quinta-feira, 30 de abril de 2015

Videojogos

"Tratar da indústria de games [videojogos] é comprometer-se com a busca pelo entendimento do que hoje pode ser considerado o mercado de produção de conteúdo para entretenimento mais dinâmico, multifacetado e com expressivo potencial de crescimento e desenvolvimento. Mais que uma indústria especializada, dentro deste único mercado coexistem e se relacionam, de forma integrada, diversos “ecossistemas”, determinados não só pelo conteúdo, mas também pelo formato como estes games são produzidos e disponibilizados para o mercado consumidor", assim começa o artigo de Carolina Clemente Bassin para a Cultura e Mercado, com data de 27 de Abril de 2015. A ler o texto na totalidade.

O Diário de Notícias no tempo em que esteve na rua dos Calafates

O livro de Pedro Foyos, O "Grande Jornalzinho" da Rua dos Calafates, revela-nos o Diário de Notícias nos primeiros anos de edição. Ou, escrevendo melhor, conta a história deste velho e importante jornal enquanto esteve instalado na rua dos Calafates agora chamada do Diário de Notícias antes de se mudar para a avenida da Liberdade perto da praça do Marquês de Pombal, aqui em Lisboa (de 1864 a 1940).

Lê-se o livro de uma só vez. Muito bem escrito e debruçando-se sobre as pessoas que fizeram o jornal, os temas, as histórias à volta do jornal. Eu gosto deste tipo de livros que, parecendo menores ou despretensiosos, dão uma imagem nítida e profunda da realidade que tratam. Começo pelo índice, uma originalidade cheia de riqueza, em que há títulos de capítulo com os nomes de "Tudo sobre o país e o mundo por metade do preço do sabão-de-macaco", "Que fazer quando o rei é assassinado «em cima» da primeira página já fechada" ou "Do «Notícias Ilustrado» para os graúdos ao «Cavaleiro Andante» para os miúdos".

Pego no exemplo do capítulo sobre o assassínio do rei D. Carlos I (1 de Fevereiro de 1908). Quando chegou a notícia ao jornal, a primeira página já estava composta. Refazer a página estava fora de questão, pois isso atrasaria a saída do jornal. As tecnologias da época não permitiam voltar rapidamente a fazer tudo de novo, o que nos causa espanto hoje. A inclusão de um suplemento também não se ofereceu viável. Restou a hipótese de deslocar para baixo o texto da página já composta e incluir uma nova entrada. Isso levou a que a parte final da página ficasse ceifada e a que a notícia do atentado ficasse mesmo por cima da secção de "Festas e diversões do dia" (p. 77).

Um grande mérito do livro, além da elegância do texto escrito, é a percepção perfeita do leitor que o autor leu a totalidade das edições do jornal Diário de Notícias ao longo do período estudado. Não há falhas, como quando identifica as edições sucessivas de um dia. À escrita, o livro junta um elemento gráfico essencial, a ilustração de páginas do jornal, fotografias, gravuras e reproduções de pinturas, que dão uma noção mais rigorosa do tempo a que o texto se refere. Por vezes, há páginas tipo extra-texto, onde Pedro Foyos destaca pedagogicamente alguns elementos, fora o capítulo "Pequenas e Grandes Notícias Perdidas no Tempo", com uma proposta de cronologia de histórias, anos de ocorrência de determinados factos e fotografias a eles alusivas. Evidencio ainda a colaboração, para o livro, de texto de Maria Augusta Silva, com uma possível entrevista ao primeiro director do jornal, Eduardo Coelho (chamada "póstuma"), recriação muito curiosa e que remete para a cultura da época do jornalista.

Na badana do livro, lê-se que Pedro Foyos trabalhou no Diário de Notícias, onde integrou a chefia de redacção. O seu amor ao jornal está reflectido no livro. A única pequena crítica que faço ao livro é ele não ter um mínimo de aparato académico, com indicações bibliográficas ou de páginas do jornal.

Leitura: Pedro Foyos (2014). O "Grande Jornalzinho" da Rua dos Calafates. Lisboa: Prelo, 149 páginas, 16,5 euros

quarta-feira, 29 de abril de 2015

10.000 já visitaram a exposição de Sebastião Salgado (Génesis) em Lisboa

Aberto ao público no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional desde dia 10 de Abril, Génesis, o mais recente trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, já foi visitado por 10 000 pessoas. O sucesso da exposição, com mais de 2,5 milhões de visitantes em todo o mundo, repete-se em Lisboa. Os visitantes não deixaram escapar a oportunidade de conhecer os últimos “ambientes intocados” do planeta, que Salgado fotografou durante oito anos e mais de 30 viagens. Génesis está patente no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, de segunda a domingo (incluindo feriados), até dia 2 de Agosto (a partir de informação da organização).

Festa do cinema

Nos dias 11, 12 e 13 de Maio, todas as 499 salas de cinema, cinematecas e auditórios em Portugal, perfazendo quase 94 mil lugares, vão cobrar bilhetes a 2,5 euros. É a primeira Festa do Cinema a realizar-se em Portugal (a partir do Diário de Notícias).

domingo, 26 de abril de 2015

Música

Quando Hitler subiu ao poder, os seus partidários baniram muita da música contemporânea alemã e austríaca, a que chamaram degenerada. Foi a essa música proibida que a Casa da Música (Porto) abriu as suas portas a partir do dia 24 de Abril: Hanns Eisler, Arnold Schoenberg, Kurt Weill e Bertolt Brecht, Paul Hindemith, Ernest Krenek e Erich Korngold, pelo Remiz Ensemble (dirigido por Baldur Bronnimann) e pela Orquestra Sinfónica da instituição (dirigida por Stefan Blunier), com a soprano Ângela Alves, o tenor Miguel Leitão, o barítono Luís Rendas Pereira e o baixo Ricardo Torres. O diferente dispositivo musical das peças tocadas obrigou a uma permanente alteração do conjunto dos músicos, aspecto que me chamou a atenção.

Já no Centro Cultural de Belém (Lisboa), os dias da música estão a ser dedicados ao cinema (Luzes, Câmara... Música). A música de Sergei Prokofiev encheu ontem à noite o grande auditório, em especial a escrita para o filme Alexandre Nevsky (de Sergei Eisenstein), com a Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por João Paulo Santos, a contralto ucraniana Larissa Savchenko e Coro do Teatro Nacional de São Carlos. O filme de Eisenstein (1938) teve muito sucesso, em especial por causa do sentimento anti-alemão e da música de Prokofiev, mas foi silenciado após o tratado entre União Soviética e a Alemanha.



sábado, 25 de abril de 2015

Museu da Imagem (Braga)


No Museu da Imagem em Braga está exposta uma coleção de fotografias do chileno Adolfo Vera. O texto disponível na exposição não nos diz claramente de que se trata a exposição, mas, pelo perfil do artista, percebe-se que as fotografias resultam de um período em que esteve no Benim (2006), numa residência de artista.

O título do museu é errado. Apesar de um belo edifício, com parte da antiga muralha da cidade e uma boa arquitetura interior, com recurso ao ferro, o artigo definido (contração com a preposição de) indica a entrada de qualquer imagem no museu e aguça o apetite para a inclusão de equipamentos dedicados à fotografia, ao cinema, à televisão e à internet. Afinal, parece que apenas permite exposições temporárias substituídas de mês e meio em mês e meio.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

António Pinto Ribeiro

Leio a partir do jornal Público que António Pinto Ribeiro deixa a Fundação Calouste Gulbenkian e o lugar de diretor do Programa Próximo Futuro, que termina a 15 de Setembro próximo. Para ele, a Gulbenkian precisa de inovar a sua oferta cultural, contemporânea e cosmopolita. Uma reviravolta, classifica o jornal. Ribeiro fora indicado, no início de Fevereiro, para assumir o cargo de coordenador de todos os serviços da casa com oferta artística.

Pinto Ribeiro entregou recentemente a sua tese de doutoramento. Será que a academia vai solicitar os seus préstimos a tempo inteiro?

NetStation 2015

Numa das sessões da manhã de hoje na conferência internacional NetStation 2015. Radio, Sound, and Internet, na Universidade do Minho. Pedro Portela e Fábio Ribeiro com a comunicação Serial: a importância da estética sonora na popularização de um podcast e Ana Sofia Andrade com o texto A voz do dia-a-dia e a voz profissional. Eu falei sobre Fernando Curado Ribeiro e o seu livro Rádio. Produção, Realização, Estética (1964). em especial os relacionados com a estética sonora e ligações com obras sobre rádio editadas na França pós-II Guerra Mundial e que influenciaram a sua escrita: Sudre, 1945; Thévenot, 1946; Cordier, 1950; Pradalié, 1951 [a última fotografia pertence à organização do evento].



quinta-feira, 23 de abril de 2015

A revolução no palácio do Bolhão (Porto)

O texto e a dramaturgia pertence a Zeferino Mota, a encenação é de João Paulo Costa. O piano tem Ernesto Coelho como seu executante e os atores são Ana Luísa Queirós, Beatriz Frutuoso, Miguel Lemos, Pedro Roquette, Rita Lagarto e Tiago Araújo. A Revolução. Dos que não Sabem Dizer Nós representa-se num redescoberto (e magnífico, ainda a cheirar a tinta nova) Palácio do Bolhão, mesmo perto do mercado com o mesmo nome (agora que se volta a falar na sua requalificação).

A peça fala das revoluções, numa época em que a política parece menos interessante. Texto entre recordações (da revolução francesa ao movimento anonymus, passando pelo maio de 1968 e pelo 25 de abril de 1974), música (como a de José Mário Branco e Victor Jara e a recolha de Fernando Lopes Graça) e music-hall. A peça fala dos descamisados, dos pobres, dos desempregados e dos (e)imigrantes. Por um momento, lembrei-me do primeiro-ministro britânico hoje na televisão a falar dos barcos de patrulha que o seu governo ia dispensar para patrulhamento do mar Mediterrâneo, a propósito dos naufrágios de barcos vindos da Líbia com gente fugida à guerra e que morre nesses abarrotados barcos.

Gostei bastante do desenho de luz (Cárin Geada) e dos figurinos (Lola Sousa). Peça alegre e ritmada mas a procurar despertar consciências. Sala cheia.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Jornalismo na (ou sobre a) Nigéria

"Jornalistas são pensadores natos de design. Jornalistas fazem perguntas e isso é o ponto central do design centrado no ser humano. Nós construímos a empatia com os nossos entrevistados, ouvindo suas histórias, conversando com eles e trabalhando ao lado deles; inserindo-nos em suas vidas, aprendemos os detalhes e os fatos não tão óbvios. Normalmente, nós ouvimos e observamos para que possamos melhor compreender a situação em que nossas fontes se encontram, permitindo que nossas histórias vão mais a fundo. Então, por que jornalistas não podem usar essas mesmas competências, esses mesmos poderes de observação, para saber quais são as necessidades dos nossos leitores quando se trata da notícia que recebem de nós? Podemos e cada vez mais conseguimos fazer isso. Nem sempre é fácil, porém. Cada público representa um desafio diferente. Impulsionar o seu envolvimento com a notícia --mesmo notícia realmente importante, como o trabalho em saúde tão necessário na Nigéria - é uma questão complicada" (Nuno Vargas).

Na sua mensagem colocada no Facebook,Nuno Vargas indicou, entre outros, o meu nome para apreciação do seu trabalho Usando pensamento de design para envolver o público em notícias de saúde. Ele resulta de um projecto de 9 meses na Nigéria agora terminado, em que ao jornalista importa conhecer o público profundamente de modo a que suas necessidades sejam reveladas. Um pormenor delicioso: dado um percurso profissional no Brasil, o autor usa termos como pauta (agenda) e usuários (utilizadores).

Um abraço ao Nuno!

Públicos da Gulbenkian (2006)

Em 2006, eu e o professor Pedro Magalhães produzimos dois textos sobre públicos de museus e de música da Fundação Calouste Gulbenkian. Alguns dos dados, os mais importantes, foram publicados no primeiro volume organizado pelo professor António Barreto dedicado aos 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian.

O ofício de retratar a realidade - entre jornalista e historiador

Foi tema de debate no ISCAC (Coimbra) e que o Diário As Beiras reproduz na sua edição de hoje.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Inquérito de imprensa cristã (2009)

Em 2009, foi lançado um inquérito às publicações ligadas à Associação de Imprensa Cristã, com desenho do inquérito, inserção de dados e interpretação de resultados trabalhado pelo CESOP (Centro de Sondagens e Opinião Pública), centro da Universidade Católica Portuguesa. Houve 997 respostas de inquéritos válidos para um total de 36 publicações (envio de 12325 inquéritos por correio, junto da publicação, com envelope franqueado para resposta).

 

domingo, 19 de abril de 2015

A Mentira nos Artistas Unidos

Com texto e encenação de João Pedro Mamede, a peça II - A Mentira assenta na trilogia de romances de Agota Kristof, com alguma repetição de temas, como se fossem novos ângulos a olhá-los. Ausente da cidade há muito tempo, um irmão procura o outro gémeo. Um apareceu, o outro desapareceu. O intelectual, a polícia secreta, a prostituta, a senhoria que aluga um quarto, a livraria, o padre. A peça mostra em excesso o explícito - o nu, a violência do (e sobre o) corpo, a linguagem cruel. Não gostei nada. Depois disto, o que se pode esperar mais dos actores?

sábado, 18 de abril de 2015

Sebastião Salgado



A chuva pareceu ameaçar a entrada na exposição, longa que estava a fila. Dentro, um deslumbramento fotográfico do brasileiro que expõe na Cordoaria Nacional. Movimento de massas, as suas imagens levam-nos a cinco grandes temas com paisagens do sul do planeta, África, santuários, terras do norte, Amazónia e Pantanal, mostrando a vida animal, tribos humanas em desaparecimento rápido e a natureza (floresta e rochas). Por vezes, os olhares são dramáticos, pungentes, mas igualmente magestáticos, vencedores, gregários ou individuais. Outras vezes, no caso das culturas humanas, há gestos, adornos e pinturas que nos espantam pela diversidade, riqueza e ostentação dentro do grupo. Iniciação, procura de alimento ou festa - eis o programa das 245 fotografias da exposição Génesis, de Sebastião Salgado. Subjacente, a sua carta de amor ao mundo, através do Instituto Terra, com um forte apelo à reflorestação e à paragem da devastação do planeta.

A fundação do Museu da Rádio pelo Rádio Clube Português

Em notícia do Diário Popular de 30 de Março de 1969. A estação aceitava receptores, válvulas electrónicas, bobinas, emissores, livros, discos, revistas e fotografias.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Aprovado plano de revitalização (PER) de editora da Impala

Retiro directamente a notícia do Expresso: a decisão permite à editora de revistas entre as quais Maria, Nova Gente e TV7Dias prosseguir a actividade, apesar do passivo de cerca de €50 milhões, substancialmente perdoado. A aprovação do PER foi viabilizada por cerca de 80% dos credores. Na base do PER solicitado pela DescobrirPress estiveram dívidas de €50,2 milhões acumulados pela empresa nos últimos anos, incluindo nos credores ex-funcionários, fornecedores, Autoridade Tributária, Segurança Social, entidades financeiras e personalidades como Luís Figo, Manuela Moura Guedes ou Sílvia Alberto. Entre 2005 e 2014, a média de vendas das principais revistas que a empresa ainda produz – Maria, TV7Dias, Nova Gente, Ana, VIP e Mulher Moderna na Cozinha – caiu mais de 280 mil exemplares por edição. Prevê-se ainda a redução de cerca de 15% do quadro de trabalhadores, dentro da estratégia de redução média de 30% da estrutura de custos da editora.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

No dia mundial da voz

Uma grande produtora independente da rádio antes de 1974 foi a Sonarte, que emitia relatos desportivos, nomeadamente futebol, ao domingo. Um dos seus programas-bandeira foi o programa da manhã, Onda do Optimismo, apresentado por Artur Agostinho (Rádio Clube Português). Além daquele locutor, o programa incluía elementos como Fernando Conde, Jacinto Grilo, Armando Grilo, Armando Mata e João Seco. Um deles, Fernando Conde recordou em entrevista dada a Luís Garlito (29 de Janeiro de 1992, Arquivo da RTP, AHD 14792:

"O Artur levava os discos, levava as fitas, fazia-se um grande programa. Foi um grande êxito. Depois, o Artur Agostinho foi proibido de falar ao microfone pela exclusividade da Emissora [por legislação nacional de 1954]. Entretanto, tínhamos mudado para outros estúdios, estúdios que tinham um certo rigor técnico e de qualidade. Já era gravado. Esteve uma equipa com o [Fernando] Pessa, com a Etelvina [Lopes de Almeida], muito tempo, o Henrique Mendes, e depois esteve a Maria Adalgisa [Costa], que foi uma novidade aparecer como locutora, ela que era uma cantora sobretudo de opereta, notável. [A Adalgisa] tinha uma voz linda e lia muito bem".



Grão de Arroz foi, depois, popularizado por Amália Rodrigues, de quem, aliás, era próxima, em especial numa altura em que as duas iam cantar com alguma frequência no Porto em programas de variedades. A cantora viveu um período da sua vida em Moçambique, regressando depois de 1974.

[fontes das imagens: Museu RTP e The Dela Goabay World]

Da História em Luís Reis Torgal

Luís Reis Torgal tem tido um percurso dedicado à História moderna e contemporânea, aqui com trabalhos sobre o Estado Novo e o cinema neste período, além da sua marca em centros de investigação e revistas. O novo livro, História. Que História? é uma espécie de balanço. Não se trata de um texto sobre teoria da história mas possui um conjunto de reflexões sobre historiadores, ensino, relação da história e do jornalismo, ideologia e participação cívica.

O título remete para outro, de Diogo Ramada Curto, que Torgal elogia chamando-lhe estrangeirado, mas onde se nota ainda uma crítica. Ramada Curto diz estar a historiografia portuguesa atrasada, Reis Torgal considera-a actual. Da discussão entre história circular e linear, o autor recupera e integra a longa genealogia dos historiadores portugueses desde o século XIX. As diferenças de pontos de vista são menores (de ofício, de olhar político) quando comparadas com a alegria da produção do historiador. Os comentários mais críticos vão para a presente visão governamental e para a ideia de jornalistas serem historiadores, confundindo a superficialidade e a procura de celebridades e espectáculos, no que designa de império de divulgação e opinião, e esquecendo que a história precisa de heurística e hermenêutica.

Um capítulo interessante deste novo livro é aquele sobre ideologia e memória. Quando há mudança de regime político ou até de uma simples alteração de partido no governo, existe a tentação de alterar a realidade e as imagens. As páginas dedicadas ao tema são deliciosas porque mostram essas pequenas ou grandes manipulações. Um exemplo apenas: depois de 1974, em Coimbra, a avenida Arantes e Oliveira, ministro de Salazar, deu origem à avenida general Humberto Delgado, oposicionista de Salazar.

O leitor espera sempre mais de uma obra, o que é uma exigência despropositada. A obra é aquela e não uma outra. Mas não deixo de sublinhar que em História. Que História? falta a discussão (ou tem muito pouco espaço) da História na pós-modernidade, com as suas múltiplas correntes - história social, história cultural, micro-história.

Luís Reis Torgal é professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Leitura: Luís Reis Torgal (2015). História. Que História? Lisboa: Temas e Debates / Círculo de Leitores, 221 p., 16,60 euros

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Product Placement e Soft Sponsoring

Em análise do panorama de product placement e soft sponsoring em Portugal, a MediaMonitor indica que são "inúmeros os estudos e artigos que nos dizem que estamos numa época de mudanças de hábitos de consumo de media, tanto na escolha de novos canais ou caminhos para ver conteúdos como nas próprias fontes de entretenimento. Esta alteração de hábitos terá maior reflexo em targets mais jovens. Ainda assim, a audiência dos canais de consumo tradicionais mantêm-se suficientemente interessantes para que as marcas continuem a investir fortemente nos media tradicionais e nas formas de publicidade mais comuns. Os tradicionais anúncios, e principalmente os de TV, continuam a atrair uma grande parte do investimento em comunicação. No panorama publicitário português, o meio Televisão continua a captar a maior fatia do investimento realizado. Por exemplo, de Janeiro a Dezembro 2014, este meio totalizou 6262616 milhares de euros a preço de tabela, o que representa um share de investimento relativamente a outros meios de quase 73%, isto de acordo com dados da MediaMonitor".
a continuar a

Continuando a seguir o texto da Marktest: "Apesar deste grande investimento, as marcas têm procurado soluções alternativas à publicidade tradicional, que passam cada vez mais frequentemente pela aposta em situações de product placement e soft sponsoring. É uma forma das marcas se manterem em TV, onde grande parte dos seus alvos permanece, e de continuarem associadas a programas de grande audiência. Esta forma de exposição da marca permite contornar o tradicional zapping durante os intervalos ao mesmo tempo que, de uma forma mais ou menos criativa, associa marcas a personagens e situações quotidianas retratadas nos programas de ficção".

Do mesmo texto: "Quem não se lembra, por exemplo, de ver personagens de novelas a manusear produtos de grandes marcas que todos conhecemos? Quem nunca reparou nas marcas dos prémios entregues em concursos e passatempos televisivos? Um exemplo é a marca Worten que apareceu em Dezembro na novela Mar Salgado da SIC no âmbito da campanha Código DáVinte ou a marca Compal na mesma novela, também em Dezembro ou ainda a marca Seat, no mesmo mês, na novela Jardins Proibidos da TVI. Estas associações mais ou menos subtis entre programas e marcas têm sido um fenómeno crescente pelo facto de proporcionarem um contexto em que os telespectadores estão talvez mais permeáveis para receber a mensagem publicitária transmitida. Do ponto de vista dos canais de televisão, directamente ou através das produtoras de conteúdos, esta é também uma fonte de rendimento complementar que lhes permite proporcionar exposição de marcas mantendo o tempo de publicidade dentro dos limites da lei".

Para continuar a ler o texto seguir em MediaMonitor.

terça-feira, 14 de abril de 2015

António Ferro em seminário

Hoje, na Sociedade de Geografia de Lisboa, decorreu o seminário António Ferro. 120 anos depois do seu nascimento, promovido por aquela sociedade e pela Fundação António Quadros. Não estive o dia todo, por razões profissionais, mas o que vi gostei, entre comunicações de grande erudição e outras sólidas, resultado de teses de mestrado e de doutoramento, em reunião que terá juntado mais de 80 pessoas. A sua biografia, António Ferro como jornalista, editor da revista Orpheu (a comemorar cem anos), política do espírito, Museu de Arte Popular e turismo foram os tópicos centrais que ouvi.


A figura de Ferro ainda hoje é controversa, não consensual, como disseram vários oradores e o recente livro de Orlando Raimundo comprovou, em registo diferente, por exemplo, do livro de Margarida Acciaiuoli (2013), António Ferro, a Vertigem da Palavra. Retórica, Política e Propaganda no Estado Novo. Dos oradores, retive as palavras de Guilherme de Oliveira Martins,que começou por lembrar que o primeiro número da revista Orpheu foi editado no mesmo ano que Educação Cívica, livro de António Sérgio. O orador usou a expressão mundo perigoso ao tempo em que Ferro se tornou jornalista conhecido como entrevistador, mais como comentador do que escritor do que dizem os entrevistados, com capacidade de ler os acontecimentos, como que antecipando a evolução política ditatorial espanhola, italiana, alemã e turca.

Por seu lado, Jorge Ramos do Ó olhou António Ferro como dividido entre a modernidade e a tradição e defendeu a ideia que o dispositivo cultural do Estado, em termos de ministério da Cultura em Portugal, se forjou com aquele jornalista, intelectual e político, modelo que não é distinto no regime democrático. Ferro enquanto homem de propaganda igual a instrumento de poder, em que só existe o que o público sabe que existe (retirado de Salazar), procurou juntar governantes e governados através das imagens da tradição. E, seguindo os pilares ideológicos do ditador, Ferro mobilizou as indústrias culturais e criativas da época (cinema, imprensa, arte, teatro e rádio). Ferro foi mais hábil na atracção de artistas plásticos que artistas, propiciando prémios e exposições. O orador, que distinguiu a preponderância do pintor-decorador na obra do Secretariado da Propaganda Nacional, depois tornado Secretariado Nacional da Informação, referiu-se também à decadência de Ferro, a partir do momento em que os artistas plásticos se mudaram para a oposição política, no pós-II Guerra Mundial. À política de espírito (de Ferro) seguiu-se, na expressão de Ramos do Ó, a política da restrição, com a atribuição da actividade da censura ao SNI, responsável pelas licenças de exibição de cinema e de espectáculo do teatro.

Raquel Henriques da Silva foi a oradora que eu mais gostei de ouvir. Apesar de se afirmar não especialista em Ferro, a sua leitura sobre o Museu de Arte Popular, uma das iniciativas preparadas pelo intelectual orgânico (à Gramsci), capaz da produção de design de comunicação de grande eficácia. A docente de história da arte fez, a meu ver, duas revelações importantes. A primeira, relacionada com artefactos rurais como os barros de Barcelos, como os de Rosa Ramalho, cuja descoberta coube a arquitectos do Porto (Fernando Lanhas e Alexandre Alves Costa), cuja atmosfera era distinta da de Lisboa, onde surrealistas e neo-realistas se digladiavam politicamente. Ferro aproveitou depois para o seu museu essas peças quase primitivas e de aparência simples ou brutal. A segunda revelação foi a da diferente concepção de Museu de Arte Popular. Francisco Lage queria um museu de etnografia e António Ferro um pavilhão de arte popular.

Adelino Gomes é o Prémio Igrejas Caeiro 2015

Cerimónia de entrega do prémio dia 20 de Abril às 18:30 na Sociedade Portuguesa de Autores. O prémio é dedicado a profissionais da rádio.


Graffiti tuga (11)

Na rua das Flores (Porto), as caixas de eletricidade na rua estão assim decoradas. Só falta mesmo o sotaque.



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Restaurante Corça


Acho que nunca escrevi aqui sobre um restaurante. Mas a Corça era especial. Sempre que me desloquei ao Porto, procurava os petiscos do restaurante. A gerência mudou no final de Março e o perfil da alimentação também.

Um documentário sobre a polícia política do antigo regime

Li agora no Público que o documentário do jornalista Jacinto Godinho Os Últimos Dias da PIDE vai passar brevemente na RTP. Nele, procura-se dar uma versão diferente da história existente nos últimos 40 anos. A tese de Godinho é que a revolução do 25 de Abril "não foi planeada", pois não fora previsto o futuro da polícia política, o principal sustentáculo da ditadura. Suspeito que vai nascer uma polémica interessante, pós-modernista, a partir das ideias de um dos melhores jornalistas de documentário televisivo.

Diário Económico

No final do mês passado, o jornalista António Costa anunciava ir sair do cargo de diretor do Diário Económico. Agora, o grupo económico a que o jornal pertence indica o nome de Raul Vaz como seu sucessor. Vaz, que já pertenceu à direção do jornal entre 2001 e 2004, começou no jornalismo em 1981 no Correio da Manhã, passando por funções de chefia e direção em meios como Semanário, Público, Independente e Diário de Notícias. Presentemente é diretor executivo do canal de televisão por cabo Económica TV.

Do jornalista António Costa fiquei a saber agora que era também administrador da Ongoing, a proprietária do jornal. Não me parece adequada a dupla função. Agora, compreendo as posições que o jornalista foi tomando, por exemplo, nas suas intervenções na Antena 1, de apoio a causas empresariais e económicas. O distanciamento e a posição de independência face aos negócios não foram respeitados.

sábado, 11 de abril de 2015

Limite da compreensão

Um dia, conduzia a visita a exposição de pintura abstrata de um pintor português. Apesar de ainda relativamente jovem, o artista já tinha acumulado muita experiência e exibia prestígio nacional. Da turma, uma aluna mais ousada perguntou-me porque eu gostava daquele tipo de pintura. Eu, apoiado nas leituras ao longo dos anos, em livros e em crítica de arte, dei os meus argumentos. Nessa altura, fiquei convencido das minhas razões. Bastantes anos depois, comecei a ler outras versões da história da arte, apropriadamente chamadas de revisionismo histórico. A arte abstrata teve um grande impacto na literatura do género devido ao marketing apurado dos norte-americanos, passou a ler-se. Eu não me convenci, mas fiquei recetivo à nova abordagem. O pós-modernismo deixara-me alerta e atento a perspetivas diferentes da hegemónica.


A arte de Mónica Sosnowska, Arquitetonização (Casa de Serralves, 2015) trabalha a linguagem da arquitetura, mostrando corredores e estruturas em aço de peças outrora úteis e agora tornadas lixo ou objetos museológicos. Do ponto de vista espacial, a geometria, as formas apelando para o caos cósmico, ajudadas pela cor branca das paredes, o soalho envernizado do chão e as luzes difusas junto às paredes, dão uma forte espessura intelectual. Posso chamar ao conjunto das peças assim expostas um caldo escultórico. Mas a lógica construtivista remonta a Marcel Duchamp que os revisionistas tratam agora por oportunista. Qual o contributo distinto de fábricas entre Vila das Aves e Vizela, junto ao rio Ave e que se vislumbram do comboio? Ou de uma fábrica de descasca de arroz perto de Alcácer do Sal? Três décadas atrás, historiadores sonhadores falavam de arqueologia industrial como património a preservar. Algumas peças ficaram do período industrial e as suas formas adaptaram a novas funções. Sem esta sequência, lembro-me da livraria Ler Devagar, no polo da Lx Factory, em Alcântara, onde funcionou a importante tipografia Mirandela, conservando-se ainda a sua rotativa.

Se, hoje, a aluna astuta que indiquei acima me perguntasse se as esculturas de Sosnowska são arte eu não teria a convicção dessa altura. Do mesmo modo que não sei se Pântano, bailado criado por Miguel Moreira e com os bailarinos Catarina Félix, Francisco Camacho e Romeu Runa (Teatro Carlos Alberto, Porto), é arte ou puro exibicionismo (contorcionismo) de corpos. Quase no final do bailado, os intérpretes atiram farinha uns aos outros, sem qualquer alcance estético a não ser lembrar as festas de Carnaval ou as tomatadas que nos chegam via televisão de festas populares de Espanha e Itália. Estou atemorizado comigo mesmo, pois começo a não ter capacidade para compreender o novo. A isso, chama-se conservadorismo.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Guimarães

Além do moderno museu onde se pode ver a obra de José de Guimarães, a cidade possui dois museus muito interessantes, o museu de Martins Sarmento (1895, dedicado a indústrias pré-históricas) e o museu de Alberto Sampaio (1928, com talha, pintura, como o fresco Degolação de São João Baptista, e escultura, com muitas obras provenientes de igrejas da região). Relevo, pela magnífica apresentação, o segundo museu. Manifesto tristeza pela exposição, ultrapassada em termos museológicos, o primeiro. Isso repercute-se até na alegria e/ou afastamento no atendimento.





quinta-feira, 9 de abril de 2015

António Ferro na perspetiva de Orlando Raimundo

Orlando Raimundo, em António Ferro, o Inventor do Salazarismo, nada deixa de pé quanto ao intelectual orgânico do Estado Novo. Vaidoso, pretensioso, saloio ou provinciano, de origens modestas, que não olha às medidas estéticas do próprio físico, oportunista que se apropria das ideias dos outros, inventor de entrevistas (um simples good morning, de Mary Pickford, deu uma entrevista)  - eis o retrato traçado.

O autor tem a vantagem de escrever bem como se exige a um jornalista, com capítulos curtos, indo aos assuntos e, de vez em quando, traça paralelo com situações à margem do biografado. Ao longo do livro, percebe-se que leu tudo o que Ferro escreveu, criticando a sua pseudo-literatura, que acaba por ser curta e até resultado de algumas colagens de textos alheios, buscando a polémica.

Talvez a leitura crítica do que escreveu Ferro seja o ponto forte do novo livro. Mas não há o aparo crítico teórico inerente ao tipo de obra. E falhas, como, por exemplo, no capítulo da Emissora Nacional (por exemplo, o Serão para Trabalhadores era emitido aos sábados e frequentemente do Liceu Camões). Mas não quero ir além neste comentário. Além disso, não encontrei novidades face ao que já foi escrito e do título, o inventor do salazarismo, não encontrei justificações fortes. Isto porque o título anuncia algo que já se sabe há muito. E que o construído, Salazar, se libertou do seu construtor (Ferro). Talvez o livro de Fernando Dacosta (Máscaras de Salazar), um grande jornalista, seja mais impressiva, ele que apreciou o perfil psicológico do ditador. Uma coisa me impressionou no livro de Orlando Raimundo: o retrato impiedoso da ditadura e dos seus dirigentes, da sua mesquinhez e do seu pouco desenvolvimento intelectual, além do atraso económico do país que ficou desse período.