sexta-feira, 27 de abril de 2012

Encore une Fois, Si Vous Permettez

Marta Dias, quando lhe foi proposta a encenação, encontrou a dimensão de homenagem como justificação na peça de Michel Tremblay. Não se passa nada de extraordinário, não é uma peça onde há assassínios ou duelos ou guerras ou tragédias, mas apenas a história de um filho sobre a sua mãe que entretanto já desaparecera fisicamente, aquele a funcionar como narrador e a mãe a ressurgir como uma força da natureza, que interpreta o mundo a partir do prisma de exagero mas de uma grande humanidade.

A pequena mas acolhedora sala Vermelha do Teatro Aberto, ali à Praça de Espanha, acolhe desde anteontem a peça do dramaturgo canadiano Michel Tremblay nascido em 1942, Encore une Fois, Si Vous Permettez (Pelo Prazer de a Voltar a Ver), estreada em 1998 em Montréal.

A peça é deliciosa e de uma profunda análise das pequenas coisas, das conversas, dos modos como se olha e interpreta o que os outros fazem, desde a brincadeira do rapaz de dez anos que atira abóboras para debaixo dos automóveis a ver a reação dos condutores até à opinião humorística da mãe sobre a sua cunhada, que jantava lá em casa rosbife todas as semanas mas que morreu de enfarte: "a tua tia era tão gorda que comeu até se enfartar". Luís Barros (o narrador e filho) está muito bem mas Sílvia Filipe (a mãe) encheu-nos as medidas. Personagem cheia de energia, alegria e humor, o palco inclinado é difícil para os sapatos de salto alto usados pela atriz. Gostei particularmente das recordações da entrada dos media eletrónicos naquela casa: o gramofone, o giradiscos, a telefonia, a televisão. Os discos, as canções, os programas - embora de modo discreto, o autor faz uma reflexão do impacto dos media na nossa cultura.

Os críticos acusam Michel Tremblay de fazer peças atrás de peças com registo autobiográfico: a importância da mãe, a escola de artes gráficas, o trabalho gráfico e a escrita. Tremblay não tem vergonha das suas raízes. Quando jovem, ganhou uma bolsa de estudo para entrar num colégio prestigiado. A ele e a mais 30 alunos foi dito que eram os rapazes de 14 anos mais inteligentes do Québec, com mensalidades pagas no colégio durante quatro anos. Mas ele preferiu seguir a escola profissional e arranjar um emprego como linotipista, como o pai. Na Imprensa Judiciária, onde ele trabalhava como o último linotipista admitido, enviou um manuscrito para a L'Homme, a editora da Imprensa Judiciária. Recusaram o manuscrito, o que o levou a enviar o texto para a concorrente, a Jour, que o aceitou. Michel saiu da editora a assobiar e a não se importar com a chuva miudinha de março que caía. O editor propusera reagrupar os contos intitulados Contos Góticos e transformar o título para Contos para os que Bebem até Tarde. Corria o ano de 1966, o livro seria editado no mês de junho desse ano. Bastaria a história em torno deste facto para despertar a atenção para a peça agora em representação.

A representação da estreia, anteontem, foi serena mas cheia (imagem de promoção da peça, enviada pelo Teatro Aberto).

quarta-feira, 25 de abril de 2012

terça-feira, 24 de abril de 2012

Media, Jornalismo e Democracia

O IV Seminário Internacional Media, Jornalismo e Democracia, organizado pelo Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ), realiza-se nos dias 6 e 7 de dezembro de 2012, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (Avenida de Berna, 26C - Lisboa).

O seminário tem por tema Pesquisa em Media e Jornalismo e será dedicado a homenagear o principal dinamizador dos Estudos Jornalísticos em Portugal nos últimos trinta anos, o Professor Nelson Traquina, anterior presidente da direção do CIMJ.

O programa integra sessões plenárias e sessões paralelas para comunicações de tema livre relacionadas com os media e do jornalismo, que serão sujeitas a um processo de dupla arbitragem científica (https://sites.google.com/site/nelsontraquina/programa). Para submissão de comunicações, deverá consultar as normas definidas na chamada de trabalhos (email: homenagemnelsontraquina@gmail.com, cimjmedia@gmail.com).

O prazo para submissão de propostas de comunicação (envio de resumo) termina a 8 de julho de 2012. As propostas de comunicação selecionadas serão divulgadas neste website, provavelmente até dia 15 de julho de 2012. As línguas oficiais do congresso são o português, o galego, o espanhol e o inglês.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Curso de Criatividade e Cultura no Centro Nacional de Cultura

Capitais estrangeiros nos media portugueses

Segundo o Expresso de sábado, pode estar iminente a venda de 20% da Global Notícias (proprietária do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF) a capitais angolanos. De Angola, surgem igualmente interessados em comprar o canal da RTP que for privatizado. A angolana Newshold entrou no capital do semanário Sol em 2009 e já detém 96,6%, adquiriu 15,08% da Cofina (proprietária do Correio da Manhã), tornando-se a maior acionista do grupo, e tem 2% da Impresa (proprietária da SIC e do Expresso), desde 2011. A Filmdrehtsich Unipessoal (com 100% de capital angolano) comprou recentemente a Tóbis, enquanto a Prisa detém 84,6% do capital da Media Capital (proprietária da TVI e da Rádio Comercial).

Farpa na intervenção social

A Galeria Sala do Risco, em Lisboa, recebe durante Maio a exposição Uma Intervenção na Actualidade Portuguesa, fruto do projecto Portugal 2011 Ano Nacional da Crise. Aí, procura-se recuperar a tradição portuguesa da "farpa" de intervenção social, num espírito de colaboração com criativos dos mais diversos quadrantes profissionais. A Galeria Sala do Risco fica no Largo Santo António (à Sé), 22, Lisboa.

Habitar a escuridão

A Embaixada do México em Portugal e a Casa da América Latina trazem à Fundação Champalimaud (Av. Brasília, Lisboa), de 2 a 23 de Maio de 2012, a exposição de fotografia do mexicano Marco António Cruz, Habitar a Escuridão, um ensaio fotográfico sobre a cegueira no México.

domingo, 22 de abril de 2012

Desporto na Primeira República (1910-1926)

Nos dias 23 de abril, em Coimbra, e 28 de abril, no Porto, vai ser apresentado o livro República, Desporto e Imprensa – O Desporto em 100 primeiras páginas, 1910-1926, de Francisco Pinheiro e João Nuno Coelho, editado pela Afrontamento. O livro contribui para o conhecimento das principais transformações sociais vividas em Portugal durante o período da I República (1910-1926). Para tal, debruça-se sobre um campo social, o desportivo, que teve grande incremento no princípio do século XX. Os autores recorrem à análise dos jornais desportivos, que, além de darem conta desse desenvolvimento, estiveram na origem do mesmo. A partir da seleção de 100 primeiras páginas de jornais desportivos deste período, é intuito de Francisco Pinheiro e João Nuno Coelho esclarecerem melhor a história do desporto em Portugal na I República.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Concerto de canto alentejano

Concerto de Cante Alentejano em 25 de abril de 2012, às 17:00, no Palácio de Belém, Lisboa.

Progresso, utilidade e harmonia – um contributo para a perceção dos media

"Em 1937, a propósito das locutoras da Emissora Nacional, um ouvinte escrevia que não tinha “a honra de conhecer nenhuma delas, mas posso garantir que, se ambas são lindas como linda é a sua voz, não lhes devem faltar admiradores”". Continuar a ler aqui.

Projetos submetidos ao CCB

O CCB recebeu 740 projetos resultantes do convite à apresentação de propostas de programação cultural divulgado em março. Segundo o CCB, foram recebidas 252 propostas na área da música, 173 na área do teatro, 61 na área da dança, 31 destinadas ao serviço educativo, 44 correspondentes a projetos transversais de artes performativas e 14 na área do cinema. Igualmente, foram recebidas 126 propostas para exposições, 29 para programas na área da literatura, cultura portuguesa e ciência. Outras 10 propostas incluem projetos desportivos, sociais e outros. O CCB está a iniciar a análise das propostas em vista à sua programação do triénio 2013-2015.

Festival Terras sem Sombra

"Desde a sua origem, em 2003, que o Festival Terras sem Sombra (FTSS), promovido pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, oferece a quem o acompanha uma espécie de «pequena História da Música», em que cada edição constitui um capítulo coerente" (texto da organização do festival). No dia 21 de abril, pelas 17:00, na igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, em Beja, Rui Vieira Nery irá proferir a conferência "Com Voz Suave e Bem Modulada". Ler mais aqui.

domingo, 15 de abril de 2012

Conferência: que desafios colocam os novos media ao jornalismo?

Ontem, foi o dia da segunda conferência organizada pelo Fórum de Jornalistas, sob o título Jornalismo em tempo de crise, em duas sessões, a primeira das quais um wokshop sobre direito laboral. A segunda sessão, os novos media: que desafios colocam ao jornalismo e aos jornalistas?, teve a participação de António Granado, Paulo Querido e Joaquim Vieira. António Granado, no seu estilo direto e objetivo, começou a sua intervenção por dizer que o jornalismo como profissão está em desagregação. Para ele, a causa não reside na internet e no Google e outros agregadores roubarem as notícias dos jornais, mas na tensão entre o jornalismo e o negócio. A atual desregulação do mercado laboral afeta a profissão, com novas formas de emprego (flexibilização, freelacer), o que impede o exercício do que se chamava jornalismo. A profissão depende cada vez mais do empregador, que efetua vários modos de controlo empresarial (controlo de horários, avaliação de desempenho). Depende também do que os consultores dizem aos empregadores nas sucessivas ondas de reformulação dos media, com o objetivo mais evidente de reduzir custos. O conferencista ainda se referiu à nova característica de multitarefa, com controlo verticalizado onde a discussão interna é cada vez menor. A necessidade de executar multitarefas reduz tempo para confirmar as notícias, a função nobre do jornalista. A organização e a produtividade tornam-se mais importantes que as reuniões de editores onde se recebem ordens e desapareceu a discussão. O que pode mudar para que se continue a falar de jornalismo? António Granado enunciou cinco características essenciais do jornalismo/jornalista: 1) contador de histórias, 2) importância da confirmação das informações que se recebem na redação, 3) menor espaço para jornalistas generalistas, 4) reforço da deontologia, 5) convívio dos jornalistas com as fontes exteriores (jornalismo cidadão, blogues). Paulo Querido também enunciou cinco princípios para o jornalismo que têm em conta as mudanças efetuadas com os novos media: 1) direto (notícia como fluxo contínuo, permanentemente atualizada), 2) social (a audiência intervém no jornalismo: jornalismo cidadão), 3) inovação (a sociedade reticular exige novas competências e constante atualização do jornalista), 4) trabalho computadorizado (com aprendizagem da programação, que pode ir do HTLM ao Javascript), 5) desconcentração (ou desagregação, com pulverização dos media de massa e criação de pequenas empresas com aproveitamento de nichos de mercado e de ideias). Joaquim Vieira apontou igualmente linhas de modernização, alertando para os jornalistas, que tendem a ser conservadores (pelo menos tecnologicamente). A infografia e o uso do Facebook como coletor de informação foram duas ideias deixadas por ele.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Eduardo Salavisa. A drawer of the daily / Um desenhador do quotidiano

Eduardo Salavisa defines himself as a drawer of the daily. Throughout his life as professor, he has deployed the graphic diary as an educational tool for encouraging students to draw. He continues to share that pleasure and runs graphic diary training programs. He has published several books and his drawings are frequently found in Portuguese periodicals. Eduardo Salavisa is online at: diário gráfico diário gráfico. A film by José Alfaro (Bicho-do-Mato).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A guerra dos mundos de Matos Maia

Acabara o noticiário das 20:00 de 25 de junho de 1958 na Rádio Renascença. Matos Maia recordou a Guerra dos Mundos de Herbert George Wells. O caso amedrontou a população de Lisboa e meteu a polícia política, que chamou o realizador de rádio. Este também teve o seu bocado de susto no momento do interrogatório, que marcou, por outro lado, o início de uma nova época na rádio portuguesa. No dia seguinte, o Diário de Lisboa contava o facto deste modo:

Conferencia UC-ICA Latinoamérica Tendencias latinoamericanas e internacionales en estudios de comunicaciones


La Conferencia UC-ICA Latinoamérica, organizada por la Facultad de Comunicaciones de la Pontificia Universidad Católica de Chile en convenio con la International Communication Association (ICA), será del 18 al 20 de octubre de 2012 en Santiago de Chile ((http://www.icahdq.org/conf/other/CFPSantiagoEspanol.pdf). Por primera vez se realiza esta conferencia internacional, de nivel regional, en Chile. Este encuentro responde al objetivo de la Facultad de Comunicaciones UC y de la sociedad científica ICA de contribuir al desarrollo de las sólidas relaciones entre académicos e investigadores de las comunicaciones. La conferencia tendrá lugar en el edificio de la Facultad de Comunicaciones de la Universidad
Católica, en el campus Casa Central, Alameda 340 (ver ubicación en http://www.uc.cl/es/mapas).

Los objetivos de esta Conferencia son los siguientes:
• Contribuir a la difusión regional e internacional de la investigación de la información y de la comunicación, así como desarrollar alianzas académicas y de investigación regionales e internacionales.
• Crear un espacio de diálogo sobre las posiciones de los investigadores y estudiosos que comparten un interés en los procesos de la comunicación aún cuando trabajen en distintos campos y espacios de investigación (geográficos, culturales, lingüísticos, organizacionales).
• Promover el diálogo académico entre distintas tradiciones de investigación, abierto a las diferentes escuelas de pensamiento de las comunicaciones en América Latina y en el mundo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Fábrica Portuguesa Rádio Triunfo

Em março de 1946, constituiu-se a sociedade Rádio Triunfo, no Porto, dedicada à produção de discos, com os sócios Rogério Leal, José Cândido Silva e Manuel Lopes da Cruz. A inauguração da fábrica ocorreu em 1947.

1957 seria uma data importante na história da empresa, com o início dos cortes dos acetatos e da produção das matrizes de cobre em Portugal, atividades até aí feitas fora da fábrica do Porto. Além da produção dos discos de 78 rpm, a fabrica iniciou a produção de discos de microgravação (45 rpm). A primeira loja comercial abria na rua de Santa Catarina (Porto) no mesmo ano de 1957, alargando-se para outras lojas: rua de Santo António, hoje 31 de janeiro (Porto), em 1961, e rua do Carmo (Lisboa), em 1962.

A produção de discos estereofónicos começou em 1969. No ano seguinte, abriu a secção de cassetes e cartuchos, enquanto que em 1973 se instalava uma linha de produção de alta velocidade. Ainda em 1973, abririam delegações em Angola e Moçambique. Em março de 1974, eram inaugurados estúdios de gravação em Lisboa. A Rádio Triunfo englobava, entre outras, as etiquetas Alvorada, Melodia, Harmonia e RT, e teria no seu catálogo, pelo menos no começo da atividade de artistas e cantores, nomes como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias, António Calvário, Fernando Farinha, Tony de Matos, Maria de Lurdes Resende e José Afonso. A mudança de regime político em 1974 traria alterações à vida da empresa, com diversos artistas das suas etiquetas a sofrerem eclipse total ou quase total, dada a identificação musical (música ligeira), num momento em que irromperam outras estéticas, e as filiais fora de Portugal fechariam, dada a independência das colónias.

Leitura: J. A. T. Lourenço (coord.) (1997). A grande aventura da gravação: 100 anos de gravação sonora, 1877-1977. Porto: Rádio Triunfo

Fórum de Jornalistas organiza segunda conferência

No próximo dia 14 de abril, na Casa da Imprensa, em Lisboa.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Audiências de televisão

Segundo a revista Briefing de hoje, "a Kantar oferece-se para montar um novo sistema de medição das audiências da oferta de TV em Portugal, admitindo que o sistema atual da Marktest está aquém dos padrões de qualidade exigíveis devido ao «rápido progresso de terminação analógica», podendo prejudicar a própria reputação da empresa. Apesar desta constatação, um dos operadores de TV – a TVI – publicou, no início desta semana, um comunicado invocando os dados do sistema de audimetria Kantar Marktest para assinalar as performances de um seu novo programa. [...] a Kantar propõe-se criar um novo sistema de medição de audiências sob a condição de as operadoras de TV lhe garantirem «um contrato inicial de 2 anos». Neste momento, depois de concurso lançado no ano passado, as operadoras de TV já financiam o sistema da GFK. [...] A CAEM tem uma reunião marcada para quarta-feira e da mesma deverá resultar um compasso de espera até conclusão da auditoria pedida pelo operador público RTP, numa iniciativa que foi publicamente apoiada, na semana passada, pela TVI".

Televisão nos Açores

"O futuro do canal regional de televisão depende da compreensão por parte do poder político de que esta é essencial para a identidade e autonomia democrática dos Açores" (programa Grafonola/TSF e Açoriano Oriental, 6 de abril de 2012).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Museu da Chapelaria

O Museu da Chapelaria (rua Oliveira Júnior, São João da Madeira) foi inaugurado a 22 de junho de 2005. Está no edifício da Empresa Industrial de Chapelaria, fundada por António José de Oliveira Júnior em 1914, então a maior fábrica da indústria do chapéu em Portugal. O edifício da fábrica de chapéus, agora museu, fica ao lado da fábrica Oliva, já desativada. O conjunto fabril tornava aquele percurso um dos mais industriais da região.

A exposição permanente inclui diferentes máquinas industriais usadas na produção de chapéus, coleções de chapéus e testemunhos de operários de chapelaria. A matéria prima dos chapéus provinha da lã, da pele de coelho e de castor (este oriundo do Canadá).

A segunda imagem contém a fachada interna do Museu da Chapelaria e o monumento Unhas Negras, designação que se dava aos chapeleiros devido ao seu trabalho e que João da Silva Correia (1886-1973) celebrizou num romance seu exatamente com o título Unhas Negras.

domingo, 1 de abril de 2012

Jornalismo em tempo de crise

Jornalismo em tempo de crise foi o tema ontem discutido na Casa da Imprensa, em Lisboa, organizado pelo Fórum de Jornalistas. O tema central foi a viabilidade económica das empresas de media e do negócio da informação, com Pedro S. Guerreiro, José Manuel Fernandes, Pedro Norton e José Azeredo Lopes (painel Gerir jornais numa era de declínio. Uma missão impossível?) e Francisco Pinto Balsemão Rui Borges e André Freire Andrade (painel A informação ainda é um bom negócio? Pode voltar a ser apetecível ao investidor?) presentes com intervenções.



Recorto algumas ideias faladas no encontro. Por um lado, segundo Pedro Guerreiro, existe um problema de receitas mais do que custos, com deslocação dos investimentos de publicidade dos jornais (mas também das televisões e das rádios) para pontos específicos da internet (Google, Facebook), o que altera a cadeia de valor. Verifica-se uma descaracterização de posicionamento dos jornais, a que se acrescenta a contratação de consultores que, nos últimos anos, têm identificado as boas práticas - ou melhor as práticas dos jornais que vendem mais. Com a restrição das receitas e sob a pressão das audiências, os jornais estão mais parecidos entre si e com as televisões. Isto é, há uma maior homogeneização e não uma diferenciação entre os media. Por outro lado, para José Manuel Fernandes, houve uma profunda alteração no consumo de media. Dantes, um indivíduo identificava-se com um meio (Diário de Notícias, Público); hoje, acede a múltiplas fontes de informação. O Facebook é um exemplo citado ao longo da tarde. Aqui, conclui-se que muitos consumidores consideram suficiente a informação que circula no Facebook com comentários e recomendações dos seus amigos. O jornalista sente que falta neste momento capacidade dos media quanto ao tratamento de determinados assuntos. Por exemplo, quem sabe o que se passa com a guerra de audiências entre a Gfk e a Marktest e os canais de televisão? Parece existir um jornalismo de pinguepongue: a um facto, os jornalistas procuram recolher e a informação de A, a que se segue a procura da reação de B face a A, que acarreta a reação de C face aos anteriores.

Pedro Norton fez uma intervenção estratégica, na linha de outras que já ouvi dele. O mercado publicitário valeu, em 2011, 500 milhões de euros, numa tendência negativa que se observa desde o começo do século. Nos últimos três anos, 26% do mercado publicitário desapareceu. O primeiro trimestre de 2012 caiu 20%, o que torna dramática a atuação das empresas de media. Por regra, o mercado publicitário, quando cai, fica 12% abaixo da quebra do PIB. Há uma transferência insignificante de publicidade das televisões generalistas para as temáticas. A transferência da publicidade faz-se, como outros oradores disseram também, para pontos especídicos da internet (Google, Facebook, portais das redes sociais). As transformações principais sentidas nos media nos últimos 15 anos incluem as tecnológicas, os públicos de consumo dos media e a lógica de funcionamento do negócio. No campo do consumo, identificou-se a maturação da interatividade, isto é, os consumidores mudaram e reclamam para si o papel de coautor, em que as redes sociais se posicionam com a pretensão de filtros e de editoras de informação e de conteúdos, além da passagem de um ambiente linear com consumo assíncrono e segmentação. Por seu lado, Azeredo Lopes falou de erros sistemáticos, como a ideia de se considerar a existência de um mercado nacional, quando o mais correto é falar de um mercado regional. Reforçando o que já fora dito, ele considera a diminuição acelerada do estatuto de jornalista, dado que o produto jornalístico sofre a concorrência de sítios de internet, do Facebook, etc. Além de que não vê coerência editorial, tipo jornal de esquerda ou de direita mas antes um jornal tipo "nações unidas", com colunistas que cobrem opiniões da esquerda à direita, e vê uma relação quase obscena entre os media tradicionais e o online, com aqueles, a lutar pela sobrevivência, a alimentar este.



Francisco Pinto Balsemão fez perguntas e procurou responder a elas, como se fosse uma tese com perguntas de partida e obtenção de confirmações ou não que reforçam ou destroem essa tese. Assim, ele questionou a existência de media que dão sistematicamente prejuízos mas se mantêm, o que o leva a considerar que tais media têm uma função instrumental que não corresponde ao objetivo dos media: obter lucro porque os media são um negócio, servir a democracia e a liberdade de informação. Os media são um aguilhão contra a indiferença face a tópicos dramáticos da atualidade, seja das crianças que morrem em alguns países ou dos massacres na Síria. Ele defende a necessidade da separação da atividade da informação e do entretenimento. Mas repara que os sítios e os motores de busca que vivem e falam das celebridades não são propriamente meios de comunicação mas são concorrentes destes. Não há neutralidade nos motores de busca, mas interesses próprios; além disso, torna-se necessário regular os portais dada a sua posição dominante. A que juntou outra questão, a do respeito pelos direitos de autor. Balsemão falou de "jardins murados" - Apple, Facebook, Twitter, Google - em que os conteúdos vão parar a estes "jardins", que os distribuem e controlam a custo zero. Teve ainda tempo para identificar algumas soluções que os media têm de perseguir: independência editorial face a poderes como o económico, o político e o jornalístico, atenção aos conteúdos gerados pelos consumidores, jornalismo interativo, aumento do relevo de gráficos, operadores de imagem e informáticos face aos jornalistas, aceitação de formação tecnológica e profissional por parte dos jornalistas.

Rui Borges vê a audiência como o negócio dos media. Se, em quatro anos, se perderam 25% dos leitores, a publicidade segue esse sentido, o que é catastrófico para o negócio. André Freire de Andrade, responsável da Carat na Península Ibérica, no sentido referido por outros intervenientes, colocou a tónica na publicidade, alimento essencial para a vida saudável dos media. A publicidade nos media só sobe quando há um crescimento do PIB. Se não houver consumo, não há orçamento de publicidade disponível pelas empresas para libertar para os media. Na sua apresentação, fez alusão ao mercado publicitário mundial, deprimido na Europa, exceto no Reino Unido (mas aqui relacionado com os Jogos Olímpicos que se realizarão no país). Se a imprensa decresce, a internet sobe, mas a um ritmo muito lento e que não cobre as perdas dos media tradicionais. Isto apesar do consumo de televisão subir, mesmo entre os jovens. Destacou a importância da marca e da sua credibilidade no momento de afirmação do online. Se a imprensa em papel perde relevo, ela não deve desaparecer totalmente pois há marcas que estão associadas a esse meio, num ecossistema frágil e complexo e que precisa de ser pensado e acompanhado.

No segundo painel, Ana Suspiro apresentou um estudo com resultados dos grupos dos media (2006-2010), com dados sobre entrada e saída de emprego nos media (sairam 500 jornalistas no período em análise), quebra de investimento publicitário e enormes prejuízos em alguns meios (casos dos jornais Sol e i), principais anunciantes. A organização informou ir disponibilizar alguns destes dados para uma melhor compreensão dos gráficos mostrados com relativa velocidade, o que inibiu a apreensão total por parte do autor destas linhas.

A sala estava cheia e os participantes colocaram muitas perguntas aos membros das duas mesas. A próxima conferência decorrerá em 14 de abril.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Call for papers para 1º CIMODE

O 1º CIMODE - Congresso Internacional de Moda e Design vai realizar-se em Guimarães, entre 5 e 7 de novembro. O call for papers está aberto até 15 de abril.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Guerra de audiências

A TVI comunicou hoje à GfK e associados da CAEM - Comissão de Análise de Estudos de Meios que não reconhece a validade dos dados produzidos pelo seu painel, pelo que volta ao painel da Marktest. Em 13 de Fevereiro, a TVI votou na CAEM contra a entrada em vigor do sistema de medição de audiências da GfK por entender que a amostra da painel não garantia a representatividade demográfica da população portuguesa. A RTP teve a mesma atitude e manifestou isso de modo enérgico nas últimas semanas, enquanto a SIC e os operadores de televisão por cabo apoiaram o trabalho da GfK.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Conferências sobre jornalismo



Como anunciado muito recentemente, o grupo Fórum de Jornalistas vai promover conferências sob o tema "Jornalismo em tempo de crise", a ter lugar na Casa da Imprensa, à Rua da Horta Seca, nº 20, em Lisboa. Assim, a primeira conferência vai decorrer no próximo sábado dia 31 de março, a partir das 14:45. O tema central é a viabilidade económica das empresas de media e do negócio da informação. José Azeredo Lopes, José Manuel Fernandes, Pedro Norton, Pedro S. Guerreiro, André Freire Andrade, Francisco Pinto Balsemão e Rui Borges estarão presentes com intervenções. As duas outras conferências acontecerão em 14 de abril e em 26 de maio no mesmo local e hora de início. No vídeo, o jornalista Rui Peres Jorge apresenta as principais linhas das conferências. Ver mais em http://forumjornalistas.wordpress.com/.

terça-feira, 27 de março de 2012

Queima do Judas em Vila do Conde

Está à porta mais uma edição da Queima do Judas de Vila do Conde, este ano inspirada na vida e na obra do escritor José Régio, enquanto nome emblemático da literatura e da poesia portuguesa e como espelho das memórias e da identidade das gentes da cidade.

Um cortejo de personalidades dirige-se para tribunal. "Não pagou!", alega o Dr. Ambrosino, advogado do diabo, enquanto do outro lado Angelino se apresenta como seu defensor. Tudo vai a julgamento para Zé-Maria, gente do povo, acusar e defender. Só a suprema Justiça decidirá se há poesia que o possa salvar… e quem, com o Judas, deverá arder.

A Queima realiza-se a 7 de Abril e é a sua 7.ª edição, decorrendo no espaço exterior do Centro de Memória de Vila do Conde. A Queima do Judas é uma iniciativa da associação cultural Nuvemvoadora e conta com apoio da Câmara Municipal de Vila do Conde.

segunda-feira, 26 de março de 2012

A rádio segundo António Cagica Rapaz

O enérgico e sorridente Eduardo aplicava duas argoladas na porta, invariável e ruidosamente, às sete da manhã. A minha mãe ficava com o leite e, depois de deixar o fervedor na cozinha, acendia a telefonia. Assim começava o dia com o “Talismã”, o seu programa da manhã, produzido pelo Gilberto Cotta. Ao microfone, Armando Marques Ferreira, António Miguel e Dora Maria. Das sete às oito e meia, com segunda sessão das dez ao meio dia. Pelo meio ficava a “Onda do Optimismo”, com o Jorge Alves. Tudo no Rádio Clube Português. Às sete e meia, ia para o ar um folhetim mais assustador do que as argoladas do Eduardo, a cargo da Manuela Reis que interpretava todos os papéis, fazia todas as vozes, homem, mulher e criança, narrava e dava corpo sonoro às personagens. Eram histórias aterradoras que eu ouvia de longe, do fundo da minha cama... Mas os primeiros ecos da telefonia são anteriores, situam-se na taberna da minha avó, com os “Companheiros da Alegria”, o Zèquinha e a Lélé, o Vasco Santana, o Igrejas Caeiro, a Elvira Velez. E os fados! Os fados, na rua dos Pescadores, reconfortavam, ajudavam a esperar o fim do vendaval, a aceitar a fatalidade do destino, e iluminavam as noites quentes de Verão, sardinha assada e fogareiro à porta. Até o mar se calava para ouvir a Amália...

Quando mudámos para a rua da Fé, a telefonia passou a ser a do Chico da Cooperativa, com os relatos de futebol e, sobretudo, a magia das transmissões de hóquei em patins, os torneios de Montreux, na longínqua Suíça. Era a vibração apaixonante do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas, os golos de Portugal contra a Espanha, tanta emoção e paixão. A nossa imaginação fervia, tínhamos de dar um rosto, um corpo àquelas vozes cujos donos ninguém conhecia. Era o fascinante sortilégio da Rádio... Já na rua Monteiro, o Manel Estêvão convenceu o meu pai a comprar uma telefonia Philips, a prestações, com letras assinadas por mim, com a caligrafia insegura dos oito anos e que poucas melhoras regista desde então.

No quadro das estações, da esquerda para a direita, lá estavam a Rádio Voz de Lisboa, a Rádio Graça, os Emissores Associados de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal, a Rádio Renascença, o Rádio Clube Português e as duas Emissoras, a 2 e a 1 que transmitia com Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Guarda, na banda dos 47 metros. Nos emissores pequeninos de Lisboa, havia, ao sábado de manhã, para os miúdos, o “Comboio das Seis e Meia", do José Castelo, que veio muitos anos para Sesimbra e era amigo do meu pai. Certa vez, num concurso de desenho, ganhei duas grandes caixas de chocolates Regina graças ao talento da minha tia Lucinda e ao descaramento com que assinei o bilhete postal, com uma letra ainda mais incerta do que era habitual. A fraude já prescreveu, espero bem...

Na Emissora, gostava de ouvir o “Jornal Sonoro”, os relatos de futebol e, sobretudo, o teatro radiofónico que ia para o ar às nove e meia da noite, repetindo no dia seguinte à uma e meia da tarde, mal acabavam as aventuras do Patilhas e do Ventoinha, parodiantes do Rádio Clube Português. As vozes mágicas do teatro pertenciam a Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Rui de Carvalho, Canto e Castro e outros. Samuel Diniz ensaiava. Na mesma Emissora, ao sábado, às sete da tarde, depois do banho, era o programa infantil da Maria Madalena Patacho, com realização do Castela Esteves, as Aventuras do Zé Caracol.

Mas o Rádio Clube Português era a estação que mais ouvíamos, o “Talismã”, os “Parodiantes de Lisboa”, o Lança Moreira, o senhor Messias, as cavernosas “Lendas da Nossa Terra”, do Gentil Marques, os sublimes diálogos do sempre imitável mas nunca igualável Olavo d’Eça Leal. A mana Maria Helena tinha a mais bonita voz da nossa Rádio, a meu gosto. À boca da noite, enquanto esperava o meu pai, ouvia o “Jornal da APA”, apresentado pelo Luís Filipe Costa e pela Tany Belo, das sete e meia às oito e dez. A seguir vinha o “Apontamento do Dia”, por Américo Leite Rosa, o mesmo do apicerum, do segredo da abelha. Os “Apontamentos” eram olhares poéticos, atentos e curiosos, sobre o quotidiano, sobre as pessoas e as coisas. Se o meu pai demorava, ainda ouvia, na Renascença, os “Cinco Minutos de Jazz”, do José Duarte, com que se atingia as nove da noite. Era o limite da minha tranquilidade vacilante, a última carreira tinha chegado há muito. A partir daí ficava mais inquieto e preocupado...

Ao sábado, às oito e meia, havia a “Onda Desportiva”, apresentada por um tal Henrique Mendes que ninguém sabia se era alto ou baixo, gordo ou magro. Alto e magro, muito magro, era um certo Alves dos Santos, mas isso só fiquei a saber muitos anos depois. Naquela altura, ele fazia, com o Fernando Pires, as “Jogadas de Antecipação” com que encerrava o programa. Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da antiga ervanária do largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.

Na Rádio Voz de Lisboa, havia uma locutora com uma voz muito doce que dizia, com frequência e muita, muita meiguice “Esta é a Voz de Lisboa”. Um dia, o Vítor Marques, na brincadeira, imitou-as, anunciando com requebros ternurentos “Esta é a Rádio Renascença”. Os senhores padres é que não gostaram e suspenderam-no por quinze dias... A tal Voz de Lisboa apresentava um programa muito popular, com discos oferecidos aos doentinhos dos hospitais, enfermaria oito, cama nove, a Maria Amélia Canossa a dizer que “anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda”. Enquanto o Artur Ribeiro convidada “a cachopa do Minho que Deus abençoa, deixa o teu cantinho, vem até Lisboa mostrar como baila a tua chinela, ver o lisboeta andar atrás dela”. Mas eu gostava era de ouvir o Max a contar a história da Maria da Luz. “Na pequena capelinha da aldeia velha e branquinha, dei à Maria da Luz um cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz”.

[Conto de António Cagica Rapaz, com pequenas adaptações. António Cagica Rapaz foi escritor, nascido em Sesimbra em 1944 e falecido em 2009]

domingo, 25 de março de 2012

Saúde e internet

Assinado por Rita Espanha, Rita Veloso Mendes, Rui Brito Fonseca e Tiago Correia, saiu agora o livro Os portugueses, a saúde e a internet, uma edição da Fundação Calouste Gulbenkian para o Projeto SER (Saúde Em Rede) do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL). A obra reflete a análise sobre a relação dos portugueses com as tecnologias de informação quanto a assuntos de bem estar e de saúde (p. 2).

Na introdução, lê-se que não "é despropositado pensar na possibilidade de uma cirurgia que esteja a decorrer em Portugal seja participada por médicos em Berlim ou Oslo. O conceito de colaboração ganha uma outra dimensão prática e operacionalidade. [...] Por outro lado, a informação clínica disponível on-line permite que o cidadão informado possa também ser um ator consciente e mais responsável na gestão da sua saúde individual, mas também na saúde da sua comunidade" (p. 1).

Se a primeira parte do livro aborda conceitos essenciais para a compreensão das tecnologias da informação em saúde, a segunda parte mostra os resultados de um inquérito por questionário efetuado à população residente em Portugal continental, com idade igual ou superior a 15 anos (808 inquéritos). Por fim, o estudo reflete sobre o espaço das tecnologias de informação e os seus recursos no campo da saúde.

Os investigadores delinearam quatro perfis: 1) não relação com a internet (33,7% dos inquiridos), 2) relação habitual com a internet (29,2%), 3) info-exclusão (21,6%), 4) relação diária com a internet (15,5%). Curiosamente, entre os utilizadores habituais de internet o grau de confiança nesse recurso é menor relativamente a outros meios de informação (p. 34), passando pela compra de medicamentos, produtos dietéticos ou de estética e bem estar (p. 35). Sabendo-se que a proporção de indivíduos que consulta internet anda à volta de 45%, a percentagem de pessoas que procura informação sobre saúde, estética e bem estar situou-se nos 25,7%, em que a grande maioria pertence a pessoas que utilizam habitualmente a internet (p. 22). Os indivíduos procuram obter informações especializadas sobre um problema de saúde (86,1%), aumentar o conhecimento geral sobre saúde (82,7%) e partilhar experiências sobre problemas de saúde (41,7%), entre outros objetivos de pesquisa (p. 29). Os assuntos procurados incluem boa forma e exercício físico, nutrição e problemas alimentares, beleza e bem estar, doenças sexualmente transmissíveis, métodos anticoncecionais, fertilidade e gravidez, toxicodependências (p. 26).

Há um elemento do livro que me chamou uma atenção particular: o crescente ceticismo de populações mais escolarizadas face a esferas periciais, o que enquadra a ideia de uma fase de quebra de legitimidade da medicina (p. 63). Eu constatara isso na minha tese de doutoramento, quando estudei o aparecimento e desenvolvimento de uma doença transmissível sexualmente e o seu impacto nos media. Há elementos novos que o estudo acrescenta, caso da redução de despesa pública na saúde acarretar uma quebra de confiança na autoridade médica. Claro que, em caso de uma dúvida, um indivíduo consulta outro médico particular (75%), consulta outro médico do SNS (11%) ou procura informação na internet (3%), em termos de relação diária (p. 65).

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cassetes

O texto de Amanda Ribeiro, no Público de anteontem, chamou-me a atenção. Ela centrou a sua atenção na Edisco, a última fábrica da Península Ibérica que faz cassetes. Nas décadas de 1980 e 1990, saíam dali 15 mil por dia, agora, agora apenas umas 200 a 300 cassetes por mês. Foi este suporte que fez aparecer a Edisco, que ainda vende para clientes de Lisboa, Algarve e Espanha, escreve a jornalista, que também levanta a genealogia da fábrica, herdeira da Discos Rapsódia e da Casa Figueiredo. As primeiras máquinas faziam nove cassetes. Dois estilos musicais fizeram o sucesso da fábrica: música pimba e música popular. Nas décadas produtivas, o estúdio estava ocupado de março a julho com ranchos folclóricos e tunas. Manuel Monteiro, mais conhecido como Nel Monteiro, vendeu entre 60 e 80 mil cassetes, com êxitos como Azar na praia e Retrato sagrado. A partir de 2005, a Edisco começou a vender menos. Os últimos êxitos foram as edições de anedotas do humorista Fernando Rocha.

Mas os fãs das cassetes continuam vivos. A jornalista lembra o mercado indie e experimental, como Deerhunter, Dirty Projectors, Animal Collective, Of Montreal, The Mountain Goats, e o estilo chillwave, como Washed Out, Toro y Moi, Julian Lynch, Real Estate e Ducktails, em lo-fi (por oposição a hi-fi). Afinal, a cassete, se tiver uma embalagem artística, traduz identidade e personalidade, uma relação emocional com o objeto físico, coisa que o desmaterializado mp3 não possui.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Andy Sennitt

Habituei-me a ler Andy Sennitt, do Media Network, pertencente à Radio Netherlands Worldwide (RNW). Hoje, foi o último dia dele em termos de blogue. A fazer 62 anos, Sennitt decidiu a pré-reforma, pois os tempos não estão fáceis na empresa dele. Devido a cortes orçamentais, a RNW vai despedir três quartos dos seus empregados durante os próximos meses.

O blogue de Andy Sennitt cobre notícias sobre os media internacionais, em especial a rádio, desde 2003 até agora, o que o torna uma importante fonte de informação.