MEDIALOGIAS
Chegou-me agora às mãos o jornal Medialogias, número de Outono de 2003, do departamento de Ciências da Comunicação, Artes e Tecnologias, da Universidade Lusófona, com um dossier dedicado a Fernando Pessoa. Aliás, este autor é objecto de uma pós-graduação, designada Cultura e Contemporaneidade: Fernando Pessoa e a Actualidade, dirigida por Luís Filipe Teixeira, director da revista e do curso de Comunicação da universidade sediada no Campo Grande, em Lisboa.
Do jornal, de 20 páginas, destaco os textos de Fernando Correia (sobre a responsabilidade dos media, dos jornalistas e dos cidadãos), Carla Rodrigues Cardoso (sobre um livro de Jorge Paixão da Costa, Telenovela: um modo de produção) e Carla Martins (com um texto sobre Pessoa e as proximidades do jornalismo).
Também recebi, editado pela mesma universidade, a revista Caleidoscópio, com um número dedicado à Cultura de jogos, organizado por Luís Filipe Teixeira – a quem agradeço a gentileza do envio das duas publicações (o director da revista é António Machuco Rosa). Prometo voltar com mais detalhe à revista, que se situa “na tríade cultura-comunicação-novas tecnologias” (do editorial), e, em particular, a este número.
A todos, o meu desejo de continuarem a produzir investigação e informação útil e necessária.
ANTÓNIO FERRO NO BRASIL
Foi a 7 de Maio de 1922 que António Ferro partiu para o Brasil, onde fez conferências, apresentou o seu teatro e se casou por procuração com Fernanda de Castro, mantendo-se por aquele país durante cerca de um ano. Jovem ainda a fazer 27 anos, e director da Ilustração Portuguesa, a sua permanência do outro lado do Atlântico trouxe-lhe uma grande auréola mas sem direito a regressar à revista, que ele remodelara profundamente em poucos números.
Optimista, de sorriso largo, o jornalista e autor deixara Lisboa após um repasto envolvendo mais de setenta convivas, entre jornalistas, artistas, literatos, actores, músicos e críticos conforme escreve António Rodrigues, em livro que referi em mensagem do dia 5 deste mês (Rodrigues, 1995: 91) [os elementos da presente mensagem foram extraídos desse livro]. Na chegada ao Brasil, Ferro proclama-se como o porta-voz da nova geração. Realiza duas conferências, depois publicadas no Rio de Janeiro: A arte de bem morrer e a Idade do Jazz-Band, este um dos seus textos mais conceituados (a par do seu trabalho de ideólogo da primeira metade do regime ditatorial de Salazar). No Brasil, fez a apologia dos modernistas portugueses, como Almada Negreiros, António Soares, Eduardo Viana, José Pacheko, Cottinelli Telmo e Rui Coelho.
A arte de bem morrer apresentou-a no Trianon, do Rio de Janeiro, em 21 de Julho de 1922, e no Teatro Municipal de S. Paulo, em 5 de Dezembro do mesmo ano. O seu sucesso apenas seria superado com a Idade do Jazz-Band, lida ao público no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, em 30 de Julho de 1922, com apresentação de Carlos Malheiro Dias [na Biblioteca Nacional, existe um exemplar, não sei se o único, e que eu li, em meados do ano passado, que tem a assinatura de Malheiro Dias, o que quer dizer que fazia parte da biblioteca pessoal deste], após o que repetiria no Teatro Municipal de São Paulo, a 12 de Setembro. Também apresentou o mesmo trabalho em Santos e Belo Horizonte.
Um sucesso de todo o tamanho
Quando exclamava “A Arte gera a Vida, como a Vida gera a Arte. Arte e Vida estão quites. Abram os olhos, abram os olhos para o grande milagre”, calou-se, permitindo que entrassem no palco um “Jazz-Band e um corpo de mulher em dança”. Tratava-se de uma habilidade imagística, como narra Rodrigues (1995: 99), comparando esta performance com outro texto anteriormente escrito por Ferro, As grandes trágicas do silêncio, sobre as stars do cinema mudo, e que eu já destaquei em mensagem anterior. Dizia Ferro: “O Jazz-Band é o triunfo da dissonância, é a loucura instituída em juízo universal, essa caluniada loucura que é a única renovação possível do velho mundo”. A música e a dança associavam-se, nas variedades de fox-trot, one-step, tango, maxixe, schimmy e charleston. Nota Rodrigues que se dá o expoente da artificialização de António Ferro, nesse seu gosto pela extravagância culta.
Este gosto vê-se pelos seguintes gestos. A primeira conferência realizou-se no Rio de Janeiro, apenas após a chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, eles que fizeram a primeira travessia aérea unindo Portugal ao Brasil. Depois, porque resolve casar por procuração com Fernanda de Castro, tendo como testemunha de procuração o próprio Gago Coutinho. Fernanda de Castro lá seguiria no navio seguinte partido de Lisboa, para se encontrar com um marido tão imprevisto quanto artista.
E foi ainda no Brasil que apresentou a sua peça Mar Alto, interpretado por uma actriz que debutara e fizera muito sucesso naquele país: Lucília Simões (São Paulo, 18 de Novembro de 1992; Rio de Janeiro, 15 de Dezembro do mesmo ano). Depois, quando a representou em Portugal, daria um grande escândalo, obrigando mesmo ao cancelamento de espectáculos. Qual era o conteúdo da peça? Tratava-se de um triângulo amoroso. Luís, poeta decadente, Madalena, mulher moderna, e o amante desta, Henrique. Este propusera aquela que abandonasse o marido e fosse viver com ela, que recusou. Um dia, Luís confessa que cometera um assalto. Madalena confessa também o seu crime e propõe-se ir viver para casa de Henrique, que é um homem rico, podendo o dinheiro deste ajudar aquele. Luís aceita, invertendo-se os papéis: passa de marido a amante. Escreve António Rodrigues (1995: 105): “Numa sociedade ainda dominada por marialvas e mulheres em gineceu, como a brasileira e a portuguesa, não surpreende o escândalo do Mar Alto”.
Foi, provavelmente, o período mais difícil da vida do casal António Ferro-Fernanda de Castro, como a própria revela nas suas memórias. A sorte veio de um convite do director do Diário de Notícias, para Ferro ingressar como repórter internacional e como crítico de teatro. Começaria a vida das grandes entrevistas aos líderes europeus (das ditaduras nascentes, incluindo Salazar). Mas também uma viagem à América e à Hollywood do cinema, que ele descreveria com muito pormenor e sagacidade. A arte, a cultura, o teatro e o cinema, além dos livros, claro, ocupavam-no ainda mais. Até que chegou o tempo da Política do Espírito, que “vendeu” a Salazar e este "comprou", resultando no Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). Mas sobre este, não se pronuncia António Rodrigues, e muito menos eu. É que o arquivo do SPN está à espera de ser transportado para a Torre do Tombo há mais que meses, há já anos, parece-me. Primeiro, por causa de uma desinfestação, agora por falta de verba para o seu transporte. Confesso que gostaria de estudar este arquivo…
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
sábado, 8 de maio de 2004
sexta-feira, 7 de maio de 2004
EM DEFESA DO MUSEU DA RÁDIO
Após 12 anos aberto ao público, o Museu da Rádio ameaça fechar as portas, com o seu acervo a ser integrado no Museu das Comunicações - conforme notícia publicada no sábado passado no jornal Público. Porque o assunto é para ser levado a sério, e apesar de não se saber mais do que aquilo que saíu no jornal, os blogues mais ligado a esta indústria cultural que é a rádio têm multiplicado as suas mensagens de desconforto perante a situação. No ar, existe o receio de ver o acervo distribuído por vários núcleos - perdendo-se a noção de colecção -, ou parcialmente destruído. Prova deste receio é o facto de ainda não ter havido um comunicado ou qualquer outra afirmação por parte da RTP ou da comissão instaladora do museu da Rádio (que se prepara para assinar, em breve, um protocolo para transferência do acervo para a Fundação Portuguesa das Comunicações), a desmentir a notícia ou a clarificar os pontos mais problemáticos da mesma.
Ao internauta que lê esta mensagem
Por favor, participe civicamente na defesa do Museu da Rádio. Envie uma carta, em tom gentil, à administração da RTP (Avenida Marechal Gomes da Costa, 37 - 1800-255 Lisboa), sublinhando a importância cultural do museu, na sua totalidade, e mostrando o alarme que a notícia causou em toda a comunidade cultural do país. O desaparecimento do Museu é uma grande perda para todos. Ou, pelo menos, que sejam explicadas à opinião pública as vantagens da integração numa outra entidade. É que o silêncio se tornou num elemento altamente perturbador.
MEMÓRIAS DA RÁDIO – CITAÇÕES CLÁSSICAS DE AGENTES CULTURAIS E JORNALÍSTICOS
Eis algumas citações muito gostosas:
Carmen Dolores (actriz)
“Os postos de amadores pediam colaboração. Qualquer pessoa podia apresentar o seu programa e tentar a sorte como intérprete, cantando, tocando, declamando, representando!
“Foi assim.
“Emissora escolhida a Rádio Sonora, ali à Morais Soares, dirigida pelo simpático Lacombe Neves. O meu irmão teve a ideia fabulosa: um recital de quinze em quinze dias, com números de canto, recitação, piano e pequenos diálogos. Ele que nessa altura era aluno da Hermínia Alagarim que também foi professora do Piçarra e de muitos outros cultivadores do bel-canto, cantava as suas árias de óperas conhecidas, de lied, também interpretadas pelo Tito Schippa e pelo Miguel Fleta. E tinha uma linda e bem timbrada voz de tenor que foi pena não ter continuado a cultivar. A Júlia, minha cunhada nessa época, que já passara pelo teatro e tinha o curso de piano, acompanhava-o e tocava solos de música clássica. Eu recitava os versos aprendidos na Selecta. E os três interpretávamos os diálogos. Passava-se tudo isto em fins de 1938. Tinha eu 14 anos” [Carmen Dolores (1984). Retrato inacabado. Memórias. Lisboa: O Jornal, pp. 59-60].
João de Morais Palmeiro (jornalista)
“Em Novembro de 1925, dois anos quase depois de haver sido inaugurada em toda a Alemanha a radiotelefonia, fomos convidados a dizer algumas coisas pelo posto emissor de Berlim acerca da nossa terra, de Portugal.
“Como instruções recebêramos um impresso que nos concedia vinte minutos para falar, elucidando-nos que, em dez minutos, se liam com todo o vagar, quatro folhas de papel almaço escritas à máquina.
“[…] E, em 14 de Novembro de 1925, às sete e três quartos da tarde, líamos diante do microfone da estação de TSF de Berlim o nosso modesto trabalho.
“[…] No decurso da nossa palestra havíamos traduzido umas quatro quadras populares portuguesas. Uma senhora – a primeira do nosso auditório invisível a dirigir-se-nos – escreveu:
“Seria possível informar-me se as quadras que traduziu fazem parte de algum livro que se possa adquirir aqui? Caso contrário, estaria disposto a enviar-me uma cópia das mesmas, principalmente da última?” [João de Morais Palmeiro (1929). A nova Alemanha. Porto: Imprensa Nacional, pp. 133-135].
Fernando Curado Ribeiro (actor e escritor)
“Tanto como outros meios, a Rádio pode ser dotada de características que permitem a intenção de criação de arte, que se realizará se se atender aos condicionamentos próprios, técnico e funcional, e às soluções estéticas impostas pelo seu mundo sonoro. É, aliás, graças às interferências deste mundo sonoro no mundo visual que a arte radiofónica se afirma, como que tornando-se plástica e dado ao sentido auditivo o que a vista já apercebeu. A arte radiofónica atinge o seu fim quando chega ao auditor que, com os seus ouvidos, viu no espaço. E isto depende mais do valor do que se transmite do que das qualidades de quem ouve. Abrem-se, pois, perspectivas análogas aquelas de que beneficia a vista – embora, sem dúvida, mais limitadas. E é talvez por este aspecto importante que Rádio, Cinema e Televisão se confundem em tantos pormenores”. [Fernando Curado Ribeiro (1964). Rádio – produção – realização – estética. Lisboa: Arcádia, p. 75].
Artur Agostinho (locutor, apresentador e actor)
“Estávamos no início dos anos 50 e, nessa altura, o acesso de qualquer pessoa aos estúdios do Quelhas era extraordinariamente fácil.
“[…] Foi exactamente no tempo em que ainda não tinham sido implementadas algumas medidas especiais de segurança que apareceram no hall dos estúdios dois homens de grande compleição física, em mangas de camisa e transportando sobre os ombros aquelas grossas cordas que identificavam, de imediato, os populares «galegos» que paravam no Chiado, oferecendo os seus préstimos como carregadores de mobílias e de outros objectos mais ou menos pesados.
“[…] Os dois homens apresentaram-se ao funcionário de serviço nos estúdios, dizendo-lhe que vinham a mando do maestro Pedro de Freitas Branco, com a incumbência de transportarem o piano de cauda que estava no estúdio A para o Teatro de São Carlos, onde iria ser necessário para um ensaio da Orquestra Sinfónica.
“O solícito funcionário acompanhou os dois homens ao estúdio A, onde se encontrava o instrumento pretendido, e regressou ao seu local de trabalho, deixando-os entregues à pesada tarefa de carregarem o piano.
“[…] No dia seguinte, a meio da tarde, o maestro Pedro de Freitas Branco, momentos depois de ter entrado no estúdio A, voltou a sair visivelmente irritado.
“[…] acabou por chegar à inevitável conclusão de que o piano de cauda da Emissora Nacional – um magnífico e valioso Steinway – tinha sido pura e simplesmente roubado, mercê de um golpe audacioso, de grande imaginação” [Artur Agostinho (2002). Ficheiros indiscretos. Lisboa: Oficina do Livro, pp. 231-232].
Após 12 anos aberto ao público, o Museu da Rádio ameaça fechar as portas, com o seu acervo a ser integrado no Museu das Comunicações - conforme notícia publicada no sábado passado no jornal Público. Porque o assunto é para ser levado a sério, e apesar de não se saber mais do que aquilo que saíu no jornal, os blogues mais ligado a esta indústria cultural que é a rádio têm multiplicado as suas mensagens de desconforto perante a situação. No ar, existe o receio de ver o acervo distribuído por vários núcleos - perdendo-se a noção de colecção -, ou parcialmente destruído. Prova deste receio é o facto de ainda não ter havido um comunicado ou qualquer outra afirmação por parte da RTP ou da comissão instaladora do museu da Rádio (que se prepara para assinar, em breve, um protocolo para transferência do acervo para a Fundação Portuguesa das Comunicações), a desmentir a notícia ou a clarificar os pontos mais problemáticos da mesma.
Ao internauta que lê esta mensagem
Por favor, participe civicamente na defesa do Museu da Rádio. Envie uma carta, em tom gentil, à administração da RTP (Avenida Marechal Gomes da Costa, 37 - 1800-255 Lisboa), sublinhando a importância cultural do museu, na sua totalidade, e mostrando o alarme que a notícia causou em toda a comunidade cultural do país. O desaparecimento do Museu é uma grande perda para todos. Ou, pelo menos, que sejam explicadas à opinião pública as vantagens da integração numa outra entidade. É que o silêncio se tornou num elemento altamente perturbador.
MEMÓRIAS DA RÁDIO – CITAÇÕES CLÁSSICAS DE AGENTES CULTURAIS E JORNALÍSTICOS
Eis algumas citações muito gostosas:
Carmen Dolores (actriz)
“Os postos de amadores pediam colaboração. Qualquer pessoa podia apresentar o seu programa e tentar a sorte como intérprete, cantando, tocando, declamando, representando!
“Foi assim.
“Emissora escolhida a Rádio Sonora, ali à Morais Soares, dirigida pelo simpático Lacombe Neves. O meu irmão teve a ideia fabulosa: um recital de quinze em quinze dias, com números de canto, recitação, piano e pequenos diálogos. Ele que nessa altura era aluno da Hermínia Alagarim que também foi professora do Piçarra e de muitos outros cultivadores do bel-canto, cantava as suas árias de óperas conhecidas, de lied, também interpretadas pelo Tito Schippa e pelo Miguel Fleta. E tinha uma linda e bem timbrada voz de tenor que foi pena não ter continuado a cultivar. A Júlia, minha cunhada nessa época, que já passara pelo teatro e tinha o curso de piano, acompanhava-o e tocava solos de música clássica. Eu recitava os versos aprendidos na Selecta. E os três interpretávamos os diálogos. Passava-se tudo isto em fins de 1938. Tinha eu 14 anos” [Carmen Dolores (1984). Retrato inacabado. Memórias. Lisboa: O Jornal, pp. 59-60].
João de Morais Palmeiro (jornalista)
“Em Novembro de 1925, dois anos quase depois de haver sido inaugurada em toda a Alemanha a radiotelefonia, fomos convidados a dizer algumas coisas pelo posto emissor de Berlim acerca da nossa terra, de Portugal.
“Como instruções recebêramos um impresso que nos concedia vinte minutos para falar, elucidando-nos que, em dez minutos, se liam com todo o vagar, quatro folhas de papel almaço escritas à máquina.
“[…] E, em 14 de Novembro de 1925, às sete e três quartos da tarde, líamos diante do microfone da estação de TSF de Berlim o nosso modesto trabalho.
“[…] No decurso da nossa palestra havíamos traduzido umas quatro quadras populares portuguesas. Uma senhora – a primeira do nosso auditório invisível a dirigir-se-nos – escreveu:
“Seria possível informar-me se as quadras que traduziu fazem parte de algum livro que se possa adquirir aqui? Caso contrário, estaria disposto a enviar-me uma cópia das mesmas, principalmente da última?” [João de Morais Palmeiro (1929). A nova Alemanha. Porto: Imprensa Nacional, pp. 133-135].
Fernando Curado Ribeiro (actor e escritor)
“Tanto como outros meios, a Rádio pode ser dotada de características que permitem a intenção de criação de arte, que se realizará se se atender aos condicionamentos próprios, técnico e funcional, e às soluções estéticas impostas pelo seu mundo sonoro. É, aliás, graças às interferências deste mundo sonoro no mundo visual que a arte radiofónica se afirma, como que tornando-se plástica e dado ao sentido auditivo o que a vista já apercebeu. A arte radiofónica atinge o seu fim quando chega ao auditor que, com os seus ouvidos, viu no espaço. E isto depende mais do valor do que se transmite do que das qualidades de quem ouve. Abrem-se, pois, perspectivas análogas aquelas de que beneficia a vista – embora, sem dúvida, mais limitadas. E é talvez por este aspecto importante que Rádio, Cinema e Televisão se confundem em tantos pormenores”. [Fernando Curado Ribeiro (1964). Rádio – produção – realização – estética. Lisboa: Arcádia, p. 75].
Artur Agostinho (locutor, apresentador e actor)
“Estávamos no início dos anos 50 e, nessa altura, o acesso de qualquer pessoa aos estúdios do Quelhas era extraordinariamente fácil.
“[…] Foi exactamente no tempo em que ainda não tinham sido implementadas algumas medidas especiais de segurança que apareceram no hall dos estúdios dois homens de grande compleição física, em mangas de camisa e transportando sobre os ombros aquelas grossas cordas que identificavam, de imediato, os populares «galegos» que paravam no Chiado, oferecendo os seus préstimos como carregadores de mobílias e de outros objectos mais ou menos pesados.
“[…] Os dois homens apresentaram-se ao funcionário de serviço nos estúdios, dizendo-lhe que vinham a mando do maestro Pedro de Freitas Branco, com a incumbência de transportarem o piano de cauda que estava no estúdio A para o Teatro de São Carlos, onde iria ser necessário para um ensaio da Orquestra Sinfónica.
“O solícito funcionário acompanhou os dois homens ao estúdio A, onde se encontrava o instrumento pretendido, e regressou ao seu local de trabalho, deixando-os entregues à pesada tarefa de carregarem o piano.
“[…] No dia seguinte, a meio da tarde, o maestro Pedro de Freitas Branco, momentos depois de ter entrado no estúdio A, voltou a sair visivelmente irritado.
“[…] acabou por chegar à inevitável conclusão de que o piano de cauda da Emissora Nacional – um magnífico e valioso Steinway – tinha sido pura e simplesmente roubado, mercê de um golpe audacioso, de grande imaginação” [Artur Agostinho (2002). Ficheiros indiscretos. Lisboa: Oficina do Livro, pp. 231-232].
quinta-feira, 6 de maio de 2004
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - III PARTE
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril e 3 de Maio)]
Novo ciclo na vida da SIC: projectos e parcerias
Canais temáticos, como a criação de um canal de notícias, entrada na informação electrónica (internet) e aquisição de empresas de produção de conteúdos fizeram parte do novo ciclo de vida do canal de televisão. Entrava-se na fase dos novos projectos e parcerias (1999-2001), que sucedia aos períodos de afirmação do projecto (1992) e liderança no mercado (1995-1998).
O investimento publicitário em todo o sector de televisão foi de 226 milhões de euros em 1994, subindo para 422 milhões em 2000 (SIC, Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios). Já em termos de receitas brutas, em 1995, a SIC arrecadou 111.885 milhões de euros, ao passo que a RTP recebia 101.560 milhões e a TVI 28.210 milhões de euros. Em 1999, a SIC subia para 200.730 milhões de euros, a RTP passava a 109.375 milhões e a TVI ficava em 67.290 milhões (SIC). Mas começava uma inversão lenta na relação entre os canais. Para a SIC, o ano de 1999 foi de perda de audiência, acentuada em 2000 e 2001. Também as receitas provenientes da publicidade baixariam desde 1999. A TVI passava a ser o challenger. Se o Big Brother foi o centro das atenções, ao provocar escândalo mas garantir a fidelização dos telespectadores, a produção nacional (telenovelas) e a tabloidização das notícias tiveram a primazia na TVI. Vale a pena procurar perceber o fenómeno que fez perder a liderança à SIC. Entrava-se numa cultura que associava o espectáculo a um modelo voyeurista e exibicionista (Bastos et al., 2001: 12). A “novela da vida real”, como dizia a promoção do programa, permitia ao telespectador saber o que se passava, minuto a minuto, da vida íntima de algumas pessoas isoladas do mundo externo. Havia ainda o aspecto do peep-show e confessionário, janela ou orifício que permitia aos concorrentes o acesso ao exterior, para falar com a apresentadora do programa, recobrindo aquilo a que Rui Cádima designa por televerdade: a câmara escondida ou qualquer efeito simulador do real guiam-nos para uma dimensão da curiosidade (Cádima, 1996: 72).
A contra-programação da SIC seria constituída, bastante tempo depois, pelos programas Acorrentados e Bar da TV, de sucesso duvidoso. Perdia-se a estratégia da programação popular, as audiências baixavam e o mal-estar instalou-se na estação de televisão. As dissensões aumentaram, o que levou Emídio Rangel a perder o controlo da situação, em confronto nomeadamente com Nuno Santos, director da SIC Notícias, e, mais tarde, a abandonar a SIC (Setembro de 2001), por troca com a RTP.
Após a recomposição directiva da SIC e subsequente alteração estratégica, o Masterplan fez parte enquanto programa central na recuperação das audiências para a SIC, já enquadrado neste texto como pertencendo ao quarto período, o da retoma. Uma análise às capas das revistas cor-de-rosa, a partir de Fevereiro de 2000, onde são frequentes as alusões aos “heróis” do reality-show, com fotografias de página inteira e revelação das suas emoções, demonstra a importância da imprensa na promoção de um produto televisivo.
Além do referido reality-show, a produção nacional, as telenovelas brasileiras, os filmes e os programas de entretenimento, a par dos acontecimentos programados ou imprevistos, marcaram este terceiro período de vida da SIC (1999-2001). Da produção portuguesa destacaram-se Médico de Família, Os Malucos do Riso, Mundo VIP, Ponto de Encontro e Chuva de Estrelas. Júlia Pinheiro animava o programa da manhã (SIC 10 Horas), horário que o canal privado pretendia competir com a RTP. Um programa inédito sobre música clássica juntou António Vitorino d’Almeida e Bárbara Guimarães, os Duetos imprevistos. A vinda de Xanana Gusmão a Portugal, a morte de Amália Rodrigues (Outubro de 1999), a escolha de Portugal para organizar o Euro 2004, o Carnaval brasileiro em directo e o congresso do PSD (Fevereiro de 1999) foram alguns dos principais acontecimentos que mereceram destaque no canal privado. No campo da informação, o Jornal da Noite continuava a ser o bloco preferido dos telespectadores portugueses, com uma média diária de 1,67 milhões de telespectadores (18,7% de audiência) em 1999.
A SIC alargava as suas áreas de negócio. Assim, na venda de programas, a SIC colocou as séries documentais Salazar e A Grande Viagem no Canal História e a série Médico de Família nas televisões de Cabo Verde e de Angola, em 1999. A transmissão de vários jogos de futebol foi também feita para estas duas estações televisivas. A SIC também promoveu peças de teatro, caso do Rei Lear, de Shakespeare, no teatro D. Maria II, em 1998. Nesse ano, publicitou ainda a Feira do Livro, êxito que repetiu em anos seguintes, com especial relevo para a edição de 2002.
Em 2000, dava-se a grande transferência do entertainer Herman José da RTP para a SIC, depois de uma ligação de cerca de vinte anos ao canal público. Naquela altura, os jornais escreveram que desaparecia a última glória da coroa da RTP.
[continua]
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril e 3 de Maio)]
Novo ciclo na vida da SIC: projectos e parcerias
Canais temáticos, como a criação de um canal de notícias, entrada na informação electrónica (internet) e aquisição de empresas de produção de conteúdos fizeram parte do novo ciclo de vida do canal de televisão. Entrava-se na fase dos novos projectos e parcerias (1999-2001), que sucedia aos períodos de afirmação do projecto (1992) e liderança no mercado (1995-1998).
O investimento publicitário em todo o sector de televisão foi de 226 milhões de euros em 1994, subindo para 422 milhões em 2000 (SIC, Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios). Já em termos de receitas brutas, em 1995, a SIC arrecadou 111.885 milhões de euros, ao passo que a RTP recebia 101.560 milhões e a TVI 28.210 milhões de euros. Em 1999, a SIC subia para 200.730 milhões de euros, a RTP passava a 109.375 milhões e a TVI ficava em 67.290 milhões (SIC). Mas começava uma inversão lenta na relação entre os canais. Para a SIC, o ano de 1999 foi de perda de audiência, acentuada em 2000 e 2001. Também as receitas provenientes da publicidade baixariam desde 1999. A TVI passava a ser o challenger. Se o Big Brother foi o centro das atenções, ao provocar escândalo mas garantir a fidelização dos telespectadores, a produção nacional (telenovelas) e a tabloidização das notícias tiveram a primazia na TVI. Vale a pena procurar perceber o fenómeno que fez perder a liderança à SIC. Entrava-se numa cultura que associava o espectáculo a um modelo voyeurista e exibicionista (Bastos et al., 2001: 12). A “novela da vida real”, como dizia a promoção do programa, permitia ao telespectador saber o que se passava, minuto a minuto, da vida íntima de algumas pessoas isoladas do mundo externo. Havia ainda o aspecto do peep-show e confessionário, janela ou orifício que permitia aos concorrentes o acesso ao exterior, para falar com a apresentadora do programa, recobrindo aquilo a que Rui Cádima designa por televerdade: a câmara escondida ou qualquer efeito simulador do real guiam-nos para uma dimensão da curiosidade (Cádima, 1996: 72).
A contra-programação da SIC seria constituída, bastante tempo depois, pelos programas Acorrentados e Bar da TV, de sucesso duvidoso. Perdia-se a estratégia da programação popular, as audiências baixavam e o mal-estar instalou-se na estação de televisão. As dissensões aumentaram, o que levou Emídio Rangel a perder o controlo da situação, em confronto nomeadamente com Nuno Santos, director da SIC Notícias, e, mais tarde, a abandonar a SIC (Setembro de 2001), por troca com a RTP.
Após a recomposição directiva da SIC e subsequente alteração estratégica, o Masterplan fez parte enquanto programa central na recuperação das audiências para a SIC, já enquadrado neste texto como pertencendo ao quarto período, o da retoma. Uma análise às capas das revistas cor-de-rosa, a partir de Fevereiro de 2000, onde são frequentes as alusões aos “heróis” do reality-show, com fotografias de página inteira e revelação das suas emoções, demonstra a importância da imprensa na promoção de um produto televisivo.
Além do referido reality-show, a produção nacional, as telenovelas brasileiras, os filmes e os programas de entretenimento, a par dos acontecimentos programados ou imprevistos, marcaram este terceiro período de vida da SIC (1999-2001). Da produção portuguesa destacaram-se Médico de Família, Os Malucos do Riso, Mundo VIP, Ponto de Encontro e Chuva de Estrelas. Júlia Pinheiro animava o programa da manhã (SIC 10 Horas), horário que o canal privado pretendia competir com a RTP. Um programa inédito sobre música clássica juntou António Vitorino d’Almeida e Bárbara Guimarães, os Duetos imprevistos. A vinda de Xanana Gusmão a Portugal, a morte de Amália Rodrigues (Outubro de 1999), a escolha de Portugal para organizar o Euro 2004, o Carnaval brasileiro em directo e o congresso do PSD (Fevereiro de 1999) foram alguns dos principais acontecimentos que mereceram destaque no canal privado. No campo da informação, o Jornal da Noite continuava a ser o bloco preferido dos telespectadores portugueses, com uma média diária de 1,67 milhões de telespectadores (18,7% de audiência) em 1999.
A SIC alargava as suas áreas de negócio. Assim, na venda de programas, a SIC colocou as séries documentais Salazar e A Grande Viagem no Canal História e a série Médico de Família nas televisões de Cabo Verde e de Angola, em 1999. A transmissão de vários jogos de futebol foi também feita para estas duas estações televisivas. A SIC também promoveu peças de teatro, caso do Rei Lear, de Shakespeare, no teatro D. Maria II, em 1998. Nesse ano, publicitou ainda a Feira do Livro, êxito que repetiu em anos seguintes, com especial relevo para a edição de 2002.
Em 2000, dava-se a grande transferência do entertainer Herman José da RTP para a SIC, depois de uma ligação de cerca de vinte anos ao canal público. Naquela altura, os jornais escreveram que desaparecia a última glória da coroa da RTP.
[continua]
quarta-feira, 5 de maio de 2004
AS GRANDES TRÁGICAS DO SILÊNCIO
Foi com este título que António Ferro realizou uma conferência sobre o cinema, a primeira no nosso país. Estávamos a 1 de Junho de 1917, tinha o autor apenas 21 anos. Por falta de oportunidade, não li o original, mas socorro-me do livro de António Rodrigues (António Ferro, Na idade do Jazz-Band) para ultrapassar essa dificuldade.
Era o começo do cinema, uma das maiores indústrias culturais do século XX. A conferência daquele que, depois, criou a "política de Espírito" e a colocou ao serviço do regime ditatorial salazarista, terá sido uma "notável e brilhante conferência sobre o cinema e uma das principais manifestações culturais no quadro da modernidade portuguesa desta década" (Rodrigues, 1995: 22). A conferência propriamente dita foi dividida em três partes: o elogio da frase, do animatógrafo e das princesas do ecrã. Vivia-se o cinema como a adequação a um universo civilizacional de referência, pois o cinema "tem a vantagem de apurar, notavelmente, o sentido estético, de ser uma escola de bom gosto, como conheço poucas". Escreve Rodrigues que havia em António Ferro uma preocupação pelo décor do espaço e do corpo que o habita e, também, pela entrada purificadora nesse espaço imaginário percorrido por heróis e heroínas (p. 24). O ecrã revelava-se a matéria-prima do imaginário.
As estrelas emergentes desse cinema ainda mudo eram italianas, uma delas dando pelo nome de Francesca Bertini. Mas Ferro estava precavido: ela, "na vida é muda como no cinema, é menos bela do que no ecrã. Em conclusão, a Francesca Bertini da Avenida Nomentana é o manequim da Francesca Bertini do cinema. Não existe, portanto: é uma projecção". Projecção, porque "gerada certamente no ventre da objectiva". Vivia-se um tempo febril: automóveis, comboios, aviões, imagens em movimento. Com as princesas do ecrã a entrarem dentro da vida do espectador e a estabelecerem relações novas entre o real e o virtual, de que nós hoje temos mais consciência - embora reajamos da mesma forma ingénua e romântica.
Ora, do conjunto mais apreciado de estrelas do mudo, se Francesca Bertini era a romântica, Pina Menichelli era a vampe e Lyda Borelli era a divina, como hoje olhamos Charlize Theron ou Scarlett Johansson. Tínhamos aí os estereótipos principais, que têm alimentado a narrativa do cinema. Claro que Lyda era a preferida de Ferro, "pela sua estilização super-requintada". Pegando no que António Rodrigues escreve: "As grandes trágicas do silêncio são um dos mais belos elogios que o cinema então podia receber, tanto pelo entendimento da sua natureza estética e onírica próprias, quanto pela consciente valorização da sua eficácia socio-imagística" (p. 26).
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
INDÚSTRIAS DE CONTEÚDOS
Publica o número mais recente da revista Economia Pura (nº 63, Março de 2004), dirigida por Francisco Botelho, um dossier dedicado às indústrias de conteúdo, em especial um estudo de Artur Castro Neves. Daí considerar importante traçar umas breves notas sobre o dossier.
Parte-se do princípio que a criação de riqueza se está a deslocar da actividade produtiva para a concepção, tendo a inovação como principal esteio na criação de valor. Para João Abel de Freitas, que apresenta o dossier, "os novos modelos económicos tendem a estruturar-se segundo dois grandes eixos: os serviços integradores e as indústrias de conteúdos". E esclarece o mesmo autor, até há pouco director do GEPE (Gabinete de Estudos e Prospectiva Económica do ministério da Economia), que as indústrias de conteúdos são um "conjunto de actividades que, em sentido lato, se posicionam no centro dos universos do conhecimento, da cultura e do entretenimento/lazer".
Definição de indústria em Artur Castro Neves
Sociólogo pela Sorbonne, Paris V, e responsável pela cadeira de Economia do Audiovisual do curso de Cinema da Universidade Moderna, Artur Castro Neves define indústria como um "sistema de fabricação e de exploração comercial dos produtos, cujos recursos são alocados e escoados, ou no mercado ou dentro da instituição proprietária do referido sistema de fabricação". Esta definição permite-lhe avançar para a expressão indústria cinematográfica enquanto sistema de fabricação de filmes.
Ora, quais são os principais recursos para produzir um filme, pergunta Artur Castro Neves? Ele considera os talentos criativo, artístico, técnico (e capacidade tecnológica) comercial e directivo. E define, em termos de exploração comercial dos filmes produzidos, as principais plataformas de distribuição e difusão: circuitos de cinema, televisões generalistas e temáticas, gratuitas ou de acesso pago, serviços em linha, como o telefone e a internet, e serviços fora de linha, como o vídeo e o CD.
Quanto à indústria de conteúdos, o mesmo autor considera os conteúdos como "serviços de comunicações electrónicas". Compara os conteúdos digitais e analógicos, com os primeiros a serem fabricados digitalmente ou poderem "resultar de uma tradução em linguagem binária de conteúdos analógicos e arquivados em suporte electrónico", e distingue a natureza diferente de conteúdos digitais e de conteúdos imateriais ou intangíveis. Finalmente, fala dos quatro tipos de operadores da indústria: operadores de telecomunicações, operadores de serviços electrónicos, produtores de conteúdos e editores e distribuidores de catálogos e programas.
O dossier contém ainda um conjunto de outros elementos, que reputo de grande importância para a compreensão daquilo que eu entendo por indústrias culturais (e de conteúdos, na expressão de Artur Castro Neves). A revista Economia Pura custa €3,75.
Foi com este título que António Ferro realizou uma conferência sobre o cinema, a primeira no nosso país. Estávamos a 1 de Junho de 1917, tinha o autor apenas 21 anos. Por falta de oportunidade, não li o original, mas socorro-me do livro de António Rodrigues (António Ferro, Na idade do Jazz-Band) para ultrapassar essa dificuldade.
Era o começo do cinema, uma das maiores indústrias culturais do século XX. A conferência daquele que, depois, criou a "política de Espírito" e a colocou ao serviço do regime ditatorial salazarista, terá sido uma "notável e brilhante conferência sobre o cinema e uma das principais manifestações culturais no quadro da modernidade portuguesa desta década" (Rodrigues, 1995: 22). A conferência propriamente dita foi dividida em três partes: o elogio da frase, do animatógrafo e das princesas do ecrã. Vivia-se o cinema como a adequação a um universo civilizacional de referência, pois o cinema "tem a vantagem de apurar, notavelmente, o sentido estético, de ser uma escola de bom gosto, como conheço poucas". Escreve Rodrigues que havia em António Ferro uma preocupação pelo décor do espaço e do corpo que o habita e, também, pela entrada purificadora nesse espaço imaginário percorrido por heróis e heroínas (p. 24). O ecrã revelava-se a matéria-prima do imaginário.
As estrelas emergentes desse cinema ainda mudo eram italianas, uma delas dando pelo nome de Francesca Bertini. Mas Ferro estava precavido: ela, "na vida é muda como no cinema, é menos bela do que no ecrã. Em conclusão, a Francesca Bertini da Avenida Nomentana é o manequim da Francesca Bertini do cinema. Não existe, portanto: é uma projecção". Projecção, porque "gerada certamente no ventre da objectiva". Vivia-se um tempo febril: automóveis, comboios, aviões, imagens em movimento. Com as princesas do ecrã a entrarem dentro da vida do espectador e a estabelecerem relações novas entre o real e o virtual, de que nós hoje temos mais consciência - embora reajamos da mesma forma ingénua e romântica.
Ora, do conjunto mais apreciado de estrelas do mudo, se Francesca Bertini era a romântica, Pina Menichelli era a vampe e Lyda Borelli era a divina, como hoje olhamos Charlize Theron ou Scarlett Johansson. Tínhamos aí os estereótipos principais, que têm alimentado a narrativa do cinema. Claro que Lyda era a preferida de Ferro, "pela sua estilização super-requintada". Pegando no que António Rodrigues escreve: "As grandes trágicas do silêncio são um dos mais belos elogios que o cinema então podia receber, tanto pelo entendimento da sua natureza estética e onírica próprias, quanto pela consciente valorização da sua eficácia socio-imagística" (p. 26).
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
INDÚSTRIAS DE CONTEÚDOS
Publica o número mais recente da revista Economia Pura (nº 63, Março de 2004), dirigida por Francisco Botelho, um dossier dedicado às indústrias de conteúdo, em especial um estudo de Artur Castro Neves. Daí considerar importante traçar umas breves notas sobre o dossier.
Parte-se do princípio que a criação de riqueza se está a deslocar da actividade produtiva para a concepção, tendo a inovação como principal esteio na criação de valor. Para João Abel de Freitas, que apresenta o dossier, "os novos modelos económicos tendem a estruturar-se segundo dois grandes eixos: os serviços integradores e as indústrias de conteúdos". E esclarece o mesmo autor, até há pouco director do GEPE (Gabinete de Estudos e Prospectiva Económica do ministério da Economia), que as indústrias de conteúdos são um "conjunto de actividades que, em sentido lato, se posicionam no centro dos universos do conhecimento, da cultura e do entretenimento/lazer".
Definição de indústria em Artur Castro Neves
Sociólogo pela Sorbonne, Paris V, e responsável pela cadeira de Economia do Audiovisual do curso de Cinema da Universidade Moderna, Artur Castro Neves define indústria como um "sistema de fabricação e de exploração comercial dos produtos, cujos recursos são alocados e escoados, ou no mercado ou dentro da instituição proprietária do referido sistema de fabricação". Esta definição permite-lhe avançar para a expressão indústria cinematográfica enquanto sistema de fabricação de filmes.
Ora, quais são os principais recursos para produzir um filme, pergunta Artur Castro Neves? Ele considera os talentos criativo, artístico, técnico (e capacidade tecnológica) comercial e directivo. E define, em termos de exploração comercial dos filmes produzidos, as principais plataformas de distribuição e difusão: circuitos de cinema, televisões generalistas e temáticas, gratuitas ou de acesso pago, serviços em linha, como o telefone e a internet, e serviços fora de linha, como o vídeo e o CD.
Quanto à indústria de conteúdos, o mesmo autor considera os conteúdos como "serviços de comunicações electrónicas". Compara os conteúdos digitais e analógicos, com os primeiros a serem fabricados digitalmente ou poderem "resultar de uma tradução em linguagem binária de conteúdos analógicos e arquivados em suporte electrónico", e distingue a natureza diferente de conteúdos digitais e de conteúdos imateriais ou intangíveis. Finalmente, fala dos quatro tipos de operadores da indústria: operadores de telecomunicações, operadores de serviços electrónicos, produtores de conteúdos e editores e distribuidores de catálogos e programas.
O dossier contém ainda um conjunto de outros elementos, que reputo de grande importância para a compreensão daquilo que eu entendo por indústrias culturais (e de conteúdos, na expressão de Artur Castro Neves). A revista Economia Pura custa €3,75.
terça-feira, 4 de maio de 2004
OBERCOM PREPARA NOVO MODELO DE DIRECÇÃO
O Obercom, Observatório da Comunicação, tem em discussão uma mudança no modelo de direcção, em reunião de assembleia-geral. Até aqui, o comando da associação tem pertencido a um director executivo, enquanto o conselho directivo, nomeado pelos sócios, desempenha uma função estratégica. É o que nas empresas se chama de corporate governance. O novo figurino passa pela concentração de actividades no presidente do conselho directivo, com previsível desaparecimento do cargo de director executivo.
O modelo de funcionamento em vigor foi definido no começo das actividades do Obercom, associação de direito privado sem fins lucrativos, cujo objecto se define "na produção e difusão de informação, bem como na realização de estudos e trabalhos de investigação que contribuam para o melhor conhecimento na área da comunicação" (artigo 3º dos seus estatutos). O Obercom foi criado em 1999, com a primeira assembleia-geral realizada em 31 de Março desse ano. Dos sócios iniciais faziam parte o Instituto da Comunicação Social, a Portugal Telecom, a SIC, a RTP, a RDP, a Rádio Renascença, a Associação de Imprensa Não-Diária (AIND) e o Instituto das Comunicações de Portugal (hoje Anacom).
O Obercom é, presentemente, uma associação de grande prestígio e reconhecimento nacional e internacional. É responsável por uma base de dados de media, comunicações e novas tecnologias da informação, editada em Anuário. Tem também uma publicação semestral, sendo os dois últimos números dedicados a conferências internacionais promovidas pela própria associação.
O director executivo é o Professor Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa) e o presidente do conselho directivo é o Dr. Luís Landerset Cardoso (em representação da AIND).
CONFERÊNCIA SOBRE MEDIA, SEGURANÇA E DEFESA NA UNIVERSIDADE AUTÓNOMA
Decorrerá na Universidade Autónoma de Lisboa, à rua de Santa Marta, nº 56, no próximo dia 11, uma conferência dedicada à Comunicação Social, Segurança e Defesa – os Media em situações de crise, conflito e guerra.
Entre outros, participarão os generais Garcia Leandro e Abel Cabral Couto (actual e antigo director do Instituto de Defesa Nacional) e os jornalistas Cândida Pinto (SIC) e Paulo Moura (Público), que falarão sobre as suas experiências na cobertura jornalística de situações de crise, conflito e guerra. Outros jornalistas e vários professores universitários completarão o leque de intervenientes num tema muito actual, e que se prolongará pelo dia inteiro. Espero colocar umas notas neste blogue sobre o evento.
MEMÓRIA DOS ARQUIVOS FOTOGRÁFICOS
Tenho pesquisado no arquivo do já desaparecido jornal O Século, à guarda do Arquivo Português de Fotografia, em instalações da Torre do Tombo. A razão da minha pesquisa prende-se com um trabalho que cobre o período de 1924 a 1939. As fotografias estão arrumadas em álbuns de cartão, contendo imagens em positivo, numeradas com quatro dígitos e uma letra, a maior parte delas com legenda e identificação de personalidades quando são fotos de grupo.
Já vi as imagens de onze anos (1924-1934), um período marcante na nossa história, indo do golpe de Estado de 1926 à solidificação do Estado Novo. As primeiras imagens que vi coincidiam com os sucessivos putschs militares; as últimas com o congresso da União Nacional, partido único saído do golpe de 1926. Mas há conjuntos singulares.
Uso a memória, pois não tomei notas escritas. Lembro as mortes de António José de Almeida, antigo presidente da República, e de Gomes da Costa, o chefe dos putschistas do 28 de Maio de 1926, ambas tiradas nos leitos de morte, com flores e familiares à volta. Lembro também as filas de católicos à entrada das igrejas do Chiado na quinta-feira santa. Há ainda imagens de peditórios para causas sociais e bodos a pobres (assistência social e de alimentação) ou de grupos de personalidades estrangeiras que nos visitavam (aviadores, vedetas de cinema, políticos, ciclistas em volta ao mundo). E também o presidente da República, Óscar Carmona, sempre de farda e, por vezes, de capote, em inúmeras situações (inaugurações, visitas, nas comemorações da batalha de Lys e deposição de coroas de flores).
Se, nos primeiros anos que observei, há poucas temáticas e mais fotografias de acontecimentos imprevistos (acidentes de automóvel, tipo de transporte ainda pouco usual; prisão de suspeitos de assassínios) e insólito (o homem-macaco, em acrobacias e prostrado, denotando um ataque epiléptico; batatas de formato estranho), a partir de 1930 aparecem fotografias mais temáticas (profissões; exposições; fotografias da baixa lisboeta, com o Rossio à cabeça, mostrando o crescimento do parque de carros eléctricos e de automóveis, ou, já em 1934, o edifício do Instituto Nacional de Estatística, com campos em volta, sem se vislumbrar ainda o que é hoje a Praça de Londres), denotando leituras mais sociológicas.
OBRIGADO
Ontem, houve 100 (cem) visitantes a este blog, conforme os dados fornecidos pelo sítio extremetracking, em especial os onze visitantes mais assíduos, segundo o sítio bravenet. O meu muito obrigado pela preferência.
O Obercom, Observatório da Comunicação, tem em discussão uma mudança no modelo de direcção, em reunião de assembleia-geral. Até aqui, o comando da associação tem pertencido a um director executivo, enquanto o conselho directivo, nomeado pelos sócios, desempenha uma função estratégica. É o que nas empresas se chama de corporate governance. O novo figurino passa pela concentração de actividades no presidente do conselho directivo, com previsível desaparecimento do cargo de director executivo.
O modelo de funcionamento em vigor foi definido no começo das actividades do Obercom, associação de direito privado sem fins lucrativos, cujo objecto se define "na produção e difusão de informação, bem como na realização de estudos e trabalhos de investigação que contribuam para o melhor conhecimento na área da comunicação" (artigo 3º dos seus estatutos). O Obercom foi criado em 1999, com a primeira assembleia-geral realizada em 31 de Março desse ano. Dos sócios iniciais faziam parte o Instituto da Comunicação Social, a Portugal Telecom, a SIC, a RTP, a RDP, a Rádio Renascença, a Associação de Imprensa Não-Diária (AIND) e o Instituto das Comunicações de Portugal (hoje Anacom).
O Obercom é, presentemente, uma associação de grande prestígio e reconhecimento nacional e internacional. É responsável por uma base de dados de media, comunicações e novas tecnologias da informação, editada em Anuário. Tem também uma publicação semestral, sendo os dois últimos números dedicados a conferências internacionais promovidas pela própria associação.
O director executivo é o Professor Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa) e o presidente do conselho directivo é o Dr. Luís Landerset Cardoso (em representação da AIND).
CONFERÊNCIA SOBRE MEDIA, SEGURANÇA E DEFESA NA UNIVERSIDADE AUTÓNOMA
Decorrerá na Universidade Autónoma de Lisboa, à rua de Santa Marta, nº 56, no próximo dia 11, uma conferência dedicada à Comunicação Social, Segurança e Defesa – os Media em situações de crise, conflito e guerra.
Entre outros, participarão os generais Garcia Leandro e Abel Cabral Couto (actual e antigo director do Instituto de Defesa Nacional) e os jornalistas Cândida Pinto (SIC) e Paulo Moura (Público), que falarão sobre as suas experiências na cobertura jornalística de situações de crise, conflito e guerra. Outros jornalistas e vários professores universitários completarão o leque de intervenientes num tema muito actual, e que se prolongará pelo dia inteiro. Espero colocar umas notas neste blogue sobre o evento.
MEMÓRIA DOS ARQUIVOS FOTOGRÁFICOS
Tenho pesquisado no arquivo do já desaparecido jornal O Século, à guarda do Arquivo Português de Fotografia, em instalações da Torre do Tombo. A razão da minha pesquisa prende-se com um trabalho que cobre o período de 1924 a 1939. As fotografias estão arrumadas em álbuns de cartão, contendo imagens em positivo, numeradas com quatro dígitos e uma letra, a maior parte delas com legenda e identificação de personalidades quando são fotos de grupo.
Já vi as imagens de onze anos (1924-1934), um período marcante na nossa história, indo do golpe de Estado de 1926 à solidificação do Estado Novo. As primeiras imagens que vi coincidiam com os sucessivos putschs militares; as últimas com o congresso da União Nacional, partido único saído do golpe de 1926. Mas há conjuntos singulares.
Uso a memória, pois não tomei notas escritas. Lembro as mortes de António José de Almeida, antigo presidente da República, e de Gomes da Costa, o chefe dos putschistas do 28 de Maio de 1926, ambas tiradas nos leitos de morte, com flores e familiares à volta. Lembro também as filas de católicos à entrada das igrejas do Chiado na quinta-feira santa. Há ainda imagens de peditórios para causas sociais e bodos a pobres (assistência social e de alimentação) ou de grupos de personalidades estrangeiras que nos visitavam (aviadores, vedetas de cinema, políticos, ciclistas em volta ao mundo). E também o presidente da República, Óscar Carmona, sempre de farda e, por vezes, de capote, em inúmeras situações (inaugurações, visitas, nas comemorações da batalha de Lys e deposição de coroas de flores).
Se, nos primeiros anos que observei, há poucas temáticas e mais fotografias de acontecimentos imprevistos (acidentes de automóvel, tipo de transporte ainda pouco usual; prisão de suspeitos de assassínios) e insólito (o homem-macaco, em acrobacias e prostrado, denotando um ataque epiléptico; batatas de formato estranho), a partir de 1930 aparecem fotografias mais temáticas (profissões; exposições; fotografias da baixa lisboeta, com o Rossio à cabeça, mostrando o crescimento do parque de carros eléctricos e de automóveis, ou, já em 1934, o edifício do Instituto Nacional de Estatística, com campos em volta, sem se vislumbrar ainda o que é hoje a Praça de Londres), denotando leituras mais sociológicas.
OBRIGADO
Ontem, houve 100 (cem) visitantes a este blog, conforme os dados fornecidos pelo sítio extremetracking, em especial os onze visitantes mais assíduos, segundo o sítio bravenet. O meu muito obrigado pela preferência.
segunda-feira, 3 de maio de 2004
DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA
Comemora-se hoje o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data marca o aniversário da Declaração de Windhoek, uma declaração de princípios redigida por jornalistas africanos em 1991, que clamava por meios de comunicação sociais livres, independentes e pluralistas naquele continente e em todo mundo.
Este dia recorda os jornalistas mortos no cumprimento do seu dever profissional. Só no primeiro trimestre deste ano morreram 17 jornalistas. Em 2003, haviam falecido em serviço 36 jornalistas. Para a organização não governamental Freedom House, Portugal encontra-se em 18º lugar no ranking de países com mais liberdade de imprensa em 2003. O relatório avaliou meios da imprensa escrita, digital, radiofónica e televisiva, anotando casos graves na Rússia ou a Bolívia. Mas também refere a Itália, onde uma recentíssima lei do senado propôs um reforço do poder mediático do primeiro-ministro Berlusconi.
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - II PARTE
[continuação da mensagem de 29 de Abril]
Programação
Uma estação de televisão vive de programas que procuram alcançar o grande público. Muitos programas mantiveram-se durante anos, atestando o sucesso da sua fórmula; outros desapareceram rapidamente de cena. O objectivo deste ponto do artigo não é fazer o levantamento exaustivo dos programas ao longo dos dez anos de história da estação, mas fazer um retrato de alguns deles, bem como referir vários dos seus animadores, identificados com os programas.
Séries, telenovelas brasileiras, primeiro, e portuguesas, já no dobrar do século, concursos, talk-shows e reality-shows encontram-se entre as alavancas da programação que levaram à popularidade da SIC e ao seu contributo para a mudança do panorama audiovisual português. O formato das telenovelas brasileiras vinha já da RTP – basta lembrar o enorme sucesso que o canal público teve com Gabriela, do original de Jorge Amado. A SIC aproveitou a fórmula e, em especial, o contrato estabelecido com a estação brasileira Globo, que possuía um grande conhecimento do formato. Assim, não seria de admirar que, já em 1995, o programa mais visto fosse a telenovela A próxima vítima. Outras telenovelas de grande audiência seriam, ao longo da década, História de Amor, O Rei do Gado, A Indomada, Anjo Mau, Torre de Babel e Terra Nostra.
Várias fórmulas de programas fizeram fama, nomeadamente os de produção nacional, pelo que vale a pena debruçarmo-nos na análise de alguns deles. Um, o Ponto de Encontro seria a oportunidade de homens e mulheres contarem as suas histórias e reencontrarem familiares ou amigos, saindo de cena mais felizes e aliviados (Torres, 1998: 74). O povo que chorava e ria no momento do reencontro era bem tratado no talk-show, ao passo que Henrique Mendes se apagava no papel de entrevistador, o que conferia maior credibilidade às histórias dos convidados. Chuva de Estrelas foi um dos muitos programas emblemáticos da SIC, com apresentação sucessiva de Catarina Furtado e Bárbara Guimarães, dois dos mais conhecidos rostos femininos da estação de televisão. O desenrolar do concurso e a final do programa de cada ano tornaram-se uma festa popular, com detalhes específicos como imagens de mães a chorar, organização de claques e encenação das canções. Para além de apresentar os imitadores de canções internacionais conhecidas e em voga, o programa mostrava os bastidores – as pessoas por detrás dos cantores, as suas vidas, sonhos e projectos. Este lado preenchia um dos objectivos essenciais do canal: emocionar os telespectadores fazia parte do enquadramento social e popular de concursos e reality shows. A cantora Sara Tavares foi uma das grandes revelações do concurso.
Um programa que despertou discussão pública foi A Máquina da Verdade (1995). A polémica chegou logo no primeiro episódio, com o padre Frederico, então suspeito de associação a um escândalo sexual e à morte de um jovem seu protegido. No programa usava-se um detector de mentiras, levando o telespectador a acreditar nas reacções físicas dadas pela máquina. O assunto foi logo discutido na Assembleia da República. Do mesmo modo, a polémica instalou-se em A Cadeira do Poder (1997), animado por Artur Albarran. A primeira emissão referiu-se a um acidente que envolvia um secretário de Estado da Juventude. O Conselho de Ministros discutiu a emissão durante uma hora de reunião!
O desporto e a sua crítica conheceram êxito em Os Donos da Bola, o primeiro talk-show desportivo em directo na televisão, corria o ano de 1994. O programa assumiu uma postura anti-F. C. Porto, na altura em que o clube ganhara vários campeonatos de futebol seguidos. Data também desse período a relação entre SIC e Benfica, primeiro com a chegada ao poder de Manuel Damásio (1994), e, depois, em 1997, com a promoção e presidência de Vale e Azevedo. O entendimento passaria pela transmissão de desafios do Benfica no canal privado, retirando à RTP o monopólio no domínio do futebol. A SIC ligou-se ainda ao Sporting, ao patrocinar as camisolas da sua equipa de futebol sénior, em 1995.
Além da transmissão de acontecimentos desportivos, também as actividades musicais e as ligadas à moda fizeram parte dos objectivos da SIC nos anos de crescimento (1992-1994) e liderança (1995-1998). O canal esteve na Volta a Portugal em Bicicleta, no Rally de Portugal e transmitiu as marchas populares de Lisboa, quando a entidade organizadora – a Câmara Municipal – decidiu pôr a transmissão a concurso, bem como a festa das Noivas de Santo António (1996 em diante). Em 1997, a SIC gravou os espectáculos Aida, Pedro Abrunhosa e Delfins e, em 1998, produziu e realizou dois eventos mundiais que circularam em várias estações do mundo - Super Model of the World e Mister World – e transmitiu a Cimeira Ibero-Americana. Beleza e moda foram duas áreas de sucesso na SIC. Os concursos de misses atingiram grandes audiências. Também o mundo das vedetas do cinema e da música internacional tiveram cobertura por parte da programação da SIC. Felipa Garnel e Paulo Pires, aos sábados em horário nobre, apresentaram o programa Mundo VIP e entrevistaram Tom Cruise, Jodie Foster, Brian Adams, Woody Allen, Tina Turner e Michael Douglas, entre outros.
Como na informação, os programas de produção nacional produziram caras conhecidas do grande público. Algumas das mais notáveis estrelas da estação seriam Bárbara Guimarães, Catarina Furtado, Júlia Pinheiro, Fátima Lopes e Marina Mota. A sua notoriedade era visível no número de capas de jornais tablóides e revistas, em especial as de cor-de-rosa, com as fotografias e as histórias da intimidade das vedetas. Henrique Mendes, um outro rosto conhecido da SIC, fora estrela da rádio e da televisão pública muito tempo antes. Júlia Pinheiro teve a seu cargo dois dos programas que atingiram a maior das popularidades na SIC: Praça Pública e A Noite da Má-Língua. Embora distintos nas abordagens, um e outro juntavam a crítica social ao humor corrosivo sobre as questões actuais. Da fase mais popular da SIC no período entre 1992 e 1999, destaco ainda o programa Na Cama Com…, protagonizado pela actriz Alexandra Lencastre, o qual recebeu comentários de todo o país, favoráveis ou negativos. O programa de Alexandra Lencastre era um conjunto de entrevistas em que a animadora do programa, sentada na cama e de pijama, conversava com o seu convidado.
O sucesso do formato levou a actriz ao programa Parabéns, de Herman José, ainda na RTP, a 11 de Junho de 1994, em que o mote seria o programa da SIC. Curiosamente, numa troca constante de galhardetes entre canal público e SIC, e envolvendo sempre o entertainer Herman José, este apareceria no programa de Miguel Sousa Tavares, 20 Anos, 20 Nomes (SIC), e Francisco Pinto Balsemão (SIC) seria o entrevistado de Herman José, no mesmo programa Parabéns, a 1 de Outubro de 1994.
A programação infantil, embora incipiente no começo das emissões (Traquina, 1997: 65), passou a ser cuidadosamente desenhada, dado o perfil dos espectadores mais assíduos – as crianças. O Buéréré, apresentado por Ana Marques, compunha-se de dois momentos: as séries de animação e a participação de crianças em jogos e passatempos. Outros programas de elevada audiência foram as séries estrangeiras de desenhos animados. Em 1996, Dragon Ball bateu o recorde de audiências, enquanto Power Rangers e o Homem Aranha conheciam também a fama. Apesar da má qualidade dos bonecos, dos diálogos e da narrativa, o êxito do Dragon Ball tornou-se alvo de múltiplos estudos. Dragon Ball foi uma série repleta de combates intermináveis, onde os heróis morrem e ressuscitam, e que provocou uma longa discussão na imprensa e na internet e teve campanhas massivas de marketing (Miranda, 2000: 67). As campanhas em torno das séries de desenhos animados incluíam o merchandising, área em que o canal apostou dada a popularidade dos “bonecos” junto dos jovens espectadores com poder de compra.
Por virtude do interesse por parte do Estado em promover o cinema português, a SIC celebrou um valioso acordo de cooperação com o ministério da Cultura e o IPACA (posterior ICAM). Neste pacote, negociou-se a produção e realização de filmes como Tentação, Mortinho por chegar a casa e Afirma Pereira. Já no decurso de 1998, a SIC entrava na produção da grande ficção em português, com a realização da série Médico de Família. Outras séries marcantes seriam a do Século XX Português, onde se mostrou a história do século no nosso país, e Capitão Roby.
Assinalo ainda a importância dos produtores. Um deles é a Endemol, empresa associada a concursos (Chuva de Estrelas) e reality-shows (o mais famoso seria o Big Brother, que a concorrente TVI comprou). Um produtor oriundo do Brasil, Ediberto Lima, esteve ligado a programas de grande audiência, tais como Big Show SIC, Roda dos Milhões e Buéréré. Mais tarde, com o insucesso e as críticas em torno do Bar da Televisão, deixaria a SIC, mas regressou em 2002. O sucesso destes produtos televisivos (concursos, talk-shows, reality-shows) interessa aos canais de televisão porque representa custos baixos face a outros formatos, como as reportagens de investigação ou as séries de ficção nacional. A questão de orçamentos curtos está também na elevada compra de filmes e séries americanos (enlatados), que preenchem muitas horas de programação de entretenimento dos canais comerciais como a SIC.
[continua]
Comemora-se hoje o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data marca o aniversário da Declaração de Windhoek, uma declaração de princípios redigida por jornalistas africanos em 1991, que clamava por meios de comunicação sociais livres, independentes e pluralistas naquele continente e em todo mundo.
Este dia recorda os jornalistas mortos no cumprimento do seu dever profissional. Só no primeiro trimestre deste ano morreram 17 jornalistas. Em 2003, haviam falecido em serviço 36 jornalistas. Para a organização não governamental Freedom House, Portugal encontra-se em 18º lugar no ranking de países com mais liberdade de imprensa em 2003. O relatório avaliou meios da imprensa escrita, digital, radiofónica e televisiva, anotando casos graves na Rússia ou a Bolívia. Mas também refere a Itália, onde uma recentíssima lei do senado propôs um reforço do poder mediático do primeiro-ministro Berlusconi.
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - II PARTE
[continuação da mensagem de 29 de Abril]
Programação
Uma estação de televisão vive de programas que procuram alcançar o grande público. Muitos programas mantiveram-se durante anos, atestando o sucesso da sua fórmula; outros desapareceram rapidamente de cena. O objectivo deste ponto do artigo não é fazer o levantamento exaustivo dos programas ao longo dos dez anos de história da estação, mas fazer um retrato de alguns deles, bem como referir vários dos seus animadores, identificados com os programas.
Séries, telenovelas brasileiras, primeiro, e portuguesas, já no dobrar do século, concursos, talk-shows e reality-shows encontram-se entre as alavancas da programação que levaram à popularidade da SIC e ao seu contributo para a mudança do panorama audiovisual português. O formato das telenovelas brasileiras vinha já da RTP – basta lembrar o enorme sucesso que o canal público teve com Gabriela, do original de Jorge Amado. A SIC aproveitou a fórmula e, em especial, o contrato estabelecido com a estação brasileira Globo, que possuía um grande conhecimento do formato. Assim, não seria de admirar que, já em 1995, o programa mais visto fosse a telenovela A próxima vítima. Outras telenovelas de grande audiência seriam, ao longo da década, História de Amor, O Rei do Gado, A Indomada, Anjo Mau, Torre de Babel e Terra Nostra.
Várias fórmulas de programas fizeram fama, nomeadamente os de produção nacional, pelo que vale a pena debruçarmo-nos na análise de alguns deles. Um, o Ponto de Encontro seria a oportunidade de homens e mulheres contarem as suas histórias e reencontrarem familiares ou amigos, saindo de cena mais felizes e aliviados (Torres, 1998: 74). O povo que chorava e ria no momento do reencontro era bem tratado no talk-show, ao passo que Henrique Mendes se apagava no papel de entrevistador, o que conferia maior credibilidade às histórias dos convidados. Chuva de Estrelas foi um dos muitos programas emblemáticos da SIC, com apresentação sucessiva de Catarina Furtado e Bárbara Guimarães, dois dos mais conhecidos rostos femininos da estação de televisão. O desenrolar do concurso e a final do programa de cada ano tornaram-se uma festa popular, com detalhes específicos como imagens de mães a chorar, organização de claques e encenação das canções. Para além de apresentar os imitadores de canções internacionais conhecidas e em voga, o programa mostrava os bastidores – as pessoas por detrás dos cantores, as suas vidas, sonhos e projectos. Este lado preenchia um dos objectivos essenciais do canal: emocionar os telespectadores fazia parte do enquadramento social e popular de concursos e reality shows. A cantora Sara Tavares foi uma das grandes revelações do concurso.
Um programa que despertou discussão pública foi A Máquina da Verdade (1995). A polémica chegou logo no primeiro episódio, com o padre Frederico, então suspeito de associação a um escândalo sexual e à morte de um jovem seu protegido. No programa usava-se um detector de mentiras, levando o telespectador a acreditar nas reacções físicas dadas pela máquina. O assunto foi logo discutido na Assembleia da República. Do mesmo modo, a polémica instalou-se em A Cadeira do Poder (1997), animado por Artur Albarran. A primeira emissão referiu-se a um acidente que envolvia um secretário de Estado da Juventude. O Conselho de Ministros discutiu a emissão durante uma hora de reunião!
O desporto e a sua crítica conheceram êxito em Os Donos da Bola, o primeiro talk-show desportivo em directo na televisão, corria o ano de 1994. O programa assumiu uma postura anti-F. C. Porto, na altura em que o clube ganhara vários campeonatos de futebol seguidos. Data também desse período a relação entre SIC e Benfica, primeiro com a chegada ao poder de Manuel Damásio (1994), e, depois, em 1997, com a promoção e presidência de Vale e Azevedo. O entendimento passaria pela transmissão de desafios do Benfica no canal privado, retirando à RTP o monopólio no domínio do futebol. A SIC ligou-se ainda ao Sporting, ao patrocinar as camisolas da sua equipa de futebol sénior, em 1995.
Além da transmissão de acontecimentos desportivos, também as actividades musicais e as ligadas à moda fizeram parte dos objectivos da SIC nos anos de crescimento (1992-1994) e liderança (1995-1998). O canal esteve na Volta a Portugal em Bicicleta, no Rally de Portugal e transmitiu as marchas populares de Lisboa, quando a entidade organizadora – a Câmara Municipal – decidiu pôr a transmissão a concurso, bem como a festa das Noivas de Santo António (1996 em diante). Em 1997, a SIC gravou os espectáculos Aida, Pedro Abrunhosa e Delfins e, em 1998, produziu e realizou dois eventos mundiais que circularam em várias estações do mundo - Super Model of the World e Mister World – e transmitiu a Cimeira Ibero-Americana. Beleza e moda foram duas áreas de sucesso na SIC. Os concursos de misses atingiram grandes audiências. Também o mundo das vedetas do cinema e da música internacional tiveram cobertura por parte da programação da SIC. Felipa Garnel e Paulo Pires, aos sábados em horário nobre, apresentaram o programa Mundo VIP e entrevistaram Tom Cruise, Jodie Foster, Brian Adams, Woody Allen, Tina Turner e Michael Douglas, entre outros.
Como na informação, os programas de produção nacional produziram caras conhecidas do grande público. Algumas das mais notáveis estrelas da estação seriam Bárbara Guimarães, Catarina Furtado, Júlia Pinheiro, Fátima Lopes e Marina Mota. A sua notoriedade era visível no número de capas de jornais tablóides e revistas, em especial as de cor-de-rosa, com as fotografias e as histórias da intimidade das vedetas. Henrique Mendes, um outro rosto conhecido da SIC, fora estrela da rádio e da televisão pública muito tempo antes. Júlia Pinheiro teve a seu cargo dois dos programas que atingiram a maior das popularidades na SIC: Praça Pública e A Noite da Má-Língua. Embora distintos nas abordagens, um e outro juntavam a crítica social ao humor corrosivo sobre as questões actuais. Da fase mais popular da SIC no período entre 1992 e 1999, destaco ainda o programa Na Cama Com…, protagonizado pela actriz Alexandra Lencastre, o qual recebeu comentários de todo o país, favoráveis ou negativos. O programa de Alexandra Lencastre era um conjunto de entrevistas em que a animadora do programa, sentada na cama e de pijama, conversava com o seu convidado.
O sucesso do formato levou a actriz ao programa Parabéns, de Herman José, ainda na RTP, a 11 de Junho de 1994, em que o mote seria o programa da SIC. Curiosamente, numa troca constante de galhardetes entre canal público e SIC, e envolvendo sempre o entertainer Herman José, este apareceria no programa de Miguel Sousa Tavares, 20 Anos, 20 Nomes (SIC), e Francisco Pinto Balsemão (SIC) seria o entrevistado de Herman José, no mesmo programa Parabéns, a 1 de Outubro de 1994.
A programação infantil, embora incipiente no começo das emissões (Traquina, 1997: 65), passou a ser cuidadosamente desenhada, dado o perfil dos espectadores mais assíduos – as crianças. O Buéréré, apresentado por Ana Marques, compunha-se de dois momentos: as séries de animação e a participação de crianças em jogos e passatempos. Outros programas de elevada audiência foram as séries estrangeiras de desenhos animados. Em 1996, Dragon Ball bateu o recorde de audiências, enquanto Power Rangers e o Homem Aranha conheciam também a fama. Apesar da má qualidade dos bonecos, dos diálogos e da narrativa, o êxito do Dragon Ball tornou-se alvo de múltiplos estudos. Dragon Ball foi uma série repleta de combates intermináveis, onde os heróis morrem e ressuscitam, e que provocou uma longa discussão na imprensa e na internet e teve campanhas massivas de marketing (Miranda, 2000: 67). As campanhas em torno das séries de desenhos animados incluíam o merchandising, área em que o canal apostou dada a popularidade dos “bonecos” junto dos jovens espectadores com poder de compra.
Por virtude do interesse por parte do Estado em promover o cinema português, a SIC celebrou um valioso acordo de cooperação com o ministério da Cultura e o IPACA (posterior ICAM). Neste pacote, negociou-se a produção e realização de filmes como Tentação, Mortinho por chegar a casa e Afirma Pereira. Já no decurso de 1998, a SIC entrava na produção da grande ficção em português, com a realização da série Médico de Família. Outras séries marcantes seriam a do Século XX Português, onde se mostrou a história do século no nosso país, e Capitão Roby.
Assinalo ainda a importância dos produtores. Um deles é a Endemol, empresa associada a concursos (Chuva de Estrelas) e reality-shows (o mais famoso seria o Big Brother, que a concorrente TVI comprou). Um produtor oriundo do Brasil, Ediberto Lima, esteve ligado a programas de grande audiência, tais como Big Show SIC, Roda dos Milhões e Buéréré. Mais tarde, com o insucesso e as críticas em torno do Bar da Televisão, deixaria a SIC, mas regressou em 2002. O sucesso destes produtos televisivos (concursos, talk-shows, reality-shows) interessa aos canais de televisão porque representa custos baixos face a outros formatos, como as reportagens de investigação ou as séries de ficção nacional. A questão de orçamentos curtos está também na elevada compra de filmes e séries americanos (enlatados), que preenchem muitas horas de programação de entretenimento dos canais comerciais como a SIC.
[continua]
domingo, 2 de maio de 2004
ENCONTRO DE BLOGUISTAS EM VILA NOVA DE GAIA
Compareceram 36 blogistas e acompanhantes, perfazendo um total de 53 comensais. Foi um almoço-confraternização que decorreu durante cerca de cinco horas e onde falámos desta paixão comum que são os blogues - como apareceram, como nos envolvemos e como vai ser o futuro deles. Para além do almoço, eu aproveitei para tomar umas notas e fazer um pequeno inquérito, procurando saber a data de início do blogue, o tema, a idade do bloguista, a profissão e a média de mensagens semanais.
Mini-inquérito
Da recolha do inquérito, tenho os seguintes dados:
Data de início da actividade do blogue: 1º trimestre de 2003 - 1; 2º trimestre de 2003 - 4; 3º trimestre de 2003 - 14, 4º trimestre de 2003 - 9; 1º trimestre de 2004 - 8. Os meses de maior actividade foram Julho (7 novos blogues) e Agosto (6 novos blogues). Dos bloguistas presentes no almoço, o arranque desta actividade centra-se em especial na segunda metade do ano passado, e nos meses considerados de férias, o que demonstra a atitude de reservar os tempos livres para uma nova actividade. A sua durabilidade é já uma prova de empenho e resistência.
Áreas temáticas: generalidades - 17; literatura e cultura - 4; actualidades - 2; rádio, política, associativismo por uma causa social, tema quente, viagens, conhecimento, vida quotidiana, astronomia, jogos de palavras, desenhos animados, sobre o absurdo das coisas, enfermagem, direito à paisagem (um blogue cada por área temática). Notas: a área que eu designei por tema quente tinha uma expressão hard, que não posso aqui reproduzir; a área classificada como viagens é a de um bloguista que conta as histórias das suas deslocações profissionais em camião pela Europa. De outro modo, podia classificar em 17 blogues generalistas e 19 especialistas. Destes, quero salientar um profissional (enfermagem) e outro associativo e de apoio social, o blogue dedicado à causa dos cidadãos auto-mobilizados.
Idade dos bloguistas: até aos 25 anos - 4; dos 26 aos 35 anos - 17; dos 36 aos 45 anos - 10; acima dos 46 anos - 4; N/R - 1. Notas: um dos bloguistas tem 7 anos; de um blogue colectivo, a que responderam duas bloguistas, considerei a média etária. No encontro, esteve mais bem representada a classe etária dos 26 aos 35 anos (47,2%), seguindo-se a do nível etário 36-45 anos (27,8%).
Concelho em que residem os bloguistas: Porto - 11; Lisboa - 8; Braga - 4; Vila Nova de Gaia - 3; Alcanena, Castelo de Paiva, Caldas da Raínha, Coimbra, Leiria, Matosinhos, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Noruega [país onde reside o profissional de transportes] (um blogue por concelho). Dado que o encontro se realizou em Vila Nova de Gaia, houve um número mais significativo de participantes dessa zona do país. Contudo, se contarmos os participantes de Coimbra para sul, incluindo esta cidade, houve 12 participantes, que corresponde a um terço do total.
Média semanal das mensagens: de uma a três - 5; de quatro a cinco - 9; de seis a dez - 12; de onze a vinte - 7; mais de vinte - 1; NS/NR - 2. O(a) blogista que produz mais de vinte mensagens por semana só escreveu 1250 mensagens nos primeiros quatro meses do ano (121 dias), isto é, uma média de 10,3 mensagens por dia! Terei feito bem as contas?
Profissões/actividades: como o inquérito teve uma base muito informal, coloquei perguntas fechadas e sem opções, com um campo de respostas menos bem definido. Por isso, fica aqui um retrato aproximado (num outro inquérito procurarei ser mais rigoroso): profissões de grande exigência científica (medicina, engenharia, arquitectura, etc.) - 8; professores - 8; empresários e gestores - 4; quadros superiores e técnicos - 3; estudantes - 3; transportes - 2; arte e música - 2; empregados qualificados - 2; empregados - 2; jornalista - 1; reformado - 1.
Elementos qualitativos constantes na coluna de "observações": os blogues como defesa da desintermediação [por oposição à intermediação jornalística], partilha enquanto acto livre e fuga à vida solitária. Um dos respondentes ao inquérito anotou que apagou todas as mensagens devido à perda de anonimato que imprimira ao seu blogue, embora equacione retomar a actividade em breve.
Das notas que tomei, como se fosse antropólogo
Alguns dos blogues presentes têm e defendem a existência de linha editorial, de modo aproximado a um outro meio de comunicação. Mas com outros princípios, como aceitar a crítica vinda dos comentários dos internautas e não falar da vida íntima. Para outros dos presentes, o blogue exerce uma função terapêutica e opera num domínio de sofisticação, pois a mensagem que se coloca neste diário é simultaneamente privada e pública, o que obriga a uma elaboração mais elevada. Uma das bloguistas falou da angústia em não ter tempo de escrever um dado dia, quando descobriu que 600 internautas procuraram o seu blogue nesse mesmo dia. Até parece, pois, um vício: o blogue tem uma função de descompressão, mas a pressão dos que procuram o blogue acaba por "obrigar" a uma maior produção de mensagens. Outro bloguista mostrava o seu contentamento pela descoberta de um mundo diferente para além daquele que ele conhecia. Isto é, há uma realidade mais variada do que aquela que julgamos existir.
O que impressionou a todos(as) foi o à-vontade que manifestaram desde o primeiro momento, como se houvesse um conhecimento prévio uns dos outros. Dizia um dos presentes que ali se entenderiam em matéria política, desportiva ou filosófica, cabendo todos os estratos sociais e profissionais, dando exemplos concretos de bloguistas ali presentes. É que a blogosfera ilustra a capacidade humana de comunicar, com abolição de fronteiras como as do tipo que referi acima (o clube ou a tendência individual para...). E contaram-se muitas histórias de blogues, como os das mães que escrevem o dia-a-dia com os filhos, a sua alimentação, os seus problemas, como se contaram as histórias dos jornalistas do Primeiro de Janeiro recentemente despedidos por criarem um blogue criticando a situação interna da redacção e das chefias. E de outro blogue de uma desempregada que narrava as entrevistas que ia obtendo para arranjar emprego, até que o conseguiu e encerrou o blogue.
Além disso, o blogue é um meio alternativo, não restringido pelo filtro do editor de um meio profissional de comunicação [o gatekeeper, como se aprende em teoria do jornalismo]. É certo que o bloguista faz uma selecção do material que edita, mas não está sujeito a culturas e políticas de redacção, que passam também por critérios económicos. O bloguista tem liberdade total para falar dos seus gostos e preferências, sem limite de espaço. Ser lido ou não é outro problema, mas não está sujeito às leis do mercado e das audiências e vendas.
Resumindo, o que apurei está longe de ser uma amostra representativa dos bloguistas nacionais, mas tão só dos que estiveram em Vila Nova de Gaia. Por outro lado, a blogosfera ali presente (e toda a ausente) significa um tipo diferente de comunidade [ou tribo, como lhe chamo] em constante dinamismo, que se configura e reconfigura (isto é, muda de forma), com laços e afectos humanos cada vez maiores. A convidar a ler ou reler Manuel Castells.
O meu obrigado ao Orlando Braga pela organização, ao Jorge Guimarães Silva pelas boleias (de funicular e de táxi) e a todos pelos prazer da conversa e por terem respondido amavelmente ao meu inquérito.
[com intervalos, conclui esta mensagem às 20:00]
INVESTIMENTO PUBLICITÁRIO
Do Expresso de ontem, retirei a informação respeitante aos investimentos publicitários no primeiro trimestre de 2004, obtida a partir dos relatórios das empresas mediáticas. Assim, a Impresa (a que o Expresso, a Visão e a SIC pertencem) teve €37,758 milhões (aumento de 17,6%), a Media Capital (a que pertencem a TVI e a Rádio Comercial) teve €32,449 milhões (aumento de 7,7%), a Lusomundo (a que pertencem o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, o 24 Horas e a TSF) teve €16,4 milhões (aumento de 2,3%), a RTP teve €11,7 milhões (mais 17%), a Investec (Correio da Manhã e Record) teve €11,178 milhões (aumento de 15,2%), a TV Cabo teve €3,9 milhões (mais 39,3%) e o Público teve €3,559 milhões (perda de 1,2%). Exceptuando este jornal, do grupo Sonae, o comportamento dos outros grupos foi bom, tendo alguns subido bastante em termos de investimento publicitário, o que pode indiciar - como já escrevi aqui - a retoma económica. Nota: sobre as variações percentuais não sei se se referem ao trimestre anterior ou a período homólogo de 2003.
MUSEU DA RÁDIO EM PERIGO
Noticiou o Público de ontem que o Museu da Rádio está em perigo. Isto porque poderá perder a sua autonomia (pertencia à RDP) ao passar para o Museu das Comunicações. A administração da RTP (Rádio e Televisão de Portugal) - que aglutina as anteriores RDP e RTP (rádio e televisão públicas) - terá transmitido aos funcionários do Museu da Rádio a intenção de dividir a colecção do museu em quatro grupos: peças consideradas para exposição; fundo de reserva; peças alienáveis; venda para sucata.
Se a notícia tem veracidade, trata-se de uma atitude lesiva de enorme gravidade. O museu da Rádio é um espólio magnífico e parece-me incrível considerar peças alienáveis e para a sucata. Quem conhece o museu sabe que tal posição é estranha. Basta percorrer todas as salas do museu para ficar arrepiado com a ideia de deitar fora seja o que for.
Claro que, desde há muito tempo, se vem falando desta passagem para o museu a cargo da Fundação Portuguesa das Comunicações, que a peça jornalística assinada por Clara Teixeira nunca enuncia. A meu ver, há duas posições: a de se manter o acervo museológico da rádio nas mãos da RTP; a de integrar esse espólio na Fundação Portuguesa das Comunicações. Ambas as posições representam ameaças e oportunidades. Ameaça, porque a rádio se integrará num corpo mais vasto de conhecimento e perde, por isso, a sua identificação total; oportunidade, porque a Fundação terá boas condições para acolher as peças, os equipamentos e tudo que reside na rua do Quelhas. A Fundação Portuguesa das Comunicações tem a seu cargo um património de valor incalculável no domínio das telecomunicações, sendo que parte (chamemos-lhe reserva) se encontra num edifício da rua Visconde de Santarém. E tem um arquivo de comunicações que o Museu da Rádio não tem quanto à rádio. Digo isto porque o meu livro Olhos de boneca (Colibri, 1999), sobre telecomunicações, se baseou em muita da informação existente no arquivo documental e fotográfico da Fundação, e porque os textos que publiquei sobre rádio (revistas Observatório, Jornalismo e Jornalistas e Media & Jornalismo) partiram de algumas pastas de arquivo sobre rádio existente na Fundação.
Por mim, ficarei ansiosamente à espera de não ver confirmadas as suspeitas levantadas por esta notícia. E associarei a minha modesta voz para que se impeça tal risco. E sei que os blogues da rádio também o farão.
NO BRASIL, REGRESSA A FORÇA DA GLOBO
Vem hoje no jornal Folha de São Paulo que a rede de televisão Globo, após uma fase difícil, está a conseguir sucesso simultâneo com três novelas no Brasil. Assinado por Laura Mattos, a peça informa que a “direcção da TV Globo está andando nas nuvens”. É que as três fazem grande sucesso em termos de audiência, de acordo com os estudos do Ibope. Elas são exactamente Celebridade, Da cor do pecado e Chocolate com pimenta, que os telespectadores portugueses estão a acompanhar na SIC, e põe por agora fim às “discussões sobre um possível esgotamento dos folhetins”. O tema, apoiado pela expansão dos reality shows, “chegou a ser debatido em reuniões de autores da emissora”, de acordo com a jornalista.
Por exemplo, a novela Da cor do pecado tem a primeira protagonista negra da história da Globo, o que fez as pazes com os direitos humanos. Até agora (80 capítulos), a telenovela regista 41 pontos de média. Escreve ainda a jornalista que a telenovela “tem edição moderna, humor e núcleo teen. Mas o eixo é o folhetim, com amores e desencontros”. E considera-se que a Globo não tem concorrência sólida, mas tão só sucessos pontuais, como o Ratinho e os policiais. Com Laura Mattos a citar um publicitário que diz que o erro de alguns canais tem sido não manterem a programação durante uma crise: "A Globo manteve as novelas até a má fase passar, um bom sinal para o mercado e o espectador" (dica de Daniela Bertocchi, do blogue Intermezzo, a quem agradeço).
[texto concluido às 21:35]
Compareceram 36 blogistas e acompanhantes, perfazendo um total de 53 comensais. Foi um almoço-confraternização que decorreu durante cerca de cinco horas e onde falámos desta paixão comum que são os blogues - como apareceram, como nos envolvemos e como vai ser o futuro deles. Para além do almoço, eu aproveitei para tomar umas notas e fazer um pequeno inquérito, procurando saber a data de início do blogue, o tema, a idade do bloguista, a profissão e a média de mensagens semanais.
Mini-inquérito
Da recolha do inquérito, tenho os seguintes dados:
Data de início da actividade do blogue: 1º trimestre de 2003 - 1; 2º trimestre de 2003 - 4; 3º trimestre de 2003 - 14, 4º trimestre de 2003 - 9; 1º trimestre de 2004 - 8. Os meses de maior actividade foram Julho (7 novos blogues) e Agosto (6 novos blogues). Dos bloguistas presentes no almoço, o arranque desta actividade centra-se em especial na segunda metade do ano passado, e nos meses considerados de férias, o que demonstra a atitude de reservar os tempos livres para uma nova actividade. A sua durabilidade é já uma prova de empenho e resistência.
Áreas temáticas: generalidades - 17; literatura e cultura - 4; actualidades - 2; rádio, política, associativismo por uma causa social, tema quente, viagens, conhecimento, vida quotidiana, astronomia, jogos de palavras, desenhos animados, sobre o absurdo das coisas, enfermagem, direito à paisagem (um blogue cada por área temática). Notas: a área que eu designei por tema quente tinha uma expressão hard, que não posso aqui reproduzir; a área classificada como viagens é a de um bloguista que conta as histórias das suas deslocações profissionais em camião pela Europa. De outro modo, podia classificar em 17 blogues generalistas e 19 especialistas. Destes, quero salientar um profissional (enfermagem) e outro associativo e de apoio social, o blogue dedicado à causa dos cidadãos auto-mobilizados.
Idade dos bloguistas: até aos 25 anos - 4; dos 26 aos 35 anos - 17; dos 36 aos 45 anos - 10; acima dos 46 anos - 4; N/R - 1. Notas: um dos bloguistas tem 7 anos; de um blogue colectivo, a que responderam duas bloguistas, considerei a média etária. No encontro, esteve mais bem representada a classe etária dos 26 aos 35 anos (47,2%), seguindo-se a do nível etário 36-45 anos (27,8%).
Concelho em que residem os bloguistas: Porto - 11; Lisboa - 8; Braga - 4; Vila Nova de Gaia - 3; Alcanena, Castelo de Paiva, Caldas da Raínha, Coimbra, Leiria, Matosinhos, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Noruega [país onde reside o profissional de transportes] (um blogue por concelho). Dado que o encontro se realizou em Vila Nova de Gaia, houve um número mais significativo de participantes dessa zona do país. Contudo, se contarmos os participantes de Coimbra para sul, incluindo esta cidade, houve 12 participantes, que corresponde a um terço do total.
Média semanal das mensagens: de uma a três - 5; de quatro a cinco - 9; de seis a dez - 12; de onze a vinte - 7; mais de vinte - 1; NS/NR - 2. O(a) blogista que produz mais de vinte mensagens por semana só escreveu 1250 mensagens nos primeiros quatro meses do ano (121 dias), isto é, uma média de 10,3 mensagens por dia! Terei feito bem as contas?
Profissões/actividades: como o inquérito teve uma base muito informal, coloquei perguntas fechadas e sem opções, com um campo de respostas menos bem definido. Por isso, fica aqui um retrato aproximado (num outro inquérito procurarei ser mais rigoroso): profissões de grande exigência científica (medicina, engenharia, arquitectura, etc.) - 8; professores - 8; empresários e gestores - 4; quadros superiores e técnicos - 3; estudantes - 3; transportes - 2; arte e música - 2; empregados qualificados - 2; empregados - 2; jornalista - 1; reformado - 1.
Elementos qualitativos constantes na coluna de "observações": os blogues como defesa da desintermediação [por oposição à intermediação jornalística], partilha enquanto acto livre e fuga à vida solitária. Um dos respondentes ao inquérito anotou que apagou todas as mensagens devido à perda de anonimato que imprimira ao seu blogue, embora equacione retomar a actividade em breve.
Das notas que tomei, como se fosse antropólogo
Alguns dos blogues presentes têm e defendem a existência de linha editorial, de modo aproximado a um outro meio de comunicação. Mas com outros princípios, como aceitar a crítica vinda dos comentários dos internautas e não falar da vida íntima. Para outros dos presentes, o blogue exerce uma função terapêutica e opera num domínio de sofisticação, pois a mensagem que se coloca neste diário é simultaneamente privada e pública, o que obriga a uma elaboração mais elevada. Uma das bloguistas falou da angústia em não ter tempo de escrever um dado dia, quando descobriu que 600 internautas procuraram o seu blogue nesse mesmo dia. Até parece, pois, um vício: o blogue tem uma função de descompressão, mas a pressão dos que procuram o blogue acaba por "obrigar" a uma maior produção de mensagens. Outro bloguista mostrava o seu contentamento pela descoberta de um mundo diferente para além daquele que ele conhecia. Isto é, há uma realidade mais variada do que aquela que julgamos existir.
O que impressionou a todos(as) foi o à-vontade que manifestaram desde o primeiro momento, como se houvesse um conhecimento prévio uns dos outros. Dizia um dos presentes que ali se entenderiam em matéria política, desportiva ou filosófica, cabendo todos os estratos sociais e profissionais, dando exemplos concretos de bloguistas ali presentes. É que a blogosfera ilustra a capacidade humana de comunicar, com abolição de fronteiras como as do tipo que referi acima (o clube ou a tendência individual para...). E contaram-se muitas histórias de blogues, como os das mães que escrevem o dia-a-dia com os filhos, a sua alimentação, os seus problemas, como se contaram as histórias dos jornalistas do Primeiro de Janeiro recentemente despedidos por criarem um blogue criticando a situação interna da redacção e das chefias. E de outro blogue de uma desempregada que narrava as entrevistas que ia obtendo para arranjar emprego, até que o conseguiu e encerrou o blogue.
Além disso, o blogue é um meio alternativo, não restringido pelo filtro do editor de um meio profissional de comunicação [o gatekeeper, como se aprende em teoria do jornalismo]. É certo que o bloguista faz uma selecção do material que edita, mas não está sujeito a culturas e políticas de redacção, que passam também por critérios económicos. O bloguista tem liberdade total para falar dos seus gostos e preferências, sem limite de espaço. Ser lido ou não é outro problema, mas não está sujeito às leis do mercado e das audiências e vendas.
Resumindo, o que apurei está longe de ser uma amostra representativa dos bloguistas nacionais, mas tão só dos que estiveram em Vila Nova de Gaia. Por outro lado, a blogosfera ali presente (e toda a ausente) significa um tipo diferente de comunidade [ou tribo, como lhe chamo] em constante dinamismo, que se configura e reconfigura (isto é, muda de forma), com laços e afectos humanos cada vez maiores. A convidar a ler ou reler Manuel Castells.
O meu obrigado ao Orlando Braga pela organização, ao Jorge Guimarães Silva pelas boleias (de funicular e de táxi) e a todos pelos prazer da conversa e por terem respondido amavelmente ao meu inquérito.
[com intervalos, conclui esta mensagem às 20:00]
INVESTIMENTO PUBLICITÁRIO
Do Expresso de ontem, retirei a informação respeitante aos investimentos publicitários no primeiro trimestre de 2004, obtida a partir dos relatórios das empresas mediáticas. Assim, a Impresa (a que o Expresso, a Visão e a SIC pertencem) teve €37,758 milhões (aumento de 17,6%), a Media Capital (a que pertencem a TVI e a Rádio Comercial) teve €32,449 milhões (aumento de 7,7%), a Lusomundo (a que pertencem o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, o 24 Horas e a TSF) teve €16,4 milhões (aumento de 2,3%), a RTP teve €11,7 milhões (mais 17%), a Investec (Correio da Manhã e Record) teve €11,178 milhões (aumento de 15,2%), a TV Cabo teve €3,9 milhões (mais 39,3%) e o Público teve €3,559 milhões (perda de 1,2%). Exceptuando este jornal, do grupo Sonae, o comportamento dos outros grupos foi bom, tendo alguns subido bastante em termos de investimento publicitário, o que pode indiciar - como já escrevi aqui - a retoma económica. Nota: sobre as variações percentuais não sei se se referem ao trimestre anterior ou a período homólogo de 2003.
MUSEU DA RÁDIO EM PERIGO
Noticiou o Público de ontem que o Museu da Rádio está em perigo. Isto porque poderá perder a sua autonomia (pertencia à RDP) ao passar para o Museu das Comunicações. A administração da RTP (Rádio e Televisão de Portugal) - que aglutina as anteriores RDP e RTP (rádio e televisão públicas) - terá transmitido aos funcionários do Museu da Rádio a intenção de dividir a colecção do museu em quatro grupos: peças consideradas para exposição; fundo de reserva; peças alienáveis; venda para sucata.
Se a notícia tem veracidade, trata-se de uma atitude lesiva de enorme gravidade. O museu da Rádio é um espólio magnífico e parece-me incrível considerar peças alienáveis e para a sucata. Quem conhece o museu sabe que tal posição é estranha. Basta percorrer todas as salas do museu para ficar arrepiado com a ideia de deitar fora seja o que for.
Claro que, desde há muito tempo, se vem falando desta passagem para o museu a cargo da Fundação Portuguesa das Comunicações, que a peça jornalística assinada por Clara Teixeira nunca enuncia. A meu ver, há duas posições: a de se manter o acervo museológico da rádio nas mãos da RTP; a de integrar esse espólio na Fundação Portuguesa das Comunicações. Ambas as posições representam ameaças e oportunidades. Ameaça, porque a rádio se integrará num corpo mais vasto de conhecimento e perde, por isso, a sua identificação total; oportunidade, porque a Fundação terá boas condições para acolher as peças, os equipamentos e tudo que reside na rua do Quelhas. A Fundação Portuguesa das Comunicações tem a seu cargo um património de valor incalculável no domínio das telecomunicações, sendo que parte (chamemos-lhe reserva) se encontra num edifício da rua Visconde de Santarém. E tem um arquivo de comunicações que o Museu da Rádio não tem quanto à rádio. Digo isto porque o meu livro Olhos de boneca (Colibri, 1999), sobre telecomunicações, se baseou em muita da informação existente no arquivo documental e fotográfico da Fundação, e porque os textos que publiquei sobre rádio (revistas Observatório, Jornalismo e Jornalistas e Media & Jornalismo) partiram de algumas pastas de arquivo sobre rádio existente na Fundação.
Por mim, ficarei ansiosamente à espera de não ver confirmadas as suspeitas levantadas por esta notícia. E associarei a minha modesta voz para que se impeça tal risco. E sei que os blogues da rádio também o farão.
NO BRASIL, REGRESSA A FORÇA DA GLOBO
Vem hoje no jornal Folha de São Paulo que a rede de televisão Globo, após uma fase difícil, está a conseguir sucesso simultâneo com três novelas no Brasil. Assinado por Laura Mattos, a peça informa que a “direcção da TV Globo está andando nas nuvens”. É que as três fazem grande sucesso em termos de audiência, de acordo com os estudos do Ibope. Elas são exactamente Celebridade, Da cor do pecado e Chocolate com pimenta, que os telespectadores portugueses estão a acompanhar na SIC, e põe por agora fim às “discussões sobre um possível esgotamento dos folhetins”. O tema, apoiado pela expansão dos reality shows, “chegou a ser debatido em reuniões de autores da emissora”, de acordo com a jornalista.
Por exemplo, a novela Da cor do pecado tem a primeira protagonista negra da história da Globo, o que fez as pazes com os direitos humanos. Até agora (80 capítulos), a telenovela regista 41 pontos de média. Escreve ainda a jornalista que a telenovela “tem edição moderna, humor e núcleo teen. Mas o eixo é o folhetim, com amores e desencontros”. E considera-se que a Globo não tem concorrência sólida, mas tão só sucessos pontuais, como o Ratinho e os policiais. Com Laura Mattos a citar um publicitário que diz que o erro de alguns canais tem sido não manterem a programação durante uma crise: "A Globo manteve as novelas até a má fase passar, um bom sinal para o mercado e o espectador" (dica de Daniela Bertocchi, do blogue Intermezzo, a quem agradeço).
[texto concluido às 21:35]
sábado, 1 de maio de 2004
ALMOÇO DE BLOGUISTAS
Hoje, vou ao Porto, para um almoço de bloguistas. Para voltar a ver a tribo da nova era electrónica. A última vez foi em Lisboa, no mercado da Ribeira, para apresentação do livro do Paulo Querido e Luís Ene. A primeira vez foi em Braga, num encontro na Universidade do Minho, em Setembro de 2003.
Depois, conto as minhas impressões.
Hoje, vou ao Porto, para um almoço de bloguistas. Para voltar a ver a tribo da nova era electrónica. A última vez foi em Lisboa, no mercado da Ribeira, para apresentação do livro do Paulo Querido e Luís Ene. A primeira vez foi em Braga, num encontro na Universidade do Minho, em Setembro de 2003.
Depois, conto as minhas impressões.
sexta-feira, 30 de abril de 2004
DOWNLOADS LEGAIS NA MÚSICA
O texto publicado anteontem, dia 28, no Diário de Notícias, e assinado por Nuno Galopim, sobre downloads legais na música é uma peça importante para a compreensão do fenómeno musical dos nossos dias (peça que eu sigo nesta mensagem).
Escreve Nuno Galopim que a venda de downloads de música em 2003 fez com que aumentasse, nos Estados Unidos, o volume de negócios numa área que denunciava fraqueza nos anos recentes. O cenário do futuro do comércio da música passa essencialmente pelo acesso directo a plataformas e servidores on-line. Trata-se, claro, de uma estratégia destinada a estancar a pirataria digital, através da oferta de downloads legais a um preço acessível.
As multinacionais abriram até departamentos de new media, preparando e acompanhando os negócios de venda de música pela internet, para suportes como os ipods, telemóveis ou burning (gravação de ficheiros áudio em CD). E na Europa? O site iTunes espera a aprovação da convenção da "Directiva do direito de autor" e direitos relacionados com a sociedade da informação.
Das multinacionais, a Universal tem 70% do seu catálogo digitalizado e pronto a ceder conteúdos a parceiros (e-partners) ou revendedores (e-tailors). A editora prevê a venda de cada tema a 1,4 euros, baixando para 0,8 euros quando o tema tem seis meses (mid-price) e 0,6 euros quando o tema atinge um ano (budget). No caso do catálogo nacional, estão a ser digitalizadas as gravações no sentido das mais recentes para as mais antigas. Os Madredeus e Mariza estão neste lote. Mas só haverá novidades no final deste ano. A Sony Music e a Warner já têm os seus catálogos totalmente digitalizados, enquanto a BMG ainda não tem uma proposta concreta. A Zona Música vende discos on-line e está a preparar o catálogo para downloads, enquanto a Som Livre prepara a sua proposta e a Loop Recordings reconhece o atraso.
Mas isto não implica o fim do retalho tradicional. É o caso das lojas Valentim de Carvalho, que já mostrou o seu interesse em ter estações de burning (gravação de ficheiros áudio em CD) nos seus espaços de venda.
NOTAS SOBRE A MEDIÇÃO DE AUDIÊNCIAS - PARTE II
O primeiro estudo de audiências em Portugal realizou-se em 1970-1971, por uma empresa chamada IPOP. Até então, não havia simplesmente qualquer informação sobre o comportamento das audiências face aos meios de comunicação. Depois, surgiria uma nova empresa, a Norma, responsável por outros estudos, no período de 1974 a 1980. Nesta altura, surge a Marktest (ver post de 24 de Abril), avançando com o estudo de meios BAREME (Base Regular de Meios), já com o dr. Luís Queirós à frente desta empresa.
Em 1990, funda-se a primeira central de meios, e que se distingue das até então designadas agências de publicidade de serviço completo. Estas tinham duas componentes: 1) criatividade (filmes, spots), 2) planificação dos meios (estratégias: onde colocar, quando, por que custo). A central de meios assume esta segunda componente. Com o aparecimento das televisões privadas (SIC, 1992; TVI, 1993), complexifica-se a necessidade de saber quem vê que programas, para melhor colocação dos anúncios. Até aí, havia apenas dois preços tabelados para a publicidade televisiva: antes e depois das 20 horas. Hoje, a segmentação pode chegar aos 50 preços, atendendo ao horário. Se considerarmos a existência de 200 programas de televisão, cada um com o seu preço, atendendo ao volume da audiência e a sua segmentação por públicos-alvo, depressa se compreende a complexidade e a necessidade de montar um sistema eficaz, para responder aos interesses diferentes dos anunciantes e dos canais de televisão. Ganha corpo o estudo da Audimetria, diferente do BAREME, pois este assenta em entrevistas a pessoas e aquela tem por base uma amostra de lares e um equipamento electrónico (o audímetro).
Dada a sua importância e o controlo, para garantir rigor nas medições, fundou-se em 1993 a CAEM (Comissão de Análise de Estudos de Meios), uma associação que avançou com dois sócios fortes, a APAN (Associação Portuguesa de Anunciantes) e a APAP (Associação Portuguesa de Agências de Publicidade e Comunicação). Esta última envolve centrais de meios e agências criativas. Para a CAEM entrou um terceiro grupo de sócios, os canais de televisão, interessados na audimetria (RTP, SIC, TVI e TV Cabo), a imprensa (representada pela AIND, actualmente Associação Portuguesa de Imprensa) e a rádio, através da APR (Associação Portuguesa de Rádio). A nível individual, e mais recentemente, entraram a Rádio Renascença, a RDP (agora associada à televisão pública, pois estão integradas numa só empresa) e os operadores de outdoors (J C Decaux, Cemusa).
A actividade propriamente dita da CAEM começaria em 1998, como entidade reguladora dos estudos de audiência, ou seja, o trabalho desenvolvido pela Marktest passou a ser acompanhado. Em 2000, foi iniciada uma auditoria pelo consultor Ernst & Young, que apresentou o relatório, em 2001, confirmando o bom funcionamento da audimetria desenvolvido pela Marktest. Comprovou-se a existência dos audímetros e da sua fiabilidade, e elaborou-se um manual de procedimentos (amostra, universo), a cumprir escrupulosamente pela empresa Marktest. Esta empresa, ou grupo de empresas, detém a análise de audiências em regime de exclusividade no país, embora entre 1998 e 1999 houvesse outra empresa também a medir audiências (a resolução, após alguma conflitualidade, foi abrir concurso e atribuir o trabalho à empresa que o está a fazer neste momento).
Refira-se que a atenção concedida à audimetria é feita dado que 66% do investimento publicitário passa pela televisão, valor que baixa para a casa dos 20% na imprensa e 10% na rádio. Frise-se que está em discussão o estudo de audiência nos outdoors. O ano passado, com as audiências televisivas a baixarem, houve pressão pelos canais para alterações no manual de procedimentos que classifica a medição de audiências, mas prevaleceu o bom senso pois mudar implica ajustes muito pequenos mas que podem alterar o equilíbrio existente previamente. Finalmente, está em fase de teste um novo tipo de análise da audiência que, a ser aprovado, será implementado apenas depois de 2006, o PPM (Personal People Meter), espécie de pager, e que alterará a filosofia de medição. Deixará de ser um painel de lares para passar a uma amostra aleatória de, possivelmente, mil a duas mil pessoas (como ocorre com o BAREME).
[A partir de uma aula do dr. José de Freitas, director executivo da CAEM]
José de Freitas por ele próprio
"A CAEM preocupa-se e analisa todos os estudos de meios disponíveis no mercado. Referimo-nos à audimetria e aos estudos de imprensa, rádio e Internet e, num futuro próximo, muito provavelmente, à publicidade exterior. Esta análise incide sobre a concepção dos estudos, construção das amostras representativas dos universos, procedimentos a ter em conta e métodos utilizados na recolha da informação, de modo que os resultados finais disponibilizados sejam a melhor informação possível das audiências dos vários meios.
"Estas discussões e decisões sobre processos técnicos, estatísticos e metodológicos assentam em opiniões, normalmente consensuais, para que a informação final seja fiável, fidedigna e aceite por todos os utilizadores dos estudos.
"[...] Deste modo, julgo que é indispensável que exista a CAEM, órgão regulador - esta expressão neste contexto pode ter uma interpretação desadequada, mas vou mantê-la - das exigências a colocar às empresas fornecedoras desta informação, garantindo que temos audiências «bem medidas»" [José de Freitas, 2003, "Expectativas da CAEM em sede da futura regulação sectorial dos media em Portugal", Observatório, nº 8, Dezembro) [comunicação à conferência internacional "Reflexões sobre a regulação do sector da comunicação em Portugal", em 10 de Dezembro de 2003, realizado pelo Obercom e pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, nesta escola].
[mensagem acrescentada às 14:02]
[actualização a 11 de Setembro de 2008]
Um leitor atento do blogue fez-me chegar as seguintes correcções a esta mensagem, que agradeço e passo a referir:
1. O primeiro estudo de audiência de imprensa foi realizado e publicado, em 1952, pelo Dr. Salviano Cruz, na Revista de Pesquisas Económicas e Sociais (vol.II, Setembro-Dezembro 1952),
2. Entre 1980 e 1982, a Teor instalou um painel semanal de audiência e avaliação dos progamas da RTP,
3. A NORMA realizou Estudos de Audiência de Meios até 1990, criou a primeira base de dados interactiva online, com a audiência de todos os meios de comunicação, para utilização pelas agências de publicidade e outros clientes. Em 1990, instalou o sistema de audimetria para a audiência de televisão.
O texto publicado anteontem, dia 28, no Diário de Notícias, e assinado por Nuno Galopim, sobre downloads legais na música é uma peça importante para a compreensão do fenómeno musical dos nossos dias (peça que eu sigo nesta mensagem).
Escreve Nuno Galopim que a venda de downloads de música em 2003 fez com que aumentasse, nos Estados Unidos, o volume de negócios numa área que denunciava fraqueza nos anos recentes. O cenário do futuro do comércio da música passa essencialmente pelo acesso directo a plataformas e servidores on-line. Trata-se, claro, de uma estratégia destinada a estancar a pirataria digital, através da oferta de downloads legais a um preço acessível.
As multinacionais abriram até departamentos de new media, preparando e acompanhando os negócios de venda de música pela internet, para suportes como os ipods, telemóveis ou burning (gravação de ficheiros áudio em CD). E na Europa? O site iTunes espera a aprovação da convenção da "Directiva do direito de autor" e direitos relacionados com a sociedade da informação.
Das multinacionais, a Universal tem 70% do seu catálogo digitalizado e pronto a ceder conteúdos a parceiros (e-partners) ou revendedores (e-tailors). A editora prevê a venda de cada tema a 1,4 euros, baixando para 0,8 euros quando o tema tem seis meses (mid-price) e 0,6 euros quando o tema atinge um ano (budget). No caso do catálogo nacional, estão a ser digitalizadas as gravações no sentido das mais recentes para as mais antigas. Os Madredeus e Mariza estão neste lote. Mas só haverá novidades no final deste ano. A Sony Music e a Warner já têm os seus catálogos totalmente digitalizados, enquanto a BMG ainda não tem uma proposta concreta. A Zona Música vende discos on-line e está a preparar o catálogo para downloads, enquanto a Som Livre prepara a sua proposta e a Loop Recordings reconhece o atraso.
Mas isto não implica o fim do retalho tradicional. É o caso das lojas Valentim de Carvalho, que já mostrou o seu interesse em ter estações de burning (gravação de ficheiros áudio em CD) nos seus espaços de venda.
NOTAS SOBRE A MEDIÇÃO DE AUDIÊNCIAS - PARTE II
O primeiro estudo de audiências em Portugal realizou-se em 1970-1971, por uma empresa chamada IPOP. Até então, não havia simplesmente qualquer informação sobre o comportamento das audiências face aos meios de comunicação. Depois, surgiria uma nova empresa, a Norma, responsável por outros estudos, no período de 1974 a 1980. Nesta altura, surge a Marktest (ver post de 24 de Abril), avançando com o estudo de meios BAREME (Base Regular de Meios), já com o dr. Luís Queirós à frente desta empresa.
Em 1990, funda-se a primeira central de meios, e que se distingue das até então designadas agências de publicidade de serviço completo. Estas tinham duas componentes: 1) criatividade (filmes, spots), 2) planificação dos meios (estratégias: onde colocar, quando, por que custo). A central de meios assume esta segunda componente. Com o aparecimento das televisões privadas (SIC, 1992; TVI, 1993), complexifica-se a necessidade de saber quem vê que programas, para melhor colocação dos anúncios. Até aí, havia apenas dois preços tabelados para a publicidade televisiva: antes e depois das 20 horas. Hoje, a segmentação pode chegar aos 50 preços, atendendo ao horário. Se considerarmos a existência de 200 programas de televisão, cada um com o seu preço, atendendo ao volume da audiência e a sua segmentação por públicos-alvo, depressa se compreende a complexidade e a necessidade de montar um sistema eficaz, para responder aos interesses diferentes dos anunciantes e dos canais de televisão. Ganha corpo o estudo da Audimetria, diferente do BAREME, pois este assenta em entrevistas a pessoas e aquela tem por base uma amostra de lares e um equipamento electrónico (o audímetro).
Dada a sua importância e o controlo, para garantir rigor nas medições, fundou-se em 1993 a CAEM (Comissão de Análise de Estudos de Meios), uma associação que avançou com dois sócios fortes, a APAN (Associação Portuguesa de Anunciantes) e a APAP (Associação Portuguesa de Agências de Publicidade e Comunicação). Esta última envolve centrais de meios e agências criativas. Para a CAEM entrou um terceiro grupo de sócios, os canais de televisão, interessados na audimetria (RTP, SIC, TVI e TV Cabo), a imprensa (representada pela AIND, actualmente Associação Portuguesa de Imprensa) e a rádio, através da APR (Associação Portuguesa de Rádio). A nível individual, e mais recentemente, entraram a Rádio Renascença, a RDP (agora associada à televisão pública, pois estão integradas numa só empresa) e os operadores de outdoors (J C Decaux, Cemusa).
A actividade propriamente dita da CAEM começaria em 1998, como entidade reguladora dos estudos de audiência, ou seja, o trabalho desenvolvido pela Marktest passou a ser acompanhado. Em 2000, foi iniciada uma auditoria pelo consultor Ernst & Young, que apresentou o relatório, em 2001, confirmando o bom funcionamento da audimetria desenvolvido pela Marktest. Comprovou-se a existência dos audímetros e da sua fiabilidade, e elaborou-se um manual de procedimentos (amostra, universo), a cumprir escrupulosamente pela empresa Marktest. Esta empresa, ou grupo de empresas, detém a análise de audiências em regime de exclusividade no país, embora entre 1998 e 1999 houvesse outra empresa também a medir audiências (a resolução, após alguma conflitualidade, foi abrir concurso e atribuir o trabalho à empresa que o está a fazer neste momento).
Refira-se que a atenção concedida à audimetria é feita dado que 66% do investimento publicitário passa pela televisão, valor que baixa para a casa dos 20% na imprensa e 10% na rádio. Frise-se que está em discussão o estudo de audiência nos outdoors. O ano passado, com as audiências televisivas a baixarem, houve pressão pelos canais para alterações no manual de procedimentos que classifica a medição de audiências, mas prevaleceu o bom senso pois mudar implica ajustes muito pequenos mas que podem alterar o equilíbrio existente previamente. Finalmente, está em fase de teste um novo tipo de análise da audiência que, a ser aprovado, será implementado apenas depois de 2006, o PPM (Personal People Meter), espécie de pager, e que alterará a filosofia de medição. Deixará de ser um painel de lares para passar a uma amostra aleatória de, possivelmente, mil a duas mil pessoas (como ocorre com o BAREME).
[A partir de uma aula do dr. José de Freitas, director executivo da CAEM]
José de Freitas por ele próprio
"A CAEM preocupa-se e analisa todos os estudos de meios disponíveis no mercado. Referimo-nos à audimetria e aos estudos de imprensa, rádio e Internet e, num futuro próximo, muito provavelmente, à publicidade exterior. Esta análise incide sobre a concepção dos estudos, construção das amostras representativas dos universos, procedimentos a ter em conta e métodos utilizados na recolha da informação, de modo que os resultados finais disponibilizados sejam a melhor informação possível das audiências dos vários meios.
"Estas discussões e decisões sobre processos técnicos, estatísticos e metodológicos assentam em opiniões, normalmente consensuais, para que a informação final seja fiável, fidedigna e aceite por todos os utilizadores dos estudos.
"[...] Deste modo, julgo que é indispensável que exista a CAEM, órgão regulador - esta expressão neste contexto pode ter uma interpretação desadequada, mas vou mantê-la - das exigências a colocar às empresas fornecedoras desta informação, garantindo que temos audiências «bem medidas»" [José de Freitas, 2003, "Expectativas da CAEM em sede da futura regulação sectorial dos media em Portugal", Observatório, nº 8, Dezembro) [comunicação à conferência internacional "Reflexões sobre a regulação do sector da comunicação em Portugal", em 10 de Dezembro de 2003, realizado pelo Obercom e pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, nesta escola].
[mensagem acrescentada às 14:02]
[actualização a 11 de Setembro de 2008]
Um leitor atento do blogue fez-me chegar as seguintes correcções a esta mensagem, que agradeço e passo a referir:
1. O primeiro estudo de audiência de imprensa foi realizado e publicado, em 1952, pelo Dr. Salviano Cruz, na Revista de Pesquisas Económicas e Sociais (vol.II, Setembro-Dezembro 1952),
2. Entre 1980 e 1982, a Teor instalou um painel semanal de audiência e avaliação dos progamas da RTP,
3. A NORMA realizou Estudos de Audiência de Meios até 1990, criou a primeira base de dados interactiva online, com a audiência de todos os meios de comunicação, para utilização pelas agências de publicidade e outros clientes. Em 1990, instalou o sistema de audimetria para a audiência de televisão.
quinta-feira, 29 de abril de 2004
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS
[O texto que apresento de seguida foi publicado numa forma mais profunda na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, do Obercom. Dada a sua dimensão, o texto é partido em várias parcelas. A bibliografia aqui apontada acompanhará a última mensagem sobre este tema. Como o título indica, cobre o período de 1992 a 2002]
Apresentação
A emissão da SIC iniciava-se a 6 de Outubro de 1992, após um longo período de monopólio da RTP e de discussão sobre a necessidade de haver ou não televisão privada, que animara bastante a opinião pública e os decisores políticos. A segunda metade da década de 1980 e os anos seguintes assistiriam a uma profunda mudança na área da comunicação social em Portugal. Em 1987, o programa eleitoral do PSD propusera a venda da totalidade dos jornais nacionalizados e a existência de um serviço público mínimo na televisão e na rádio. Alguns factores relevantes nesse período – para além da televisão privada – seriam o nascimento do Público (1990) como jornal de referência, a privatização do Diário de Notícias (1991) e sua transformação gráfica e editorial (1992), a privatização da Rádio Comercial e o aparecimento de uma rádio dedicada às notícias (TSF). Grupos empresariais (Lusomundo, Sonae) associavam-se à comunicação social, dentro da onda liberalizadora que percorreu o país governado por Cavaco Silva.
O texto ilustra alguns dos momentos mais importantes da estação de televisão SIC, entre 1992 e 2002. Quotas de mercado, estratificação sócio-cultural dos espectadores da estação, principais períodos da vida da estação, informação, programas e figuras emblemáticas, passagem de canal generalista para a realidade de canais temáticos e relação da estação televisiva com o Estado constituem alguns dos traços a desenvolver nas próximas páginas. Apesar da atenção específica à história da SIC, a vida de um canal faz-se por comparação com outros canais e a sociedade em geral, pelo que algumas notas são produzidas tendo em conta esta compreensão.
A afirmação de um canal de televisão através da informação
Em termos de audiência, a progressão da SIC foi notável. A estação atingia a liderança do mercado em escassos três anos após o seu arranque, com 41,4% de share, contra 38,4% da RTP e 13,8% da TVI (Obercom, 2002). O sucesso deveu-se à existência de uma grelha diversificada em informação, reportagem, documentário, infantis, juvenis, séries, comédias, cinema e entretenimento geral, em que a produção nacional se associou a uma linha de programação popular do canal privado (Lopes, 1995). Gente nova e muito profissional a fazer televisão, uma outra maneira de trabalhar a informação capaz de servir as elites, fartas das notícias que veiculam fontes oficiais e do aparelho de Estado, e a evidente orientação para uma programação de agrado a públicos mais populares – a televisão do povo (Torres, 1998: 75), com uma estratificação cuidada dos grupos-alvo a privilegiar – figuraram nas estratégias dos responsáveis da estação, em especial Emídio Rangel, o que fez rápida mossa numa RTP apática. A estratificação sócio-económica dos telespectadores da SIC trabalhada nos primeiros anos da SIC apontava para as seguintes características: público maioritariamente feminino, pessoas da classe C2 e do grupo etário entre os 4 e os 14 anos. Como pano de fundo, o optimismo e a fé na iniciativa privada vividas na sociedade portuguesa, no princípio da década de 1990, o que estimulou a popularidade da estação recém-aparecida.
Uma grande aposta do canal privado foi a informação, que, por atingir o dobro do tempo dispensado pelos outros canais portugueses, significou a inversão da tendência dominante na Europa (Traquina, 1997: 65). O modelo CNN, de reinventar as notícias, criar histórias a partir de elementos menos visíveis dos acontecimentos e relevar os magazines de grande informação, no sentido dado por Küng-Shankleman (2000: 120), esteve na base do jornalismo da SIC, e que podemos admirar com mais consistência na SIC Notícias. O noticiário da SIC (Jornal da Noite) ultrapassaria o da RTP1 (Telejornal) em Junho de 1995, cederia a seguir à RTP1 mas voltou a liderar a partir de Setembro, assumindo a dianteira definitiva durante anos a fio. Nesse momento (Setembro de 1995), as eleições legislativas foram seguidas na SIC mais do que nas outras estações. A SIC promoveu momentos especiais de informação – os debates políticos entre António Guterres e Fernando Nogueira e entre Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, momentos decisivos para a vitória dos dirigentes socialistas nas eleições que se avizinhavam. A política e a sua discussão faziam-se mais no canal privado do que na empresa pública, constantemente conotada com o poder instituído.
Um documentário polémico, por “parecer contra a SIC” (Mariana Otero, Cette télévision est la vôtre), revelou as razões de sucesso do canal, em especial a componente informativa. Das razões, Otero destacou o profissionalismo de toda a equipa da SIC, dos jornalistas às pessoas da área comercial, a atenção dada aos produtos televisivos, a articulação entre os vários sectores da estação e a medição constante do impacto popular nas audiências (Torres, 1998: 37). A realizadora convencera os responsáveis e colaboradores da SIC a deixarem-na filmar o quotidiano da estação.
Das características iniciais dos noticiários da SIC, ressaltaram o rigor, a credibilidade e a actualidade. Como resultado da qualidade das reportagens, os prémios começaram a ser uma rotina dentro da estação. Assim, em 1996, a reportagem Os meninos de Angola, de Cândida Pinto, obteve um prémio no FIGRA (“Festival International du Grand Reportage et du Document d’Actualité”). Em 1997, a SIC ganharia seis prémios ainda na área de Grande Reportagem. Ao rigor e actualidade juntou-se a mobilidade do estúdio do noticiário. A ideia da mobilidade acompanhou, de certo modo, o modelo de presidência aberta, que Mário Soares inaugurara em 1986, quase desde o princípio da sua Presidência da República, no sentido de conhecer bem a realidade portuguesa (Serrano, 2002: 117). Emprega-se o estúdio móvel em acontecimentos pré-determinados, de grande solenidade ou nível visual e ligados à proximidade. Foi assim que a SIC transmitiu noticiários directamente, por exemplo, da Expo 98, da ponte Vasco da Gama, da Feira do Livro, do Porto (nas festas do S. João, em Junho de 2002). O estúdio móvel foi utilizado, pela primeira vez na história da televisão portuguesa, em 1997. O principal rosto da informação da SIC, José Alberto Carvalho, apresentou o noticiário do Oceanário, na inauguração da Expo 98, e, em Abril de 1998, na inauguração da ponte Vasco da Gama. Nesta ocasião, a SIC passou imagens de helicóptero, mostrando o almoço servido a quinze mil pessoas, objectivo para bater um recorde e entrar no Guiness.
Lentamente, porém, as notícias tenderam para o fait-divers, o crime e a catástrofe (Brandão, 2002), efeito que atravessou os noticiários de todos os canais, numa tematização nuclear de política-sociedade-cultura-desporto-fait-divers (Lopes, 1999). Para contrariar este efeito de erosão, a imagem da informação da SIC foi alterada quando o canal atingiu os cinco anos de actividade. Assim, em 1997, apresentou um novo cenário dos noticiários, bem como o seu aspecto gráfico e um rejuvenescimento do logótipo. O cenário incluía displays de informação ao lado e por detrás do pivô, com informação suplementar, o que criou a imagem de marca do canal. Ainda não era um ecrã idêntico ao das múltiplas janelas da página da internet, com um oráculo a correr no rodapé, como ocorreria já na passagem para o novo século, mas aproximava-se disso. Os dirigentes do canal justificaram o investimento no cenário da informação e símbolos com as quase quatro horas de emissão diária dos noticiários. À espectacularização do cenário e acompanhamento do acontecimento no local correspondeu um maior número de vozes populares, o que produzia um novo efeito nas notícias. Paralelamente, os noticiários aumentavam de duração – acima de uma hora –, enquanto se dava mais tempo à promoção de programas dentro do telejornal numa contaminação de géneros.
As notícias davam conta dos acontecimentos previstos alegres (as inaugurações acima referidas), mas os jornalistas também se deslocavam e faziam trabalhos em directo quando havia acontecimentos imprevistos tristes (morte de Amália Rodrigues, em Outubro de 1999; queda da ponte de Entre-os-Rios, em Março de 2001). O luto das palavras e da roupa foi sinal identificador dos jornalistas da SIC nos dias imediatos à queda da ponte. O trabalho em directo constituiu, aliás, uma imagem de marca distintiva da SIC, origem de muitos prémios aos seus jornalistas, alguns deles atrás assinalados. E também as reportagens a locais longínquos. 1999 foi, por exemplo, um dos anos de mais trabalho em termos de cobertura de acontecimentos nacionais e internacionais, tais como os trabalhos feitos em Timor-Leste, após os tristes acontecimentos que assolaram a antiga colónia portuguesa, nas guerras na Guiné-Bissau e no Kosovo e na transferência de soberania de Macau para a China.
Além de José Alberto Carvalho, emergiram duas outras figuras emblemáticas no domínio da informação: Miguel Sousa Tavares, que apresentava o Jornal da Noite de domingo, e Margarida Marante, que fazia uma entrevista após o noticiário das 20 horas de sábado. Os dois jornalistas tinham ainda um programa comum, à terça-feira, o Crossfire. Um programa de informação muito considerado seria o moderado por Carlos Andrade, Flashback. Composto por deputados de vários partidos (casos de Pacheco Pereira e José Magalhães), era aceso o debate estabelecido. O sucesso passou também nas ondas da rádio TSF. Quanto a outra informação principal da SIC neste período de 1992 a 1999, relevo ainda para os referendos da despenalização do aborto e da regionalização (1998) e entrega a José Saramago do Nobel da Literatura.
Como resultado do crescimento da actividade da estação, quer na informação quer na programação e difusão, os seus recursos humanos cresceram: de 319 em 1994 para 425 em 2000 (SIC, Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios).
[continua]
[O texto que apresento de seguida foi publicado numa forma mais profunda na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, do Obercom. Dada a sua dimensão, o texto é partido em várias parcelas. A bibliografia aqui apontada acompanhará a última mensagem sobre este tema. Como o título indica, cobre o período de 1992 a 2002]
Apresentação
A emissão da SIC iniciava-se a 6 de Outubro de 1992, após um longo período de monopólio da RTP e de discussão sobre a necessidade de haver ou não televisão privada, que animara bastante a opinião pública e os decisores políticos. A segunda metade da década de 1980 e os anos seguintes assistiriam a uma profunda mudança na área da comunicação social em Portugal. Em 1987, o programa eleitoral do PSD propusera a venda da totalidade dos jornais nacionalizados e a existência de um serviço público mínimo na televisão e na rádio. Alguns factores relevantes nesse período – para além da televisão privada – seriam o nascimento do Público (1990) como jornal de referência, a privatização do Diário de Notícias (1991) e sua transformação gráfica e editorial (1992), a privatização da Rádio Comercial e o aparecimento de uma rádio dedicada às notícias (TSF). Grupos empresariais (Lusomundo, Sonae) associavam-se à comunicação social, dentro da onda liberalizadora que percorreu o país governado por Cavaco Silva.
O texto ilustra alguns dos momentos mais importantes da estação de televisão SIC, entre 1992 e 2002. Quotas de mercado, estratificação sócio-cultural dos espectadores da estação, principais períodos da vida da estação, informação, programas e figuras emblemáticas, passagem de canal generalista para a realidade de canais temáticos e relação da estação televisiva com o Estado constituem alguns dos traços a desenvolver nas próximas páginas. Apesar da atenção específica à história da SIC, a vida de um canal faz-se por comparação com outros canais e a sociedade em geral, pelo que algumas notas são produzidas tendo em conta esta compreensão.
A afirmação de um canal de televisão através da informação
Uma grande aposta do canal privado foi a informação, que, por atingir o dobro do tempo dispensado pelos outros canais portugueses, significou a inversão da tendência dominante na Europa (Traquina, 1997: 65). O modelo CNN, de reinventar as notícias, criar histórias a partir de elementos menos visíveis dos acontecimentos e relevar os magazines de grande informação, no sentido dado por Küng-Shankleman (2000: 120), esteve na base do jornalismo da SIC, e que podemos admirar com mais consistência na SIC Notícias. O noticiário da SIC (Jornal da Noite) ultrapassaria o da RTP1 (Telejornal) em Junho de 1995, cederia a seguir à RTP1 mas voltou a liderar a partir de Setembro, assumindo a dianteira definitiva durante anos a fio. Nesse momento (Setembro de 1995), as eleições legislativas foram seguidas na SIC mais do que nas outras estações. A SIC promoveu momentos especiais de informação – os debates políticos entre António Guterres e Fernando Nogueira e entre Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, momentos decisivos para a vitória dos dirigentes socialistas nas eleições que se avizinhavam. A política e a sua discussão faziam-se mais no canal privado do que na empresa pública, constantemente conotada com o poder instituído.
Um documentário polémico, por “parecer contra a SIC” (Mariana Otero, Cette télévision est la vôtre), revelou as razões de sucesso do canal, em especial a componente informativa. Das razões, Otero destacou o profissionalismo de toda a equipa da SIC, dos jornalistas às pessoas da área comercial, a atenção dada aos produtos televisivos, a articulação entre os vários sectores da estação e a medição constante do impacto popular nas audiências (Torres, 1998: 37). A realizadora convencera os responsáveis e colaboradores da SIC a deixarem-na filmar o quotidiano da estação.
Das características iniciais dos noticiários da SIC, ressaltaram o rigor, a credibilidade e a actualidade. Como resultado da qualidade das reportagens, os prémios começaram a ser uma rotina dentro da estação. Assim, em 1996, a reportagem Os meninos de Angola, de Cândida Pinto, obteve um prémio no FIGRA (“Festival International du Grand Reportage et du Document d’Actualité”). Em 1997, a SIC ganharia seis prémios ainda na área de Grande Reportagem. Ao rigor e actualidade juntou-se a mobilidade do estúdio do noticiário. A ideia da mobilidade acompanhou, de certo modo, o modelo de presidência aberta, que Mário Soares inaugurara em 1986, quase desde o princípio da sua Presidência da República, no sentido de conhecer bem a realidade portuguesa (Serrano, 2002: 117). Emprega-se o estúdio móvel em acontecimentos pré-determinados, de grande solenidade ou nível visual e ligados à proximidade. Foi assim que a SIC transmitiu noticiários directamente, por exemplo, da Expo 98, da ponte Vasco da Gama, da Feira do Livro, do Porto (nas festas do S. João, em Junho de 2002). O estúdio móvel foi utilizado, pela primeira vez na história da televisão portuguesa, em 1997. O principal rosto da informação da SIC, José Alberto Carvalho, apresentou o noticiário do Oceanário, na inauguração da Expo 98, e, em Abril de 1998, na inauguração da ponte Vasco da Gama. Nesta ocasião, a SIC passou imagens de helicóptero, mostrando o almoço servido a quinze mil pessoas, objectivo para bater um recorde e entrar no Guiness.
Lentamente, porém, as notícias tenderam para o fait-divers, o crime e a catástrofe (Brandão, 2002), efeito que atravessou os noticiários de todos os canais, numa tematização nuclear de política-sociedade-cultura-desporto-fait-divers (Lopes, 1999). Para contrariar este efeito de erosão, a imagem da informação da SIC foi alterada quando o canal atingiu os cinco anos de actividade. Assim, em 1997, apresentou um novo cenário dos noticiários, bem como o seu aspecto gráfico e um rejuvenescimento do logótipo. O cenário incluía displays de informação ao lado e por detrás do pivô, com informação suplementar, o que criou a imagem de marca do canal. Ainda não era um ecrã idêntico ao das múltiplas janelas da página da internet, com um oráculo a correr no rodapé, como ocorreria já na passagem para o novo século, mas aproximava-se disso. Os dirigentes do canal justificaram o investimento no cenário da informação e símbolos com as quase quatro horas de emissão diária dos noticiários. À espectacularização do cenário e acompanhamento do acontecimento no local correspondeu um maior número de vozes populares, o que produzia um novo efeito nas notícias. Paralelamente, os noticiários aumentavam de duração – acima de uma hora –, enquanto se dava mais tempo à promoção de programas dentro do telejornal numa contaminação de géneros.
As notícias davam conta dos acontecimentos previstos alegres (as inaugurações acima referidas), mas os jornalistas também se deslocavam e faziam trabalhos em directo quando havia acontecimentos imprevistos tristes (morte de Amália Rodrigues, em Outubro de 1999; queda da ponte de Entre-os-Rios, em Março de 2001). O luto das palavras e da roupa foi sinal identificador dos jornalistas da SIC nos dias imediatos à queda da ponte. O trabalho em directo constituiu, aliás, uma imagem de marca distintiva da SIC, origem de muitos prémios aos seus jornalistas, alguns deles atrás assinalados. E também as reportagens a locais longínquos. 1999 foi, por exemplo, um dos anos de mais trabalho em termos de cobertura de acontecimentos nacionais e internacionais, tais como os trabalhos feitos em Timor-Leste, após os tristes acontecimentos que assolaram a antiga colónia portuguesa, nas guerras na Guiné-Bissau e no Kosovo e na transferência de soberania de Macau para a China.
Além de José Alberto Carvalho, emergiram duas outras figuras emblemáticas no domínio da informação: Miguel Sousa Tavares, que apresentava o Jornal da Noite de domingo, e Margarida Marante, que fazia uma entrevista após o noticiário das 20 horas de sábado. Os dois jornalistas tinham ainda um programa comum, à terça-feira, o Crossfire. Um programa de informação muito considerado seria o moderado por Carlos Andrade, Flashback. Composto por deputados de vários partidos (casos de Pacheco Pereira e José Magalhães), era aceso o debate estabelecido. O sucesso passou também nas ondas da rádio TSF. Quanto a outra informação principal da SIC neste período de 1992 a 1999, relevo ainda para os referendos da despenalização do aborto e da regionalização (1998) e entrega a José Saramago do Nobel da Literatura.
Como resultado do crescimento da actividade da estação, quer na informação quer na programação e difusão, os seus recursos humanos cresceram: de 319 em 1994 para 425 em 2000 (SIC, Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios).
[continua]
quarta-feira, 28 de abril de 2004
A REVOLUÇÃO ELECTRÓNICA DE BURROUGHS
Já há muito que andava para escrever sobre o livro de William Burroughs. Talvez ficasse melhor no blogue Teorias da Comunicação, mas como me decidi mantê-lo parado, coloco aqui a mensagem sobre este autor.
Burroughs nasceu no Missouri em 1914 e morreu em 1997 [o avó foi o inventor de uma máquina de calcular, e a Burroughs foi, durante décadas, uma empresa ligada à computação, fundindo-se com a Sperry para dar origem à Unisys]. William Burroughs estudou literatura inglesa em Harvard, mas também se interessou pela medicina e pela antropologia. Daí a sua insistência, neste pequeno livro A revolução electrónica, de trabalhar a palavra vírus (com referências médicas, antropológicas, literárias e mesmo escatológicas). Ao chegar a Nova Iorque, em 1943, desenvolve a sua actividade literária no ambiente da geração beat, tornando-se um dos seus principais esteios, ao lado de Allen Ginsberg e Kerouac.
Ora, o que nos diz o livro? É uma proposta de compor, misturando jornais, textos e gravações. Nele, há um reatar das posições de Tristan Tzara e dos surrealistas de André Breton e dos ready-mades de Marcel Duchamp, mundos imaginários, simbólicos e maquínicos. Que Burroughs prolonga e amplifica com a técnica dos cut-up, ou o método da escrita por cortes (hoje seria o cut and paste dos computadores).
A linguagem é um vírus
Sobre Burroughs, escreve um dos tradutores da obra, o professor José Augusto Mourão: "O cut-up introduz num universo cultural fechado, censurado, que é o da América dos anos 50, o absurdo, o perigo. W. B. torna-se um dos maiores encenadores, simuladores da utopia minoritária, da diferença" (p. 9). E o mesmo tradutor aponta à frente: "Contra a linguística, a informática e a cibernética, W. B. propõe-se enlouquecer a maquinaria narrativa, baralhando textos de proveniências várias, ao acaso, distorcendo as suas regras de construção canónicas" (p. 10). Regra: tome-se um escritor qualquer, copiem-se trechos de um texto e, ao copiar, associe outros textos e acrescente-os.
Ao contrário de Mourão, eu penso que Burroughs seguiu o caminho da cibernética, ou melhor, de uma máquina avariada. Como quando se escreve neste espaço e surge uma mensagem da Blogger, anunciando que "não é possível apresentar esta página". Se não tiver guardado a mensagem, ela esvai-se ou fica amputada. Claro que aqui é apenas a entropia do sistema a funcionar, ao passo que Burroughs encomenda o aleatório, o acaso, a participação.
Mas passemos ao texto de Burroughs propriamente dito. O autor ocupou-se do "efeito que poderia obter-se recorrendo a milhares de pessoas com gravadores, portáteis e fixos, a mensagens transmitidas" (p. 39). As fitas pré-gravadas e seleccionadas (cut-up) e trasmitidas nas ruas serviriam para espalhar boatos, o descontrolo e o caos social: "os efeitos sonoros de um motim podem criar um motim verdadeiro em situação de tumulto" (p. 40). Ou, de outro modo, "intercalem-se canções pop com o produto, depois slogans publicitários e banalidades publicitárias de outros produtos e arrecadem-se as vendas" (p. 44). Venderiam? Ou estabeleceriam a confusão? O certo é que se tornariam momentos de profundo impacto e difícil esquecimento.
Ele avisara logo: "Não ocorreria ao nosso velho rato sábio reunir os ratos jovens e passar-lhes os seus conhecimentos numa tradição oral porque todo o conceito de encadeamento do tempo não poderia ocorrer sem a palavra escrita. A palavra escrita é, evidentemente, um símbolo de qualquer coisa" (p. 20). A palavra escrita "é uma imagem, é uma figura" (p. 36). Para Burroughs, a palavra escrita seria um vírus que tornou possível a palavra falada. Robôs, gravadores de Watergate (as escutas ilegais do congresso democrático que conduziriam à demissão de Nixon) e o desvio de testes atómicos estavam na agenda do nosso autor.
E Burroughs faz uma conclusão, mesmo que provisória: "Tire-se uma carta da manga. Na maioria dos casos, não haverá suspeitas acerca da sua origem. Pelo menos é o que acontece com o leitor comum de jornais que recebe a mensagem misturada sem juízo crítico e pressupõe que esta reflecte as suas próprias opiniões independentemente formadas" (p. 48). Eis a técnica da mistura na sua maior pujança. Pergunta-se: de onde veio? Qual o objectivo? Mas já ninguém se lembra, parece que a informação estava ali desde sempre. O vírus de Burroughs, adormecido, espalha-se. Hoje, Castells fala de redes, como anteontem McLuhan falava de aldeia global, significando ainda que todos se vêem e espiam (e quiçá se contagiam - pelas ideias, pelos estereótipos).
Em Burroughs deparamo-nos com uma escrita muito moderna ou de antecipação. Do cut and paste, que evoquei acima, ao vírus do computador, a manipulação das fitas magnéticas (que a música minimalista empregou alegremente, misturando sons e introduzindo outros provenientes de máquinas) [o RM - registo magnético - da rádio], o fragmentário e a escrita automática dos surrealistas. Mas também vejo a técnica de colagem da pop art, o dripping de Jackson Pollock (aliás contemporâneo de Burroughs), o remissivo (isto é, que remete para outro, isto é, o link e o hipertexto). Logo, e ainda, a teoria matemática da informação, do código binário dos zeros e uns, ou do E e do OU (pp. 88-89).
Para concluir mesmo, eis a receita de Burroughs: "Pode começar-se com dois gravadores. O processo mais simples de mistura são tesouras e material para colar. Pode-se começar misturando palavras, fazer toda a espécie de fita magnética, misturá-las e observar os efeitos nos amigos e em si próprio" (p. 63). Culinária tecnológica pura.
[usei a tradução de José Augusto Mourão e Maria Leonor Teles, na edição da Vega]
Já há muito que andava para escrever sobre o livro de William Burroughs. Talvez ficasse melhor no blogue Teorias da Comunicação, mas como me decidi mantê-lo parado, coloco aqui a mensagem sobre este autor.
Burroughs nasceu no Missouri em 1914 e morreu em 1997 [o avó foi o inventor de uma máquina de calcular, e a Burroughs foi, durante décadas, uma empresa ligada à computação, fundindo-se com a Sperry para dar origem à Unisys]. William Burroughs estudou literatura inglesa em Harvard, mas também se interessou pela medicina e pela antropologia. Daí a sua insistência, neste pequeno livro A revolução electrónica, de trabalhar a palavra vírus (com referências médicas, antropológicas, literárias e mesmo escatológicas). Ao chegar a Nova Iorque, em 1943, desenvolve a sua actividade literária no ambiente da geração beat, tornando-se um dos seus principais esteios, ao lado de Allen Ginsberg e Kerouac.
Ora, o que nos diz o livro? É uma proposta de compor, misturando jornais, textos e gravações. Nele, há um reatar das posições de Tristan Tzara e dos surrealistas de André Breton e dos ready-mades de Marcel Duchamp, mundos imaginários, simbólicos e maquínicos. Que Burroughs prolonga e amplifica com a técnica dos cut-up, ou o método da escrita por cortes (hoje seria o cut and paste dos computadores).
A linguagem é um vírus
Sobre Burroughs, escreve um dos tradutores da obra, o professor José Augusto Mourão: "O cut-up introduz num universo cultural fechado, censurado, que é o da América dos anos 50, o absurdo, o perigo. W. B. torna-se um dos maiores encenadores, simuladores da utopia minoritária, da diferença" (p. 9). E o mesmo tradutor aponta à frente: "Contra a linguística, a informática e a cibernética, W. B. propõe-se enlouquecer a maquinaria narrativa, baralhando textos de proveniências várias, ao acaso, distorcendo as suas regras de construção canónicas" (p. 10). Regra: tome-se um escritor qualquer, copiem-se trechos de um texto e, ao copiar, associe outros textos e acrescente-os.
Ao contrário de Mourão, eu penso que Burroughs seguiu o caminho da cibernética, ou melhor, de uma máquina avariada. Como quando se escreve neste espaço e surge uma mensagem da Blogger, anunciando que "não é possível apresentar esta página". Se não tiver guardado a mensagem, ela esvai-se ou fica amputada. Claro que aqui é apenas a entropia do sistema a funcionar, ao passo que Burroughs encomenda o aleatório, o acaso, a participação.
Mas passemos ao texto de Burroughs propriamente dito. O autor ocupou-se do "efeito que poderia obter-se recorrendo a milhares de pessoas com gravadores, portáteis e fixos, a mensagens transmitidas" (p. 39). As fitas pré-gravadas e seleccionadas (cut-up) e trasmitidas nas ruas serviriam para espalhar boatos, o descontrolo e o caos social: "os efeitos sonoros de um motim podem criar um motim verdadeiro em situação de tumulto" (p. 40). Ou, de outro modo, "intercalem-se canções pop com o produto, depois slogans publicitários e banalidades publicitárias de outros produtos e arrecadem-se as vendas" (p. 44). Venderiam? Ou estabeleceriam a confusão? O certo é que se tornariam momentos de profundo impacto e difícil esquecimento.
Ele avisara logo: "Não ocorreria ao nosso velho rato sábio reunir os ratos jovens e passar-lhes os seus conhecimentos numa tradição oral porque todo o conceito de encadeamento do tempo não poderia ocorrer sem a palavra escrita. A palavra escrita é, evidentemente, um símbolo de qualquer coisa" (p. 20). A palavra escrita "é uma imagem, é uma figura" (p. 36). Para Burroughs, a palavra escrita seria um vírus que tornou possível a palavra falada. Robôs, gravadores de Watergate (as escutas ilegais do congresso democrático que conduziriam à demissão de Nixon) e o desvio de testes atómicos estavam na agenda do nosso autor.
E Burroughs faz uma conclusão, mesmo que provisória: "Tire-se uma carta da manga. Na maioria dos casos, não haverá suspeitas acerca da sua origem. Pelo menos é o que acontece com o leitor comum de jornais que recebe a mensagem misturada sem juízo crítico e pressupõe que esta reflecte as suas próprias opiniões independentemente formadas" (p. 48). Eis a técnica da mistura na sua maior pujança. Pergunta-se: de onde veio? Qual o objectivo? Mas já ninguém se lembra, parece que a informação estava ali desde sempre. O vírus de Burroughs, adormecido, espalha-se. Hoje, Castells fala de redes, como anteontem McLuhan falava de aldeia global, significando ainda que todos se vêem e espiam (e quiçá se contagiam - pelas ideias, pelos estereótipos).
Em Burroughs deparamo-nos com uma escrita muito moderna ou de antecipação. Do cut and paste, que evoquei acima, ao vírus do computador, a manipulação das fitas magnéticas (que a música minimalista empregou alegremente, misturando sons e introduzindo outros provenientes de máquinas) [o RM - registo magnético - da rádio], o fragmentário e a escrita automática dos surrealistas. Mas também vejo a técnica de colagem da pop art, o dripping de Jackson Pollock (aliás contemporâneo de Burroughs), o remissivo (isto é, que remete para outro, isto é, o link e o hipertexto). Logo, e ainda, a teoria matemática da informação, do código binário dos zeros e uns, ou do E e do OU (pp. 88-89).
Para concluir mesmo, eis a receita de Burroughs: "Pode começar-se com dois gravadores. O processo mais simples de mistura são tesouras e material para colar. Pode-se começar misturando palavras, fazer toda a espécie de fita magnética, misturá-las e observar os efeitos nos amigos e em si próprio" (p. 63). Culinária tecnológica pura.
[usei a tradução de José Augusto Mourão e Maria Leonor Teles, na edição da Vega]
terça-feira, 27 de abril de 2004
AS INDÚSTRIAS CULTURAIS SEGUNDO A UNESCO
Para a UNESCO, as indústrias culturais incluem a edição, a música, a tecnologia audiovisual (cinema, televisão), a electrónica (multimedia), a indústria fonográfica (discos), os jogos vídeo e a internet. Há quem inclua ainda o design, a arquitectura, as artes visuais e performativas, os desportos, a publicidade e o turismo cultural.
Definição das indústrias culturais
As indústrias culturais combinam criação, produção e comercialização de conteúdos por natureza intangíveis e culturais, adicionam valor aos conteúdos e geram valor individual e social. Baseiam-se em conhecimento e trabalho intensivo, criam emprego e riqueza, alimentam a criatividade e desenvolvem a inovação nos processos de produção e comercialização. São, por regra, protegidas pelos direitos de autor e podem tomar a forma de bens ou serviços. Dependendo do contexto, as indústrias culturais também são referenciadas como “indústrias criativas”, “indústrias orientadas para o futuro” ou que estão a nascer (jargão económico) e indústrias de conteúdo (jargão tecnológico).
A dimensão internacional confere-lhes um papel determinante no futuro em termos de liberdade de expressão, diversidade cultural e desenvolvimento económico. As indústrias culturais são mesmo centrais na promoção e manutenção da diversidade cultural e asseguram o acesso democrático à cultura. A dupla natureza – cultural e económica – instaura um perfil distinto nas indústrias culturais. Na década de 1990, estas cresceram exponencialmente em termos de criação de emprego e de contributo para o produto interno bruto dos países.
A estrutura do mercado internacional das indústrias culturais mostra-nos um processo de internacionalização, realinhamento e concentração progressiva, resultando na formação de um conjunto pequeno de grandes conglomerados. Isto leva à criação de um novo oligopólio global, que alguns analistas comparam com a actividade automobilística no começo do século XX. Por isso, as indústrias culturais estão a criar novos tipos de desigualdade, dado que o mapa mundial das indústrias culturais revela um elevado desnível entre o Norte e o Sul. Tal pode ser contrariado pelo fortalecimento de capacidades locais e facilidades de acesso aos mercados globais a nível nacional através de novas parcerias, conhecimento, controlo da pirataria e aumento da solidariedade internacional.
A excepção cultural
Durante as negociações finais do Uruguay Round, os representantes de diversos países acordaram na necessidade de manter e desenvolver um adequado nível de produção nacional que reflectisse as formas culturais próprias a cada país, evitando a estandardização de gostos e comportamentos. Isto é, concluiu-se que não se podiam aplicar as regras do GATT aos produtos e serviços audiovisuais e do cinema. Tal acordo táctico, não escrito, dá pelo nome de excepção cultural – sobre a qual eu escrevia anteontem, a propósito das novas tendências em Espanha. A excepção cultural quer dizer que a cultura não se pode considerar igual a uma qualquer outra mercadoria. Os produtos e serviços culturais transportam ideias, valores e modos de vida que reflectem a pluralidade de identidades de um país e a diversidade criativa dos seus cidadãos.
Alguns anos depois, em 1999, e seguindo as recomendações do Conferência Inter-governamental sobre Políticas Culturais e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo, no ano anterior, a UNESCO organizou um grupo de especialistas para discutir o tema Cultura: uma forma de mercadoria como nenhuma outra? As conclusões desse encontro traduziram-se no entendimento que a “cultura não é apenas uma matéria para a economia ou um conceito de economia”. Embora a França tenha sido a primeira a introduzir o conceito de excepção cultural – como também frisei anteontem –, o princípio da doutrina foi evocado pelos Estados Unidos no começo dos anos 1950, quando aderiu ao primeiro tratado multilateral dos bens culturais – o Acordo de Florença.
A aplicação da excepção cultural na União Europeia leva em conta a natureza sensível das características das suas indústrias culturais. Há a recusa de uma liberalização [ou abertura total dos mercados] dos serviços audiovisuais (cinema, rádio, televisão) ou dos serviços relacionados com bibliotecas, arquivos e museus. Isto permite à União Europeia, e em especial num momento em que se alarga a mais dez países, desenvolver políticas públicas de apoio ao sector audiovisual, tais como quotas na televisão e na rádio, ajuda financeira (para programas de produção e distribuição como o MEDIA), acordos regionais de co-produção (como o Eurimages) e a Directiva “Televisão sem Fronteiras”. O artigo relacionado com o cinema permite quotas de ecrãs para exibição de filmes nacionais (o que nem sempre acontece no nosso país).
A importância dos direitos de autor nas indústrias culturais
A protecção dos direitos de autor garante a este a possibilidade de explorar livremente o seu trabalho numa base comercial/não comercial através dos direitos legais. A legislação dos direitos de autor apoia os artistas (actores, cantores e músicos), os produtores discográficos e as empresas de audiovisuais. Isto é, os direitos de autor sobre o trabalho literário e artístico (livros, composições musicais, pinturas, esculturas, software e trabalhos cinematográficos) são protegidos num mínimo de 50 anos após a morte do autor. Os artistas têm ainda o exclusivo de autorizar a reprodução e a comunicação pública do seu trabalho.
As indústrias culturais – casos da edição, discos, audiovisuais e software – têm enfrentado um problema de difícil resolução: a pirataria. Os esforços das sociedades de autores têm sido insuficientes para debelar o problema das cópias ilegais.
Para a UNESCO, as indústrias culturais incluem a edição, a música, a tecnologia audiovisual (cinema, televisão), a electrónica (multimedia), a indústria fonográfica (discos), os jogos vídeo e a internet. Há quem inclua ainda o design, a arquitectura, as artes visuais e performativas, os desportos, a publicidade e o turismo cultural.
Definição das indústrias culturais
As indústrias culturais combinam criação, produção e comercialização de conteúdos por natureza intangíveis e culturais, adicionam valor aos conteúdos e geram valor individual e social. Baseiam-se em conhecimento e trabalho intensivo, criam emprego e riqueza, alimentam a criatividade e desenvolvem a inovação nos processos de produção e comercialização. São, por regra, protegidas pelos direitos de autor e podem tomar a forma de bens ou serviços. Dependendo do contexto, as indústrias culturais também são referenciadas como “indústrias criativas”, “indústrias orientadas para o futuro” ou que estão a nascer (jargão económico) e indústrias de conteúdo (jargão tecnológico).
A dimensão internacional confere-lhes um papel determinante no futuro em termos de liberdade de expressão, diversidade cultural e desenvolvimento económico. As indústrias culturais são mesmo centrais na promoção e manutenção da diversidade cultural e asseguram o acesso democrático à cultura. A dupla natureza – cultural e económica – instaura um perfil distinto nas indústrias culturais. Na década de 1990, estas cresceram exponencialmente em termos de criação de emprego e de contributo para o produto interno bruto dos países.
A estrutura do mercado internacional das indústrias culturais mostra-nos um processo de internacionalização, realinhamento e concentração progressiva, resultando na formação de um conjunto pequeno de grandes conglomerados. Isto leva à criação de um novo oligopólio global, que alguns analistas comparam com a actividade automobilística no começo do século XX. Por isso, as indústrias culturais estão a criar novos tipos de desigualdade, dado que o mapa mundial das indústrias culturais revela um elevado desnível entre o Norte e o Sul. Tal pode ser contrariado pelo fortalecimento de capacidades locais e facilidades de acesso aos mercados globais a nível nacional através de novas parcerias, conhecimento, controlo da pirataria e aumento da solidariedade internacional.
A excepção cultural
Durante as negociações finais do Uruguay Round, os representantes de diversos países acordaram na necessidade de manter e desenvolver um adequado nível de produção nacional que reflectisse as formas culturais próprias a cada país, evitando a estandardização de gostos e comportamentos. Isto é, concluiu-se que não se podiam aplicar as regras do GATT aos produtos e serviços audiovisuais e do cinema. Tal acordo táctico, não escrito, dá pelo nome de excepção cultural – sobre a qual eu escrevia anteontem, a propósito das novas tendências em Espanha. A excepção cultural quer dizer que a cultura não se pode considerar igual a uma qualquer outra mercadoria. Os produtos e serviços culturais transportam ideias, valores e modos de vida que reflectem a pluralidade de identidades de um país e a diversidade criativa dos seus cidadãos.
Alguns anos depois, em 1999, e seguindo as recomendações do Conferência Inter-governamental sobre Políticas Culturais e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo, no ano anterior, a UNESCO organizou um grupo de especialistas para discutir o tema Cultura: uma forma de mercadoria como nenhuma outra? As conclusões desse encontro traduziram-se no entendimento que a “cultura não é apenas uma matéria para a economia ou um conceito de economia”. Embora a França tenha sido a primeira a introduzir o conceito de excepção cultural – como também frisei anteontem –, o princípio da doutrina foi evocado pelos Estados Unidos no começo dos anos 1950, quando aderiu ao primeiro tratado multilateral dos bens culturais – o Acordo de Florença.
A aplicação da excepção cultural na União Europeia leva em conta a natureza sensível das características das suas indústrias culturais. Há a recusa de uma liberalização [ou abertura total dos mercados] dos serviços audiovisuais (cinema, rádio, televisão) ou dos serviços relacionados com bibliotecas, arquivos e museus. Isto permite à União Europeia, e em especial num momento em que se alarga a mais dez países, desenvolver políticas públicas de apoio ao sector audiovisual, tais como quotas na televisão e na rádio, ajuda financeira (para programas de produção e distribuição como o MEDIA), acordos regionais de co-produção (como o Eurimages) e a Directiva “Televisão sem Fronteiras”. O artigo relacionado com o cinema permite quotas de ecrãs para exibição de filmes nacionais (o que nem sempre acontece no nosso país).
A importância dos direitos de autor nas indústrias culturais
A protecção dos direitos de autor garante a este a possibilidade de explorar livremente o seu trabalho numa base comercial/não comercial através dos direitos legais. A legislação dos direitos de autor apoia os artistas (actores, cantores e músicos), os produtores discográficos e as empresas de audiovisuais. Isto é, os direitos de autor sobre o trabalho literário e artístico (livros, composições musicais, pinturas, esculturas, software e trabalhos cinematográficos) são protegidos num mínimo de 50 anos após a morte do autor. Os artistas têm ainda o exclusivo de autorizar a reprodução e a comunicação pública do seu trabalho.
As indústrias culturais – casos da edição, discos, audiovisuais e software – têm enfrentado um problema de difícil resolução: a pirataria. Os esforços das sociedades de autores têm sido insuficientes para debelar o problema das cópias ilegais.
segunda-feira, 26 de abril de 2004
UM FILME - SYLVIA
Realizado por Christine Jeffs, produzido pela BBC Films e com Gwyneth Paltrow e Daniel Craig nos principais papéis, o filme conta a história da relação amorosa mas também trágica dos poetas Sylvia Plath e Ted Hughes, dois autores de grande nomeada no universo de língua inglesa no século XX. O filme foi mal recebido pela crítica quando se estreou no Outono passado. Contudo, vale a pena vê-lo e meditar no universo dramático e pictórico que ele nos oferece.
Sylvia Plath, americana nascida perto de Boston, começa a escrever poesia desde cedo. Vai estudar para Cambridge, com uma bolsa Fullbright, o começo da narrativa fílmica. Aí conhece o britânico Edward (Ted) Hughes, por quem se apaixona e casa. Ambos vão viver para os Estados Unidos. Mas a sorte da inspiração não é igual para os dois. Enquanto um passeio de bicicleta serve para Ted criar hexâmetros na sua cabeça, a Sylvia serve para fazer bolos ou passar o tempo em aulas, como modo de sobrevivência. E o nascimento dos dois filhos provoca uma dificuldade acrescida a Sylvia, angustiada pela infidelidade do marido. No regresso a Inglaterra, e enquanto Ted continua a ter sucesso, Sylvia não recupera a sua antiga capacidade de escrever. Mas publica The colossus em 1960. É após a separação do casal que ela consegue escrever mais proficuamente. De modo dramático - como será o seu suicídio, aos 30 anos, em 1963. Numa altura em que tinha pronto um belo livro para editar, Ariel. Em 1982, Sylvia Plath ganhava postumamente o prémio Pulitzer para a Poesia.
Do filme destaco os planos em que ela lê Chaucer diante de uma manada de vacas [as senhoras vacas são mais inteligentes do que se pensa e teriam de escolher entre Milton e Chaucer], numa língua inglesa ainda muito aparentada ao francês. E saliento a música composta por Gabriel Yared, que me fez pensar nas sinfonias de Mahler (primeira e décima).
UM ARTIGO - SOBRE AS TELENOVELAS
Em artigo assinado por Leonor Figueiredo, o Diário de Notícias de hoje aborda o tema das telenovelas como objecto de estudo. Tendo por base a apresentação de Maria Immacolata Lopes no congresso de comunicação da Covilhã, ocorrido a semana passada, a jornalista descreve como foi feito o estudo da professora da Escola de Artes e Comunicação da Universidade de S. Paulo.
Immacolata Lopes observou o comportamento de quatro famílias [socialmente estratificadas em populares (2), média e média alta] perante a telenovela A indomada (trabalho de 2002). A investigadora concluíu que a telenovela é, no seu país, uma narrativa popular que marca a agenda dos temas enquanto é exibida - casos da homossexualidade, alcoolismo ou genética. As telenovelas são mais do que simples entretenimento; proporcionam uma "identificação sobre as coisas da vida, como se fosse um espelho". A reacção a uma mesma telenovela é diferente conforme o estatuto social.
Curiosamente, no mesmo congresso da Covilhã, uma jovem investigadora portuguesa, Catarina Burnay, apresentava um trabalho que, partindo dos pressupostos de Immacolata Lopes - quotidiano familiar, subjectividade, género ficcional e videotécnica -, analisou como se recepciona uma telenovela em Portugal.
UMA MEMÓRIA - A RÁDIO SEGUNDO FERNANDO MEDEIROS
O blogue A Rádio em Portugal assinalou - e muito bem - a passagem do nonagésimo ano da primeira emissão musical de Fernando Medeiros. Também me associo ao blogue de Jorge Guimarães Silva para chamar a atenção para o evento.
Querendo festejar de modo diferente o seu aniversário, no dia 24 de Abril de 1914, o então estudante universitário Fernando Medeiros arranjou “emprestado um gramofone de campânula e discos, conseguindo, assim, a primeira transmissão de música que se fez em Portugal”, passando música de Wagner, eventualmente ouvida por três ou quatro pessoas (Rádio Semanal, 21 de Agosto de 1937). Para ele, “sempre curioso por tudo quanto se relacionava com a electricidade, e da leitura de um jornal francês que, nesse tempo, publicava artigos sobre TSF, nasceu o meu entusiasmo por essa ciência desconhecida no nosso país”. Nos primeiros tempos, não passou “de ensaios com um microfone em série na antena e entretinha-me a dizer: está lá? Ouve bem? […] O único receptor, por sinal um galena, que eu então conhecia, era propriedade do dr. Lomelino, que a uma distância de 100 metros, ouvia os meus ensaios”.
Mais tarde, quando confrontado com Abílio Nunes dos Santos Júnior (CT1AA) ele reclamava pioneirismo, mas estava obviamente a referir-se a uma época (1914) em que os conhecimentos técnicos eram escassos e o mercado português não dispunha de válvulas electrónicas para aplicar aos emissores. Usar um emissor de faísca, sem dispor de um gerador de alta-frequência constante, elemento essencial da radiodifusão, era apenas uma brincadeira. Havia uma proximidade entre fonia e radiodifusão, que foi o que experimentou Fernando Medeiros, e que se comprova com o passo seguinte dele. Em 1919, fazia uma primeira emissão de ondas extra-curtas, levando por seu “intermédio além fronteiras e pelo éter o nome sacrossanto da pátria Portuguesa”. O seu patriotismo exacerbado transportava-se numa gama de frequências explorada principalmente pela radiofonia. Além disso, adoptou vários indicativos (CS1AA, CS1AB e CS2ZE), prova de um contributo irregular.
Anos depois, Fernando Medeiros emite um “concerto de grafonola”, já em onda média. Estávamos em Maio de 1928. Dividido em três partes, o programa incluiu música de Wagner, Gounod e Schubert mas também fados, tangos e “rondallas” espanholas, aproveitando os dois intervalos, cada um com “15 minutos para receber pelo telefone Norte 72 as indicações que os amadores julgarem por bem dar-lhe sobre esta emissão. Durante esses intervalos, o aludido posto estará à escuta dos emissores que em fonia lhe desejem dar as suas impressões entre 40 e 50 metros de comprimento de onda” (Diário de Notícias, 8 de Maio de 1928). Após se informar da realização do concerto através da leitura do jornal, a audiência fazia chegar a sua opinião acerca da qualidade musical do escutado por duas vias – o telefone e a radiofonia – numa conjugação de todos os meios de comunicação de massa então existentes. Era o começo de CT1BM ou Rádio Hertz. Ao sábado, de colaboração com a Gazeta do Sul, emitia o programa “Meia hora cultural”.
A estação fazia transmissões de concertos do “Café Nacional” e de fados e guitarradas do “Café Mondego”.
Quase dois anos depois, transmitia basicamente música em disco, com títulos de canções como as seguintes: “A alma das touradas”, “A colhida”, “Fado dos milagres”, “Os teus olhos”, “Bilhetes-postais”, “O cego e a Mariana”, “Maldita cocaína”, “A minha terra”, “Chá de parreira” e “Recrutas e sopeiras” (Diário de Notícias, 29 de Março de 1930). A estação assumia um carácter popular. Por essa altura, e segundo o quadro publicado na revista Rádio Programa (Janeiro de 1931), havia mais quatro estações de rádio em actividade na capital: CT1AA (Abílio Nunes Santos Júnior), CT1DH (Luís Raul Sales) CT1IN (Ilídio Neves) e CT1LN (Francisco Lacombe). Mas, e exceptuando CT1AA, que se manterá até 1938, todas as outras estações, incluindo a de Fernando Medeiros, desaparecem rapidamente e para sempre. Fica apenas a memória.
Sylvia Plath, americana nascida perto de Boston, começa a escrever poesia desde cedo. Vai estudar para Cambridge, com uma bolsa Fullbright, o começo da narrativa fílmica. Aí conhece o britânico Edward (Ted) Hughes, por quem se apaixona e casa. Ambos vão viver para os Estados Unidos. Mas a sorte da inspiração não é igual para os dois. Enquanto um passeio de bicicleta serve para Ted criar hexâmetros na sua cabeça, a Sylvia serve para fazer bolos ou passar o tempo em aulas, como modo de sobrevivência. E o nascimento dos dois filhos provoca uma dificuldade acrescida a Sylvia, angustiada pela infidelidade do marido. No regresso a Inglaterra, e enquanto Ted continua a ter sucesso, Sylvia não recupera a sua antiga capacidade de escrever. Mas publica The colossus em 1960. É após a separação do casal que ela consegue escrever mais proficuamente. De modo dramático - como será o seu suicídio, aos 30 anos, em 1963. Numa altura em que tinha pronto um belo livro para editar, Ariel. Em 1982, Sylvia Plath ganhava postumamente o prémio Pulitzer para a Poesia.
Do filme destaco os planos em que ela lê Chaucer diante de uma manada de vacas [as senhoras vacas são mais inteligentes do que se pensa e teriam de escolher entre Milton e Chaucer], numa língua inglesa ainda muito aparentada ao francês. E saliento a música composta por Gabriel Yared, que me fez pensar nas sinfonias de Mahler (primeira e décima).
UM ARTIGO - SOBRE AS TELENOVELAS
Em artigo assinado por Leonor Figueiredo, o Diário de Notícias de hoje aborda o tema das telenovelas como objecto de estudo. Tendo por base a apresentação de Maria Immacolata Lopes no congresso de comunicação da Covilhã, ocorrido a semana passada, a jornalista descreve como foi feito o estudo da professora da Escola de Artes e Comunicação da Universidade de S. Paulo.
Immacolata Lopes observou o comportamento de quatro famílias [socialmente estratificadas em populares (2), média e média alta] perante a telenovela A indomada (trabalho de 2002). A investigadora concluíu que a telenovela é, no seu país, uma narrativa popular que marca a agenda dos temas enquanto é exibida - casos da homossexualidade, alcoolismo ou genética. As telenovelas são mais do que simples entretenimento; proporcionam uma "identificação sobre as coisas da vida, como se fosse um espelho". A reacção a uma mesma telenovela é diferente conforme o estatuto social.
Curiosamente, no mesmo congresso da Covilhã, uma jovem investigadora portuguesa, Catarina Burnay, apresentava um trabalho que, partindo dos pressupostos de Immacolata Lopes - quotidiano familiar, subjectividade, género ficcional e videotécnica -, analisou como se recepciona uma telenovela em Portugal.
UMA MEMÓRIA - A RÁDIO SEGUNDO FERNANDO MEDEIROS
O blogue A Rádio em Portugal assinalou - e muito bem - a passagem do nonagésimo ano da primeira emissão musical de Fernando Medeiros. Também me associo ao blogue de Jorge Guimarães Silva para chamar a atenção para o evento.
Querendo festejar de modo diferente o seu aniversário, no dia 24 de Abril de 1914, o então estudante universitário Fernando Medeiros arranjou “emprestado um gramofone de campânula e discos, conseguindo, assim, a primeira transmissão de música que se fez em Portugal”, passando música de Wagner, eventualmente ouvida por três ou quatro pessoas (Rádio Semanal, 21 de Agosto de 1937). Para ele, “sempre curioso por tudo quanto se relacionava com a electricidade, e da leitura de um jornal francês que, nesse tempo, publicava artigos sobre TSF, nasceu o meu entusiasmo por essa ciência desconhecida no nosso país”. Nos primeiros tempos, não passou “de ensaios com um microfone em série na antena e entretinha-me a dizer: está lá? Ouve bem? […] O único receptor, por sinal um galena, que eu então conhecia, era propriedade do dr. Lomelino, que a uma distância de 100 metros, ouvia os meus ensaios”.
Mais tarde, quando confrontado com Abílio Nunes dos Santos Júnior (CT1AA) ele reclamava pioneirismo, mas estava obviamente a referir-se a uma época (1914) em que os conhecimentos técnicos eram escassos e o mercado português não dispunha de válvulas electrónicas para aplicar aos emissores. Usar um emissor de faísca, sem dispor de um gerador de alta-frequência constante, elemento essencial da radiodifusão, era apenas uma brincadeira. Havia uma proximidade entre fonia e radiodifusão, que foi o que experimentou Fernando Medeiros, e que se comprova com o passo seguinte dele. Em 1919, fazia uma primeira emissão de ondas extra-curtas, levando por seu “intermédio além fronteiras e pelo éter o nome sacrossanto da pátria Portuguesa”. O seu patriotismo exacerbado transportava-se numa gama de frequências explorada principalmente pela radiofonia. Além disso, adoptou vários indicativos (CS1AA, CS1AB e CS2ZE), prova de um contributo irregular.
Anos depois, Fernando Medeiros emite um “concerto de grafonola”, já em onda média. Estávamos em Maio de 1928. Dividido em três partes, o programa incluiu música de Wagner, Gounod e Schubert mas também fados, tangos e “rondallas” espanholas, aproveitando os dois intervalos, cada um com “15 minutos para receber pelo telefone Norte 72 as indicações que os amadores julgarem por bem dar-lhe sobre esta emissão. Durante esses intervalos, o aludido posto estará à escuta dos emissores que em fonia lhe desejem dar as suas impressões entre 40 e 50 metros de comprimento de onda” (Diário de Notícias, 8 de Maio de 1928). Após se informar da realização do concerto através da leitura do jornal, a audiência fazia chegar a sua opinião acerca da qualidade musical do escutado por duas vias – o telefone e a radiofonia – numa conjugação de todos os meios de comunicação de massa então existentes. Era o começo de CT1BM ou Rádio Hertz. Ao sábado, de colaboração com a Gazeta do Sul, emitia o programa “Meia hora cultural”.
A estação fazia transmissões de concertos do “Café Nacional” e de fados e guitarradas do “Café Mondego”.
Quase dois anos depois, transmitia basicamente música em disco, com títulos de canções como as seguintes: “A alma das touradas”, “A colhida”, “Fado dos milagres”, “Os teus olhos”, “Bilhetes-postais”, “O cego e a Mariana”, “Maldita cocaína”, “A minha terra”, “Chá de parreira” e “Recrutas e sopeiras” (Diário de Notícias, 29 de Março de 1930). A estação assumia um carácter popular. Por essa altura, e segundo o quadro publicado na revista Rádio Programa (Janeiro de 1931), havia mais quatro estações de rádio em actividade na capital: CT1AA (Abílio Nunes Santos Júnior), CT1DH (Luís Raul Sales) CT1IN (Ilídio Neves) e CT1LN (Francisco Lacombe). Mas, e exceptuando CT1AA, que se manterá até 1938, todas as outras estações, incluindo a de Fernando Medeiros, desaparecem rapidamente e para sempre. Fica apenas a memória.
domingo, 25 de abril de 2004
A EXCEPÇÃO CULTURAL EM ESPANHA
A nova ministra espanhola da cultura, Carmen Calvo, prepara um projecto de lei para proteger as criações artísticas, escreve hoje Jesús Ruiz Mantilla, no El Pais. Apesar da Organização Mundial do Comércio (OMC) entender a cultura como uma qualquer indústria, sujeita à lei da oferta e da procura, o governo espanhol aposta numa filosofia oposta, considerando que a cultura não é um mero produto ou mercadoria, mas criação. É a essência da chamada excepção cultural.
A lei em preparação no país vizinho pretende ir além da actual consideração pela diversidade cultural, dominante na União Europeia. Ela envolverá os produtos audiovisuais, o mercado do livro e todas as artes. Objectivo: a diversidade e a sobrevivência das culturas alternativas face ao poderio das multinacionais do entretenimento. Para a ministra, deve proteger-se a cultura como um direito para todos e não como um mero objecto de consumo.
O termo excepção cultural foi adoptado por Jack Lang no tempo em que Mitterrand era chefe do governo em França, e traduziu-se num modelo restritivo para as majors, as grandes companhias de cinema de Hollywood. Lang adopta-o a partir de 1989, com a aceitação da directiva comunitária Televisão sem Fronteiras, a qual reconhece o direito de estabelecer quotas de produção nacional ou europeia dentro do espaço da União Europeia. Além disso, Lang idealizou uma rede de fundos regionais de arte contemporânea, potenciando a criatividade plástica. Consolidaram-se as ajudas à tradução, tanto de obras estrangeiras como do francês para outros idiomas. Por exemplo, o livro de um autor que eu aprecio imenso, Patrice Flichy (Une historie de la communication moderne - espace public et vie privée, 1991), viu a sua versão em língua inglesa no ano de 1995 (Dynamics of modern communication - the shaping and impact of new communication technologies), graças ao apoio financeiro do Ministério Francês da Cultura e da Francofonia.
Em 2001, as películas francesas tinham uma quota de mercado de 41,7% (em Espanha, a média de cinema do país ronda os 11,6%). Nos anos 1960 e em Espanha, havia mais de oito mil salas de cinema e 403 milhões de espectadores, números que baixaram para quatro mil salas e 140 milhões de espectadores nos nossos dias, segundo os dados publicados no livro La excepción cultural. El futuro del cine español, coordenado por Javier Maqua e editado pela Sociedad General de Autores y Editores e pela Fundación Autor.
A ministra Carmo Calvo estenderá o apoio para além das salas de cinema, o que levará o Estado até à produção e a uma regulação e controlo do que fazem as televisões. E ao livro, contemplando apoios aos pequenos livreiros, pequenas editoras e matérias de risco. Também a música ficará envolvida na excepção cultural, ainda que a situação não seja tão grave como no cinema.
O modelo francês da excepção cultural recebeu muitas críticas. Entre elas as de propiciar o clientelismo e uma cultura de apaniguados. Trata-se, pois, de uma cultura de Estado, aliás recorrente em França desde Luís XIV e que, mais recentemente, teve em De Gaulle um dos seus defensores, quando este criou um ministério da Cultura em 1959, nomeando-se o escritor André Malraux. À cultura de Estado, os liberais [enquadrados pela Organização Mundial do Comércio] respondem com a cultura do mercado. Mas nem sempre esta funciona bem, caso de países pequenos como Portugal. A criatividade e a produção artística necessitam de incentivos, dada a dimensão de mercados como o nosso. E vivemos uma época em que isso se sente muito. A discussão recente da lei do cinema e do audiovisual, que eu não dei o devido relevo a semana passada, esteve perpassada por esta dicotomia.
A nova ministra espanhola da cultura, Carmen Calvo, prepara um projecto de lei para proteger as criações artísticas, escreve hoje Jesús Ruiz Mantilla, no El Pais. Apesar da Organização Mundial do Comércio (OMC) entender a cultura como uma qualquer indústria, sujeita à lei da oferta e da procura, o governo espanhol aposta numa filosofia oposta, considerando que a cultura não é um mero produto ou mercadoria, mas criação. É a essência da chamada excepção cultural.
A lei em preparação no país vizinho pretende ir além da actual consideração pela diversidade cultural, dominante na União Europeia. Ela envolverá os produtos audiovisuais, o mercado do livro e todas as artes. Objectivo: a diversidade e a sobrevivência das culturas alternativas face ao poderio das multinacionais do entretenimento. Para a ministra, deve proteger-se a cultura como um direito para todos e não como um mero objecto de consumo.
O termo excepção cultural foi adoptado por Jack Lang no tempo em que Mitterrand era chefe do governo em França, e traduziu-se num modelo restritivo para as majors, as grandes companhias de cinema de Hollywood. Lang adopta-o a partir de 1989, com a aceitação da directiva comunitária Televisão sem Fronteiras, a qual reconhece o direito de estabelecer quotas de produção nacional ou europeia dentro do espaço da União Europeia. Além disso, Lang idealizou uma rede de fundos regionais de arte contemporânea, potenciando a criatividade plástica. Consolidaram-se as ajudas à tradução, tanto de obras estrangeiras como do francês para outros idiomas. Por exemplo, o livro de um autor que eu aprecio imenso, Patrice Flichy (Une historie de la communication moderne - espace public et vie privée, 1991), viu a sua versão em língua inglesa no ano de 1995 (Dynamics of modern communication - the shaping and impact of new communication technologies), graças ao apoio financeiro do Ministério Francês da Cultura e da Francofonia.
Em 2001, as películas francesas tinham uma quota de mercado de 41,7% (em Espanha, a média de cinema do país ronda os 11,6%). Nos anos 1960 e em Espanha, havia mais de oito mil salas de cinema e 403 milhões de espectadores, números que baixaram para quatro mil salas e 140 milhões de espectadores nos nossos dias, segundo os dados publicados no livro La excepción cultural. El futuro del cine español, coordenado por Javier Maqua e editado pela Sociedad General de Autores y Editores e pela Fundación Autor.
A ministra Carmo Calvo estenderá o apoio para além das salas de cinema, o que levará o Estado até à produção e a uma regulação e controlo do que fazem as televisões. E ao livro, contemplando apoios aos pequenos livreiros, pequenas editoras e matérias de risco. Também a música ficará envolvida na excepção cultural, ainda que a situação não seja tão grave como no cinema.
O modelo francês da excepção cultural recebeu muitas críticas. Entre elas as de propiciar o clientelismo e uma cultura de apaniguados. Trata-se, pois, de uma cultura de Estado, aliás recorrente em França desde Luís XIV e que, mais recentemente, teve em De Gaulle um dos seus defensores, quando este criou um ministério da Cultura em 1959, nomeando-se o escritor André Malraux. À cultura de Estado, os liberais [enquadrados pela Organização Mundial do Comércio] respondem com a cultura do mercado. Mas nem sempre esta funciona bem, caso de países pequenos como Portugal. A criatividade e a produção artística necessitam de incentivos, dada a dimensão de mercados como o nosso. E vivemos uma época em que isso se sente muito. A discussão recente da lei do cinema e do audiovisual, que eu não dei o devido relevo a semana passada, esteve perpassada por esta dicotomia.
sábado, 24 de abril de 2004
NOTAS SOBRE A MEDIÇÃO DE AUDIÊNCIAS
Em Portugal, quando se fala de análise e medição de audiências de televisão, fala-se da Marktest. Efectivamente, esta empresa produz informação diária sobre audiências, alinhamento de programas televisivos e bases de imagens. A empresa possui arquivos das audiências desde 1990, dos anúncios editados na televisão desde 1998 e conserva frames das emissões diárias durante meses. Duas componentes fortes da análise são a publicidade e a informação noticiosa.
Porquê a necessidade de um sistema de medir as audiências? Porque quem paga os programas, em sistema de mercado, é a publicidade que surge nos ecrãs televisivos e porque os anunciantes precisam de saber o valor das audiências que vêem os programas e os anúncios (a imagem ao lado mostra o melhor minuto de 15 de Abril último, pertencente à SIC, durante a telenovela Chocolate com pimenta) .
Das empresas de análise e medição de audiências, a mais conhecida é a americana Nielsen. Em Espanha, a empresa que mede as audiências é a Sofes. No nosso país, a Marktest opera desde 1980. Inicialmente fez inquéritos pessoas, seguindo-se os inquéritos telefónicos e os diários (até 1990). Desde então, funciona um sistema de audimetria no nosso país (a exemplo de 85 países em todo o mundo). Os sistemas de audimetria têm sofrido evoluções, começando, nos anos de 1950 e nos Estados Unidos, com um set meter, o qual evoluiu para um people meter (ligado ao sintonizador do televisor, para se saber qual o canal ligado). Actualmente, encontra-se em teste em Portugal, como noutros países, o sistema PPM (personal people meter), uma espécie de pager que acompanha o telespectador e permite, através de sinais áudio, detectar o canal sintonizado (ver o sítio da Arbitron).
Fundamental para a medição das audiências é a constituição do painel, recrutado a partir dos lares nacionais. Neste momento, existem mil audímetros em todo o país, sendo o painel renovado anualmente à volta dos 20-25%. O sistema começou com 150 lares em 1990, alargando-se para 400 em Lisboa e Porto no ano de 1992, número que estabilizou nos actuais mil o ano passado. Em estudo, prevê-se o aumento para 1500 lares com audímetro. As fases de análise incluem a produção de resultados, o polling (captura diária), a validação e a ponderação, fazendo-se a sua publicitação para os clientes através de download de bases de dados e de distribuição através da internet e WAP (telemóveis).
No nosso país, a decisão de implementação dos sistemas de medição de audiências cabe a uma entidade constituída por representantes dos operadores de televisão, anunciantes e centrais de meios, a CAEM (Comissão de Análise de Estudos dos Media). Esta organização fiscaliza o sistema de audiências, é o organismo regulador ou entidade independente que garante rigor e fiabilidade técnica, universalidade (aceite por todos os parceiros) e controlo. O sistema é financiado pela televisão e pelos anunciantes.
[A partir de uma aula do dr. Luís Queirós, presidente da Marktest]
Em Portugal, quando se fala de análise e medição de audiências de televisão, fala-se da Marktest. Efectivamente, esta empresa produz informação diária sobre audiências, alinhamento de programas televisivos e bases de imagens. A empresa possui arquivos das audiências desde 1990, dos anúncios editados na televisão desde 1998 e conserva frames das emissões diárias durante meses. Duas componentes fortes da análise são a publicidade e a informação noticiosa.
Porquê a necessidade de um sistema de medir as audiências? Porque quem paga os programas, em sistema de mercado, é a publicidade que surge nos ecrãs televisivos e porque os anunciantes precisam de saber o valor das audiências que vêem os programas e os anúncios (a imagem ao lado mostra o melhor minuto de 15 de Abril último, pertencente à SIC, durante a telenovela Chocolate com pimenta) .
Das empresas de análise e medição de audiências, a mais conhecida é a americana Nielsen. Em Espanha, a empresa que mede as audiências é a Sofes. No nosso país, a Marktest opera desde 1980. Inicialmente fez inquéritos pessoas, seguindo-se os inquéritos telefónicos e os diários (até 1990). Desde então, funciona um sistema de audimetria no nosso país (a exemplo de 85 países em todo o mundo). Os sistemas de audimetria têm sofrido evoluções, começando, nos anos de 1950 e nos Estados Unidos, com um set meter, o qual evoluiu para um people meter (ligado ao sintonizador do televisor, para se saber qual o canal ligado). Actualmente, encontra-se em teste em Portugal, como noutros países, o sistema PPM (personal people meter), uma espécie de pager que acompanha o telespectador e permite, através de sinais áudio, detectar o canal sintonizado (ver o sítio da Arbitron).
Fundamental para a medição das audiências é a constituição do painel, recrutado a partir dos lares nacionais. Neste momento, existem mil audímetros em todo o país, sendo o painel renovado anualmente à volta dos 20-25%. O sistema começou com 150 lares em 1990, alargando-se para 400 em Lisboa e Porto no ano de 1992, número que estabilizou nos actuais mil o ano passado. Em estudo, prevê-se o aumento para 1500 lares com audímetro. As fases de análise incluem a produção de resultados, o polling (captura diária), a validação e a ponderação, fazendo-se a sua publicitação para os clientes através de download de bases de dados e de distribuição através da internet e WAP (telemóveis).
No nosso país, a decisão de implementação dos sistemas de medição de audiências cabe a uma entidade constituída por representantes dos operadores de televisão, anunciantes e centrais de meios, a CAEM (Comissão de Análise de Estudos dos Media). Esta organização fiscaliza o sistema de audiências, é o organismo regulador ou entidade independente que garante rigor e fiabilidade técnica, universalidade (aceite por todos os parceiros) e controlo. O sistema é financiado pela televisão e pelos anunciantes.
[A partir de uma aula do dr. Luís Queirós, presidente da Marktest]
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