quinta-feira, 24 de junho de 2004

"Não Vá, Telefone" - publicidade e propaganda da APT nos anos de 1930

Passam hoje dez anos que a empresa Telefones de Lisboa e Porto (TLP) e outras empresas se fundiram para dar lugar à Portugal Telecom (PT). Na realidade, a nova empresa surgia a 24 de Junho de 1994, dia de S. João.

Durante perto de vinte anos trabalhei nessas duas empresas, na área profissional de comunicação e imagem (comunicação interna e contactos com a imprensa, nomeadamente). Como forma de recordar a mudança de designação empresarial, apresento aqui um texto que escrevi em 1989, integrado num pequeno livro Da telefonista à central digital, editado pela primeira daquelas empresas, e mais tarde reproduzido no livro Olhos de boneca, em 1999, publicado pela segunda das empresas, em edição da Colibri.

blogue10.JPGTrata-se de um texto sobre cartazes publicitários - e que acho que se enquadra nos objectivos deste blogue. Espero que gostem, nomeadamente de algumas das imagens, muitas delas redescobertas em revistas publicadas na época (anos de 1930). A empresa chamava-se então Anglo-Portuguese Telephone (APT), empresa de capitais ingleses designada carinhosamente por Companhia dos Telefones [agradeço a Daniela Bertocchi, do blogue brasileiro Intermezzo, o ter preparado e alocado as imagens num servidor próprio].

Uma publicidade moderna

Nos anos de 1930, a APT lançou uma intensa campanha promocional célebre pela frase “Não vá… senão de telefone”, enquadrando um dos mais significativos cartazes de então, pertencente ao artista plástico Cunha Barros. Editaram-se livros, panfletos e artigos, promoveram-se concursos e exposições, organizaram-se montras comerciais dos edifícios da companhia para expor equipamentos e material de promoção. Utilizando meios e técnicas recentes, a publicidade da época produziu elegantes textos e imagens, tendo ficado na memória alguns desses trabalhos, pela sua elevada qualidade.

Por detrás do esforço publicitário e de propaganda, encontrava-se a necessidade de expandir a rede de telecomunicações e tornar o telefone um serviço comum. A APT saíra reforçada do contrato estabelecido em 1928 com o Estado e preparara a transição do sistema de pagamento de uma tarifa fixa e anual para um sistema de preços por chamada. A automatização e novos serviços (despertar, hora exacta, uso de linhas telefónicas para a transmissão directa de acontecimentos para a rádio) prestavam-se à recente mobilidade social e ao aparecimento de novas zonas residenciais e locais de emprego e lazer, fazendo do telefone um instrumento cada vez mais útil no contacto entre as pessoas.

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Apesar de mais justo, pagando o serviço de acordo com o volume de tráfego telefónico gerado, a alteração do sistema tarifário introduziu um agravamento de preços. O processo de harmonização decorreu ao longo de dez anos, período onde se processaram ataques violentos em artigos de jornais, veiculados por jornalistas e líderes de opinião. O mesmo sistema também entrou em vigor nas redes dos CTT mas com impacto amortecido, dado ter sido adoptado mais tarde e desencadeado em áreas de menor reivindicação social que Lisboa ou Porto.

Os anos que decorreram até ao final da década de 1930 representaram o período de ouro na publicidade da APT. Embora não conseguindo a pretendida massificação do telefone – dado o fraco poder de compra e as consequências indirectas da segunda guerra, tendo de esperar pelas duas décadas seguintes, quando se alcançou o telefone cem mil (1950) –, as campanhas de comunicação pública nunca mais tiveram o rigor, a imaginação e a criatividade das desenhadas naquela década.

Um outro aspecto a salientar reside na articulação dos interesses da companhia com as políticas governamentais. A situação económica do país melhorara desde 1923, mas a instabilidade militar e política manteve-se. O golpe militar de Maio de 1926, encabeçado por Gomes da Costa, levou o presidente da República, Bernardino Machado, a encarregar o comandante Mendes Cabeçadas de formar governo, após o que se demitiu. As eleições de Abril de 1928 para a presidência da República deram a vitória ao único candidato: Óscar Carmona. No mês seguinte, o chefe do Estado efectuava a primeira ligação telefónica internacional com Espanha, estando também presente nas inaugurações das centrais telefónicas automáticas da Trindade (1930) e Estrela (1937). Tal significava uma ligação íntima entre a empresa e o governo. Após a nomeação de Carmona, o coronel Vicente de Freitas formou ministério, com Oliveira Salazar a ministro das finanças, mas teve pouco sucesso. Um novo ministério, dirigido por Domingos Oliveira, também não durou muito tempo. Salazar passou a dirigir o governo em Julho de 1932, consolidando o regime durante os anos seguintes, através de uma forte arquitectura jurídica e corporativa: o Estado Novo. A guerra civil espanhola, iniciada em 1936, despertou uma corrente de ultra-nacionalismo, representada na criação da Legião Portuguesa nesse mesmo ano. Acautelando os interesses ingleses da APT, em especial no período da guerra, manteve-se a boa relação entre administração da companhia e poder político, tendo Alexander Rogers, responsável máximo da empresa em Londres, visitado Salazar nas ocasiões em que se deslocou a Portugal.

blogue7.JPGAfectividade nas mensagens, endereçamento das campanhas a públicos-alvo específicos (nomeadamente os urbanos), humor fino nos materiais de comunicação e afirmação de uma cultura empresarial própria foram alguns dos ingredientes mais importantes a destacar neste período de campanhas. Daí, nos propormos fazer agora uma rápida incursão a alguns dos materiais publicitários produzidos e analisar profissões associadas às relações públicas, que traduziram a nova responsabilidade da companhia perante os seus assinantes ou clientes. Além da profusão de materiais, evidencia-se a quantidade de modos de comunicação utilizados: montras de lojas, anúncios corporativos em jornais, bandas desenhadas, viaturas de trabalho com publicidade e acções de relações públicas, com o governo e os media, feiras e exposições, mecenato e edição. Embora não estivessem divididas cientificamente as várias disciplinas de comunicação organizativa como as conhecemos hoje, a estrutura do trabalho empírico aproximava-se da presente realidade, demonstrando uma grande actualidade.

Textos e cartazes

Nos jornais, os textos editados realçavam as qualidades do telefone, como mostra a seguinte peça: “Existe um aparelho para manter sempre vivos os afectos, ainda que as pessoas estejam a grande distância. É um aparelho eléctrico, vulgaríssimo, há muito experimentado, com resultados excelentes: é o telefone. Nos tempos actuais ninguém pode dizer que está longe de quem lhe é querido: em qualquer ocasião, e com a máxima comodidade, o ausente pode chamá-lo, conversar com ele, sentir no ouvido a sua viva voz, tomar decisões, pedir explicações, interrogar, manter, em suma, as relações mais directas e afectuosas” (O Século, 20 de Dezembro de 1938).

Ou o seguinte texto: “Criaram os americanos nova designação que vai correr mundo pela justeza e perfeição da sua adaptação: o amigo público número um. É o Telefone. Se os americanos o dizem é porque é um facto: o amigo público, aquele que para cada um e para todos é a melhor expressão da dedicação, da fidelidade. O que traz as boas notícias, o que dá a tranquilidade, o sossego, cria o contacto com os entes queridos, estreita os laços da solidariedade humana” (Diário de Lisboa, 19 de Dezembro de 1938). Um terceiro texto atestava a mesma linha de propaganda: “Escrevi um postal à Companhia. Um empregado visitou-me. Preenchi um contrato que me custou o preço do papel selado. No dia seguinte, sem que tivesse desembolsado mais dinheiro, nem perdido tempo, vieram os homens da Companhia e colocaram-me um aparelho. E agora tenho de pagar por mês 120$00 que é quase tanto como eu pagava de moço e grooms, e ao fim de 10 meses fico a pagar só 80$00 por mês. Tenho direito a 1000 chamadas que chegam e sobejam para o meu serviço e nada tenho a pagar pelas dezenas de chamadas que os fregueses fazem para cá” (sempre que não há referência a um jornal, quer dizer que são documentos produzidos pela Companhia dos Telefones).blogue4.JPG

Nas campanhas de promoção também se realizou, a nível nacional, um concurso literário de contos e novelas, com prémios pecuniários entre 50$00 e mil escudos, salientando a importância do telefone na sociedade moderna (Comércio do Porto, 25 de Fevereiro de 1936, e Diário da Manhã, 8 de Março de 1936). De entre algumas dezenas de trabalhos, o primeiro prémio foi para o conto “O telefone”, de Alberto Santa Cruz, contando a história simples de um engenheiro agrónomo vivendo no interior do país. Num dia, ausente em serviço, um incêndio devorou a sua casa. Enfrentando o fogo e o fumo, a sua mulher chegou ao escritório e telefonou aos bombeiros, que prontamente a socorreram. No regresso, vendo-a pesarosa pela perda dos bens materiais, o engenheiro considerou terem sido preservados os valores mais preciosos da vida dele: a mulher e o filho. E a casa a construir teria um telefone salvador em todas as dependências.

quarta-feira, 23 de junho de 2004

A VENDA DO DAILY TELEGRAPH

O diário The Daily Telegraph foi vendido, a noite passada, aos irmãos Barclay, os proprietários bilionários do hotel Ritz em Londres, acabando com meses de incerteza no jornal mais vendido do Reino Unido. Os Barclays pagaram 665 milhões de libras pelo grupo Telegraph, que também inclui o Sunday Telegraph e a revista Spectator (notícia retirada de European Journalism Centre).

Os jornalistas daqueles títulos ficaram satisfeitos com a aquisição pelos Barclay, considerados como compradores benignos e preparados para garantir as publicações por um longo período de tempo. Bonito, hã?
UMA RESPOSTA DE DIANA ANDRINGA

Porque ela me autorizou a publicar uma das suas mensagens a mim dirigida, coloco no blogue o seu texto (gostaria, como a Diana me sugeriu, de colocar aqui os textos de Inês David Bastos e de Eduardo Prado Coelho, mas isso tornaria muito pesada a mensagem, e porque é fácil o acesso ao texto do Público, que não o do Diário de Notícias, que tem um sítio muito mau para este tipo de coisas, pois se existe arquivo do provedor do leitor deve estar bem escondido):

"Eu ainda não percebi como se cria um blogue – mas acho que é um fenómeno interessante em termos de liberdade de expressão. E acho que se tem um deve usá-lo como entender – nos limites que, aliás, coloca.

"Não quis criticá-lo por isso. (E li o texto em que fala do artigo no JJ). Só estranhei – e continuo a estranhar – que de algum modo escusasse a “toca” com o “grão a grão”, porque, como estudioso do jornalismo, esperava que tivesse em conta as “conotações” das palavras, a que hoje se refere o Prado Coelho.

"E lamentei que não tenha opinado sobre a questão Violante Saramago, porque a acho exemplar quanto ao estilo da jornalista. Devo dizer que o lamento ainda mais depois de ler a sua resposta, que lembra algumas daquelas coisas que os jornalistas deviam ter sempre presentes. ( A referência ao facto do eventual delinquente Beleza ser filho de Leonor choca-me muito. Ele não foi preso enquanto filho, mas enquanto eventual suspeito).

"E como há pessoas que lêem o seu blogue, toda a reflexão que nele venha pode ajudar outros a reflectir. Isso é excelente. Saudações da Diana Andringa.

"PS – Ah! Claro que não foi o artigo da Inês que aumentou a abstenção. Mas muitos artigos do mesmo tipo, sempre fomentando o desdém e a desconfiança perante os políticos, ajudam a aumentá-la. Se os jornalistas escrevessem sobre o Scolari e o Deco como escrevem sobre os políticos, não sei se a longo prazo não íamos ver começar a diminuir o desinteresse pelo futebol..."
"A JORNALISTA EM QUESTÃO"

Anteontem, escrevi sobre os provedores do leitor. E coloquei as seguintes questões no final da mensagem: será que os provedores (também) são parciais? E (mais) permeáveis aos leitores? Quer o provedor José Carlos Abrantes quer a jornalista Diana Andringa não gostaram das perguntas; eles têm o seu direito crítico [que saudo, conhecendo-os]. Felizmente o provedor e os leitores do Público não leram o meu pequeno contributo. Senão, eu pareceria um elefante (desastrado) numa loja de cristais.

Curiosamente, a coluna de hoje de Eduardo Prado Coelho, no Público, foca o assunto da página de ontem do provedor do Diário de Notícias, com o título que aparece no topo desta mensagem. Mas comete, a meu ver, um erro lamentável. Não se refere uma só vez ao texto inicial da jornalista Inês David Bastos, seguindo somente o conteúdo da página do provedor. O professor da Universidade Nova, do departamento de Ciências da Comunicação - grande especialista em semiótica e introdutor do estruturalismo e do pensamento pós-moderno em Portugal -, sabe que se deve fazer crítica sobre os originais e não sobre as versões que partem do original. E é interessante o modo como aprecia os agentes sociais da página: sobre José Carlos Abrantes diz que este teve o "arrojo de escolher um caso paradigmático de uma jornalista do seu jornal"; sobre a jornalista escreve sobre a sua "comovedora ingenuidade" e "santa ingenuidade". Isto são puros juízos de valor.

O que me preocupa mais no texto é quando escreve sobre "diversos pactos com os leitores" a serem feitos pelos jornalistas [estou a descontextualizar], e, em especial, quando faz uma afirmação sobre os blogues. Para ele, "um jornal não é um blogue". Perguntas a fazer: os blogues não prestam? Só a sua coluna diária é que tem legitimidade? Coloca a jornalista a nível de um bloguista? Mas os jornalistas já não usam os blogues para expressarem os seus pontos de vista, e pelos vistos até são criticados por dizerem o que não conseguem escrever no jornal?

Eduardo Prado Coelho tem um público fiel - de entre o qual eu me incluo - logo, pode ser lido por mais de 50 mil leitores (a tiragem do jornal). Deve ter algum cuidado nas matérias que escreve. Uma vez, há já muito tempo, vi-lhe um comentário a uma conferência de um autor de jornalismo, vindo de fora do país, que não correspondia ao que fora dito nesse espaço; o cronista lera apenas o relato do jornalista e enviesou, assim, a crítica. Do mesmo modo que aqui me insurgi contra o texto de Joaquim Manuel Magalhães, editado em 5 de Junho último no jornal Expresso, a propósito da Antena 2, quero aqui expressar a minha dúvida quanto à isenção do registo do professor sobre a jornalista. É preciso ler o que a jornalista escreveu no texto de 14 de Junho e, só depois, ler o que aparece escrito no jornal de ontem. Faz parte do bom senso.
AS INDÚSTRIAS CULTURAIS SEGUNDO O PARLAMENTO EUROPEU (1999)

Trata-se de um documento produzido pelo Parlamento Europeu, que reflecte equilíbrios e compromissos políticos e nacionais, pelo que deve ser lido com atenção mas cuidado [daí o uso do "deve" e do "pode" em algumas parcelas do texto original, significando recomendações]. Novas actividades, identidade nacional e criação de empregos reflectem os elementos fulcrais do texto. O que vem a seguir são parcelas do documento de Outubro de 1999.

Actividades e emprego

O sector cultural abrange diversas áreas de actividade económica e industrial: património, literatura, imprensa, música, artes do espectáculo, media e audiovisual. Dado o aumento da produção e da procura cultural, as indústrias culturais surgem como um domínio de interacção social e de actividade económica no contexto actual da União Europeia. As indústrias culturais apresentam-se simultaneamente como motor do emprego e catalisador da identidade regional, nacional e europeia.

Considera o documento que há que investir em recursos humanos e financeiros, para que se atinja a coesão económica e social. A vida cultural pode tornar-se um serviço público e privado economicamente rentável, bem como um instrumento catalisador da identidade e integrador das sociedades. Os poderes públicos devem encorajar a criação de empresas culturais, oferecendo possibilidades de criação de novos postos de trabalho. Tanto no plano económico como no plano sociocultural, destaca-se a importância da abordagem integrada e global nas indústrias culturais.

O estado actual das indústrias culturais na União Europeia

Apesar de faltarem estatísticas culturais comparáveis sobre os Quinze [antes do alargamento aos Vinte e Cinco], existem documentos de trabalho publicados pelo Conselho da Europa (La culture au coeur) e pela Comissão (Cultura, Indústrias Culturais e Emprego), bem como relatórios de organizações públicas e privadas a nível nacional e europeu.

O balanço da situação das indústrias culturais da União Europeia revela que a gama de possibilidades de produção e de consumo culturais é extremamente diversificada e promissora. Entre os diferentes sectores culturais analisados, as áreas de actividade que apresentam melhores perspectivas são as dos projectos associados ao património, bem como as actividades ligadas às novas tecnologias, nomeadamente as do audiovisual e da sociedade da informação. Apesar do bom desempenho do património e do artesanato, os poderes públicos ainda têm tendência para negligenciar estes sectores criadores de emprego.

As novas tecnologias e o audiovisual apresentam-se como sectores de actividade cada vez mais apoiados, tanto política como financeiramente, pelas instâncias políticas nacionais e europeias. A televisão e o cinema tornaram-se fornecedores democráticos e poderosos de bens e serviços culturais, apesar de os seus conteúdos privilegiarem os produtos americanos em detrimento dos europeus. As indústrias activas no domínio das novas tecnologias devem inserir-se no mercado da União Europeia.

São sugeridos dois eixos prioritários: o enquadramento administrativo e fiscal das PME culturais e o espírito de inovação entre os empresários, no tocante à incorporação dos princípios da gestão cultural. Se as autoridades nacionais criarem mecanismos de apoio às empresas culturais que tenham em conta a sua especificidade, o desenvolvimento das indústrias culturais será mais facilitado.

Prospectivas das indústrias culturais na União Europeia

Considera-se o turismo cultural como área a ser um ponto de arranque e de reforço das indústrias culturais. O apoio ao turismo cultural permitirá consolidar e aumentar as actividades económicas clássicas que estão relacionadas com o património cultural. A revitalização e a redefinição do turismo cultural poderão servir de base às acções inovadoras associadas às novas tecnologias e aos meios de comunicação social.

As actividades culturais ligadas à "alta cultura" e as que decorrem das novas tecnologias começarão por centrar a sua oferta em locais turísticos frequentados por um público atraído pelas actividades lúdicas e culturais. No domínio das tecnologias avançadas, o turismo cultural e o audiovisual tenderão a ser os dois sectores de actividade com melhor desempenho.

Conclusão

A riqueza multicultural da UE que encerra, de grande valor em si mesma, reveste igualmente um outro tipo de interesse para os poderes públicos: com base nesta riqueza, as indústrias culturais contribuem para a criação de emprego e constituem factor de reforço do sentimento de comunidade na Europa. As potencialidades do sector cultural, em geral, e das indústrias culturais, em particular, são mal conhecidas e subaproveitadas pelos poderes públicos. As indústrias culturais constituem uma área de actividade muito mobilizadora no que se refere à introdução das novas tecnologias. Representam também o meio ideal de transmissão de informações face à mundialização dos intercâmbios culturais e ao reaparecimento dos nacionalismos. O desenvolvimento das indústrias culturais potencia tanto o risco de perda de identidade e de uniformização do processo de mundialização como o desejo de aprofundar o conhecimento da sua própria cultura. A realidade cultural mostra que as indústrias culturais estão em consonância quer com o actual desenvolvimento das novas tecnologias, quer com as solicitações e necessidades dos movimentos socioculturais mais significativos.

AMANHÃ, A MENSAGEM SERÁ SOBRE CARTAZES PUBLICITÁRIOS NOS ANOS DE 1930. VISITEM-NOS DESDE MANHÃ CEDO.

terça-feira, 22 de junho de 2004

O ACESSO AO JORNALISMO

Saiu, no último número da revista JJ - Jornalismo & Jornalistas, um texto assinado por Sara Meireles Graça, docente na Escola Superior de Educação de Coimbra, onde se aborda o acesso ao jornalismo. O trabalho faz parte da tese de mestrado da autora (ISCTE).

Pergunta ela: como se processa a entrada na profissão de jornalista em Portugal? Há atributos necessários ao exercício da profissão? Qual o papel da escolaridade? E do estágio? A autora partiu de duas bases: 1) último inquérito nacional aos jornalistas portugueses (1997), sob orientação de José Luís Garcia (uma amostra de 251 num total de 4247 jornalistas), 2) elementos estatísticos do Sindicato dos Jornalistas e da Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas (2001-2002).

Para Sara Meireles Graça, os jovens candidatos aos media "ingressam em lógicas emergentes de produção jornalística, de cariz «comunicativo», num panorama de fortes influências do audiovisual, da publicidade e do marketing e, sobretudo, de extrema competição entre grupos empresariais". Daí ser importante, na visão da autora, "analisar a forma de entrada no mercado de trabalho jornalístico, o estudo dos perfis de recrutamento, os critérios de acesso à profissão, o tipo de acompanhamento nos estágios, a escolaridade exigida à actividade, a inserção e socialização profissional dos recém-chegados ao ofício". A autora critica o modo como se fazem os estágios, desestruturados e marcados "pela existência de um contingente de reserva". A concorrência entre candidatos opera "num universo de trabalho precário e mal pago", encurralados " por um poderoso universo industrial, que atira os mediadores para a condição de meros «canalizadores» de informação".

Acresce-se que, conforme a autora, a análise inclui apenas a parcela de jornalistas que conseguiram inserir-se na profissão. Os que entram em estágio e saem sem vínculo ou que abandonam a profissão traçariam um quadro diferente e mais pessimista. Conclui Sara Meireles Graça que os jornalistas portugueses "continuam a dividir-se entre uma elite consagrada e poderosa, bem recompensada e socialmente prestigiada, e os largos sectores de «anónimos», com a missão de produção informativa mais rotinizada e mal paga, «silenciados» pelo seu estatuto frágil e precarizado".

O texto é acompanhado por um conjunto de quadros, muitos deles a partir do II inquérito nacional aos jornalistas portugueses, de 1997. O quadro 1, desdobrado em quatro partes, tem elementos mais recentes (2001). Neste, por exemplo, fica-se a conhecer o crescimento das mulheres na profissão (de 32,8% em 1997, para 36,2% em 2001).

A JJ é uma edição do Clube de Jornalistas, responsável pelo programa televisivo com o mesmo nome no canal televisivo 2:.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

AUDIÊNCIAS NO CINEMA

Segundo o ICAM, na semana de 3 a 9 de Junho, os filmes mais vistos em Portugal foram O dia depois de amanhã, de Roland Emmerich (58 ecrãs e 77581 espectadores), Tróia, de Wolfgang Peterson (45 ecrãs e 31857 espectadores) e Tirar vidas, de D. J. Caruso (26 ecrãs e 22656 espectadores). O primeiro destes filmes foi distribuido pela CMLC, ao passo que os dois seguintes pertencem à Columbia Tristar Warner.

O filme português O milagre segundo Salomé, de Mário Barroso, ficou em 12º lugar, com 1611 espectadores, enquanto o filme coreano de Ki-Duk-Kim, Primavera, Verão, Outono, Inverno... Primavera - que eu gostei muito - se ficou no 16ª lugar, com 938 espectadores e uma só sala (Quarteto).

De Janeiro a Maio, o filme mais visto foi A paixão de Cristo, de Mel Gibson, com 522440 epectadores. No mesmo período do ano, passaram pelos cinemas portugueses 5,8 milhões de espectadores, causando uma receita bruta de € 24.306.773.

DOS PROVEDORES DE LEITORES DOS JORNAIS DE LISBOA

Ontem, Joaquim Furtado, no Público, e hoje, José Carlos Abrantes, no Diário de Notícias, merecem um breve comentário. Julgo que ambos começam a lidar com temas interessantes, após um período de cortesia para com as redacções dos jornais.

O tema da página de ontem de Joaquim Furtado foi o da capa de 11 de Junho, onde a fotografia de Ray Charles ocupava um espaço nobre. Charles morrera na véspera, à noite. Num espaço mais reduzido, surgia a foto de Lino de Carvalho, deputado comunista também falecido na véspera. Os leitores entenderam que a foto de Carvalho era reduzida comparada com a de Charles (e com a de Sousa Franco, em edição anterior). Parece-me difícil gerir respostas com leitores baseadas em medir dimensões de fotografias. Confesso que eu ficara estupefacto com o modo como a fotografia do cantor da soul aparecia indicado - apenas o nome e os anos de nascimento e de morte. O que significava um grande conhecimento cultural dos leitores. A resposta do director-adjunto não terá sido a mais feliz, pois quis agradar aos leitores que escreveram a reclamar. Não é melhor assumir que se fez assim, porque se entendia ser a maneira mais eficaz - e porque lá estavam as duas informações? Houve jornais que, nesse dia, não publicaram uma ou outra dessas informações.

Já o tema escolhido por Abrantes tem mais disputa. Dado o dispositivo que ele montou: carta da leitora, resposta da jornalista, comentário do provedor. Estão lá todas as peças, método útil para quem é do Direito, como o provedor do DN (excepto a peça de 14 de Junho isso não seria viável; não se repetem notícias). O título escolhido (presumo que pelo próprio provedor) é uma armadilha: "Jornalista-candidata questiona jornalista". Será que a primeira é candidata política ou candidata a jornalista? A dicotomia significa que a crítica apenas é possível quando a jornalista deixa de ser aquilo que faz: jornalismo. Aparentemente, e segundo a interpretação do provedor, a jornalista - apesar de imparcial no que escreveu [minha leitura do texto de Abrantes] - foi insensível às críticas da leitora. Mas a leitora terá omitido coisas que, a meu ver, são positivas no texto da jornalista. Se ela usa a metáfora "sair da toca" também usa "de grão a grão..." - de igual peso em termos de expressões populares e que quer significar um lento mas seguro crescimento do partido a que a notícia se refere. O "sair da toca" parece-me mais aplicado à espera dos jornalistas e repórteres (estoica, como se lê no texto) do que a uma referência pejorativa ou crítica ao dirigente eleito. O texto fala em felicidade nos dirigentes do partido e até destaca ser este o maior êxito do mesmo partido, desde sempre.

Será que os provedores (também) são parciais? E (mais) permeáveis aos leitores?

MINISTÉRIO DA CULTURA DO BRASIL LANÇA SOFTWARE LIVRE

Segundo o sítio Cultura e Mercado, o Ministério brasileiro da Cultura espera lançar em Julho um "edital para programa de promoção, desenvolvimento e disseminação de softwares livres de edição de áudio e vídeo". De acordo com a notícia escrita por Sérgio Crespo, uma equipa multidisciplinar, reunindo jovens artistas, hackers e estudantes, coordenará a implantação de 100 "pontos de cultura" (ainda sem nome oficial) espalhados pelo Brasil, onde os programas gratuitos ficarão disponíveis para o público.

É ainda cedo para uma avaliação específica do projeto, mas a ideia "de se desprender do monopólio de softwares privados, se levada a cabo com sucesso, deve trazer benefícios claros para o produtor independente e, possivelmente, modificações estruturais no mercado cultural". E, para Portugal, haverá uma semelhante linha de trabalho?

domingo, 20 de junho de 2004

ANTÓNIO MARIA, DE RAFAEL BORDALO PINHEIRO

Fez há dias 125 anos que o jornal de humor António Maria foi lançado, como recordou o diário Público recentemente, em texto assinado por João Manuel Rocha. Era um jornal de "oposição declarada aos governos, e oposição aberta e sistemática às oposições, o que não o impossibilita de ser amável uns dias por outros, e cheio de cortesia em todos os números"(imagens recolhidas no sítio Vidas Lusófonas).

O título do jornal vinha do nome do primeiro-ministro da época, António Maria de Fontes Pereira e Melo. Publicou-se em duas séries (1879-1885, 1891-1898) e seria a expressão do grande caricaturista, cartoonista e ceramista, famoso pelo seu Zé Povinho (aparecido em 1875).




O António Maria seria considerado o mais rico título de todos os jornais, segundo José Augusto França, que estudou a obra do caricaturista e ceramista (Rafael Bordalo Pinheiro, o português tal e qual). Seria um olhar crítico e mordaz sobre a segunda metade do século XIX português. O António Maria teria uma boa aceitação, com caricaturas, cartoons e histórias aos quadradinhos [quadrinhos no Brasil].

Rafael Bordalo Pinheiro nasceu em Lisboa a 21 de Março de 1846. Teve uma grande atracção pelo teatro, começando como actor dramático aos 14 anos. O tema do teatro virá sempre à baila nas críticas humorísticas, nos figurinos, nos cenários e nas capas de programas. Após vários anos de actividade, caso do Lanterna Mágica, com as suas histórias aos quadradinhos, parte para o Brasil, em Agosto de 1876. Colabora nomeadamente nas revistas O Mosquito e Psit!!!, regressa a Portugal em 1879, ano do nascimento da revista que tem o título desta mensagem. O autor faleceria em 1905, na cidade que o vira nascer. Para além do museu de cerâmica nas Caldas da Rainha, há outro museu a ele dedicado, em Lisboa.

O exemplo de Rafael Bordalo Pinheiro foi contagiante, como escreve António Dias de Deus (Os comics em Portugal. Uma história da banda desenhada. Lisboa: Livros Cotovia e Bedeteca de Lisboa, 1997, p. 49). Florescem cartoons e comics e multiplicam-se as revistas humorísticas, em cidades como Porto, Viseu, Ponte de Lima e Ponta Delgada (Açores).

MANUEL ALEGRE, OS JORNAIS E O FUTEBOL

Manuel Alegre, escritor, poeta e político, escreve hoje em dois jornais, no Público e no El Pais, sobre o jogo de futebol entre Portugal e Espanha, logo ao fim do dia. No Público, conclui com: "E a festa continua. Festa a sofrer. Recordemos Miguel Torga, que também gostava de futebol: «Terra nua e tamanha / Que nela cabe o Velho-Mundo e o Novo / Que nela cabem Portugal e Espanha / E a loucura com asas do seu povo». Esperemos que as asas sejam lusitanas. Parvoíce? E depois? Deixem-nos gozar a festa. A sofrer, que é melhor".

Já no El Pais, recorda: "Em 1947, em Lisboa, Portugal ganhou por 4-1. Salazar, que acreditava [quería] que todos os portugueses desconfiassem de Espanha como ele, celebrou a vitória como um facto histórico. Mas com as ditaduras estivemos sempre a perder, ainda que [quando] uma das nossas selecções ganhasse [ganaba] à outra, Portugal uma única vez e a Espanha muitas mais". E, mais à frente, usa um poema de Antonio Machado: "Esta noite, quando dormia, / sonhei, bendita ilusão, / que o meu Portugal vencia, / Espanha do meu coração".

Inteligente forma de estilo, a agradar às audiências a que se destina.

ROY LICHTENSTEIN NO MUSEU RAINHA SOFIA (MADRID)

Dizem os espanhóis que será um dos principais acontecimentos culturais deste Verão. A exposição do pintor da pop estará aberta ao público de 24 de Junho a 27 de Setembro nas novas salas de cristal do Museu, desenhadas pelo arquitecto francês Jean Nouvel.


Conhecido habitualmente como o pintor da banda desenhada, Roy Lichtenstein nasceu em Nova Iorque em 1923. A revista americana Life chegou a classificá-lo como "o pior artista dos Estados Unidos". Ele fez parceria com outros pintores como Warhol, Oldenburg e Rosenquist, o núcleo mais significativo da pop-art, que se inspirou em imagens da cultura popular de massas (cartazes, anúncios, embalagens de produtos alimentares). Considera-se que Lichtenstein foi o mais radical, ao usar a imagem das vinhetas dos comics [imagens retiradas do sítio Roy Lichtenstein Archive].


O Museu fica na Plaza Santa Isabel, 52 (Madrid).

sábado, 19 de junho de 2004

Notícias dos jornais de hoje

[mensagem colocada às 14:55]

1) Fusão Sony/BMG A Comissão Europeia terá aceite a fusão das editoras discográficas Sony e BMG (do grupo alemão Bertelsmann), segundo o Público. Da aliança sairá a segunda maior empresa discográfica do mundo (25%), a seguir à Universal, e a primeira no mercado comunitário europeu. Com este realinhamento empresarial, haverá apenas quatro majors na Europa (em vez das actuais 5) – Universal, Sony/BMG, EMI e Warner Music – controlando 80% do mercado europeu. A razão para a fusão servirá, segundo os seus promotores, para combater a actual crise do sector, devido à explosão da falsificação dos CD e da pirataria através da internet. Opinião diversa vem das editoras independentes, que acusam a concentração das majors como factor de declínio.

2) Reforma da comunicação social regional e local O Sindicato dos Jornalistas manifestou-se contra a aceitação dos cinco diplomas apresentados pelo Governo esta semana. Considera o sindicato que foi “excluído do processo de consultas para a elaboração dos diplomas”. Duas associações patronais, a Associação Portuguesa de Imprensa e a Associação Portuguesa de Radiodifusão, terão sido amplamente escutadas, conforme o Público.

3) Cofina vs Lusomundo Segundo o Expresso, a Cofina está interessada em activos da Lusomundo (no Jornal de Notícias e na TSF, mas não no Diário de Notícias). A Lusomundo fechou 2003 com prejuízos de €11,8 milhões, pensando-se fazer um aumento de capital (as sucessivas perdas anuais conduziram a uma redução do capital da Lusomundo, pelo que há necessidade de fazer a operação bolsista inversa). O problema maior na Cofina é que tem 19% da Lusomundo, através de uma compra recente, mas não dispõe de qualquer poder na condução de negócios da empresa. O espírito comprador da Cofina, através da Investec, poderá esbarrar na concentração de media. Quer a Cofina quer a PT (através da Lusomundo) já terão ultrapassado os limites impostos em termos de concentração, segundo a lei. Contudo, os patrões dos media (como Balsemão e, agora, Paulo Fernandes, da Cofina) consideram que falta dimensão aos grupos portugueses de media, em termos financeiros e à escala europeia, pelo que não se devem inviabilizar operações de concentração.

4) Nelson de Matos dispensado Título cru este impresso no Expresso, dando conta da saída de Nelson de Matos da editora Dom Quixote, retomando a notícia que eu já lera no Público do último dia 10. A razão próxima resulta da incompatibilização entre o editor e o novo gerente, apoiado pela administração do grupo espanhol Planeta, que comprou a Dom Quixote em 1999 (90%, acrescidos dos outros 10% que o próprio Nelson de Matos venderia). A Planeta, com sede em Barcelona, é a sétima editora a nível mundial. É especializada, nomeadamente, na venda de obras por fascículos. A Dom Quixote apareceu em 1965 pela mão da dinamarquesa Snu Abecasis (companheira de Sá Carneiro, o primeiro-ministro português que faleceu de desastre de aviação, conjuntamente com ela e vários políticos). Nelson de Matos nasceu em 1945 e foi responsável pelas editoras Arcádia (1974-1976) e Moraes (1976-1980) e co-fundador da editora & Etc. Entre os autores mais conhecidos da Dom Quixote contam-se Lobo Antunes, Cardoso Pires, Natália Correia, Manuel Alegre, David Mourão-Ferreira, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.

5) O jornalismo para Manuel Vicent Este escritor ocupa, todos os domingos, uma parte da última página do El Pais. Agora, editou um livro com algumas dessas crónicas, Nadie Muere la víspera. Segundo o jornal madrileno, Manuel Vicent é um acérrimo defensor da imprensa como género de ficção – “o jornalismo é todo ficção e a história, ideologia, porque cada um valoriza e interpreta à sua maneira”. Ainda para ele, um artigo deve servir “para educar o olhar do leitor, a sua sensibilidade”. E sobre a sua escrita, Vicent entende que é “um convite a navegar. Escrevo para não tornar duro [amargar] o domingo ao leitor. Procuro dar-lhe algo que não o preocupe, prazenteiro, imaginativo, que lhe faça chegar a segunda-feira com alguma esperança em pensar que, ainda que o mundo se destrua, ele é maravilhoso". O seu texto de domingo deve ser solúvel com o aroma do café!

Mandrake o Mágico faz 70 anos

Mandrake o mágico iniciou a sua aventura em 1934. Foi criado por Lee Falk durante a Grande Depressão (após a crise económica de 1929), quando se pretendia que a banda desenhada de aventuras contribuísse para a construção de uma moral nova, que elevasse de novo o espírito americano.

O mágico, com capa, cartola e bigode, tornar-se-ia um das mais conhecidas personagens de banda desenhada (comics), com as suas tiras editadas em jornais de todo o mundo (imagem retirada do sítio Big Little Book). Em Portugal, é exemplo o Jornal de Notícias (Porto), que edita as suas estórias desde 1978, e referiu os 70 anos de Mandrake no passado dia 11, em texto assinado por F. Cleto e Pina. Mandrake o mágico usa um poder lendário de hipnotismo e ilusão para combater o crime, seja aqui como no espaço imaginário interplanetário. Curiosamente, surgiram outras figuras de mágicos na banda desenhada mas nenhuma teve o êxito e perdurou no tempo como este.

Outro pormenor a salientar é que Mandrake foi a primeira banda desenhada multirracial, dado que teve, desde o princípio, a acompanhá-lo o gigante Lotário, primeiro como fiel servidor e depois como assistente e amigo. E, como nas outras bandas desenhadas – e até no cinema –, teve sempre uma namorada, a encantadora e exótica princesa Narda. Sem se notar o envelhecimento até hoje, Mandrake foi desenhado, como se escreveu em cima, por Lee Falk, mas passou a tarefa ao artista Phil Davis, responsável pelas tiras até 1964, quando faleceu. Fred Fredericks passou a desenhar Mandrake e, desde 1999, com o desaparecimento do próprio Falk, também o argumento.

Mandrake foi visto na televisão em 1939 (mesmo no arranque do meio, nos Estados Unidos) e no cinema em 1942. Mais recentemente voltou à televisão, acompanhado por outros heróis dos comics.

sexta-feira, 18 de junho de 2004

A VIDA DO PROGRAMADOR DE TELEVISÃO

O último dos convidados presentes no módulo MPA, que leccionei no mestrado de Ciências da Comunicação da UCP, foi Manuel S. Fonseca, director de programas da SIC, o canal privado de televisão que começou a emitir em Outubro de 1992. Ele foi muito pragmático ao definir o seu negócio: um programador tem de atender ao quadro sociológico na construção de uma grelha de programas, com sensibilidade na escolha de produtos televisivos, disponíveis para os públicos e que satisfaçam os anunciantes, fundamental numa televisão comercial Seguir tendências de consumo e introduzir factores de novidade (igual a assunção de riscos, caso do reality-show Big Brother, que a concorrente TVI passa) são elementos a ter em conta pelo programador.

Manuel S. Fonseca frisou os motores dos vários canais generalistas: 1) concursos e futebol na RTP (embora o Euro 2004 decorra sob o signo da partilha), 2) telenovelas brasileiras e programas de quinze minutos de fama na SIC, 3) Big Brother e novela portuguesa na TVI. A RTP, com a mudança de instalações para Cabo Ruivo, alterou a imagem, fez o saneamento financeiro e apostou em informação séria e credível, faltando ainda criar ficção própria, que a personalize.

Para fazer ficção, tem de haver uma linha específica, caso da Globo. Para isso, torna-se necessário desenvolver um bloco, a fábrica (estúdios, realizadores, actores), dentro de um espírito de trabalho colectivo e de um estilo (cenografias, estilos de fotografia, escrita). No tocante à ficção nacional, a SIC desenvolveu um importante trabalho até à crise económica (2001-2002). Seriam os casos, embora alguns fossem adaptações de sucessos extra-fronteiras, das séries Médico de família, Jornalistas, bem como sitcoms, 31 telefilmes e co-produção de filmes para sala. O primeiro ano dos telefilmes revelou sete a oito novos realizadores e 11 a 12 novos argumentistas, produção assente num modelo económico de abundância, com os anunciantes a pagarem 60% do custo da produção (em sponsorização e product-placement). Com a crise económica, os anunciantes recuaram. No terceiro ano da produção de telefilmes, os custos eram suportados totalmente pela SIC e pelo ICAM. A SIC também criou uma linha de humor, como os Malucos do Riso, Levanta-te e Ri, Herman. Isto é, quando caiu a audiência respeitante à novela brasileira, subiu a audiência dos programas de humor. Há o reconhecimento do fracasso de novelas, embora, na perspectiva da SIC, o maior insucesso tenha sido a não compra dos direitos do Big Brother (que foi para a TVI e elemento de recuperação desse canal comercial).

Actualmente, existe uma estrutura industrial (a NBP), que começou há três anos. Mas as grandes dificuldades são a escrita da novela em português de Portugal e os custos de produção.

Audiências, concorrência e responsabilidade social

A SIC lidera no target 4-44 anos. Mas o ser-se líder no prime-time – que pertence presentemente à TVI (de José Eduardo Moniz, o mais antigo programador de televisão em actividade, a que se segue Manuel S. Fonseca) – é prioritário para a televisão comercial, pois os investimentos publicitários são o “ganha-pão” da televisão comercial. O Big Brother, apesar do enorme risco, alterou consumos e alargou os tipos de investimento publicitário.

As audiências que interessam, em termos de potencial económico e de literacia, dividem-se em AB (importante para o investimento publicitário), C1 (média média), C2 (média baixa) e D (que não conta para a publicidade). Um canal, no começo de vida, procura alargar o volume (maior audiência), para poder captar um maior investimento publicitário. Um exemplo desse tipo de programação foi o Big Show Sic, que emitia ao sábado à tarde, mas era consumido pela classe D. Mas o grande ênfase é no horário nobre, onde não se procura um fluxo mas vários públicos, aliciados por uma diversidade que inclui informação, novela, concurso e duas comédias. Diversificar públicos significa oferecer coberturas a anunciantes, pois, para estes, interessa contactar o maior número de públicos. Ou seja, é contraproducente criar uma programação em prime time apenas com telenovelas, programação que caracterizava até recentemente a TVI, agora também defensora das comédias. Hoje, destaca-se ainda o cinema, que capta as classes C1-C2. A SIC aponta para a classe C1 (26% da população portuguesa).

Para além do lado comercial, é preciso relevar a responsabilidade social, presente na carta de concessão da licença. Daí o peso da informação que, sem ser a locomotiva da audiência, tem esse papel importante na área da responsabilidade social.

Interessante a visão, mais uma vez pragmática do responsável do canal comercial (aceitemos ou não a sua visão do mundo): enquanto a televisão pública tinha pessoas que impunham e determinavam o que os telespectadores deviam ver – uma espécie de televisão dirigista, educativa –, a SIC introduziu a ideia de democratização, a ideia do povo, do cidadão comum ser ele próprio agente a surgir no ecrã [o texto aqui colocado recentemente referia-se à televisão pública nos seus primórdios; editei uma curta história da SIC em mensagens dos dias 29 de Abril e 3, 6, 10 e 11 de Maio]. O cidadão comum, anónimo, passa a protagonista (os 15 minutos de fama, à Andy Wharol, estão bem presentes nos Zés Marias do Big Brother). O director de programas da SIC elencou programas como All you need is love, Perdoa-me, Big Show SIC, Chuva de Estrelas como exemplos do novo paradigma. Ao serem protagonizados por gente comum, os programas foram motor e também reflexo da alteração de comportamentos de consumo (de televisão, e não só – mas isso levaria a uma análise fora do meu âmbito) no país.

Quase em simultâneo, um dos sucessos iniciais da programação da SIC foi a infantil, desde 1995. Ela chegou a ter 80% da quota de mercado. Claro que concorrência e fidelização são conceitos importantes: a SIC, porque tinha programas infantis ao sábado e domingo de manhã foi perdendo para o canal Panda, que emite diariamente.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

COMO OS MEUS BLOGUES FAVORITOS LÊEM O NOVO PACOTE LEGISLATIVO PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL REGIONAL E LOCAL

Para Manuel Pinto, excelente observador dos media em geral, pela posição académica e científica (Jornalismo e Comunicação):

"As medidas ontem apresentadas pelo Governo para o sector da Rádio e Imprensa regional e local revestem-se de um significado político que não deveria ser descurado. [...]
O que parece consensual é que a proliferação de meios locais, longe de exprimir um desejável pluralismo de vozes e de projectos, representa sobretudo uma dispersão de energias e de recursos e a expressão da falta de condições de natureza profissional e de gestão exigíveis para a qualificação deste subsector mediático. Segundo dados do Governo, existe uma grande pulverização de jornais (4.291 títulos registados no ICS, dos quais 900 regionais, enquanto que em Espanha, por exemplo, há apenas 213 jornais regionais e locais). O panorama do sector das rádios locais é igualmente elucidativo: 354 estações, contra, por exemplo, apenas 190 na Alemanha.

"[...]Dando aqui e tirando acolá, num terreno extremamente "armadilhado", o Governo conseguiu, aparentemente, lançar as reformas que entendeu oportunas. É provável que tenha razão de ser a interpretação que faz o Público, na peça que hoje publica sobre o assunto, assinalando duas grandes orientações das medidas governamentais: promover uma lógica em presarial no sector e reduzir os apoios públicos aos media regionais e locais. Ou seja, criar mercado e poupar dinheiro. Tais metas não são, em si mesmas, negativas ou positivas. Aquilo que lhes dá sentido é averiguar em que medida o pacote legislativo agora apresentado - sintomaticamente, o porte pago reduzido a 50% é para entrar imediatamente em vigor - permite alcançar uma comunicação social de âmbito local e regional mais plural, dinâmica e profissional ou, em contrapartida, de que modo o mesmo pacote não será o caminho para preparar o terreno para que os grandes grupos encontrem neste subsector um terreno favorável à sua expansão e à sua lógica".

Para Jorge Guimarães Silva, um grande especialista em rádio (A Rádio em Portugal):

"O Governo pretende liberalizar o sector da Rádio, mas esta alteração da Lei vai beneficiar apenas os grandes grupos de media. Estas são as alterações à Lei da Rádio:
"- Possibilidade de transmissão de alvarás, embora com certas condições. Um alvará – atribuído gratuitamente ou quase – não devia de ser transmissível. Se um operador não tem capacidade de rentabilizar uma emissora não deveria de poder vender a licença, mas sim devolvê-la ao estado para esta ser colocada de novo a concurso. Isto evitaria a desertificação de rádios locais que se verifica por este país fora. Há concelhos que não dispõem de uma única rádio local, pois os emissores que lá existem estão a retransmitir estações de grandes grupos.
"-Alargamento do limite de participações maioritárias a dez rádios por proprietário, deixando de haver limite à participação minoritária.
"- As rádios temáticas podem associar-se para emissão em cadeia sem limite de tempo e até ao máximo de cinco emissoras. Estas medidas vêm legalizar a situação da Media Capital e permitir que os grandes grupos tenham espaço de manobra para adquirir novas rádios.
"[...] - Os serviços noticiosos de âmbito local obrigatórios deixam de ser três por dia e passam a ser apenas um. Mais uma medida completamente contrária ao que deveria ser feito. No lugar de aumentar o numero de serviços noticiosos locais, o governo permite a sua diminuição. A quem serve esta medida? Aos ouvintes? Claro que não, pois estes deixam de ter notícias da sua localidade, e de certeza que as estações de cobertura nacional não darão atenção a assuntos que só interessam aos locais de Vimioso ou de Castro Verde. Os ouvintes terão de esperar pelas notícias dos jornais regionais do dia seguinte, porque não têm possibilidades de saber de imediato o que acontece no seu municipio [...]".

Com estas posições abalizadas, parece que o pacote legislativo apresenta problemas. Como resolvê-los?
TEORIAS SOBRE A NOVA IDENTIDADE DO JORNALISTA

Este é o título do terceiro capítulo do livro de Mª Bella Palomo, El periodista on line: de la revolución a la evolución, editado durante o presente ano em Sevilha. E o que é que diz a jovem investigadora e professora de Tecnologia da comunicação jornalística e estrutura geral dos sistemas dos media (Universidade de Málaga) nesse capítulo, que ocupa as páginas 45 a 55?

Começa por definir novos nomes ao profissional das empresas digitais puras. Assim, David A. Patten prefere a designação de tecnojornalista ou telejornalista, apostando na reinterpretação do seu trabalho. Já Ignacio Ramonet vê o novo profissional como instantaneista, o analista do instante, ou imediatista, o analista do imediato. Se para Fernandéz Hermana, o jornalista se converte em cartógrafo, pois a envolvente digital ainda está em construção, Alfons Cornellá inventa o conceito de infonomista, aquele que estuda as estruturas comunicacionais e desenha economias e fluxos de informação. E, enquanto Quim Gil anota o nome jornalismo em rede ou digital, a autora deste livro afasta-se da identidade digital, porque não é de âmbito tão amplo como acha que a actividade se desenvolverá. Por isso, aposta em jornalista on-line, aquele que manipula produtos de conversão binária, desde o fotojornalista com câmara digital ao editor de vídeo e ao redactor de uma página web.

Bella Palomo apropria-se e desenvolve uma interessante categorização produzida pela City University de Londres (p. 48). Assim, distinguem-se:

I – Utilizadores (usuários)
a) Devoto da rede – jovem freelance, que desenvolve o seu trabalho nos novos media, mas não ocupa lugares de destaque. Ele identifica a internet como uma fórmula de alargar a democracia,
b) Economicamente direccionados – obtêm da internet informação que seria cara por outras vias. Operam por questões de poupança, redução de custos e para não ficarem fora do mercado. Podem ocupar cargos de relevo e trabalham em pequenos diários,
c) Pragmáticos – incorporam a internet na sua lista de fontes de informação. Trabalham em media nacionais e regionais,
d) Pesquisadores ocasionais – recorrem à internet quando falham os outros recursos. A causa da sua aplicação intensiva é a restrição nos acessos e a falta de formação.

II – Não utilizadores (não usuários)
a) Novatos entusiastas – têm mais de 50 anos ou são recém-licenciados. Desconhecem realmente as possibilidades da rede, mas isso intriga-os,
b) Não crentes – não lhes interessa a rede, porque desconfiam da autenticidade dos dados,
c) Dinossáurios ressentidos – opostos ao devotos. Para eles, a internet representa uma ameaça ao seu acesso privilegiado à informação e não desejam revelar as suas fontes.

Nesta espuma de designações alguma há-de ficar para o futuro. Penso que jornalista continuará a ser uma boa designação, mas não sei prever, eu que gosto mais do mister de historiador. Daí que Bella Palomo eleja também designações mais conservadoras, ainda com base em autores do seu país. Caso de Victor Puig, para quem jornalista digital quer dizer aquele que utiliza meios digitais para obter e trabalhar a informação, gerando conteúdos que serão publicados em meios digitais, em on-line e off-line. Já Próspero Morán entende que o jornalista digital apresenta uma ampla formação humanística, capaz de entender e aceitar a interculturalidade do mundo virtual.

Há, em tudo isto, um dilema. Será o jornalista-orquestra bom em todas as áreas? Parece que uns têm melhores capacidades de escrita ou dicção e outros superiores conhecimentos de informática ou com uma presença televisiva mais agradável. Mas o balanço é sedutor: a combinação de competências trará maior performance ao profissional, até porque novas capacidades (habilidades) revalorizam a posição no mercado de trabalho. E Maria Bella Palomo aponta o exemplo clássico do correspondente de um jornal: ele desempenha de igual modo as várias actividades que forem precisas executar.

Curiosa a observação sobre a realidade dos Estados Unidos (p. 47). Para evitar conflitos com os sindicatos, os novos profissionais dos media não usam os termos de jornalista, editor, redactor ou repórter, mas o de produtor, conceito ambíguo sem dúvida.

O livro tem prólogo de Bernardo Díaz Nosty, catedrático de Tecnologia da Informação na Universidade de Málaga, e cérebro do sítio Infoamerica, que tenho aconselhado vivamente. El periodista on line insere-se numa colecção nova, onde se inclui o livro do nosso colega e amigo Jorge Pedro Sousa, professor da Universidade Fernando Pessoa (Porto), na sua tese de doutoramento, Historia crítica del fotoperiodismo occidental. Para quem quiser saber mais, clicar em Comunicación Social Ediciones y Publicaciones. O blogue brasileiro Intermezzo, referenciado pela autora, já fez uma alusão ao livro no dia 14 do presente mês.

Livro: Mª Bella Palomo Torres (2004). El periodista on line: de la revolución a la evolución. Sevilha: Comunicación Social, Ediciones y Publicaciones. 163 páginas. Preço em Espanha: € 11,50.

quarta-feira, 16 de junho de 2004

OS ANOS DE OURO DA NOSSA TELEVISÃO

Nestes últimos dias, redescobri o livro de Lopes da Silva e Vasco Hogan Teves, Vamos falar de televisão (1971). Na altura, devo tê-lo comprado, mas perdeu-se, com certeza, em casa dos meus pais.

Relê-lo foi um enorme prazer, em especial a parte de Vasco Hogan Teves. Escreve este historiador da televisão sobre o primeiro passo do novo medium: “O momento da revelação em luz e som aprazado para a noite de 4 de Setembro de 1956. A televisão entre nós, pela primeira vez. Na Feira Popular de Lisboa, em Palhavã. […] Três corpos pré-fabricados, para albergarem, de um lado, emissor, telecinema, controlos de estúdio e emissão; do outro, camarins para artistas, sala de caracterização e um pequeno escritório; ao centro, no corpo principal, o estúdio, de paredes rasgadas por vidraças” (p. 115).

O maior espectáculo do mundo

E, mais à frente, sobre as mesmas emissões da Feira: “Meia hora depois das nove da noite de 4 de Setembro de 1956. Uma câmara assesta uma das suas objectivas sobre um locutor. Foca-o. E logo após ter sido retirada a mira técnica, a central mete-o «no ar». Imagem «ao vivo» pela primeira vez. Raul Feio apresentou o programa da noite. […] Confessou a felicidade que todos sentiam em proporcionar ao lisboeta «o maior espectáculo do Mundo», e como todos estavam desejosos de o poder fazer em breve a todos os portugueses. Terminou apresentando monsenhor Lopes da Cruz, presidente da assembleia-geral da RTP e director da Rádio Renascença, que proferiu uma declaração – o «artigo de fundo» da primeira página que se oferecia ao público. […] O primeiro «sorriso RTP» surgiu imediatamente depois. Pertenceu a Maria Armanda Falcão [mais tarde conhecida pelo pseudónimo Vera Lagoa], que relembrou as restantes rubricas do programa da noite e introduziu um documentário filmado sobre a ourivesaria portuguesa” (pp. 122-123). A maior parte da audiência seguia a emissão através dos aparelhos espalhados pelo recinto. No dia seguinte, a televisão em Lisboa era assunto de primeira página nos jornais.

Uma brochura ilustrada da RTP, de 32 páginas, dizia que, ao se colocar “ao serviço da Arte, da Ciência, da Técnica, da Cultura, a Televisão é, hoje, um eficiente instrumento de educação. Ela é, ao mesmo tempo, o Livro, o Palco, o Concerto, o Estádio, a Viagem, o Jornal”. A brochura tinha publicidade das principais marcas, que iam em 25 marcas. No mesmo documento, chamava-se a atenção para os 24 períodos de programa nocturno (cerca de 50 horas) e os espaços diurnos de mira técnica para afinação dos receptores que se iam vendendo. Curiosa relação do serviço público com a publicidade, ainda sem as lutas pelos shares e pelos investimentos publicitários. Era a idade de ouro da televisão, onde se sonhava educar com serões de ópera e teatro radiofónico. Não direi que estamos longe, na perspectiva saudosista, mas apenas que a televisão mudou [a propósito, saiu em 2003, no mercado espanhol, um livro de Mª Ángeles Moreno Fernandéz, intitulado La identidad de la televisión pública, que espero reflectir aqui em breve].

Claro que a expressão idade de ouro da televisão precisa de ser desconstruída. Primeiro, porque se trata aqui do período experimental do medium, como a seguir explicito; logo ainda se está à procura de fórmulas e de estruturas. A idade de ouro pressupõe maturidade. E, depois, e em especial, porque a história de Vasco Hogan Teves apresenta uma perspectiva pura e naïf. Nada no texto nos diz sobre as lutas do poder político. E sabemos que - como se lê na tese de doutoramento de Francisco Rui Cádima sobre os noticiários da RTP - havia um controlo sobre o que era dito. O regime era uma ditadura e a televisão foi desde logo um excelente instrumento de poder. O livro agora referenciado está alheio a essa realidade social e política, ficando-se apenas nos aspectos técnicos e estéticos.

Uma programação experimental - ou o começo de um novo gosto

Para Vasco Hogan Teves, “A programação ensaiada pela RTP na Feira foi fértil em rubricas musicais. Os mais populares artistas nacionais, de parceria com alguns estrangeiros de passagem por Lisboa, possibilitaram uma série apreciável de programas, nomeadamente do género ligeiro” (p. 132). A Revista dos Espectáculos, apresentada nos programas da Feira, por Raul Ferrão, teria um pouco de tudo, “da música à arte de dizer, dos quadros de revista ao teatro de fantoches. Solnado contou aí as primeiras histórias da sua vida; o maestro António Melo (que mais tarde a televisão transformaria em vedeta) lá fez acompanhamentos ao piano; e uma grande figura do teatro português, entretanto desaparecida, Alves da Cunha, recebeu no programa a homenagem que se justificava”. As emissões experimentais da Feira acabariam em final de Setembro. Mas a televisão voltou em 3 de Dezembro, nos estúdios do Lumiar, para a chamada "nova série de emissões-piloto para a área da capital”, até ao início dos serviços regulares, em Março de 1957.

A RTP iniciara, em Outubro de 1956, a adaptação de um estúdio cinematográfico, implantado no Lumiar. Neste estúdio, havia “uma série de departamentos técnicos: régie, comandos de vídeo e de áudio, telecinema, controlo de emissão, cabinas para projecção de filmes, locução, gravação, sonoplastia, etc.” (p. 138). Depois, durante "25 dias de Dezembro de 1956 (aos domingos não havia programa) a RTP esteve «no ar», com emissões de ensaio, cerca de 90 horas” (p. 141). A base da programação era filmes, exibindo-se cerca de 60 curtas e médias metragens. Também se incluiriam telediscos e revistas filmadas (desportiva, feminina, cinema e curiosidades). Em 1957, o alinhamento era (1) começo do primeiro período, às 17:00, com diapositivos de abertura e mira, durante 45 minutos; programas de ensaios técnicos, preenchendo 15 minutos; às 18:00, início da passagem de filmes, intercalados por diapositivos, até dois minutos antes das 19:00; diapositivos de encerramento; (2) começo do segundo período às 21:00, com diapositivos de abertura, durante 5 minutos; filmes intercalados por diapositivos, até 3 minutos antes das 22:30; diapositivos de encerramento.

Emissões regulares e visita da rainha de Inglaterra

Começariam a 7 de Março de 1957. Havia rubricas musicais ligeiras mas também música clássica, bailado e declamação. O primeiro programa de entrevistas foi o “Miradoiro”. Pela rubrica “Esta Palavra Saudade” passaram figuras importantes da vida artística e cultural. Vasco Santana criou momentos de humor nos “Televizinhos” e nas “Anedotas da Semana”. O primeiro concurso foi “Veja se adivinha”, promovido em colaboração com a revista Rádio e Televisão (p. 162). Depois, no final desse ano, cerca de 45% da população estava servida pela televisão. Mais tarde, em 1964, a "RTP montava e punha a funcionar o seu primeiro equipamento de gravação magnética (videotape), que permitiu uma reprodução de imagem de boa qualidade e aumentou, de forma sensível, as possibilidades de uma melhor, mais frequente e variada produção de programas, especialmente dramáticos e musicais, através de uma utilização mais intensiva e racional dos estúdios existentes” (p. 168).

A visita da rainha Isabel II foi um dos primeiros trabalhos de grande envergadura da nossa televisão pública. Corria o ano de 1957: no Terreiro do Paço, fora filmada uma bobina de 30 metros, com planos colhidos de posição estratégica, conforme os ingleses haviam planeado. A rodagem foi feita por um operador da RTP. “Um avião a jacto, da RAF, vindo especialmente de Londres ao serviço da BBC, aguardou no aeroporto de Lisboa apenas o tempo necessário para que um estafeta-moto fizesse entrega desse filme, e de outro impressionado pelos operadores britânicos, e descolou imediatamente. Cerca de 3 horas depois, toda a Inglaterra via as primeiras imagens da sua rainha em Lisboa. Foi Carlos Tudela quem impressionou essa bobina. […] A contante «velocidade» comandou todas as operações, directas ou marginais, referentes à «cobertura» da visita real. Filme rapidamente entregue para processamento laboratorial (na Tobis Portuguesa) representava ganho de tempo apreciável para quem tinha depois de o manusear em tarefas de montagem e de estabelecimento de ordem de vistas para esboço de locução”. “A RTP apresentava as primeiras imagens de Isabel II em Portugal: a sua chegada à base aérea do Montijo. Filmara-as Baptista Rosa, horas antes, e as bobinas foram transportadas por avião até à Portela de Sacavém” (pp. 150-151).

Estranha (artesanal) forma essa de produzir e emitir conteúdos, hoje que os videotelefones e as câmaras digitais ligadas a computadores e interconectadas na internet divulgam em "tempo real" o que se faz.

Sem constar desta história da RTP, mas importante para a minha vida pessoal: comecei a ver regularmente televisão, aos domingos à tarde, em 1960, num salão paroquial, vivia então nos arredores do Porto.

Livro: Lopes da Silva e Vasco Hogan Teves (1971). Vamos falar de televisão. Lisboa: Verbo

terça-feira, 15 de junho de 2004

A EDUCAÇÃO SEXUAL SEGUNDO O JORNAL 24 HORAS

No pós-férias ainda ando a fazer a digestão das leituras feitas. E não posso deixar de referir o tema de capa do 24 Horas do último dia 11. É sobre a nossa vedeta Fernanda Serrano. Como antetítulo lê-se: "O namoro está OK mas ser solteira é que é bom". Isto a propósito do namoro de Fernanda Serrano (30 anos) com Pedro Miguel Ramos (32 anos, apresentador do Big Brother, de bom gosto estético, pela estória presente e pelas passadas).

A manchete remete para a secção de televisão. Onde se pode ler: "A actriz que faz de Mónica em «Queridas feras» confirma que vai tudo às mil maravilhas, sobretudo quando Pedro a vê fazer as cenas mais íntimas na TVI. «Ele respeita muito o meu trabalho, assim como eu respeito o dele. Não se pode intrometer a vida profissional na pessoal. Portanto criamos logo uma série de reservas em relação a isso»" (p. 55). Se o título da manchete é "Casar para já não!", o título das pp. 54-55 é "Fernanda Serrano vai ficar solteira por mais algum tempo". Claro que não se trata de educação sexual propriamente dita, mas realça uma mudança de hábitos sociais no relacionamento entre pessoas que gostam uma da outra. Haverá ampliação desta mudança quando uma estrela da moda diz que opta por ela?

Há aqui duas questões principais que quero salientar. A primeira é a que gira em torno da novela portuguesa da TVI: Mónica sofre de cancro de mama e por isso aparece com o cabelo rapado, devido aos tratamentos. Mas Fernanda Serrano fez dois em um: o corte de cabelo foi aproveitado para a campanha do banco BPI, onde se vê ela a dar tesouradas ao seu cabelo. Publicidade, marketing e actividade artística juntam-se no útil e no agradável. O ficar careca, revela, "foi gravado em tempo real, cerca de oito minutos e deu para pensar em muitas coisas". E a estrela acha que ficou parecida com o pai, ao olhar para imagens dele no tempo do serviço militar. O namorado Pedro assistiu às escondidas ao mais radical corte de cabelo da ficção portuguesa. Diz ainda a namorada: ele "percebeu que para mim era muito importante". E salta logo para outras revelações, a de que o final da novela vai ser feliz, porque reencontra David, que lhe escondia o vício do álcool. E que se prepara para entrar num projecto da NBP, uma comédia.

Em suma, há toda a promoção de um espectáculo - a novela - e das estórias de amor e dificuldades dentro do espectáculo. Não se sabe bem onde há ficção e realidade, qual a dimensão pública e privada da estrela. Isto leva à segunda questão, a de que o jornal 24 Horas é um meio embebido na televisão. As suas histórias de capa são permanentemente as estórias da televisão. Que reflectem um país diferente. Basta comparar os títulos de outros jornais editados nessa sexta-feira, dia 11. Se o Público trazia dois títulos, um em que Sampaio apelava ao voto no domingo e outro com uma fotografia de Ray Charles (1930-2004), o Correio da Manhã destacava um caso de saúde (uma morte após duas idas à urgência), a alegria do Euro de futebol e o apelo de Sampaio ao voto, já o Jornal de Notícias trazia o resultado de uma sondagem às eleições e o apelo de Sampaio e o Diário de Notícias dividia-se entre uma lei que trava as investigações judiciárias e as comendas dos Xutos & Pontapés, no 10 de Junho.

Se alguém aterrasse em Portugal, desconhecendo o que cá se passava, ficava-se, na óptica do 24 Horas, pelo namoro de Fernanda & Pedro e pelo terceiro filho de Helen e Figo (este é um casal já "legalizado", com filhos e um outro a anunciar, ocupando toda a página 2, ao contrário do segundo casal, ainda em fase experimental). O jornal está a ser um caso de sucesso. Há alguém que o queira estudar?

segunda-feira, 14 de junho de 2004

DEFENDIDA TESE DE MESTRADO SOBRE JORNAIS DE PROXIMIDADE

Cláudia Costa defendeu hoje, na Universidade do Minho, uma tese de mestrado intitulada O impacto das câmaras municipais na imprensa regional. Um olhar sobre os dois jornais diários da cidade de Braga.

Jornalista num desses dois jornais (Diário do Minho; o outro jornal analisado foi o Correio do Minho), a agora mestre em Comunicação traçou, em metodologia rigorosa, o perfil dos jornalistas, bem como as principais características das fontes de informação identificadas com as autarquias dos distritos de Braga e Viana do Castelo. Os seus dados empíricos esclarecem um universo de trabalho que, frequentes vezes, surge estereotipado. Assim, por exemplo, Cláudia Costa, a partir de um inquérito a 20 jornalistas dos dois diários de Braga, conclui que os jornalistas são profissionais jovens (média de idade: 30,5 anos; moda - valores mais frequentes: 27 e 29 anos), 80% têm licenciatura (muitos saídos da Universidade do Minho), 12º ano (10%) e pós-graduação (5%)(não houve uma resposta ao inquérito). 75% desses jornalistas trabalham há menos de cinco anos num dos jornais, 10% entre 5 e 9 anos, 5% entre 10 e 14 anos e 10% entre 15 e 20 anos. 75% dos profissionais possuem a carteira profissional, sinal do vínculo contratual forte com as empresas jornalísticas. Em termos de remunerações, 60% auferem salários entre € 500 e 749, 20% entre € 750 e 999 e 10% entre € 1000 e 1249. Mau grado os valores monetários relativamente baixos, a autora frisa a ligação laboral estável, elemento importante num momento menos positivo da economia nacional.

Para além do inquérito aos jornalistas, Cláudia Costa entrevistou 24 responsáveis nas autarquias pelos contactos com os media (presidentes, vice-presidentes, assessores de imprensa e de imagem), dando uma ideia forte e muito próxima da realidade das rotinas produtivas de assessores e fontes de informação no seu relacionamento habitual com os jornalistas.

Vista a partir de uma experiência local (Braga), fica-se com uma perspectiva diferente da que é dado observar se estivermos em Lisboa. Daí a nova mestre referir muitas vezes a ideia de proximidade, tema que encontramos em autores como Carlos Camponez, que destaquei aqui há pouco tempo. Por proximidade entende-se uma ligação de maior cercania entre os agentes sociais (fontes e jornalistas). Mas isso, e na linguagem de Cláudia Costa, pode acarretar um constrangimento: o facilitismo. Como há confiança e colaboração entre as duas partes, e como as peças produzidas pelas fontes são perfeitas (comunicados com leads e fotografias, enviados por correio electrónico), existe uma tendência para o jornalista aceitar trabalhar por cima desses materiais, sem um distanciamento crítico. Ora, não podemos esquecer que há fontes interessantes (as que dão materiais de interesse jornalístico) e fontes interessadas (na promoção das suas acções).

domingo, 13 de junho de 2004

UM ATAQUE INCOMPREENSÍVEL À ANTENA 2

Na edição de 5 de Junho último do jornal Expresso, Joaquim Manuel Magalhães desfere um ataque incompreensível à Antena 2, em artigo designado "Deixei de ouvir a Antena 2". Diz o consagrado poeta que deixou de escutar a estação, porque passam umas "musiquitas" e se usa muito "palavreado". E dá como alternativa a Clássica FM.

No final do seu texto - que ilustra uma enorme e admirável ignorância por parte de quem escreve -, refere que não ouve a frequência de 106,2 Mhz, por morar em local onde não se capta tal estação. Porque, se tivesse hipótese para isso, não teria a opinião que demonstra. A sucessora da "Luna" passa música a granel, sem qualquer critério estético: pode ouvir-se um andamento de uma obra de Bach como ouvir, a seguir, uma "musiquita" de Frank Sinatra ou uma peça de um filme musical qualquer. E não há um qualquer servil locutor a debitar o nome do que se ouve, mas apenas um "despassarado" jornalista (?) a ler apressadamente um noticiário (!), a dez minutos antes da hora, no que parece ser uma manta de takes da Lusa, sem qualquer tratamento.

E Joaquim Manuel Magalhães é tremendamente injusto para com uma série de realizadores ou simples animadores da antena. Penso em António Cartaxo, Vanda de Sá (Ressonâncias, programa feito de parceria com Rui Vieira Nery) e Alexandre Delgado (A propósito de música). E penso ainda nos programas de João Pereira Bastos (Da Broadway a Hollywood), de Manuel Jorge Veloso (Um toque de jazz) - e que pena não haver programa todos os dias à noite, como a congénere Rádio Clássica da Rádio Nacional de España! -, ou de Jorge Rodrigues (Ritornello). Sem esquecer o património de concertos musicais da antiga Emissora Nacional, que Madalena van Zeller nos traz à antena (ainda esta semana deu a conhecer uma portentosa audição da 6ª sinfonia, Patética, de Tchaïkovski). Reconheço que já gostei mais do programa de Judite Lima, em especial no horário de fim-de-semana. Acho que ela está a dar muito espaço ao diálogo com convidados, nem sempre muito relacionados com a música. Mas vejo o esforço em divulgar concertos, em dar voz a músicos jovens.

Do mesmo modo que aqui, neste espaço, me tenho insurgido com a probabilidade de o museu da Rádio vir a perder a sua autonomia, também acho que devo defender o que me parece didáctico e cultural. Espero que a nova RTP reaja a esta injusta e provocadora notícia de um poeta mal informado e o ponha ao corrente do que se produz na estação. É que uma notícia mal escrita, e com dados incorrectos, pode confundir muita gente.

sexta-feira, 4 de junho de 2004

BLOGUE EM FÉRIAS

O responsável do blogue vai tirar uns dias de descanso. Volta na segunda metade de Junho. Até lá, esperamos que continuem a dedicar-nos a mesma atenção. Consultem também os nossos blogues favoritos.

AS NOTÍCIAS DE MAIO DE 1974 - IV

Houve mudanças também nos horários de trabalho. Os armazéns Braz e Braz passavam a fechar aos sábados à tarde, de Maio a Outubro. Os barbeiros e cabeleireiros estendiam tal regalia a todo o ano. A Cancan-Naia-Primaz informava os clientes que abria às segundas-feiras, pelas quinze horas, “para prolongamento do descanso semanal dos empregados”. A pedido dos trabalhadores, o jornal A Capital deixava de se publicar aos domingos, o mesmo ocorrendo ao Jornal do Comércio e Diário de Notícias.

Nas notícias, parece que cada agente social, por todo o país, tem qualquer coisa a fazer e a dizer. Quando há sete mil bancários ou cinco mil ferroviários em reunião, a massificação esconde o desejo de cada pessoa gritar a sua mensagem, dar a sua opinião. A leitura do retratado em Maio de 1974 lembra as leituras da movimentação social e política da Primeira República. Mas com uma diferença pública, pelo menos: a das relações entre poder político e Igreja. Os ministros visitam os responsáveis religiosos (caso do cardeal de Lisboa), estes retribuem as visitas aos políticos, esquecendo o espírito jacobino do começo do século XX.

As actividades políticas, sindicais, sociais e culturais pareciam tão intensas que poderíamos falar de homens sem sono. Naquele período, muitos dos intervenientes pouco terão dormido, dada a pressão do dia-a-dia e das constantes alterações da conjuntura. Mário Soares, por exemplo, regressava de um rápido périplo por Inglaterra, Alemanha, Finlândia, Bélgica e Itália, onde dera “conta da nova situação portuguesa”. Outra notícia destacava o decréscimo de visitas ao Palácio de Belém, sendo as pessoas encaminhadas para os vários ministérios. Por dia, era grande a lista de pessoas e entidades recebidas pela JSN e por Spínola. O momento inicial de mudança de poder estava a terminar, com a criação de novos canais de comunicação.

Anúncios de restaurantes

Para terminar a nossa incursão nas múltiplas notícias editadas em Maio de 1974, mostramos aquelas cujo valor-notícia mais relevante é a do insólito. Um tópico foi o da publicidade dos restaurantes junto à Cova da Moura, onde o novo poder instalara o seu quartel-general. “Restaurante Cova da Moura. Gostaria de comer boa carne? Então venha ao nosso restaurante e peça o delicioso fondue. (...) Restaurante, snack-bar, barbearia, tabacaria. Estamos mesmo junto ao palácio militar da Cova da Moura”. “Cervejaria Napoleão. Gostaria de comer bons mariscos? Então venha à nossa cervejaria. Aberta até às 3:30 da manhã. (...) Estamos mesmo junto ao palácio militar da Cova da Moura”. Dado o afluxo de visitantes ao quartel seria previsível o sucesso dos restaurantes da zona, nesse período.

Uma notícia distinta referia um comunicado dos trabalhadores dos mercados camarários de Lisboa: “levar para a frente a ideia inicial de criar um ambiente de fraternidade do trabalho nos mercados; afastar definitivamente os egoísmos”. Um comunicado do movimento democrático de artistas plásticos defendia que “a arte fascista faz mal à vista”. Outra notícia curiosa seria a da manifestação de deficientes motores internados no centro de reabilitação da Areosa (Porto) contra as condições em que viviam: alimentação, proibição de fumar, proibição de sair com colegas do sexo oposto. Um grupo de mulheres reunidas numa creche da CP avançava com uma ameaça original, a de “greve sexual”, enquanto os trabalhadores da Electrolux acabavam a sua greve por solidariedade com o governo provisório.

A nova situação aconselhava a que alguns eventos mundanos ou públicos tivessem uma realização mais discreta. Por exemplo, a Miss Portugal, uma moçambicana, seria eleita em segredo, no hotel Sheraton, à porta fechada, com 60 convidados. Em Aveiro, nas festas de Santa Joana Princesa, o programa foi mais modesto que o habitual: “missa solene, exposição de relíquias, mas não haverá procissão”. Ao invés, um comunicado da JSN informava que “as restrições de gasolina em vigor serão levantadas durante o próximo dia 12 de Maio para tornar possível as comemorações em Fátima no dia 13 de Maio”.

Apelava-se também a uma regeneração de costumes. Numa notícia, pedia-se aos coleccionadores de recordações fascistas que as dessem à JSN. Aplaudiam-se regras, quando delas se gostasse: sobre a classificação etária dos filmes, as crianças, se acompanhadas podiam ver filmes para idades superiores, excepto nos filmes para maiores de 18 anos. E também surgiam novas oportunidades de negócios: várias agências de viagem anunciavam viagens à Rússia, um destino sempre proibido.

Conclusões

Atrás, deixamos algumas pistas para a leitura do livro. Mas não conseguimos responder a algumas questões. Que estratégias de comunicação veiculam as notícias editadas em Maio de 1974? Como reagiam os leitores à catadupa de informações sobre um país diferente? Como foi a aprendizagem da nova realidade? Quantas das intenções incluídas nas notícias se tornaram realidade?

Notamos uma profusão de conferências de imprensa, de comunicados, de notas como formas de promoção dos acontecimentos. A par de figuras políticas emergentes, muitas das quais chegaram aos nossos dias, salientaram-se as vozes populares. O movimento social tornava-se imparável.

Outra conclusão que podemos tirar é que, a partir de Maio de 1974, os jornais desenvolveram uma nova área de especialização (o chamado newsbeat): as lutas e movimentos operários, sindicais e sociais. Criava-se o jornalista correspondente de trabalho. Nesse ano e nos seguintes (até à adesão à União Europeia e à primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, em 1985), as questões laborais, em secção própria, constituiriam parte importante das notícias, com destaques de primeira página, reportagens e entrevistas.

A oportunidade de falar sobre este livro conduz-nos à necessidade imperiosa de trabalhar na história das mentalidades, gostos e costumes do Portugal contemporâneo, com observação das mudanças e do seu impacto no tecido social nacional, através das notícias e de outros tipos de fontes (livros, memórias escritas, história oral). A História dos media jornalísticos portugueses está quase toda por fazer.

Créditos de autoria do livro Maio’74 dia-a-dia (por ordem alfabética): Alessandra Bálsamo, Alexandra Correia, Ana Campos, Ângelo Teixeira, Aurora Teixeira, Bruno Cordovil, Bruno da Ponte, Clara Boléo, Clara Pereira, Eduarda Dionísio, Fernanda Abreu, Francisco Frazão, Gabriela Coelho Dias, Graça Pinto Leite, Helena Barradas, Idalina Portugal, Isabel Duarte, Joana Frazão, Joana Sousa, João Martins Pereira, Manuela Torres, Manuela Vasconcelos, Manuel Canário, Manuel Videira, Maria Antónia Bonito, Maria da Conceição Lobo Antunes, Maria Letícia Clemente da Silva, Nuno Vasco, Olímpio Ferreira, Pedro Rodrigues, Vanessa Pimentel (recolha de informação), Vítor Ribeiro (recolha de documentos e de imagens, revisão, paginação, edição e impressão).

quinta-feira, 3 de junho de 2004

AS NOTÍCIAS DE MAIO DE 1974 - III

O aparelho ideológico do Estado estava apanhado pela grande vaga de transformações, como se percebe das notícias que envolveram as estações de rádio e televisão. A Rádio Renascença (RR) passava a ser dirigida pelos trabalhadores, em regime de autogestão e com readmissão de noticiaristas, tudo dentro dos princípios da doutrina cristã. Os trabalhadores da mesma estação mostravam-se contra a administração, cedendo o Patriarcado quanto à liberdade informativa e ao processo autogestionário. Depois, dava-se a ocupação militar das instalações da RR, por “um grupo de extrema-esquerda querer ocupar os estúdios”. Botelho Moniz, o proprietário do Rádio Clube Português (RCP) – emissora donde partira a senha musical para o movimento dos capitães que derrubou o regime – foi recebido em Belém, enquanto se processava a demissão de directores e funcionários da mesma estação, que colaboraram com a Pide. A manutenção da administração fez crescer a contestação, o que levou funcionários e administração da estação ao palácio de Belém. No mesmo dia, a direcção da rádio ficava entregue a uma administração eleita, com um delegado da JSN a fazer a ligação entre a direcção e a administração. Este delegado içaria a nova bandeira do RCP – Rádio da Liberdade ao lado da bandeira nacional. Dias depois, dois ministros (Pereira de Moura e Raul Rêgo) recebiam a comissão do RCP, denotando o processo complexo que se vivia na estação. Por seu lado, as estações dos Emissores Associados de Lisboa, como a Rádio Peninsular e a Rádio Voz de Lisboa, entravam em luta.

Se a Emissora Nacional considerava que “o stock de discos será renovado de forma a dar a conhecer toda a música ligeira nacional”, um comunicado da RTP defendia o “absoluto respeito pelas correntes de opinião, venham elas de onde vierem, e dando a todas, da direita ou da esquerda, as mesmas possibilidades”. Isso obrigou a direcção de programas a entrar “em reflexão”, que a divulgou num outro comunicado. Em esclarecimento, o chefe de repartição dos programas musicais da Emissora Nacional proibia a orquestra de tocar o hino nacional em S. Carlos, “para não banalizar o hino”.

Por seu lado, o aparelho militar e policial procurou a mudança de imagem, para adaptação aos tempos. A GNR queria ser “para todos uma presença amiga”. O comando distrital de Lisboa da PSP pretendia estar ao serviço da população, “uma Lisboa onde os seus habitantes vivam em paz, com alegria, e no respeito de liberdade dos outros”. Abolição, insubordinação, queixas – os jornais funcionavam como porta-vozes das ideias e dos projectos dos descontentes e reprimidos do país, as vozes populares das notícias. Se a censura perseguiu a imprensa durante cinquenta anos, os acontecimentos de Abril de 1974 conferiram aos jornais uma auréola de prestígio e legitimaram a sua representação nos novos valores. Aos jornais queixavam-se os moradores de um bairro de lata, porque as casas para o seu realojamento estavam a ser ocupadas por outros. Os jornais também eram veículo das mensagens de grupos de trabalhadores que acorriam “à sede do PS, pedindo apoio para a solução dos seus problemas”. Outros sentimentos tinham lugar nos jornais, caso da notícia do escritor Costa Mendes, que morreria de comoção à chegada a Lisboa do exilado Álvaro Cunhal.

Notícias sobre as greves

As greves constituem um tópico fundamental nas notícias de Maio de 1974. Fizemos uma leitura qualitativa das notícias (e não quantitativa). Pelas notícias, parece que todos os sectores produtivos e de serviços entraram em greve. Duas delas, ocorridas no período descrito no livro, mereceram a nossa particular atenção.

A primeira foi a dos padeiros. Numa manifestação, os padeiros gritam: “O Tarrafal não acabou. Existe nas padarias! Queremos dormir com as nossas mulheres! Padeiros unidos jamais serão vencidos”. Para o presidente do sindicato dos padeiros, seriam identificados dois indivíduos que, durante a manifestação, propuseram a greve: “um fez parte da anterior direcção sindical fascista e o outro é colaborador do patronato”. Contudo, haveria mesmo greve do pão, como noticiaram os jornais, embora com “furos na greve”, quando indivíduos entraram numa padaria e propuseram fazer pão, o que os levou a serem presos. A greve ultrapassara o sindicato. Num processo contraditório, outra notícia refere que os trabalhadores das padarias em greve decidiram voltar, por um dia, a confeccionar o pão estritamente necessário. Uma outra notícia salienta que os dirigentes sindicais de panificação “não apelaram à greve nem a apoiaram, (sendo) a greve instigada do exterior”. Para o grémio da panificação, a greve era atribuída a elementos de extrema-esquerda, o MRPP. Os padeiros voltariam à actividade normal “para não prejudicar as populações”. Uma invasão em padaria de Lisboa serviu para “aproveitar a massa que se estragaria”, enquanto se verificava uma luta entre grevistas e “estranhos fura-greves”. A última notícia da greve dava conta do apelo dos padeiros à população para comprar apenas o pão indispensável.

A segunda greve foi a da cobrança de bilhetes, por parte dos trabalhadores de camionagem, da região de Lisboa. O ministério da Comunicação Social apelou a que estes trabalhadores abandonassem a ideia de não cobrar bilhetes. Os trabalhadores da Carris recuaram, graças a uma consideração pertinente, a que deram a palavra de ordem “não há viagens de borla”. Eles queixaram-se que, “na última greve, fomos gozados (...) As pessoas invadiam os autocarros e viajavam de cá para lá e de lá para cá. Andávamos a passeá-los, era o que era”. Enquanto os funcionários da Sociedade Estoril mantinham reivindicações e também não cobravam bilhetes, o pessoal da ponte sobre o Tejo deixava de cobrar a portagem à meia-noite, mas, no dia seguinte, os postos de portagem voltavam à normalidade.

Numa greve dos trabalhadores da Sociedade de Parafusos de Cabo Ruivo surgia uma reivindicação local e específica: a “possibilidade de as mulheres irem à casa de banho sempre que necessitem e colocação de sanitas nas casas de banho”. Apesar de situada na cintura industrial de Lisboa, as condições higiénicas de trabalho indiciavam um Portugal arcaico. Infelizmente, muitos anos depois, as autorizações para ir à casa de banho continuavam a representar matéria reivindicativa em diversas empresas do país.
Um outro tópico interessante para vermos as transformações de mentalidade é o do desporto. Logo no princípio do período histórico a que o livro se refere, o Benfica é recebido pela JSN, a quem informa que contribuirá como escola de virtudes. A direcção do Sporting também é recebida pela JSN e propõe à Federação Portuguesa de Futebol a vinda da selecção russa de futebol. Os clubes queriam estar com o novo poder. No F. C. Porto, uma assembleia marcada só conseguiu discutir política em vez de desporto.
Uma notícia destacaria a perda de importância do futebol, embora os campeonatos estivessem emotivos. A ocupação do sindicato dos treinadores de futebol, a indicação que os futebolistas profissionais “coligem” reivindicações, a nomeação de delegados sindicais dos jogadores de futebol e a adesão do sindicato dos jogadores à Intersindical mostram alguns dos movimentos políticos de jogadores e outros profissionais. Hoje, isto parece-nos estranho, dados os volumes monetários envolvidos na actividade desportiva e a circulação de personagens como “empresários”, sociedades anónimas e “off-shores”, de intenso “lobbying”.

[continua]

quarta-feira, 2 de junho de 2004

PIONEIROS DA RÁDIO

"Por volta de 1923, três estudantes do Instituto Superior Técnico preparavam-se para um exame de frequência, numas águas furtadas da Rua Capelo, em frente ao Governo Civil, em cujo telhado se viam os guardas no seu quarto de sentinela. Estávamos em plena época das revoluções. Nos intervalos do estudo, juntavam-se próximo duma janela, com auscultadores nos ouvidos e ar atento. Um deles tinha construído um receptor de Telegrafia sem fios - era assim que se dizia - e os rapazes, a determinadas horas, não escondiam o seu júbilo quando ouviam os sinais horários da Torre Eifel. Grande acontecimento esse!

"Um belo dia, no melhor da festa, batem à porta com tom decisivo e três agentes da Polícia entram resolutamente por casa dentro, com cara de poucos amigos, para averiguar o que era aquilo. Os rapazes ficaram petrificados! Mas quando um dos agentes se precipita para junto da aparelhagem, o mais atrevido dos estudantes, atravessa-se-lhe no caminho, de braços abertos, gritando: Alto! cautela com a self-indutância!...

"Houve um momento de hesitação, que serviu para os agentes reflectirem que havia ali alguma coisa que eles não dominavam por completo com a sua autoridade, e em que o tal mais espevitado aproveitou logo para explicar o que era, quem eram os conspiradores, etc., etc.

"Passados poucos minutos, todos à vez, ensaiavam os auscultadores e adivinhavam, maravilhados, através de uns débeis traços pontos do código Morse, os sinais horários da Torre Eifel. Os agentes acertaram os relógios e deixaram os estudantes em paz".

Citação do livro de Manuel Bivar (s/d). A televisão em Portugal. A fase inicial. Reflexos sobre o futuro. Edição da C.P.R.T.P. [o engenheiro Bivar foi, durante muitos anos, um dos principais dirigentes da Emissora Nacional].
DEFENDIDA TESE DE MESTRADO SOBRE RÁDIO

Conforme destaquei ontem, foi defendida uma tese de mestrado, na Universidade de Coimbra, por João Magalhães Perpétuo Correia, intitulada A convergência das novas tecnologias para o reforço do interesse e utilidade pública das rádios locais. Na tese, quero relevar o que o agora mestre João Correia escreveu sobre as rádios locais de Viseu, e que ocupou basicamente o capítulo 4 do seu trabalho.

Nos anos de 1980, Viseu assistiu ao aparecimento de quatro estações locais, inicialmente designadas "piratas", a exemplo do que aconteceu por todo o país. Assim, a Rádio Clube do Interior (RCI) surgiu em 1983, seguindo-se a Rádio Escala (1984), a Rádio NOAR (1986) e a Rádio Viriato (1987). Se a Rádio Escala ficou pelo caminho, as outras três estações chegaram até aos nossos dias, com percursos diferentes. À RCI, que em 1986 mudaria de proprietário e de filosofia de estação, é-lhe atribuída a maior potência de emissão das três rádios. Depois, em 1996, com nova mudança de proprietário (Anacleto Raimundo), RCI passa a significar Raimundo Comunicação Independente! Se a Rádio NOAR nasceu de um núcleo de cinéfilos ligados ao Cineclube de Viseu, a Rádio Viriato pertenceu sempre ao grupo Nodigráfica. Desde 1996, há uma rede de emissoras que partilham recursos, como os da informação: Rádio NOAR, F (Guarda), Sátão (Sátão) e Fronteira (Vilar Formoso).

Da leitura da tese é possível compreendermos a diversidade de origens, a evolução, os cruzamentos de orientações, vontades e caminhos, o voluntarismo de uns e a profissionalização de outros - na implementação e consolidação de projectos de rádio. O autor desenvolveu ainda (embora o pudesse ter feito mais profundamente) o tema da programação das estações. Ele regista ainda que as rádios têm tendência para uma "programação popular, sem qualidade de conteúdos e com uma informação assente na reprodução de conteúdos jornalísticos de outros órgãos de comunicação social".

Retiro, da tese, um conjunto de tendências: 1) media de proximidade (como defendi nos últimos posts) - há uma realidade que os media locais conhecem e trabalham melhor, como a identidade; 2) ligação ao tecido empresarial, cultural e económico de uma zona ou região; 3) entusiasmo das rádios piratas ou livres, juntando pioneirismo, aventura e juventude; 4) evolução sequencial das prioridades e preocupações - tecnológicas, estético-culturais, financeiras e empresariais. Afinal, as questões dos amadores da rádio (década de 1920), dos defensores de televisão de proximidade (década de 1980), dos blogues (anos recentes).

terça-feira, 1 de junho de 2004

TESE DE MESTRADO SOBRE RÁDIO EM DEFESA NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

João Magalhães Perpétuo Correia defende hoje, pelas 15:00, a sua tese de mestrado intitulada A convergência das novas tecnologias para o reforço do interesse e utilidade pública das rádios locais, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em discussão, as estações locais de Viseu. Prometo voltar ao assunto.

AS NOTÍCIAS EM MAIO DE 1974 - II

[continuação da mensagem de ontem]

Faz-se um registo performativo, no sentido dado por John L. Austin (li a tradução francesa: Quand dire, c’est faire. Paris, Seuil, 1970) pela enunciação, produz-se a acção. Um esclarecimento, declaração, desmentido ou comunicado bastavam para negar a ligação de indivíduos à Pide. Uma curiosa carta, assinada pelo secretário-geral da Cidla, desmentia qualquer ligação com o anterior regime e declarava as suas “reconhecidas convicções liberais”, puro acto elocutório. A linguagem transporta a mudança e expressa a nova mentalidade, que incluiu lutas pela abolição de exames nas escolas, do traje de rigor no teatro S. Carlos, das gravatas na Casa do Alentejo, do boné, gravata e crachá dos motoristas de táxi, da gravata ou qualquer outra imposição de roupa nos alunos de uma escola comercial, da farda da empregada doméstica e do cinto de segurança nos instrutores de automóveis e examinadores. A defesa da integridade física, nos primeiros casos, e a liberdade expressa pela assunção de um vestuário mais informal, nos casos seguintes, definiam, pelo discurso, as novas regras sociais.

Houve também a redefinição das carreiras profissionais, com mudança de nomes. Os enfermeiros do centro de saúde mental do Porto exigiam o fim das hierarquias, unindo tudo numa só categoria profissional. Quanto aos 2500 auxiliares de enfermagem, lutaram pela extinção da categoria e a promoção a enfermeiros. Em plenário, os mestres do ensino secundário reivindicaram a substituição da categoria de mestre pela de professor, enquanto os auxiliares de limpeza das escolas queriam passar à categoria de contínuos. Em anúncio dos hospitais centrais de Lisboa, pedia-se a admissão de empregadas auxiliares, abandonando a velha designação de “criada”, e os jardineiros consideravam-se floricultores e não trabalhadores rurais. As mudanças de nomes pertenciam, na maioria, a carreiras de base. Os nomes antigos estavam depreciados; a alteração dava uma aparência democrática de elevação de classe, de aceitação social pelas tarefas desempenhadas.

De reconhecido papel no futuro do país, a escola e a educação têm uma dimensão apreciável nas notícias do mês de Maio de 1974. Sujeitas a tremendas contradições, fruto de uma polifonia de vozes e de interesses, emergem a utopia e os ideais nos discursos sobre a educação. Para os professores de História do liceu D. João III, era preciso redefinir o “papel da história como elemento primordial da integração consciente e responsável do aluno na nova sociedade”. Para um grupo de professores do Porto, em comunicado, “torna-se urgente que libertemos a criança. (Elas) continuam nas escolas e nos liceus a fazer redacções sobre a Primavera, a carochinha, a desenhar canecas, púcaros e outras futilidades. Ainda não se lhes deu oportunidade de tomar parte activa na onda de liberdade que varreu a ideologia fascista do nosso país”. Um grupo de mobilização dos alunos dos liceus de Sintra escrevia, também em comunicado: “o ensino é cooperação. Temos de trabalhar no sentido da destruição das barreiras clássicas entre professores e alunos. Não se trata mais de amontoar conhecimentos à custa de métodos repressivos, autoritários, negação constante da personalidade dos alunos”.

Os professores, em diversas ocasiões e locais protestaram, no início do mês, contra a possível recondução do ministro Veiga Simão. Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa pediam a abolição da tese de licenciatura e na do Porto reivindicavam a abolição dos exames e o fim do ano lectivo. Em reunião geral, aprovava-se a passagem administrativa. Alunos da escola Aurélia de Sousa destituiam a directora, ao passo que a Faculdade de Letras de Lisboa exigia a expulsão de Veríssimo Serrão, Borges Macedo e outros professores e a readmissão de professores afastados por razões ideológicas e políticas. Mas outros alunos defendiam a manutenção de Borges de Macedo. Um abaixo-assinado propunha baixar a média de dispensa de exames do 7º ano de 14 para 12 valores. Os alunos do 3º ano dos liceus do Porto, em petição, pretendiam a dispensa de exames com média de 10 valores. Outros estudantes do secundário iam mais longe, ao exigirem aprovação com 8,5 valores na escrita ou na oral. Outros ainda, um pouco mais moderados, pediam dispensa de exames liceais a partir de 9,5 valores.

Em Coimbra, os estudantes pretendiam a abolição dos exames de admissão à universidade. Uma manifestação em Lisboa, com cerca de sete mil estudantes, estava contra os exames no secundário e selecção para a universidade. A greve pela abolição de exames atingiu os liceus de todo o país. Na sequência disto, o ministro da Educação disse, temeroso: os exames iam realizar-se, “embora num espírito de benevolência”. O discurso de pais e encarregados de educação dos alunos do liceu Rainha D. Leonor era mais radical, ao mostrar-se a favor da abolição do exame, que “não é mais do que uma contraprova redundante de conhecimentos já devidamente avaliados no decurso do ano lectivo”. Quanto aos alunos da escola comercial D. Maria, eles pediam a “anulação dos exames de dactilografia e caligrafia, pois o estado de nervoso do aluno nestes casos específicos não lhe permite dar a mostra real do seu valor”! Uma última reivindicação: acabar com as aulas ao sábado.

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