LIVROS E PRÉMIOS
Está a ser lançado neste momento o livro de Laura Fernanda Bulger, A imagem da escrita no pequeno ecrã, na colecção Cadernos Minerva, na livraria Barata, aqui em Lisboa (a vantagem é que moro a 150 metros). Da contracapa, retiro a seguinte informação: "A imagem da escrita no pequeno ecrã é prova da convivência feliz da Literatura com o meio electrónico mais popular e manipulador que, entrando-nos pela sala dentro e servindo-se do rectângulo luminoso colocado em qualquer lado da sala, mostra as acções de gente melhor, pior ou igual a nós". Laura Bulger pertence à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. McLuhan, Raymond Williams, a série americana Hill Streets Blues e a série portuguesa O Conde de Abranhos, com argumento de Francisco Moita Flores, fazem parte do menu. Comprem o livro (48 páginas e custo de €7) e divirtam-se.
Depois, amanhã, será mostrado o livro de Isabel Ferin Cunha, Clara Almeida Santos, Maria João Silveirinha e Ana Teresa Peixinho, Media, imigração e minorias étnicas, do ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas), durante a entrega de prémios de jornalismo do mesmo ACIME [procurarei dar aqui relevo na mensagem de 4ª feira]. Trata-se de um estudo apresentado recentemente sobre a representação social dos media quanto às questões da imigração e minorias.
Voltando à editora Minerva. O caderno agora apresentado é o nº 5. Os cadernos anteriores têm textos de Jenny Kitzinger+Jacquie Reilly, com prefácio e tradução de Cristina Ponte, Eduardo Cintra Torres, Elihu Katz+Daniel Dayan e Rogério Santos (Jornalistas e fontes de informação - a sua relação na perspectiva da sociologia do jornalismo). A Minerva tem ainda a colecção Comunicação, lançando o nº 31 na próxima 4ª feira, um texto de Joaquim Trigo de Negreiros, Fantasmas ao espelho - modos de auto-representação dos jornalistas. Trigo de Negreiros foi um dos fundadores do jornal Público, ensina na Escola Superior de Comunicação Social e prepara a sua tese de doutoramento na universidade de Leeds (Reino Unido).
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
segunda-feira, 17 de maio de 2004
domingo, 16 de maio de 2004
A MINHA LEITURA DO EL PAIS DE HOJE
Extraio informação de duas notícias ou artigos:
Paul Kennedy e a degeneração da guerra
Paul Kennedy esteve presente, três fins-de-semana atrás, num congresso internacional na universidade de Yale, onde é professor, e intitulado A degeneração da guerra, 1914-1945. Os académicos presentes analisaram casos práticos ocorridos nas duas Guerras Mundiais, nas quais as lutas se tornaram muito mortíferas e a disciplina militar se deteriorou à medida que cada uma das guerras se prolongava. Mas a análise aplica-se, que nem uma luva, à História contemporânea.
Conclui-se pela existência de dois tipos de degenerescência em tempos de guerra. O primeiro relaciona-se com o aumento físico do número letal das armas empregues. Cada arma nova produz uma maior mortandade face a armas anteriores. O segundo tipo de degeneração é a perda de referência dos princípios das convenções de Haia e Genebra relativamente aos prisioneiros de guerra. Kennedy nota com preocupação o crescendo do primeiro tipo de degenerescência, mas a sua apreensão volta-se para o segundo tipo. E salienta, claro está, as fotografias e os vídeos feitos na prisão de Abu Ghraib.
No caso da guerra do Iraque, escreve Kennedy, à medida que se alarga a primeira degeneração, com aumento de perda de vidas, cresce também a segunda. Os soldados americanos, desfeita a possibilidade de regresso rápido a casa e perante a morte de muitos dos seus companheiros, passariam a tratar duramente os prisioneiros. E o mau tratamento a esses prisioneiros poderá ter vindo de unidades compostas de soldados com menos qualificações e menos disciplinados.
Prossegue o artigo do académico de Yale: pedir agora ajuda à ONU para que apoie os americanos, quando ano passado o vice-presidente americano classificou a organização como irrelevante, parece condenar-se ao fracasso. E Paul Kennedy, mais à frente, cita um livro recentemente aparecido, de Niall Ferguson, para quem o ter poder militar e material pode querer dizer pouco se as opiniões públicas dos Estados Unidos e de todo o mundo se opuserem a esse poderio. E as imagens passadas na televisão, na internet e nos jornais tornaram essas opiniões públicas muito pouco apoiantes do lodaçal desta guerra, como conclui Kennedy.
Paul Kennedy é titular da cátedra Dilworth de História e director do Centro de Estudos de Segurança Internacional da Universidade de Yale. Escreveu Ascensão e queda das grandes potências (Publicações Europa-América, 1997).
SOCIABILIDADE ATRAVÉS DA INTERNET
Félix Moral, professor de Psicologia Social da Universidade de Málaga, elaborou um estudo sobre o tipo de relações sociais que se formam através da internet. Ao contrário do que se afirma comummente, em que os internautas são apresentados como isolados socialmente, o professor malaguenho considera que 80% dos internautas têm grupos de amigos em que a relação estabelecida é muito boa. Isso estende-se às pessoas extrovertidas [creio que o almoço que quase 40 bloguistas no primeiro de Maio em Vila Nova de Gaia demonstrou isso].
Conhecer pessoas é cada vez mais fácil na internet. Primeiro há um contacto intelectual, depois o físico. E o correio electrónico tem a concorrência de grupos de discussão. São as designadas redes sociais, em que se acrescentam novos contactos. Há também contactos profissionais propiciados por sítios como Linkedin e eConozco ou mesmo participar com amigos, procurar novos amigos e colocar fotografias, como em Orkut e Friendster.
Extraio informação de duas notícias ou artigos:
Paul Kennedy e a degeneração da guerra
Paul Kennedy esteve presente, três fins-de-semana atrás, num congresso internacional na universidade de Yale, onde é professor, e intitulado A degeneração da guerra, 1914-1945. Os académicos presentes analisaram casos práticos ocorridos nas duas Guerras Mundiais, nas quais as lutas se tornaram muito mortíferas e a disciplina militar se deteriorou à medida que cada uma das guerras se prolongava. Mas a análise aplica-se, que nem uma luva, à História contemporânea.
Conclui-se pela existência de dois tipos de degenerescência em tempos de guerra. O primeiro relaciona-se com o aumento físico do número letal das armas empregues. Cada arma nova produz uma maior mortandade face a armas anteriores. O segundo tipo de degeneração é a perda de referência dos princípios das convenções de Haia e Genebra relativamente aos prisioneiros de guerra. Kennedy nota com preocupação o crescendo do primeiro tipo de degenerescência, mas a sua apreensão volta-se para o segundo tipo. E salienta, claro está, as fotografias e os vídeos feitos na prisão de Abu Ghraib.
No caso da guerra do Iraque, escreve Kennedy, à medida que se alarga a primeira degeneração, com aumento de perda de vidas, cresce também a segunda. Os soldados americanos, desfeita a possibilidade de regresso rápido a casa e perante a morte de muitos dos seus companheiros, passariam a tratar duramente os prisioneiros. E o mau tratamento a esses prisioneiros poderá ter vindo de unidades compostas de soldados com menos qualificações e menos disciplinados.
Prossegue o artigo do académico de Yale: pedir agora ajuda à ONU para que apoie os americanos, quando ano passado o vice-presidente americano classificou a organização como irrelevante, parece condenar-se ao fracasso. E Paul Kennedy, mais à frente, cita um livro recentemente aparecido, de Niall Ferguson, para quem o ter poder militar e material pode querer dizer pouco se as opiniões públicas dos Estados Unidos e de todo o mundo se opuserem a esse poderio. E as imagens passadas na televisão, na internet e nos jornais tornaram essas opiniões públicas muito pouco apoiantes do lodaçal desta guerra, como conclui Kennedy.
Paul Kennedy é titular da cátedra Dilworth de História e director do Centro de Estudos de Segurança Internacional da Universidade de Yale. Escreveu Ascensão e queda das grandes potências (Publicações Europa-América, 1997).
SOCIABILIDADE ATRAVÉS DA INTERNET
Félix Moral, professor de Psicologia Social da Universidade de Málaga, elaborou um estudo sobre o tipo de relações sociais que se formam através da internet. Ao contrário do que se afirma comummente, em que os internautas são apresentados como isolados socialmente, o professor malaguenho considera que 80% dos internautas têm grupos de amigos em que a relação estabelecida é muito boa. Isso estende-se às pessoas extrovertidas [creio que o almoço que quase 40 bloguistas no primeiro de Maio em Vila Nova de Gaia demonstrou isso].
Conhecer pessoas é cada vez mais fácil na internet. Primeiro há um contacto intelectual, depois o físico. E o correio electrónico tem a concorrência de grupos de discussão. São as designadas redes sociais, em que se acrescentam novos contactos. Há também contactos profissionais propiciados por sítios como Linkedin e eConozco ou mesmo participar com amigos, procurar novos amigos e colocar fotografias, como em Orkut e Friendster.
sábado, 15 de maio de 2004
DECLARAÇÃO DE BOLONHA
Os jornais diários trazem hoje informação sobre a Declaração de Bolonha (DB) e o que vai mudar no ensino superior. Os títulos de dois jornais de Lisboa - os que eu li - são distintos. Enquanto o Público enfatiza a duração mais curta das licenciaturas, a partir de 2005, o Diário de Notícias dá relevo aos créditos na universidade a partir da experiência da vida.
O Público refere, no primeiro parágrafo, a nomeação de coordenadores que irão propor, até final do ano, a nova duração das licenciaturas. Dos nomes mais conhecidos para as áreas das ciências sociais e humanas, destaque para Manuel Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa. E se o Público considera que os coordenadores apontarão uma duração, nas licenciaturas, de três a quatro anos, o Diário de Notícias descreve duas hipóteses - envolvendo licenciatura e mestrado. Muitos dos países que assinaram a DB optaram por um esquema de 3+2 (licenciatura + mestrado), mas Portugal poderá decidir por um sistema flexível que envolva o 3+2, mas também o 4+1. Isto é, até ao final do ano não se saberá muito bem como ficarão as coisas. E Portugal terá de prestar atenção ao que se passa em Espanha, que ainda não definiu a duração dos seus cursos. No país vizinho, salta-se da licenciatura para o doutoramento sem passagem pelo mestrado, atractivo, hoje, em Portugal, para quem pretenda não perder tempo com o grau de mestrado.
Um objectivo comum às duas notícias - com origem na apresentação, ontem, do plano de implementação da DB pela ministra Graça Carvalho - é o encurtamento das licenciaturas, de modo a colocar mais cedo os jovens no mercado de trabalho, com competências para a empregabilidade. Outro elemento comum nas notícias é o estabelecimento das unidades de crédito (ECTS), com equivalências entre um mesmo curso em três dezenas de países que aderiram à DB, gerando maiores facilidades na mobilidade de estudantes (e também professores) nos países europeus. O sistema inserido na DB abrange 12 milhões de estudantes. Outra informação prestada pela ministra, e que o Diário de Notícias pormenoriza mais, é "o reconhecimento e certificação de competências informais e experiências profissionais adquiridas ao longo da vida e fora do percurso normal de ensino", validado pela atribuição de créditos.
Estaremos aqui atentos ao desenrolar do sistema baseado na DB.
Os jornais diários trazem hoje informação sobre a Declaração de Bolonha (DB) e o que vai mudar no ensino superior. Os títulos de dois jornais de Lisboa - os que eu li - são distintos. Enquanto o Público enfatiza a duração mais curta das licenciaturas, a partir de 2005, o Diário de Notícias dá relevo aos créditos na universidade a partir da experiência da vida.
O Público refere, no primeiro parágrafo, a nomeação de coordenadores que irão propor, até final do ano, a nova duração das licenciaturas. Dos nomes mais conhecidos para as áreas das ciências sociais e humanas, destaque para Manuel Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa. E se o Público considera que os coordenadores apontarão uma duração, nas licenciaturas, de três a quatro anos, o Diário de Notícias descreve duas hipóteses - envolvendo licenciatura e mestrado. Muitos dos países que assinaram a DB optaram por um esquema de 3+2 (licenciatura + mestrado), mas Portugal poderá decidir por um sistema flexível que envolva o 3+2, mas também o 4+1. Isto é, até ao final do ano não se saberá muito bem como ficarão as coisas. E Portugal terá de prestar atenção ao que se passa em Espanha, que ainda não definiu a duração dos seus cursos. No país vizinho, salta-se da licenciatura para o doutoramento sem passagem pelo mestrado, atractivo, hoje, em Portugal, para quem pretenda não perder tempo com o grau de mestrado.
Um objectivo comum às duas notícias - com origem na apresentação, ontem, do plano de implementação da DB pela ministra Graça Carvalho - é o encurtamento das licenciaturas, de modo a colocar mais cedo os jovens no mercado de trabalho, com competências para a empregabilidade. Outro elemento comum nas notícias é o estabelecimento das unidades de crédito (ECTS), com equivalências entre um mesmo curso em três dezenas de países que aderiram à DB, gerando maiores facilidades na mobilidade de estudantes (e também professores) nos países europeus. O sistema inserido na DB abrange 12 milhões de estudantes. Outra informação prestada pela ministra, e que o Diário de Notícias pormenoriza mais, é "o reconhecimento e certificação de competências informais e experiências profissionais adquiridas ao longo da vida e fora do percurso normal de ensino", validado pela atribuição de créditos.
Estaremos aqui atentos ao desenrolar do sistema baseado na DB.
DO QUE OBSERVEI E AINDA NÃO PUDERA ESCREVER
Os dias passam velozes e as solicitações são muitas, deixando no caderno apontamentos que carecem de ser organizados. Deixo aqui três deles: I) colóquio na UAL; II) Comcast versus Disney; III) a rainha dos patrões do cinema (Mayer).
I) Colóquio na UAL sobre "Comunicação social, segurança e defesa - os media em situações de crise, conflito e guerra"
Decorreu na UAL (Universidade Autónoma de Lisboa) um encontro subordinado a esse tema, no passado dia 11. Tomei algumas notas - estive presente, a moderar uma mesa, na qualidade de director da revista MediaXXI, para onde escreverei um artigo. Contudo, deixo aqui duas ideias:
1) tipos de relações entre jornalistas e militares, segundo a professora Paula Monge Tomé (UAL): diferentes em situações de paz ou guerra, consoante se trate de um país com regime democrático ou autocrático e entre cobrir a guerra do lado dos americanos (embeded) e do lado dos iraquianos, no caso da actual conflito no Iraque.
2) os níveis do jornalista no terreno da guerra, segundo o general Abel Cabral Couto (antigo presidente do Instituto de Defesa Nacional): o profissional na frente da batalha não tem a percepção da totalidade, pois vive demasiado perto de uma realidade local. É o repórter, por oposição ao que está presente em conferências de imprensa, o correspondente, com contactos suplementares. Finalmente, o comentador, que no estúdio de televisão interpreta a informação que lhe chega. É já do domínio da intelligence, pois tem uma visão mais alargada dos fenómenos em questão.
Jornalistas como Carlos Fino (RTP), Pedro Pinto e Henrique Garcia (ambos da TVI), Marta Atalaya (SIC Notícias) e Cândida Pinto (SIC) também deram a sua perspectiva nesta jornada da UAL, organizada pelos departamentos de Relações Internacionais e Ciências da Comunicação.
II) COMCAST RENUNCIA AO CONTROLO DA DISNEY
Já fiz referência neste sítio ao pretendido controlo da Disney por parte da Comcast (e que pode ter estado na dividida reunião da Disney, que retirou poderes a Michael Eisner). Mas agora é a vez de Brian Roberts, da Comcast, se retirar do sonho de ter em mãos a maior operadora de telecomunicações e de conteúdos a par da News Corp, de Rupert Murdoch (que se mudou recentemente para Nova Iorque).
Desde o primeiro momento que os investidores e os executivos da Disney tinham deixado claro o seguinte: ou a Comcast aumentava a oferta de 66 mil milhões de dólares, incluindo a dívida, ou não havia negócio. E o jornalista Sandro Pozzi (El Pais, 9 de Maio último) - que eu sigo nesta mensagem - diz que Roberts cometeu um erro, por excesso de confiança e falta de estratégia para se aproveitar da rebelião interna da Disney contra Eisner. É que ele queria fazer um takeover nada amigável, o que levou a Disney a cerrar fileiras.
A Comcast teve um aumento de lucros no primeiro trimestre de 9,8%, chegando aos 4,6 mil milhões de dólares. Mas a concorrência também saiu beneficiada: a Time Warner subiu 11%, arrecadando 2,04 mil milhões de euros. O que entusiasmara a indústria do entretenimento americana, há três meses atrás, foi o anúncio da Comcast, ao ir além do seu negócio tradicional - televisão por cabo - e implantar-se nos conteúdos e na distribuição. Mas os analistas financeiros de Wall Street nunca acreditaram nesta ligação.
E, curioso, quando a Comcast manifestou a intenção de comprar a Disney, o patrão daquela (Brian Roberts) ridicularizou o homem forte desta (Michael Eisner). Eisner perdeu poder, mas as acções da Comcast baixaram de cotação em 10%, até Roberts anunciar que renunciava à compra. E Eisner, que se dizia que chegara ao fim, pode respirar de alívio e tratar de fazer os seus combates no interior da Disney. O "príncipe" Comcast deixou sem par de baile a "princesa" Disney. Seguiremos atentamente estas histórias.
III) A RAINHA DOS PATRÕES DOS FILMES
Ela dá pelo nome de Amy Pascal. Para a Mayer (o último nome da Metro Goldwyn Mayer, onde pontifica um leãozinho a rugir como marca), a senhora Pascal fez sair cinco filmes muito lucrativos – vão os nomes em inglês (como estão escritos no Sunday Times de 9 de Maio último, em artigo assinado por Dominic Rushe, e que eu sigo de muito perto): Gothika, Hellboy, 13 going on 30, Secret window, 50 first dates. O que também foi responsável por ela se tornar presidente do grupo de cinema da Sony, a Columbia Tristar. E Amy Pascal prepara-se para lançar um novo sucesso, o Homem-aranha 2.
Há uma ironia em tudo isto: a Sony espera ver-se livre do velho estúdio da Mayer, onde se filmaram as aventuras de James Bond. É que os bons velhos dias já passaram e o catálogo de filmes da MGM vale muito mais do que a produção de novos filmes. E Pascal tem um responsável acima de si, o londrino de nascimento Michael Lynton, anteriormente presidente-executivo da AOL Time Warner da Europa. A unidade de Amy Pascal é a estrela cadente de uma companhia em apuros. A Sony tem uma dívida de 12,8 biliões de dólares e está a meio de um processo de reestruturação. Se a divisão de produtos electrónicos ainda não dá lucros, a sua unidade musical luta com a concorrência e a ameaça da pirataria, diante da apatia dos consumidores.
Como a história das empresas tem narrativas dignas de um romance, filme ou telenovela, a Mayer tem um terceiro personagem, chamado Kirk Kerkorian, nascido em 1917, seis anos antes do primeiro filme da MGM. Kerkorian, californiano de origem arménia, é o 33º homem mais rico da América (seis biliões de dólares), e já comprou a MGM e a vendeu por duas vezes (tem 75% da MGM). Parece que se prepara para sair, mas a Sony e a MGM não comentam. A MGM é o último estúdio independente de Hollywood. Todos os rivais estão nas mãos das multinacionais. A Warner Brothers é proprietária da Time Warner e a 20th Century Fox pertence à News Corporation (que detém o próprio Sunday Times). Do lucro de 1,9 biliões de dólares de rendimento o ano passado, 1 bilião veio da divisão de entretenimento do lar. A MGM tem um catálogo de quatro mil filmes, como West Side Story, os Rockys, Terminator, 19 filmes de Woody Allen, e uma mão cheia de filmes de Ingmar Bergman.
Os dias passam velozes e as solicitações são muitas, deixando no caderno apontamentos que carecem de ser organizados. Deixo aqui três deles: I) colóquio na UAL; II) Comcast versus Disney; III) a rainha dos patrões do cinema (Mayer).
I) Colóquio na UAL sobre "Comunicação social, segurança e defesa - os media em situações de crise, conflito e guerra"
Decorreu na UAL (Universidade Autónoma de Lisboa) um encontro subordinado a esse tema, no passado dia 11. Tomei algumas notas - estive presente, a moderar uma mesa, na qualidade de director da revista MediaXXI, para onde escreverei um artigo. Contudo, deixo aqui duas ideias:
1) tipos de relações entre jornalistas e militares, segundo a professora Paula Monge Tomé (UAL): diferentes em situações de paz ou guerra, consoante se trate de um país com regime democrático ou autocrático e entre cobrir a guerra do lado dos americanos (embeded) e do lado dos iraquianos, no caso da actual conflito no Iraque.
2) os níveis do jornalista no terreno da guerra, segundo o general Abel Cabral Couto (antigo presidente do Instituto de Defesa Nacional): o profissional na frente da batalha não tem a percepção da totalidade, pois vive demasiado perto de uma realidade local. É o repórter, por oposição ao que está presente em conferências de imprensa, o correspondente, com contactos suplementares. Finalmente, o comentador, que no estúdio de televisão interpreta a informação que lhe chega. É já do domínio da intelligence, pois tem uma visão mais alargada dos fenómenos em questão.
Jornalistas como Carlos Fino (RTP), Pedro Pinto e Henrique Garcia (ambos da TVI), Marta Atalaya (SIC Notícias) e Cândida Pinto (SIC) também deram a sua perspectiva nesta jornada da UAL, organizada pelos departamentos de Relações Internacionais e Ciências da Comunicação.
II) COMCAST RENUNCIA AO CONTROLO DA DISNEY
Já fiz referência neste sítio ao pretendido controlo da Disney por parte da Comcast (e que pode ter estado na dividida reunião da Disney, que retirou poderes a Michael Eisner). Mas agora é a vez de Brian Roberts, da Comcast, se retirar do sonho de ter em mãos a maior operadora de telecomunicações e de conteúdos a par da News Corp, de Rupert Murdoch (que se mudou recentemente para Nova Iorque).
Desde o primeiro momento que os investidores e os executivos da Disney tinham deixado claro o seguinte: ou a Comcast aumentava a oferta de 66 mil milhões de dólares, incluindo a dívida, ou não havia negócio. E o jornalista Sandro Pozzi (El Pais, 9 de Maio último) - que eu sigo nesta mensagem - diz que Roberts cometeu um erro, por excesso de confiança e falta de estratégia para se aproveitar da rebelião interna da Disney contra Eisner. É que ele queria fazer um takeover nada amigável, o que levou a Disney a cerrar fileiras.
A Comcast teve um aumento de lucros no primeiro trimestre de 9,8%, chegando aos 4,6 mil milhões de dólares. Mas a concorrência também saiu beneficiada: a Time Warner subiu 11%, arrecadando 2,04 mil milhões de euros. O que entusiasmara a indústria do entretenimento americana, há três meses atrás, foi o anúncio da Comcast, ao ir além do seu negócio tradicional - televisão por cabo - e implantar-se nos conteúdos e na distribuição. Mas os analistas financeiros de Wall Street nunca acreditaram nesta ligação.
E, curioso, quando a Comcast manifestou a intenção de comprar a Disney, o patrão daquela (Brian Roberts) ridicularizou o homem forte desta (Michael Eisner). Eisner perdeu poder, mas as acções da Comcast baixaram de cotação em 10%, até Roberts anunciar que renunciava à compra. E Eisner, que se dizia que chegara ao fim, pode respirar de alívio e tratar de fazer os seus combates no interior da Disney. O "príncipe" Comcast deixou sem par de baile a "princesa" Disney. Seguiremos atentamente estas histórias.
III) A RAINHA DOS PATRÕES DOS FILMES
Ela dá pelo nome de Amy Pascal. Para a Mayer (o último nome da Metro Goldwyn Mayer, onde pontifica um leãozinho a rugir como marca), a senhora Pascal fez sair cinco filmes muito lucrativos – vão os nomes em inglês (como estão escritos no Sunday Times de 9 de Maio último, em artigo assinado por Dominic Rushe, e que eu sigo de muito perto): Gothika, Hellboy, 13 going on 30, Secret window, 50 first dates. O que também foi responsável por ela se tornar presidente do grupo de cinema da Sony, a Columbia Tristar. E Amy Pascal prepara-se para lançar um novo sucesso, o Homem-aranha 2.
Há uma ironia em tudo isto: a Sony espera ver-se livre do velho estúdio da Mayer, onde se filmaram as aventuras de James Bond. É que os bons velhos dias já passaram e o catálogo de filmes da MGM vale muito mais do que a produção de novos filmes. E Pascal tem um responsável acima de si, o londrino de nascimento Michael Lynton, anteriormente presidente-executivo da AOL Time Warner da Europa. A unidade de Amy Pascal é a estrela cadente de uma companhia em apuros. A Sony tem uma dívida de 12,8 biliões de dólares e está a meio de um processo de reestruturação. Se a divisão de produtos electrónicos ainda não dá lucros, a sua unidade musical luta com a concorrência e a ameaça da pirataria, diante da apatia dos consumidores.
Como a história das empresas tem narrativas dignas de um romance, filme ou telenovela, a Mayer tem um terceiro personagem, chamado Kirk Kerkorian, nascido em 1917, seis anos antes do primeiro filme da MGM. Kerkorian, californiano de origem arménia, é o 33º homem mais rico da América (seis biliões de dólares), e já comprou a MGM e a vendeu por duas vezes (tem 75% da MGM). Parece que se prepara para sair, mas a Sony e a MGM não comentam. A MGM é o último estúdio independente de Hollywood. Todos os rivais estão nas mãos das multinacionais. A Warner Brothers é proprietária da Time Warner e a 20th Century Fox pertence à News Corporation (que detém o próprio Sunday Times). Do lucro de 1,9 biliões de dólares de rendimento o ano passado, 1 bilião veio da divisão de entretenimento do lar. A MGM tem um catálogo de quatro mil filmes, como West Side Story, os Rockys, Terminator, 19 filmes de Woody Allen, e uma mão cheia de filmes de Ingmar Bergman.
sexta-feira, 14 de maio de 2004
OS ANOS DO MUSEU DA RÁDIO
Faz hoje doze (12) anos que abriu as portas o Museu da Rádio. Escreve Matos Maia no seu livro Telefonia (Círculo de Leitores, 1995, p. 296): "O Museu foi uma ideia do Rádio Clube Português, na década de 60 [...]. [Ela] partiu de José do Nascimento, quadro superior do Rádio Clube Português [...]. Desde a primeira hora, colaboraram com José do Nascimento, no projecto, outros dois colegas do RCP: Manuel Bravo e Armando Leston Martins". Depois, seguiram-se várias vicissitudes, acabando o Museu por ser inaugurado em 14 de Maio de 1992. O museu tem cerca de cinco mil peças e recebe anualmente à volta de doze mil visitantes.
Na hora em que se comemora o 12º aniversário, há nuvens muito toldadas quanto ao seu futuro. A notícias editada no jornal Público, do passado dia 1, não foi ainda desmentida pela administração da RTP, proprietária do museu. Para além da possível transferência do património para o Museu das Comunicações, a notícia informa que uma parte do acervo pode ir para a sucata, o que seria lamentável.
Apelo ao bom senso de quem manda nestas coisas para que repense o futuro de tão importante museu. Peço a todos os internautas que consultem o blogue A Minha Rádio e assinem a petição. Por favor, visitem ainda o sítio Rádio no Sapo.
MEMÓRIAS DA RÁDIO NO PROGRAMA JARDIM DA MÚSICA
Na última segunda-feira, no programa de Judite Lima, Jardim da Música (Antena 2), Eduardo Street continuou a falar das memórias da rádio. Ele referiu-se a um programa de 1955, Viagens da Terra à Lua, de Pedro Moutinho, o qual ganharia o segundo lugar no Prémio Itália para a radiodifusão. Dois anos antes do lançamento do primeiro Sputnik e a uns anos largos da primeira viagem a sério até à Lua, a Emissora Nacional usava seis gravadores para criarem o efeito dos sons dos propulsores dos foguetões espaciais. Era um tempo magnífico para a ficção científica.
Para a próxima semana, Eduardo Street falará dos 60 anos da RDP. Foi no ano de 1934 que a então Emissora Nacional começou a emitir ainda em fase de experiências.
FERNANDO CORREIA EDITA LIVRO SOBRE A RÁDIO
O conhecido radialista Fernando Correia acaba de lançar um livro intitulado A rádio não acontece...faz-se. Nomeadamente na antiga Emissora Nacional, depois Antena 1, conservo ainda no ouvido os seus relatos desportivos, de uma rara beleza [por vezes, eu confundia a sua voz com a de Artur Agostinho, outro grande relator desportivo da rádio portuguesa]. Ainda hoje, Fernando Correia anima o programa Bancada central na TSF, um fórum à noite sobre desporto, mas em especial sobre futebol. Fernando Correia é ainda professor do Instituto Piaget, em Almada, na área das Ciências da Comunicação.
Ora, o que diz este livro? Ele é "uma tentativa de difusão do conhecimento adquirido ao longo dos anos, de muitos anos, na rádio, nos programas, nas reportagens, nos espectáculos, no jornalismo radiofónico e no contacto com as pessoas e é, também, a forma de contar algumas histórias" (p. 7).
Para a rádio entrou em 1958: "Regressei [de Londres] para ingressar no SNI - Secretariado Nacional de Informação, como locutor, e para fazer concurso de admissão à Emissora Nacional de Radiodifusão" (p. 13). No concurso ficaria em primeiro lugar. Mais tarde, percorreria, como repórter da guerra colonial, Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.
Sobre a rádio dos anos 60, Fernando Correia destaca a Emissora Nacional, que "tinha a vantagem de contar com as melhores vozes (locutores), vindos de uma cuidada selecção e de concursos sobre concursos, com proveniência, em muitos casos, da Rádio Universidade (que emitia em horários próprios numa frequência da E. N.) ou do Secretariado Nacional de Informação (SNI)" (p. 51). E o autor evoca nomes como os de Maria Leonor, Etelvina Lopes de Almeida (desaparecida a semana passada), Artur Agostinho, Pedro Moutinho, Amadeu José de Freitas, Domingos Lança Moreira, Nuno Brás, Carlos Cruz e Romeu Correia, nomes que também guardo na minha já longa memória.
Por oposição, escreve sobre a rádio gira-discos: "contrapontos inevitáveis, numa situação de comodismo, facilitismo e refúgio [...]. Foram as rádios gira-discos que quiseram concorrer apoiadas no consumo de adolescentes e jovens. Os exemplos estão aí: RFM, Rádio Comercial, Antena 3 e uma nova versão do saudoso Rádio Clube Português que substituiu a Rádio Nostalgia" (p. 95). E Fernando Correia defende a reportagem radiofónica, o sector mais atractivo do meio, "por corresponder a um acto jornalístico completo", pois "encerra escrita, observação, análise, procura, poder de descrição, fluência e bom senso" (p. 83). Entre outras, recorda as reportagens da visita da rainha da Inglaterra, Isabel II, ainda nos anos de 1950, a partida dos primeiros contingentes para Angola, onde deflagrara a guerra em 1961, e os incêndios do Teatro Nacional D. Maria II e da Igreja de São Domingos.
Tenho uma grande admiração por este profissional da rádio. Mas, como em tudo na vida, há coisas que enjeitamos. Comigo, acontece com o que Fernando Correia escreve sobre o ensino (pp. 14-15). Ele considera que a Escola (presumo que a Universidade) tem "pessoas cheias de boa vontade que empinaram uma montanha de teoria que, na prática do ensino, não lhes serve de nada. O que acontece a seguir? Na maioria dos casos, a rejeição dos alunos, ou a formação de alunos que não vão conseguir arranjar emprego em parte alguma". E escreve ainda: "quase todos os professores não estão à altura das necessidades do ensino, porque não têm prática". Não podemos confundir a Universidade - espaço de saber e de especulação - com escolas profissionais, de ensino vocacionados para a "resolução de problemas de ordem técnica", como se lê no seu livro. É provavelmente a grande mistificação do nosso tempo.
Livro: Fernando Correia (2004). A rádio não acontece... faz-se. Lisboa: SeteCaminhos. Preço: €14,50.
Faz hoje doze (12) anos que abriu as portas o Museu da Rádio. Escreve Matos Maia no seu livro Telefonia (Círculo de Leitores, 1995, p. 296): "O Museu foi uma ideia do Rádio Clube Português, na década de 60 [...]. [Ela] partiu de José do Nascimento, quadro superior do Rádio Clube Português [...]. Desde a primeira hora, colaboraram com José do Nascimento, no projecto, outros dois colegas do RCP: Manuel Bravo e Armando Leston Martins". Depois, seguiram-se várias vicissitudes, acabando o Museu por ser inaugurado em 14 de Maio de 1992. O museu tem cerca de cinco mil peças e recebe anualmente à volta de doze mil visitantes.
Na hora em que se comemora o 12º aniversário, há nuvens muito toldadas quanto ao seu futuro. A notícias editada no jornal Público, do passado dia 1, não foi ainda desmentida pela administração da RTP, proprietária do museu. Para além da possível transferência do património para o Museu das Comunicações, a notícia informa que uma parte do acervo pode ir para a sucata, o que seria lamentável.
Apelo ao bom senso de quem manda nestas coisas para que repense o futuro de tão importante museu. Peço a todos os internautas que consultem o blogue A Minha Rádio e assinem a petição. Por favor, visitem ainda o sítio Rádio no Sapo.
MEMÓRIAS DA RÁDIO NO PROGRAMA JARDIM DA MÚSICA
Na última segunda-feira, no programa de Judite Lima, Jardim da Música (Antena 2), Eduardo Street continuou a falar das memórias da rádio. Ele referiu-se a um programa de 1955, Viagens da Terra à Lua, de Pedro Moutinho, o qual ganharia o segundo lugar no Prémio Itália para a radiodifusão. Dois anos antes do lançamento do primeiro Sputnik e a uns anos largos da primeira viagem a sério até à Lua, a Emissora Nacional usava seis gravadores para criarem o efeito dos sons dos propulsores dos foguetões espaciais. Era um tempo magnífico para a ficção científica.
Para a próxima semana, Eduardo Street falará dos 60 anos da RDP. Foi no ano de 1934 que a então Emissora Nacional começou a emitir ainda em fase de experiências.
FERNANDO CORREIA EDITA LIVRO SOBRE A RÁDIO
O conhecido radialista Fernando Correia acaba de lançar um livro intitulado A rádio não acontece...faz-se. Nomeadamente na antiga Emissora Nacional, depois Antena 1, conservo ainda no ouvido os seus relatos desportivos, de uma rara beleza [por vezes, eu confundia a sua voz com a de Artur Agostinho, outro grande relator desportivo da rádio portuguesa]. Ainda hoje, Fernando Correia anima o programa Bancada central na TSF, um fórum à noite sobre desporto, mas em especial sobre futebol. Fernando Correia é ainda professor do Instituto Piaget, em Almada, na área das Ciências da Comunicação.
Ora, o que diz este livro? Ele é "uma tentativa de difusão do conhecimento adquirido ao longo dos anos, de muitos anos, na rádio, nos programas, nas reportagens, nos espectáculos, no jornalismo radiofónico e no contacto com as pessoas e é, também, a forma de contar algumas histórias" (p. 7).
Para a rádio entrou em 1958: "Regressei [de Londres] para ingressar no SNI - Secretariado Nacional de Informação, como locutor, e para fazer concurso de admissão à Emissora Nacional de Radiodifusão" (p. 13). No concurso ficaria em primeiro lugar. Mais tarde, percorreria, como repórter da guerra colonial, Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.
Sobre a rádio dos anos 60, Fernando Correia destaca a Emissora Nacional, que "tinha a vantagem de contar com as melhores vozes (locutores), vindos de uma cuidada selecção e de concursos sobre concursos, com proveniência, em muitos casos, da Rádio Universidade (que emitia em horários próprios numa frequência da E. N.) ou do Secretariado Nacional de Informação (SNI)" (p. 51). E o autor evoca nomes como os de Maria Leonor, Etelvina Lopes de Almeida (desaparecida a semana passada), Artur Agostinho, Pedro Moutinho, Amadeu José de Freitas, Domingos Lança Moreira, Nuno Brás, Carlos Cruz e Romeu Correia, nomes que também guardo na minha já longa memória.
Por oposição, escreve sobre a rádio gira-discos: "contrapontos inevitáveis, numa situação de comodismo, facilitismo e refúgio [...]. Foram as rádios gira-discos que quiseram concorrer apoiadas no consumo de adolescentes e jovens. Os exemplos estão aí: RFM, Rádio Comercial, Antena 3 e uma nova versão do saudoso Rádio Clube Português que substituiu a Rádio Nostalgia" (p. 95). E Fernando Correia defende a reportagem radiofónica, o sector mais atractivo do meio, "por corresponder a um acto jornalístico completo", pois "encerra escrita, observação, análise, procura, poder de descrição, fluência e bom senso" (p. 83). Entre outras, recorda as reportagens da visita da rainha da Inglaterra, Isabel II, ainda nos anos de 1950, a partida dos primeiros contingentes para Angola, onde deflagrara a guerra em 1961, e os incêndios do Teatro Nacional D. Maria II e da Igreja de São Domingos.
Tenho uma grande admiração por este profissional da rádio. Mas, como em tudo na vida, há coisas que enjeitamos. Comigo, acontece com o que Fernando Correia escreve sobre o ensino (pp. 14-15). Ele considera que a Escola (presumo que a Universidade) tem "pessoas cheias de boa vontade que empinaram uma montanha de teoria que, na prática do ensino, não lhes serve de nada. O que acontece a seguir? Na maioria dos casos, a rejeição dos alunos, ou a formação de alunos que não vão conseguir arranjar emprego em parte alguma". E escreve ainda: "quase todos os professores não estão à altura das necessidades do ensino, porque não têm prática". Não podemos confundir a Universidade - espaço de saber e de especulação - com escolas profissionais, de ensino vocacionados para a "resolução de problemas de ordem técnica", como se lê no seu livro. É provavelmente a grande mistificação do nosso tempo.
Livro: Fernando Correia (2004). A rádio não acontece... faz-se. Lisboa: SeteCaminhos. Preço: €14,50.
quinta-feira, 13 de maio de 2004
TELENOVELAS E PROGRAMAÇÃO – O QUE ALTEROU COM O FORMATO VINDO DO BRASIL [Texto inicialmente publicado na revista MediaXXI, nº 74, de Fevereiro/Março de 2004. Continuação da mensagem de ontem]
Entretanto, assistira-se a um novo estilo de televisão protagonizado pelos directores dos canais (Emídio Rangel, José Eduardo Moniz), com SIC e TVI a disputarem as audiências no final dos anos 1990. A TVI alargava o seu prime-time, com o noticiário a funcionar como âncora de programas, caso das telenovelas e do Big Brother, reality-show da Endemol, que se distinguiu por possuir um fio narrativo, em que os concorrentes representavam como se fossem actores e actrizes, embora sem qualquer formação, como escreveu a antropóloga Alexandra Laranjeira (Mediatização da vida privada, 2003). O Big Brother foi cunhado de “novela da vida real” ou novela do “povo soberano”. Eduardo Cintra Torres, responsável por esta última designação (Reality shows, ritos de passagem da sociedade do espectáculo, 2002), descreveu o Big Brother como o programa das self-made stars, apenas com nome próprio, triunfo do cidadão comum sobre as estrelas do cinema ou das elites sociais e culturais.
O noticiário da noite da TVI deixava de ter horário rigoroso, oscilando o seu começo vários minutos antes das 20 horas. A mesma estação apostaria na produção de ficção portuguesa (novelas, séries e reality-shows), anulando a hegemonia da programação da SIC baseada em telenovelas do Brasil. Como diz Isabel Ferin no seu estudo, a estratégia de lançamento do Big Brother (Setembro de 2000) assentou em infotainment, com o noticiário a servir de suporte de informação leve sobre o programa, e product placement, com referência a produtos comerciais de grande consumo. E, se o Big Brother funcionou como motor de crescimento da TVI, outros programas ajudaram, como séries (Jardins proibidos, Super pai) e telenovelas (Olhos de água, Anjo selvagem e Filhos do mar), sempre acompanhados por publicidade em meios estáticos (mupies e outdoors) e dinâmicos (autocarros). A SIC começaria a recuperar a liderança de audiências a partir do programa Masterplan, outro reality-show ficcionado, chegando ao final de 2003 com vantagem sobre a TVI, logo seguida pela RTP1. Embora diferente no enredo face ao Big Brother, o Masterplan, também da produtora Endemol, permitia aos concorrentes continuarem a participar no programa mesmo após a expulsão. E se o Big Brother deu a conhecer o dócil e simplista Zé Maria, o Masterplan mostrou-nos uma Gisela ávida de publicidade em entrevistas não controladas pela organização.
Uma análise das telenovelas implica também o estudo das audiências, como fez Verónica Policarpo na sua tese de mestrado, ainda inédita (Telenovela brasileira: apropriação, género e trajectória familiar, 2001). Para esta professora da Universidade Católica, uma telenovela é um produto ou formato de indústria cultural dotado de uma narrativa dramatizada e marcas próprias em termos de duração e estrutura (série). Ela procurou saber como é que as pessoas “lêem” as propostas da telenovela, quais os significados a ela atribuídos e que factores sociais entram para essa apropriação. Analisando a telenovela Terra Nostra (2000) e o seu impacto na recepção, partiu da hipótese que as formas de apropriação da telenovela brasileira variam em função do género e da trajectória familiar. Para tal, considerou a audiência como social (composta por indivíduos inseridos em complexas relações sociais) e activa (explicação para as diferenças de recepção, com possibilidade de leituras de resistência ou usos alternativos que as mulheres fazem das telenovelas). A telenovela, explicaria, constitui um interlocutor privilegiado de certo tipo de sentimentos e experiências. Por exemplo, ao verem a telenovela, as mulheres podem avaliar a sua vida e reflectir a sua situação, numa proximidade de identidade entre ficção e vida pessoal dos receptores.
Com a sua introdução no imaginário das indústrias culturais de finais do séc. XX, e género televisivo habitualmente considerado com orientado para audiências femininas, a telenovela ganhou relevo também na produção nacional. No seu trabalho, Isabel Ferin destacou os investimentos no domínio das técnicas e nas performances dos profissionais, faltando, contudo, a densidade antropológica e sociológica das personagens construídas pelas telenovelas brasileiras. No cômputo geral, a programação de telenovelas, primeiro brasileiras e depois portuguesas, esteve na origem da fixação de audiências dos canais televisivos, percorrendo sucessivamente a RTP, a SIC e a TVI, prova da popularidade do género. Mas, por outro lado, surgia um movimento de oposição ou complementaridade às telenovelas, dando-se importância aos reality-shows. Conquanto parecessem resultar de cenas não representadas ou, na linguagem dos repórteres, não editadas, a produção criou um roteiro de enredo, com picos de interesse, para prender a atenção do telespectador, como se fosse uma telenovela. Antes, com anúncio no interior do noticiário, durante a transmissão em compacto (os chamados melhores momentos do dia) e depois (comentários e entrevistas a antigos residentes da casa, no exemplo do Big Brother). E com custos mais baixos, sem pagamento de cachet a artistas famosos ou recurso a montagem de cenários, criação de guarda-roupa ou necessidade de dezenas ou centenas de figurantes.
Entretanto, assistira-se a um novo estilo de televisão protagonizado pelos directores dos canais (Emídio Rangel, José Eduardo Moniz), com SIC e TVI a disputarem as audiências no final dos anos 1990. A TVI alargava o seu prime-time, com o noticiário a funcionar como âncora de programas, caso das telenovelas e do Big Brother, reality-show da Endemol, que se distinguiu por possuir um fio narrativo, em que os concorrentes representavam como se fossem actores e actrizes, embora sem qualquer formação, como escreveu a antropóloga Alexandra Laranjeira (Mediatização da vida privada, 2003). O Big Brother foi cunhado de “novela da vida real” ou novela do “povo soberano”. Eduardo Cintra Torres, responsável por esta última designação (Reality shows, ritos de passagem da sociedade do espectáculo, 2002), descreveu o Big Brother como o programa das self-made stars, apenas com nome próprio, triunfo do cidadão comum sobre as estrelas do cinema ou das elites sociais e culturais.
O noticiário da noite da TVI deixava de ter horário rigoroso, oscilando o seu começo vários minutos antes das 20 horas. A mesma estação apostaria na produção de ficção portuguesa (novelas, séries e reality-shows), anulando a hegemonia da programação da SIC baseada em telenovelas do Brasil. Como diz Isabel Ferin no seu estudo, a estratégia de lançamento do Big Brother (Setembro de 2000) assentou em infotainment, com o noticiário a servir de suporte de informação leve sobre o programa, e product placement, com referência a produtos comerciais de grande consumo. E, se o Big Brother funcionou como motor de crescimento da TVI, outros programas ajudaram, como séries (Jardins proibidos, Super pai) e telenovelas (Olhos de água, Anjo selvagem e Filhos do mar), sempre acompanhados por publicidade em meios estáticos (mupies e outdoors) e dinâmicos (autocarros). A SIC começaria a recuperar a liderança de audiências a partir do programa Masterplan, outro reality-show ficcionado, chegando ao final de 2003 com vantagem sobre a TVI, logo seguida pela RTP1. Embora diferente no enredo face ao Big Brother, o Masterplan, também da produtora Endemol, permitia aos concorrentes continuarem a participar no programa mesmo após a expulsão. E se o Big Brother deu a conhecer o dócil e simplista Zé Maria, o Masterplan mostrou-nos uma Gisela ávida de publicidade em entrevistas não controladas pela organização.
Uma análise das telenovelas implica também o estudo das audiências, como fez Verónica Policarpo na sua tese de mestrado, ainda inédita (Telenovela brasileira: apropriação, género e trajectória familiar, 2001). Para esta professora da Universidade Católica, uma telenovela é um produto ou formato de indústria cultural dotado de uma narrativa dramatizada e marcas próprias em termos de duração e estrutura (série). Ela procurou saber como é que as pessoas “lêem” as propostas da telenovela, quais os significados a ela atribuídos e que factores sociais entram para essa apropriação. Analisando a telenovela Terra Nostra (2000) e o seu impacto na recepção, partiu da hipótese que as formas de apropriação da telenovela brasileira variam em função do género e da trajectória familiar. Para tal, considerou a audiência como social (composta por indivíduos inseridos em complexas relações sociais) e activa (explicação para as diferenças de recepção, com possibilidade de leituras de resistência ou usos alternativos que as mulheres fazem das telenovelas). A telenovela, explicaria, constitui um interlocutor privilegiado de certo tipo de sentimentos e experiências. Por exemplo, ao verem a telenovela, as mulheres podem avaliar a sua vida e reflectir a sua situação, numa proximidade de identidade entre ficção e vida pessoal dos receptores.
Com a sua introdução no imaginário das indústrias culturais de finais do séc. XX, e género televisivo habitualmente considerado com orientado para audiências femininas, a telenovela ganhou relevo também na produção nacional. No seu trabalho, Isabel Ferin destacou os investimentos no domínio das técnicas e nas performances dos profissionais, faltando, contudo, a densidade antropológica e sociológica das personagens construídas pelas telenovelas brasileiras. No cômputo geral, a programação de telenovelas, primeiro brasileiras e depois portuguesas, esteve na origem da fixação de audiências dos canais televisivos, percorrendo sucessivamente a RTP, a SIC e a TVI, prova da popularidade do género. Mas, por outro lado, surgia um movimento de oposição ou complementaridade às telenovelas, dando-se importância aos reality-shows. Conquanto parecessem resultar de cenas não representadas ou, na linguagem dos repórteres, não editadas, a produção criou um roteiro de enredo, com picos de interesse, para prender a atenção do telespectador, como se fosse uma telenovela. Antes, com anúncio no interior do noticiário, durante a transmissão em compacto (os chamados melhores momentos do dia) e depois (comentários e entrevistas a antigos residentes da casa, no exemplo do Big Brother). E com custos mais baixos, sem pagamento de cachet a artistas famosos ou recurso a montagem de cenários, criação de guarda-roupa ou necessidade de dezenas ou centenas de figurantes.
quarta-feira, 12 de maio de 2004
TELENOVELAS E PROGRAMAÇÃO – O QUE ALTEROU COM O FORMATO VINDO DO BRASIL
[Texto inicialmente publicado na revista MediaXXI, nº 74, de Fevereiro/Março de 2004]
Foi em 1977 que passou na RTP a primeira telenovela brasileira, Gabriela, cravo e canela, a partir do livro de Jorge Amado, com a actriz Sónia Braga no principal papel. Os jornais de então deram conta de como os portugueses se renderam ao novo género televisivo. Então, a cor ainda não chegara aos receptores e a televisão era vista apenas à hora do almoço e entre as 18 e as 23 horas.
O presente artigo resulta da leitura de seis trabalhos de investigadores nacionais, um dos quais de Isabel Ferin (As telenovelas brasileiras em Portugal: indicadores de aceitação e mudança, 2003), que retém como fundamentais na telenovela as relações entre literatura, teatro, cinema e música popular brasileira. Para a professora da Universidade de Coimbra, a opção pela telenovela como estratégia de fidelizar audiências não foi pacífica, dado o receio da influência de vivências culturais e linguísticas brasileiras. Mas as suas histórias de encontros e desencontros amorosos, a par da definição de tipos populares de personagens, permitiram a fácil identificação e adesão do público.
Com a abertura à televisão privada, a partir de 1992, alterou-se rapidamente o panorama dos media e das indústrias culturais. Três anos depois, a primazia das audiências deslocava-se da RTP para a SIC, seguindo a publicidade o mesmo caminho. O sucesso da SIC deveu-se à existência de uma grelha diversificada em informação, reportagem, documentários, séries, comédias, programas infantis e juvenis, cinema e entretenimento geral. Gente nova e profissional a fazer televisão, outra maneira de trabalhar a informação e uma orientação para programação de agrado a públicos mais populares – a televisão do povo, como escreveu o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres (Ler televisão, 1998) –, estiveram na origem dessas alterações.
Como pano de fundo, o optimismo e a fé na iniciativa privada vividas na sociedade portuguesa, no princípio da década de 1990. A par da RTP, a SIC passou a transmitir telenovelas brasileiras, acabando por ficar com o monopólio das produzidas pela rede Globo. Mas esses anos também se abriram a produtoras, actores e outros profissionais portugueses. Isto fez com que empresas como a NBP, de Nicolau Breyner, tivessem uma boa aceitação, com adaptação de formatos estrangeiros (séries e telenovelas) à realidade portuguesa e desenvolvimento de projectos originais.
A concorrência inicial entre canais de televisão deu-se através de uma programação mimética. Depois, e segundo a socióloga Ana Paula Fernandes, em tese de mestrado (Televisão do público, 2001), a contra-programação passou a fazer parte dos objectivos dos vários canais, com uma atenção específica aos diversos públicos de televisão, além do efeito de herança (percentagem da audiência que se mantém na passagem de um programa para outro). Já na segunda metade dos anos 1990 a programação passou ao patamar da intimidade, a nível da informação, da ficção e dos reality-shows. No final dessa mesma década, e do ponto de vista político, incidindo sobre os canais públicos e as indústrias culturais, surgia a holding Portugal Global, envolvendo RTP, RDP e Lusa, e a criação da Comissão Interministerial para o Audiovisual e da Plataforma para o Audiovisual, com medidas para o desenvolvimento da produção nacional. Em termos financeiros, o ICAM apoiou mais projectos ligados ao cinema e à televisão, nomeadamente telefilmes. Já em 2002, o Governo preparou novas mudanças, com a criação do canal Dois, a substituir a RTP2 (transformação concretizada no começo deste ano, com a 2:).
[continua]
[Texto inicialmente publicado na revista MediaXXI, nº 74, de Fevereiro/Março de 2004]
Foi em 1977 que passou na RTP a primeira telenovela brasileira, Gabriela, cravo e canela, a partir do livro de Jorge Amado, com a actriz Sónia Braga no principal papel. Os jornais de então deram conta de como os portugueses se renderam ao novo género televisivo. Então, a cor ainda não chegara aos receptores e a televisão era vista apenas à hora do almoço e entre as 18 e as 23 horas.
O presente artigo resulta da leitura de seis trabalhos de investigadores nacionais, um dos quais de Isabel Ferin (As telenovelas brasileiras em Portugal: indicadores de aceitação e mudança, 2003), que retém como fundamentais na telenovela as relações entre literatura, teatro, cinema e música popular brasileira. Para a professora da Universidade de Coimbra, a opção pela telenovela como estratégia de fidelizar audiências não foi pacífica, dado o receio da influência de vivências culturais e linguísticas brasileiras. Mas as suas histórias de encontros e desencontros amorosos, a par da definição de tipos populares de personagens, permitiram a fácil identificação e adesão do público.
Com a abertura à televisão privada, a partir de 1992, alterou-se rapidamente o panorama dos media e das indústrias culturais. Três anos depois, a primazia das audiências deslocava-se da RTP para a SIC, seguindo a publicidade o mesmo caminho. O sucesso da SIC deveu-se à existência de uma grelha diversificada em informação, reportagem, documentários, séries, comédias, programas infantis e juvenis, cinema e entretenimento geral. Gente nova e profissional a fazer televisão, outra maneira de trabalhar a informação e uma orientação para programação de agrado a públicos mais populares – a televisão do povo, como escreveu o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres (Ler televisão, 1998) –, estiveram na origem dessas alterações.
A concorrência inicial entre canais de televisão deu-se através de uma programação mimética. Depois, e segundo a socióloga Ana Paula Fernandes, em tese de mestrado (Televisão do público, 2001), a contra-programação passou a fazer parte dos objectivos dos vários canais, com uma atenção específica aos diversos públicos de televisão, além do efeito de herança (percentagem da audiência que se mantém na passagem de um programa para outro). Já na segunda metade dos anos 1990 a programação passou ao patamar da intimidade, a nível da informação, da ficção e dos reality-shows. No final dessa mesma década, e do ponto de vista político, incidindo sobre os canais públicos e as indústrias culturais, surgia a holding Portugal Global, envolvendo RTP, RDP e Lusa, e a criação da Comissão Interministerial para o Audiovisual e da Plataforma para o Audiovisual, com medidas para o desenvolvimento da produção nacional. Em termos financeiros, o ICAM apoiou mais projectos ligados ao cinema e à televisão, nomeadamente telefilmes. Já em 2002, o Governo preparou novas mudanças, com a criação do canal Dois, a substituir a RTP2 (transformação concretizada no começo deste ano, com a 2:).
[continua]
terça-feira, 11 de maio de 2004
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS [CONCLUSÃO]
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril, 3, 6 e 10 de Maio)]
Tecnologias e novas empresas e departamentos
O período de novos projectos e parcerias, que localizamos entre 1999 e 2001, tinha raízes anteriores. Aliás, um projecto antes da sua concretização, passa por fases, longas por vezes, de estudo e implementação. Assim, em 1996, iniciou-se o estudo da introdução de novas tecnologias, designadamente a redacção “sem fita”, mas que continuou nos anos seguintes. Já a cenografia virtual, pensada em 1996, foi empregue na emissão das eleições autárquicas, em 1997, atendendo a todas as peças associadas a séries e programas de entretenimento. Nesse mesmo ano, era criado o departamento de merchandising da SIC: a venda de programas, merchandising, audiotexto, telenovelas e discos rendeu mais de dois milhões de euros, enquanto que, em 1999, ultrapassava os 3,4 milhões de euros. Por seu lado, a aquisição de câmaras portáteis digitais destinadas a operações de vídeo móvel ligeiro e de equipamento de edição não linear estiveram entre os objectivos desencadeados pela estação em 1998.
Em 1997, a SIC criava duas empresas em Londres, centro mundial da produção de conteúdos televisivos. Já em 1999, participava em duas sociedades: a SIC Filmes e a Morena Films (espanhola). O objectivo da SIC Filmes, em associação com o ICAM, é produzir dez filmes por ano, no sentido de dinamizar a criação audiovisual em Portugal. Assim, em Janeiro de 2000, cerca de 2,4 milhões de telespectadores viram o filme Amo-te Teresa. Nesse ano, a empresa lançava dez filmes e criava uma estrutura de pesquisa e leitura de argumentos e a figura de argumentista residente.
Também as instalações foram alvo do interesse da estação. Ainda em 1995, foi inaugurada a delegação da SIC no Porto, concretizando a estratégia de estar mais perto dos principais centros de decisão do país. Já em 1998, a estação negociava a aquisição do imóvel contíguo à sua sede em Carnaxide (antiga FNAC), o que permitiu uma expansão sem mudar de instalações (em especial após o lançamento da SIC Notícias).
No âmbito da criação de estruturas, deve realçar-se, durante 1999, o importante contributo da SIC, além de outras empresas, na fundação do Observatório da Comunicação (Obercom), instituição que visa conhecer melhor o que se faz em Portugal na área da comunicação.
Bibliografia
Andringa, Diana (2002). “Televisão: e não se pode regulá-la?”. Trajectos, 1: 91-127
Bastos, José Gabriel Pereira, Eduardo Cintra Torres e Maria Alzira Seixo (2001). O sintoma Big Brother. Lisboa: Graal
Brandão, Nuno Goulart (2002). O espectáculo das notícias. Lisboa: Notícias Editorial
Cádima, Francisco Rui (1996). O fenómeno televisivo. Lisboa; Círculo de Leitores
Carvalho, Alberto Arons de (2002). Valerá a pena desmenti-los? Coimbra: MinervaCoimbra
Geca (2002). El anuario de la televisión 2002. Gabinete de Estudios de la Comunicación Audiovisual: Madrid
Küng-Shankleman, Lucy (2000). Inside the BBC and CNN - Managing media organisations. Londres e Nova Iorque: Routledge
Lopes, Felisbela (1999). O telejornal e o serviço público. Coimbra: Minerva
Lopes, João (1995). Teleditadura. Diário de um espectador. Lisboa: Quetzal
Miranda, Mónica (2000). “Dragon Ball, Pokémon e as crianças-ciborgues”. Observatório, 2 (67-84)
Obercom (2002). Anuário Comunicação (2001-2002). Lisboa. Obercom
Serrano, Estrela (2002). As presidências abertas de Mário Soares. Coimbra: MinervaCoimbra
SIC (1995 a 2000). Anuários SIC Televisão. Carnaxide: SIC
SIC (1995 a 1999). Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios. Publicados em jornais ou em caderno especial do canal
Torres, Eduardo Cintra (1998). Ler televisão. Oeiras: Celta
Traquina, Nelson (1997) Big Show Media. Lisboa: Notícias Editorial
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril, 3, 6 e 10 de Maio)]
Tecnologias e novas empresas e departamentos
O período de novos projectos e parcerias, que localizamos entre 1999 e 2001, tinha raízes anteriores. Aliás, um projecto antes da sua concretização, passa por fases, longas por vezes, de estudo e implementação. Assim, em 1996, iniciou-se o estudo da introdução de novas tecnologias, designadamente a redacção “sem fita”, mas que continuou nos anos seguintes. Já a cenografia virtual, pensada em 1996, foi empregue na emissão das eleições autárquicas, em 1997, atendendo a todas as peças associadas a séries e programas de entretenimento. Nesse mesmo ano, era criado o departamento de merchandising da SIC: a venda de programas, merchandising, audiotexto, telenovelas e discos rendeu mais de dois milhões de euros, enquanto que, em 1999, ultrapassava os 3,4 milhões de euros. Por seu lado, a aquisição de câmaras portáteis digitais destinadas a operações de vídeo móvel ligeiro e de equipamento de edição não linear estiveram entre os objectivos desencadeados pela estação em 1998.
Em 1997, a SIC criava duas empresas em Londres, centro mundial da produção de conteúdos televisivos. Já em 1999, participava em duas sociedades: a SIC Filmes e a Morena Films (espanhola). O objectivo da SIC Filmes, em associação com o ICAM, é produzir dez filmes por ano, no sentido de dinamizar a criação audiovisual em Portugal. Assim, em Janeiro de 2000, cerca de 2,4 milhões de telespectadores viram o filme Amo-te Teresa. Nesse ano, a empresa lançava dez filmes e criava uma estrutura de pesquisa e leitura de argumentos e a figura de argumentista residente.
Também as instalações foram alvo do interesse da estação. Ainda em 1995, foi inaugurada a delegação da SIC no Porto, concretizando a estratégia de estar mais perto dos principais centros de decisão do país. Já em 1998, a estação negociava a aquisição do imóvel contíguo à sua sede em Carnaxide (antiga FNAC), o que permitiu uma expansão sem mudar de instalações (em especial após o lançamento da SIC Notícias).
No âmbito da criação de estruturas, deve realçar-se, durante 1999, o importante contributo da SIC, além de outras empresas, na fundação do Observatório da Comunicação (Obercom), instituição que visa conhecer melhor o que se faz em Portugal na área da comunicação.
Bibliografia
Andringa, Diana (2002). “Televisão: e não se pode regulá-la?”. Trajectos, 1: 91-127
Bastos, José Gabriel Pereira, Eduardo Cintra Torres e Maria Alzira Seixo (2001). O sintoma Big Brother. Lisboa: Graal
Brandão, Nuno Goulart (2002). O espectáculo das notícias. Lisboa: Notícias Editorial
Cádima, Francisco Rui (1996). O fenómeno televisivo. Lisboa; Círculo de Leitores
Carvalho, Alberto Arons de (2002). Valerá a pena desmenti-los? Coimbra: MinervaCoimbra
Geca (2002). El anuario de la televisión 2002. Gabinete de Estudios de la Comunicación Audiovisual: Madrid
Küng-Shankleman, Lucy (2000). Inside the BBC and CNN - Managing media organisations. Londres e Nova Iorque: Routledge
Lopes, Felisbela (1999). O telejornal e o serviço público. Coimbra: Minerva
Lopes, João (1995). Teleditadura. Diário de um espectador. Lisboa: Quetzal
Miranda, Mónica (2000). “Dragon Ball, Pokémon e as crianças-ciborgues”. Observatório, 2 (67-84)
Obercom (2002). Anuário Comunicação (2001-2002). Lisboa. Obercom
Serrano, Estrela (2002). As presidências abertas de Mário Soares. Coimbra: MinervaCoimbra
SIC (1995 a 2000). Anuários SIC Televisão. Carnaxide: SIC
SIC (1995 a 1999). Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios. Publicados em jornais ou em caderno especial do canal
Torres, Eduardo Cintra (1998). Ler televisão. Oeiras: Celta
Traquina, Nelson (1997) Big Show Media. Lisboa: Notícias Editorial
segunda-feira, 10 de maio de 2004
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - IV
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril, 3 e 6 de Maio)]
Televisão por cabo, expansão dos canais temáticos e relação com o Estado
A televisão por cabo foi um elemento estruturante da actividade televisiva nos últimos anos. O seu arranque no país deu-se em 1995, com destaque especial para a TV Cabo, do grupo Portugal Telecom, com quem a SIC estabeleceu um contrato e que permitiu transmitir a sua programação aos assinantes na Madeira e Açores.
Dois anos depois, com o objectivo de concorrer ao convite feito pela TV Cabo portuguesa, a SIC associou-se com a Globo para a organização e difusão de canais a oferecer aos assinantes daquele distribuidor de televisão por cabo. A parceria envolveu a SIC, a Globo, a TV Cabo e a Lusomundo, com a criação da Premium TV Portugal (a SIC e a Globo controlam 46% do capital social). Nessa sequência, o lançamento dos canais Telecine 1 e Telecine 2 ocorria em 1998 e o Canal Playboy arrancava em 1999.
No âmbito internacional, a partir de 1997, a SIC começou a emitir quatro horas diárias de programação autónoma para França, através da plataforma digital TPS, e no ano seguinte, também pela Lyonnaise Cable de França, enquanto se estabelecia um acordo com a RTP-USA, uma televisão da comunidade portuguesa com sede nos Estados Unidos, para transmitir programação da SIC por cabo a mais de sessenta cidades daquele país com grandes comunidades portuguesas. Em 20000, o horário de transmissão de programas para o estrangeiro passava para as vinte e quatro horas de programação em 2000, ano em que a SIC obtinha uma licença para distribuição da SIC Internacional no Canadá. Ainda em 1999, a SIC preparava um projecto ambicioso na internet, denominado SIC-Online.
A 28 de Junho de 2000, lançou-se o primeiro canal temático, a SIC Gold, com Henrique Mendes como cara do canal. Ainda em 2000, era autorizada a licença do canal SIC Internacional. Ao mesmo tempo, a estação comprava 60% do capital da empresa proprietária do Canal de Notícias de Lisboa, transformado em SIC Notícias, e que arrancou em 8 de Janeiro de 2001. A SIC Notícias tinha estúdio próprio e a redacção estava equipada com tecnologia totalmente digital e um novo sistema informático. Também em 2001 começou a emitir a SIC Radical. A SIC adquiriu outras participações, em 2000, nomeadamente na Lusa (5,2% do capital social) e em consórcio espanhol para um canal generalista, e passou a estar cotada na Bolsa de Valores, através da Impresa.
Um tema fundamental seria a da relação entre a SIC e o Estado. No final de 1996, o governo e as três empresas televisivas haviam chegado a um acordo, o que permitiu eliminar a publicidade do Canal 2 e limitar a publicidade do Canal 1 para 7,5 minutos por cada hora de emissão. Em 1997, o Estado e a RTP assinavam um novo contrato de concessão, o qual recebeu críticas por parte da estação privada, acompanhando críticas de outros anos, visíveis nos seus Relatórios de Gestão. Em 1998, a revisão da lei da televisão trouxe alterações positivas, caso da eliminação dos limites máximos das participações accionistas e à previsão de canais temáticos e codificados, que poderiam ser produzidos em Portugal. O relacionamento entre a SIC e a estação pública manteve-se bom, apesar da concorrência, verificável no apoio que ambas deram, além do Estado, à concretização do IX Fórum Europeu da Televisão e do Cinema, em 1997.
O ano de 1998 foi ainda marcado pela consulta pública sobre a introdução em Portugal da televisão hertziana digital (DVB-T) e o lançamento do anúncio público da televisão digital terrestre decorreria em 2001, de cujo consórcio vencedor fazia parte a SIC. Ainda no final do século, a SIC tomou iniciativas no âmbito do comércio electrónico, no sentido de alargar as suas actividades empresariais.
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril, 3 e 6 de Maio)]
Televisão por cabo, expansão dos canais temáticos e relação com o Estado
A televisão por cabo foi um elemento estruturante da actividade televisiva nos últimos anos. O seu arranque no país deu-se em 1995, com destaque especial para a TV Cabo, do grupo Portugal Telecom, com quem a SIC estabeleceu um contrato e que permitiu transmitir a sua programação aos assinantes na Madeira e Açores.
Dois anos depois, com o objectivo de concorrer ao convite feito pela TV Cabo portuguesa, a SIC associou-se com a Globo para a organização e difusão de canais a oferecer aos assinantes daquele distribuidor de televisão por cabo. A parceria envolveu a SIC, a Globo, a TV Cabo e a Lusomundo, com a criação da Premium TV Portugal (a SIC e a Globo controlam 46% do capital social). Nessa sequência, o lançamento dos canais Telecine 1 e Telecine 2 ocorria em 1998 e o Canal Playboy arrancava em 1999.
No âmbito internacional, a partir de 1997, a SIC começou a emitir quatro horas diárias de programação autónoma para França, através da plataforma digital TPS, e no ano seguinte, também pela Lyonnaise Cable de França, enquanto se estabelecia um acordo com a RTP-USA, uma televisão da comunidade portuguesa com sede nos Estados Unidos, para transmitir programação da SIC por cabo a mais de sessenta cidades daquele país com grandes comunidades portuguesas. Em 20000, o horário de transmissão de programas para o estrangeiro passava para as vinte e quatro horas de programação em 2000, ano em que a SIC obtinha uma licença para distribuição da SIC Internacional no Canadá. Ainda em 1999, a SIC preparava um projecto ambicioso na internet, denominado SIC-Online.
A 28 de Junho de 2000, lançou-se o primeiro canal temático, a SIC Gold, com Henrique Mendes como cara do canal. Ainda em 2000, era autorizada a licença do canal SIC Internacional. Ao mesmo tempo, a estação comprava 60% do capital da empresa proprietária do Canal de Notícias de Lisboa, transformado em SIC Notícias, e que arrancou em 8 de Janeiro de 2001. A SIC Notícias tinha estúdio próprio e a redacção estava equipada com tecnologia totalmente digital e um novo sistema informático. Também em 2001 começou a emitir a SIC Radical. A SIC adquiriu outras participações, em 2000, nomeadamente na Lusa (5,2% do capital social) e em consórcio espanhol para um canal generalista, e passou a estar cotada na Bolsa de Valores, através da Impresa.
Um tema fundamental seria a da relação entre a SIC e o Estado. No final de 1996, o governo e as três empresas televisivas haviam chegado a um acordo, o que permitiu eliminar a publicidade do Canal 2 e limitar a publicidade do Canal 1 para 7,5 minutos por cada hora de emissão. Em 1997, o Estado e a RTP assinavam um novo contrato de concessão, o qual recebeu críticas por parte da estação privada, acompanhando críticas de outros anos, visíveis nos seus Relatórios de Gestão. Em 1998, a revisão da lei da televisão trouxe alterações positivas, caso da eliminação dos limites máximos das participações accionistas e à previsão de canais temáticos e codificados, que poderiam ser produzidos em Portugal. O relacionamento entre a SIC e a estação pública manteve-se bom, apesar da concorrência, verificável no apoio que ambas deram, além do Estado, à concretização do IX Fórum Europeu da Televisão e do Cinema, em 1997.
O ano de 1998 foi ainda marcado pela consulta pública sobre a introdução em Portugal da televisão hertziana digital (DVB-T) e o lançamento do anúncio público da televisão digital terrestre decorreria em 2001, de cujo consórcio vencedor fazia parte a SIC. Ainda no final do século, a SIC tomou iniciativas no âmbito do comércio electrónico, no sentido de alargar as suas actividades empresariais.
domingo, 9 de maio de 2004
TARSO GENRO AO EL PAIS
Entrevistado hoje pelo jornal El Pais, o ministro da educação brasileiro Tarso Genro defende que a cultura gera a inclusão social: "Com a ampliação do tempo de ócio, o sector lúdico-cultural passa a ter não apenas uma importância social agregadora, mas também uma importância económica fundamental. Hoje há espaços concretos para que se desenvolva um terceiro sector do ócio, da cultura, da educação..., como elementos vitais do desenvolvimento económico, como oferta de emprego e como elemento de integração social e política em volta de um projecto de cidade e de região".
Mais à frente na entrevista, define política cultural: "Em sentido estrito, refere-se às promoções culturais. Num sentido estratégico, significa uma nova proposta de coesão social, com laços educativos, culturais e intelectuais, que promovam um sentido de vida aberto e completamente democrático". E vê a cultura nos países não dominantes como "uma cultura dual, de resistência e de reconstrução universalista. A resistência com os valores tipicamente locais é importante; por exemplo, resgatar as origens da nossa música". Ainda na entrevista e a uma pergunta sobre o debate, no Brasil, acerca das quotas de entrada de negros e índios nos centros de ensino e nas universidades, o titular da educação naquele país responderia do seguinte modo: "No Brasil, esta política afirmativa é positiva porque parte de uma constatação histórica, de uma dívida histórica do Estado brasileiro, que como condutor da escravatura tem que proporcionar condições objectivas para que o princípio jurídico da igualdade formal seja efectivamente desenvolvido. Significa reconhecer esta dívida histórica e proporcionar uma política de quotas que não seja contra os brancos nem contra outra raça".
Tarso, contactado no final da assembleia Agenda 21 da Cultura em Porto Alegre (Brasil), estará em Barcelona (Espanha) em finais deste mês, para participar no Fórum 2004, que junta três eixos temáticos: paz, diversidade e sustentabilidade. O Fórum de Barcelona foi inaugurado ontem.
PÁGINAS CENTRAIS DO CADERNO DESPORTO DO SUNDAY TIMES DEDICADAS A JOSÉ MOURINHO E F. C. PORTO
Com chamada de capa e foto de José Mourinho e duas páginas centrais do caderno de desporto do Sunday Times de hoje, vem a história de sucesso do treinador e do clube que estará no final da Taça dos Campeões de futebol. Nestas duas páginas, há imagens do treinador e do presidente do clube do Porto.
NOTÍCIAS CULTURAIS E TELEVISÃO
Ainda no El Pais de hoje, vem uma peça sobre as notícias culturais que passam na televisão. Entrevistado Francisco Rodríguez Pastoriza, jornalista da TVE (Televisão de Espanha), professor da Universidade Complutense e autor de Cultura y televisón. Una relación de conflicto (editado pela Gedisa), ele considera que as notícias culturais são uma espécie de adorno nos noticiários de televisão. E entende que há uma relação de conflito entre cultura e televisão, "em primeiro lugar, pelas exigências da audiência, e em segundo lugar, pela escassa repercussão da actividade cultural. Se uma pessoa visse apenas a televisão, pensaria que em Espanha não há actividade cultural".
Para Rodríguez, há uma obrigação de emitir programas culturais, na Europa como nos Estados Unidos: "Quando nasceu a televisão, obrigaram-se os operadores a dedicar determinados espaços à informação de serviço público. Assim surgiram os noticiários televisivos. Gostaria que em Espanha os noticiários da televisão estivessem obrigados a oferecer informações culturais e seguissem o exemplo do jornal Le Monde, que tem o compromisso de publicar diariamente uma notícia cultural na primeira página. [...] As televisões privadas deveriam ter a mesma obrigação de emitir programas culturais como as públicas".
Pode aplicar-se totalmente o exemplo a Portugal, agora que o Acontece já desapareceu.
A ORELHA DE VAN GOGH
Ainda no Sunday Times de hoje, vem um artigo de Waldemar Januszczak sobre Vincent Van Gogh e a sua verdadeira história, a passar no Channel 4 (inglês) a partir de 16 de Maio [que pena, não temos no nosso cabo; esperemos que a 2: esteja atenta].
Januszczak produziu uma série em três partes sobre o tão considerado pintor dos girassóis. Mas Van Gogh não gostaria de se ver na televisão. É que o autor da série encontra hera em vez de girassóis na obra do autor que cortou a orelha. Explicando melhor: Van Gogh dava-se constantemente com prostitutas, a ponto de ser expulso de casa dos seus pais, em Haia, quando ali entrou com uma delas. Januszczak vê uma só cara nas mulheres pintadas por Van Gogh: madame Ginoux. E aponta-a num quadro representando um bordel agora divulgado e pertencente à misteriosa colecção Barnes, de Filadélfia. A mulher de amarelo, à esquerda, é provavelmente a Ginoux.
E o autor da série a passar na televisão britânica tem uma versão peculiar da história da orelha cortada do pintor. Do mesmo modo que um toureiro corta a orelha do touro que mata na arena e a entrega a uma senhora na assistência, Van Gogh cortou a sua própria orelha, embrulhou-a numa folha de jornal e enviou-a a uma prostituta do seu bordel preferido. Daí Januszczak escrever que Van Gogh era um pintor de heras e não de girassóis. Estas eram mais da especialidade de Gauguin - a quem Van Gogh se juntou em Arles. Gauguin crescera no Peru, país de girassóis (o nome botânico é Chrysanthemun Peruvianum, crisântemo do Peru), e os girassóis de Van Gogh são um tributo a Gauguin.
Entrevistado hoje pelo jornal El Pais, o ministro da educação brasileiro Tarso Genro defende que a cultura gera a inclusão social: "Com a ampliação do tempo de ócio, o sector lúdico-cultural passa a ter não apenas uma importância social agregadora, mas também uma importância económica fundamental. Hoje há espaços concretos para que se desenvolva um terceiro sector do ócio, da cultura, da educação..., como elementos vitais do desenvolvimento económico, como oferta de emprego e como elemento de integração social e política em volta de um projecto de cidade e de região".
Mais à frente na entrevista, define política cultural: "Em sentido estrito, refere-se às promoções culturais. Num sentido estratégico, significa uma nova proposta de coesão social, com laços educativos, culturais e intelectuais, que promovam um sentido de vida aberto e completamente democrático". E vê a cultura nos países não dominantes como "uma cultura dual, de resistência e de reconstrução universalista. A resistência com os valores tipicamente locais é importante; por exemplo, resgatar as origens da nossa música". Ainda na entrevista e a uma pergunta sobre o debate, no Brasil, acerca das quotas de entrada de negros e índios nos centros de ensino e nas universidades, o titular da educação naquele país responderia do seguinte modo: "No Brasil, esta política afirmativa é positiva porque parte de uma constatação histórica, de uma dívida histórica do Estado brasileiro, que como condutor da escravatura tem que proporcionar condições objectivas para que o princípio jurídico da igualdade formal seja efectivamente desenvolvido. Significa reconhecer esta dívida histórica e proporcionar uma política de quotas que não seja contra os brancos nem contra outra raça".
Tarso, contactado no final da assembleia Agenda 21 da Cultura em Porto Alegre (Brasil), estará em Barcelona (Espanha) em finais deste mês, para participar no Fórum 2004, que junta três eixos temáticos: paz, diversidade e sustentabilidade. O Fórum de Barcelona foi inaugurado ontem.
PÁGINAS CENTRAIS DO CADERNO DESPORTO DO SUNDAY TIMES DEDICADAS A JOSÉ MOURINHO E F. C. PORTO
Com chamada de capa e foto de José Mourinho e duas páginas centrais do caderno de desporto do Sunday Times de hoje, vem a história de sucesso do treinador e do clube que estará no final da Taça dos Campeões de futebol. Nestas duas páginas, há imagens do treinador e do presidente do clube do Porto.
NOTÍCIAS CULTURAIS E TELEVISÃO
Ainda no El Pais de hoje, vem uma peça sobre as notícias culturais que passam na televisão. Entrevistado Francisco Rodríguez Pastoriza, jornalista da TVE (Televisão de Espanha), professor da Universidade Complutense e autor de Cultura y televisón. Una relación de conflicto (editado pela Gedisa), ele considera que as notícias culturais são uma espécie de adorno nos noticiários de televisão. E entende que há uma relação de conflito entre cultura e televisão, "em primeiro lugar, pelas exigências da audiência, e em segundo lugar, pela escassa repercussão da actividade cultural. Se uma pessoa visse apenas a televisão, pensaria que em Espanha não há actividade cultural".
Para Rodríguez, há uma obrigação de emitir programas culturais, na Europa como nos Estados Unidos: "Quando nasceu a televisão, obrigaram-se os operadores a dedicar determinados espaços à informação de serviço público. Assim surgiram os noticiários televisivos. Gostaria que em Espanha os noticiários da televisão estivessem obrigados a oferecer informações culturais e seguissem o exemplo do jornal Le Monde, que tem o compromisso de publicar diariamente uma notícia cultural na primeira página. [...] As televisões privadas deveriam ter a mesma obrigação de emitir programas culturais como as públicas".
Pode aplicar-se totalmente o exemplo a Portugal, agora que o Acontece já desapareceu.
A ORELHA DE VAN GOGH
Ainda no Sunday Times de hoje, vem um artigo de Waldemar Januszczak sobre Vincent Van Gogh e a sua verdadeira história, a passar no Channel 4 (inglês) a partir de 16 de Maio [que pena, não temos no nosso cabo; esperemos que a 2: esteja atenta].
Januszczak produziu uma série em três partes sobre o tão considerado pintor dos girassóis. Mas Van Gogh não gostaria de se ver na televisão. É que o autor da série encontra hera em vez de girassóis na obra do autor que cortou a orelha. Explicando melhor: Van Gogh dava-se constantemente com prostitutas, a ponto de ser expulso de casa dos seus pais, em Haia, quando ali entrou com uma delas. Januszczak vê uma só cara nas mulheres pintadas por Van Gogh: madame Ginoux. E aponta-a num quadro representando um bordel agora divulgado e pertencente à misteriosa colecção Barnes, de Filadélfia. A mulher de amarelo, à esquerda, é provavelmente a Ginoux.
E o autor da série a passar na televisão britânica tem uma versão peculiar da história da orelha cortada do pintor. Do mesmo modo que um toureiro corta a orelha do touro que mata na arena e a entrega a uma senhora na assistência, Van Gogh cortou a sua própria orelha, embrulhou-a numa folha de jornal e enviou-a a uma prostituta do seu bordel preferido. Daí Januszczak escrever que Van Gogh era um pintor de heras e não de girassóis. Estas eram mais da especialidade de Gauguin - a quem Van Gogh se juntou em Arles. Gauguin crescera no Peru, país de girassóis (o nome botânico é Chrysanthemun Peruvianum, crisântemo do Peru), e os girassóis de Van Gogh são um tributo a Gauguin.
sábado, 8 de maio de 2004
MEDIALOGIAS
Chegou-me agora às mãos o jornal Medialogias, número de Outono de 2003, do departamento de Ciências da Comunicação, Artes e Tecnologias, da Universidade Lusófona, com um dossier dedicado a Fernando Pessoa. Aliás, este autor é objecto de uma pós-graduação, designada Cultura e Contemporaneidade: Fernando Pessoa e a Actualidade, dirigida por Luís Filipe Teixeira, director da revista e do curso de Comunicação da universidade sediada no Campo Grande, em Lisboa.
Do jornal, de 20 páginas, destaco os textos de Fernando Correia (sobre a responsabilidade dos media, dos jornalistas e dos cidadãos), Carla Rodrigues Cardoso (sobre um livro de Jorge Paixão da Costa, Telenovela: um modo de produção) e Carla Martins (com um texto sobre Pessoa e as proximidades do jornalismo).
Também recebi, editado pela mesma universidade, a revista Caleidoscópio, com um número dedicado à Cultura de jogos, organizado por Luís Filipe Teixeira – a quem agradeço a gentileza do envio das duas publicações (o director da revista é António Machuco Rosa). Prometo voltar com mais detalhe à revista, que se situa “na tríade cultura-comunicação-novas tecnologias” (do editorial), e, em particular, a este número.
A todos, o meu desejo de continuarem a produzir investigação e informação útil e necessária.
ANTÓNIO FERRO NO BRASIL
Foi a 7 de Maio de 1922 que António Ferro partiu para o Brasil, onde fez conferências, apresentou o seu teatro e se casou por procuração com Fernanda de Castro, mantendo-se por aquele país durante cerca de um ano. Jovem ainda a fazer 27 anos, e director da Ilustração Portuguesa, a sua permanência do outro lado do Atlântico trouxe-lhe uma grande auréola mas sem direito a regressar à revista, que ele remodelara profundamente em poucos números.
Optimista, de sorriso largo, o jornalista e autor deixara Lisboa após um repasto envolvendo mais de setenta convivas, entre jornalistas, artistas, literatos, actores, músicos e críticos conforme escreve António Rodrigues, em livro que referi em mensagem do dia 5 deste mês (Rodrigues, 1995: 91) [os elementos da presente mensagem foram extraídos desse livro]. Na chegada ao Brasil, Ferro proclama-se como o porta-voz da nova geração. Realiza duas conferências, depois publicadas no Rio de Janeiro: A arte de bem morrer e a Idade do Jazz-Band, este um dos seus textos mais conceituados (a par do seu trabalho de ideólogo da primeira metade do regime ditatorial de Salazar). No Brasil, fez a apologia dos modernistas portugueses, como Almada Negreiros, António Soares, Eduardo Viana, José Pacheko, Cottinelli Telmo e Rui Coelho.
A arte de bem morrer apresentou-a no Trianon, do Rio de Janeiro, em 21 de Julho de 1922, e no Teatro Municipal de S. Paulo, em 5 de Dezembro do mesmo ano. O seu sucesso apenas seria superado com a Idade do Jazz-Band, lida ao público no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, em 30 de Julho de 1922, com apresentação de Carlos Malheiro Dias [na Biblioteca Nacional, existe um exemplar, não sei se o único, e que eu li, em meados do ano passado, que tem a assinatura de Malheiro Dias, o que quer dizer que fazia parte da biblioteca pessoal deste], após o que repetiria no Teatro Municipal de São Paulo, a 12 de Setembro. Também apresentou o mesmo trabalho em Santos e Belo Horizonte.
Um sucesso de todo o tamanho
Quando exclamava “A Arte gera a Vida, como a Vida gera a Arte. Arte e Vida estão quites. Abram os olhos, abram os olhos para o grande milagre”, calou-se, permitindo que entrassem no palco um “Jazz-Band e um corpo de mulher em dança”. Tratava-se de uma habilidade imagística, como narra Rodrigues (1995: 99), comparando esta performance com outro texto anteriormente escrito por Ferro, As grandes trágicas do silêncio, sobre as stars do cinema mudo, e que eu já destaquei em mensagem anterior. Dizia Ferro: “O Jazz-Band é o triunfo da dissonância, é a loucura instituída em juízo universal, essa caluniada loucura que é a única renovação possível do velho mundo”. A música e a dança associavam-se, nas variedades de fox-trot, one-step, tango, maxixe, schimmy e charleston. Nota Rodrigues que se dá o expoente da artificialização de António Ferro, nesse seu gosto pela extravagância culta.
Este gosto vê-se pelos seguintes gestos. A primeira conferência realizou-se no Rio de Janeiro, apenas após a chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, eles que fizeram a primeira travessia aérea unindo Portugal ao Brasil. Depois, porque resolve casar por procuração com Fernanda de Castro, tendo como testemunha de procuração o próprio Gago Coutinho. Fernanda de Castro lá seguiria no navio seguinte partido de Lisboa, para se encontrar com um marido tão imprevisto quanto artista.
E foi ainda no Brasil que apresentou a sua peça Mar Alto, interpretado por uma actriz que debutara e fizera muito sucesso naquele país: Lucília Simões (São Paulo, 18 de Novembro de 1992; Rio de Janeiro, 15 de Dezembro do mesmo ano). Depois, quando a representou em Portugal, daria um grande escândalo, obrigando mesmo ao cancelamento de espectáculos. Qual era o conteúdo da peça? Tratava-se de um triângulo amoroso. Luís, poeta decadente, Madalena, mulher moderna, e o amante desta, Henrique. Este propusera aquela que abandonasse o marido e fosse viver com ela, que recusou. Um dia, Luís confessa que cometera um assalto. Madalena confessa também o seu crime e propõe-se ir viver para casa de Henrique, que é um homem rico, podendo o dinheiro deste ajudar aquele. Luís aceita, invertendo-se os papéis: passa de marido a amante. Escreve António Rodrigues (1995: 105): “Numa sociedade ainda dominada por marialvas e mulheres em gineceu, como a brasileira e a portuguesa, não surpreende o escândalo do Mar Alto”.
Foi, provavelmente, o período mais difícil da vida do casal António Ferro-Fernanda de Castro, como a própria revela nas suas memórias. A sorte veio de um convite do director do Diário de Notícias, para Ferro ingressar como repórter internacional e como crítico de teatro. Começaria a vida das grandes entrevistas aos líderes europeus (das ditaduras nascentes, incluindo Salazar). Mas também uma viagem à América e à Hollywood do cinema, que ele descreveria com muito pormenor e sagacidade. A arte, a cultura, o teatro e o cinema, além dos livros, claro, ocupavam-no ainda mais. Até que chegou o tempo da Política do Espírito, que “vendeu” a Salazar e este "comprou", resultando no Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). Mas sobre este, não se pronuncia António Rodrigues, e muito menos eu. É que o arquivo do SPN está à espera de ser transportado para a Torre do Tombo há mais que meses, há já anos, parece-me. Primeiro, por causa de uma desinfestação, agora por falta de verba para o seu transporte. Confesso que gostaria de estudar este arquivo…
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
Chegou-me agora às mãos o jornal Medialogias, número de Outono de 2003, do departamento de Ciências da Comunicação, Artes e Tecnologias, da Universidade Lusófona, com um dossier dedicado a Fernando Pessoa. Aliás, este autor é objecto de uma pós-graduação, designada Cultura e Contemporaneidade: Fernando Pessoa e a Actualidade, dirigida por Luís Filipe Teixeira, director da revista e do curso de Comunicação da universidade sediada no Campo Grande, em Lisboa.
Do jornal, de 20 páginas, destaco os textos de Fernando Correia (sobre a responsabilidade dos media, dos jornalistas e dos cidadãos), Carla Rodrigues Cardoso (sobre um livro de Jorge Paixão da Costa, Telenovela: um modo de produção) e Carla Martins (com um texto sobre Pessoa e as proximidades do jornalismo).
Também recebi, editado pela mesma universidade, a revista Caleidoscópio, com um número dedicado à Cultura de jogos, organizado por Luís Filipe Teixeira – a quem agradeço a gentileza do envio das duas publicações (o director da revista é António Machuco Rosa). Prometo voltar com mais detalhe à revista, que se situa “na tríade cultura-comunicação-novas tecnologias” (do editorial), e, em particular, a este número.
A todos, o meu desejo de continuarem a produzir investigação e informação útil e necessária.
ANTÓNIO FERRO NO BRASIL
Foi a 7 de Maio de 1922 que António Ferro partiu para o Brasil, onde fez conferências, apresentou o seu teatro e se casou por procuração com Fernanda de Castro, mantendo-se por aquele país durante cerca de um ano. Jovem ainda a fazer 27 anos, e director da Ilustração Portuguesa, a sua permanência do outro lado do Atlântico trouxe-lhe uma grande auréola mas sem direito a regressar à revista, que ele remodelara profundamente em poucos números.
Optimista, de sorriso largo, o jornalista e autor deixara Lisboa após um repasto envolvendo mais de setenta convivas, entre jornalistas, artistas, literatos, actores, músicos e críticos conforme escreve António Rodrigues, em livro que referi em mensagem do dia 5 deste mês (Rodrigues, 1995: 91) [os elementos da presente mensagem foram extraídos desse livro]. Na chegada ao Brasil, Ferro proclama-se como o porta-voz da nova geração. Realiza duas conferências, depois publicadas no Rio de Janeiro: A arte de bem morrer e a Idade do Jazz-Band, este um dos seus textos mais conceituados (a par do seu trabalho de ideólogo da primeira metade do regime ditatorial de Salazar). No Brasil, fez a apologia dos modernistas portugueses, como Almada Negreiros, António Soares, Eduardo Viana, José Pacheko, Cottinelli Telmo e Rui Coelho.
A arte de bem morrer apresentou-a no Trianon, do Rio de Janeiro, em 21 de Julho de 1922, e no Teatro Municipal de S. Paulo, em 5 de Dezembro do mesmo ano. O seu sucesso apenas seria superado com a Idade do Jazz-Band, lida ao público no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, em 30 de Julho de 1922, com apresentação de Carlos Malheiro Dias [na Biblioteca Nacional, existe um exemplar, não sei se o único, e que eu li, em meados do ano passado, que tem a assinatura de Malheiro Dias, o que quer dizer que fazia parte da biblioteca pessoal deste], após o que repetiria no Teatro Municipal de São Paulo, a 12 de Setembro. Também apresentou o mesmo trabalho em Santos e Belo Horizonte.
Um sucesso de todo o tamanho
Quando exclamava “A Arte gera a Vida, como a Vida gera a Arte. Arte e Vida estão quites. Abram os olhos, abram os olhos para o grande milagre”, calou-se, permitindo que entrassem no palco um “Jazz-Band e um corpo de mulher em dança”. Tratava-se de uma habilidade imagística, como narra Rodrigues (1995: 99), comparando esta performance com outro texto anteriormente escrito por Ferro, As grandes trágicas do silêncio, sobre as stars do cinema mudo, e que eu já destaquei em mensagem anterior. Dizia Ferro: “O Jazz-Band é o triunfo da dissonância, é a loucura instituída em juízo universal, essa caluniada loucura que é a única renovação possível do velho mundo”. A música e a dança associavam-se, nas variedades de fox-trot, one-step, tango, maxixe, schimmy e charleston. Nota Rodrigues que se dá o expoente da artificialização de António Ferro, nesse seu gosto pela extravagância culta.
Este gosto vê-se pelos seguintes gestos. A primeira conferência realizou-se no Rio de Janeiro, apenas após a chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, eles que fizeram a primeira travessia aérea unindo Portugal ao Brasil. Depois, porque resolve casar por procuração com Fernanda de Castro, tendo como testemunha de procuração o próprio Gago Coutinho. Fernanda de Castro lá seguiria no navio seguinte partido de Lisboa, para se encontrar com um marido tão imprevisto quanto artista.
E foi ainda no Brasil que apresentou a sua peça Mar Alto, interpretado por uma actriz que debutara e fizera muito sucesso naquele país: Lucília Simões (São Paulo, 18 de Novembro de 1992; Rio de Janeiro, 15 de Dezembro do mesmo ano). Depois, quando a representou em Portugal, daria um grande escândalo, obrigando mesmo ao cancelamento de espectáculos. Qual era o conteúdo da peça? Tratava-se de um triângulo amoroso. Luís, poeta decadente, Madalena, mulher moderna, e o amante desta, Henrique. Este propusera aquela que abandonasse o marido e fosse viver com ela, que recusou. Um dia, Luís confessa que cometera um assalto. Madalena confessa também o seu crime e propõe-se ir viver para casa de Henrique, que é um homem rico, podendo o dinheiro deste ajudar aquele. Luís aceita, invertendo-se os papéis: passa de marido a amante. Escreve António Rodrigues (1995: 105): “Numa sociedade ainda dominada por marialvas e mulheres em gineceu, como a brasileira e a portuguesa, não surpreende o escândalo do Mar Alto”.
Foi, provavelmente, o período mais difícil da vida do casal António Ferro-Fernanda de Castro, como a própria revela nas suas memórias. A sorte veio de um convite do director do Diário de Notícias, para Ferro ingressar como repórter internacional e como crítico de teatro. Começaria a vida das grandes entrevistas aos líderes europeus (das ditaduras nascentes, incluindo Salazar). Mas também uma viagem à América e à Hollywood do cinema, que ele descreveria com muito pormenor e sagacidade. A arte, a cultura, o teatro e o cinema, além dos livros, claro, ocupavam-no ainda mais. Até que chegou o tempo da Política do Espírito, que “vendeu” a Salazar e este "comprou", resultando no Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). Mas sobre este, não se pronuncia António Rodrigues, e muito menos eu. É que o arquivo do SPN está à espera de ser transportado para a Torre do Tombo há mais que meses, há já anos, parece-me. Primeiro, por causa de uma desinfestação, agora por falta de verba para o seu transporte. Confesso que gostaria de estudar este arquivo…
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
sexta-feira, 7 de maio de 2004
EM DEFESA DO MUSEU DA RÁDIO
Após 12 anos aberto ao público, o Museu da Rádio ameaça fechar as portas, com o seu acervo a ser integrado no Museu das Comunicações - conforme notícia publicada no sábado passado no jornal Público. Porque o assunto é para ser levado a sério, e apesar de não se saber mais do que aquilo que saíu no jornal, os blogues mais ligado a esta indústria cultural que é a rádio têm multiplicado as suas mensagens de desconforto perante a situação. No ar, existe o receio de ver o acervo distribuído por vários núcleos - perdendo-se a noção de colecção -, ou parcialmente destruído. Prova deste receio é o facto de ainda não ter havido um comunicado ou qualquer outra afirmação por parte da RTP ou da comissão instaladora do museu da Rádio (que se prepara para assinar, em breve, um protocolo para transferência do acervo para a Fundação Portuguesa das Comunicações), a desmentir a notícia ou a clarificar os pontos mais problemáticos da mesma.
Ao internauta que lê esta mensagem
Por favor, participe civicamente na defesa do Museu da Rádio. Envie uma carta, em tom gentil, à administração da RTP (Avenida Marechal Gomes da Costa, 37 - 1800-255 Lisboa), sublinhando a importância cultural do museu, na sua totalidade, e mostrando o alarme que a notícia causou em toda a comunidade cultural do país. O desaparecimento do Museu é uma grande perda para todos. Ou, pelo menos, que sejam explicadas à opinião pública as vantagens da integração numa outra entidade. É que o silêncio se tornou num elemento altamente perturbador.
MEMÓRIAS DA RÁDIO – CITAÇÕES CLÁSSICAS DE AGENTES CULTURAIS E JORNALÍSTICOS
Eis algumas citações muito gostosas:
Carmen Dolores (actriz)
“Os postos de amadores pediam colaboração. Qualquer pessoa podia apresentar o seu programa e tentar a sorte como intérprete, cantando, tocando, declamando, representando!
“Foi assim.
“Emissora escolhida a Rádio Sonora, ali à Morais Soares, dirigida pelo simpático Lacombe Neves. O meu irmão teve a ideia fabulosa: um recital de quinze em quinze dias, com números de canto, recitação, piano e pequenos diálogos. Ele que nessa altura era aluno da Hermínia Alagarim que também foi professora do Piçarra e de muitos outros cultivadores do bel-canto, cantava as suas árias de óperas conhecidas, de lied, também interpretadas pelo Tito Schippa e pelo Miguel Fleta. E tinha uma linda e bem timbrada voz de tenor que foi pena não ter continuado a cultivar. A Júlia, minha cunhada nessa época, que já passara pelo teatro e tinha o curso de piano, acompanhava-o e tocava solos de música clássica. Eu recitava os versos aprendidos na Selecta. E os três interpretávamos os diálogos. Passava-se tudo isto em fins de 1938. Tinha eu 14 anos” [Carmen Dolores (1984). Retrato inacabado. Memórias. Lisboa: O Jornal, pp. 59-60].
João de Morais Palmeiro (jornalista)
“Em Novembro de 1925, dois anos quase depois de haver sido inaugurada em toda a Alemanha a radiotelefonia, fomos convidados a dizer algumas coisas pelo posto emissor de Berlim acerca da nossa terra, de Portugal.
“Como instruções recebêramos um impresso que nos concedia vinte minutos para falar, elucidando-nos que, em dez minutos, se liam com todo o vagar, quatro folhas de papel almaço escritas à máquina.
“[…] E, em 14 de Novembro de 1925, às sete e três quartos da tarde, líamos diante do microfone da estação de TSF de Berlim o nosso modesto trabalho.
“[…] No decurso da nossa palestra havíamos traduzido umas quatro quadras populares portuguesas. Uma senhora – a primeira do nosso auditório invisível a dirigir-se-nos – escreveu:
“Seria possível informar-me se as quadras que traduziu fazem parte de algum livro que se possa adquirir aqui? Caso contrário, estaria disposto a enviar-me uma cópia das mesmas, principalmente da última?” [João de Morais Palmeiro (1929). A nova Alemanha. Porto: Imprensa Nacional, pp. 133-135].
Fernando Curado Ribeiro (actor e escritor)
“Tanto como outros meios, a Rádio pode ser dotada de características que permitem a intenção de criação de arte, que se realizará se se atender aos condicionamentos próprios, técnico e funcional, e às soluções estéticas impostas pelo seu mundo sonoro. É, aliás, graças às interferências deste mundo sonoro no mundo visual que a arte radiofónica se afirma, como que tornando-se plástica e dado ao sentido auditivo o que a vista já apercebeu. A arte radiofónica atinge o seu fim quando chega ao auditor que, com os seus ouvidos, viu no espaço. E isto depende mais do valor do que se transmite do que das qualidades de quem ouve. Abrem-se, pois, perspectivas análogas aquelas de que beneficia a vista – embora, sem dúvida, mais limitadas. E é talvez por este aspecto importante que Rádio, Cinema e Televisão se confundem em tantos pormenores”. [Fernando Curado Ribeiro (1964). Rádio – produção – realização – estética. Lisboa: Arcádia, p. 75].
Artur Agostinho (locutor, apresentador e actor)
“Estávamos no início dos anos 50 e, nessa altura, o acesso de qualquer pessoa aos estúdios do Quelhas era extraordinariamente fácil.
“[…] Foi exactamente no tempo em que ainda não tinham sido implementadas algumas medidas especiais de segurança que apareceram no hall dos estúdios dois homens de grande compleição física, em mangas de camisa e transportando sobre os ombros aquelas grossas cordas que identificavam, de imediato, os populares «galegos» que paravam no Chiado, oferecendo os seus préstimos como carregadores de mobílias e de outros objectos mais ou menos pesados.
“[…] Os dois homens apresentaram-se ao funcionário de serviço nos estúdios, dizendo-lhe que vinham a mando do maestro Pedro de Freitas Branco, com a incumbência de transportarem o piano de cauda que estava no estúdio A para o Teatro de São Carlos, onde iria ser necessário para um ensaio da Orquestra Sinfónica.
“O solícito funcionário acompanhou os dois homens ao estúdio A, onde se encontrava o instrumento pretendido, e regressou ao seu local de trabalho, deixando-os entregues à pesada tarefa de carregarem o piano.
“[…] No dia seguinte, a meio da tarde, o maestro Pedro de Freitas Branco, momentos depois de ter entrado no estúdio A, voltou a sair visivelmente irritado.
“[…] acabou por chegar à inevitável conclusão de que o piano de cauda da Emissora Nacional – um magnífico e valioso Steinway – tinha sido pura e simplesmente roubado, mercê de um golpe audacioso, de grande imaginação” [Artur Agostinho (2002). Ficheiros indiscretos. Lisboa: Oficina do Livro, pp. 231-232].
Após 12 anos aberto ao público, o Museu da Rádio ameaça fechar as portas, com o seu acervo a ser integrado no Museu das Comunicações - conforme notícia publicada no sábado passado no jornal Público. Porque o assunto é para ser levado a sério, e apesar de não se saber mais do que aquilo que saíu no jornal, os blogues mais ligado a esta indústria cultural que é a rádio têm multiplicado as suas mensagens de desconforto perante a situação. No ar, existe o receio de ver o acervo distribuído por vários núcleos - perdendo-se a noção de colecção -, ou parcialmente destruído. Prova deste receio é o facto de ainda não ter havido um comunicado ou qualquer outra afirmação por parte da RTP ou da comissão instaladora do museu da Rádio (que se prepara para assinar, em breve, um protocolo para transferência do acervo para a Fundação Portuguesa das Comunicações), a desmentir a notícia ou a clarificar os pontos mais problemáticos da mesma.
Ao internauta que lê esta mensagem
Por favor, participe civicamente na defesa do Museu da Rádio. Envie uma carta, em tom gentil, à administração da RTP (Avenida Marechal Gomes da Costa, 37 - 1800-255 Lisboa), sublinhando a importância cultural do museu, na sua totalidade, e mostrando o alarme que a notícia causou em toda a comunidade cultural do país. O desaparecimento do Museu é uma grande perda para todos. Ou, pelo menos, que sejam explicadas à opinião pública as vantagens da integração numa outra entidade. É que o silêncio se tornou num elemento altamente perturbador.
MEMÓRIAS DA RÁDIO – CITAÇÕES CLÁSSICAS DE AGENTES CULTURAIS E JORNALÍSTICOS
Eis algumas citações muito gostosas:
Carmen Dolores (actriz)
“Os postos de amadores pediam colaboração. Qualquer pessoa podia apresentar o seu programa e tentar a sorte como intérprete, cantando, tocando, declamando, representando!
“Foi assim.
“Emissora escolhida a Rádio Sonora, ali à Morais Soares, dirigida pelo simpático Lacombe Neves. O meu irmão teve a ideia fabulosa: um recital de quinze em quinze dias, com números de canto, recitação, piano e pequenos diálogos. Ele que nessa altura era aluno da Hermínia Alagarim que também foi professora do Piçarra e de muitos outros cultivadores do bel-canto, cantava as suas árias de óperas conhecidas, de lied, também interpretadas pelo Tito Schippa e pelo Miguel Fleta. E tinha uma linda e bem timbrada voz de tenor que foi pena não ter continuado a cultivar. A Júlia, minha cunhada nessa época, que já passara pelo teatro e tinha o curso de piano, acompanhava-o e tocava solos de música clássica. Eu recitava os versos aprendidos na Selecta. E os três interpretávamos os diálogos. Passava-se tudo isto em fins de 1938. Tinha eu 14 anos” [Carmen Dolores (1984). Retrato inacabado. Memórias. Lisboa: O Jornal, pp. 59-60].
João de Morais Palmeiro (jornalista)
“Em Novembro de 1925, dois anos quase depois de haver sido inaugurada em toda a Alemanha a radiotelefonia, fomos convidados a dizer algumas coisas pelo posto emissor de Berlim acerca da nossa terra, de Portugal.
“Como instruções recebêramos um impresso que nos concedia vinte minutos para falar, elucidando-nos que, em dez minutos, se liam com todo o vagar, quatro folhas de papel almaço escritas à máquina.
“[…] E, em 14 de Novembro de 1925, às sete e três quartos da tarde, líamos diante do microfone da estação de TSF de Berlim o nosso modesto trabalho.
“[…] No decurso da nossa palestra havíamos traduzido umas quatro quadras populares portuguesas. Uma senhora – a primeira do nosso auditório invisível a dirigir-se-nos – escreveu:
“Seria possível informar-me se as quadras que traduziu fazem parte de algum livro que se possa adquirir aqui? Caso contrário, estaria disposto a enviar-me uma cópia das mesmas, principalmente da última?” [João de Morais Palmeiro (1929). A nova Alemanha. Porto: Imprensa Nacional, pp. 133-135].
Fernando Curado Ribeiro (actor e escritor)
“Tanto como outros meios, a Rádio pode ser dotada de características que permitem a intenção de criação de arte, que se realizará se se atender aos condicionamentos próprios, técnico e funcional, e às soluções estéticas impostas pelo seu mundo sonoro. É, aliás, graças às interferências deste mundo sonoro no mundo visual que a arte radiofónica se afirma, como que tornando-se plástica e dado ao sentido auditivo o que a vista já apercebeu. A arte radiofónica atinge o seu fim quando chega ao auditor que, com os seus ouvidos, viu no espaço. E isto depende mais do valor do que se transmite do que das qualidades de quem ouve. Abrem-se, pois, perspectivas análogas aquelas de que beneficia a vista – embora, sem dúvida, mais limitadas. E é talvez por este aspecto importante que Rádio, Cinema e Televisão se confundem em tantos pormenores”. [Fernando Curado Ribeiro (1964). Rádio – produção – realização – estética. Lisboa: Arcádia, p. 75].
Artur Agostinho (locutor, apresentador e actor)
“Estávamos no início dos anos 50 e, nessa altura, o acesso de qualquer pessoa aos estúdios do Quelhas era extraordinariamente fácil.
“[…] Foi exactamente no tempo em que ainda não tinham sido implementadas algumas medidas especiais de segurança que apareceram no hall dos estúdios dois homens de grande compleição física, em mangas de camisa e transportando sobre os ombros aquelas grossas cordas que identificavam, de imediato, os populares «galegos» que paravam no Chiado, oferecendo os seus préstimos como carregadores de mobílias e de outros objectos mais ou menos pesados.
“[…] Os dois homens apresentaram-se ao funcionário de serviço nos estúdios, dizendo-lhe que vinham a mando do maestro Pedro de Freitas Branco, com a incumbência de transportarem o piano de cauda que estava no estúdio A para o Teatro de São Carlos, onde iria ser necessário para um ensaio da Orquestra Sinfónica.
“O solícito funcionário acompanhou os dois homens ao estúdio A, onde se encontrava o instrumento pretendido, e regressou ao seu local de trabalho, deixando-os entregues à pesada tarefa de carregarem o piano.
“[…] No dia seguinte, a meio da tarde, o maestro Pedro de Freitas Branco, momentos depois de ter entrado no estúdio A, voltou a sair visivelmente irritado.
“[…] acabou por chegar à inevitável conclusão de que o piano de cauda da Emissora Nacional – um magnífico e valioso Steinway – tinha sido pura e simplesmente roubado, mercê de um golpe audacioso, de grande imaginação” [Artur Agostinho (2002). Ficheiros indiscretos. Lisboa: Oficina do Livro, pp. 231-232].
quinta-feira, 6 de maio de 2004
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - III PARTE
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril e 3 de Maio)]
Novo ciclo na vida da SIC: projectos e parcerias
Canais temáticos, como a criação de um canal de notícias, entrada na informação electrónica (internet) e aquisição de empresas de produção de conteúdos fizeram parte do novo ciclo de vida do canal de televisão. Entrava-se na fase dos novos projectos e parcerias (1999-2001), que sucedia aos períodos de afirmação do projecto (1992) e liderança no mercado (1995-1998).
O investimento publicitário em todo o sector de televisão foi de 226 milhões de euros em 1994, subindo para 422 milhões em 2000 (SIC, Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios). Já em termos de receitas brutas, em 1995, a SIC arrecadou 111.885 milhões de euros, ao passo que a RTP recebia 101.560 milhões e a TVI 28.210 milhões de euros. Em 1999, a SIC subia para 200.730 milhões de euros, a RTP passava a 109.375 milhões e a TVI ficava em 67.290 milhões (SIC). Mas começava uma inversão lenta na relação entre os canais. Para a SIC, o ano de 1999 foi de perda de audiência, acentuada em 2000 e 2001. Também as receitas provenientes da publicidade baixariam desde 1999. A TVI passava a ser o challenger. Se o Big Brother foi o centro das atenções, ao provocar escândalo mas garantir a fidelização dos telespectadores, a produção nacional (telenovelas) e a tabloidização das notícias tiveram a primazia na TVI. Vale a pena procurar perceber o fenómeno que fez perder a liderança à SIC. Entrava-se numa cultura que associava o espectáculo a um modelo voyeurista e exibicionista (Bastos et al., 2001: 12). A “novela da vida real”, como dizia a promoção do programa, permitia ao telespectador saber o que se passava, minuto a minuto, da vida íntima de algumas pessoas isoladas do mundo externo. Havia ainda o aspecto do peep-show e confessionário, janela ou orifício que permitia aos concorrentes o acesso ao exterior, para falar com a apresentadora do programa, recobrindo aquilo a que Rui Cádima designa por televerdade: a câmara escondida ou qualquer efeito simulador do real guiam-nos para uma dimensão da curiosidade (Cádima, 1996: 72).
A contra-programação da SIC seria constituída, bastante tempo depois, pelos programas Acorrentados e Bar da TV, de sucesso duvidoso. Perdia-se a estratégia da programação popular, as audiências baixavam e o mal-estar instalou-se na estação de televisão. As dissensões aumentaram, o que levou Emídio Rangel a perder o controlo da situação, em confronto nomeadamente com Nuno Santos, director da SIC Notícias, e, mais tarde, a abandonar a SIC (Setembro de 2001), por troca com a RTP.
Após a recomposição directiva da SIC e subsequente alteração estratégica, o Masterplan fez parte enquanto programa central na recuperação das audiências para a SIC, já enquadrado neste texto como pertencendo ao quarto período, o da retoma. Uma análise às capas das revistas cor-de-rosa, a partir de Fevereiro de 2000, onde são frequentes as alusões aos “heróis” do reality-show, com fotografias de página inteira e revelação das suas emoções, demonstra a importância da imprensa na promoção de um produto televisivo.
Além do referido reality-show, a produção nacional, as telenovelas brasileiras, os filmes e os programas de entretenimento, a par dos acontecimentos programados ou imprevistos, marcaram este terceiro período de vida da SIC (1999-2001). Da produção portuguesa destacaram-se Médico de Família, Os Malucos do Riso, Mundo VIP, Ponto de Encontro e Chuva de Estrelas. Júlia Pinheiro animava o programa da manhã (SIC 10 Horas), horário que o canal privado pretendia competir com a RTP. Um programa inédito sobre música clássica juntou António Vitorino d’Almeida e Bárbara Guimarães, os Duetos imprevistos. A vinda de Xanana Gusmão a Portugal, a morte de Amália Rodrigues (Outubro de 1999), a escolha de Portugal para organizar o Euro 2004, o Carnaval brasileiro em directo e o congresso do PSD (Fevereiro de 1999) foram alguns dos principais acontecimentos que mereceram destaque no canal privado. No campo da informação, o Jornal da Noite continuava a ser o bloco preferido dos telespectadores portugueses, com uma média diária de 1,67 milhões de telespectadores (18,7% de audiência) em 1999.
A SIC alargava as suas áreas de negócio. Assim, na venda de programas, a SIC colocou as séries documentais Salazar e A Grande Viagem no Canal História e a série Médico de Família nas televisões de Cabo Verde e de Angola, em 1999. A transmissão de vários jogos de futebol foi também feita para estas duas estações televisivas. A SIC também promoveu peças de teatro, caso do Rei Lear, de Shakespeare, no teatro D. Maria II, em 1998. Nesse ano, publicitou ainda a Feira do Livro, êxito que repetiu em anos seguintes, com especial relevo para a edição de 2002.
Em 2000, dava-se a grande transferência do entertainer Herman José da RTP para a SIC, depois de uma ligação de cerca de vinte anos ao canal público. Naquela altura, os jornais escreveram que desaparecia a última glória da coroa da RTP.
[continua]
[Texto inicialmente publicado na revista Observatório, nº 6, de Novembro de 2002, e aqui reproduzido com pequenas alterações em mensagens já colocadas (29 de Abril e 3 de Maio)]
Novo ciclo na vida da SIC: projectos e parcerias
Canais temáticos, como a criação de um canal de notícias, entrada na informação electrónica (internet) e aquisição de empresas de produção de conteúdos fizeram parte do novo ciclo de vida do canal de televisão. Entrava-se na fase dos novos projectos e parcerias (1999-2001), que sucedia aos períodos de afirmação do projecto (1992) e liderança no mercado (1995-1998).
O investimento publicitário em todo o sector de televisão foi de 226 milhões de euros em 1994, subindo para 422 milhões em 2000 (SIC, Relatórios de Gestão Referentes aos Exercícios). Já em termos de receitas brutas, em 1995, a SIC arrecadou 111.885 milhões de euros, ao passo que a RTP recebia 101.560 milhões e a TVI 28.210 milhões de euros. Em 1999, a SIC subia para 200.730 milhões de euros, a RTP passava a 109.375 milhões e a TVI ficava em 67.290 milhões (SIC). Mas começava uma inversão lenta na relação entre os canais. Para a SIC, o ano de 1999 foi de perda de audiência, acentuada em 2000 e 2001. Também as receitas provenientes da publicidade baixariam desde 1999. A TVI passava a ser o challenger. Se o Big Brother foi o centro das atenções, ao provocar escândalo mas garantir a fidelização dos telespectadores, a produção nacional (telenovelas) e a tabloidização das notícias tiveram a primazia na TVI. Vale a pena procurar perceber o fenómeno que fez perder a liderança à SIC. Entrava-se numa cultura que associava o espectáculo a um modelo voyeurista e exibicionista (Bastos et al., 2001: 12). A “novela da vida real”, como dizia a promoção do programa, permitia ao telespectador saber o que se passava, minuto a minuto, da vida íntima de algumas pessoas isoladas do mundo externo. Havia ainda o aspecto do peep-show e confessionário, janela ou orifício que permitia aos concorrentes o acesso ao exterior, para falar com a apresentadora do programa, recobrindo aquilo a que Rui Cádima designa por televerdade: a câmara escondida ou qualquer efeito simulador do real guiam-nos para uma dimensão da curiosidade (Cádima, 1996: 72).
A contra-programação da SIC seria constituída, bastante tempo depois, pelos programas Acorrentados e Bar da TV, de sucesso duvidoso. Perdia-se a estratégia da programação popular, as audiências baixavam e o mal-estar instalou-se na estação de televisão. As dissensões aumentaram, o que levou Emídio Rangel a perder o controlo da situação, em confronto nomeadamente com Nuno Santos, director da SIC Notícias, e, mais tarde, a abandonar a SIC (Setembro de 2001), por troca com a RTP.
Após a recomposição directiva da SIC e subsequente alteração estratégica, o Masterplan fez parte enquanto programa central na recuperação das audiências para a SIC, já enquadrado neste texto como pertencendo ao quarto período, o da retoma. Uma análise às capas das revistas cor-de-rosa, a partir de Fevereiro de 2000, onde são frequentes as alusões aos “heróis” do reality-show, com fotografias de página inteira e revelação das suas emoções, demonstra a importância da imprensa na promoção de um produto televisivo.
Além do referido reality-show, a produção nacional, as telenovelas brasileiras, os filmes e os programas de entretenimento, a par dos acontecimentos programados ou imprevistos, marcaram este terceiro período de vida da SIC (1999-2001). Da produção portuguesa destacaram-se Médico de Família, Os Malucos do Riso, Mundo VIP, Ponto de Encontro e Chuva de Estrelas. Júlia Pinheiro animava o programa da manhã (SIC 10 Horas), horário que o canal privado pretendia competir com a RTP. Um programa inédito sobre música clássica juntou António Vitorino d’Almeida e Bárbara Guimarães, os Duetos imprevistos. A vinda de Xanana Gusmão a Portugal, a morte de Amália Rodrigues (Outubro de 1999), a escolha de Portugal para organizar o Euro 2004, o Carnaval brasileiro em directo e o congresso do PSD (Fevereiro de 1999) foram alguns dos principais acontecimentos que mereceram destaque no canal privado. No campo da informação, o Jornal da Noite continuava a ser o bloco preferido dos telespectadores portugueses, com uma média diária de 1,67 milhões de telespectadores (18,7% de audiência) em 1999.
A SIC alargava as suas áreas de negócio. Assim, na venda de programas, a SIC colocou as séries documentais Salazar e A Grande Viagem no Canal História e a série Médico de Família nas televisões de Cabo Verde e de Angola, em 1999. A transmissão de vários jogos de futebol foi também feita para estas duas estações televisivas. A SIC também promoveu peças de teatro, caso do Rei Lear, de Shakespeare, no teatro D. Maria II, em 1998. Nesse ano, publicitou ainda a Feira do Livro, êxito que repetiu em anos seguintes, com especial relevo para a edição de 2002.
Em 2000, dava-se a grande transferência do entertainer Herman José da RTP para a SIC, depois de uma ligação de cerca de vinte anos ao canal público. Naquela altura, os jornais escreveram que desaparecia a última glória da coroa da RTP.
[continua]
quarta-feira, 5 de maio de 2004
AS GRANDES TRÁGICAS DO SILÊNCIO
Foi com este título que António Ferro realizou uma conferência sobre o cinema, a primeira no nosso país. Estávamos a 1 de Junho de 1917, tinha o autor apenas 21 anos. Por falta de oportunidade, não li o original, mas socorro-me do livro de António Rodrigues (António Ferro, Na idade do Jazz-Band) para ultrapassar essa dificuldade.
Era o começo do cinema, uma das maiores indústrias culturais do século XX. A conferência daquele que, depois, criou a "política de Espírito" e a colocou ao serviço do regime ditatorial salazarista, terá sido uma "notável e brilhante conferência sobre o cinema e uma das principais manifestações culturais no quadro da modernidade portuguesa desta década" (Rodrigues, 1995: 22). A conferência propriamente dita foi dividida em três partes: o elogio da frase, do animatógrafo e das princesas do ecrã. Vivia-se o cinema como a adequação a um universo civilizacional de referência, pois o cinema "tem a vantagem de apurar, notavelmente, o sentido estético, de ser uma escola de bom gosto, como conheço poucas". Escreve Rodrigues que havia em António Ferro uma preocupação pelo décor do espaço e do corpo que o habita e, também, pela entrada purificadora nesse espaço imaginário percorrido por heróis e heroínas (p. 24). O ecrã revelava-se a matéria-prima do imaginário.
As estrelas emergentes desse cinema ainda mudo eram italianas, uma delas dando pelo nome de Francesca Bertini. Mas Ferro estava precavido: ela, "na vida é muda como no cinema, é menos bela do que no ecrã. Em conclusão, a Francesca Bertini da Avenida Nomentana é o manequim da Francesca Bertini do cinema. Não existe, portanto: é uma projecção". Projecção, porque "gerada certamente no ventre da objectiva". Vivia-se um tempo febril: automóveis, comboios, aviões, imagens em movimento. Com as princesas do ecrã a entrarem dentro da vida do espectador e a estabelecerem relações novas entre o real e o virtual, de que nós hoje temos mais consciência - embora reajamos da mesma forma ingénua e romântica.
Ora, do conjunto mais apreciado de estrelas do mudo, se Francesca Bertini era a romântica, Pina Menichelli era a vampe e Lyda Borelli era a divina, como hoje olhamos Charlize Theron ou Scarlett Johansson. Tínhamos aí os estereótipos principais, que têm alimentado a narrativa do cinema. Claro que Lyda era a preferida de Ferro, "pela sua estilização super-requintada". Pegando no que António Rodrigues escreve: "As grandes trágicas do silêncio são um dos mais belos elogios que o cinema então podia receber, tanto pelo entendimento da sua natureza estética e onírica próprias, quanto pela consciente valorização da sua eficácia socio-imagística" (p. 26).
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
INDÚSTRIAS DE CONTEÚDOS
Publica o número mais recente da revista Economia Pura (nº 63, Março de 2004), dirigida por Francisco Botelho, um dossier dedicado às indústrias de conteúdo, em especial um estudo de Artur Castro Neves. Daí considerar importante traçar umas breves notas sobre o dossier.
Parte-se do princípio que a criação de riqueza se está a deslocar da actividade produtiva para a concepção, tendo a inovação como principal esteio na criação de valor. Para João Abel de Freitas, que apresenta o dossier, "os novos modelos económicos tendem a estruturar-se segundo dois grandes eixos: os serviços integradores e as indústrias de conteúdos". E esclarece o mesmo autor, até há pouco director do GEPE (Gabinete de Estudos e Prospectiva Económica do ministério da Economia), que as indústrias de conteúdos são um "conjunto de actividades que, em sentido lato, se posicionam no centro dos universos do conhecimento, da cultura e do entretenimento/lazer".
Definição de indústria em Artur Castro Neves
Sociólogo pela Sorbonne, Paris V, e responsável pela cadeira de Economia do Audiovisual do curso de Cinema da Universidade Moderna, Artur Castro Neves define indústria como um "sistema de fabricação e de exploração comercial dos produtos, cujos recursos são alocados e escoados, ou no mercado ou dentro da instituição proprietária do referido sistema de fabricação". Esta definição permite-lhe avançar para a expressão indústria cinematográfica enquanto sistema de fabricação de filmes.
Ora, quais são os principais recursos para produzir um filme, pergunta Artur Castro Neves? Ele considera os talentos criativo, artístico, técnico (e capacidade tecnológica) comercial e directivo. E define, em termos de exploração comercial dos filmes produzidos, as principais plataformas de distribuição e difusão: circuitos de cinema, televisões generalistas e temáticas, gratuitas ou de acesso pago, serviços em linha, como o telefone e a internet, e serviços fora de linha, como o vídeo e o CD.
Quanto à indústria de conteúdos, o mesmo autor considera os conteúdos como "serviços de comunicações electrónicas". Compara os conteúdos digitais e analógicos, com os primeiros a serem fabricados digitalmente ou poderem "resultar de uma tradução em linguagem binária de conteúdos analógicos e arquivados em suporte electrónico", e distingue a natureza diferente de conteúdos digitais e de conteúdos imateriais ou intangíveis. Finalmente, fala dos quatro tipos de operadores da indústria: operadores de telecomunicações, operadores de serviços electrónicos, produtores de conteúdos e editores e distribuidores de catálogos e programas.
O dossier contém ainda um conjunto de outros elementos, que reputo de grande importância para a compreensão daquilo que eu entendo por indústrias culturais (e de conteúdos, na expressão de Artur Castro Neves). A revista Economia Pura custa €3,75.
Foi com este título que António Ferro realizou uma conferência sobre o cinema, a primeira no nosso país. Estávamos a 1 de Junho de 1917, tinha o autor apenas 21 anos. Por falta de oportunidade, não li o original, mas socorro-me do livro de António Rodrigues (António Ferro, Na idade do Jazz-Band) para ultrapassar essa dificuldade.
Era o começo do cinema, uma das maiores indústrias culturais do século XX. A conferência daquele que, depois, criou a "política de Espírito" e a colocou ao serviço do regime ditatorial salazarista, terá sido uma "notável e brilhante conferência sobre o cinema e uma das principais manifestações culturais no quadro da modernidade portuguesa desta década" (Rodrigues, 1995: 22). A conferência propriamente dita foi dividida em três partes: o elogio da frase, do animatógrafo e das princesas do ecrã. Vivia-se o cinema como a adequação a um universo civilizacional de referência, pois o cinema "tem a vantagem de apurar, notavelmente, o sentido estético, de ser uma escola de bom gosto, como conheço poucas". Escreve Rodrigues que havia em António Ferro uma preocupação pelo décor do espaço e do corpo que o habita e, também, pela entrada purificadora nesse espaço imaginário percorrido por heróis e heroínas (p. 24). O ecrã revelava-se a matéria-prima do imaginário.
As estrelas emergentes desse cinema ainda mudo eram italianas, uma delas dando pelo nome de Francesca Bertini. Mas Ferro estava precavido: ela, "na vida é muda como no cinema, é menos bela do que no ecrã. Em conclusão, a Francesca Bertini da Avenida Nomentana é o manequim da Francesca Bertini do cinema. Não existe, portanto: é uma projecção". Projecção, porque "gerada certamente no ventre da objectiva". Vivia-se um tempo febril: automóveis, comboios, aviões, imagens em movimento. Com as princesas do ecrã a entrarem dentro da vida do espectador e a estabelecerem relações novas entre o real e o virtual, de que nós hoje temos mais consciência - embora reajamos da mesma forma ingénua e romântica.
Ora, do conjunto mais apreciado de estrelas do mudo, se Francesca Bertini era a romântica, Pina Menichelli era a vampe e Lyda Borelli era a divina, como hoje olhamos Charlize Theron ou Scarlett Johansson. Tínhamos aí os estereótipos principais, que têm alimentado a narrativa do cinema. Claro que Lyda era a preferida de Ferro, "pela sua estilização super-requintada". Pegando no que António Rodrigues escreve: "As grandes trágicas do silêncio são um dos mais belos elogios que o cinema então podia receber, tanto pelo entendimento da sua natureza estética e onírica próprias, quanto pela consciente valorização da sua eficácia socio-imagística" (p. 26).
Livro: António Rodrigues (1995). António Ferro, na idade do Jazz-Band. Lisboa: Livros Horizonte
INDÚSTRIAS DE CONTEÚDOS
Publica o número mais recente da revista Economia Pura (nº 63, Março de 2004), dirigida por Francisco Botelho, um dossier dedicado às indústrias de conteúdo, em especial um estudo de Artur Castro Neves. Daí considerar importante traçar umas breves notas sobre o dossier.
Parte-se do princípio que a criação de riqueza se está a deslocar da actividade produtiva para a concepção, tendo a inovação como principal esteio na criação de valor. Para João Abel de Freitas, que apresenta o dossier, "os novos modelos económicos tendem a estruturar-se segundo dois grandes eixos: os serviços integradores e as indústrias de conteúdos". E esclarece o mesmo autor, até há pouco director do GEPE (Gabinete de Estudos e Prospectiva Económica do ministério da Economia), que as indústrias de conteúdos são um "conjunto de actividades que, em sentido lato, se posicionam no centro dos universos do conhecimento, da cultura e do entretenimento/lazer".
Definição de indústria em Artur Castro Neves
Sociólogo pela Sorbonne, Paris V, e responsável pela cadeira de Economia do Audiovisual do curso de Cinema da Universidade Moderna, Artur Castro Neves define indústria como um "sistema de fabricação e de exploração comercial dos produtos, cujos recursos são alocados e escoados, ou no mercado ou dentro da instituição proprietária do referido sistema de fabricação". Esta definição permite-lhe avançar para a expressão indústria cinematográfica enquanto sistema de fabricação de filmes.
Ora, quais são os principais recursos para produzir um filme, pergunta Artur Castro Neves? Ele considera os talentos criativo, artístico, técnico (e capacidade tecnológica) comercial e directivo. E define, em termos de exploração comercial dos filmes produzidos, as principais plataformas de distribuição e difusão: circuitos de cinema, televisões generalistas e temáticas, gratuitas ou de acesso pago, serviços em linha, como o telefone e a internet, e serviços fora de linha, como o vídeo e o CD.
Quanto à indústria de conteúdos, o mesmo autor considera os conteúdos como "serviços de comunicações electrónicas". Compara os conteúdos digitais e analógicos, com os primeiros a serem fabricados digitalmente ou poderem "resultar de uma tradução em linguagem binária de conteúdos analógicos e arquivados em suporte electrónico", e distingue a natureza diferente de conteúdos digitais e de conteúdos imateriais ou intangíveis. Finalmente, fala dos quatro tipos de operadores da indústria: operadores de telecomunicações, operadores de serviços electrónicos, produtores de conteúdos e editores e distribuidores de catálogos e programas.
O dossier contém ainda um conjunto de outros elementos, que reputo de grande importância para a compreensão daquilo que eu entendo por indústrias culturais (e de conteúdos, na expressão de Artur Castro Neves). A revista Economia Pura custa €3,75.
terça-feira, 4 de maio de 2004
OBERCOM PREPARA NOVO MODELO DE DIRECÇÃO
O Obercom, Observatório da Comunicação, tem em discussão uma mudança no modelo de direcção, em reunião de assembleia-geral. Até aqui, o comando da associação tem pertencido a um director executivo, enquanto o conselho directivo, nomeado pelos sócios, desempenha uma função estratégica. É o que nas empresas se chama de corporate governance. O novo figurino passa pela concentração de actividades no presidente do conselho directivo, com previsível desaparecimento do cargo de director executivo.
O modelo de funcionamento em vigor foi definido no começo das actividades do Obercom, associação de direito privado sem fins lucrativos, cujo objecto se define "na produção e difusão de informação, bem como na realização de estudos e trabalhos de investigação que contribuam para o melhor conhecimento na área da comunicação" (artigo 3º dos seus estatutos). O Obercom foi criado em 1999, com a primeira assembleia-geral realizada em 31 de Março desse ano. Dos sócios iniciais faziam parte o Instituto da Comunicação Social, a Portugal Telecom, a SIC, a RTP, a RDP, a Rádio Renascença, a Associação de Imprensa Não-Diária (AIND) e o Instituto das Comunicações de Portugal (hoje Anacom).
O Obercom é, presentemente, uma associação de grande prestígio e reconhecimento nacional e internacional. É responsável por uma base de dados de media, comunicações e novas tecnologias da informação, editada em Anuário. Tem também uma publicação semestral, sendo os dois últimos números dedicados a conferências internacionais promovidas pela própria associação.
O director executivo é o Professor Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa) e o presidente do conselho directivo é o Dr. Luís Landerset Cardoso (em representação da AIND).
CONFERÊNCIA SOBRE MEDIA, SEGURANÇA E DEFESA NA UNIVERSIDADE AUTÓNOMA
Decorrerá na Universidade Autónoma de Lisboa, à rua de Santa Marta, nº 56, no próximo dia 11, uma conferência dedicada à Comunicação Social, Segurança e Defesa – os Media em situações de crise, conflito e guerra.
Entre outros, participarão os generais Garcia Leandro e Abel Cabral Couto (actual e antigo director do Instituto de Defesa Nacional) e os jornalistas Cândida Pinto (SIC) e Paulo Moura (Público), que falarão sobre as suas experiências na cobertura jornalística de situações de crise, conflito e guerra. Outros jornalistas e vários professores universitários completarão o leque de intervenientes num tema muito actual, e que se prolongará pelo dia inteiro. Espero colocar umas notas neste blogue sobre o evento.
MEMÓRIA DOS ARQUIVOS FOTOGRÁFICOS
Tenho pesquisado no arquivo do já desaparecido jornal O Século, à guarda do Arquivo Português de Fotografia, em instalações da Torre do Tombo. A razão da minha pesquisa prende-se com um trabalho que cobre o período de 1924 a 1939. As fotografias estão arrumadas em álbuns de cartão, contendo imagens em positivo, numeradas com quatro dígitos e uma letra, a maior parte delas com legenda e identificação de personalidades quando são fotos de grupo.
Já vi as imagens de onze anos (1924-1934), um período marcante na nossa história, indo do golpe de Estado de 1926 à solidificação do Estado Novo. As primeiras imagens que vi coincidiam com os sucessivos putschs militares; as últimas com o congresso da União Nacional, partido único saído do golpe de 1926. Mas há conjuntos singulares.
Uso a memória, pois não tomei notas escritas. Lembro as mortes de António José de Almeida, antigo presidente da República, e de Gomes da Costa, o chefe dos putschistas do 28 de Maio de 1926, ambas tiradas nos leitos de morte, com flores e familiares à volta. Lembro também as filas de católicos à entrada das igrejas do Chiado na quinta-feira santa. Há ainda imagens de peditórios para causas sociais e bodos a pobres (assistência social e de alimentação) ou de grupos de personalidades estrangeiras que nos visitavam (aviadores, vedetas de cinema, políticos, ciclistas em volta ao mundo). E também o presidente da República, Óscar Carmona, sempre de farda e, por vezes, de capote, em inúmeras situações (inaugurações, visitas, nas comemorações da batalha de Lys e deposição de coroas de flores).
Se, nos primeiros anos que observei, há poucas temáticas e mais fotografias de acontecimentos imprevistos (acidentes de automóvel, tipo de transporte ainda pouco usual; prisão de suspeitos de assassínios) e insólito (o homem-macaco, em acrobacias e prostrado, denotando um ataque epiléptico; batatas de formato estranho), a partir de 1930 aparecem fotografias mais temáticas (profissões; exposições; fotografias da baixa lisboeta, com o Rossio à cabeça, mostrando o crescimento do parque de carros eléctricos e de automóveis, ou, já em 1934, o edifício do Instituto Nacional de Estatística, com campos em volta, sem se vislumbrar ainda o que é hoje a Praça de Londres), denotando leituras mais sociológicas.
OBRIGADO
Ontem, houve 100 (cem) visitantes a este blog, conforme os dados fornecidos pelo sítio extremetracking, em especial os onze visitantes mais assíduos, segundo o sítio bravenet. O meu muito obrigado pela preferência.
O Obercom, Observatório da Comunicação, tem em discussão uma mudança no modelo de direcção, em reunião de assembleia-geral. Até aqui, o comando da associação tem pertencido a um director executivo, enquanto o conselho directivo, nomeado pelos sócios, desempenha uma função estratégica. É o que nas empresas se chama de corporate governance. O novo figurino passa pela concentração de actividades no presidente do conselho directivo, com previsível desaparecimento do cargo de director executivo.
O modelo de funcionamento em vigor foi definido no começo das actividades do Obercom, associação de direito privado sem fins lucrativos, cujo objecto se define "na produção e difusão de informação, bem como na realização de estudos e trabalhos de investigação que contribuam para o melhor conhecimento na área da comunicação" (artigo 3º dos seus estatutos). O Obercom foi criado em 1999, com a primeira assembleia-geral realizada em 31 de Março desse ano. Dos sócios iniciais faziam parte o Instituto da Comunicação Social, a Portugal Telecom, a SIC, a RTP, a RDP, a Rádio Renascença, a Associação de Imprensa Não-Diária (AIND) e o Instituto das Comunicações de Portugal (hoje Anacom).
O Obercom é, presentemente, uma associação de grande prestígio e reconhecimento nacional e internacional. É responsável por uma base de dados de media, comunicações e novas tecnologias da informação, editada em Anuário. Tem também uma publicação semestral, sendo os dois últimos números dedicados a conferências internacionais promovidas pela própria associação.
O director executivo é o Professor Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa) e o presidente do conselho directivo é o Dr. Luís Landerset Cardoso (em representação da AIND).
CONFERÊNCIA SOBRE MEDIA, SEGURANÇA E DEFESA NA UNIVERSIDADE AUTÓNOMA
Decorrerá na Universidade Autónoma de Lisboa, à rua de Santa Marta, nº 56, no próximo dia 11, uma conferência dedicada à Comunicação Social, Segurança e Defesa – os Media em situações de crise, conflito e guerra.
Entre outros, participarão os generais Garcia Leandro e Abel Cabral Couto (actual e antigo director do Instituto de Defesa Nacional) e os jornalistas Cândida Pinto (SIC) e Paulo Moura (Público), que falarão sobre as suas experiências na cobertura jornalística de situações de crise, conflito e guerra. Outros jornalistas e vários professores universitários completarão o leque de intervenientes num tema muito actual, e que se prolongará pelo dia inteiro. Espero colocar umas notas neste blogue sobre o evento.
MEMÓRIA DOS ARQUIVOS FOTOGRÁFICOS
Tenho pesquisado no arquivo do já desaparecido jornal O Século, à guarda do Arquivo Português de Fotografia, em instalações da Torre do Tombo. A razão da minha pesquisa prende-se com um trabalho que cobre o período de 1924 a 1939. As fotografias estão arrumadas em álbuns de cartão, contendo imagens em positivo, numeradas com quatro dígitos e uma letra, a maior parte delas com legenda e identificação de personalidades quando são fotos de grupo.
Já vi as imagens de onze anos (1924-1934), um período marcante na nossa história, indo do golpe de Estado de 1926 à solidificação do Estado Novo. As primeiras imagens que vi coincidiam com os sucessivos putschs militares; as últimas com o congresso da União Nacional, partido único saído do golpe de 1926. Mas há conjuntos singulares.
Uso a memória, pois não tomei notas escritas. Lembro as mortes de António José de Almeida, antigo presidente da República, e de Gomes da Costa, o chefe dos putschistas do 28 de Maio de 1926, ambas tiradas nos leitos de morte, com flores e familiares à volta. Lembro também as filas de católicos à entrada das igrejas do Chiado na quinta-feira santa. Há ainda imagens de peditórios para causas sociais e bodos a pobres (assistência social e de alimentação) ou de grupos de personalidades estrangeiras que nos visitavam (aviadores, vedetas de cinema, políticos, ciclistas em volta ao mundo). E também o presidente da República, Óscar Carmona, sempre de farda e, por vezes, de capote, em inúmeras situações (inaugurações, visitas, nas comemorações da batalha de Lys e deposição de coroas de flores).
Se, nos primeiros anos que observei, há poucas temáticas e mais fotografias de acontecimentos imprevistos (acidentes de automóvel, tipo de transporte ainda pouco usual; prisão de suspeitos de assassínios) e insólito (o homem-macaco, em acrobacias e prostrado, denotando um ataque epiléptico; batatas de formato estranho), a partir de 1930 aparecem fotografias mais temáticas (profissões; exposições; fotografias da baixa lisboeta, com o Rossio à cabeça, mostrando o crescimento do parque de carros eléctricos e de automóveis, ou, já em 1934, o edifício do Instituto Nacional de Estatística, com campos em volta, sem se vislumbrar ainda o que é hoje a Praça de Londres), denotando leituras mais sociológicas.
OBRIGADO
Ontem, houve 100 (cem) visitantes a este blog, conforme os dados fornecidos pelo sítio extremetracking, em especial os onze visitantes mais assíduos, segundo o sítio bravenet. O meu muito obrigado pela preferência.
segunda-feira, 3 de maio de 2004
DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA
Comemora-se hoje o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data marca o aniversário da Declaração de Windhoek, uma declaração de princípios redigida por jornalistas africanos em 1991, que clamava por meios de comunicação sociais livres, independentes e pluralistas naquele continente e em todo mundo.
Este dia recorda os jornalistas mortos no cumprimento do seu dever profissional. Só no primeiro trimestre deste ano morreram 17 jornalistas. Em 2003, haviam falecido em serviço 36 jornalistas. Para a organização não governamental Freedom House, Portugal encontra-se em 18º lugar no ranking de países com mais liberdade de imprensa em 2003. O relatório avaliou meios da imprensa escrita, digital, radiofónica e televisiva, anotando casos graves na Rússia ou a Bolívia. Mas também refere a Itália, onde uma recentíssima lei do senado propôs um reforço do poder mediático do primeiro-ministro Berlusconi.
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - II PARTE
[continuação da mensagem de 29 de Abril]
Programação
Uma estação de televisão vive de programas que procuram alcançar o grande público. Muitos programas mantiveram-se durante anos, atestando o sucesso da sua fórmula; outros desapareceram rapidamente de cena. O objectivo deste ponto do artigo não é fazer o levantamento exaustivo dos programas ao longo dos dez anos de história da estação, mas fazer um retrato de alguns deles, bem como referir vários dos seus animadores, identificados com os programas.
Séries, telenovelas brasileiras, primeiro, e portuguesas, já no dobrar do século, concursos, talk-shows e reality-shows encontram-se entre as alavancas da programação que levaram à popularidade da SIC e ao seu contributo para a mudança do panorama audiovisual português. O formato das telenovelas brasileiras vinha já da RTP – basta lembrar o enorme sucesso que o canal público teve com Gabriela, do original de Jorge Amado. A SIC aproveitou a fórmula e, em especial, o contrato estabelecido com a estação brasileira Globo, que possuía um grande conhecimento do formato. Assim, não seria de admirar que, já em 1995, o programa mais visto fosse a telenovela A próxima vítima. Outras telenovelas de grande audiência seriam, ao longo da década, História de Amor, O Rei do Gado, A Indomada, Anjo Mau, Torre de Babel e Terra Nostra.
Várias fórmulas de programas fizeram fama, nomeadamente os de produção nacional, pelo que vale a pena debruçarmo-nos na análise de alguns deles. Um, o Ponto de Encontro seria a oportunidade de homens e mulheres contarem as suas histórias e reencontrarem familiares ou amigos, saindo de cena mais felizes e aliviados (Torres, 1998: 74). O povo que chorava e ria no momento do reencontro era bem tratado no talk-show, ao passo que Henrique Mendes se apagava no papel de entrevistador, o que conferia maior credibilidade às histórias dos convidados. Chuva de Estrelas foi um dos muitos programas emblemáticos da SIC, com apresentação sucessiva de Catarina Furtado e Bárbara Guimarães, dois dos mais conhecidos rostos femininos da estação de televisão. O desenrolar do concurso e a final do programa de cada ano tornaram-se uma festa popular, com detalhes específicos como imagens de mães a chorar, organização de claques e encenação das canções. Para além de apresentar os imitadores de canções internacionais conhecidas e em voga, o programa mostrava os bastidores – as pessoas por detrás dos cantores, as suas vidas, sonhos e projectos. Este lado preenchia um dos objectivos essenciais do canal: emocionar os telespectadores fazia parte do enquadramento social e popular de concursos e reality shows. A cantora Sara Tavares foi uma das grandes revelações do concurso.
Um programa que despertou discussão pública foi A Máquina da Verdade (1995). A polémica chegou logo no primeiro episódio, com o padre Frederico, então suspeito de associação a um escândalo sexual e à morte de um jovem seu protegido. No programa usava-se um detector de mentiras, levando o telespectador a acreditar nas reacções físicas dadas pela máquina. O assunto foi logo discutido na Assembleia da República. Do mesmo modo, a polémica instalou-se em A Cadeira do Poder (1997), animado por Artur Albarran. A primeira emissão referiu-se a um acidente que envolvia um secretário de Estado da Juventude. O Conselho de Ministros discutiu a emissão durante uma hora de reunião!
O desporto e a sua crítica conheceram êxito em Os Donos da Bola, o primeiro talk-show desportivo em directo na televisão, corria o ano de 1994. O programa assumiu uma postura anti-F. C. Porto, na altura em que o clube ganhara vários campeonatos de futebol seguidos. Data também desse período a relação entre SIC e Benfica, primeiro com a chegada ao poder de Manuel Damásio (1994), e, depois, em 1997, com a promoção e presidência de Vale e Azevedo. O entendimento passaria pela transmissão de desafios do Benfica no canal privado, retirando à RTP o monopólio no domínio do futebol. A SIC ligou-se ainda ao Sporting, ao patrocinar as camisolas da sua equipa de futebol sénior, em 1995.
Além da transmissão de acontecimentos desportivos, também as actividades musicais e as ligadas à moda fizeram parte dos objectivos da SIC nos anos de crescimento (1992-1994) e liderança (1995-1998). O canal esteve na Volta a Portugal em Bicicleta, no Rally de Portugal e transmitiu as marchas populares de Lisboa, quando a entidade organizadora – a Câmara Municipal – decidiu pôr a transmissão a concurso, bem como a festa das Noivas de Santo António (1996 em diante). Em 1997, a SIC gravou os espectáculos Aida, Pedro Abrunhosa e Delfins e, em 1998, produziu e realizou dois eventos mundiais que circularam em várias estações do mundo - Super Model of the World e Mister World – e transmitiu a Cimeira Ibero-Americana. Beleza e moda foram duas áreas de sucesso na SIC. Os concursos de misses atingiram grandes audiências. Também o mundo das vedetas do cinema e da música internacional tiveram cobertura por parte da programação da SIC. Felipa Garnel e Paulo Pires, aos sábados em horário nobre, apresentaram o programa Mundo VIP e entrevistaram Tom Cruise, Jodie Foster, Brian Adams, Woody Allen, Tina Turner e Michael Douglas, entre outros.
Como na informação, os programas de produção nacional produziram caras conhecidas do grande público. Algumas das mais notáveis estrelas da estação seriam Bárbara Guimarães, Catarina Furtado, Júlia Pinheiro, Fátima Lopes e Marina Mota. A sua notoriedade era visível no número de capas de jornais tablóides e revistas, em especial as de cor-de-rosa, com as fotografias e as histórias da intimidade das vedetas. Henrique Mendes, um outro rosto conhecido da SIC, fora estrela da rádio e da televisão pública muito tempo antes. Júlia Pinheiro teve a seu cargo dois dos programas que atingiram a maior das popularidades na SIC: Praça Pública e A Noite da Má-Língua. Embora distintos nas abordagens, um e outro juntavam a crítica social ao humor corrosivo sobre as questões actuais. Da fase mais popular da SIC no período entre 1992 e 1999, destaco ainda o programa Na Cama Com…, protagonizado pela actriz Alexandra Lencastre, o qual recebeu comentários de todo o país, favoráveis ou negativos. O programa de Alexandra Lencastre era um conjunto de entrevistas em que a animadora do programa, sentada na cama e de pijama, conversava com o seu convidado.
O sucesso do formato levou a actriz ao programa Parabéns, de Herman José, ainda na RTP, a 11 de Junho de 1994, em que o mote seria o programa da SIC. Curiosamente, numa troca constante de galhardetes entre canal público e SIC, e envolvendo sempre o entertainer Herman José, este apareceria no programa de Miguel Sousa Tavares, 20 Anos, 20 Nomes (SIC), e Francisco Pinto Balsemão (SIC) seria o entrevistado de Herman José, no mesmo programa Parabéns, a 1 de Outubro de 1994.
A programação infantil, embora incipiente no começo das emissões (Traquina, 1997: 65), passou a ser cuidadosamente desenhada, dado o perfil dos espectadores mais assíduos – as crianças. O Buéréré, apresentado por Ana Marques, compunha-se de dois momentos: as séries de animação e a participação de crianças em jogos e passatempos. Outros programas de elevada audiência foram as séries estrangeiras de desenhos animados. Em 1996, Dragon Ball bateu o recorde de audiências, enquanto Power Rangers e o Homem Aranha conheciam também a fama. Apesar da má qualidade dos bonecos, dos diálogos e da narrativa, o êxito do Dragon Ball tornou-se alvo de múltiplos estudos. Dragon Ball foi uma série repleta de combates intermináveis, onde os heróis morrem e ressuscitam, e que provocou uma longa discussão na imprensa e na internet e teve campanhas massivas de marketing (Miranda, 2000: 67). As campanhas em torno das séries de desenhos animados incluíam o merchandising, área em que o canal apostou dada a popularidade dos “bonecos” junto dos jovens espectadores com poder de compra.
Por virtude do interesse por parte do Estado em promover o cinema português, a SIC celebrou um valioso acordo de cooperação com o ministério da Cultura e o IPACA (posterior ICAM). Neste pacote, negociou-se a produção e realização de filmes como Tentação, Mortinho por chegar a casa e Afirma Pereira. Já no decurso de 1998, a SIC entrava na produção da grande ficção em português, com a realização da série Médico de Família. Outras séries marcantes seriam a do Século XX Português, onde se mostrou a história do século no nosso país, e Capitão Roby.
Assinalo ainda a importância dos produtores. Um deles é a Endemol, empresa associada a concursos (Chuva de Estrelas) e reality-shows (o mais famoso seria o Big Brother, que a concorrente TVI comprou). Um produtor oriundo do Brasil, Ediberto Lima, esteve ligado a programas de grande audiência, tais como Big Show SIC, Roda dos Milhões e Buéréré. Mais tarde, com o insucesso e as críticas em torno do Bar da Televisão, deixaria a SIC, mas regressou em 2002. O sucesso destes produtos televisivos (concursos, talk-shows, reality-shows) interessa aos canais de televisão porque representa custos baixos face a outros formatos, como as reportagens de investigação ou as séries de ficção nacional. A questão de orçamentos curtos está também na elevada compra de filmes e séries americanos (enlatados), que preenchem muitas horas de programação de entretenimento dos canais comerciais como a SIC.
[continua]
Comemora-se hoje o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data marca o aniversário da Declaração de Windhoek, uma declaração de princípios redigida por jornalistas africanos em 1991, que clamava por meios de comunicação sociais livres, independentes e pluralistas naquele continente e em todo mundo.
Este dia recorda os jornalistas mortos no cumprimento do seu dever profissional. Só no primeiro trimestre deste ano morreram 17 jornalistas. Em 2003, haviam falecido em serviço 36 jornalistas. Para a organização não governamental Freedom House, Portugal encontra-se em 18º lugar no ranking de países com mais liberdade de imprensa em 2003. O relatório avaliou meios da imprensa escrita, digital, radiofónica e televisiva, anotando casos graves na Rússia ou a Bolívia. Mas também refere a Itália, onde uma recentíssima lei do senado propôs um reforço do poder mediático do primeiro-ministro Berlusconi.
DEZ ANOS DE HISTÓRIA DA SIC (1992-2002). O QUE MUDOU NO PANORAMA AUDIOVISUAL PORTUGUÊS - II PARTE
[continuação da mensagem de 29 de Abril]
Programação
Uma estação de televisão vive de programas que procuram alcançar o grande público. Muitos programas mantiveram-se durante anos, atestando o sucesso da sua fórmula; outros desapareceram rapidamente de cena. O objectivo deste ponto do artigo não é fazer o levantamento exaustivo dos programas ao longo dos dez anos de história da estação, mas fazer um retrato de alguns deles, bem como referir vários dos seus animadores, identificados com os programas.
Séries, telenovelas brasileiras, primeiro, e portuguesas, já no dobrar do século, concursos, talk-shows e reality-shows encontram-se entre as alavancas da programação que levaram à popularidade da SIC e ao seu contributo para a mudança do panorama audiovisual português. O formato das telenovelas brasileiras vinha já da RTP – basta lembrar o enorme sucesso que o canal público teve com Gabriela, do original de Jorge Amado. A SIC aproveitou a fórmula e, em especial, o contrato estabelecido com a estação brasileira Globo, que possuía um grande conhecimento do formato. Assim, não seria de admirar que, já em 1995, o programa mais visto fosse a telenovela A próxima vítima. Outras telenovelas de grande audiência seriam, ao longo da década, História de Amor, O Rei do Gado, A Indomada, Anjo Mau, Torre de Babel e Terra Nostra.
Várias fórmulas de programas fizeram fama, nomeadamente os de produção nacional, pelo que vale a pena debruçarmo-nos na análise de alguns deles. Um, o Ponto de Encontro seria a oportunidade de homens e mulheres contarem as suas histórias e reencontrarem familiares ou amigos, saindo de cena mais felizes e aliviados (Torres, 1998: 74). O povo que chorava e ria no momento do reencontro era bem tratado no talk-show, ao passo que Henrique Mendes se apagava no papel de entrevistador, o que conferia maior credibilidade às histórias dos convidados. Chuva de Estrelas foi um dos muitos programas emblemáticos da SIC, com apresentação sucessiva de Catarina Furtado e Bárbara Guimarães, dois dos mais conhecidos rostos femininos da estação de televisão. O desenrolar do concurso e a final do programa de cada ano tornaram-se uma festa popular, com detalhes específicos como imagens de mães a chorar, organização de claques e encenação das canções. Para além de apresentar os imitadores de canções internacionais conhecidas e em voga, o programa mostrava os bastidores – as pessoas por detrás dos cantores, as suas vidas, sonhos e projectos. Este lado preenchia um dos objectivos essenciais do canal: emocionar os telespectadores fazia parte do enquadramento social e popular de concursos e reality shows. A cantora Sara Tavares foi uma das grandes revelações do concurso.
Um programa que despertou discussão pública foi A Máquina da Verdade (1995). A polémica chegou logo no primeiro episódio, com o padre Frederico, então suspeito de associação a um escândalo sexual e à morte de um jovem seu protegido. No programa usava-se um detector de mentiras, levando o telespectador a acreditar nas reacções físicas dadas pela máquina. O assunto foi logo discutido na Assembleia da República. Do mesmo modo, a polémica instalou-se em A Cadeira do Poder (1997), animado por Artur Albarran. A primeira emissão referiu-se a um acidente que envolvia um secretário de Estado da Juventude. O Conselho de Ministros discutiu a emissão durante uma hora de reunião!
O desporto e a sua crítica conheceram êxito em Os Donos da Bola, o primeiro talk-show desportivo em directo na televisão, corria o ano de 1994. O programa assumiu uma postura anti-F. C. Porto, na altura em que o clube ganhara vários campeonatos de futebol seguidos. Data também desse período a relação entre SIC e Benfica, primeiro com a chegada ao poder de Manuel Damásio (1994), e, depois, em 1997, com a promoção e presidência de Vale e Azevedo. O entendimento passaria pela transmissão de desafios do Benfica no canal privado, retirando à RTP o monopólio no domínio do futebol. A SIC ligou-se ainda ao Sporting, ao patrocinar as camisolas da sua equipa de futebol sénior, em 1995.
Além da transmissão de acontecimentos desportivos, também as actividades musicais e as ligadas à moda fizeram parte dos objectivos da SIC nos anos de crescimento (1992-1994) e liderança (1995-1998). O canal esteve na Volta a Portugal em Bicicleta, no Rally de Portugal e transmitiu as marchas populares de Lisboa, quando a entidade organizadora – a Câmara Municipal – decidiu pôr a transmissão a concurso, bem como a festa das Noivas de Santo António (1996 em diante). Em 1997, a SIC gravou os espectáculos Aida, Pedro Abrunhosa e Delfins e, em 1998, produziu e realizou dois eventos mundiais que circularam em várias estações do mundo - Super Model of the World e Mister World – e transmitiu a Cimeira Ibero-Americana. Beleza e moda foram duas áreas de sucesso na SIC. Os concursos de misses atingiram grandes audiências. Também o mundo das vedetas do cinema e da música internacional tiveram cobertura por parte da programação da SIC. Felipa Garnel e Paulo Pires, aos sábados em horário nobre, apresentaram o programa Mundo VIP e entrevistaram Tom Cruise, Jodie Foster, Brian Adams, Woody Allen, Tina Turner e Michael Douglas, entre outros.
Como na informação, os programas de produção nacional produziram caras conhecidas do grande público. Algumas das mais notáveis estrelas da estação seriam Bárbara Guimarães, Catarina Furtado, Júlia Pinheiro, Fátima Lopes e Marina Mota. A sua notoriedade era visível no número de capas de jornais tablóides e revistas, em especial as de cor-de-rosa, com as fotografias e as histórias da intimidade das vedetas. Henrique Mendes, um outro rosto conhecido da SIC, fora estrela da rádio e da televisão pública muito tempo antes. Júlia Pinheiro teve a seu cargo dois dos programas que atingiram a maior das popularidades na SIC: Praça Pública e A Noite da Má-Língua. Embora distintos nas abordagens, um e outro juntavam a crítica social ao humor corrosivo sobre as questões actuais. Da fase mais popular da SIC no período entre 1992 e 1999, destaco ainda o programa Na Cama Com…, protagonizado pela actriz Alexandra Lencastre, o qual recebeu comentários de todo o país, favoráveis ou negativos. O programa de Alexandra Lencastre era um conjunto de entrevistas em que a animadora do programa, sentada na cama e de pijama, conversava com o seu convidado.
O sucesso do formato levou a actriz ao programa Parabéns, de Herman José, ainda na RTP, a 11 de Junho de 1994, em que o mote seria o programa da SIC. Curiosamente, numa troca constante de galhardetes entre canal público e SIC, e envolvendo sempre o entertainer Herman José, este apareceria no programa de Miguel Sousa Tavares, 20 Anos, 20 Nomes (SIC), e Francisco Pinto Balsemão (SIC) seria o entrevistado de Herman José, no mesmo programa Parabéns, a 1 de Outubro de 1994.
A programação infantil, embora incipiente no começo das emissões (Traquina, 1997: 65), passou a ser cuidadosamente desenhada, dado o perfil dos espectadores mais assíduos – as crianças. O Buéréré, apresentado por Ana Marques, compunha-se de dois momentos: as séries de animação e a participação de crianças em jogos e passatempos. Outros programas de elevada audiência foram as séries estrangeiras de desenhos animados. Em 1996, Dragon Ball bateu o recorde de audiências, enquanto Power Rangers e o Homem Aranha conheciam também a fama. Apesar da má qualidade dos bonecos, dos diálogos e da narrativa, o êxito do Dragon Ball tornou-se alvo de múltiplos estudos. Dragon Ball foi uma série repleta de combates intermináveis, onde os heróis morrem e ressuscitam, e que provocou uma longa discussão na imprensa e na internet e teve campanhas massivas de marketing (Miranda, 2000: 67). As campanhas em torno das séries de desenhos animados incluíam o merchandising, área em que o canal apostou dada a popularidade dos “bonecos” junto dos jovens espectadores com poder de compra.
Por virtude do interesse por parte do Estado em promover o cinema português, a SIC celebrou um valioso acordo de cooperação com o ministério da Cultura e o IPACA (posterior ICAM). Neste pacote, negociou-se a produção e realização de filmes como Tentação, Mortinho por chegar a casa e Afirma Pereira. Já no decurso de 1998, a SIC entrava na produção da grande ficção em português, com a realização da série Médico de Família. Outras séries marcantes seriam a do Século XX Português, onde se mostrou a história do século no nosso país, e Capitão Roby.
Assinalo ainda a importância dos produtores. Um deles é a Endemol, empresa associada a concursos (Chuva de Estrelas) e reality-shows (o mais famoso seria o Big Brother, que a concorrente TVI comprou). Um produtor oriundo do Brasil, Ediberto Lima, esteve ligado a programas de grande audiência, tais como Big Show SIC, Roda dos Milhões e Buéréré. Mais tarde, com o insucesso e as críticas em torno do Bar da Televisão, deixaria a SIC, mas regressou em 2002. O sucesso destes produtos televisivos (concursos, talk-shows, reality-shows) interessa aos canais de televisão porque representa custos baixos face a outros formatos, como as reportagens de investigação ou as séries de ficção nacional. A questão de orçamentos curtos está também na elevada compra de filmes e séries americanos (enlatados), que preenchem muitas horas de programação de entretenimento dos canais comerciais como a SIC.
[continua]
domingo, 2 de maio de 2004
ENCONTRO DE BLOGUISTAS EM VILA NOVA DE GAIA
Compareceram 36 blogistas e acompanhantes, perfazendo um total de 53 comensais. Foi um almoço-confraternização que decorreu durante cerca de cinco horas e onde falámos desta paixão comum que são os blogues - como apareceram, como nos envolvemos e como vai ser o futuro deles. Para além do almoço, eu aproveitei para tomar umas notas e fazer um pequeno inquérito, procurando saber a data de início do blogue, o tema, a idade do bloguista, a profissão e a média de mensagens semanais.
Mini-inquérito
Da recolha do inquérito, tenho os seguintes dados:
Data de início da actividade do blogue: 1º trimestre de 2003 - 1; 2º trimestre de 2003 - 4; 3º trimestre de 2003 - 14, 4º trimestre de 2003 - 9; 1º trimestre de 2004 - 8. Os meses de maior actividade foram Julho (7 novos blogues) e Agosto (6 novos blogues). Dos bloguistas presentes no almoço, o arranque desta actividade centra-se em especial na segunda metade do ano passado, e nos meses considerados de férias, o que demonstra a atitude de reservar os tempos livres para uma nova actividade. A sua durabilidade é já uma prova de empenho e resistência.
Áreas temáticas: generalidades - 17; literatura e cultura - 4; actualidades - 2; rádio, política, associativismo por uma causa social, tema quente, viagens, conhecimento, vida quotidiana, astronomia, jogos de palavras, desenhos animados, sobre o absurdo das coisas, enfermagem, direito à paisagem (um blogue cada por área temática). Notas: a área que eu designei por tema quente tinha uma expressão hard, que não posso aqui reproduzir; a área classificada como viagens é a de um bloguista que conta as histórias das suas deslocações profissionais em camião pela Europa. De outro modo, podia classificar em 17 blogues generalistas e 19 especialistas. Destes, quero salientar um profissional (enfermagem) e outro associativo e de apoio social, o blogue dedicado à causa dos cidadãos auto-mobilizados.
Idade dos bloguistas: até aos 25 anos - 4; dos 26 aos 35 anos - 17; dos 36 aos 45 anos - 10; acima dos 46 anos - 4; N/R - 1. Notas: um dos bloguistas tem 7 anos; de um blogue colectivo, a que responderam duas bloguistas, considerei a média etária. No encontro, esteve mais bem representada a classe etária dos 26 aos 35 anos (47,2%), seguindo-se a do nível etário 36-45 anos (27,8%).
Concelho em que residem os bloguistas: Porto - 11; Lisboa - 8; Braga - 4; Vila Nova de Gaia - 3; Alcanena, Castelo de Paiva, Caldas da Raínha, Coimbra, Leiria, Matosinhos, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Noruega [país onde reside o profissional de transportes] (um blogue por concelho). Dado que o encontro se realizou em Vila Nova de Gaia, houve um número mais significativo de participantes dessa zona do país. Contudo, se contarmos os participantes de Coimbra para sul, incluindo esta cidade, houve 12 participantes, que corresponde a um terço do total.
Média semanal das mensagens: de uma a três - 5; de quatro a cinco - 9; de seis a dez - 12; de onze a vinte - 7; mais de vinte - 1; NS/NR - 2. O(a) blogista que produz mais de vinte mensagens por semana só escreveu 1250 mensagens nos primeiros quatro meses do ano (121 dias), isto é, uma média de 10,3 mensagens por dia! Terei feito bem as contas?
Profissões/actividades: como o inquérito teve uma base muito informal, coloquei perguntas fechadas e sem opções, com um campo de respostas menos bem definido. Por isso, fica aqui um retrato aproximado (num outro inquérito procurarei ser mais rigoroso): profissões de grande exigência científica (medicina, engenharia, arquitectura, etc.) - 8; professores - 8; empresários e gestores - 4; quadros superiores e técnicos - 3; estudantes - 3; transportes - 2; arte e música - 2; empregados qualificados - 2; empregados - 2; jornalista - 1; reformado - 1.
Elementos qualitativos constantes na coluna de "observações": os blogues como defesa da desintermediação [por oposição à intermediação jornalística], partilha enquanto acto livre e fuga à vida solitária. Um dos respondentes ao inquérito anotou que apagou todas as mensagens devido à perda de anonimato que imprimira ao seu blogue, embora equacione retomar a actividade em breve.
Das notas que tomei, como se fosse antropólogo
Alguns dos blogues presentes têm e defendem a existência de linha editorial, de modo aproximado a um outro meio de comunicação. Mas com outros princípios, como aceitar a crítica vinda dos comentários dos internautas e não falar da vida íntima. Para outros dos presentes, o blogue exerce uma função terapêutica e opera num domínio de sofisticação, pois a mensagem que se coloca neste diário é simultaneamente privada e pública, o que obriga a uma elaboração mais elevada. Uma das bloguistas falou da angústia em não ter tempo de escrever um dado dia, quando descobriu que 600 internautas procuraram o seu blogue nesse mesmo dia. Até parece, pois, um vício: o blogue tem uma função de descompressão, mas a pressão dos que procuram o blogue acaba por "obrigar" a uma maior produção de mensagens. Outro bloguista mostrava o seu contentamento pela descoberta de um mundo diferente para além daquele que ele conhecia. Isto é, há uma realidade mais variada do que aquela que julgamos existir.
O que impressionou a todos(as) foi o à-vontade que manifestaram desde o primeiro momento, como se houvesse um conhecimento prévio uns dos outros. Dizia um dos presentes que ali se entenderiam em matéria política, desportiva ou filosófica, cabendo todos os estratos sociais e profissionais, dando exemplos concretos de bloguistas ali presentes. É que a blogosfera ilustra a capacidade humana de comunicar, com abolição de fronteiras como as do tipo que referi acima (o clube ou a tendência individual para...). E contaram-se muitas histórias de blogues, como os das mães que escrevem o dia-a-dia com os filhos, a sua alimentação, os seus problemas, como se contaram as histórias dos jornalistas do Primeiro de Janeiro recentemente despedidos por criarem um blogue criticando a situação interna da redacção e das chefias. E de outro blogue de uma desempregada que narrava as entrevistas que ia obtendo para arranjar emprego, até que o conseguiu e encerrou o blogue.
Além disso, o blogue é um meio alternativo, não restringido pelo filtro do editor de um meio profissional de comunicação [o gatekeeper, como se aprende em teoria do jornalismo]. É certo que o bloguista faz uma selecção do material que edita, mas não está sujeito a culturas e políticas de redacção, que passam também por critérios económicos. O bloguista tem liberdade total para falar dos seus gostos e preferências, sem limite de espaço. Ser lido ou não é outro problema, mas não está sujeito às leis do mercado e das audiências e vendas.
Resumindo, o que apurei está longe de ser uma amostra representativa dos bloguistas nacionais, mas tão só dos que estiveram em Vila Nova de Gaia. Por outro lado, a blogosfera ali presente (e toda a ausente) significa um tipo diferente de comunidade [ou tribo, como lhe chamo] em constante dinamismo, que se configura e reconfigura (isto é, muda de forma), com laços e afectos humanos cada vez maiores. A convidar a ler ou reler Manuel Castells.
O meu obrigado ao Orlando Braga pela organização, ao Jorge Guimarães Silva pelas boleias (de funicular e de táxi) e a todos pelos prazer da conversa e por terem respondido amavelmente ao meu inquérito.
[com intervalos, conclui esta mensagem às 20:00]
INVESTIMENTO PUBLICITÁRIO
Do Expresso de ontem, retirei a informação respeitante aos investimentos publicitários no primeiro trimestre de 2004, obtida a partir dos relatórios das empresas mediáticas. Assim, a Impresa (a que o Expresso, a Visão e a SIC pertencem) teve €37,758 milhões (aumento de 17,6%), a Media Capital (a que pertencem a TVI e a Rádio Comercial) teve €32,449 milhões (aumento de 7,7%), a Lusomundo (a que pertencem o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, o 24 Horas e a TSF) teve €16,4 milhões (aumento de 2,3%), a RTP teve €11,7 milhões (mais 17%), a Investec (Correio da Manhã e Record) teve €11,178 milhões (aumento de 15,2%), a TV Cabo teve €3,9 milhões (mais 39,3%) e o Público teve €3,559 milhões (perda de 1,2%). Exceptuando este jornal, do grupo Sonae, o comportamento dos outros grupos foi bom, tendo alguns subido bastante em termos de investimento publicitário, o que pode indiciar - como já escrevi aqui - a retoma económica. Nota: sobre as variações percentuais não sei se se referem ao trimestre anterior ou a período homólogo de 2003.
MUSEU DA RÁDIO EM PERIGO
Noticiou o Público de ontem que o Museu da Rádio está em perigo. Isto porque poderá perder a sua autonomia (pertencia à RDP) ao passar para o Museu das Comunicações. A administração da RTP (Rádio e Televisão de Portugal) - que aglutina as anteriores RDP e RTP (rádio e televisão públicas) - terá transmitido aos funcionários do Museu da Rádio a intenção de dividir a colecção do museu em quatro grupos: peças consideradas para exposição; fundo de reserva; peças alienáveis; venda para sucata.
Se a notícia tem veracidade, trata-se de uma atitude lesiva de enorme gravidade. O museu da Rádio é um espólio magnífico e parece-me incrível considerar peças alienáveis e para a sucata. Quem conhece o museu sabe que tal posição é estranha. Basta percorrer todas as salas do museu para ficar arrepiado com a ideia de deitar fora seja o que for.
Claro que, desde há muito tempo, se vem falando desta passagem para o museu a cargo da Fundação Portuguesa das Comunicações, que a peça jornalística assinada por Clara Teixeira nunca enuncia. A meu ver, há duas posições: a de se manter o acervo museológico da rádio nas mãos da RTP; a de integrar esse espólio na Fundação Portuguesa das Comunicações. Ambas as posições representam ameaças e oportunidades. Ameaça, porque a rádio se integrará num corpo mais vasto de conhecimento e perde, por isso, a sua identificação total; oportunidade, porque a Fundação terá boas condições para acolher as peças, os equipamentos e tudo que reside na rua do Quelhas. A Fundação Portuguesa das Comunicações tem a seu cargo um património de valor incalculável no domínio das telecomunicações, sendo que parte (chamemos-lhe reserva) se encontra num edifício da rua Visconde de Santarém. E tem um arquivo de comunicações que o Museu da Rádio não tem quanto à rádio. Digo isto porque o meu livro Olhos de boneca (Colibri, 1999), sobre telecomunicações, se baseou em muita da informação existente no arquivo documental e fotográfico da Fundação, e porque os textos que publiquei sobre rádio (revistas Observatório, Jornalismo e Jornalistas e Media & Jornalismo) partiram de algumas pastas de arquivo sobre rádio existente na Fundação.
Por mim, ficarei ansiosamente à espera de não ver confirmadas as suspeitas levantadas por esta notícia. E associarei a minha modesta voz para que se impeça tal risco. E sei que os blogues da rádio também o farão.
NO BRASIL, REGRESSA A FORÇA DA GLOBO
Vem hoje no jornal Folha de São Paulo que a rede de televisão Globo, após uma fase difícil, está a conseguir sucesso simultâneo com três novelas no Brasil. Assinado por Laura Mattos, a peça informa que a “direcção da TV Globo está andando nas nuvens”. É que as três fazem grande sucesso em termos de audiência, de acordo com os estudos do Ibope. Elas são exactamente Celebridade, Da cor do pecado e Chocolate com pimenta, que os telespectadores portugueses estão a acompanhar na SIC, e põe por agora fim às “discussões sobre um possível esgotamento dos folhetins”. O tema, apoiado pela expansão dos reality shows, “chegou a ser debatido em reuniões de autores da emissora”, de acordo com a jornalista.
Por exemplo, a novela Da cor do pecado tem a primeira protagonista negra da história da Globo, o que fez as pazes com os direitos humanos. Até agora (80 capítulos), a telenovela regista 41 pontos de média. Escreve ainda a jornalista que a telenovela “tem edição moderna, humor e núcleo teen. Mas o eixo é o folhetim, com amores e desencontros”. E considera-se que a Globo não tem concorrência sólida, mas tão só sucessos pontuais, como o Ratinho e os policiais. Com Laura Mattos a citar um publicitário que diz que o erro de alguns canais tem sido não manterem a programação durante uma crise: "A Globo manteve as novelas até a má fase passar, um bom sinal para o mercado e o espectador" (dica de Daniela Bertocchi, do blogue Intermezzo, a quem agradeço).
[texto concluido às 21:35]
Compareceram 36 blogistas e acompanhantes, perfazendo um total de 53 comensais. Foi um almoço-confraternização que decorreu durante cerca de cinco horas e onde falámos desta paixão comum que são os blogues - como apareceram, como nos envolvemos e como vai ser o futuro deles. Para além do almoço, eu aproveitei para tomar umas notas e fazer um pequeno inquérito, procurando saber a data de início do blogue, o tema, a idade do bloguista, a profissão e a média de mensagens semanais.
Mini-inquérito
Da recolha do inquérito, tenho os seguintes dados:
Data de início da actividade do blogue: 1º trimestre de 2003 - 1; 2º trimestre de 2003 - 4; 3º trimestre de 2003 - 14, 4º trimestre de 2003 - 9; 1º trimestre de 2004 - 8. Os meses de maior actividade foram Julho (7 novos blogues) e Agosto (6 novos blogues). Dos bloguistas presentes no almoço, o arranque desta actividade centra-se em especial na segunda metade do ano passado, e nos meses considerados de férias, o que demonstra a atitude de reservar os tempos livres para uma nova actividade. A sua durabilidade é já uma prova de empenho e resistência.
Áreas temáticas: generalidades - 17; literatura e cultura - 4; actualidades - 2; rádio, política, associativismo por uma causa social, tema quente, viagens, conhecimento, vida quotidiana, astronomia, jogos de palavras, desenhos animados, sobre o absurdo das coisas, enfermagem, direito à paisagem (um blogue cada por área temática). Notas: a área que eu designei por tema quente tinha uma expressão hard, que não posso aqui reproduzir; a área classificada como viagens é a de um bloguista que conta as histórias das suas deslocações profissionais em camião pela Europa. De outro modo, podia classificar em 17 blogues generalistas e 19 especialistas. Destes, quero salientar um profissional (enfermagem) e outro associativo e de apoio social, o blogue dedicado à causa dos cidadãos auto-mobilizados.
Idade dos bloguistas: até aos 25 anos - 4; dos 26 aos 35 anos - 17; dos 36 aos 45 anos - 10; acima dos 46 anos - 4; N/R - 1. Notas: um dos bloguistas tem 7 anos; de um blogue colectivo, a que responderam duas bloguistas, considerei a média etária. No encontro, esteve mais bem representada a classe etária dos 26 aos 35 anos (47,2%), seguindo-se a do nível etário 36-45 anos (27,8%).
Concelho em que residem os bloguistas: Porto - 11; Lisboa - 8; Braga - 4; Vila Nova de Gaia - 3; Alcanena, Castelo de Paiva, Caldas da Raínha, Coimbra, Leiria, Matosinhos, Santa Maria da Feira, São João da Madeira, Noruega [país onde reside o profissional de transportes] (um blogue por concelho). Dado que o encontro se realizou em Vila Nova de Gaia, houve um número mais significativo de participantes dessa zona do país. Contudo, se contarmos os participantes de Coimbra para sul, incluindo esta cidade, houve 12 participantes, que corresponde a um terço do total.
Média semanal das mensagens: de uma a três - 5; de quatro a cinco - 9; de seis a dez - 12; de onze a vinte - 7; mais de vinte - 1; NS/NR - 2. O(a) blogista que produz mais de vinte mensagens por semana só escreveu 1250 mensagens nos primeiros quatro meses do ano (121 dias), isto é, uma média de 10,3 mensagens por dia! Terei feito bem as contas?
Profissões/actividades: como o inquérito teve uma base muito informal, coloquei perguntas fechadas e sem opções, com um campo de respostas menos bem definido. Por isso, fica aqui um retrato aproximado (num outro inquérito procurarei ser mais rigoroso): profissões de grande exigência científica (medicina, engenharia, arquitectura, etc.) - 8; professores - 8; empresários e gestores - 4; quadros superiores e técnicos - 3; estudantes - 3; transportes - 2; arte e música - 2; empregados qualificados - 2; empregados - 2; jornalista - 1; reformado - 1.
Elementos qualitativos constantes na coluna de "observações": os blogues como defesa da desintermediação [por oposição à intermediação jornalística], partilha enquanto acto livre e fuga à vida solitária. Um dos respondentes ao inquérito anotou que apagou todas as mensagens devido à perda de anonimato que imprimira ao seu blogue, embora equacione retomar a actividade em breve.
Das notas que tomei, como se fosse antropólogo
Alguns dos blogues presentes têm e defendem a existência de linha editorial, de modo aproximado a um outro meio de comunicação. Mas com outros princípios, como aceitar a crítica vinda dos comentários dos internautas e não falar da vida íntima. Para outros dos presentes, o blogue exerce uma função terapêutica e opera num domínio de sofisticação, pois a mensagem que se coloca neste diário é simultaneamente privada e pública, o que obriga a uma elaboração mais elevada. Uma das bloguistas falou da angústia em não ter tempo de escrever um dado dia, quando descobriu que 600 internautas procuraram o seu blogue nesse mesmo dia. Até parece, pois, um vício: o blogue tem uma função de descompressão, mas a pressão dos que procuram o blogue acaba por "obrigar" a uma maior produção de mensagens. Outro bloguista mostrava o seu contentamento pela descoberta de um mundo diferente para além daquele que ele conhecia. Isto é, há uma realidade mais variada do que aquela que julgamos existir.
O que impressionou a todos(as) foi o à-vontade que manifestaram desde o primeiro momento, como se houvesse um conhecimento prévio uns dos outros. Dizia um dos presentes que ali se entenderiam em matéria política, desportiva ou filosófica, cabendo todos os estratos sociais e profissionais, dando exemplos concretos de bloguistas ali presentes. É que a blogosfera ilustra a capacidade humana de comunicar, com abolição de fronteiras como as do tipo que referi acima (o clube ou a tendência individual para...). E contaram-se muitas histórias de blogues, como os das mães que escrevem o dia-a-dia com os filhos, a sua alimentação, os seus problemas, como se contaram as histórias dos jornalistas do Primeiro de Janeiro recentemente despedidos por criarem um blogue criticando a situação interna da redacção e das chefias. E de outro blogue de uma desempregada que narrava as entrevistas que ia obtendo para arranjar emprego, até que o conseguiu e encerrou o blogue.
Além disso, o blogue é um meio alternativo, não restringido pelo filtro do editor de um meio profissional de comunicação [o gatekeeper, como se aprende em teoria do jornalismo]. É certo que o bloguista faz uma selecção do material que edita, mas não está sujeito a culturas e políticas de redacção, que passam também por critérios económicos. O bloguista tem liberdade total para falar dos seus gostos e preferências, sem limite de espaço. Ser lido ou não é outro problema, mas não está sujeito às leis do mercado e das audiências e vendas.
Resumindo, o que apurei está longe de ser uma amostra representativa dos bloguistas nacionais, mas tão só dos que estiveram em Vila Nova de Gaia. Por outro lado, a blogosfera ali presente (e toda a ausente) significa um tipo diferente de comunidade [ou tribo, como lhe chamo] em constante dinamismo, que se configura e reconfigura (isto é, muda de forma), com laços e afectos humanos cada vez maiores. A convidar a ler ou reler Manuel Castells.
O meu obrigado ao Orlando Braga pela organização, ao Jorge Guimarães Silva pelas boleias (de funicular e de táxi) e a todos pelos prazer da conversa e por terem respondido amavelmente ao meu inquérito.
[com intervalos, conclui esta mensagem às 20:00]
INVESTIMENTO PUBLICITÁRIO
Do Expresso de ontem, retirei a informação respeitante aos investimentos publicitários no primeiro trimestre de 2004, obtida a partir dos relatórios das empresas mediáticas. Assim, a Impresa (a que o Expresso, a Visão e a SIC pertencem) teve €37,758 milhões (aumento de 17,6%), a Media Capital (a que pertencem a TVI e a Rádio Comercial) teve €32,449 milhões (aumento de 7,7%), a Lusomundo (a que pertencem o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, o 24 Horas e a TSF) teve €16,4 milhões (aumento de 2,3%), a RTP teve €11,7 milhões (mais 17%), a Investec (Correio da Manhã e Record) teve €11,178 milhões (aumento de 15,2%), a TV Cabo teve €3,9 milhões (mais 39,3%) e o Público teve €3,559 milhões (perda de 1,2%). Exceptuando este jornal, do grupo Sonae, o comportamento dos outros grupos foi bom, tendo alguns subido bastante em termos de investimento publicitário, o que pode indiciar - como já escrevi aqui - a retoma económica. Nota: sobre as variações percentuais não sei se se referem ao trimestre anterior ou a período homólogo de 2003.
MUSEU DA RÁDIO EM PERIGO
Noticiou o Público de ontem que o Museu da Rádio está em perigo. Isto porque poderá perder a sua autonomia (pertencia à RDP) ao passar para o Museu das Comunicações. A administração da RTP (Rádio e Televisão de Portugal) - que aglutina as anteriores RDP e RTP (rádio e televisão públicas) - terá transmitido aos funcionários do Museu da Rádio a intenção de dividir a colecção do museu em quatro grupos: peças consideradas para exposição; fundo de reserva; peças alienáveis; venda para sucata.
Se a notícia tem veracidade, trata-se de uma atitude lesiva de enorme gravidade. O museu da Rádio é um espólio magnífico e parece-me incrível considerar peças alienáveis e para a sucata. Quem conhece o museu sabe que tal posição é estranha. Basta percorrer todas as salas do museu para ficar arrepiado com a ideia de deitar fora seja o que for.
Claro que, desde há muito tempo, se vem falando desta passagem para o museu a cargo da Fundação Portuguesa das Comunicações, que a peça jornalística assinada por Clara Teixeira nunca enuncia. A meu ver, há duas posições: a de se manter o acervo museológico da rádio nas mãos da RTP; a de integrar esse espólio na Fundação Portuguesa das Comunicações. Ambas as posições representam ameaças e oportunidades. Ameaça, porque a rádio se integrará num corpo mais vasto de conhecimento e perde, por isso, a sua identificação total; oportunidade, porque a Fundação terá boas condições para acolher as peças, os equipamentos e tudo que reside na rua do Quelhas. A Fundação Portuguesa das Comunicações tem a seu cargo um património de valor incalculável no domínio das telecomunicações, sendo que parte (chamemos-lhe reserva) se encontra num edifício da rua Visconde de Santarém. E tem um arquivo de comunicações que o Museu da Rádio não tem quanto à rádio. Digo isto porque o meu livro Olhos de boneca (Colibri, 1999), sobre telecomunicações, se baseou em muita da informação existente no arquivo documental e fotográfico da Fundação, e porque os textos que publiquei sobre rádio (revistas Observatório, Jornalismo e Jornalistas e Media & Jornalismo) partiram de algumas pastas de arquivo sobre rádio existente na Fundação.
Por mim, ficarei ansiosamente à espera de não ver confirmadas as suspeitas levantadas por esta notícia. E associarei a minha modesta voz para que se impeça tal risco. E sei que os blogues da rádio também o farão.
NO BRASIL, REGRESSA A FORÇA DA GLOBO
Vem hoje no jornal Folha de São Paulo que a rede de televisão Globo, após uma fase difícil, está a conseguir sucesso simultâneo com três novelas no Brasil. Assinado por Laura Mattos, a peça informa que a “direcção da TV Globo está andando nas nuvens”. É que as três fazem grande sucesso em termos de audiência, de acordo com os estudos do Ibope. Elas são exactamente Celebridade, Da cor do pecado e Chocolate com pimenta, que os telespectadores portugueses estão a acompanhar na SIC, e põe por agora fim às “discussões sobre um possível esgotamento dos folhetins”. O tema, apoiado pela expansão dos reality shows, “chegou a ser debatido em reuniões de autores da emissora”, de acordo com a jornalista.
Por exemplo, a novela Da cor do pecado tem a primeira protagonista negra da história da Globo, o que fez as pazes com os direitos humanos. Até agora (80 capítulos), a telenovela regista 41 pontos de média. Escreve ainda a jornalista que a telenovela “tem edição moderna, humor e núcleo teen. Mas o eixo é o folhetim, com amores e desencontros”. E considera-se que a Globo não tem concorrência sólida, mas tão só sucessos pontuais, como o Ratinho e os policiais. Com Laura Mattos a citar um publicitário que diz que o erro de alguns canais tem sido não manterem a programação durante uma crise: "A Globo manteve as novelas até a má fase passar, um bom sinal para o mercado e o espectador" (dica de Daniela Bertocchi, do blogue Intermezzo, a quem agradeço).
[texto concluido às 21:35]
sábado, 1 de maio de 2004
ALMOÇO DE BLOGUISTAS
Hoje, vou ao Porto, para um almoço de bloguistas. Para voltar a ver a tribo da nova era electrónica. A última vez foi em Lisboa, no mercado da Ribeira, para apresentação do livro do Paulo Querido e Luís Ene. A primeira vez foi em Braga, num encontro na Universidade do Minho, em Setembro de 2003.
Depois, conto as minhas impressões.
Hoje, vou ao Porto, para um almoço de bloguistas. Para voltar a ver a tribo da nova era electrónica. A última vez foi em Lisboa, no mercado da Ribeira, para apresentação do livro do Paulo Querido e Luís Ene. A primeira vez foi em Braga, num encontro na Universidade do Minho, em Setembro de 2003.
Depois, conto as minhas impressões.
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