quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Raiz e Utopia (1977-1981)

Dentro do programa dos 60 anos do Centro Nacional de Cultura (CNC), decorreu hoje uma sessão comemorativa da revista Raiz e Utopia. Tratou-se do começo da reflexão sobre a revista, agora sobre o manifesto que esteve na sua origem e o seu percurso, e que terá continuidade em 2005 com a edição das actas do encontro de hoje e de uma antologia de textos da revista, conforme disse Guilherme Oliveira Martins, presidente do CNC.

Tenho algures o número 1, mas comprei hoje o número duplo 9/10, dedicado ao tema Educação em Portugal.

Extraio dela uma pequena nota do antigo ministro da educação Veiga Simão numa mesa redonda: "na estrutura dos EUA as escolas profissionais não são como as nossas. A entrada do estudante após a conclusão do ensino secundário não se verifica imediatamente nas escolas superiores de Medicina. Para que se entre numa escola de Medicina nos EUA é necessário tirar primeiro o grau de bacharel. O numerus clausus aparece não na entrada após o 7º ano [antigo último ano do secundário], mas após o grau de bacharelato devidamente diversificado, o que dá origem depois a um leque de possíveis opções. É o chamado sistema de «dois estádios»". A pergunta que faço é: a discussão actual sobre os dois ciclos da formação universitária não tem ainda a ver com este dispositivo?

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Quem falou hoje

Guy Coq, da revista Esprit, chamou a atenção para a feliz designação da revista Raiz e Utopia (R & U), que comparou à dicotomia entre água e fogo. Se a raiz permite à árvore alimentar-se da terra, ligando-se à origem, desde Thomas More (1478-1535) fala-se sobre a utopia. Coq fez um discurso recheado de referências históricas, filosóficas e culturais.

Já Carlos Medeiros, um dos fundadores da R & U, situou o começo da ideia da revista nos começos de 1975, quando o seu manifesto foi escrito. Eram três homens: ele, António José Saraiva (o pai do director do Expresso) e José Baptista. A visão deles era centrar a sociedade no homem, uma espécie de solução libertária nem ligada ao mercado nem ao Estado (convém lembrar que o regime político de então, ao avesso do regime fascista caido em Abril de 1974, aproximava-se da solução totalitária existente no leste Europeu).

O mesmo orador destacou três fases da revista: a primeira em que estavam os três envolvidos no projecto, a segunda em que saíu José Baptista e a terceira em que Carlos Medeiros apoiou Helena Vaz da Silva, uma das mais destacadas obreiras da R & U. Foi dela - ausente sempre presente - que o marido, Alberto Vaz da Silva, se referiu. Este orador destacou dois tempos da revista: um mais imediato e simples, outro mais duradouro e crítico. Aquele com intervenções: justiça, agricultura, movimentos estudantis, rádios livres, condição da mulher. Este mais inteligível hoje, com um cruzamento do diálogo da filosofia com as outras ciências sociais, debatendo-se política, ecologia, emigração, radicalismos, esoterismo - ou seja, uma encruzilhada de esperanças.

Não foi uma comunicação emocionada a de Alberto Vaz da Silva, mas quase. Afinal, todos nos gostámos muito da Helena Vaz da Silva, desaparecida em Agosto de 2002 - pelo seu sorriso aberto e bonito, pela sua energia nos projectos, pela sua permanente luta cívica.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Canal televisivo árabe banido de França

Há pouco tempo fiz aqui referência ao lançamento de um canal de televisão por satélite, em língua árabe, em França. O canal Al-Manar, perto do grupo radical palestiniano Hezbollah, prometera não fazer campanha anti-semita. Agora, a França solicitou à Eutelsat, o operador de satélite com sede em Paris, para parar com as emissões de televisão daquele canal. O director de informação do canal árabe diz que a decisão francesa é política e ilegal.

Apesar de eu não acreditar, desde o começo, na imparcialidade do canal, parece-me que a posição assumida pela França vem na sequência da questão do véu, o que não será muito tolerante. Isto porque abrir e, depois, fechar, significa errância política. Feita a publicidade, será relativamente fácil à Al-Manar alugar espaço num outro satélite ou emitir pela internet. Há cada vez mais alternativas e relativamente baratas.

Fonte: European Journalism Centre.

À descoberta de Virgínia Quaresma (1882-1973)

Procurando informação sobre Vírgina Quaresma no motor de busca Sapo, encontram-se duas referências indirectas à jornalista. Uma delas, presente no blogue História e Ciência, de Sandra Cristina Almeida. Escrevendo sobre Maria Lamas, indica que esta, em 1920, "Vai trabalhar para a Agência Americana de Notícias (AAN), dirigida por Virgínia Quaresma, por intermédio de Maria Torres, viúva de Óscar Monteiro Torres".

A outra lê-se no sítio da Associação de Professores de História, em que João Esteves escreve sobre agremiações feministas. Lá vem Virgínia Quaresma, jornalista da Alma Feminina (anos 1907 e 1908).

Mas ficamos mais elucidados com a leitura da impressiva entrevista concedida por Maria Augusta Seixas a Carla Baptista no último número da JJ, como registei aqui ontem. A jornalista da RTP escreveu uma tese de mestrado sobre Virgínia Quaresma, na Universidade de Coimbra, e prepara-se para a editar na MinervaCoimbra, em colecção dirigida por Mário Mesquita.

Diz Augusta Seixas: "A Virgínia escreve muito bem, com uma grande fluência, com um registo muito factual. Os relatos dela de crimes, por exemplo, são verdadeiros guiões para filmes. Está lá tudo. Só falta mesmo o cheiro. [...] Eu sustento que a Virgínia foi uma jornalista que, na época, muito contribuiu para lhe dar consistência, fazendo da reportagem um género nobre".

A revista JJ traz, na página 39, fotografias da jornalista Virgínia Quaresma. Como eu gostaria de as reproduzir. Fico à espero do livro.

Observação escrita em 13.7.2014: existe na Biblioteca Nacional uma cópia da dissertação de mestrado de Augusta Seixas: Virgínia Quaresma (1882-1973: a primeira jornalista portuguesa (cota: P. 20759 V.).
RUA DE BAIXO

A Rua de Baixo é o nome de um e-zine mensal. Na apresentação do sítio, pode ler-se: "teremos informação sobre todas as áreas da esfera cultural nacional. No mundo da música, estaremos atentos a novos projectos e novos lançamentos discográficos. Daremos bastante importância à divulgação de espectáculos, ao cinema independente e menos comercial, às novas tendências no mundo da moda". O e-zine, continua a ler-se, "assume-se como um projecto do seu tempo e do tempo vindouro, moderno e de leitura fácil, virado para um público maioritariamente jovem que procura alternativas ao já existente em Portugal".

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Retiro uma parcela de um texto assinado por Hugo Pinheiro sobre a banda portuguesa Hipnótica, que "celebra em Janeiro os seus dez anos de carreira. Para comemorá-los está prevista a edição de um livro-disco que tem como título Breves histórias sob o efeito de Hipnótica. Esta obra é uma viagem pelo percurso da banda ao longo destes dez anos, onde se integra uma compilação que abarca todos os registos do colectivo, ao longo de 13 temas. O livro inclui textos dos jornalistas Vítor Junqueira, Fernando Sobral e Jorge Manuel Lopes, assim como fotografias de Lois Gray. Para a apresentação do livro a banda portuguesa convidou Wolfgang Schloegel, dos Sofa Surfers, responsável pela produção do último registo discográfico do grupo, Reconciliation".

A newsletter pode ser subscrita gratuitamente no endereço acima indicado. Espero que o projecto continue por muito tempo e tenha sucesso.

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

BLOGUES E COMENTÁRIOS

Um blogueiro anda (ou deve andar) sempre atento ao que a blogosfera produz. E sugerir visitas a outros blogues. Por questão de fidelidades e de escolha muito apertada [não selectiva mas apenas apertada], coloquei aqui na coluna do lado direito um conjunto muito pequeno de blogues de referência (para mim). Mas há muitos outros que eu visito regularmente (ou nem sempre, porque o tempo é escasso).

Hoje, quero saudar um blogue do outro lado do Atlântico - até pela referência simpática que é feita ao I.C. - Every flower is perfect, de Raquel [não sei o nome de família], jornalista, professora universitária e doutoranda em Comunicação e Informação pela UFRGS (Rio Grande do Sul, Brasil).

Mas também quero destacar o trabalho notável de João Paulo Meneses, o lisboeta que mora em Vila do Conde e trabalha no Porto e em Vila Nova de Gaia, no seu Blogouve-se. E distinguir ainda um comentário de um seu leitor assíduo, Luis António Santos, do blogue Atrium - que eu também leio frequentemente (nós lemo-nos uns aos outros, fazemos parte de uma rede cada vez mais forte).

Comentava Luís António Santos no domingo passado: "...e importava retomar também uma outra conversa sempre adiada: um relatador (penso que é assim que se diz!) desportivo (como o que, hoje mesmo, tão entusiasticamente gritou o golo de Pedro Emanuel no Japão) é um jornalista?".

Ao que é que se refere o blogueiro de Braga? Ao locutor da Antena 1 que relatou o jogo de futebol em que o F.C.Porto se sagrou campeão mundial de clubes de futebol no domingo passado. O Luís António Santos é muito sensível à rádio e eu compreendo a sua posição. Contudo, eu fiz uma leitura oposta à dele sobre esse pequeno bocado de emissão.

A rádio não pode competir com a televisão, pois não tem imagem. O locutor de rádio tem de dar o colorido. Como é que o fez? Ficando rouco, pedindo quase ao Céu que o Porto ganhasse e que o azar fosse para os columbianos. Foi correcto nessa postura? Não, mas deu uma dinâmica tal que eu, normalmente frio a essas manifestações, quase que deixava o carro ir abaixo (ia a conduzir entre o Porto e Matosinhos, depois de ver a exposição de Paula Rego), tamanha a emoção ao ouvir as suas palavras na rádio.

Um quase silogismo: a voz do locutor encheu a rádio. A rádio é o medium mais importante de todos. A transmissão do jogo (aqueles momentos finais) ficará memorável (pelo menos na minha memória).
JORNALISMO E JORNALISTAS, Nº 20 (OUTUBRO/DEZEMBRO 2004)

JJ.JPGÉ o número comemorativo do quinto ano de publicação da revista do Clube de Jornalistas, a Jornalismo e Jornalistas, ou JJ, como lhe referimos com afecto. Os meus parabéns aos responsáveis da revista, Eugénio Alves e Fernando Correia. Também manifesto muita alegria por eu ser um colaborador o mais regular possível.

Este número, como sempre, tem motivos de muito interesse. Destaco - e a escolha pessoal é sempre conflituosa - o artigo de Isabel Ferin da Cunha (Um olhar sobre os jornais televisivos do prime-time no ano de 2003) e a entrevista a Maria Augusta Seixas, conduzida por Carla Baptista.
ELEMENTOS PARA A COMPREENSÃO DA REDACÇÃO DIGITAL

Desde sempre, mas especialmente nos últimos anos, as redacções dos media têm sofrido alterações profundas na perspectiva tecnológica. María Bella Palomo fala mais em evolução do que revolução ou reinvenção (Palomo, 2004: 34). Ela referencia o telemóvel que permite estabelecer uma comunicação em directo, sem necessidade de microfones ou sistemas complexos de transmissão, recolhendo declarações radiofónicas em permanência.

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A internet incorpora diversas ferramentas: correio electrónico, fóruns ou grupos de discussão, motores de busca, bem como o som, o vídeo, as cartas geográficas interactivas. José Pedro Castanheira (2004: 88) observa que os jornalistas do Expresso, semanário onde trabalha, têm correio electrónico, a ferramenta mais usada na internet. Há mesmo quem considera que o e-mail alterou tanto as rotinas dos jornalistas como outras tecnologias o fizeram: telégrafo, telefone, fax, satélite. Das principais mudanças, enumeram-se as da maior precisão, descentralização e instantaneidade (Palomo, 2004: 37).

E-mail e fórum: duas ferramentas imprescindíveis na comunicação de hoje

Castanheira entende que, hoje, se verificam vantagens no uso do e-mail em detrimento do telefone no contacto com as fontes de informação. Aplicado ao jornal Expresso (edição digital), existe desde 10 de Janeiro de 1998 a possibilidade de os leitores enviarem comentários a artigos nele publicados. Também se disponibilizaram endereços electrónicos de elementos da direcção do jornal desde 7 de Outubro de 2000. Isso torna possível a conversão simultânea de informantes e informados. Jornalistas e leitores podem criar notícias, consumir e aceder às mesmas fontes de informação. Isto é: potencialmente, qualquer utilizador da internet pode redigir uma notícia e colocá-la na rede. Além disso, já não existem barreiras geográficas: em qualquer parte do mundo pode-se publicar um texto.

omirante.gifQuanto aos leitores/utilizadores, o fórum ou grupo de discussão é a ferramenta ideal para se ligar ao jornalista ou comentador, desempenhando igualmente o leitor o papel de comentador. Apesar de delimitação de um tema, os leitores aproveitam tais espaços para abordar outros assuntos, frequentemente à margem das notícias que deviam comentar (Castanheira, 2004: 95). O fórum torna-se um espaço que o leitor defende em termos de quase propriedade sua.

Se há vantagens na relação entre jornalista e leitor que a internet proporciona, esta é também responsável pela alteração de perfis profissionais (ou mesmo o seu desaparecimento). A internet e as bases de dados associadas aquela geram um tipo de jornalistas auto-suficientes. O acesso directo a fontes primárias e secundárias reduz as tarefas dos documentalistas, substituídos por motores de busca como o Google. Também a presença de programas de software de correcção ortográfica acaba com a necessidade de revisores, ao passo que as máquinas digitais de fotografia eliminam o processo de revelação e a rede possibilita que um canal de televisão ou de rádio alcance audiências a nível mundial (Palomo, 2004: 41-42).

Estas alterações também facilitam a actividade empresarial, tornando os contactos mais baratos (para entrevistar alguém no outro lado do planeta basta mandar uma mensagem com as perguntas e esperar a resposta).

Leituras: Castanheira, José Pedro (2004). No reino do anonimato. Estudo sobre o jornalismo online. Coimbra: MinervaCoimbra
Palomo, María Bella (2004). El periodista on line: de la revolución a la evolución. Sevilha: Comunicación Social Ediciones e Publicaciones

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

O FILHO DA RAINHA GORDA

monica1.JPGA rainha gorda era a D. Maria II, o filho foi o rei D. Pedro V. Filomena Mónica escreveu parte da história para dar de presente às netas há um ano atrás. Felizmente que a editora a convidou a publicar.

Se toda a História de Portugal fosse assim contada - como se fosse um conto infantil, aliás, o público-alvo inicial, seria muito agradável ler e aprender.

Obrigado, Maria Filomena Mónica. Foi um prazer ler o seu texto este serão.

Leitura: Mónica, Maria Filomena (2004). O filho da rainha gorda. D. Pedro V e sua mãe, D. Maria II. Lisboa: Quetzal. 78 páginas, € 14,95. Capa: D. Pedro e um cavalo de pau. Água-forte do rei D. Fernando (marido de D. Maria II).


SISMO EM LISBOA

Eu também senti o abalo sísmico do princípio da tarde aqui em Lisboa. Uma primeira reacção foi a de eu próprio estar a sofrer um ataque cardíaco. Mas as folhas da planta aqui ao pé da janela também tremiam. Olhei para o tecto a ver se havia alguma fenda, mas tudo não passou de um susto.

Escrevi o parágrafo acima, porque a procura no Google do tema sismo em Lisboa também passou pelo meu blogue. Em Agosto escrevi uma mensagem onde falava sobre a matéria, razão suficiente para algumas visitas ao meu blogue. Espero que os leitores tenham tido proveito na leitura, e que tudo continue bem, sem receios de maior.
HÁ OU NÃO HÁ FUTURO PARA O DAB?

As vendas de aparelhos de DAB no Reino Unido podem chegar ao milhão de unidades no próximo mês de Janeiro, encorajadas pelas vendas de Natal, prevê a BBC. Trata-se de uma projecção da Secretaria de Estado inglesa para a Cultura, Media e Desporto, lê-se hoje no blogue Media Network Weblog.

Em relatório, a BBC afirma estar totalmente comprometida com o DAB e, graças aos seus esforços, mas também dos fabricantes e dos comerciantes, a rádio digital parece ser uma das histórias de sucesso do ano. A ser assim, há futuro para o DAB, ao contrário de outras conjecturas, e que aqui já registei. Aquela estação pública acredita que o DAB é a única tecnologia capaz de conduzir a maioria dos ouvintes a deixarem o sistema analógico e optarem pelo digital.

Todavia, a indústria e o país não estão ainda preparados para o switchover digital. O mesmo relatório recomenda que o Governo estabeleça até daqui a três anos a data do “apagão” analógico, isto é, a passagem para a rádio digital. É que, entre outras matérias delicadas, há a questão do espectro de frequências, permitindo emigrações de serviços comerciais, bem como o apoio governamental ao desenvolvimento de uma indústria sólida e de padrões de qualidade nos aspectos tecnológicos que assegurem a satisfação dos consumidores.
SOBRE A IBM

A semana passada, quando se soube da venda da divisão de computadores pessoais da IBM, houve um momento de estupefacção. Desde quase o começo dos computadores pessoais estes eram sinónimo de IBM ou compatíveis (as marcas brancas que imitavam a IBM). O desaparecimento da marca IBM dos computadores pessoais seria mesmo o fim de uma época, escreveu-se há dias.

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Uma leitura mais atenta do Sunday Times de ontem e do Público (caderno "Computadores") de hoje tornou mais clara, para mim, toda a transformação. O formato broadsheet do Sunday tem possibilidades estéticas que o formato tablóide do Público não tem, pelo que escolhi uma parcela do jornal inglês para colorir esta mensagem. O título do Sunday é ilustrativo: "Devorado pelo dragão". E o que conta o texto assinado por David Smith e Dominic Rushe? Primeiro, descreve-se o simbolismo da marca - a IBM, intimamente ligada ao negócio dos computadores e sempre chamada a Big Blue, a cor da companhia, é uma das três marcas mundiais mais conhecidas do mundo, conjuntamente com a Coca-Cola e a Microsoft.

A transferência do controlo do negócio de computadores da IBM para a Lenovo, o maior fabricante de computadores pessoais da China, por 1,75 mil milhões de dólares, era inimaginável dias ou semanas antes. É que a Lenovo, baseada em Beijing e controlando um quarto do mercado chinês, representa apenas um terço do volume anual de vendas da IBM. Mas os responsáveis da empresa chinesa vêem longe: durante cinco anos têm o direito de usar o nome IBM, para além da aquisição dos nomes ThinkPad e ThinkCentre, e preparam-se para desafiar a Dell, que ascendeu a número um no mercado dos PCs.

A Lenovo pode ser a primeira marca global chinesa. Se, até agora, o produto chinês trazia associada a si a etiqueta de barato, com a tendência iniciada pela Lenovo um produto elaborado naquele gigantesco país passa a significar também alta qualidade. E os chineses seguem o que os norte-coreanos fizeram com a Samsung, que passou do quase nada para 23ª terceira marca mais importante do mundo, concorrendo directamente com a Sony. Além de que representa uma estratégia de aquisição internacional capaz de tornar as empresas chinesas players globais. As empresas chinesas estão interessadas em marcas, redes de distribuição, tecnologia e sistemas de gestão, afinal os pontos fundamentais da cadeia de valor das indústrias.

domingo, 12 de dezembro de 2004

LIV ULLMANN

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Recordo-me de vê-la nos filmes de Ingmar Bergman, de quem tem uma filha. Norueguesa, embora nascida em Tóquio (1938), foi-lhe atribuído ontem, em Barcelona, um prémio pelo seu contributo ao cinema (conferência de actores). E a revista dominical do El Pais de hoje dedica-lhe um artigo, donde retiro parte de uma página, onde se vê Ullmann ao lado de Bergman.

A actriz de Persona (em Portugal recebeu o nome de Máscara), um dos filmes mais emblemáticos de Bergman, reivindicou, no encontro de Barcelona, a ética do cinema. Para ela, os actores podem contribuir para um mundo melhor, indo além dos discursos vazios dos políticos. A profissão deve comprometer-se com a sociedade, disse. Para além da sua actividade como actriz, Ullmann é também realizadora e tem-se destacado como membro da ONG International Rescue Committee (IRC), que apoia refugiados, e como embaixadora da UNICEF.

Retiro, da edição do El Pais de hoje (p. 42), algumas das suas palavras proferidas na cerimónia de ontem, ao falar do filme Umberto D., de Vittorio de Sica, que ela viu quando tinha 13 anos: "Apesar de ser uma menina do norte, querida e mimada pela sua família, via no ecrã aquele ancião sem lugar vaguear pelas ruas, e sabia perfeitamente como se sentia; a sua dor era a minha dor; a sua solidão impregnava-se no meu corpo; o seu medo faz bater o meu coração com mais força; o episódio da perda do cão fez-me chorar. Umberto D. e eu éramos um, inclusive hoje reconheço-me na história".
PÚBLICOS DE CULTURA. A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO DE PAULA REGO

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No dia 10, escrevi sobre públicos de cultura, comentando a intervenção de duas responsáveis do CCB. Hoje, de novo,volto ao tema, agora a propósito da exposição de Paula Rego, no Museu de Serralves (Porto).

rego2.JPGNão sou grande fã da pintura da portuguesa radicada em Londres. Indispõe-me a sua pintura melancólica - porque visceral ou perto de expor as vísceras através dos orifícios do corpo humano, ou erótica, ou de um jogo de sedução entre homens e animais ou de relações entre gerações muito novas e muito velhos, como se tratasse de uma iniciação à vida.

Contudo, tenho de constatar um facto: a sua obra movimenta muitos visitantes. Já não me recordo de ver tanta gente num domingo de manhã, como hoje na Casa de Serralves (uma colega minha dizia, há poucas semanas atrás, que esteve duas horas na fila para entrar).

Tal encaixa-se na discussão que tive recentemente com os meus alunos acerca do texto de Margarida Lima de Faria Museus: educação ou divertimento?. Aí, ela dá conta de um estudo empírico sobre públicos de cultura num museu, neste caso 50 famílias que visitaram o Museu de História Natural de Londres. Na investigação, foi possível caracterizar os movimentos antagónicos protagonizados pelos diferentes grupos de idade, com os seus comportamentos. Concluiu-se que o relacionamento entre os elementos das famílias adquire diferentes formas durante a progressão da visita, com funcionamentos: neutro, convivial, empenhadas na educação, autoritário (Faria, 1995: 186-187).

Do catálogo

Hoje, vi casais mais velhos, casais mais jovens, crianças, pessoas sozinhas ou em grupo, sorrindo, trocando opiniões, apontando com o dedo algumas das obras de Rego, levando debaixo do braço o catálogo da obra da pintora. Exactamente como Margarida Lima de Faria descreve no seu texto.

No começo do catálogo, escreve o director do museu, João Fernandes: "O Museu de Arte Contemporânea de Serralves tem a grande honra de apresentar uma exposição antológica dos últimos sete anos de trabalho de Paula Rego. Esta mostra reúne trabalhos representativos de um período extremamente produtivo na obra da artista".

Para além do director do Museu, assinam textos do catálogo Ruth Rosengarten e Marco Livingstone. Trata-se de um livro fundamental para o estudo da obra da pintora.

Leituras: Margarida Lima de Faria (1995). “Museus: educação ou divertimento?”. Revista Crítica de Ciências Sociais, 43: 171-195
Museu Serralves (2004). Paula Rego. Porto: Fundação de Serralves. 244 páginas, €48
LIVRARIAS DO PORTO

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livraria14.JPGA exemplo do que fiz com algumas das livrarias de Lisboa (mensagem de 27 de Novembro último), reproduzo aqui imagens de três livrarias do Porto (Lello, Leitura e Latina). Nelas há motivos alusivos ao Natal e a um tipo de livros agora mais em evidência em termos de compra e oferta de prendas: os livros-álbuns.

A segunda delas - Leitura - é aquela onde mais comprei livros durante os largos anos em que vivi no Porto: história, arte, comunicação, literatura.

sábado, 11 de dezembro de 2004

COMUNIDADES IMAGINADAS - II

[continuação da mensagem de 7 de Dezembro]

Audiências ou públicos imaginados

Quando vou ao cinema, compro um bilhete para ver uma exposição no CCB ou adquiro uma revista especializada, que relação estabeleço com outros consumidores ou públicos das indústrias culturais?

Do mesmo modo que Barbie Zelizer fala em comunidades interpretativas quando se aplica ao estudo dos jornalistas - em que estes se unem "pelo seu discurso partilhado e pelas interpretações colectivas de acontecimentos públicos relevantes" (2000: 33) - também temos de pensar em públicos ou comunidades de consumidores (ou de fãs, ou adeptos) que partilham gostos e perspectivas.

Lacey (2002: 182) distingue as audiências através das classes socioprofissionais: 1) A – profissionais (advogados, médicos), cientistas, gestores de grandes organizações, 2) B – proprietários de lojas, agricultores, professores, empregados de colarinho branco, 3) C1 – trabalhadores manuais especializados – nível elevado, como construtores (empreiteiros), carpinteiros, enfermeiras, 4) C2 – trabalhadores manuais de nível mais baixo, como electricistas e canalizadores, 5) D – trabalhadores semi-especializados, como condutores de autocarros, 6) E – trabalhadores sem especialização, como porteiros e empregados de mesa.

O mesmo autor define ainda as audiências em termos de valores, atitudes e estilos de vida (AVEV). São as variáveis psicográficas, divididas em realizadores, cumpridores, empreendedores, experimentadores, confiantes, esforçados, criadores e lutadores.

Leituras: Anderson, Benedict (1983/1999). Imagined communities. Reflections on the origin and spread of nationalism. Londres e Nova Iorque: Verso
Lacey, Nick (2002). Media institutions and audiences. Key concepts in media studies. Nova Iorque: Palgrave
Zelizer, Barbie (2000). "Os jornalistas enquanto comunidade interpretativa". Revista de Comunicação e Linguagens, 27: 33-61

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

PÚBLICOS DE CULTURA, PÚBLICOS DE ARTE

Na aula de ontem de Públicos e Audiências, houve duas convidadas, pertencentes ao Serviço Educativo do CCB (Centro Cultural de Belém), Bárbara Coutinho e Marise Francisco [as fotografias que lhes tirei não ficaram nada boas, reconheço. As minhas desculpas às duas e aos leitores do blogue].

CCB5.jpgCCB6.jpgO que trouxeram à aula? Uma experiência prática em trabalhar com públicos de arte. Isto é: criação e fidelização de públicos e estratégias em torno da criatividade e inovação quanto a esses públicos. Fizeram ainda referência a quatro projectos desenvolvidos no CCB.

O CCB, que abriu em 1993 - após servir de sede da presidência portuguesa da União Europeia -, tem duas áreas fundamentais: espectáculos e exposições. O Serviço Educativo, criado em 1998, está ligado a esta segunda valência. A sua função principal é a de animar cultural e pedagogicamente as visitas. Podemos dizer que se trata de um departamento de comunicação orientado para os vários públicos que visitam o CCB, preparando informação a eles destinada (nas exposições) ou animando cursos de formação. Objectivo - fazer a ligação entre os públicos e os criadores de arte contemporânea.

Curioso que, apesar de ainda não existir um estudo sociológico dos públicos do CCB (um trabalho feito com a índole dos desenvolvidos pelo Observatório de Acrividades Culturais desenrola-se no tempo e custa muito caro), o acumular de experiência leva à conclusão que quem visita o CCB quer mais informação sobre o edifício em si (arquitectura, história) e a sua contextualização quer com o espaço circundante, caso dos Jerónimos, quer com a própria cidade.

Números e projectos

Se, em 1998, houve um número inferior a 5000 visitantes recebidos pelo Serviço Educativo, este valor tem vindo a crescer, chegando aos 30 mil o ano transacto (visitas a ateliês, cursos, workshops, oficinas). O aumento de públicos que o Serviço Educativo apoia prende-se, por exemplo, com a necessidade de descodificar a arte contemporânea, com códigos de leitura muito próprios, necessitando de interlocutores que expliquem esses códigos [Em termos absolutos, o CCB teve o ano passado 140 mil visitantes, uma pequena diminuição relativamente ao ano anterior, explicável pela crescente oferta cultural na cidade].

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Das estratégias para cativar e fidelizar os públicos, o Serviço Educativo criou: 1) cartão de professor (um agente amigo ligado às escolas e universidades e relacionado ainda com famílias e amigos), com regalias como desconto em catálogos e nos cadernos pedagógicos, 2) cursos de formação, em horário pós-laboral (em arte contemporânea, arquitectura, cinema, teatro, design), visando a educação e sensibilização do olhar, 3) perto da vista, programa associado à exposição do fotógrafo Gerard Castello Lopes, 4) serviço Ask me, com jovens identificados com uma camiseta e disponíveis para darem informação sobre as peças e obras em exposição.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

trajectos.JPGREVISTA TRAJECTOS

Tive agora oportunidade de comprar a edição nº 5 da Trajectos, referente ao Outono de 2004.

O dossiê é sobre as tecnologias da informação no trabalho. Destaco, porque tenho acompanhado algum do seu trabalho mais importante, os textos de Gustavo Cardoso e de Maria Eduarda Gonçalves. No corpo da revista, saliento ainda os textos de Adelino Gomes, Avelino Rodrigues e Tito Cardoso e Cunha. Director da revista: José Rebelo. Preço: €12. 153 páginas de texto.

Observação: comprei o meu exemplar na "Bertrand" do Centro Comercial Vasco da Gama. Apesar de todas as críticas que se possam tecer às lojas que destacam, de modo inusitado, os best-sellers [o que é o caso, com os Códigos da Vinci e as memórias de Pinto da Costa], destaco a luminosidade do espaço e a pequena cafetaria. Além disso, tem um pequeno escaparate com revistas (como a "Almedina" do Saldanha, enquanto a "Barata", na Av. de Roma, o aboliu e arrumou as revistas científicas junto das generalistas). Os livreiros têm de ser amigos dos editores destas revistas, dada a sua especificidade (que operam em autênticos nichos de mercado).

Novela Quinta das Celebridades

A Quinta das celebridades é um fenómeno das indústrias culturais a que não posso desvincular-me do seu estudo. Apesar de programa televisivo orientado para as classes C2, D e E, também as classes sócio-económicas-profissionais A, B e C1 vêem o programa, embora o confessem de modo envergonhado. O voyeurismo é uma das razões porque vêem. Ou escapismo, se preferirem.

quinta1.JPGMas interessa-me também analisar o fenómeno das revistas cor-de-rosa, quase dedicadas em exclusivo - em termos de capas - ao programa da TVI chamo-lhe programa e não reality-show, pois se trata mais de uma telenovela do que um programa real, com um forte recurso a um guião pré-formado e à montagem).

Seleccionei três revistas, todas custando o mesmo preço: €1,25. Na Nova Gente, o título é: Paula Coelho conta toda a verdade. Tira o passado a limpo e desmente.... Na VIP, pertencente como a anterior ao grupo Impala, o título é: Bela e sensual em Marrocos. Ana Afonso: "os sentimentos do Frota por mim são verdadeiros". Já na TV Mais, da Edimpresa, o título é: Betty Grafstein revela: "Passou a noite a dar-me beijos na boca". Friso que as observações aqui produzidas não tem em mente valores de gosto ou moral (se for por este tipo de objectivos, a sua análise negativa não me permitiria ir mais à frente).

Ana Afonso, Paula Coelho, José Castelo Branco (e a sua mulher Betty Grafstein, somente convidada para um serão), Alexandre Frota e Cinha Jardim fazem parte do elenco inicial do reality-show. As mulheres aqui nomeadas já sairam do programa, alimentando as revistas com entrevistas e photo-opportunities. Retirando Cinha Jardim, já presença longínqua das revistas do coração, eu não conhecia mais ninguém. E quase ninguém conhecia estes nomes (claro, os "especialistas" conheciam Paula Coelho, a apresentadora do Nutícias).

Modelos de dominação e de subordinação

Olhando o programa de televisão e lendo as revistas podem encontrar-se duas linhas de personalidades, que separam os géneros para cada lado: os homens são fortes, as mullheres frágeis. Dito de outro modo, os homens representam dois subtipos mas ambos dominantes e vitoriosos na narrativa televisiva (embora tocando extremos do ponto de vista dos estereótipos: Alexandre Frota tem uma profissão pouco recomendável como actor de filmes pornográficos, Castelo Branco tem uma sexualidade ambígua). A narrativa da Quinta assentou, desde o começo, nestes dois elementos (inicialmente, as sínteses do programa quase que só mostravam os dois, para maior reconhecimento e fixação nas audiências).

Já quanto às mulheres, possuem carácteres dominados, em busca da orientação superior masculina. Olhando melhor as capas das revistas, as mulheres estão prontas a "vender-se". As fotografias roçam entre o erótico e o pornográfico: Ana Afonso, mais jovem, está ávida de novas conquistas (embora confessando "sentimentos" de Frota), Paula Coelho, mais velha, sabe que a idade é um factor inibidor da sedução feminina (confessa manter a paixão por um "antigo" namorado). A meu ver, programa e revistas traçam uma postura dominante machista. Dito de outra maneira: as revistas mostram mulheres sozinhas que procuram companhia masculina.

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As revistas reconstituem a narrativa da televisão. Se o programa da TVI tem cenários baratos e repetitivos (tudo se passa num só espaço), as revistas alargam essa dimensão. Podemos dizer que, enquanto numa telenovela com raízes históricas a produção de cenários é cara, o custo do cenário do reality-show é muito inferior mas complementado pelas histórias saídas nas publicações. Boatos e intrigas de menor peso alimentam uma curiosidade que circula entre televisão e revistas. Estas, por seu turno, rodam personagens, privilegiam ou inventam pequenas cenas familiares, negócios e dissidências (visita de Betty Grafstein à quinta, pedido de maior remuneração de Cinha Jardim e Castelo Branco, comercialização dos filmes pornográficos de Frota, alguém que diz estar grávida de Frota). Além disso, as revistas fazem publicidade (pelo menos indirecta): Betty Grafstein vestia um vestido Valentino e mala e sapatos Dior quando entrou no serão da Quinta.

Efeitos das revistas e reciprocidade entre estas e a televisão
As revistas funcionam em torno de um centro que é o programa da televisão, mas alimentam este. Posso concluir que existem vários efeitos: 1) repetição (as personalidades passam pelas publicações com variações em torno de um tema principal), 2) entreajuda (a necessidade mútua de publicitação de factos e personalidades entre televisão e revistas), e 3) alavanca, caso da revista do grupo de Pinto Balsemão, com promoção do programa de Herman José, o Quintal dos ranhosos, que critica a Quinta.

Reforça-se a ideia de complementaridade e de circularidade nas narrativas da televisão e das revistas: além da cena de entrada na Quinta da mulher de Castelo Branco, também as filhas de Cinha Jardim visitaram a mãe e Ana Afonso esteve com Alexandre Frota, após a expulsão daquela. O dispositivo narrativo afasta-se do criado no Big Brother, em que os concorrentes expulsos não podiam regressar ao local. A maleabilidade na saída e entrada de personagens aproxima-se do modelo de novela clássica, permitindo uma recomposição de papéis a todo o momento, o que serve para captar melhor a audiência, que também aprecia as lutas entre bons e maus, entre papéis simpáticos e altivos.

Desenham-se histórias autónomas das personagens (os que ainda estão dentro e os que estão fora), criando uma rede de situações e de acontecimentos - o elemento fulcral de uma novela, acima assinalado. Neste caso, existe um número variado de argumentistas, não operando a partir de um centro (a produção) mas segundo estratégias próprias de cada meio de comunicação. A isto junta-se a ideia de que os media - neste caso, a televisão e as revistas - se articulam num esforço de ganhos (visibilidade, financeiros) comuns, apesar da concorrência entre grupos mediáticos.

Uma última constatação neste muito breve sumário das características das revistas de coração em volta de um tema: apesar do grupo-alvo principal ser o género feminino em geral, haverá uma distinção mais fina. A Caras dirige-se para um público levemente mais culto enquanto as revistas aqui analisadas procuram um público ainda menos ambicioso em objectivos informativos. Mas há ainda a equacionar o fenómeno da canibalização: a Impala, por exemplo, possui duas revistas num segmento de mercado similar, a Nova Gente e a VIP, cujas capas têm como assunto principal o reality-show. Isto levará, com certeza, ao desaparecimento de uma das publicações.

A não ser que haja uma estratégia agressiva de capas (embora ambas, nesta edição, se sustentem em fotografias ousadas, um nú "artístico" e um biquini). Isto é, as revistas são orientadas para uma audiência feminina mas a que o público masculino se rende.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

O QUE LI NO PÚBLICO DE HOJE

Sobre a programação da Culturgest para 2005, o administrador Miguel Lobo Antunes destacou a continuidade do Festival DocLisboa, um sucesso de públicos este ano - como aliás aqui reportei. Para o próximo ano, prevê-se também uma parceria com a ExperimentDesign, numa mostra de cinema e vídeo, a Designmatography.

Em peça assinada pela jornalista Kathleen Gomes (pág. 39 da edição impressa), foi ainda destacado o interesse em conhecer melhor os públicos que frequentam a Culturgest. Assim, e a exemplo do que já existe no CCB, será criado um serviço educativo. O administrador da Culturgest disse haver necessidade da existência de um público "mais fiel e mais constante", bem como ter mais público jovem e uma "permanente atenção à forma como o público reage às propostas". Nesse sentido, haverá lugar para o lançamento de um bilhete especial em cada espectáculo, de custo de €5 para jovens até aos 30 anos.
CONCERTOS DE NATAL

Referi aqui, no dia 1 deste mês, a realização de concertos de Natal, organizados pela Câmara Municipal de Lisboa para o período entre 2 e 19 de Dezembro.

natal 1.JPGNo último fim-de-semana assisti a dois deles. O segundo, no domingo, na igreja de S. Vicente de Fora, teve a orquestra barroca Capela Real e o Coro de Vozes Caelestes. Tocaram e cantaram Häendel (excertos do Messias), Vivaldi (excertos do Glória), Carlos Seixas (Dixit Dominus) e o Concerto para a Noite de Natal, de Corelli. Um grande profissionalismo de todos os artistas, um grande concerto, a igreja cheia [imagem: árvore de Natal, perto do CCB, em Belém].

O primeiro concerto, no sábado à noite, decorreu na igreja dos Paulistas, à Calçada do Combro (no séc. XVII, a rua era uma mais importantes áreas comerciais da cidade, o que significa que esta igreja barroca assumiu um grande peso; agora, encontra-se em restauro). Os concertantes eram um trio de cordas, chamado Serenata, composto por uma polaca (violino) e dois búlgaros (violoncelo). Tocaram, entre outras peças, a Ária e Cantata de Bach (BWV 147) e o Adágio de Albinoni. Desta última peça, tive grande dificuldade em percebê-la, o que mostra que o virtuosismo dos músicos não era o melhor; daquela, lembrei-me de um pequeno programa diário de reflexão moral, há muitos anos na Rádio Renascença, em que a ária era a peça musical que identificava o programa. Relembro o destaque dos violoncelos na peça, elemento preparador da reflexão que se seguia.

Onde entra a rádio

O trio de cordas Serenata tocou também uma Avé Maria, não a de Gounod como estava no programa mas a de Schubert, igualmente linda. Mas não satisfez a minha curiosidade. Com a Avé Maria de Gounod eu tenho uma relação especial: era uma das músicas tocadas com muita assiduidade no começo das emissões de rádio, em 1924 e anos seguintes. Ouvir Gounod é reconstituir uma parcela dessa época. Sabe-se que CT1AA, a estação pioneira da rádio em Portugal, organizava ou transmitia concertos nomeadamente ao sábado (o primeiro terá ocorrido no Outono de 1924, num dia que não consigo precisar por não ter encontrado memórias precisas sobre o evento). E Gounod fazia parte da ementa regular de peças transmitidas pela estação.

Apesar de não ter vivido nessa época dos pioneiros da rádio, trata-se de um período que me fascina (a rádio é, de todos os media, aquele que estudei com mais curiosidade). Espero há mais de um ano que um texto meu sobre essa época seja publicado, com imagens que recolhi de arquivos fotográficos (a editora indicou-me 2005 como o ano da publicação). Por isso, tenho de me conter e não referir pormenores do trabalho.

Mas não deixo de publicar aqui duas imagens, uma delas muito conhecida, a da capa da revista Rádio Semanal, por altura do arranque oficial da Emissora Nacional (actual RDP), em Agosto de 1935. A outra imagem reproduz uma carta enviada da cidade do Vaticano ao responsável máximo dos CTT, a que a Emissora Nacional então reportava (11 de Abril de 1935, antes, pois, da inauguração oficial da Emissora Nacional), escrita em francês, anunciando o programa de Páscoa da Rádio Vaticano, com a emissão da missa pontifícia, e que as estações de rádio podiam retransmitir livremente.

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terça-feira, 7 de dezembro de 2004

MUNDO UNIVERSITÁRIO

Já aqui fiz referência ao jornal Mundo Universitário, jornal gratuito deixado nas Universidades. O mais recente saíu ontem, dia 6. Quinzenal, com 35 mil cópias, dirigido por Gonçalo Sousa Uva, tem um aspecto gráfico agradável.

mundo.JPGRetiro, para análise, o texto Febre de sábado à noite, assinado por Raquel Louçã e Silva, chefe de redacção do jornal (e que já colaborou na revista MediaXXI). Pelo texto, ficam-se a conhecer os festivais em Lisboa e Porto para o próximo dia 11, respectivamente de jazz e música electrónica.

Aqui (no CCB), actuam o sexteto de jazz da ESMAE (Porto) e a dupla Mulgrew Miller e Steve Nelson. No Porto (na Alfândega), Soulwax, Rainer Tuby, Queens of Noise, Nicola Conte, X-Wife e 1-Uik Project [lê-se One week project] são as apostas para o Blue Spot 2004. Pelo que escreve a jornalista, não faltará animação.

O jornal ainda dedica páginas a uma entrevista com Jorge Palma e ao dj Sam the Kid ou Samuel Mira. A este último, os fãs dedicam-lhe um sítio Sam_The_Kid.

Olhemos para a publicidade: Nestlé, Imperial (três páginas com fotografias de festas), Wall Street Institute, L'Oréal de Paris, Tagus. A publicação orienta-se para os jovens universitários consumidores (viagens, festas, perfumes).

As estórias que se escrevem no jornal são leves - compras e divertimentos. O Mundo Universitário não traz informação do mundo académico, como publicitação de cursos e de rankings de cursos, saídas profissionais, entrevistas com responsáveis universitários ou com estudantes, procurando saber o que pensam do ensino - ou tão só da declaração de Bolonha.

Comunidades imaginadas - I

anderson.JPGO livro de Benedict Anderson, Imagined communities, foi publicado inicialmente em 1983. Apresenta um subtítulo extenso: Reflections on the origin and spread of nationalism.

Anderson (1936- ), nascido na China, educado nos Estados Unidos e em Inglaterra, fez investigação na Indonésia na altura em que se deu o golpe de Estado em 1965 - e pelo seu trabalho conhecido como conhecedor da realidade indonésia - explora os processos que criam as comunidades imaginadas das nacionalidades e dos nacionalismos: territorialização das fés religiosas, declínio dos antigos reinados, interacção entre capitalismo e imprensa, desenvolvimento de línguas vernáculas como suporte dos Estados (da contracapa do livro).

O percurso e as aplicações feitas a partir do livro são variadas e interessantes. Mas aqui importa aproveitar algumas das ideias que se podem aplicar aos media e aos seus grupos: audiências, públicos, consumidores. Claro que tais conceitos em si não surgem no livro, mas a fortuna deste leva-me a apropriar e extrapolar, num sempre alegre e benéfico usufruto das leituras.

Comunidades imaginadas e indústrias culturais

Anderson inicia o seu texto por uma definição de nação. Dentro do espírito antropológico, ele propõe uma definição de nação como comunidade política imaginada - e imaginada enquanto inerentemente limitada e soberana (1999: 6). É imaginada porque mesmo os membros da mais pequena nação não se conhecem todos uns aos outros. Por outro lado, é imaginada como limitada porque até a maior nação possui fronteiras, para além das quais existem outras nações. É também imaginada como soberana porque nesceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução destruiram a legitimidade do domínio dinástico e ordenado por Deus. Finalmente, é imaginada como comunidade porque as nações assentam sempre numa fraternidade profunda e horizontal.

Comunidade política imaginária, a nação - e a nacionalidade - é um artefacto criado no final do séc. XVIII, a partir de concepções culturais fundamentais, como a da língua sagrada e do livro, associadas ou desenvolvidas pela revolução de Galileu, a descoberta [ou achamento] do Novo Mundo, a revolução da imprensa, o desenvolvimento do capitalismo mercantil. A imprensa vai desempenhar um papel determinante: a sua difusão é geradora da simultaneidade, do conhecimento vivo, da reprodutibilidade e da disseminação dos saberes (Anderson, 1999: 37).

A nação implica necessariamente (ou quase) uma língua própria. O autor estabelece uma relação dialéctica entre a fatalidade da diversidade linguística, a tecnologia da imprensa e o capitalismo. O capitalismo impresso soube explorar cada mercado vernacular e oral potencial. As linguagens impressas formaram a consciência nacional - eis o modo de Anderson prestar homenagem a um dos seus patronos, McLuhan, que, por sua vez, fora buscar o centro das suas ideias a Harold Innis.

Mas em Anderson ficam perguntas por responder: qual a relação entre nação e pátria? O que é povo? Agora que vivemos numa era da globalidade e das múltiplas etnias num espaço geográfico, há alguma relação entre nação e identidade nacional?

[continua]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

FOTOJORNALISMOS

Saúdo o aparecimento do blogue Fotojornalismos, de Gonçalo Lobo Pinheiro. No seu texto iniciador, a 26 de Novembro último, escreveria: "Hoje começa a vida deste espaço de discussão, partilha de ideias e mostra de imagens".



A fotografia aqui presente é da cantora brasileira Daniela Mercury, tirada pelo autor do blogue (Gonçalo Lobo Pinheiro), que autorizou a reprodução. Diz o fotojornalista (freelancer) que ela lhe "concedeu uma sessão fotográfica exclusiva sobre o Euro 2004, vestindo a camisola 7 de Luís Figo, publicada na TV Guia".
QUEM FREQUENTA O CINEMA?

Recupero aqui o trabalho editado no jornal Público no passado dia 28 de Novembro sobre a frequência dos cinemas em Portugal.

De acordo com um estudo da Marktest - base da peça do jornal -, há uma média de 1,9 milhões de espectadores que mensalmente vai às salas de cinema no país. O retrato médio desses espectadores é: vive em Lisboa, tem entre 18 e 34 anos, pertence à classe média e média alta e é estudante ou quadro superior. O hábito de ir ao cinema reduz-se com a idade: a partir dos 44 anos, as idas ao cinema baixam.

O multiplex é o tipo favorito de sala: em Lisboa, prefere-se o Colombo; no Porto, o Arrábida Shopping. A maioria dos espectadores vai regularemente ao cinema (86%), normalmente uma vez por mês (39%) ou de 15 em 15 dias (29%). O sábado é o dia preferido, seguindo-se a 6ª feira e a 2ª feira (aqui porque há preços mais baixos). Isto não justifica a alteração, em vigor há um ano, em fazer coincidir as estreias dos filmes com a 5ª feira como modo de aumentar o número de espectadores.

Investigação útil

O estudo da Marktest tem ainda cruzamento dos consumos de cinema com o de outras indústrias culturais como o de DVDs, televisão e rádio. Trata-se, pois, de conhecimento útil que a Marktest produz - aliás em maior quantidade ou, pelo menos, mais publicitada que a elaborada pelo INE.

Contudo, a um trabalho assente numa metodologia quantitativa (4120 entrevistas telefónicas) falta conhecer o comportamento no dia a dia dos espectadores de cinema (po exemplo, porque preferem o Colombo ou as Amoreiras para verem cinema em multiplex; se o fazem é porque se deslocam aos centros comerciais para desenvolverem outras actividades?). Nem o trabalho explica as razões da perda de espectadores de cinema nos últimos anos. Por isso, defendo a necessidade de este tipo de trabalho ser complementado por investigações de índole qualitativa, capazes de traçar uma dimensão mais compreensiva dos consumos de indústrias culturais.

domingo, 5 de dezembro de 2004

O QUE EU LI NOS JORNAIS DE HOJE

1) Produto interno de felicidade (PIF) - trata-se de um novo indicador económico que competirá com o produto interno bruto (PIB). Ou seja, a comparação das nações deixará apenas de se fazer no tocante aos produtos e serviços que possui mas também se baseará na boa disposição dos seus habitantes. Além de se ganhar dinheiro, a qualidade de vida reside na boa disposição. Para se medir o PIF está a desenvolver-se um método de reconstrução do dia a dia de cada pessoa, a quem se pergunta um conjunto de questões relacionadas com a actividade desenvolvida ao longo desse dia. Há já economistas e psicólogos trabalhando em três universidades americanas para implementar esta medida, que inclui valorizações de actividades como relacionamento íntimo, socialização, hábitos de compras, estar ao telefone, trabalho doméstico, viagens [fonte: The Sunday Times de hoje].

2) Mel Gibson lucrou £200 milhões com o filme A paixão de Cristo - Director e produtor dos mais vistos filmes este ano (em Portugal foi o segundo mais visto, a seguir a Shrek 2, e antes de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban), Mel Gibson terá arrecadado perto de 200 milhões de libras. O filme - que não conseguira arranjar distribuidor até quatro meses antes do lançamento - é o que mais êxito obteve fora dos períodos do Verão e do Natal, desde sempre. Em toda a história do cinema, apenas o filme de George Lucas, A guerra das estrelas, gerou mais receitas do que o filme de Gibson. O lucro deste advém da passagem pelas salas de cinema mas mais da venda de DVDs. Só no dia do lançamento do filme venderam-se 4,1 milhões de DVDs! Gibson disse que daria £51 milhões à Igreja Católica [fonte: The Sunday Times de hoje].

3) A explosão dos celulares multi-usos - o celular já é mais do que um telefone; podemos designá-lo por telefone móvel-agenda-reprodutor de música-câmara fotográfica. Apesar da voz representar cerca de 81% dos resultados das operadoras de móveis, a facturação de dados (mensagens e navegação na internet) crescerá este ano em 73%, segundo dados da consultora inglesa Ovum. Embora cada segmento de população tenha necessidades diferentes (toques e música para os jovens, acesso ao correio para os profissionais) o mercado já está maduro. Se a killer application inicial foi o SMS, as operadoras dos celulares precisam de uma nova aplicação ou produto estrela para aumentar os volumes de negócio. Mas é preciso ter em conta aquilo a que os especialistas designam por efeito rede: a maior parte dos serviços apenas se desenvolve quando há um determinado número de equipamentos terminais e de clientes. E sabe-se que a maioria dos principiantes na telefonia móvel (66%) demorou um ano em converter-se em grande consumidor [fonte: El Pais de hoje].
QUEM VAI VENDER MAIS: THE INCREDIBLES - OS SUPER-HERÓIS OU O EXPRESSO POLAR?

O ano passado, por esta altura, o filme mais visto foi o Finding Nemo, da Pixar e Disney. Este ano, as apostas vão para dois filmes, The incredibles e Expresso Polar.

O filme da Pixar chega a Portugal acompanhado com a versão do jogo vídeo (como Game Boy e na Play Station 2). Mas já vi livros e sacos de plástico de supermercados anunciando brinquedos associados aos The incredibles. Procurei na página do ICAM, mas ainda não há valores da última semana em termos de bilheteira (pelo que não é possível saber resultados de audiências do filme).

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Agora, anuncia-se para esta semana a estreia do Expresso Polar, merecendo a capa da revista do Público de hoje, a Pública. E o jogo vídeo também acompanha a estreia do filme (igualmente como Game Boy e na Play Station 2).

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Em termos de produção, os filmes são os mais dispendiosos. Mas, através das salas negras do cinema, representam o principal meio de afirmação do produto. Certamente que se segue o filme em DVD. O maior lucro estará aqui: nos DVDs e, em lugar destacado, nos jogos vídeo já publicitados, bem como nos brinquedos e nos livros.

O cinema é cada vez mais a plataforma de lançamento de um conjunto de produtos de indústrias culturais, vivendo de uma sinergia poderosa. Um produto atrai outros. A pergunta que faço é: neste período de Natal, qual dos dois produtos (filmes e associados) ganhará em termos comerciais? Aceitam-se apostas.

[créditos das imagens: El Pais e Sunday Times (ambos de 29 de Novembro); saco de plástico para compras do supermercado Carrefour; Pública, Sunday Times e El Pais (os três jornais de 5 de Dezembro)]

THEODOR ADORNO VISTO POR LAURA PIRES

Como escrevi recentemente no blogue, a professora Laura Pires editou um livro muito importante - porque também pedagógico -, intitulado Teorias da cultura, em edição da Universidade Católica Editora.

Comecemos por citar a sua primeira definição de cultura: "refere-se aos componentes simbólicos e aprendidos do comportamento humano, tais como a língua, a religião, os hábitos de vida, e as convenções. Sendo o oposto do instinto, é muitas vezes considerada como aquilo que distingue o homem do animal. No âmbito desta perspectiva, cultura, que apenas o Homem possui, corresponde ao desenvolvimento intelectual e a um refinamento de atitudes" (p. 35). Páginas depois, a autora enumera as principais características da cultura: 1) simbólica, 2) aprendida, 3) partilhada.laurapires.JPG

E, mais à frente, ela escreve sobre as duas culturas, a das ciências exactas e a das ciências sociais e humanas. De uma forma geral, considera Laura Pires, "na Universidade passou a recompensar-se a especialização mais do que qualquer outra actividade, dando-se, assim, relevo às disciplinas de especialidade, que desenvolvem metodologias próprias" (p. 55).

Theodor Adorno

A autora e professora da Universidade Católica divide o seu livro em três grandes temas: modernismo, iluminismo e pós-modernismo. É neste último sector que encontramos um grande desenvolvimento do pensamento de Adorno (pp. 139-143). Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969) foi um filósofo alemão que escreveu sobre sociologia, psicologia e músico. Mas também crítico literário e compositor. Tornou-se "conhecido por escrever artigos em que aplicava conceitos marxistas também à filosofia e à música", comenta Laura Pires (p. 140).

Adorno ensinou na Universidade de Frankfurt durante dois anos, tendo imigrado para a Inglaterra em 1934 por causa da perseguição aos judeus (ele era judeu por parte do pai; a mãe italiana, daí o nome Adorno). Ensinou três anos na universidade de Oxford e, em 1938, partiu para os Estados Unidos. Ali seria professor na universidade de Princeton e também na universidade da Califórnia. Manteve amizade e colaboração intelectual com Max Horkheimer, reconstruindo ambos, no regresso à Alemanha pós-nazi, a escola de Frankfurt. Esta considerava que os indivíduos eram facilmente enganados pelo capitalismo e pelas indústrias culturais.

Na opinião destes filósofos alemães, "as indústrias culturais produziam em série uma massa degradada de produtos pouco sofisticados e sentimentais que substituíam as formas de arte mais «difíceis» e críticas que poderiam realmente levar as pessoas a porem em questão a vida social. [...] Adorno conclui que os media são o produto das «indústrias culturais» que mantêm a população passiva, preservando o domínio do capitalismo e prejudicando a verdadeira felicidade" (p. 141).

sábado, 4 de dezembro de 2004

APAGÃO ANALÓGICO EM ESPANHA

O governo espanhol decidiu adiar por mais dois anos o limite máximo para que os canais de televisão deixem de emitir em formato analógico,escreve o El Pais de hoje (p. 33). É o chamado apagão analógico. Assim, prevê-se que a passagem para o sistema digital de emissão se dê até Janeiro de 2008.
ANONIMATO E INTERNET

No lançamento do livro de José Pedro Castanheira (No reino do anonimato), no começo desta semana, José Pacheco Pereira - o apresentador do livro - fez uma incursão no terreno do anonimato e das tecnologias associadas à internet. Para o historiador e político, animador do blogue Abrupto, os comentários nos jornais electrónicos (e nos blogues) são uma actualização tecnológica face às cartas do leitor. Além disso, existe um diálogo entre o artigo, o comentário e outros comentários.

A internet ocasionou o aparecimento de muitos livros e ensaios. Podemos dividir essas edições em duas perspectivas distintas e opostas - continuo a referir o apresentador do livro, Pacheco Pereira. Por um lado, surgiram os optimistas ou integrados (designação de Umberto Eco), para quem a internet significava o fim dos livros e dos jornais e, também, o fim da democracia representativa. A esta ilusão opuseram-se os apocalípticos (também uma designação de Umberto Eco), que chamaram a atenção para o sentimento de falsa proximidade (a ideia de aldeia global de McLuhan). O comentário anónimo, o boato, o ressentimento, a inveja, fazem parte desse lado apocalíptico, para quem a ilusão constitui um engano.

jpc2.JPGApesar da tecnologia moderna trazer um alargamento do espaço público, as novas características deste nada significam de novo – o comentário online não é radicalmente diferente dos modos passados de comunicar, mas prolonga a carta (e a transmissão antiga de boatos, rumores, calúnias e maledicências contra o indivíduo).

Assim, a internet seria uma tecnologia que respondia aos problemas da aldeia. Isto é: abandonava-se o cosmopolitismo e as ideias diferenciadas, com respeito e compreensão das opiniões divergentes, e regressava-se a um ambiente fechado, monolítico, da vizinhança, de parecença entre os indivíduos, na sua forma de comentar e actuar na vida quotidiana. Por isso, os comentários anónimos, atentatórios à distinção e variedade, são uma projecção das mentalidades da conversa do café. Ou, na linguagem de Pacheco Pereira, seria típico do comportamento popular, o poder dos que não têm poder. A opinião anónima não acrescenta nada aos jornalistas, mas um tipo de poder dos que não têm poder. Para fazer valer a sua personalidade.

Se é cada vez mais difícil distinguir entre o real e o virtual, a internet introduz um outro efeito, neste caso positivo, seguindo ainda o comentário de Pacheco Pereira na cerimónia de apresentação de um livro. O jornalista encontra uma população qualificada, que acede à internet (e à televisão por cabo) e, por isso, está bem informada e pode verificar se as traduções estão bem feitas. O que quer dizer que há uma vigilância maior sobre o que se produz, uma análise em tempo real do acontecimento e do que se diz sobre ele. A população qualificada é ela própria também produtora. Isto acontece com a informação feita sobre os acontecimentos culturais que os media mainstream não noticiam e que os blogues o fazem.

Claro que a mediação não pode desaparecer, concluiria Pacheco Pereira. É que há, apesar do parágrafo anterior, uma grande iliteracia no modo de ler os media modernos.
PÚBLICOS DA CULTURA: TIPOLOGIAS E PRÁTICAS CULTURAIS - II

[continuação da mensagem de 30 de Novembro último]

Idalina Conde (1992: 156) define um continuum dos consumos habituais e regulares aos consumos de peças, exposições ou concertos únicos, em que os públicos podem alargar devido ao fenómeno dos amplos espaços culturais e a grandes concentrações (caso dos festivais e das bienais). Assim, há: 1) clientelas habituais, 2) públicos ganhos por estratégias de captação em iniciativas específicas, e 3) conjunto difuso de utentes/visitantes comandados pelo carisma ou capital simbólico da instituição.

No seu texto, Maria Lourdes Lima dos Santos (2004: 10), a partir da explanação de Gomes (2004) vai mais longe e distingue um conjunto alargado de categorias. Assim, os públicos de Almada separam-se por incondicionais, adeptos, flutuantes e estreantes, ao passo que os públicos do Porto 2001 se dividem em cultivados, liminares, especializados, retraídos, displicentes e recatados. Ela também elenca os públicos da ciência: envolvidos, consolidados, iniciados, autodidactas, indiferentes, benevolentes e retraídos.

Maria Lourdes Lima dos Santos reforça, assim, a ideia de que os públicos são polissémicos e mutáveis, integrados ou não em redes culturais.

A ideia de polissemia – ou obra aberta (em Umberto Eco) – já fora trabalhada por Idalina Conde (1992: 145), partindo de um triângulo de múltiplas percepções, 1) a do criador da obra, 2) a dos pares onde circula primeiro a obra, e 3) a dos públicos. A investigadora destaca o terceiro – os públicos da cultura, com o conhecimento dos perfis e o tipo de recepção, acima já referenciados por outros autores. Conde observa a distinção entre centralidade – insistência na relevância simbólica, económica, política e mediática da cultura – e transversalidade – no sentido da dimensão global dos valores (identidade, hábitos, práticas e estilos de vida). Fala ainda de consumos culturais localizados e culto dos prazeres, dissociando cultura de distinção (burguesa), de pretensão (pequeno burguesa) e de privação (popular) (Conde, 1992: 150).

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[imagens das livrarias Municipal, à avenida da República, e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, ao Arco do Cego, ambas em Lisboa]

A mesma autora divide ainda os perfis sociológicos dos públicos da cultura em: 1) endo-domiciliar (servido pelo conjunto das indústrias culturais com a propriedade da reprodutibilidade) e exo-domiciliar (servido pelas artes do espectáculo ao vivo com a propriedade de raridade relativa). Finalmente, Idalina Conde fala numa tripla assunção de receptores dos produtos culturais: audiência, clientela, público. Isto tem a ver com uma graduação que vai desde a audiência da televisão ou de cinema às clientelas de ópera e teatro e ao público erudito ou elitista, associados a uma elevação sócio-cultural dos perfis sociais que procuram as práticas culturais.

Bibliografia

Conde, Idalina (coord.) (1992). Percepção estética e públicos da cultura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
Lima dos Santos, Maria Lourdes (2004). "Apresentação". In Observatório de Actividades Culturais Públicos da cultura. Lisboa: OAC
Gomes, Rui Telmo (2004). "A distinção banalizada? Perfis sociais dos públicos da cultura". In Observatório de Actividades Culturais Públicos da cultura. Lisboa: OAC