo, os cartazes de cinema e o teatro, defendeu duas ideias centrais: processo criativo (em que o tema vai evoluindo da concepção à realização final) e pensamento estratégico (do trabalho criativo compulsivo à criação do portefólio).

segunda-feira, 9 de março de 2015

London Culture Industry Now!

The first in a series of three lectures and debates on the changing share of the culture industry in London, hosted by the MA Culture Industry, Centre for Cultural Studies, Goldsmiths. 'Creative Capital? (Mis)understanding the Culture Industry'. A talk by Robert Hewison. Ever since Charles Landry and Franco Bianchini published The Creative City in 1995 and Richard Florida described The Rise of the Creative Class in 2002, “creativity” has been seen as the secret elixir of the contemporary city, and the driver of the modern economy. Official statistics claim that the “creative industries” employ around 6 per cent of the UK work force, and account for just over 5 per cent of the UK economy. But what are the “creative industries”, and how creative are they? And why is it that ever since they were officially recognized in 1997, the concept of the creative industries has had to have two further oficial re-launches? Robert Hewison, author of Cultural Capital: The Rise and Fall of Creative Britain argues that the connection between “creativity” and “industry” is still not understood. Robert Hewison is an independent writer, curator, journalist and cultural consultant. He has published more than twenty books in the field of 19th and 20th century British cultural history. An authority on John Ruskin, hê has held chairs at Oxford, Lancaster and City Universities, and is na Associate of the think tank Demos. He has written on the arts for the Sunday Times since 1981. His latest book, on the cultural policies and politics in Britain, 1997-2012, Cultural Capital: The Rise and Fall of Creative Britain, is published by Verso. Event Information Location: 309, Richard Hoggart Building Cost: Free, all welcome Website: About the MA in Culture Industry Department: Centre For Cultural Studies Time: 11 March 2015, 17:00 - 19:00 http://www.gold.ac.uk/cultural-studies/calendar/?id=8292

domingo, 8 de março de 2015

Yvone Kane

Após a morte da filha, Rita Moreira voltou ao país africano onde viveu a sua infância. Ela reencontraria a mãe, Sara, médica, que não abandonara o país após a sua independência. O raccord entre a morte da filha de Rita e o seu regresso a África é muito subtil, quase imperceptível, do mesmo modo que a sua motivação para a investigação do assassinato da antiga guerrilheira e activista política Yvone Kane não aparece bem esclarecida. Isto enquanto a mãe, a morrer de cancro, procura saber o que se passa com Jaime, o adolescente que ela adoptara e passava por um período não controlado de afirmação pessoal.

Neste cruzamento de histórias, encontro uma mesma razão: explicar o fracasso das relações raciais na pós-independência colonial. Há sinais que nos levam a Moçambique, onde o filme foi parcialmente filmado, como os volantes dos automóveis à direita, mas a história da morte da antiga guerrilheira remete-nos para a vida de Sita Valles e Angola. Sita Valles era militante do Partido Comunista Português e foi presa na sequência de uma tentativa de golpe de Estado em Maio de 1977, sendo assassinada em agosto na prisão de Luanda.

Se o passado agora em revisão era violento, como mostram os edifícios em ruínas (missão onde Sara ainda trabalha, hotel no litoral onde Rita espera o contacto para saber mais informação sobre a morte de Yvone), o presente é igualmente violento. A relação racial ainda se ressente desse passado colonial, e de modo muito evidente.

No texto de promoção do filme escreve-se sobre cicatrizes da História e dos fantasmas da guerra, em que não é possível a redenção e o esquecimento. Eu prefiro destacar a qualidade da fotografia, os momentos de alguma ação com outros momentos em que o tempo parece parado, na inexorável fixação da vida e da incapacidade humana de contrariar os dias e as reações dos outros seres humanos.

Escrevi aqui não muito bem sobre outro filme de Margarida Cardoso com a mesma atriz Beatriz Batarda (A Costa dos Murmúrios, em 3 de Dezembro de 2004), onde se pode ler: “Para mim, há má condução de actores e actrizes. Beatriz Batarda parece que soletra as palavras, como se aprendesse a língua ou corrigisse a pronúncia. E a história até é interessante, o elenco bom, mas com um ritmo lento”. Mas este representa, na minha leitura, um filme bem mais maduro. Embora não exista igualmente esperança, no outro filme havia a futilidade e o vazio de uma mulher bonita levada para a guerra por ser casada com um oficial, agora há a procura de compreender o passado.

Realização de Margarida Cardoso (2014), elenco com Irene Ravache, Beatriz Batarda, Gonçalo Waddington, Mina Andala e Samuel Malumbe, fotografia de João Ribeiro, países filmados Portugal, Brasil e Moçambique.