domingo, 8 de fevereiro de 2004

NIPPLEGATE (Mamilogate)

Após o concerto do Super Bowl, em que Janet Jackson mostrou um seio, as cadeias norte-americanas de televisão tomaram a decisão de transmitir em diferido (de segundos a minutos) os programas em directo, através do recurso a técnicas electrónicas de atraso da transmissão.

Recorde-se que, no ano passado, na atribuição dos Óscares, Michael Moore, o realizador de Bowling fo Columbine, aproveitou a ocasião para zurzir em George W. Bush, a propósito da guerra do Iraque, e há meses, o músico Bono, dos U2, empregou um palavrão quando recebeu o Globo de Ouro. Algumas organizações americanas ligadas aos republicanos encontraram na atitude de Jackson o instrumento que precisavam para avançar em defesa da decência e dos bons costumes. A FCC (Federal Commission of Comunication), a autoridade americana para os media, anunciou, entretanto que fará cumprir a regulação que proíbe o uso de determinadas palavras vetadas em televisão, dentro do espírito de “lei das ondas limpas”, proposta pelos congressistas republicanos Lamar Smith e Doug Ose. As televisões aceitaram a imposição, até porque estão em jogo processos de fusão nos grandes conglomerados mediáticos, que dependem da aprovação da FCC e do Congresso norte-americano.

Em comentário a esta situação, o El Pais de hoje traz a opinião do cineasta Pedro Almodóvar, a partir de uma conferência que ele deu na 6ª feira. Em desacordo com a onda de censura, o realizador espanhol considera que o único sector em que se pode aceitar a censura é na publicidade, pois o cliente – o que paga o anúncio – pode dizer o que quer e cortar o que não lhe agrada. Emitir galas como a dos Grammy, hoje à noite, com um falso directo, é pôr mais intermediários entre a realidade e o espectador, eliminando o imediato e a espontaneidade.

sábado, 7 de fevereiro de 2004

NOVA LEI DO CINEMA

Na edição de 5 de Fevereiro último, o jornal Público dava conta da aprovação da nova lei do cinema pelo governo. Das inovações anunciadas destaca-se a abertura pelo Ministério da Cultura de um investimento para fomento e desenvolvimento das “Artes Cinematográficas e do Audiovisual”, garantindo-se já 25 milhões de euros para 2004. O governo espera para breve a assinatura de protocolos com investidores privados. Segundo o Expresso, de hoje, a PT Multimedia será uma das empresas a assumir de imediato tal encargo financeiro.

Porém, o Estado continuará a reforçar as suas obrigações e de financiamento para o sector, através do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimedia (ICAM). Irá aumentar o número de programas de apoio e de criação de obras de carácter experimental e de países de expressão portuguesa. De acordo com o projecto-lei, os distribuidores de cinema investirão anualmente 2% das suas receitas e os operadores e distribuidores de televisão (plataformas de distribuição, como cabo, via satélite, digital terrestre, por acesso fixo ou sem fios) contribuirão com 5% dos seus resultados líquidos.

O documento propõe que, no mínimo, 60% das obras cinematográficas produzidas em Portugal sejam exibidas e distribuídas nas salas de cinema. O ministério da Cultura espera “diversificar a produção cinematográfica e audiovisual, garantindo a liberdade de criação artística, desenvolvendo conteúdos multi-plataforma mais atractivos ao mercado e integrando as redes europeias de produção e distribuição”.

Recorde-se que, em 2001, foram vendidos 20 milhões de bilhetes de cinema. Por outro lado, ainda este mês de Fevereiro, o ministério da Cultura aprovou o plano financeiro de apoio à criação e produção cinematográfica para 2004, num valor total de 11,75 milhões de euros (mais 420 mil euros que em 2003). O financiamento engloba a criação e produção de longas-metragens de ficção, curtas-metragens e criação e produção de documentários, além da produção de obras de animação.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

PARA A HISTÓRIA DOS MEDIA - TSF

A TSF fez a sua primeira emissão (pirata) em Junho de 1984. Três anos antes, formara-se como cooperativa (15 cooperantes), aproveitando as promessas eleitorais do governo quanto à privatização da rádio. Depois da fase experimental, a emissão a sério começou em 29 de Fevereiro de 1988.

A primeira notícia foi lida por Francisco Sena Santos. Mais tarde, o incêndio do Chiado, em Agosto desse ano, seria a primeira cobertura jornalística da TSF, pela qual recebeu um prémio do Clube dos Jornalistas. A TSF aplicava o conceito de rádio temática, com a aposta na informação, nomeadamente sobre a política, assim como sobre o trânsito e a bolsa.

Desde o seu arranque, a estação desenvolveu conceitos novos, caso das “notícias de meia em meia hora” e da “antena aberta”. Um vaivém permanente de informação, com recolha de directos dos acontecimentos, comentários de especialistas e abertura à opinião dos ouvintes, assim como a “janela”, o espaço de informação que entra fora do noticiário, conduziram ao designado estilo TSF. O Fórum TSF foi uma das fórmulas essenciais desse estilo, tendo os ouvintes como principais intervenientes.

Mesmo antes das emissões regulares, a TSF abriria o seu capital ao exterior dos cooperantes (1987), sendo sucessivamente comprada pela Lusomundo (1993) e pela PT (2000).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

BEST ROCK FM COMEMORA O PRIMEIRO ANO

A estação de rádio Best Rock FM fez um ano anteontem. Segundo notícia do Correio da Manhã do passado dia 3, Pedro Tojal, director-geral das rádios do grupo "Media Capital", está muito satisfeito com o balanço: “Temos vindo sempre a subir desde o início”. De uma audiência total de 1,1% no primeiro trimestre de emissão, a Best ascendeu a 1,5% nos últimos três meses de 2003. A "Media Capital", para além da Best Rock, inclui a Comercial, Rádio Clube Português e Cidade.

Quanto a alterações da grelha de programação, diz Tojal: “Sem mudanças radicais, estamos sempre a introduzir coisas novas”. A nível de conteúdos, as novidades seguem os objectivos do canal, a “inovação”. O público-alvo da Best são os jovens entre os 18 e os 28 anos, que querem ouvir rock e programas “que marquem a diferença”. Não é de estranhar que a rubrica matinal da responsabilidade de Nuno Markl, ‘O Homem que Mordeu o Cão’ (que chega hoje à TVI) seja um grande trunfo, concluí a notícia do Correio da Manhã, que aqui respigamos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2004

MEMÓRIA JORNALÍSTICA - III

“Depois, as tiragens do Século iam aumentando dia a dia e o jornal entrando na massa conservadora, pois que só os jacobinos não o sustentavam. Assim o compreendeu o talento artístico de Silva Graça, que não só moderou a linguagem da folha, tornando-a tolerante, como desenvolveu ainda mais a sua informação. Magalhães Lima só lá ia pelas tardes fazer o seu artigo, que também sofria a fiscalização do lápis azul, posto que já de si fosse bastante água morna.

“Em volta da estiva [secretária grande onde se acomodavam os jornalistas], sentavam-se Artur Melo, informador categorizado que pouco sabia escrever, mas que tinha um grande espírito de observação e notável habilidade de investigador; Eugénio Silveira, que era reporter muito considerado e republicano de fama, grande orador e maçon, antigo tipógrafo que se guindara à maior altura do jornalismo; Andrade Neves, moço de singular talento e jornalista de pulso que o abuso do álcool matou; Guilherme de Sousa, o Expessura, que fora meu professor de desenho e que era uma espécie de «Larousse», sabendo de tudo e tudo fazendo no jornal; o Batalhinha, que saíra comigo da Vanguarda; o Manuel Guimarães, que foi depois grande jornalista, orientador de jornais e chefe da redacção do Século, mas que nesse tempo fazia apenas umas notícias de reuniões; o Augusto Peixoto e o Feio Terenas, de quem também me ocupei já.

“A pouco e pouco, depois que eu entrei, foram saindo Eugénio Silveira, Guilherme de Sousa, preceptor dos filhos de Silva Graça, Andrade Neves e todos os que eram republicanos assanhados, sendo substituídos por Vieira Correia, morto há pouco tempo; Alberto Bessa, que foi depois director do Jornal do Comércio; José Sarmento, Francisco Grilo, Guilherme Gomes, genro de Guilherme de Sousa. Eu atrelei-me, por grande simpatia, ao Artur Melo e, na saída de Silveira, tomámos ambos conta da grande reportagem, na qual sempre fizemos o maior dos figurões”.

Extraído de: Eduardo Fernandes (1940). Memórias do “Esculápio”. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, pp. 130-132

terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

MEMÓRIA JORNALÍSTICA - II

“Retiniu a campainha do telefone e o contínuo da Tarde veio dizer-me que o sr. Hintze Ribeiro chamava ao aparelho o sr. Urbano de Castro ou o sr. Alberto Bramão… Ausentes um e outro, fui eu lá. Mas o assunto, explicou Hintze Ribeiro, não podia ser tratado pelos fios. Desci imediatamente ao Terreiro do Paço e, minutos depois, era recebido pelo grande estadista da monarquia, então chefe de governo.

“Já o tinha visto no parlamento em dias de sessão agitada, admirava a fria correcção da sua atitude ao usar da palavra – a dextra enfiada na abertura da sobrecasaca – mas, nunca dele me aproximara, talvez intimidado por esse duro aspecto fisionómico que, entre Hintze Ribeiro e a grande maioria dos seus interlocutores, cavava um abismo. Recebeu-me com afabilidade e em rápidas palavras expôs o que queria do jornal.

“«Numa eleição suplementar, realizada dias antes, a votação do candidato progressista fora torpedeada pelo cacique regenerador. Reclamação indignada do chefe progressista e ele, Hintze, ordenara um inquérito, absolutamente disposto a fazer justiça. A Tarde devia noticiar o facto, em artigo de primeira página, e salientar que se, em vez de Hintze Ribeiro, estivesse no poder José Luciano de Castro e o chefe regenerador representasse contra falcatruas eleitorais praticadas por magnatas progressistas, decerto não seriam tomadas tão enérgicas providências como ele, Hintze, acabava de tomar».

“Ouvi silencioso e voltei para a redacção a pensar que os homens de uma elevada categoria mental não são isentos da mesquinhez que os pode nivelar ao comum dos mortais. Naturalmente, José Luciano, se se encontrasse na mesma situação de Hintze Ribeiro – assediado por uma reclamação eleitoral – não deixaria de proceder de igual modo (ordenando o inquérito), quanto mais não fosse para dar a impressão de que atendera o reclamante. Aquele confronto, que Hintze Ribeiro requeria na primeira página da Tarde, destinava-se simplesmente a produzir um determinado efeito de política partidária e com ele o grande estadista monárquico também argumentaria quando sobre o assunto o interpelassem no parlamento”.

Extraído de: Jorge de Abreu (1927). Boémia jornalística. Lisboa: Livraria Editora Guimarães, pp. 25-26

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2004

MEMÓRIA JORNALÍSTICA - I

“Passei algum tempo, se bem que pouco, pelo Jornal da Noite, quando propriedade de João Franco e dirigido pelo dr. Fernando Martins de Carvalho, secretariado por Álvaro Pinheiro Chagas. Estive ali bastante embaraçado. João Franco era, então, fortemente atacado, e um belo dia – para mim péssimo – fui encarregado da reportagem dum comício onde aquele estadista seria alvo de grandes censuras. Enfim, para ali fui, sabem Deus e eu com que vontade! Mas tinha que cumprir o meu dever como empregado do Jornal da Noite.

“Num alto estrado, que parecia que se desconjuntava, não só pelo número dos oradores que sobre ele se encontravam, como pela maneira como eles batiam com os pés, para darem mais vigor às frases agressivas, eu estive em ânsias, desejoso que o comício tivesse pouca demora. Pensava com os meus botões: «Se eles adivinham que eu sou repórter do Jornal da Noite dão-me uma tareia que fico sem conserto». “A meu lado, como representante da autoridade, estava o major Dias. Mas teria ele tempo de me defender duma bengalada?

“E eu, que nunca fora político, via-me seriamente embaraçado nessa reunião política, fazendo a resenha dos discursos e olhando a multidão que se estendia em frente do estrado e cuja atitude não era das mais tranquilizadoras. Mas salvei-me, não só dessa reportagem, como de outra igualmente perigosa”.

Extraído de: Rafael Ferreira (1945). Nos bastidores do jornalismo. Lisboa: Edição Romano Torres, pp. 141-142

sábado, 31 de janeiro de 2004

NOVOS LIVROS SOBRE OS MEDIA E O JORNALISMO (saída prevista: Fevereiro)

- Nelson Traquina, A tribo jornalística, da Editorial Notícias

- Elsa Costa e Silva, Os Donos da Notícia – Concentração da Propriedade dos Media em Portugal, da Porto Editora

NOVA IMAGEM DA RTP

Está para breve a apresentação da nova imagem da RTP.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2004

TELEVISÃO

A partir do blog Ver TV, retiro a seguinte informação:

Melhor minuto de 28 de Janeiro: o do Jornal Nacional, da TVI (às 21:43). Registaram-se 22,2% de audiência, significando 2.099.898 telespectadores.

Comentário meu: Espantosa precisão do número de espectadores! Quantos audímetros em Portugal? 1000? Curiosas as dimensões de amostras noutros países: na Alemanha, 5640; em Espanha, 3105; nos Estados Unidos, 5094; no Reino Unido, 4500 [valores apresentados em congresso sobre televisão na Universidade de Navarra (Novembro de 2003)]. O número baixo de audímetros é uma das principais fragilidades da mensuração das audiências. No congresso referido, o autor da comunicação, Carlos Lamas, da Associación para la investigación en Medios de Comunicación, entende haver necessidade de segmentação da audiência, de se possuir uma taxa de resposta pouco acima de 10% e disciplina dos painelistas (audiência não coberta, duplicada, consumos excessivos, ausência de consumo, cortes na corrente do audímetro).

Outros dados que encontrei no blog Ver TV:

Top 5 - 28 de Janeiro de 2004: 1) Jornal Nacional (TVI) Rat%16,8 - Shr%38,4; 2) Morangos Com Açúcar (SIC) Rat%15,4 - Shr%37,5; 3) Queridas Feras (SIC) Rat%13,5 - Shr%40,5; 4) Os Malucos do Riso – repetição (SIC) Rat%12,4 - Shr%29,1; 5) Jornal da Noite (SIC) Rat%12,3 - Shr%28,2.

Audiência e share - 28 de Janeiro: RTP1 - Rat%3,3 / Shr%22,5; Dois - Rat%0,5 / Shr%3,1; SIC - Rat%4,3 / Shr%29,0; TVI - Rat%5,0 / Shr%33,9; Vídeo/outros - Rat%1,7 / Shr%11,5.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2004

ACTUALIZAÇÕES

Segundo a newsletter da Marktest.com, de ontem, o investimento na rádio atingiu 170 milhões de euros em todo o ano de 2003. Na minha mensagem de 23 de Janeiro, eu estimara, a partir dos dados de Novembro, este valor como o nível mais elevado. Resta dizer que o universo da Marktest abrange apenas a TSF, a Rádio Renascença e a Media Capital. Conforme já chamara a atenção na referida mensagem, o universo das rádios do país (regionais e locais) deve valer 30% deste valor, atirando o volume para cima dos 200 milhões de euros.

Ainda de acordo com a Marktest, o meio rádio representou 7% do total do investimento publicitário, número inferior ao do ano anterior. Isto significa que o investimento publicitário se deslocou para outros meios.

domingo, 25 de janeiro de 2004

ACTUALIZAÇÕES

Máquinas fotográficas da Kodak - o fim dos rolos de 35 mm (post de 18 de Janeiro)
No El Pais de hoje vem a notícia da redução de 15 mil postos de trabalho em resultado da alteração estratégica da Kodak. A supressão dos empregos reside nas unidades ligadas à produção dos rolos. A inovação tecnológica, plena de vantagens inerentes a ela, significa também alterações dolorosas no tecido social.

Quarteto (post de 13 de Janeiro)
A distribuidora Castello Lopes, a que as salas Quarteto estão ligadas, tem 93 salas e 14700 lugares. A grande aposta da Castello Lopes é nos cinemas localizados em centros comerciais (Viana do Castelo, Guimarães, Póvoa do Varzim, Porto, Gondomar, Coimbra, Fátima, Oeiras, Cascais, Mem Martins, Barreiro, Setúbal, Guia, Portimão, Funchal e Ponta Delgada), para além de salas localizadas fora de centros comerciais, em Leiria, Batalha e Lisboa (Quarteto e Londres). Há uma aproximação à perspectiva comercial da Lusomundo. Um dos filmes actualmente em exibição nas salas da Castello Lopes é Lost in translation, de Sofia Coppola, de cujo pequeno catálogo extraí esta informação.

Sena Santos deixa RDP (post de 7 de Janeiro)
Algumas notícias têm vindo a público sobre esta situação. O Expresso de ontem fez uma síntese. O jornalista teria formulado convites para futuros programas de rádio e televisão, recebendo dinheiro adiantado. A ser assim é muita pena.

sábado, 24 de janeiro de 2004

SOBRE OS WEBLOGS - III

A um dos meus blogues de culto, Janela Indiscreta, fiz uma espécie de inquérito, procurando saber como apareceram e como funcionam. Eis as respostas:

"É verdade, a Janela começou no dia 2 de Fevereiro [de 2003] (dia em que João César Monteiro fazia anos) e no seguinte ele morreu e nós demos a notícia, mas daí a ele ser o profeta... bom agrada-me a ideia mas não é verdade, ele seria profeta de coisas melhores... Quanto ao acto fundador não existe, surgimos sem saber bem para quê, isto é uma espécie de ocupação de tempos livres. Agradeço os elogios mas não sei bem o que responder. É verdade, distribuímo-nos pelo Porto e por Lisboa, gostamos de demasiadas coisas, literatura e cinema entre elas… E passo já a batata quente a outro indiscreto" (Cristina Fernandes).

Já para Ana Alves, "os gostos aqui oscilam entre demasiadas coisas. Não temos acto fundador, mas temos a fundadora Cristina [Fernandes]. O 1º post não foi aquele artigo do Público sobre o livro «English as she is spoke»"? Outro dos bloguistas da Janela reconhece: "deambulamos entre o Porto e Lisboa; acto fundador, é como diz a Cristina; e quanto a gostos, acho que, tomando a liberdade de falar por todos, a gente gosta do que nos faz feliz, ou como li noutro blog de que gosto muito (o 1bsk do Alexandre Andrade), faz tudo parte do "combate diário pela felicidade", com a ressalva de que combate é talvez uma palavra demasiado forte, é mais uma ocupação de tempos livres mesmo, e quanto mais tempo livre houver para a felicidade melhor (e já estou a divagar, mas como diz o sempre oportuno ditado, divagar se vai ao longe)" (António Rebelo, Tó).

Anteontem, entre outros posts, na Janela Indiscreta escrevia-se: “Robert Walser (Para todos). Robert Walser (1878-1956) nasceu em Biel, na Suíça. Abandonou os estudos aos catorze anos e trabalhou num Banco como escriturário, como mordomo num castelo e como assistente de um inventor antes de descobrir o que William Gass chama "a sua verdadeira profissão" – a loucura. Desde os vinte e um anos de idade, altura em que lhe foi (mal) diagnosticada uma esquizofrenia, até decidir internar-se em 1933, escreveu nove romances, de que restam quatro, entre eles Jakob Von Gunten (1908) e mais de mil contos e textos curtos. Em 1933 desistiu de escrever e internou-se num asilo psiquiátrico – onde ficou até morrer. "Não estou cá para escrever – disse – mas para ser louco". Kafka, Musil, Hermann Hesse e Walter Benjamin foram os poucos contemporâneos que o reconheceram e admiraram. Hoje é considerado um dos grandes escritores de língua alemã deste século. O Jantar (Das Diner), publicado em 1923, foi tirado do VII volume das suas Obras Completas (Das Gesamtwerke - Prosa aus des Bieler und Berner Zeit, 1921-1925), ed. Helmud Kossodo, 1966” (texto retirado da revista Ficções).

E hoje – dia de grande produção do grupo, e que inclui uma imagem referente a um dos planos finais do filme Lost in translation - comentava-se a propósito do filme, "sobre o qual pouco se pode dizer, pois trata-se de uma sequência de pequenos nadas e de histórias mil vezes vistas e contadas embutidas numa cidade onde tudo é estranho e invulgar e em que boa parte da acção decorre num «não-lugar» como são todos os hotéis. E é este cenário estranho e alienante que ilumina todos os relevos e angulosidades desta "não-história" – isto, para além de Bill Murray e Scarlett Johansson em duas interpretações maravilhosas, e da música, e quem escolheu esta nefelibata banda sonora sabia bem o que estava a fazer. Pouco se pode dizer, sim, mas hoje quando abri o Público e vi a capa do suplemento Y, o filme passou à desfilada na minha cabeça, juntamente com as canções" (António Rebelo, Tó).

Resumindo, neste weblog - onde os seus autores "indiscretos" escrevem sobre literatura e cinema, entre outros gostos -, não há uma só geografia, mas duas (Lisboa, ao "pé" do Tejo, e Porto, à "beira" do Douro), nasceram sob o signo de João César Monteiro (entre o dia de aniversário e a data da sua morte), embora sem acto fundador (isto é, as razões porque apareceram), aproveitam os tempos livres e procuram a felicidade (o combate diário pela felicidade).

Em texto com já nove anos, publicado no Journal of Computer-Mediated Communication, John Newhagen e Sheizaf Rafaeli definiram cinco qualidades específicas da rede electrónica: 1) multimedia, 2) hipertextualidade, 3) comutação em pacote [percurso em rota e velocidade alternativas quando a linha mais curta de contacto está impedida], 4) sincronia e 5) interactividade. Eles pensaram especialmente na componente técnica, dentro da clássica linha da teoria matemática da informação, mas ignoraram ou menosprezaram o impacto estético e a fruição. Apesar dos bloguistas da Janela Indiscreta fazerem uma auto-análise assente na busca da felicidade e na ocupação dos tempos livres - isto é, fundamentalmente na interactividade e hipertextualidade de Newhagen e Rafaeli -, a mim parece-me que, na realidade, este e muitos outros blogs entram num domínio não imaginado no começo da expansão da internet mas que começa a emergir. Este domínio envolve a fragmentaridade, a não-linearidade (não se sabe como começou e porque tomou este ou aquele caminho), a criatividade, a ausência de liderança ou da autoridade (esta já prevista desde os anos 1990, mas que a apropriação dos sítios da internet pelas empresas comerciais reduziu fortemente), as novas culturas underground. Mas também a disponibilidade de edição, como David Hesmondhalgh (2002, Cultural industries) acentuou. A página do weblog surge logo impressa, sem necessidade de intermediários e onde cada um dos utilizadores da internet é o artista criador ou produtor. Como no sampling da música rap, cada bloguista pode retirar um ou mais elementos de posts - ou posts completos - e citá-los, numa grande circularidade de ideias, conceitos ou projectos. Afinal, não é esta a nossa forma de construir a cultura, falando e voltando a falar, ou a escrever, ou a desenhar, ou a ensinar, numa contínua circulação?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

PUBLICIDADE NA RÁDIO

Segundo a newsletter da Marktest.com (de 21 de Janeiro), o investimento publicitário na rádio somou mais de 150 milhões de euros nos onze primeiros meses de 2003, nos três principais grupos de rádio (PT Multimedia, Renascença, Media Capital). Se o máximo de investimento ocorreu em Outubro com mais de 18,7 milhões de euros, Novembro atingiu 10,5% do total. Praticamente exceptuando Agosto, a curva foi sempre ascendente. Prevendo-se que Dezembro acompanhe o trimestre - até porque é um período de campanhas especiais para prendas de Natal - é de estimar que o ano tenha fechado entre os 165 e 170 milhões de euros.

A estação de rádio com maior volume de investimentos no último mês em análise (Novembro) foi a TSF (€ 4,9 milhões), seguida da RFM (€ 4,3 milhões), totalizando as duas mais de metade do investimento total. Seguiram-se a Rádio Comercial (19% do total) e a Rádio Renascença (15%). A análise envolveu também a Mega FM, do grupo Renascença.

No último relatório do Obercom, o volume de investimentos em publicidade, num conjunto aproximado de estações (representando os mesmos três principais grupos de rádio), foi de 127 milhões de euros em 2002 e de 142 milhões de euros em 2001. O valor aqui estimado para 2003 significa que houve uma recuperação face a 2002. Resta dizer que, ainda segundo o mesmo relatório do Obercom, o mercado da rádio representou 12,2% do total de receitas líquidas dos media clássicos (televisão, imprensa e rádio).

De fora da análise estão as quase 300 estações de rádio locais e regionais. Estas praticam tabelas de preços inferiores à média nacional, atendendo a que alcançam audiências mais baixas, situadas nas localidades para onde emitem. Especialistas do sector admitem que o total do investimento publicitário possa atingir 30% do conjunto dos principais grupos de rádio, o que daria quase 50 milhões de euros para as pequenas estações espalhadas no país. Contudo, a crise financeira que se vive não me permite acreditar neste número, que é meramente indicativo.

Temos, pois, de esperar por números das associações de rádio e dos proprietários das estações. Mas tal poderá não acontecer, dada a falta de transparência nas contas das emissoras. Esta questão, apresentada como benéfica pelas próprias estações ("o segredo é a alma do negócio"), voltar-se-á inevitavelmente contra as mesmas. A publicação de resultados e de relatórios de contas e das actividades é um dever ético do ponto de vista do mercado.

terça-feira, 20 de janeiro de 2004

CULTURAL STUDIES
[a partir de: Armand Mattelart e Érik Neveu (1996). Les cultural studies. Réseaux, nº 80]

Em finais do séc. XIX, preconizava-se o ensino da literatura inglesa nas escolas do Estado, de forma a transmitir valores morais e cívicos para pacificar e integrar as classes trabalhadoras. O ensino de estudos ingleses nas universidades operou-se entre as duas guerras mundiais, fruto da iniciativa de professores saídos da pequena burguesia. Um dos elementos mais notáveis foi Frank Raymond Leavis, que fundou em 1932 a revista Scrutiny, tornada centro de uma cruzada moral e cultural contra o “embrutecimento” praticado pelos media e pela publicidade. A revista preparou os cultural studies. Tornava-se clara uma posição face ao meio ambiente industrial da cultura.

Os estudos culturais conheceram a sua verdadeira institucionalização em 1964, com a criação do Centre of Contemporary Cultural Studies, de Birmingham (CCCS), com o objectivo de estudar “as formas, práticas e instituições culturais e as suas relações com a sociedade e a mudança social”. Em 1957, Richard Hoggart fazia sair um livro fundador do seu campo de estudos: The uses of literacy (em português: As utilizações da cultura, editado pela Presença), em que se estuda a influência da cultura difundida nas classes trabalhadoras pelos meios modernos de comunicação. Dois outros autores fundadores dos cultural studies, Raymond Williams e Edward P. Thompson, possuíam em comum a experiência da educação de adultos. O quarto fundador foi Stuart Hall, jamaicano nascido em 1932. No seu artigo mais famoso sobre a codificação e descodificação dos programas televisivos, formula a pluralidade dos modos de recepção dos programas. Valoriza-se ainda a dimensão da oralidade, das culturas não escritas no trabalho do historiador.

Hoggart foi o primeiro director do CCCS de Birmingham. O CCCS tornou-se um extraordinário espaço de animação científica, funcionando como placa giratória do trabalho de importação e adaptação de teorias, indo do marxismo do continente, da semiologia e do estruturalismo a alguns aspectos da escola de Frankfurt e à herança da escola de Chicago em torno do desvio e das subculturas. Depois, em segundo lugar, o CCCS contribuiu para desenvolver pesquisas em torno das culturas populares, dos media e das questões ligadas às identidades étnicas e de género. Em terceiro lugar, o CCCS distinguiu-se pelo carácter heterogéneo de trabalhos. O Centro partiu de uma base económica muito frágil, a ponto de Hoggart solicitar o mecenato da editora Penguin para dotar o centro com alguns meios e permitir a integração de Stuart Hall.

Um primeiro processo de expansão desenvolveu-se em torno do estudo das culturas populares. Logo depois, a saída de working papers sobre subculturas jovens das classes populares imigradas ou da pequena burguesia – skins, mods, rockers, rastas, hippies – alargou o reconhecimento do CCCS. Deu-se atenção aos universos sociais dos jovens e aos significados dos conflitos geracionais. A questão do desvio e a análise da música pop e rock tornaram-se outros temas fundamentais do CCCS. Acrescente-se as ligações pessoais e as redes científicas (e políticas) assegurando uma circulação e uma fecundação mútua de trabalhos.

Leitura suplementar: Isabel Ferin (2002). Comunicação e culturas do quotidiano. Lisboa: Quimera

segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

SOBRE OS WEBLOGS - II

No encontro de weblogs de Setembro de 2003, assinalado em texto anterior, uma nota predominante foi a da consideração do novo meio como auxiliar do jornalismo. Parte dos oradores e da audiência do encontro encontra-se ligada ao jornalismo; daí essa tendência.

Mas, no espaço público, apareceriam necessariamente mais tipos de weblogs. A discussão gerada e a contínua informação sobre a facilidade de construção de páginas do novo meio possibilitou a emergência desses novos tipos de weblogs. Os últimos meses provaram que, quer esteticamente quer a nível das especializações, o novo meio se traduz na constituição de uma rede de sistemas múltiplos que dá relevo ao fragmento. Ou seja: há um todo mas onde as parcelas têm igualmente muita importância. De certo modo, podemos dizer que se assiste a um retorno de uma ideia fulcral do romantismo, no começo do séc. XX: o fragmento, género literário por excelência. Como escreveu Simón Marchán Fiz (La estética en la cultura moderna, Barcelona, Gustavo Gili, 1982, p. 115): "cada fragmento é um resumo [...], uma pincelada rápida, fechada segundo a sua forma, ainda que não nos seus temas". Cada fragmento combina-se com outros, anteriores e posteriores, formando um sistema e quebrando o discurso linear.

Não quero falar dos weblogs que não gosto ou não conheço, mas apenas daqueles onde encontro afinidades ou onde aprendo alguma coisa. Um deles é Nocturno com gatos, uma mistura equilibrada entre poemas próprios da autora do weblog, Soledade Santos, fragmentos de poemas escolhidos de autores que ela gosta e imagens. Seleccionei um dos poemas de Soledade Santos, intitulado "A chuva voltou": "a chuva voltou esta noite/no lamento do vento nos vidros/nos meus olhos a chuva voltou/é tudo quanto soa/e sabe bem ouvi-la/ter um pretexto/para o silêncio dizer apenas/ouve como canta nas telhas/e desagua/no pó".

A ternura do weblog - no sentido positivo do termo - é o modo como reagem os leitores (ou admiradores) de Soledade Santos, através de comentários, a que a autora costuma responder. De certo modo, este círculo de apresentação de poemas ou imagens lembra as cartas do séc. XVIII e o salão de Mme. d'Épinay, como Jürgen Habermas nos descreve no seu conhecidíssimo texto Mudança estrutural da esfera pública. A carta era tida como informação para os jornais, mas também como correspondência culta e de cortesia familiar. Mme. de Staël, cultivando uma intensa vida social, pedia aos seus convivas que, após as refeições que servia, se retirassem para escrever cartas uns aos outros sobre o que tinham observado ou comentado. No salão da acima referida Mme. d'Épinay, onde se celebravam a arte e a literatura, eram frequentes as primeiras audições musicais e as primeiras leituras de novos poemas. Ao mesmo tempo, fomentava-se a profissão de crítico ou "árbitro das artes" (Habermas, p. 57).

Porém, estamos numa época onde este processo já não é presencial, mas virtual. Pode aqui aplicar-se o conceito de comunidade imaginada, elaborado por Benedict Anderson (Imagined communities, Londres e Nova Iorque, Verso, edição consultada de 1991). A propósito da nação, escreveria o autor que aquela é imaginada porque "mesmo os membros de uma pequena nação não conhecerão a maior parte dos seus concidadãos, encontrá-los-ão ou ouvirão falar deles" (p. 5). Na realidade, mesmo comunidades maiores que uma aldeia terão essa dificuldade dos seus membros se conhecerem todos em termos de comunicação interpessoal. Assim, conclui Anderson, as comunidades distinguem-se não pela sua falsidade ou aspectos genuínos mas pelo estilo com que são imaginadas. Uma comunidade, mesmo que os seus agentes não tenham conhecimento da sua totalidade, mostra um lado de fraternidade - ou de identidade e aproximação, acrescento eu.

Um weblog como o de Soledade Santos tem tal particularidade. Talvez nunca chegue a conhecer Soledade Santos, e se o seu nome é verdadeiro ou um pseudónimo. Também não sei se o auditório que a acompanha a conhece ou não. Mas todos - para além da interactividade presente nestas comunidades imaginadas - partilham gostos, objectivos ou simples formas de estar na vida. São comunidades virtuais, mas mais além do chat onde cada um coloca a sua mensagem e interage com outros comunicadores sem que a falta de identificação constitua qualquer problema para o contacto. Aqui, as pessoas dão o nome e a autora reage, com respostas, quase sempre de agradecimento. Como se Mme. de Staël ressuscitasse e mandasse alguém escrever para os outros comentarem.

Outro weblog de referência é A montanha mágica, uma bela combinação de artes visuais e literárias. Nas mensagens de sábado, dia 17, inclui, por exemplo, reproduções da pintora surrealista menos bem conhecida Remedios Varo, nascida em Espanha e falecida no México. Para além de um pressentido lado narcisista (apesar da timidez de quem se esconde por detrás do nome de Luís), há neste weblog uma grande preocupação estética e pedagógica, uma fruição e um enorme elogio à produção artística humana. Acompanha-se o weblog como se folheássemos um álbum que admiramos - ou amamos.

Aqui, levanta-se a questão da edição. Será difícil editar um livro com as imagens surgidas no weblog - pelo preço, pelo tempo de impressão e pela colocação no mercado (da concepção à produção, distribuição e consumo, isto é, toda a cadeia de valor). Além disso, haveria direitos de autor a pagar. Pela tradição da Internet, o link funciona como indicação da fonte, o que isenta de qualquer pagamento por parte do autor da página ou do weblog. E A montanha mágica faz isso com sabedoria. Quanto à Janela indiscreta, outro blog de culto, prometo escrever sobre ele, um dia destes.

domingo, 18 de janeiro de 2004

MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS DA KODAK - O FIM DOS ROLOS DE 35 MM

A Eastan Kodak Co, a maior companhia de fotografia do mundo, vai deixar de vender máquinas fotográficas com películas de 35 mm, nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental (onde as vendas baixaram 30% no ano passado), concentrando-se nos mercados emergentes, como a China, Índia e Europa de leste (com um crescimento de 10%). Esta divisão do mundo significa que a Kodak produzirá produtos digitais para os países mais desenvolvidos mas manterá os equipamentos clássicos nos países em vias de desenvolvimento.

Há poucos meses atrás, a Kodak sofrera uma queda acentuada nos mercados bolsistas ao anunciar a aposta apenas em tecnologias digitais, chegando mesmo a deixar de ser cotada, o que aconteceu pela primeira vez em mais de cinquenta anos. Alguns analistas aconselham inclusive que os accionistas da companhia se desfaçam dos seus investimentos na Kodak, o que será certamente um mau passo, pelo menos no presente momento.

Este é um mercado constituído por diversas indústrias como a óptica, os filmes (de película e imagens digitais), câmaras fotográficas e de vídeo e laboratórios, formando cadeias de valor horizontais e verticais, disputado por companhias multinacionais como a Agfa, Sony e Canon. Trata-se de uma área com uma forte incidência no segmento doméstico e profissional, em migração para o digital, o que também ocorre na indústria do cinema. Recorde-se ainda que os fabricantes da Formosa se preparam para liderar o mercado no segmento de aparelhos digitais de baixo preço.

A história da Kodak começou quando George Eastman lançou, em 1888, uma máquina fotográfica com o slogan "Carregue no botão que nós fazemos o resto". Então, as imagens eram obtidas em vidro a partir de uma emulsão em prata. Eastman começara a interessar-se pela fotografia em 1878, quando tinha 24 anos, através da leitura de revistas inglesas que falavam das emulsões de gelatina. Algum tempo depois, Eastman registava uma patente, criava uma empresa e lançava a Kodak, câmara fotográfica com incorporação de um rolo para 100 exposições, a 25 dólares. O consumidor só tinha de fotografar e enviar a máquina com o rolo para a fábrica de Eastman; após a revelação, o consumidor recebia as imagens e um novo rolo incorporado na máquina, por mais 10 dólares.

sábado, 17 de janeiro de 2004

SOBRE OS WEBLOGS - I

A 18 e 19 de Setembro do último ano, decorreu um inesquecível encontro de weblogs, em Braga. Do que me ficou como mais importante foi o reconhecimento deste novo meio de informação como elemento interventor do jornalismo. O que não passa nos jornais ou nas televisões pode passar pelos weblogs, estruturas infinitamente mais leves e que funcionam em redes (tipo passa a palavra). Leia-se: o que não entra politicamente nos media clássicos. Aliás, houve quem lamentasse a ausência dos autores de dois conhecidos blogs políticos, que dariam uma maior animação - e, eventualmente, visibilidade - ao encontro. Porém, creio que as expectativas dos organizadores do encontro seriam atingidas: uma primeira página do Jornal de Notícias e um directo no telejornal da RTP nesse dia 18 de Setembro.

Do que escrevi na altura, retenho o seguinte: "Para José Luis Orihuela, da Universidade de Navarra, a Internet foi o momento mais importante na história da comunicação desde Gutenberg e, na história deste meio, o weblog foi o ponto alto. Para alicerçar tal posição, argumentou com as características activas do weblog - criatividade na e-comunicação (comunicação electrónica), conhecimento partilhado e conversação -, diferente da recepção passiva dos media tradicionais. Orihuela (blog ecuaderno.com) chamou a ainda a atenção para o facto da comunidade dos weblogs ser autoreferencial, com sistemas de rankings e hierarquias, numa prefiguração de fechamento ao exterior" (MediaXXI, Setembro-Outubro de 2003, p. 68).

Jornalistas, antigos jornalistas e professores defenderam a ligação dos weblogs com o jornalismo. Penso em Paulo Querido e Pedro Fonseca. Mas essa também foi a posição de Manuel Pinto e de António Granado. Eu, então, preferi destacar o lado pioneiro da actividade. Comparei os actuais bloggers com os amadores da rádio na década de 1920. Isto é, parece-me haver semelhanças com um movimento ligado aos meios electrónicos de comunicação de há oitenta anos.

Defendi então que "O desenvolvimento das ondas curtas [rádio] ocorreu no período a seguir à I Guerra Mundial, quando os soldados americanos regressaram da frente europeia, onde tinham praticado a transmissão de rádio. Passados à vida activa, construíram aparelhos com materiais baratos, usando gamas de frequências rejeitadas pelo Estado e pelas forças económicas. Num movimento livre, descobriram que a voz chegava facilmente ao outro extremo do mundo. Experimentação e inovação constantes detectam-se também no movimento dos weblogs. Memórias, análises ou críticas são características destes diários. Como na rádio, também as mensagens do weblog chegam a qualquer parte do mundo. A que se junta a liberdade estética, cultural, social e política, como alternativa à internet. De igual modo que a rádio experimental, o weblog é um meio electrónico de comunicação que poderia chegar à massificação mas – na minha leitura – permanecerá como movimento de especialistas e cultores de um género. Primeiro, porque é uma ferramenta de início de actividade, com rápidas transformações tecnológicas e ajustamento do objecto de trabalho. Depois, porque se especializa – um diário de literatura tende a não se misturar com o de análise política, de jornalismo ou de outro género. Com isso, instauram-se áreas independentes, de círculos".

Nessa comunicação, mostrei que também há "diferenças. Dada a escassez de meios (poucas frequências disponíveis) e o facto de as emissões se concentrarem à noite, a sobreposição de vozes na rádio gerou interferências. As associações de radioamadores criadas restabeleceram os protocolos de qualidade no acesso. Nos weblogs – como em toda a arquitectura da internet – não há essa carência. O acesso faz-se assincronamente, quando e onde se quiser. Já não há um tempo/espaço preciso para o contacto. A virtualidade na difusão e acesso criou um elemento específico e aparentemente oposto à ausência do espaço/tempo: a existência do arquivo para preservação da memória. Por outro lado, o aleatório na sequência de vozes na rádio tem a sua correspondência nas hiperligações que se estabelecem em cada weblog. Isto é: não há uma previsão de quem fala a seguir num canal de radioamadores. Do mesmo modo, um texto de weblog pode conduzir para um ou vários outros textos, criando a circularidade do conhecimento. Uma outra distinção existente nos dois movimentos é o emprego dos sentidos sensoriais. A rádio de ondas curtas tem apenas sons. Mas o teatro radiofónico criou a captação de sons ambientais, que nos dão a “ver” a realidade. Estamos na passagem para a galáxia Marconi, como preconizou McLuhan, numa retoma da multiplicidade sensorial. Ao sentido sonoro juntar-se-á o visual na televisão. A internet vai mais longe ao incluir a interactividade. O weblog contém essa característica, com a escrita de comentários no próprio post ou troca de mensagens para o e-mail do responsável do weblog. A interactividade é um elemento imprescindível na comunicação e na pedagogia".

E concluia que, "Ao comparar dois meios de comunicação, procurei demonstrar que, em tempos históricos variados, há movimentos que repetem estruturas, embora apoiados por tecnologias ou visões culturais e políticas diferentes".

terça-feira, 13 de janeiro de 2004

QUARTETO

Há dias, na sua coluna do jornal Público, Eduardo Prado Coelho escrevia sobre o café Vává, ali na esquina da Avenida de Roma com a Avenida Estados Unidos da América. O Vává tinha sido um espaço de reunião de intelectuais e de artistas, prontos a discutir as últimas vanguardas. O café transformou-se em restaurante e perdeu o élan antigo. Nessa altura, eu não vivia aqui. Mas lembro-me de, há já muitos anos, ter usado nesse restaurante, enquanto jantava, pela primeira vez, um primeiro telefone portátil (telefone fixo sem fios) para falar com a família.

Eduardo Prado Coelho refere um outro local da zona, intimamente ligado - as salas de cinema Quarteto. Como o café, escreveu ele, o Quarteto passou de moda. Na realidade, parece ter passado o seu tempo áureo. As salas não são muito confortáveis, têm uns degraus temerosos. Mas possui uma bela entrada, com uma pequena cafetaria antiga e mesas e cadeiras. Há alguns meses, a cafetaria esteve fechada. Não percebi bem qual a razão, mas parece-me que o proprietário do espaço tinha argumentação. Fica por saber se o negócio dá lucro. Agora, nos dias que correm, os cinemas apetrecham-se com outras parcerias. Ainda na Avenida de Roma, ou próximo dela - no King, funciona uma livraria da Assírio & Alvim e uma pequena cafetaria; no Londres, entrou ao serviço, recentemente, uma cafetaria e restaurante da cadeia Magnólia, com chocolates e doçaria de chamar a atenção, para além de livros e jornais para ler.

A assistência aos filmes do Quarteto não é muita, o que faz pena. O Quarteto mantém, desde há 28 anos, uma newsletter, a Quarteto Notícias, lembrando os cineclubes de há trinta anos (pelo menos na minha memória e experiência). Não são textos críticos, mas textos editados no Público, Blitz, Télérama, San Francisco Chronicle, Rolling Stone, etc., que, se não formam, pelo menos informam (é desagradável irmos ver um filme sem referências, não é?). No seu número inicial de 2004, de quatro páginas A4, com imagens referentes às películas em exibição, a capa traz o Urso de Prata do Festival de Berlim 2003, a obra de Patrice Chéreau, O seu irmão, filme melancólico sobre a lenta morte de um homem, com o seu irmão, reencontrado, a acompanhar esses momentos finais. Trata-se de um filme sobre corpos e o vazio deles, como fôra o filme anterior de Chéreau, Intimidade. Este passado em Londres, entre um teatrinho e uma loja de produtos sexuais, aquele passado entre um hospital de Paris e uma casa na Bretanha. Com uma casa mais pessoal e íntima pelo meio. Mas no Quarteto passam, neste momento, outros filmes como Na América, retrato de uma família irlandesa que entra ilegalmente na América e procura emprego em Nova Iorque. A distribuição dos filmes, da Link Filmes e da Castello Lopes Multimedia, não nos mostra cinematografias de países marginais às grandes produções, mas obras em torno de temas estranhos e, até, comoventes.

domingo, 11 de janeiro de 2004

BRITNEY PERDE A INOCÊNCIA

É este o título do artigo sobre Britney Spears, saido hoje na revista dominical de El Pais. O actual momento está a ser importante para ela: um casamento quase secreto e logo anulado e o lançamento do disco In the zone. Tudo bem embalado, pois o importante é amplificar acontecimentos para chamar a atenção. E vender.

No artigo do El Pais, assinado por John Aizlewood, da Q Magazine, fica a saber-se que ela votou em Scwarzenegger (que não lhe pôs a mão, quando se conheceram), que gosta de fumar (o que provocou as delícias da imprensa sensacionalista) e que aceitou a passagem de testemunho de Madona (após o beijo na cerimónia de entrega dos prémios da MTV enquanto cantavam Like a virgin e do convite a Madona para cantar no seu disco, na música Me against the music, consolidando a amizade entre ambas).

De 21 anos, o novo ícone mundial vendeu 50 milhões de cópias do seu disco anterior, suturando os insucessos do filme Croassroads e do restaurante Nyla, em Nova Iorque, que fechou com dívidas no montante de 400 mil dólares (o pai dela, construtor e dono de um ginásio, queria ser cozinheiro). A carreira de Britney começou em 1999, com Baby one more time.

Funciona a promoção - ou a publicidade, ou o escândalo. As fotografias, de Ellen von Unwerth, que acompanham o artigo fazem parte da campanha - Britney com piercing no umbigo, fazendo de pin-up, rainha do drama (sonha fazer um filme musical), mais sensual. Falta a Britney ser um pouco mais alta, como ela própria gostaria.

Sobre a produção na indústria cultural da música, nada diz. Vem isto a propósito do tema central do número de Outono de 2003 do JMM - The International Journal on Media Management, "Culture and the media industry". Em texto escrito por Jerald Hughes e Karl Reiner Lang, com o título "If I had a song: the culture of digital community networks and its impact on the music industry", os autores destacam o peso da inovação tecnológica na produção musical e sua reprodução. Hoje, a internet desenvolve uma audiência interactiva e mais vasta mas dispersa e atenta a um mercado mais fragmentado em nichos. O efeito da transformação da música analógica em digital trouxe consequências ainda difíceis de avaliar numa indústria estabelecida desde há muito segundo determinados padrões de produção e distribuição. Com as redes virtuais e digitais surgem comunidades de utilizadores tecnológicos - quer artistas quer consumidores -, envolvidos em entidades dinâmicas e organizadas por si mesmas, baseadas na troca de informação electrónica. Com a redistribuição do poder manifestam-se as mudanças nos valores culturais: mudanças comportamentais, mudanças de atitude e mudança nos juízos éticos.

Isto é, passou-se, ao longo do tempo, da concepção da música como experiência (o concerto público) para a ideia de artefacto (registo em disco ou outro suporte) e para a actual ideia de música como informação, com o MP3, por exemplo, que engloba e retrabalha as concepções anteriores. Assim, a música como experiência pode ser a transmissão ao vivo através da internet e o streaming, enquanto a música como artefacto engloba a subscrição de um CD. A música como informação permite a partilha de ficheiros, a sua remistura e o sampling. Passa-se de uma indústria baseada no artefacto para uma indústria baseada na informação, de uma distribuição em massa para uma baseada na P2P (de utilizador para utilizador), de uma produção com recursos escassos para uma de recursos de baixo custo de produção, de direitos fixos de propriedade para uma informação musical aberta (que permite a remistura e o sampling) e da dicotomia criador/consumidor para a convergência criador/consumidor (Hughes e Lang, 2003: 187).

Com certeza, isto vai abalar toda a cadeia de valor na indústria musical. De onde algumas interrogações: qual o papel das Britney Spears de amanhã?, será apenas o de motor da novidade e do efémero?, ou de alguém que salta de indústria cultural em indústria cultural, fazendo sinergia numa nova corrente, recombinando também as indústrias culturais em eixos horizontais?

sábado, 10 de janeiro de 2004

AINDA A VALENTIM DE CARVALHO - REFAZER OS FIOS À MEADA

Dois dos posts que coloquei neste weblog diziam respeito à Valentim de Carvalho e à Editorial Notícias. Hoje, uma notícia do Expresso, assinada por Pedro Lima, no renovado caderno de Economia & Internacional, junta as duas marcas.

A Valentim de Carvalho encontra-se numa fase de diversificação e de recentramento do seu negócio. É um conjunto de lojas que vende discos, mas também filmes de DVD, jogos de consola e livros, além de espaços de restauração associados às lojas. Responsável por esta alteração foi a JRP, empresa que comprou 60% da Valentim de Carvalho Lojas.

O último parágrafo da notícia é esclarecedor quanto ao âmbito de trabalho da JRP. Trata-se de um grupo com interesses na área do cinema, distribuição de filmes e vídeo, centros de diversão, áreas industrial e imobiliário e edição e distribuição de livros. É que a JRP, ainda segundo a notícia, comprou a Editorial Notícias e a Oficina do Livro, que pertenciam à Lusomundo. A JRP adquiriu também as sete lojas da Editorial Notícias.

Perguntas: será que a linha editorial se vai manter? A marca desaparece? Há o assumir nítido no cruzamento de interesses estéticos e financeiros das distintas actividades do audiovisual e do livro? Será uma alternativa à FNAC ou é uma proposta concorrente, admitindo o sucesso da fórmula [a qual esvaziou o conceito de negócio da Valentim de Carvalho no Chiado]?

Suplementar a esta notícia é o facto da revitalização da área do Saldanha, em Lisboa, como área de lazer, entretenimento e cultura. Após o desaparecimento do mítico teatro Monumental, toda a zona, num dos lados das avenidas novas, passou por uma crise de identidade. Agora, e após o lançamento e consolidação das salas de cinema existentes em dois dos centros comerciais da Praça do Saldanha, surgiu uma livraria Almedina - um espaço que considero muito elegante, esperando que possa surgir alguma animação cultural, embora sem uma área própria para tal. Perto, num centro comercial menos moderno, uma companhia de teatro tem feito um trabalho notável, com uma tendência para aquilo a que poderíamos chamar teatro de revista. A nova loja da Valentim de Carvalho, também na zona, vai certamente "puxar" para cima as indústrias culturais.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

SENA SANTOS DEIXA A RDP

[nota: por razões que há muito impus a mim próprio, não gosto de especular sobre situações do quotidiano. Mas a notícia da saída de Sena Santos da RDP obriga-me a proceder de modo diferente. Afinal este é um espaço meu]

Eu já andava desconfiado. As manhãs da Antena 1 estavam diferentes (com isto não quero tirar o mérito a quem está na estação). Sena Santos tem um estilo inconfundível - faz perguntas, anima, "obrigou", vezes sem conta, o estúdio da estação a andar pelo país. De há cerca de dois anos a esta parte senti que ele estava cansado. De quê? Da nova realidade do audiovisual do Estado?

O certo é que a sua voz e o seu estilo desapareceram. E o novo espaço informativo da manhã da Antena 1 parece, perdoem-me, indigente. O animador António Macedo, a repetição das notícias duas vezes e meia entre as 8 e as 8:35 (ou 8:40), mais uma coisa chamada Palmilha Dentada (para mim desdentada) e um diálogo estranhíssimo de um psicólogo e de uma jornalista sobre horóscopos, como tratar uma criança ou coisas próximas, além do encurtamento do sinal horário, património e marca distintiva de décadas atirado fora - vão-me obrigar a demandar para outra onda, eu que sou radiodependente. Antes ouvir, sem qualquer esforço pedagógico ou crítico, umas canções em língua portuguesa. Ou saltar para a (Antena) Dois, que tem uma programação diversificada (com diferentes animadores) nas suas manhãs - Acordar a Dois [por exemplo, amanhã, com Luís Caetano e Gabriela Canavilhas] - ou à hora do almoço e logo depois - Jardim da Música, com Judite Lima. Ou redescobrir a TSF com a sua inevitável publicidade. Ou passar pela emissora (dita alternativa) Radar e ouvir Sofia Morais. Gostos ecléticos?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

BOAS NOTÍCIAS NOS MEDIA

Nos provedores do leitor - depois da anunciada ida de Joaquim Furtado para provedor do leitor do Público, hoje a notícia é a do desempenho em igual função de Manuel Pinto no Jornal de Notícias.
Na televisão - o arranque da Dois. Depois da forte discussão pública em 2002, toda a gente espera que a alteração seja positiva.
Nos jornais - um jornal alemão, Berliner Morgenpost, anuncia ir dar relevo às boas notícias. Isto é, as más notícias não desaparecem mas são remetidas para pequenas caixas. Os jornalistas do diário berlinense acham que há muitos acontecimentos positivos a decorrer na cidade (informação recolhida na newsletter de hoje do European Journalism Centre ). Seria bom os jornais portugueses aplicarem este princípio.

domingo, 4 de janeiro de 2004

O CINEMA SEGUNDO JOSÉ FONSECA E COSTA

No caderno dominical do Público de hoje vem uma entrevista concedida pelo realizador Fonseca e Costa ao jornalista Adelino Gomes. Como pano de fundo, a recente estreia do seu filme O fascínio. Algumas ideias surgidas na entrevista são importantes para a análise no sector. Primeiro, a faixa etária principal do público que assiste a filmes ronda os 15 a 25 anos. Depois, para o caso dos Estados Unidos, 35% das receitas de um filme são feitas em sala; o restante vem de outros campos: DVD, televisão, canais por cabo.

Sobre o mercado português, o realizador destaca as alterações profundas no mercado, que levaram a que as salas fossem sendo compradas pelas multinacionais, que exploram fundamentalmente o cinema americano e não financiam outras cinematografias. Um distribuidor funciona com pacotes de filmes. Fonseca e Costa lembra a distribuição de um seu filme anterior, Cinco dias, cinco noites, o qual não teve acesso ao circuito das salas da Lusomundo, grupo que representava então 70% dos cinemas do país. Contra isto, está a funcionar a iniciativa comunitária Media, conjunto de cinemas dos vários países e cidades da União Europeia que "passam" o cinema europeu. O realizador acha que se deve alterar a regulação do mercado. E lembra a lei americana, de 1947 (lei Paramount, anti-trust), que impede os distribuidores de serem detentores de salas acima de um determinado número, assegurando, assim, a existência de exibidores independentes.

À pergunta sobre se o cinema é uma arte ou um negócio, Fonseca e Costa entende que se trata de arte feita com meios tecnológicos caros e produzida por uma indústria poderosa. O cinema é uma indústria e o filme uma obra de arte.

O filme O fascínio é uma adaptação do romance do escritor brasileiro Tabajara Ruas, mas com acção transposta para o Portugal actual. Um dia, Lino Paes Rodrigues chega ao seu escritório de empresário imobiliário e abre uma carta pessoal. A sua vida mudaria: um tio-avô, de quem estava afastado por zanga antiga, deixara-lhe uma grande herdade perto de Elvas, como herança.

José Fonseca e Costa, nascido em 1933, em Angola, começou por estudar Direito, que abandonou ao enveredar pela actividade cinematográfica após frequentar o ambiente cineclubista, como sócio do Cine-Clube Imagem. Estreou-se com a longa-metragem O Recado (1971), a partir de argumento seu, repleto de referências ao ambiente fechado (e policial) vivido no Portugal do início dos anos 70. A presença da actriz Maria Cabral contribuíu para a obtenção de algum sucesso comercial. Mais tarde, aposta num modelo narrativo tradicional, com Kilas, o mau da fita, em 1980, um dos maiores êxitos comerciais do cinema português. Em 1982, filma Sem sombra de pecado, a partir de uma novela de David Mourão-Ferreira. Era a adesão ao modelo europeu da co-produção e internacionalização de elencos e equipas técnicas. Em 1986, adapta ao cinema o romance de José Cardoso Pires, A balada da praia dos cães. Após outras obras, regressaria em 1996, com Cinco dias, cinco noites, co-produção luso-francesa com base numa obra de Álvaro Cunhal, filme que não passaria nos cinemas da Lusomundo, como se escreveu acima, mas que teve um bom sucesso na época (os elementos da cinematografia de Fonseca e Costa foram recolhidos no site do Centro de Língua Portuguesa/ Instituto Camões).

sábado, 3 de janeiro de 2004

LUSOMUNDO ABANDONA O SECTOR DO LIVRO

A notícia vinha na edição do jornal Público de ontem. A Editorial Notícias, pertença da Lusomundo, tinha-se destacado nos anos mais recentes no mercado do livro, caso dos romances. Mas também com uma importante colecção dos media, chamada Media&Sociedade. O último título que tenho conhecimento que saiu desta colecção é o texto de Daniel Ricardo, jornalista da Visão, e que tem o título Ainda bem que me pergunta. Manual de escrita jornalística. Segundo as minhas contas, a colecção dos media teve 18 títulos distintos de vários autores, de que destaco, por gosto pessoal, Nelson Traquina, José Rebelo, Luís Paixão Martins, Diogo Pires Aurélio e Nuno Brandão. A Editorial Notícias também tem publicado a revista Trajectos, dedicada aos media, e pertença do ISCTE.

Esta alteração estratégica da Lusomundo poderá explicar a recente edição do livro de João Paulo Meneses sobre a TSF (Tudo o que se passa na TSF) não na Editorial Notícias, mas acompanhando uma das edições do Jornal de Notícias, pertença do mesmo grupo, o que me parecera estranho então.

Segundo a mesma notícia, a Lusomundo, para além da Editorial Notícias, abandona ainda o negócio das livrarias. Em contrapartida, adquiriu o jornal Ocasião, publicação gratuita de anúncios classificados, num recentramento nítido do negócio. Já há algum tempo que se vinha a especular acerca desta mudança de rumo - meses atrás, alguém que conheço submeteu um original para publicação na Editorial Notícias. A resposta foi pronta: "Lamentamos [...] informar que o nosso programa editorial não comporta, de momento, a inclusão de mais títulos". Segundo uma informação recente que recolhi de uma responsável do sector, o mercado do livro teve um abrandamento de 20% nas vendas em 2003, prova de que o mercado se encontra numa grave crise. A Editorial Notícias tinha toda a cadeia de valor do sector: produção, distribuição e venda (livrarias próprias). Se, nalguns casos, há vantagens em controlar o sector todo, noutros casos, quando a crise financeira é forte, o risco eleva-se.

Recorde-se que os negócios principais da Lusomundo são o cinema (exibição de filmes em salas e distribuição de filmes e vídeos) e os media (jornais como o Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas, Tal & Qual; revistas; rádio TSF).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

O contributo de Adriano Paiva (1847-1907) na origem da televisão. A hipótese do selénio

O professor português Adriano de Paiva é uma figura importante na história técnica da televisão. Aceite pelos principais investigadores de finais do século XIX, seria redescoberto pela comunidade de historiadores da televisão em 1967, quando Walter Bruch, o inventor alemão do sistema PAL, lhe fez uma homenagem pública.

O livro de Vasco Hogan Teves (História da televisão em Portugal, 1955/1979, pp. 6-7) faz-lhe referência, com direito a fotografia. Mas encontram-se mais detalhes no site de André Lange, que ensinou História da televisão na Université Libre de Bruxelas antes de se dedicar ao Observatório Europeu do Audiovisual. O endereço do site é Histoire de la télévision e nele se pode ler o texto do investigador português, dando conta das suas experiências. André Lange, no seu site, agradece ao Professor Manuel Vaz Guedes, da Universidade do Porto, o fornecimento de todas as informações sobre Adriano Paiva.

Adriano Paiva foi nomeado, em 1872, professor na Academia Politécnica do Porto, na cadeira de Química, após o que transitou para a cadeira de Física, onde publicou um tratado dos princípios fundamentais da termodinâmica. No ano de 1877-78, dirigiu a cadeira de Física teórica e experimental, durante o qual se interessou pelo telescópio eléctrico. Em 1881, tornou-se correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Foi também membro associado do Instituto de Coimbra, membro fundador da Sociedade de Instrução do Porto, membro fundador da Société des Electriciens de Paris e presidente da secção portuguesa dessa Sociedade. O rei D Luís I concedeu-lhe o título de Conde do Campo Belo e fê-lo par do reino.

O interesse de Paiva pelo telescópio eléctrico começaria com a primeira demonstração do telefone de Graham Bell em Lisboa, em Novembro de 1877. Adriano Paiva interrogava-se sobre as possibilidades de produzir um sistema equivalente ao de Bell para a transmissão de imagens animadas. O termo telescópio designava já um processo de comunicação óptica. A originalidade do contributo de Adriano Paiva consiste na sua proposta de utilizar o selénio como placa sensível do campo negro do teletroscópio. O selénio fora descoberto em 1817 por J.J. Berzelius e as suas propriedades estudadas desde 1873 por Willoughby Smith com a ajuda de L.May. Paiva referia-se também aos trabalhos conduzidos pelos irmãos Siemens em 1875 e 1876.

Escreveu Adriano Paiva: "Desde que as considerações precedentes se desenharam claras ao nosso espírito, para logo nos quis parecer que uma nova descoberta científica se anunciava para breve; seria a aplicação da electricidade à telescopia, ou a criação da telescopia eléctrica. [...] Uma câmara escura, colocada no ponto que houvesse de ser sujeito às observações, representaria, por assim dizer, a câmara ocular. Sobre uma placa, situada no fundo dessa câmara iria desenhar-se a imagem dos objectos exteriores, com as suas cores respectivas e acidentes particulares de iluminação, afectando assim diversamente as diversas regiões da placa. Tornava-se por tanto apenas necessário descobrir o meio de operar a transformação por nenhuma forma impossível, desta energia, absorvida pela placa, em correntes eléctricas, que em seguida recompuzessem a imagem. A importância da descoberta dum instrumento de tal ordem manifesta-se com demasiada evidência. Contudo não é talvez inútil advertir que esse telescópio eléctrico, quando realizado preencheria uma lacuna que a telescopia actual, a despeito de todos os seus progressos jamais poderia pensar em fazer desaparecer. [...] Com o novo telescópio, [...] transformado em corrente eléctrica, o movimento luminoso percorreria docilmente o caminho que nos aprouvesse dar ao fio destinado a conduzi-lo; e de um ponto do globo terrestre seria possível devassar este em toda a sua extensão".

domingo, 21 de dezembro de 2003

A IMPORTÂNCIA DA CADEIA DE VALOR NA INDÚSTRIA AUDIOVISUAL [texto publicado quase nesta forma na revista MediaXXI, nº 71, de Junho/Julho de 2003]

Tem crescido, nos últimos anos, o peso da indústria audiovisual na vida dos indivíduos, como consumidores e como produtores. Muito do que sabemos sobre o mundo aparece nos jornais, na televisão, na rádio e na Internet. Formamos a opinião sobre os acontecimentos e as grandes causas mobilizadoras da sociedade daquilo que nos chega dos media. Muito do nosso lazer reside em filmes, livros, discos e DVDs, nos jogos vídeo ou da Internet. Do lado da produção da indústria audiovisual, o volume de emprego cresce, para satisfação de um mercado cada vez maior de telenovelas ou séries, de informação ou documentários e de entretenimento em geral. Nascem ou desenvolvem-se profissões ligadas à produção, à distribuição e à sua publicitação. Além disso, um dos fenómenos recentes mais marcantes é o da transformação tecnológica, a digitalização, que tem percorrido toda a indústria audiovisual. E que promete continuar, por exemplo, com a digitalização na televisão terrestre, capaz de produzir um forte impacto económico e cultural.

A indústria do audiovisual não é mais um conjunto de actividades isoladas, com cadeias de concepção, produção e venda separadas, mas entrelaçadas e em que os interesses económicos e empresariais se fortalecem, com aquisições, fusões e surgimento de grupos de empresas. Num recente documento publicado sobre o desenvolvimento do mercado da indústria audiovisual até 2010, e destinado à Comissão Europeia, a empresa de consultoria Arthur Andersen (2002) usou um modelo de análise da cadeia de valor, o qual identificava diferentes papéis, agrupados em três categorias principais de actividades. Assim, no primeiro grupo, integram-se os produtores de conteúdo, que incluem produtores de conteúdo, detentores de direitos de autor e de direitos dos distribuidores. No segundo grupo, inserem-se os programadores e os agregadores (responsáveis pela aquisição de programas) e, no terceiro grupo, os difusores, que englobam redes, fornecedores de acesso e vendedores de equipamentos.

Claro que cada país, no caso da União Europeia, apresenta diferentes dimensões e capacidades financeiras, além de que cada mercado nacional tem uma porção diferente de rendimento consoante os meios de comunicação. Por exemplo, a publicidade nos media é maior na televisão em países mediterrânicos como Portugal, Espanha ou Grécia, relativamente aos outros meios, ao passo que os jornais no Reino Unido ou na Alemanha arrecadam uma maior fatia. Outro exemplo é o do mercado de distribuição de televisão, com pesos distintos conforme se trate de cabo, satélite ou via hertziana. Um mercado de televisão gera mais ou menos receitas se pago (cabo e canais codificados em satélite ou televisão digital) ou gratuito (acesso aos canais generalistas por feixe hertziano tradicional).

Verifica-se, na actual existência da indústria audiovisual, um constante cruzamento, reconfiguração e concentração da propriedade. Distingue-se a concentração horizontal (crescimento interno ou aquisição e fusão de empresas num só sector), vertical (cruzamento de actividades num sector alargado a duas ou mais etapas na cadeia de valor, caso do produção e distribuição de programas de televisão) e diagonal (presença de um grupo em várias indústrias, caso de jornais, rádio e televisão). O principal motivo da expansão horizontal é a economia de escala, pois a concentração reduz os custos da produção quando se orienta para uma maior audiência de leitores ou espectadores. Também a concentração vertical se traduz em menores custos, caso de elaboração de contratos entre empresas e da obtenção de informação sobre especificidades dos produtos ou mesmo do mercado em geral, sem esquecer o ganho de músculo financeiro e em produtos para enfrentar grupos económicos dominantes no mercado. Já a concentração diagonal – cuja distinção dos dois modelos anteriores nem sempre se mostra fácil – permite obter os ganhos sentidos nesses modelos e uma reformatação mais fácil e barata, de que o exemplo é a publicação electrónica ou a informação disponível num sítio da Internet. Em texto estimulante, Doyle (2002: 40) considera que a diversificação proporcionada pela concentração diagonal possibilita a assunção de maior risco empresarial no lançamento de produtos mediáticos originais, através do uso de variados formatos.

Um outro elemento importante é a compreensão dos ritmos de elaboração e entrega dos produtos audiovisuais. Se uma parte significativa da indústria audiovisual tem edição contínua (jornal, televisão), outra parte tem produção descontínua (filme, livro, disco), o que obriga a planificações e tipos de investimentos diferentes. Mas em ambas materializa-se a ideia de serialização, a série ou o continuado (ao jornal e programa de televisão diários juntam-se as séries no cinema, caso de Indiana Jones, ou nos livros, caso de Harry Potter). Torna-se, pois, necessária uma visão global das actividades do audiovisual, como aponta o investigador espanhol Enrique Bustamante. Para ele, as indústrias criativas (cinema, discos) fornecem matéria-prima para as fábricas mediáticas (rádio, televisão), numa interpenetração de interesses (Bustamante, 2002: 25). Acresce-se que as vendas dos produtos do audiovisual dependem, cada vez mais, da publicidade e do marketing feitos nos próprios media.

O surgimento das redes digitais, fenómeno associado mas distinto da digitalização de conteúdos, acelerou a própria transformação da estrutura industrial, no que constitui o último elemento fundamental desta análise. Formula-se a interactividade – cada produto do audiovisual pode ser reconstruído pelo receptor, num processo de codificação e descodificação –, enquanto se assiste à desmaterialização dos produtos da indústria audiovisual, orientados crescentemente para o domínio dos símbolos e dos valores culturais. Além disso, o digital e o multimedia estendem o âmbito do audiovisual às artes tradicionais, como o teatro e a dança, contaminadas com expressões fornecidas pelas tecnologias da informação, as quais retiram a aura do original, do irrepetível e do autêntico no espectáculo representado ao vivo (Couchot e Hillaire, 2003: 201).

Como resultado da cadeia de valor na indústria audiovisual sobre a recepção, assiste-se, por um lado, à formação de consumidores exigentes, esperando sempre novos produtos (ou, pelo menos, inovadores). Mas, por outro lado, desencadeia-se um aspecto negativo: o consumo igual por todo o planeta, controlado por um número pequeno de grupos empresariais gigantescos. O ideal será, pois, manter a inovação na indústria e alargar a diversificação na oferta de produtos.

Bibliografia
Andersen, Arthur (2002). Outlook of the development of technologies and markets for the European Audio-visual up to 2010 (acessível em http://europa.eu.int)
Bustamante, Enrique (coord.) (2002. Comunicación y cultura en la era digital. Barcelona: Gedisa
Couchot, Edmond, e Norbert Hillaire (2003). L’art numérique. Paris: Flammarion
Doyle, Gillian (2002). Media ownership. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: Sage

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

Sobre Marshall McLuhan

[a partir de: Em Griffin, A first look at communication theory, McGraw-Hill, 1994, pp. 332-343]

McLuhan divide a história da humanidade em quatro períodos ou épocas - tribal, literária, impressa e electrónica. As invenções cruciais que mudaram a vida no planeta foram o alfabeto fonético, a imprensa e o telégrafo.

A teoria de McLuhan é determinista tecnológica. As invenções na tecnologia causam, invariavelmente, uma mudança cultural. Enquanto o determinismo económico de Marx argumentava que as mudanças nos modos de produção determinam o curso da história, McLuhan concluiria que as mudanças específicas nos modos de comunicação moldam a existência humana. Ele via as invenções na comunicação como fundamentais, ao considerar qualquer nova forma de inovação dos media como extensão de uma faculdade humana. O livro é uma extensão do olho, a roda uma extensão do pé, a roupa uma extensão da pele, o circuito electrónico uma extensão do sistema nervoso central. Os media, para McLuhan, são tudo o que amplifica ou intensifica um órgão, sentido ou função. Isto é, o canadiano considerou que a nossa vida se deve muito ao modo como processamos a informação. O alfabeto fonético, a imprensa e o telégrafo são pontos de viragem na história humana porque mudaram o modo como as pessoas pensam sobre si e sobre o mundo.

Um dos aforismos mais conhecidos de McLuhan é "o meio é a mensagem". Para ele, o conteúdo de uma mensagem não tem uma grande importância. O meio muda mais do que a soma das mensagens incluídas nesse meio. As mesmas palavras ditas num frente-a-frente, impressas em papel ou apresentadas na televisão fornecem três mensagens diferentes. Oral, escrito ou electrónico, o canal primário da comunicação molda o modo como entendemos o mundo. O meio dominante numa época domina as pessoas.

McLuhan, na sua perspectiva de determinismo tecnológico, concebe a história da humanidade a partir de uma perspectiva mediática. Para ele, a aldeia tribal era um espaço acústico. O ouvido era rei; ouvir era acreditar. Os primitivos tinham vidas mais ricas e complexas que os seus descendentes letrados, porque o ouvido não selecciona o estímulo mas a entoação das palavras, que é de origem mais emotiva e provoca a raiva, a alegria, o medo e a tristeza. O alfabeto fonético foi como uma bomba no mundo acústico, instalando a visão à frente da hierarquia dos sentidos. As pessoas que lêem trocam o ouvido pelo olho. Escritor e leitor de um texto estão separados deste mesmo texto [vivem num contexto separado]. O alfabeto fonético estabeleceu a linha de um princípio organizado de vida. Ao escrever, cada letra segue outra numa linha interligada e ordenada. A lógica é modelada numa progressão linear passo a passo. McLuhan conclui que a invenção do alfabeto promoveu a emergência súbita da matemática, ciência e filosofia na Grécia antiga.

Ora, se o alfabeto fonético tornou possível a dependência visual, a imprensa alargou-a. Na Galáxia Gutenberg, McLuhan escreveu que a repetitibilidade é uma das características mais importantes da tipografia móvel. Dado que a revolução da imprensa demonstrou a produção em massa de produtos idênticos, McLuhan viu nela a primeira revolução industrial. Ele viu outros efeitos laterais não intencionais na invenção de Gutenberg, caso do nacionalismo e do isolamento da leitura. McLuhan insistiu que os media electrónicos retribalizaram a raça humana. Todos nós somos membros de uma só aldeia global. Os media electrónicos conduzem-nos a conhecer o que se passa no mundo de modo instantâneo. Os cidadãos do mundo voltam ao espaço acústico.

Uma vez que a televisão se tornou o meio dominante na comunicação, McLuhan centrou-se na descrição da natureza fundamental e no poder revolucionário da televisão. Classifica os meios como quentes ou frios. Os meios quentes são canais de comunicação com alta definição e são dirigidos para um qualquer receptor. A imprensa é um meio quente e visual. Do mesmo modo são a fotografia e a imagem em movimento. Elas contêm muita informação, pelo que não exigem um grande esforço por parte do receptor. O texto de um livro é quente mas um cartoon é frio. Os media frios exigem uma participação elevada para preencher as lacunas de entendimento ou conhecimento. A rádio é um meio quente mas o telefone é frio, porque (o interlocutor) precisa de uma resposta. Os meios quentes tendem a ser muito visuais, lógicos e privados. Organizam-se para comunicar informação discreta. Os media frios tendem a ser aurais, intuitivos e de envolvimento emocional. Os media frios clarificam o contexto envolvente para que os participantes se insiram na história. Se se pensa habitualmente que a televisão é um meio visual, McLuhan classifica a televisão como um meio aural e táctil, muito frio. A televisão é fria porque exige participação e envolvimento. Pode-se estar a trabalhar enquanto se ouve rádio, mas não se pode fazer o mesmo quando se vê televisão.

sábado, 13 de dezembro de 2003

TELENOVELAS, RECEPÇÃO E INDÚSTRIAS CULTURAIS

Defendida em 2001 na Universidade de Coimbra, a tese de mestrado de Verónica Policarpo – Telenovela brasileira: apropriação, género e trajectória familiar – é um estudo sobre a telenovela como expressão de valores e representações de determinados grupos sociais. Para a autora, a telenovela, produto ou formato de indústria cultural, possui uma narrativa dramatizada de situações imaginadas, estrutura seriada e marcas próprias em termos de duração e estrutura. Herdeira do folhetim literário e romântico do séc. XIX, a telenovela explora as emoções como rir ou chorar.

O trabalho de Verónica Policarpo, professora da Universidade Católica Portuguesa, tem como objecto a audiência e os “contextos de leitura” da telenovela, em que a família surge como contexto indicado para estudar as práticas de recepção da televisão. Pergunta-se: como é que as pessoas “lêem” as propostas da telenovela? Que significados lhes atribuem? Que factores sociais decisivos para essa apropriação? A autora – que analisou a telenovela Terra Nostra (2000) e o seu impacto na recepção – parte da hipótese que as formas de apropriação da telenovela brasileira variam em função do género e da trajectória familiar. Ela considera a audiência como social (composta por indivíduos inseridos em complexas relações sociais) e activa, orientando a explicação para as diferenças de recepção, com possibilidade de leituras de resistência (usos alternativos que as mulheres fazem das telenovelas). A telenovela constitui um interlocutor privilegiado de certo tipo de sentimentos e experiências. Por exemplo, as mulheres podem rever a sua vida e reflectir sobre a sua situação. A telenovela oferece uma forma narrativa, um léxico e uma semântica para se constituir uma história de vida.

Tendo como base empírica um conjunto de 20 entrevistas, a autora traça uma tipologia de recepção dos géneros face à telenovela: 1) mulheres casadas – distância e contenção, 2) mulheres separadas – amor-romântico, espontaneidade e emoção, 3) homens casados – desvalorização do conteúdo como prática de distinção, e 4) homens separados – amor e emoção na apropriação da telenovela. Como conclusão, Verónica Policarpo demonstra a importância do género e da trajectória familiar na forma como os actores sociais se apropriam dos valores propostos pela telenovela brasileira. Ela conclui que homens e mulheres casadas produzem um discurso – sobre a telenovela – mais descritivo e denotativo, enquanto os homens e mulheres divorciadas aderem com mais emoção aos encontros e desencontros amorosos da telenovela.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2003

REGULAÇÃO DO SECTOR DA COMUNICAÇÃO EM PORTUGAL

Realizou-se, hoje, no ISCSP, e organizada pelo Obercom uma conferência com o título acima indicado. Presentes estiveram professores universitários, dirigentes das associações de anunciantes e meios de comunicação, representantes dos canais televisivos e responsáveis de institutos públicos (Autoridade da Concorrência, Instituto da Comunicação Social, INA), assim como o vice-presidente da EPRA (European Platform of Regulatory Authorities).

Retenho apenas algumas ideias deste último elemento, o catalão Joan Botella. Ele fez uma comunicação assente em três ideias fundamentais: 1) regular consiste em quê? 2) quem faz a regulação? 3) como se faz a regulação?

Pluralismo, acesso, universalidade, protecção dos consumidores e diretios do autor incluem-se entre as cláusulas a caracterizar a regulação, afirmou Botella. Já sobre quem faz a regulação, o dirigente da EPRA distinguiu o mercado e a auto-regulação. Quem faz a regulação são os governos, os governos e organismos assessores, as autoridades independentes. Botella referiu como exemplo o Conselho Superior do Audiovisual (CSA) francês como o modelo. Ao invés, o regulador italiano (Agcom) não funciona, como tipifica o actual caso Berlusconi.

O mesmo dirigente considera a oportunidade da existência de um regulador europeu, pois neste momento existe apenas um espaço de troca de experiências, a própria EPRA. E anunciou a realização de um encontro mundial, em Barcelona, no próximo Maio de 2004. Para informações consultar: http://www.epra.org.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

LIVRO

Saiu recentemente um livro de Helena Matos, intitulado Salazar, a construção do mito. A autora, jornalista do Público, promete para breve a saida de um segundo volume, dado que o agora publicado cobre aquilo a que ela chama de "representações desse homem" entre 1928 e 1933.

Helena Matos diz que a obra publicada não é a de uma historiadora mas de uma jornalista. Contudo, o seu trabalho é meticuloso e organizado, tem um bom fundo bibliográfico, apesar de não estar no final do volume, mas apenas em notas de rodapé. Tem também uma excelente cronologia, que começa em 1925, ainda antes do 28 de Maio.

O livro traz citações de entidades da época, os capítulos apresentam uma introdução, há narrativa, ou, como dizem os sociólogos do jornalismo, estórias [afinal o(a) jornalista e o(a) historiador(a) não são contadores de estórias?), e até imagens da época. Estou a lembrar, por exemplo, a incluida na página 193: "qual é a rapariga mais bonita das revistas de Lisboa?", um concurso organizado pelo Notícias Ilustrado.

Apenas uma nota sobre o mito Salazar, como nos descreve Helena Matos: "O ascendente de Salazar sobre os outros ministros vai mesmo ao ponto de, em alguns casos, em nome desse «interesse superior», controlar as declarações que estes prestam à imprensa" (p. 197). Estávamos ainda em 1931! Valerá a pena cotejar com o agora também editado livro das entrevistas dadas por Salazar a António Ferro, estava este ainda no Diário de Notícias antes de "voar" para o SPN. Ou reler a tese de José Rebelo sobre o modo como as entrevistas de Salazar dadas a jornalistas estrangeiros eram referenciadas na imprensa nacional.

Os capítulos do volume agora editado referem-se a anos, começando em 1928. Mas 1932 ocupa dois capítulos, sinal da importância desse ano na biografia de Salazar.

O livro é para comprar, com uma capa sugestiva, embora o preço não seja muito convidativo (€ 31).