sexta-feira, 28 de junho de 2013

European Television Memories

VIEW-02-option-03-txtEuropean Television Memories, Jun 28, 2013 11:11 am. "Third issue of the peer-reviewed, multi-media and open access VIEW Journal for European Television History & Culture highlights debates on how television fosters the moving borders of national memories. The journal is proud to present its third issue: European Television Memories. It has been guest-edited by Jérôme Bourdon & Berber Hagedoorn and is freely available at: http://www.viewjournal.eu.

"In the context of the fast development of memory studies, the third issue of VIEW highlights debates around the moving borders of national memories, fostered by television in the context of European history. The articles in this issue focus on the contribution of European television researchers, covering all three areas of media studies: production, text and reception. They touch upon a broad range of topics, including:
  • the reconstruction of the national past after regime changes in both Southern and Eastern Europe;
  • competing versions of the “same” past;
  • the fragile fostering of a European identity;
  • the regional/would-be national past.

The issue emphasizes the different ethnographic & historical uses of life-stories from television viewers. It hints at the possible changes to memory formation brought about by television in the post-network digital era. Finally, this issue charts the field of European television memories and suggests ways it can be researched further, both nationally and transnationally" (read more at: European Television Memories).

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Reuters Institute Digital News Report

"News is becoming more mobile, more social, and more real-time. This year’s survey reveals continuing shifts in how, when, and where people access the news, with digital patterns becoming more entrenched – particularly amongst the younger half of the population. Audiences increasingly want news on any device, in any format, and at any time of day. But our survey reveals that the multi-platform and digital revolution is not proceeding at an even pace in all countries. What happens in the US does not necessary follow automatically in Europe or elsewhere. Geography, culture, and government policy also play their part, with Germany and France still showing strong allegiance to traditional forms of media. We also see marked differences in ‘participatory cultures’, with very different rates of take up in social media, commenting, and voting across our surveyed countries" (Executive summary and key findings) Read all Reuters Institute Digital News Report here.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

História da rádio no Brasil

Nos anos mais recentes, tem havido uma forte investigação no Brasil sobre a sua história da rádio. Pela montra que aqui coloco, há quatro áreas essenciais: estações de rádio e serviço público, jornalismo, desporto e cantores da rádio (no caso, as rainhas).

O repórter Esso marca a história da rádio brasileira. Marca de combustíveis, a Esso patrocinou no Brasil e noutros países da América Latina a produção dos noticiários curtos de três a cinco minutos e esteve no ar naquele país da nossa língua entre 28 de Agosto de 1941 e 31 de Dezembro de 1968. Assim, formou gerações no conhecimento do mundo através dos media. O trabalho de Luciano Klöckner, docente da Universidade Católica de Rio Grande do Sul, revela essa tessitura de informações de síntese e de locução vibrante conhecida pelo nome da Esso com as notícias da United Press Association. Já o estudo de Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira sobre a Rádio Nacional, cuja primeira edição remonta a 1984, transporta-nos para o Rio de Janeiro e para a liderança nacional dessa estação nascida em 1936, um lar de grandes nomes da época de ouro da rádio, como Emilinha e Marlene, as eternas rainhas da rádio, como outro livro aqui analisa. A cultura brasileira foi moldada, de certo modo, pela Rádio Nacional, instalada na Praça Mauá, 7, no centro histórico do Rio de Janeiro.

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Os dois livros de Vauci Zucoloto tem virtudes especiais. Se em No Ar, a autora descreve e analisa a história da construção da notícia da rádio brasileira, recuperando o repórter Esso, ela também releva os textos, os formatos, as linguagens e as técnicas empregadas, no livro sobre a programação das rádios públicas no Brasil identifica as influências, as directrizes e as concepções das programações e alerta para a urgência de novas políticas para a radiodifusão.

Quanto aos livros de Maria Luisa Rinaldi Huper (rainhas da rádio) e o organizado por Patrícia Rangel e Márcio Guerra (a rádio e os campeonatos do mundo) são os mais gostosos de ler na medida em que contam histórias que emociona(ra)m os ouvintes ao longo das décadas. A rádio fez-se dessas paixões de seguir as disputas entre Emilinha Borba e Marlene como a rainha da rádio (em Portugal, muito mais tarde, tivemos a querela Simone de Oliveira e Madalena Iglésias) e da formação de uma certa identidade nacional proporcionada pela equipa do Brasil e pelas torcidas (claques) que se formaram. O Brasil reunia-se e separava-se perante as figuras populares dos cantores da rádio e dos futebolistas, num tempo em que a televisão não tinha ainda estabelecido a hegemonia mediática nestas áreas.

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Leituras: Luciano Klöckner (2008). O repórter Esso. Porto Alegre: Age e EDIPUCRS, 315 p.
Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira (2005). Rádio Nacional. O Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 225 p.
Vauci Zucoloto (2012). No ar. A história da notícia de rádio no Brasil. Florianópolis: Insular, 183 p. Vauci Zucoloto (2012). A programação de rádios públicas brasileiras. Florianópolis: Insular, 263 p. Maria Luisa Rinaldi Huper (2009). As rainhas do rádio. Símbolos da nascente indústria cultural brasileira. São Paulo: Senac, 228 p.
Patrícia Rangel e Márcio Guerra (org.) (2012). O rádio e as copas do mundo. Juiz de Fora: Juizforana, 270 p.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Florbela Espanca no Porto

espancaEspanca - eu não sou de ninguém, com encenação de Roberto Merino, direção artística de Isabel Maya e direção musical de Emma Sørås e Francisco Reis, esteve no pequeno auditório do teatro Rivoli, Porto, entre 21 e 23 de Junho, com os atores Inês Cardoso, Daniel Pinheiro, Joana Bastardo, Herivelton Santana e Angélica Neves. A música original pertence a Isabel Maya. Produzido pela Vocare, integrado no projeto Roteiros da Poesia Portuguesa, e depois de Ary dos Santos e Bocage, a peça sobre Florbela Espanca.

Através de leitura encenada da sua obra, combinou-se poesia e música, entre o recital e o musical. Na peça, falou-se do misticismo na sua poesia, da sua emancipação enquanto mulher, dos seus desgostos de amor, da morte inesperada do seu irmão e do agravamento da sua neurose. Alguns poemas editados no livro Charneca em flor (1931) seriam interpretados, ocupando o lado direito do palco. Em palco, duas atrizes representaram idades diferentes de Florbela Espanca, uma mais jovem e outra mais velha. O lado esquerdo do palco foi o espaço dos músicos, o Ensemble Tutti per l'Arte, ensemble original da Vocare.

A Vocare - Instituto Profissional da Voz e da Comunicação é uma entidade de formação especializada no estudo da voz e das artes performativas do espetáculo. Isabel Maya e Angélica Neves fazem parte do seu corpo docente. Roberto Merino é o diretor do curso de Teatro da Escola Superior Artística do Porto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O punk em estudo universitário

punkHoje à noite, no Gallery Hostel Porto, foi apresentado o projecto A different kind of tension, com Paula Guerra, Andy Bennett, Carlos Feixa e Hugo Ferro. Para Paula Guerra, o projecto, agora com um ano de investigação e mais dois pela frente, envolve perspectivas distintas como sociologia, história, antropologia, psicologia, media e jornalismo sobre o punk, desde 1977.

A socióloga chamou a atenção para a necessidade de uma cartografia do punk, com recolha de informação como os fanzines e edições discográficas, pelo que a Hemeroteca de Lisboa e a Bedeteca de Lisboa, Anoise Recs, Raging Planet, República dos Kágados e outras instituições estão envolvidas no estudo liderado pela Faculdade de Letras do Porto.

Como objectivos, Paula Guerra identificou o estudo da genealogia do movimento punk em Portugal, relação com idade e género, lugar e normalização do risco, memória e artefacto, culturas juvenis, cosmopolitismo e resistência, intervenção dos movimentos sociais. A constituição de um arquivo virtual é um dos alvos a atingir com o projecto, onde já foram feitas 60 entrevistas em profundidade em Lisboa, Porto e Braga.

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Verifica-se que o movimento punk é predominantemente masculino (como resultado, 90% das entrevistas foram a homens). Há uma base de bandas organizadas desde 1977: cerca de 600. Alguns indivíduos chegaram a estar envolvidos na constituição de diversas bandas. Também já foi feito um levantamento de 400 textos de músicas, estando agora a proceder-se a uma análise de conteúdo sociológico. Outros resultados saídos do primeiro ano do projecto: dois artigos científicos e um documentário em construção.

Por seu lado, Andy Bennett destacou a importância de ser o primeiro projecto no mundo sobre o punk a ser financiado por uma instituição ligada à investigação (FCT). O punk, além da música, é um estilo de vida e um modo de adição, e a sua pesquisa leva-o a ser comparável, em termos de importância, ao rock e ao reggae, destacando-se a tolerância, o cosmopolitismo e a globalização. Já Carlos Feixa, cujo primeiro livro foi sobre a cultura juvenil do punk, descreveu-a a partir de quatro elementos: 1) filosofia (relação do dandy, do flaneur e do punk), 2) arte (movimentos de vanguarda: dada, surrealismo, punk), 3) música (rock na década de 1950, pop na década de 1960, punk na década de 1970), 4) subcultura (skinhead, rastafari, punk), e 5) contracultura (beatniks, hippies, punk).

O punk, para Feixa, aparece sempre como síntese e superação de contradições nos movimentos anteriores. Daí, ele traçar cinco tensões: 1) espaços sociais (hegemonia versus subalternidade), 2) espacialidade geográfica (local versus global), 3) geracional (juvenil versus transgeracional), 4) consumo (comercial ou personalizado do it yourself), 5) identitário (colectivo versus individual).

Finalmente, Hugo Ferro, que se considera um “inflitrado” no projecto, traz um contributo mais pessoal ao procurar encontrar as origens e as ramificações do punk em Portugal. Se a palavra aparece a primeira vez numa crítica musical em 1969, no Reino Unido, há ainda pouca informação sobre o começo e crescimento do movimento do punk no nosso país. Um dos responsáveis, já falecido, seria António Sérgio, na Rádio Renascença e numa coluna em Música e Som.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Guerra dos Mundos foi há 75 anos

meditschSaiu agora o livro organizado por Eduardo Meditsch, Rádio e Pânico 2. A Guerra dos Mundos 75 anos depois. Na apresentação, Nair Prata escreve sobre o grupo de pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom, que publicara o seu primeiro livro em 1998 Rádio e Pânico: a Guerra dos Mundos, 60 Anos Depois, igualmente organizado pela figura importante de Meditsch, pouco depois de ele concluir o seu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa.

Nesse primeiro livro, tinham colaborado nomeadamente Gisela Ortriwano, Luiz Carlos Saroldi e Valério Cruz Brittos, entretanto desaparecidos. O grupo de media sonoras fora proposto por outra figura importante da investigação da rádio no Brasil que é Sônia Virgínia Moreira em 1990. Na liderança do grupo da Intercom, para além da sua proponente inicial, passaram Dóris Fagundes Haussen, Nélia Del Bianco, Eduardo Meditsch, Mágda Cunha, Luiz Ferraretto e Nair Prata, actual coordenadora.

Agora, para além de uma tradução do guião (roteiro) original de A Guerra dos Mundos, de Howard Koch, por Eglê Malheiros, há um conjunto de textos sobre a peça original de H. G. Wells e a sua contextualização social, cultural e política, da sua utilização na rádio por Orson Welles e que a tornou no programa de rádio mais famoso desde sempre, das edições radiofónicas de invasões de marcianos no Brasil e noutros países da América Latina e também em Portugal (pela mão de Matos Maia, como já recordei aqui, aqui e aqui). Destaco, sem qualquer nível de hierarquizar a sua importância, os capítulos de Carlos Esch e Nélia Del Bianco, Sergio Endler, Mágda Cunha, Dóris Haussen, Valci Zuculoto e Luiz Ferraretto.

Fico com a leitura do capítulo de Meditsch (Preparação. Construindo a arte de assombrar o público, pp. 45-56), onde se conta a azáfama semanal do Mercury Theatre, em que o guião da peça radiofónica era preparado em seis dias, de terça-feira a domingo. Howard Koch escrevia a lápis e uma estagiária da CBS dactilografava, refazendo conforme as críticas e sugestões de Orson Welles, então um jovem de 23 anos.

Na peça radiodifundida na noite do dia das bruxas de 1938 (31 de Outubro), um dos elementos essenciais foi a inserção de noticiários (nomeadamente na sequência de uma música transmitida de um teatro imaginado, Park Plaza, La Cumparsita), numa altura em que os americanos já consumiam muita informação pela rádio, considerado um meio credível, o que reforçou a ideia de programa sério. A equipa não calcularia o impacto da emissão, caso de Koch, que se foi deitar sem saber o que aconteceu durante e depois da peça ter ido para o ar. Apenas no dia seguinte, no barbeiro, ao ler as notícias dos jornais, é que teve consciência do que sucedera. A invasão, no programa, demorou 42 minutos, quando inicialmente se prevera 30, retardado pelo director, conforme uma leitura atenta da imagem do livro sugere. Apenas no último terço da peça é que o guião desfaz o engano provocado nos ouvintes, quando se abandona o formato de programa musical e jornalístico. Mas os efeitos já tinham sido alcançados.

Leitura: Eduardo Meditsch (2013). Rádio e Pânico 2. A Guerra dos Mundos 75 anos depois. Florianópolis: Insular

terça-feira, 18 de junho de 2013

Modos de ouvir segundo Mônica Kaseker

kasekerMônica Kaseker defendeu tese de doutoramento em 2010 o texto publicado recentemente sob o título Modos de ouvir. A escuta da rádio ao longo de três gerações (2012). Além de uma parte teórica clara e objectiva (Barthes, Schaeffer, Schafer, Kerckhove, Mix, Wisnik, Bourdieu, Certeau, Mattalana, Martín-Barbero, García Canclini, Orozco), e de um capítulo sobre a história da rádio no Brasil e no Estado do Paraná, a autora fez um longo trabalho empírico.

Primeiro, explorou 110 famílias de alunos seus na universidade, no segundo semestre de 2007 das turmas que cursavam disciplinas de rádio, observando os hábitos de apropriação radiofónica no quotidiano familiar (p. 23). A seguir, seleccionou dez residências para aprofundamento da sua observação - e que constitui o centro do capítulo 5. Antes, tinha definido cinco tipos de mediação da escuta: tecnológica, cognoscitiva, situacional, institucional e referencial. Tal definição permitiu encontrar características do habitus (Bourdieu) do ouvinte.

No referente à história da rádio no Brasil, a autora distingue várias fases que incluem a expansão e impacto das ondas médias, primeiro, e do FM, depois. À implantação da rádio no país (1922-1932) e expansão (década de 1930), a autora juntou as fases de era de ouro (anos 40 e 50), retracção (final dos anos 50 e década de 1960), ressurgimento (final dos anos 70 e década de 1980) e reconfiguração (a partir dos anos 90). Todo o texto, em especial o capítulo 5, é muito gostoso de ler, pelo que se aconselha baixar o trabalho daqui (intitulado O que escutar quer dizer. A constituição do habitus do ouvinte de rádio no cotidiano familiar).

A amostra de famílias trabalhada no capítulo não tem representatividade estatística (p. 164), mas a amostra de conveniência (famílias de classe B e C, com rendimentos de mil a quatro mil e quinhentos reais, com casa própria e automóvel) tem a vantagem de traçar percursos de três gerações e sua utilização dos media (rádio, televisão, internet, mp3). Como elemento de apoio à sua caracterização das famílias, retiro parte do Quado 4 (p. 227 do texto incluído na internet, pp. 176-177 do livro), onde se ilustra a riqueza das observações sociológicas de Mônica Kaseker.

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Nas conclusões, a autora identifica os traços de cada geração no seu consumo da rádio: "Depois de analisar como os hábitos de apropriação radiofônica surgem e se modificam em diferentes famílias, a partir do gosto, estilo de vida e da distribuição de espaços e tempos cotidianos, assim como a organização das rotinas de acordo com o pertencimento sociocultural de cada uma delas, buscaremos pensar na constituição do habitus do ouvinte ao longo das diferentes gerações. Este movimento já não busca distinguir cada família em seu ecossistema, mas sim procurar o que elas tem em comum na perspectiva geracional. É possível observar que, embora os hábitos dos ouvintes e até mesmo o lugar social atribuído ao rádio no cotidiano se modifiquem muito nesse período, a maneira como se constitui o habitus não se modifica. As escolhas e os vínculos estabelecidos com o rádio dependem em grande medida das relações sociais de cada sujeito em esferas como a própria família, trabalho, estudos e em seu entorno cultural" (pp. 252-253 do texto da internet).

Leitura: Mônica Panis Kaseker (2012). Modos de ouvir. A escuta da rádio ao longo de três gerações. Curitiba, PR: Editora Universitária Champagnat, 299 p.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Different Kind of Tension. Propedêutica punk

punkNo dia 20 de Junho, pelas 20:00, no Gallery Hostel Porto (Rua Miguel Bombarda 222, Porto), haverá a apresentação e discussão pública do projecto de Andy Bennet (sociólogo da Griffith University), Carles Feixa (antropólogo da Universidade de Lleida), Hugo Ferro e Paula Guerra com o nome Keep it simple, make it fast! Prolegómenos e cenas punk (1977-2015).

Em notícia ontem publicada no jornal Público, escrevia-se que a socióloga Paula Guerra faria a apresentação de um estudo sobre o movimento punk em Portugal, realçando modos de vida e cultura dos que o seguiram. No campo musical, ela identifica o início na banda Faíscas, que deu origem ao Corpo Diplomático, depois tornada Heróis do Mar. Ainda de acordo com a mesma fonte, o movimento português foi constituído por 98% de indivíduos do género masculino. O estudo aborda ainda o envelhecimento e o modo como as referências ao movimento se mantêm ou não ao longo da vida.

sábado, 15 de junho de 2013

A história das freguesias de Lisboa

A exposição Freguesias de Lisboa: passado e presente, patente na câmara municipal da cidade, desenvolve-se em dois núcleos principais: 1) histórico, com as diferentes fases e evolução das freguesias, ocupando o átrio e a galeria do edifício da câmara, 2) actual, com as novas 24 freguesias, caracterização e competências. Já na praça, doze elementos desenham um percurso, fazendo-se acompanhar por fotografias de Daniel Rodrigues, fotógrafo recentemente galardoado com uma distinção da World Press Photo (texto retirado do sítio da Câmara).

Motorista como auxiliar da reportagem

MoretzsohnSylvia Moretzsohn editou o livro Repórter no volante, um relato de como os motoristas são elementos importantes nas reportagens mas negligenciados na notícia. A autora coloca o motorista no centro do livro: "em geral provenientes das camadas mais pobres da população, conhecedores de todos os cantos da cidade e muito hábeis ao volante, esses profissionais transmitem, antes de tudo, uma sensação de segurança para a equipa de reportagem" (p. 10). A habilidade na condução do veículo é fundamental para a segurança do jornalista (p. 41), repete quase sem cessar Sylvia Moretzsohn, antiga repórter e hoje docente na Universidade Federal Fluminense.

Os media retratados são os jornais e as rádios de Rio de Janeiro, com os motoristas a conduzirem repórteres e fotógrafos em busca de "matéria" para os seus trabalhos, em especial notícias sobre criminalidade e banditismo nas comunidades (favelas). Alguns dos motoristas viveram nesses locais mais perigosos (p. 44) e conhecem soluções úteis para ultrapassar situações complexas, imprevistas e perigosas. Por via disso, o motorista tem mais facilidade a aceder a fontes de informação informais, imprescindíveis para obter dados secundários mas que se podem revelar fundamentais, e apoiavam os fotógrafos num tempo pré-digital, em que era necessário montar o laboratório de revelação fotográfico (p. 42).

A base do trabalho de Sylvia Moretzsohn foram entrevistas a actuais e antigos motoristas, feitas em 2011, gravadas em áudio e muitas também em vídeo (p. 13). Ela dá conta do crescimento da frota automóvel dos media impressos na década de 1950, caso do jornal A Última Hora (1951), onde se fizeram inovações como a profissionalização da redacção e a introdução da frota de carros de reportagem. Estes carros eram ainda aproveitados para a distribuição dos jornais. Na passagem da década de 1980 para a de 1990, o processo de terceirização atingiu o sector (p. 25), com a passagem da actividade de motorista para empresas independentes do jornal ou com o antigo profissional do jornal a tornar-se trabalhador autónomo, com carro próprio e salário mais baixo (p. 27), aqueles com um salário de 1200 reais mais horas extras e este com 880 reais (p. 31). A autora releva ainda a passagem do tipo de veículo: do jipe da década de 1950 para o carro blindado dos anos mais recentes, indicador de melhores vias de transporte ao mesmo tempo que aumento de violência urbana.

A segunda parte do livro contém uma selecção de entrevistas com motoristas (pp. 75-172), onde se identificam percursos de vida, ideais de solidariedade, muitas histórias e, acima de tudo, a colaboração entre jornalistas e motoristas, estes heróis sempre esquecidos do registo do sociólogo e do historiador, que a autora resgata de uma forma simples e objectiva.

Leitura: Sylvia Debossan Moretzsohn (2013). Repórter no volante. S. Paulo: Publifolha, 183 p.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Do transporte à comunicação

JFUma exposição actualmente patente no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (Juiz de Fora) deu-me o mote para encontrar exemplos práticos de comunicação, a partir de uma perspectiva antropológica. Da exposição, retive as belas obras do pintor Sílvio Aragão e as histórias em volta destes e de outros quadros.

O caminho velho de ligação das minas ao Rio de Janeiro que serviu para escoamento do ouro deu lugar ao caminho novo (1702-1725), com quase 500 quilómetros. Assim, a potência colonial controlava melhor o tráfego do ouro e outras mercadorias, com postos de fiscalização ao longo do percurso da estrada real. Luiz Bustamante, magistrado que exerceu a função de juiz de fora do Rio de Janeiro (1711-1713), comprou uma sesmaria na margem do rio Paraibuna, época que inicia a história da cidade.

Volvidos os Tempos de Inconfidência, outras pessoas consolidaram e emanciparam o município, como o alemão Henrique Halfeld , que melhorou o caminho novo, a actual avenida Barão de Rio Branco, e Mariano Procópio, responsável pela construção da primeira estrada de macadame, a União e Indústria, de Juiz de Fora a Petropólis. A cidade expandia-se nessas vias de ligação. De ponto de passagem passava a lugar de fixação. Após a febre do ouro e emancipado o Brasil, o café passou a motor de prosperidade da região, transportado pelo trem inaugurado em 1870. Lembremo-nos que Jurgen Habermas, em Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962), analisa o nascimento da opinião pública europeia através da leitura e discussão de jornais em espaços públicos como os cafés, onde se bebia tão delicada e prestigiada bebida.

Logo depois, instalou-se em Juiz de Fora uma fábrica de tecidos, a fábrica dos ingleses, o que levou a chamar-se à cidade a Manchester Mineira. A electricidade viria no final do século XIX e Juiz de Fora alargar-se-ia para o outro lado do rio Paraibuna. Hoje, tem uma prestigiada universidade que já atrai muitos alunos de outros estados da federação graças ao novo Sisu (Sistema de Selecção Unificada): 15,5% conforme notícia do jornal Tribuna de Minas (2.6.2013).

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Uma cidade funciona como uma grande empresa, com sucessivos dirigentes e directores, incorporação de novos produtos e novas estratégias. Podemos aplicar conceitos que pertencem ao marketing mas empregados na comunicação, como cluster (feixe de actividades interdependentes), franchising (franquia, representação) e lobing (associações de classe), sem esquecer a educação, a inovação e o empreendedorismo. Aqui, utilizo empreendedorismo no sentido dado pelo professor Aluizio Trinta (2010: 23) quando aplicado à empresa: projecto, operação comercial, cálculo de riscos, acções afirmativas. Empreendedorismo, continua o mesmo autor, é sinónimo de criatividade empresarial no que tange à organização, à estratégia de comunicação e aos seus públicos. O empreendedorismo exige também cultura. Para Jenkins (2006), nos últimos séculos e no novo mundo (a América latina) misturaram-se tradições de folclore de populações indígenas e de imigrantes e capacidades criativas inovadoras, que passaram de geração para geração.

Já no século XX, essa cultura popular de fusão era quase dissolvida pelos meios de comunicação de massa. Porém, a indústria emergente do entretenimento faz o seu desenvolvimento graças à cultura folclórica. Dito de outro modo: tradição e modernidade tiveram de se entender, mesmo que nem sempre de forma harmoniosa. A escola, os jornais, as tertúlias [bate-papos], a política, o teatro e o cinema aproximaram valores e serviram também como veículos de novidade, fazendo mudar sempre e sempre a estrutura empresarial que é a cidade.

No caso de Juiz de Fora, registo sucessivas actividades como ouro, café, tecidos e universidade, com novos especialistas, profissões, alargamento de instalações e necessidade de comunicar e de estabelecer parcerias e contactos comerciais e políticos. Os edifícios, os textos publicados, as intervenções nos espaços públicos e políticos são formas sempre actuais de comunicar. Retenho conceitos como a visão e a missão dos fundadores e pioneiros, o alojamento como ideia de aculturação (Giles, 2012), a mediação (Harwood e Joyce, 2012) entre interesses diferentes e vontades próprias, a identidade cultural. E penso num conceito a atribuir à comunicação aplicado à sociologia dos espaços: ela é, em simultâneo, ponto de passagem (imagem publicitária, comunicado de imprensa) e de fixação (fábricas e escritórios, identidade e valores culturais).

Maria Lucília Moita em Abrantes

Maria Lucília Moita (1928-2011) foi considerada das últimas herdeiras dos pintores naturalistas (casos de Silva Porto e Henrique Pousão). As suas pinturas estão presentes em colecções particulares e museus (Chiado, Centro de Arte Moderna/Fundação Calouste Gulbenkian, José Malhoa, Dr. Anastácio Gonçalves, Museu de Setúbal).

maria lucília moita


da mãe
Agora, na Galeria Municipal de Arte de Abrantes, está patente a exposição da mãe, de Miguel Simão, filho da pintora, numa leitura íntima de Maria Lucília Moita onde se misturam fotografia e pintura.

Escreveu Miguel Simão: "Quando começava uma tela tinha de ir para a rua, ao encontro da natureza que a fazia pintar. Nos dias seguintes, já no atelier, iluminado pela luz da rua ou do candeeiro quando noite, raspava, colocava tinta com os pincéis meio gastos, dando a forma última".

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um americano em Belvedere

Ele é americano e ensina psicologia e história da psicologia em New Hampshire, Boston. Fomos companheiros de uma ainda longa viagem, onde me contou a história do massacre do Ruanda (a luta fratricida entre hutus e tutsis) e da miséria da África. Não foi meigo para o complexo militar-industrial americano que é o poder mais forte do seu país.

belvedere
viagem

Na viagem, deparámo-nos com um burro e a sua carroça preso a uma árvore que existia mesmo perto do asfalto da auto-estrada, enquanto meninos jogavam à bola na proximidade e algumas pessoas usavam a berma da auto-estrada como se fosse um passeio de rua, havendo mesmo algumas que intentavam atravessá-la. Transumâncias tropicais que aqui não é costume ver-se. Só faltariam meninas de tranças a jogar à corda e meninos a correr com arcos, mas isso foi há muito tempo e noutro lugar.

O americano fotografava a paisagem. O motorista explicava o que se via, o rio Paraibuna a separar os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, as fazendas e o peso do sector agro-pecuário, enquanto se lamentava que a selecção brasileira de futebol já não era o que foi (tinha empatado na véspera com a Inglaterra). Eu ia traduzindo para o americano. Quando chegámos ao posto de gasolina de Belvedere, nome de museu vienense onde estão obras de Klimt e Kokoschka [ver aqui], dispus-me a beber um sumo (suco) de goiaba e um pequeno pão de queijo. O americano não trazia dinheiro do país, só possuía cartão de crédito. Também quis lanchar. Lá lhe paguei os cinco reais da sua conta.

domingo, 9 de junho de 2013

Memórias

Memórias de duas participações, a primeira na mesa temática Interfaces da História da Mídia no Brasil e em Portugal, em Ouro Preto, ao lado de Marialva Barbosa (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Eduardo Meditsch (Universidade Federal de Santa Catarina) (1 de Junho) [foto retirada de http://www.jornalismo.ufop.br/historiadamidia/], a segunda em conferência sobre comunicação na empresa, ao lado de Boanerges Lopes (Universidade Federal de Juiz de Fora) (7 de Junho).

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Museus de Belo Horizonte

Museu dos Brinquedos (possui um acervo de mais de cinco mil peças, das quais 800 estão expostas), Centro de Referência da Moda (vestidos de cerimónica e baile, nomeadamente) e Museu de Artes e Ofícios (couro, ourivesaria, mineração, fogo, transportes, madeira, cerâmica, comércio), este em edifícios recuperados junto à estação ferroviária e de metro [ver slideshow abaixo]. Faltou o de minas (gerais).

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quinta-feira, 6 de junho de 2013

A visita

José Luiz Ribeiro, autor e director da peça A Visita escreve sobre o vaudeville, que é "um tipo de teatro que se caracteriza pelas entradas e saídas de personagens diante de eventos indeterminados". A história decorre numa casa onde estão alojados estudantes universitários (uma república), subitamente confrontados com dois problemas: a aposentação da empregada doméstica e a vinda da fazenda para a cidade, por causa de exames médicos, da tia de Micha, o jovem que tinha a responsabilidade do aluguer do espaço. Uma só casa de banho (banheiro), a falta de um quarto para alojar a tia Lola e o seu empregado (que aparentemente quase dizia "Sim, madrinha" mas revelou uma grande sagacidade na resolução de problemas) e o poder reivindicativo do novo ajudante da aposentada Luzia tornam a peça num grande momento de divertimento tendo por fundo questões sérias.

Retomo o texto do autor: a peça é uma "fábula que mostra o conflito entre o campo e a cidade, entre a religiosidade politizada [...] e a ascensão de uma classe que aprendeu a exigir seus direitos sem se preocupar com deveres". O tempo é de hoje, quando no Brasil se assiste a uma forte ascensão social, da classe D e E para a C1 e um em quatro estudantes universitários ganha uma bolsa. Além da muito recente disposição de as bolsas para fora do país se reorientarem para os países de língua inglesa (o que deixou o governo português em pânico há duas ou três semanas, mas me parece irreversível porque o Brasil quer ganhar competências, como já ouvi nestes últimos dias pessoas colocadas dentro da questão). A elevação económica e social precisa de ser completada pela educação, elemento sempre muito frágil como ilustraram os anos de muito dinheiro em Portugal e que não resolveram os problemas, apesar do aumento de licenciados no geral.

Além da questão interclassista há também uma razão racial, embora mais mitigada: a empregada é de cor e os empregadores são brancos, a tia Lola é a fazendeira branca e o seu afilhado é de cor. Entre a fazendeira e a empregada doméstica há uma antiga zanga, que, nos novos tempos, se procura reverter. E uma crítica política evidente, embora apontada à televisão. Os muitos canais de televisão emitem todos a mesma coisa, a novela que representa a cidade não é compreendida no campo e a novela que fala do campo não é entendida na cidade, como diz a fazendeira, que estudara na faculdade antes de ir para o campo e que abandonara as ideias revolucionárias (neste caso, parece colar-se à crítica de Adorno) para se tornar conservadora, porque descobrira a sabedoria do povo.

O grupo que representa a peça é o Divulgação, surgido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1966, a partir de um grupo de estudantes da Faculdade de Filosofia desta cidade, realizando "um trabalho ininterrupto, que está fundamentado na pesquisa, no ensino e na extensão, visando o exercício da cidadania, através da participação cultural e da difusão e discussão de ideias e valores ligados à comunidade" (Márcia Falabella, 2004, Grupo Divulgação. O teatro como devoção, Juiz de Fora, Centro de Estudos Teatrais, p. 18). Em texto comemorativo de 40 anos de actividade, lembrava-se que, na década de 1960, a cidade tinha um forte movimento de teatro, trovadores, poetas, cinéfilos e músicos (Memória). O golpe militar de 1964 e o AI-5, em 1968, acto que estabelecia a censura nas indústrias culturais, estabeleceram dificuldades tornadas resistência. Lorca, por exemplo,seria representado, mas também Gogol, Górki, Gil Vicente (A farsa do velho da horta), Genet, Pirandelo, Camus e José Luiz Ribeiro. Este último já escreve peças há 50 anos. Foi muito bom conhecer o autor e falar com ele uns curtos mas memoráveis minutos antes do começo da representação.

  visita

[imagem retirada da página de Facebook de José Luiz Ribeiro]

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Valci Zuculoto sobre a investigação em rádio e media sonoros

Entrevista a Valci Zuculoto, coordenadora do grupo de História da Mídia Sonora da Rede Alcar, a propósito do 9º Encontro Nacional de História da Mídia, realizado em Ouro Preto (dia 1 de junho). Valci Zuculoto editou recentemente No ar. A história da notícia de rádio no Brasil (2012) - que espero comentar aqui ainda este mês - e A programação de rádios públicas brasileiras (2012). A secção teve 44 comunicações, o que evidencia o impacto da rádio, da fonografia e das outras áreas de media sonoras no Brasil.

Controlinveste

Para o jornal i, o grupo Controlinveste, que detém Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e a rádio TSF, foi vendido a um grupo de capital de risco, com maioria do capital fica nas mãos de António Mosquito, empresário angolano (51%), e BCP, BES e Joaquim Oliveira (49%). Com o fundo de capital de risco vender-se-ão ativos do grupo para amortizar a dívida. No caso do Diário de Notícias, prevê-se a saída de cerca de 200 colaboradores. Trata-se de uma muito má notícia.

domingo, 26 de maio de 2013

Conferência Internacional sobre Economia Criativa de Lisboa

O Festival IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade é um evento que integra os conceitos associados a criatividade e inovação. A primeira edição do Festival IN realiza-se na FIL – Feira Internacional de Lisboa entre 14 e 17 de Novembro de 2013. Engloba as seguintes áreas: artes visuais, artes performativas, arquitectura, cinema e vídeo, património, televisão e rádio, design, videojogos, música, edição e criação literária, multimédia, TIC, telecomunicações, publicidade e I&D. Porém, já a 29 e 30 de Maio, há actividades (warm up). Ler mais aqui. IC

A Impresa na perspectiva de Pedro Norton

pnmNa passada terça-feira, o presidente executivo da Impresa (SIC, Expresso, Visão), Pedro Norton de Matos, deu uma importante entrevista ao jornal Público. Sem eliminar a leitura total do texto de Maria Lopes e Miguel Gaspar, deixo aqui elementos que me parecem essenciais para compreender o negócio actual da televisão (e dos media em geral) aos olhos do principal responsável da Impresa depois de Francisco Pinto Balsemão.

Primeiro, há expectativas de Pedro Norton quanto a resultados positivos este ano, apesar da quebra de 16% no total da televisão no primeiro trimestre de 2013 (a SIC terá baixado 1,8%). O gestor destaca a resiliência da televisão como meio, apesar das mudanças tecnológicas e da massificação de outros meios. Para ele, a imprensa em papel tem uma situação mais complicada, apesar de não acreditar no seu desaparecimento. Prefere falar em reinvenção, nomeadamente em termos de modelo de negócio.

Segundo, fala da relação das empresas de televisão com a CAEM (Comissão de Análise e Estudo de Meios), a propósito da GfK. Recentemente a RTP e a TVI sairam da CAEM, por quererem fazer uma auditoria à medição de audiências por parte da GfK. Pedro Norton de Matos indica, na entrevista, que as primeiras críticas ao processo de medição de audiências começaram há três anos quando a TVI acusou o painel da Marktest estar desactualizado. A pressão foi tão grande que a CAEM fez um concurso, onde saiu vencedora a GfK. Agora, a TVI elogia a Marktest. Contudo, continua o gestor, tirando aqueles dois grupos de televisão que sairam, todos as entidades dentro da CAEM (operadores de cabo, agências, SIC) estão satisfeitas com o trabalho actual de medição de audiências.

Terceiro, o responsável da Impresa refere à liderança da SIC no horário nobre, que desde 2000 pertencia à TVI. Para tal, tem contribuida a ficção portuguesa, com o apoio da SP e da Globo na co-produção de novelas, sem desmerecer o trabalho da informação do canal. Gabriela, Dancing Days e Avenida Brasil contribuiram para essa consolidação.

Outros temas abordados na entrevista seriam a crença que o governo já não vai voltar a falar da privatização da RTP, o lançamento de um canal na área do social este ano (canal cor de rosa, como indicava a chamada de atenção na primeira página do Público de terça-feira) e a mudança de geração nos comandos da SIC (hoje trabalha-se mais em equipa e menos na base de uma cara: Balsemão ou Rangel).

sábado, 25 de maio de 2013

Multidão e televisão na perspectiva de Eduardo Cintra Torres

ECTComo escrevi há dias, Eduardo Cintra Torres publicou o livro A Multidão e a Televisão, em colecção do Centro de Estudos Comunicação e Cultura na Universidade Católica Editora.

A obra tem duas partes: representações teóricas da multidão e representações mediáticas da multidão. Na segunda parte, empírica, o autor analisa manifestações globais contra a globalização, marchas brancas, manifestações de professores, multidões musicais, multidões religiosas e multidões desportivas.

Da contracapa, retiro o seguinte: "esta relação [multidão e televisão] entre o «meio de massas» televisão e as «massas» nela presentes não recebeu até hoje atenção quanto ao seu significado sociológico e mediático. [...] Considerada na sua repetição e diversidade, a multidão adquire um carácter estrutural".

Em baixo, um vídeo com o autor, numa versão algo longa (11:47), mas com um inegável interesse documental, dado o conhecimento de Eduardo Cintra Torres sobre o tema, objecto de tese de doutoramento.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Emissora Nacional na perspectiva de Carolina Ferreira

CFEscrevia aqui a 18 de Dezembro de 2007: "O altifalante do regime. A Emissora Nacional como arma de guerra no conflito colonial, dissertação de mestrado de Carolina Ferreira, foi hoje apresentada e aprovada com a máxima classificação na Universidade de Coimbra. A autora propôs-se estudar o Estado Novo e a guerra colonial (1961-1974), a Emissora Nacional e o efeito das suas emissões na opinião pública. O seu ponto de partida foi o da rádio como arma de guerra no conflito colonial. Para isso, analisou a programação da rádio pública, a partir da revista Rádio e Televisão, as “Notas do Dia”, rubrica de opinião lida por João Patrício (período 1968-1970), ordens internas de serviço e inquéritos de audição (audiências). Carolina Ferreira criou uma grelha de cinco fases em termos de propaganda à guerra colonial por parte da rádio: 1) surpresa [quanto ao rebentar da guerra] e propaganda de integração, 2) entusiasmo/versão estatal [o tempo do refrão "Angola é nossa"], 3) conformismo/discrição [redução do número de programas sobre a guerra colonial], 4) esperança e dúvidas, mais a criação de colunas de opinião [1968, com a ascensão de Marcelo Caetano], e 5) descontentamento/reforço da mística imperial. A jovem investigadora concluiu que a Emissora Nacional teve um comportamento irregular na propaganda ao serviço do regime, no que ela considerou como o poder difuso da rádio (concepção bem distinta da teoria dos efeitos totais ou agulha hipodérmica, como se pensava no começo da radiodifusão, em que uma mensagem atingia total e duradouramente os receptores dessa mensagem)".

Agora, o texto sai em livro, editado pela MinervaCoimbra, em colecção dirigida por Isabel Vargues, docente da Universidade de Coimbra, e com prefácio de Adelino Gomes. Com um título levemente diferente (Os media na guerra colonial. A manipulação da Emissora Nacional como altifalante do regime) e uma capa muito bonita. O contributo da, desde 2003, jornalista da RTP (Coimbra) é fundamental para a compreensão da história da rádio em Portugal, que eu saúdo (e observo que parece haver uma especialização da Universidade de Coimbra em estudos sobre a Emissora Nacional, como a tese de doutoramento de Sílvio Santos, a aguardar publicação, indica). O que se segue é a minha leitura feita para a discussão pública dessa tese de mestrado no final de 2007. Sendo o livro baseado na tese (pelo menos no índice), julgo actuais os comentários.

O estudo tem como objecto compreender o papel da Emissora Nacional durante a guerra colonial de África. A pergunta inicial de Carolina Ferreira foi perceber se a radiodifusão portuguesa influenciou a opinião pública sobre a mesma guerra. Objecto e aquela e várias outras perguntas são de uma grande pertinência. Em segundo lugar, destaco a metodologia empregue. Há a nítida influência da investigação histórica, com análise documental e revisão bibliográfica. Esta última tem peso nos capítulos 1 e 2. Quanto a análise documental, destaco a leitura feita às notas de João Patrício e à programação, esta a partir da revista Rádio e Televisão, no terceiro capítulo. Faz também referência a análise qualitativa e quantitativa, presente igualmente no último capítulo. No texto, refere ainda que não empregou a metodologia de entrevistas. Em terceiro lugar, escreve sobre “análise sugerida pelos estudos culturais” (Douglas Kellner).

Em quarto lugar, destaco, enquanto leitor e investigador, o interesse pelos estudos empíricos desenvolvidos na dissertação. O estudo empírico inicial é o da análise das grelhas de programação das três principais rádios a partir da revista Rádio e Televisão. Carolina Ferreira escolheu três momentos (1961, 1968, 1974), num total de 630 grelhas, com subvariáveis na informação: geral, desportiva, rural, ultramarina, industrial, cartaz. É de um inequívoco interesse sabermos como era a rádio no período e se ela reflecte o peso do regime opressor. Sobre o segundo trabalho empírico, a análise de conteúdo das notas do dia de João Patrício, ele dá uma forte ideia da ideologia do regime.

Para concluir o conjunto de apreciações gerais, realço a perspicácia de Carolina Ferreira quando se questiona se obras assinadas por Fernando Rosas, António José Telo e Fernando Dacosta (e que contêm excursos no domínio da rádio) estão fundamentadas em análises aprofundadas ou se se baseiam em conjuntos de impressões. Estudaram eles a rádio no período para se concluir ser a rádio (e a Emissora Nacional) um poderoso instrumento de propaganda? Para mim, as obras em que se apoia não analisam, porque desconhecem a rádio, apenas dão impressões. Se ninguém estudou verdadeiramente o impacto dos media, como se pode emitir um parecer, chegar a uma conclusão?

A meu ver, faltam ainda análises empíricas. O único autor que estudou a rádio (porque a viveu por dentro), Fernando Serejo, duvida da ideia de altifalante sonoro. Melhor dito, ele contesta a ideia de a Emissora Nacional ser o único altifalante do governo, escrevendo que Marcelo Caetano até preferia o Rádio Clube Português (Fernando Serejo, "Rádio - do Marcelismo aos nossos dias" (1968-1990), Observatório, 4, p. 69). No mesmo texto, Serejo destaca os profissionais oriundos da Rádio Universidade e que estariam na origem da renovação: Fialho Gouveia, Carlos Cruz, João David Nunes, Adelino Gomes, José Nuno Martins, Eduardo Street, José Manuel Nunes. E ainda o programa Jornal de Actualidades, que fugiu aos cânones habituais da informação da estação pública.

Fernando Rosas e J. M. Brandão Brito (Dicionário de História do Estado Novo, 2005) indicam limitações técnicas e profissionais gritantes que mantiveram a rádio portuguesa afastada dos grandes acontecimentos. Primeiro – será que os autores têm razão? Segundo, não será preciso contextualizar? Digo isto, porque Portugal pertencia à União Europeia de Radiodifusão onde questões técnicas eram discutidas; não acredito muito nesse grande atraso. Basta ver o arranque da FM na década de 1960, pouco depois de isso acontecer noutros países ocidentais. Os atrasos estariam noutro plano. Carolina Ferreira diz que as pessoas se recusaram ouvir a incansável propaganda emitida pela Emissora Nacional, mudando o “botão”. Refere os anos 1972-1973.

Posso especular: se o número de programas sobre a guerra baixou e aumentou a programação musical, isso – o altifalante – não foi razão para a perda da popularidade. A meu ver, o que se passou foi a inovação das rádios privadas, com um corpo de colaboradores mais jovens (sigo Serejo), usando outras técnicas de comunicação (mais informal e alegre), passando músicas novas. A audiência escapou de três formas: da rádio pública para as privadas, da OM para a FM, da rádio para a televisão. Ao mesmo tempo, as rádios dotavam-se de redactores de notícias, enquanto aumentavam os programas de autor ou de produtores. Isto para não falar de uma lenta feminização dentro da rádio e de novas estéticas (passagem da música francesa, italiana e espanhola para a anglo-americana).

Leitura: Carolina Ferreira (2013). Os media na guerra colonial. A manipulação da Emissora Nacional como altifalante do regime. Coimbra: MinervaCoimbra, 240 p., 19 €

domingo, 19 de maio de 2013

Paula Rego a visitar

regoA nova exposição de Paula Rego na Casa das Histórias (Cascais) é um núcleo fundamental de catorze obras da série Óperas (1983) da pintora portuguesa radicada em Londres. La Bohème, de Puccini, Aida, Rigoletto, Falstaff e La Traviata, de Verdi, Fausto, de Gounod, Carmen, de Bizet, e Jenufa, de Leoš Janácek, são as obras que inspiraram a autora.
 
Nos quadros, que ela pinta no chão, de cima para baixo, como se fossem grandes bandas desenhadas, representam-se histórias que são simultaneamente comédias e tragédias, nas quais os humanos e heróis interagem com animais, vegetais e híbridos. Por vezes, são imagens desconcertantes como se fossem contos de fadas, mas sempre vivas apesar das cores de uma paleta expressivamente em número reduzido (curadoria de Catarina Alfaro).
 
Para além desta mostra temporária, recomenda-se uma visita a outras obras da pintora, nomeadamente um pequeno conjunto de colagens e pinturas de meados da década de 1960, trabalhos artesanais muito minuciosos, com uma linguagem intimista e ainda sem o carácter antropomórfico da obra posterior.
rego

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A história oral em discussão

Celso CastroDoutor em Antropologia Social e atual diretor do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), Celso Castro apresentou hoje no II Congresso de História Contemporânea em Évora [imagem ao fundo da mensagem] uma comunicação subordinada ao título A constituição de uma história audiovisual das ciências sociais: desafios e resultados.

Da instituição de Celso Castro, retiro a seguinte informação: "Os conjuntos documentais doados ao CPDOC, que podem ser conhecidos no Guia dos Arquivos, constituem, atualmente, o mais importante acervo de arquivos pessoais de homens públicos do país, integrado por aproximadamente 200 fundos, totalizando cerca de 1,8 milhão de documentos" (http://cpdoc.fgv.br/sobre).

Para mim, essa comunicação constituiu uma referência para a minha própria investigação em termos de história oral. A que junto a leitura de Methods of Historical Analysis in Electronic Media (2006), editado por Donald G. Godfrey, e Sound Souvenirs. Audio Technologies. Memory and Cultural Practices (2009), editado por Karin Bijsterveld e José van Dijck, textos com objectivos distintos mas que eu consigo complementarizar.

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terça-feira, 14 de maio de 2013

Redes sociais

Apresentação de slides Redes sociais – para uma cultura do diálogo, 14 de maio de 2013, 15:30.

 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A guerra colonial em teatro

matoO texto teatral parte do livro de Jaime Froufe de Andrade, Não sabes como vais morrer (4ª edição em 2013), com dramaturgia e encenação de Pedro Estorninho e interpretação de José Topa, Paulinho Oliveira, Pedro Estorninho e Pedro Roquette, teve uma série curta de representações no Teatro Helena Sá e Costa (Porto).

É a história do alferes Isidro que narraria o seu último dia de guerra em África, mais especificamente em Moçambique, numa analepse (quando o facto pertencendo ao passado é trazido para o presente da história relatada, fenómeno de anacronia), durante o seu encontro com o sargento João. São histórias dramáticas de uma frente de guerra que Portugal travou nas suas antigas colónias, durante quase toda a década de 1960 e parte da década seguinte, com emboscadas, interrogatórios a guerrilheiros e mais situações limite da condição humana.

Tema actual, até pela passagem da série histórica na televisão sobre os retornados, que lembram a memória dos últimos cinquenta anos da vida de Portugal, a peça de Pedro Estorninho é minimalista no seu cenário. De início, o antigo alferes recorda, a muitos anos de distância, o que foi a guerra colonial. Depois, o palco abre-se e vemos dois jovens - Isidro e João - a contarem no seu último dia de serviço militar algumas histórias de que foram testemunhas ou agentes principais.

 Não gostei muito da peça. Talvez porque estivesse desatento ou porque sentisse a sala desconfortável, o que não se pode dizer sobre o teatro Helena Sá e Costa, que é bonito. Nem sempre compreendi o que se dizia no palco, possivelmente porque me coloquei num sítio desadequado. Ou porque entendo que faltava algum enquadramento. Sobre Pedro Estorninho, escrevi no ano passado sobre a peça Madrugada, aqui, que então apreciei muito.

 Jaime Froufe de Andrade foi alferes miliciano de Operações Especiais, Ranger da Companhia de Caçadores 2358 do Batalhão de Caçadores 2842 (Tete, Moçambique, 1968-1970). O livro tem um "conjunto de oito histórias da guerra colonial que o autor viveu em primeira pessoa durante a sua comissão de serviço em Moçambique [...]. São outros tantos retratos da vida que centenas de milhar de jovens portugueses viveram, nos anos da guerra colonial, no meio do «mato», em Moçambique, Angola ou na Guiné-Bissau. As histórias são escritas com dramatismo, em que cabem momentos de humor, perplexidade, angústia e ansiedade, mas também a profundidade psicológica, que faltam a muitos relatos de guerra" (http://ultramar.terraweb.biz/06livros_JaimeFroufeAndrade.htm).

domingo, 12 de maio de 2013

Ilustradores portugueses na FILBo 2013 [Feira do Livro de Bogotá]

Ilustración sobre tres ilustradores portugueses, texto de Natalia Jerez Quintero, Literata, Universidad de los Andes, publicado em 3 de Maio de 2013 em http://www.uniandes.edu.co/noticias/artes-y-humanidades/ilustracion-sobre-tres-ilustradores-portugueses.

Bernardo Carvalho

[Ilustração de Bernardo Carvalho]

"Los talleres de André da Loba empiezan con un muñequito portugués y con la pregunta ¿alguien sabe qué es un portugués? Como nadie en la sala sabe la respuesta, el ilustrador tiene toda la libertad del mundo para jugar con su audiencia. Yo no sé qué es un portugués, pero este artículo intentará contarnos, desde la perspectiva de una de sus acompañantes, lo que tres portugueses, el dueño de una maleta de madera llena de objetos mágicos, el capitán de un barco editorial llamado Pato Lógico, y el dueño de las manos rápidas que hacen ilustraciones al ritmo de una actriz, hicieron y dejaron en Bogotá hace un par de semanas. "Los ilustradores André da Loba, André Letria y Bernardo Carvalho, respectivamente, son los protagonistas de esta historia. Da Loba es un caminante que alguna vez quiso ser físico pero terminó siendo diseñador y que ahora, gracias al destino, vive secretamente feliz en Brooklyn donde ilustra libros infantiles, crea objetos especiales que después pasea por el mundo en una maleta de madera, y hace ilustraciones para The New York Times, The New Yorker y Time Magazine entre otros. Letria, “El increíble dormidor de libros”, ha hecho ilustraciones para periódicos y libros desde 1992, ha ganado varios premios de ilustración y en 2010 creó la editorial Pato Lógico, que fue la encargada de darle vida a la sección infantojuvenil del pabellón de Portugal en la Feria Internacional del Libro de Bogotá (FILBo 2013) con su libro Mar, ilustrado por Letria y escrito por el divertidísimo Ricardo Henriques. Bernardo Carvalho es un viajero y fotógrafo que siempre está sonriendo, pero también es el cofundador de Planeta Tangerina —la editorial portuguesa que este año fue elegida en la Feria del Libro Infantil de Boloña como la mejor editorial europea de libros infantiles y juveniles— y el ilustrador de la editorial. "Para cada invitado portugués a la Feria había uno o dos acompañantes colombianos encargados de estar con ellos todo el tiempo, de ser sus "hombre-sombra" o "mujer-sombra", como decían ellos, y estar ahí para lo que necesitaran. Ser la mujer sombra de los ilustradores parecía todo menos trabajo; caminar con lluvia por la Macarena en busca de un bar con una barra decente, descansar en la sección infantil de la librería del Fondo de Cultura Económica después de una larga noche, dar clases de salsa en la Soledad, oír cuenteros en Usaquén, encontrar un buen lugar para comer lechona y buscar dónde ir a bailar en martes fueron algunas de las “funciones” de sus acompañantes colombianos que, más que sombras, eran nuevos amigos. "En el marco de la FILBo 2013, los ilustradores estuvieron dictando talleres y charlas no sólo en la Feria sino también en universidades y colegios donde el público, muy variado, siempre quedó contento con lo que veía y oía. Se habló del mundo editorial, del proceso creativo, de la dificultad de encontrar la voz propia, de la edición digital, de los adultos y los niños, pero lo que más llamó la atención de todos los talleres fue la forma en que estos tres portugueses se conectaban con el público, dejando siempre algo personal en cada conferencia que dictaban, desdibujando así la barrera que suele existir entre las personas famosas —sí, ¡ellos son muy famosos!— y los demás. "Por ejemplo, los tres contaron con entusiasmo anécdotas sobre proyectos que los apasionaron y que resultaron siendo fracasos editoriales e incluso uno de ellos contó cómo había vendido 23 libros. Pero esto no fue en ningún momento una razón para dejar de hacer lo que hacen, es decir, divertirse, ya sea haciendo libros, ilustraciones ‘serias’ para periódicos y revistas de renombre u objetos que cuentan todo tipo de historias. Aunque los tres hablan de la soledad de su profesión y de las horas que deben pasar en su estudio solamente acompañados por “papel, tinta y amor”, al verlos interactuar entre ellos y con el público uno no pensaría que son personas solitarias. Siempre amables, risueños y dispuestos a hacer chistes e interactuar con las personas que tienen cerca, estos tres ilustradores portugueses transforman las historias en color, texturas, personajes, páginas, libros y obras de arte espectaculares pues, como alguien me dijo hace poco mientras caminábamos por la exposición de ilustración “Como las cerezas” en el Pabellón de Portugal, “la ilustración portuguesa está en su edad de oro”. "Este artículo no pretende contestar la pregunta que hace da Loba en sus talleres, pero sí contar un poco la experiencia de la mulher-sombra de los ilustradores portugueses que, a decir verdad, dejaron mucho más que papel, tinta y amor en su paso por Colombia". *Los talleres con los ilustradores hicieron parte de los eventos que la Universidad de los Andes presentó dentro de la Feria del Libro de Bogotá, bajo el título 'Mar, viajes y libros: Portugal en Los Andes'.

sábado, 11 de maio de 2013

Textos de 1999

Recupero aqui dois textos que escrevi em 1999: Os media, as tecnologias de informação e o turismo e Internet, jornais electrónicos e teletrabalho. Algumas apostas no mercado de trabalho. Ambos editados em http://www.bocc.ubi.pt/.

 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Retrato dos homens de rádio a dias

CMCCurt Meyer-Clason (1910-2012) foi o responsável do Goethe-Institut em Lisboa entre 1969 e 1976, depois de ter trabalhado durante mais de vinte anos no Brasil e na América Latina. No continente americano, familiarizou-se com a língua portuguesa e traduziu para o alemão autores brasileiros, como Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector, João Ubaldo Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Em Portugal, traduziria também para o alemão autores como Eugénio de Andrade, Camilo Castelo Branco, Almeida Faria, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Fernando Namora, Eça de Queirós, Urbano Tavares Rodrigues e Miguel Torga. Seria o editor de uma antologia de autores (narradores) portugueses Der Gott der Seefahrer und andere portugiesische Erzählungen, Tübingen (1972), depois aumentada em Portugiesische Erzählungen des zwanzigsten Jahrhunderts, Freiburg (1988), onde incluiria Luandino Vieira, então preso no Tarrafal depois da publicação e atribuição de um prémio da sociedade de autores portuguesa. Mas excluiria Joaquim Paço d'Arcos, romancista identificado com o regime, e que, por isso, não compreendia a razão da inclusão de Luandino (p. 151).

Quando chegou a Portugal, com a ditadura vigente, ele transformou o Goethe-Institut. Primeiro, mudou-o da avenida da Liberdade para o Campo Mártires da Pátria. Depois, e fundamentalmente, abriu as portas do instituto alemão às companhias de teatro independentes e aos intelectuais que se opunham ao regime. A ponto de o embaixador do seu país lhe chamar a atenção e os homens do SNI proibirem representações. Por exemplo: nem pensar em Brecht (p. 168) ou Peter Weiss (p. 182). Um dia, um concerto teve de ser remarcado da Aula Magna para o próprio instituto porque não havia autorização do regime português (p. 100). E bastaria ver o tipo de aquisição de livros para a biblioteca em 1970 para se perceber as ideias políticas do homem: Adorno, Benjamin, Habermas, Marcuse, Wittgenstein (p. 104).

Em Diários Portugueses (2013), o seu olhar sobre Portugal é sibilino. O comportamento dos indivíduos, desde o senhor Jesus até ao Herr Santos, passando por Fräulein Lopes, a poetisa Natália Correia ou o escritor José Cardoso Pires, mas também os senhores embaixadores e mulheres nos jantares de pares, ficou registado nesses diários. Há uma espécie de relato sobre a filosofia do imponderável dos portugueses, que encontramos na expressão "mais ou menos" (pp. 188-189) quando se pergunta algo a uma pessoa, como o seu estado de saúde, por exemplo. O livro lê-se de um trago (parei no começo de 1974 para escrever esta nota mas vou rapidamente regressar à leitura). Ruas, lojas, a praia da Caparica e o peixe e o vinho servido num restaurantezinho, nos idos anos de 1970, o contacto com as autoridades, a cultura, o embaixador alemão, as impressões com a mulher Christiane, as constantes referências à cultura literária do nosso país, tudo se lê bem.

Fixei-me em Maria Rita e, por um momento, lembrei-me de Umberto Eco quando, em A Misteriosa Chama da Rainha Loana, a personagem Yambo, com nome de baptismo de Giambattista Bodoni, recupera de um AVC e se pergunta se teria ou não namorado com a jovem e bonita secretária da sua loja de livros antigos. No livro de Curt Meyer-Clason, quase nos apaixonamos por Maria Rita ao pensar como seria ela com a sua blusa cor de mostarda e lenço atrevido ao pescoço (p. 158). Parecia que Maria Rita era a rival de Christiane. Mas basta rever páginas atrás, quando ele nos apresenta Rita Nebelthau, já viúva e que regressara da Alemanha a Portugal em 1968 (p. 117), ex-funcionária da embaixada e que concorrera para secretária do Goethe-Institut, a agente voluntária do seu diretor, ao obter informações da embaixada, cujo titular era um homem bem mais próximo da orientação política oficial portuguesa. A conversa entre Maria Rita e Meyer-Clason (pp. 126-128) faz-nos abandonar qualquer suspeita sobre a relação de ambos.

O que retirei da leitura até agora feita de Curt Meyer-Clason seria a situação de contratados por projeto dos homens (ou mulheres) da rádio. João de Freitas Branco, que falava um alemão perfeito, com traços e gestos de um europeu mimado, no seu fato azul já com lustro, tinha pelo menos três ocupações para sobreviver, como alguns programas de rádio: conversas sobre a sonata de Beethoven, ópera romântica, contraponto em Bach (p. 44). Camila Felisberto, colaboradora a tempo parcial do Goethe-Institut, estudara música e trabalhava no departamento de programas musicais da rádio pública, tratando das encomendas de fitas gravadas para as estações de rádio em Portugal e nas colónias, então designadas de províncias ultramarinas (p. 28).

Leitura: Curt Meyer-Clason (2013). Diários Portugueses. Lisboa: Documenta, 414 p., 24 €