quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Rogério Leal (1916-1980)

Rogério Seixas Costa Leal foi uma figura eminente da rádio no Porto, conforme se lê no obituário publicado no Jornal de Notícias, de 18 de janeiro de 1980. Emissora Nacional, Emissores do Norte Reunidos e Rádio Renascença tiveram a sua intervenção. Além da editora discográfica Rádio Triunfo.

 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A rádio em João Lourenço

Em entrevista ao "Observador", João Lourenço, responsável pelo Teatro Aberto, conta como começou a sua atividade no teatro via rádio: "Ainda me lembro como se fosse hoje de ir com os meus pais ao Teatro Nacional. E sentado na plateia sentir-me admiradíssimo, entusiasmado, com um rei que vi no palco. O rei era o Raul de Carvalho. No final o meu pai disse-me: «Eu conheço-o bem, ele costuma ir lá ao escritório, queres que vos apresente?» E apresentou-me ao Raul de Carvalho. Estávamos a conversar e ele disse ao meu pai que a Odette de Saint-Maurice, na Emissora Nacional, procurava um miúdo da minha idade, com a minha voz. O meu pai perguntou-me se queria experimentar e aceitei. Mas fui logo avisado que não poderia faltar à escola. [Risos] Lá apareci à Odette e fiz o meu primeiro folhetim na rádio. [...] fiz muitos folhetins na Emissora Nacional, no Rádio Clube Português, na Rádio Graça… E comecei a contactar, a conviver de perto com os atores todos".

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Programa Passado ao Presente

Hoje, no programa Passado ao Presente, de João Carlos Callixto (https://www.rtp.pt/play/p1401/e330297/passado-ao-presente). Com Paulo Pepe e Rogério Santos. "Uma conversa com duas gerações de investigadores, o primeiro com o livro "Do Pop ao Teatro de Rua", que reflete sobre António Variações, e o segundo com "A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975)"".
No programa, as minhas duas escolhas musicais foram "O Mar Enrola na Areia", do Rancho Folclórico Poveiro (editora Rádio Triunfo) e "Trova do Vento que Passa", de Adriano Correia de Oliveira, com música de António Portugal e letra de Manuel Alegre (editora Orfeu). Aproveitei ainda para recordar Rogério Leal, Frederico Lupi Nogueira e Licínio Oliveira, todos da Emissora Nacional. E ainda Arnaldo Trindade, o editor da Orfeu. Uma curiosidade lembrada por João Carlos Callixto: a música do Rancho Folclórico Poveiro (1957) foi criada na transição da produção de discos de 78 para 33 1/3 rotações por minuto.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Rádio em Angola (Diamang)

A investigação sobre a rádio obriga-me a ler muitos textos e documentos. Um dos meios impressos que sigo é o "Diário do Governo", III Série. Já me tinha cruzado com o relatório e contas da Diamang, empresa privada de exploração de diamantes em Angola. Li com atenção o relatório publicado na folha do governo a 13 de julho de 1954, de que ficam aqui cópias digitalizadas (pp.1600-1625).

A estação radiofónica do Dundo emitia programas diários com música gravada, palestras e teatro radiofónico (p. 1618). Diz o relatório: "Vários sócios e senhoras das suas famílias asseguraram o serviço de locução". A discoteca tinha 2662 discos, certamente em 78 rpm, de música clássica, concerto, regional e dança. Um concurso literário teria incluído as modalidades de peça radiofónica e programa radiofónico.

O meu interesse no relatório acaba aqui. Contudo, as 26 páginas impressas dão uma ideia antropológica geral do que era uma empresa numa colónia rica como Angola. Os diamantes significavam muito dinheiro e despertavam muita cobiça, o que levaria a administração a ponderar razões e sensibilidades. Por vezes, há críticas veladas ao funcionamento da política colonial. Mas múltiplos elementos, parecendo objetivos, mostram a brutal realidade em 1954 de uma exploração mineira. Por exemplo, a distinção entre pessoal branco (287, dos quais apenas 8 não eram portugueses), comparativamente com 17 mil indivíduos indígenas, ainda por cima divididos em assimilados e diferenciados. E uma experiência que não correu bem ou como diz o relatório: "infeliz experiência da introdução de mão de obra cabo-verdiana na Lunda" (p. 1606). Do pessoal branco, havia 9 engenheiros, sem contar com os da direção, 12 médicos e 16 enfermeiros. No ano a que reporta o relatório, tinham nascido 28 crianças brancas. Do conjunto de empregados brancos, 92 tinham até três anos de serviço.

Numa Festa Desportiva dedicada à população indígena, participariam nas eliminatórias: 396 quiocos, 34 songos, 27 minungos, 23 lundas, 22 balubas, 7 cafias, 8 luluas, 3 matapas, 3 quimbundos, 8 camaxilos, 2 luenas, 2 caquetes, 1 bângala, 1 bieno, 1 tucongo e 1 bailundo. Estes números indicam uma precisão diria que científica.

O relatório destacaria a visita do subsecretário de Estado do Ultramar, cujo avião aterraria no aeródromo do Dundo. A outra personalidade importante seria oferecido um jantar seguido de baile, com números de teatro e teatro radiofónico e um "vistoso" fogo de artifício.

Atente-se ainda nos subcapítulos como relações com as autoridades, visitas, exploração e prospeção, pessoal branco e indígena, serviços agrícolas e pecuários, assistência material e moral (como serviços de saúde, ensino primário, museu e realizações culturais, caso da rádio do Dundo), transportes e vias de comunicação e roubo de diamantes.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Mais um texto sobre as rádios livres

Um texto importante para se compreender o nascimento e a evolução das rádios livres: Ana Paula Azevedo (2001). "As Rádios Locais no Pós-25 de Abril". Observatório, 4: 113-122. Já referido nesta página, comparar com o texto de Ana Isabel Reis, no livro organizado por Ana Isabel Reis, Fábio Ribeiro e Pedro Portela: http://www.lasics.uminho.pt/…/cecs_e…/article/view/2049/1971.









domingo, 4 de fevereiro de 2018

Lançamento de "A Emissora Nacional e as Mudanças Politicas (1968 / 1975)...

O lançamento do livro A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975) foi um momento feliz para mim. Primeiro, pela editora: MinervaCoimbra (nas pessoas de Isabel e José Alberto Garcia), depois, pelo apresentador, Adelino Gomes. A seguir, pelo áudio na Antena 1, trabalho feito por Olívia Santos (https://www.rtp.pt/…/p1467/e328941/entrevista-tarde-antena-1), que me perguntou como ia eu ouvir a gravação, lançada no ar no momento da apresentação do livro, ao que respondi que o ouviria em podcast. A rádio, hoje, é mais completa que outrora: além de se ouvir em direto, os registos são guardados em formato digital e ouvidos em qualquer momento e nos dispositivos móveis. Depois, agradeço o vídeo feito por Nunes Forte, um homem que dedicou toda a sua vida à rádio e à indústria do audiovisual, e as fotografias feitas por Fernando Corrêa dos Santos.



Do apresentador, Adelino Gomes, retiro as seguintes ideias, algumas tiradas diretamente do seu texto: O apresentador falou em “jornada investigativa excecional”: a história desde os pioneiros da rádio em Portugal que o autor vem escrevendo e submetendo ao escrutínio dos pares e à curiosidade dos cidadãos. À medida que o tempo avança em direção aos dias de hoje, cresce o número de leitores (e especialistas) com memória de pedaços e nalguns casos até com vivência direta do lado de quem participou e até num ou noutro caso protagonizou história dessa história. Razão pela qual foi escolhida apenas a EN. Contextos políticos, sociais e profissionais que enquadram os dois períodos distintos da história da rádio oficial abarcados pelo trabalho: o que vai de 1968 a 1974, marcado por uma tentativa, falhada, de liberalização do regime de ditadura, e aquilo que o autor designa por “a dinâmica dos dezoito meses de revolução” (abril de 1974 ao imediato pós 25 de novembro de 1975). Opção que o leva a reservar atenção às biografias pessoais daqueles que designa como “agentes perdedores no começo e no fim da revolução”. Isto é, primeiro o que aconteceu ao pessoal mais identificado com o marcelismo; e depois, ao pessoal mais identificado com o gonçalvismo. O último parágrafo do livro presenteia-nos com uma síntese crítica do melhor que li ou ouvi sobre em que se traduziram e o que representaram radiofonicamente estes sete anos de fim de um regime e de início de outro [o posterior aparecimento das rádios livres, que introduziram um novo período de grande criatividade na rádio]. O apresentador falou também numa injustiça a um grande profissional, já falecido, e não abordado no livro: António Jorge Branco. O autor tomou nota do reparo, e agradece.


[registo de Patrícia Cardoso]

 

[vídeo de Nunes Forte]


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Nuno Artur Silva

"Não sei como agradecer todas as dezenas e dezenas e dezenas de mensagens que por todos os meios tenho recebido de amigos, conhecidos, desconhecidos. 
Ao mesmo tempo que fui alvo de uma campanha difamatória reles, miserável, sem escrúpulos, lançada precisamente neste momento com o intuito de impedir a minha continuidade na administração da RTP - campanha, por sinal, bem sucedida - fui igualmente inundado por manifestações de pessoas que, não tendo contacto com tablóides onde trabalham pessoas que se fazem passar por jornalistas e que representam a pior escumalha da comunicação social, são pessoas que simplesmente como ouvintes e espectadores dos canais da RTP têm feito questão de me dizer que não percebem o que se passou e que estão a gostar cada vez mais desta RTP e a encontrar nela a evidência de serviço público.
Tem sido para mim absolutamente inesperado, comovente, redentor, o que me têm dito do nosso trabalho nestes três anos na RTP.
Quando penso em tudo o que a vida me tem proporcionado sinto-me um privilegiado. Este é um desses momentos.
Foram três anos empolgantes em que, com excelentes equipas, pudemos concretizar muito do que acreditávamos que devia ser feito.
Agora é tempo de regressar ao meu lugar de sempre: um qualquer sítio onde possa ter ideias, escrever e desenvolver projectos com outras pessoas.
Continuarei sempre a fazer o que gosto. Com quem gosto. Tenho os inimigos certos. Que mais posso desejar?" (https://www.facebook.com/nunoartur?hc_ref=ARTMyv7lBVQ5amu8xvU0_Xy4_1j8RyfXoElDiCICJ9U2U8Cx6-j_4GhyseiEGN66DPA&fref=nf).


Concordo com as palavras de Nuno Artur Silva. Sou um fã da sua obra. Mas uma empresa pública tem obrigações precisas: a separação entre interesse público e interesse privado. À criatividade opõe-se a necessidade de transparência. Estas palavras, assim ditas, são ocas? Talvez. Mas marcam a sociedade.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Ainda sobre as rádios locais

Há 30 anos, o país discutia a legislação das rádios livres. Um dos animadores do movimento das rádios livres foi António Colaço, primeiro na Rádio Antena Livre (Abrantes) e depois na Rádio O Ribatejo (Santarém). Ele foi um grande animador de encontros das rádios e artífice da emissão em cadeia (17 de novembro de 1988, com cerca de duas centenas e meia de rádios com RM sobre temas da sua freguesia, concelho ou distrito).
Na entrevista que lhe fiz a semana passada, António Colaço recordaria outros pioneiros do movimento das rádios livres, como João Duarte Soares, Daniel Guerra, Antonio Silva Oliveira e Bernardino Guimarães. E Pedro Rolo Duarte (semanário Sete) e Amílcar Mascarenhas.
Outra entrevista a António Colaço, no livro organizado por Ana Isabel ReisFábio Ribeiro e Pedro Portela (2014, capa ao lado), pode ser lida em aqui. Junto ainda parte do artigo de Kathleen Gomes (Público, 24 de dezembro de 1998) e artigo de António Colaço (O Ribatejo, 21 de novembro de 1996).


 


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

De novo, a rádio em Angola no período colonial

A Diamang (Companhia de Diamantes de Angola) tinha, na época colonial, uma estação de rádio, a emitir do Dundo, conforme se lê no relatório e contas da administração apresentado em assembleia-geral em junho de 1952 (Diário do Governo, III Série, de 15 de julho de 1952).

A ênfase, no relatório, é dada à Casa do Pessoal, responsável pela biblioteca (mais de cinco mil volumes), bilhares, ténis de mesa e de campo, e festas de Carnaval, santos populares e passagem de ano no então recente edifício do Dundo. Quanto a programas de rádio, havia música gravada (clássica, de concerto e de dança), peças de teatro radiofónico e palestras, incluindo as comemorações de datas históricas portuguesas. A discoteca tinha mais de 2500 discos (certamente de 78 rotações por minuto) e a estação emitia em 7070 kHz (ondas curtas).

Sobre a Rádio Diamang, retiro a informação de http://angolaradio.webs.com/, de Diamantino Pereira Monteiro: "A Rádio Diamang arrancou em 1946, com um emissor de 400W. Propriedade da Companhia de Diamantes de Angola - Diamang - a emissora nasceu para servir a significativa colónia de funcionários da empresa, um potentado económico que detinha o exclusivo da exploração e venda de diamantes em toda a região das Lundas. Por esse motivo, e porque funcionava em regime quase fechado, a Rádio Diamang não se enquadrava de todo no panorama da radiodifusão angolana, bipolarizada entre a rádio estatal e os rádio clubes".

No relatório da Diamang, não há indicação de locutores ou editores, mas o cartão QSL da estação indica a chamada: "Aqui Dundo, Estação Emissora da Companhia de Diamantes de Angola" (cartão inserido na página de Diamantino Pereira Monteiro). E menciona os nomes dos diretor-geral e técnico. A rádio era um dos entretenimentos do pessoal de raça branca a trabalhar ali (o cartão QSL alarga a música para a nativa, mas isso seria uma "conquista" recente, de finais da década de 1960).




domingo, 28 de janeiro de 2018

Teatro radiofónico de Álvaro Belo Marques

Álvaro Belo Marques (1931-2017) escreveu um texto intitulado Rádio-Drama (1986), com 72 páginas, a problematizar a produção de teatro radiofónico. Na Emissora Nacional (1974-1975), foi responsável pela produção de teatro radiofónico, com peças suas e de outros autores (Jornal de Notícias, 19 de outubro de 1974, 26 de julho e 11 de agosto de 1975).




sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Sobre o desaparecimento da livraria Leitura (Porto)

"Estava ainda em processo de digestão da despedida da sua biblioteca e acervo de arte decretada por “necessidade” quando, esta semana, uma outra notícia chegava para o entristecer. Fernando Fernandes soube por um jornalista do fim da Leitura, a livraria que fundou em 1958, ainda sob o nome de Divulgação, e que por quase 50 anos foi “espaço de resistência” e lugar de culto para quem gostava de livros”. A livraria decretou insolvência no último 15 de janeiro. Os quatro trabalhadores tinham salários em atraso há cerca de um ano.
A minha memória cultural da livraria Leitura remonta à década de 1970. A livraria vinha na sequência da livraria Divulgação (1958), que domiciliava gente da cultura e das artes da cidade, em especial a conotada com a oposição política: José Augusto Seabra, Carlos Porto, João Guedes (ator), Eugénio de Andrade, Egito Gonçalves, Fernando Guimarães, Rebordão Navarro, Óscar Lopes, Ramos de Almeida, Dinis Jacinto e Alves Costa. Sessões de autógrafos de escritores como Aquilino Ribeiro, Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Jorge de Sena e Orlando da Costa encheram a livraria até à rua. No mesmo mês de junho de 1958, uma exposição coletiva englobou obras de Amadeu de Sousa-Cardoso, Almada Negreiros, Dórdio Gomes, Carlos Botelho, Júlio Resende, Mário Eloy e outros. Como livreiro, Fernando Fernandes nunca dizia “não temos” ou “está esgotado”.
O jornal, no texto de hoje, fala do livreiro como profissão em extinção. Estou de acordo, mas penso num quadro mais vasto. A livraria Divulgação, depois Leitura, era vizinha dos estúdios de Rádio Clube Português, inaugurados na mesma época, transferidos para a rua de Tenente Valadim no início da década de 1970, e do café Ceuta, espaço de tertúlia e sala de bilhares, hoje uma sombra do passado. E ainda da principal central telefónica da cidade, na esquina da rua da Picaria com a rua de Ceuta. A estação telefónica perdeu impacto. A Faculdade de Letras, não muito longe (junto ao hospital de Santo António), afastou-se dali em meados da década de 1970. Outra livraria, quase junto à Leitura, a Livros do Brasil, fechou há talvez dez ou quinze anos. Agora, a zona não é de indústrias da cultura mas de restauração, de oferta orientada para a francesinha (até a loja dos bolos "éclaires" mudou de perfil). Quem sobe hoje a rua de Ceuta vê edifícios em recuperação, sinal do desinvestimento da zona. A livraria ressentiu-se muito disso.
Entrar nos últimos anos na livraria era uma tarefa triste. Eu recordo a alegria do lançamento de um livro meu em 1997, a inaugurar a coleção Comunicação, dirigida por Mário A. Mesquita, integrada na Editora MinervaCoimbra. E, durante a década de 1980 e parte da década de 1990, onde comprei muitos livros de arte e estética para aulas na Árvore, cooperativa de ensino artístico, realço o atendimento conhecedor dos livreiros e a permanente atualidade. A Leitura chegou mesmo a produzir um catálogo regular com títulos e capas, um grande esforço de divulgação do livro de cultura (literatura, arte, ciências sociais e humanas), mal designado como técnico, como uma fatura de livro que ali comprei e que anexo.



quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Começo da discussão da lei das rádios livres

Está quase a fazer 30 anos que se discutiu a Lei da Rádio, aprovada no final de 1988, muito em resultado da criatividade das rádios livres (ou rádios piratas).

Mas gostaria de voltar um pouco antes. Em 1984, a conferência mundial das radiocomunicações em Genebra decidira atribuir mais três frequências de FM de cobertura nacional. Dessas, uma seria atribuída à RDP (rádio do Estado, a Antena 3) e uma à Rádio Renascença (da Igreja Católica, a RFM). O secretário de Estado de então era Anselmo Rodrigues.

Em dezembro de 1986, o parlamento, com maioria de esquerda, pretendeu reverter o diploma, com a retirada das frequências da RDP e da Rádio Renascença. O presidente da República, Mário Soares, vetou a lei no final do ano. Para ele, as leis não deviam servir de pretexto ou bandeira para criar divisões entre os portugueses. O veto recolheu apoio na direita parlamentar e estranheza no PS, então liderado por Vítor Constâncio, que sucedera a Soares. O parlamento confirmaria, contudo, a sua posição, ao manter a reversão da atribuição das recentes frequências aos dois grupos de rádio.

Definiram-se duas posições fortes. Do lado da esquerda, defendia-se a posição do parlamento: estavam a emergir as novas rádios (livres), que podiam concorrer a três licenças nacionais e não apenas a uma. O texto do semanário O Jornal (30 de janeiro de 1987) acompanha, sem necessariamente o refletir, esse ponto de vista. Já a peça do Semanário (7 de fevereiro de 1987) enfatiza a posição de um dos grupos de rádio que ia perder uma licença, a Rádio Renascença.

Embora questão distinta do problema de 1974-1975, pela altura da ocupação dos estúdios da Rádio Renascença em Lisboa por um grupo de profissionais radiofónicos (locutores e técnicos), parecia renovar-se a luta. Entretanto, o governo caiu e o parlamento mudou para uma maioria de direita política, que apostaria não nesta questão mas no concurso das rádios livres.

A análise das forças e interesses diferentes em jogo fica para outra altura e local.




quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Minuto de Ódio (Rádio Caos)

"O Minuto de Ódio foi um programa de rádio criado em 1986 por Neno Costa e David Pontes, na Rádio Caos. A Caos foi uma das primeiras rádios “livres” - também conhecidas por “piratas” - a operar em Portugal e a primeira no Porto, nos inícios da década de 1980. Os “estúdios”, situados no último andar de um prédio relativamente antigo da Praça da República portuense, limitavam-se a duas salas, uma das quais (do tamanho de uma marquise) servia de cabina para as longas horas de emissão, na frequência 93.4 MHz. O “autor” – eram todos “autores de programas” cheios de personalidade, originalidade, experimentalismo e títulos impensáveis – sentava-se numa cadeira giratória de napa e manipulava ele próprio a mesa de mistura, posta ali mesmo à sua frente. De manhã até de madrugada, a Caos era um oásis de música “alternativa”, comentários curtos e em voz grave e séria, algum noticiário, alguns entrevistados, tudo feito com o amadorismo próprio de uma rádio livre. Os programas emitidos na Caos obedecerem (pelo menos em princípio...) a um “projeto” previamente entregue aos “diretores” da rádio. O Minuto de Ódio dedicava-se à divulgação das sonoridades punk/hardcore. Neno Costa e David Pontes editaram, realizaram e produziram meia dúzia de programas. Posteriormente, Óscar Pinho deu continuidade ao programa que terá durado cerca de um ano.

Texto e pdf retirados de Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Joaquim Letria e a BBC

Hoje, na Associação 25 de Abril, o convidado do almoço foi o jornalista Joaquim Letria (organizado por António Colaço). Letria trabalhou na BBC na secção portuguesa. Ele recordou essa passagem neste excerto (https://soundcloud.com/rog-rio-santos-6/bbc) [imagem retirada da página de António Colaço].


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Alexandra Lucas Coelho sobre Woody Allen

Alexandra Lucas Coelho escreve hoje o artigo Eu acredito em Woody Allen no portal Sapo. Acho o texto da jornalista muito lúcido. Também me parece haver uma tentativa de reciclagem do sistema de Hollywood.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Elementos para a história da rádio em Angola

Celestino de Anciães Felício trabalhou em Angola e esteve intimamente ligado ao planeamento da radiodifusão naquele país (então ainda colónia de Portugal). Foi contratado em maio de 1962. O texto é de 1973.
 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Fernando Quinas

Em setembro de 2016, num café da avenida da Igreja (com som ambiente) ouvi atentamente Fernando Quinas falar-me dos programas de Rádio Clube Português: Onda do Optimismo, Parodiantes de Lisboa, Produções Carrocel. Dele, fica um apontamento sobre Joel Nelson e os programas de verão nas praias do Algarve. A voz fantástica que ele tinha nesses programas!

 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Madalena Iglésias e o CPAR

Júlia Barroso, Francisco José (Galopim), Maria de Fátima Bravo, Artur Garcia, Maria Marize e Simone de Oliveira debutaram no Centro de Preparação de Artistas da Rádio (CPAR), estrutura da Emissora Nacional criada em 1947 e com Mota Pereira, cantor lírico, à sua frente. A ideia de António Ferro (então presidente da Emissora Nacional), era a rádio oficial (pública) ter artistas seus e com um tipo de canções adequadas ao tempo - música ligeira orquestrada. Os ensaios, para candidatos dos 14 aos 25 anos, decorriam todas as tardes nas instalações da Casa da Imprensa.

À "Flama" (meados de março de 1963 - não consegui apurar a data precisa), Mota Pereira disse: "o nosso apelo é mais para cançonetistas e intérpretes de «bossa nova», que aparentem um mínimo de todo artístico. Deito fora as cartas de recomendação: a melhor recomendação é a voz, o talento e a personalidade". Madalena Iglésias (1939-2018) foi uma das maiores revelações do CPAR, visível na sua vitória no festival da canção da RTP em 1966. Ela tinha voz, talento e personalidade.

Não gosto muito da expressão "nacional-cançonetismo", que abrange a música ligeira da época e a identifica apenas com o regime político de então. Também não gosto da expressão "música ligeira orquestrada", por extensa e por não responder ao propósito de Mota Pereira de intérpretes de "bossa nova".


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Aviões, barcos, elétricos e elevadores

Luís Filipe Costa, cineasta e autor de ficção, foi um conhecido realizador e locutor de rádio. Ele associa-se indiscutivelmente a Rádio Clube Português, a maior estação comercial da rádio portuguesa até 1975. A sua voz é inconfundível - ainda hoje reconheceria a sua voz. Ele foi o noticiarista (jornalista de rádio) a revolucionar os noticiários da sua estação e, por influência e imitação, das outras rádios, com duração de três minutos. Isto aproximou cada notícia ao tempo da publicidade - curto e objetivo. Se necessário, tirava-se o verbo ou o artigo definido (exemplo: em vez de dizer "O Belenenses é o campeão" bastaria dizer "Belenenses campeão"). A revolução começou por volta de 1960, quando a estação deixou os estúdios da Parede e passou a funcionar na rua Sampaio e Pina, onde ainda hoje trabalha a Rádio Comercial. O locutor tinha a experiência da publicidade e Rádio Clube Português já tinha o noticiário Repórter Mabor, um noticiário curto às 14:00.

Rádio Cube Português modernizou-se nessa década. Para fazer reportagens em direto, alugou um helicóptero, em que vemos Luís Filipe Costa pronto a fazer reportagem (revista Nova Antena, 25 de abril de 1969). Rapidamente a estação apercebeu-se que o meio aéreo não era eficaz e comprou um avião. Para acompanhar em tempo real a volta a Portugal em bicicleta ou o rali do Vinho do Porto, o avião trouxe vantagens. E, se um membro da família Botelho Moniz quisesse ir para uma sua propriedade, o avião garantia melhor qualidade.


Mas os programas mais inovadores também usaram meios de transporte. O programa PBX, iniciado em 1967, usou um carro elétrico para um programa. A primeira emissão de Tempo Zip, na Rádio Renascença, fez-se a bordo de avião da TAP (29 de março de 1970), com o Boeing a sobrevoar o espaço entre Lisboa e Setúbal durante 30 minutos. Um outro programa também usou o barco entre Lisboa e a outra margem do rio Tejo para entrevistar passageiros e passar música ao vivo.

Os rapazes dos Emissores Associados de Lisboa, com menos capacidade financeira, não ficaram atrás. Organizaram um programa com uma viagem de elevador. Em cada andar do prédio, o repórter, o animador e o músico paravam e discutiam um tema. Creio que não foi no Bairro Azul, onde funcionava Rádio Peninsular mas perto da igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde se instalou a Alfabeta (empresa comercial de Rádio Peninsular e Rádio Voz de Lisboa).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A Minha Amiga Rádio

Retiro o título de programa seminal de Luís Garlito feito na Antena 1 durante a década de 1990. A fotografia mostra o casal Maria Leonor Magro e Pedro Moutinho (cerca de 1945, arquivo RTP). Trata-se de uma composição fotográfica de grande equilíbrio: como na pintura renascentista, ele está concentrado na tarefa, com um pequeno sorriso, enquanto ela tem um sorriso mais aberto e segue atentamente o que ele faz. O texto contido no papel está, com certeza, a ser lido, pois o locutor apresenta-se orientado para o microfone, à esquerda da composição.

Leonor Magro, sempre conhecida apenas por Maria Leonor, tem os lábios pintados e brincos nas orelhas. O ainda seu marido (divorciar-se-iam pouco depois, desfazendo a ideia de casal modelo da rádio pública) ostenta um anel de brasão e um lenço no bolso do casaco. A mesa sobre a qual o seu braço esquerdo se debruça está muito limpa, de modo a vermos o reflexo do anel, do relógio e dos dois botões da manga do casaco.

 Não sei se se tratava de um diálogo, embora ela não tenha um papel para ler, o que quase elimina esta ideia. Talvez um comentário político, pois Pedro Moutinho estava identificado com o regime político, destacado com frequência para reportar atividades e cerimónias solenes do Estado Novo. Mas é, sobretudo, uma imagem idílica da rádio, num tempo em que não havia muitas oportunidades de conhecer as caras dos locutores que falavam aos "estimados ouvintes".

Um pormenor: em 1945, data provável desta imagem, a Emissora Nacional desdobrava, para os ouvintes de Lisboa, o seu programa em I e II, para garantir os gostos de música ligeira e clássica, após entrada em funcionamento dos emissores de ondas médias de Castanheira do Ribatejo. No Porto, o desdobramento só aconteceu em 1954, com a instalação do emissor em Azurara (Vila do Conde).



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Página 1 (a minha investigação)

O programa Página 1 nasceu em 2 de janeiro de 1968, a emitir na Rádio Renascença. Certamente o programa mais importante da história da rádio em Portugal, Página 1 resultou de parceria entre a Rádio Renascença e a revista católica Flama.
Em horário nobre (19:30-21:00), atingiu um vasto auditório jovem e com consciência política, através de música pop, soul e baladeiros (Manuel Freire, António Macedo, Fausto Bordalo Dias), crónicas de rádios internacionais e rubricas sobre automobilismo, cinema e teatro. O programa, com indicativo musical composto por Miguel Graça Moura (Pop Five Music Incorporated), deu ainda a conhecer a música espanhola de Patxi Andion, Joaquín Díaz e Manolo Díaz. Deste último, o programa passou regularmente La Juventud Tiene Razón (1969), proibida pela televisão espanhola, uma espécie de hino de revolta política.
O programa organizou iniciativas de grande projeção pública. Uma delas foi o acampamento da juventude nas Caldas da Rainha (junho de 1970). Os milhares de participantes a ouvir música de Adriano Correia de Oliveira, Fausto e José Jorge Letria foram vigiados à distância por elementos da Guarda Nacional Republicana montados a cavalo. Outra iniciativa foi o espetáculo na Escola dos Salesianos (Estoril), em agosto de 1970. Sob pretexto da não autorização oficial, a polícia invadiu o perímetro da festa e bateu em quem encontrou, incluindo o filho do primeiro-ministro Marcelo Caetano. O inquérito oficial reconheceu exagero nas agressões [imagem em baixo retirada do Jornal de Notícias, 5 de setembro de 1970]. Das emissões ao vivo, destacou-se a realizada em novembro de 1971 no cinema Roma (Lisboa), a estrear discos de José Mário Branco e Sérgio Godinho. Como os músicos viviam exilados em Paris, no palco colocou-se um gravador de música em vez de cadeiras e microfones.


O núcleo do programa foi constituído por José Manuel Nunes (realizador e locutor), Adelino Gomes (jornalista), Homero Cardoso (diretor comercial da Flama e produtor do programa) e Moreno Pinto (técnico), depois substituído por José Videira. Duas colaborações fundamentais foram Fernando Tenente (Porto), angariador de música ainda não editada e lançada pelo programa, e Viriato Dias, repórter parlamentar que registou intervenções do grupo parlamentar liberal [imagem abaixo retirada da revista Rádio & Televisão, 22 de abril de 1972)].


A entrada do jornalista Adelino Gomes para o programa foi significativa, com muitas reportagens e apontamentos noticiosos. Ele recebeu também convite para organizar o serviço noticioso da estação. Mas, a 6 de setembro de 1972, Página 1 seria proibido pela censura (e o programa Tempo Zip, dirigido por João Paulo Guerra). O jornalista comentara na véspera o massacre de atletas israelitas por comando palestiniano nos Jogos Olímpicos de Munique, repetido no segundo programa. No texto, o jornalista afirmou que se tratava de um episódio da guerra do Médio Oriente, que começara em 1948 com a expulsão dos palestinianos árabes do território em que viviam. No apontamento, Adelino Gomes citava uma notícia em que o presidente Nixon chamava ignominioso ao ato, embora autorizasse que aviões bombardeassem aldeias, diques e hospitais do Vietname do Norte nessa mesma noite.
Muitas das chamadas recebidas que entupiram os telefones de Rádio Renascença seriam para felicitar o jornalista. Mas a reação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo foi a suspensão imediata do programa (e Tempo Zip), atitude marcante na história da rádio portuguesa. A condição para a retomada dos programas implicou o despedimento de Adelino Gomes e de João Paulo Guerra. Foi ainda imposta a criação de um serviço de censura externo na estação.
O conselho de gerência, em documento interno de 26 de setembro de 1972, condenara o texto de Adelino Gomes, por não permitir intervenções em oposição ou desacordo com a política do Estado e por o jornalista se subtrair ao trabalho de fiscalização (eufemismo a cobrir a palavra censura). Logo depois, surgia um documento de normas de procedimento de censura, determinando aprovação da gerência e tempo de antecedência a apresentar apontamentos e reportagens.
Página 1 recebera um prémio de rádio pela Casa da Imprensa (1971). A título excecional, a mesma Casa da Imprensa atribuiu o prémio de Reportagem Radiofónica a Adelino Gomes (1972). A cerimónia de entrega do prémio decorreu em espetáculo promovido no Coliseu dos Recreios apenas a 30 de março de 1974. Segundo o relatório da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, a sala estava superlotada, predominando a juventude e elementos conhecidos da CDE. Na ocasião, o jornalista diria: “tive o prémio do melhor locutor da rádio, mas fui despedido por ter dito algumas coisas e por pretender dizer muitas coisas que vocês deviam saber”.

Depois da saída do programa Página 1, Adelino Gomes trabalhou na Deutsche Welle. Regressado no final do verão de 1973, foi substituído na rádio alemã por José Manuel Nunes, também a sofrer pressões políticas. Luís Paixão Martins ficou como locutor de Página 1 até março de 1975, quando o programa acabou.

Página 1 (a partir de discussão no Facebook)

Para memória futura, a discussão no Facebook em torno do programa Página 1 (2 de janeiro de 2018). A qualidade não é muito boa, mas pode ser pesquisada na página de João Carlos Callixto.
 

Construção de árvores genealógicas - curso no Porto


sábado, 16 de dezembro de 2017

Rádio em Portugal: Tendências e Grupos de Comunicação na Atualidade

Texto publicado na revista da Universidade do Minho Comunicação e Sociedade, vol. 7, 2005, pp. 137-152.
 
[original em Comunicação e Sociedade]

Federação de rádios locais (maio de 1988)

No Jornal de Notícias de 20 de maio de 1988, há quase há 30 anos, noticiava-se a vontade de criar uma federação a englobar o movimento das rádios livres (ou locais ou piratas). Era um tempo de reuniões e encontros.


O comentário de Fernando Moura no Facebook seria o seguinte: "Grande luta pela legalização das rádios locais. Encontro no Teatro Paulo Quintela. Ainda me lembro que a UC levou uma data de contos de réis para alugar a sala. O poder politico acabou por ceder e as frequência foram a concurso. Coimbra teve direito a 3. Contra tudo e contra todos, o projecto dos mentores da então Rádio Actividade ficou em 1º lugar no concelho de Coimbra.Trata-se da frequência que foi da 90 FM e agora transmite a Mega Hits. Sai logo de seguida porque o patrão estava a entregar aquilo a um partido. Fui para o segundo classificado, a Rádio Jornal do Centro. A Rádio Universidade de Coimbra ficou com a 3ª frequência. Deu que falar a estrondosa derrota do Diário de Coimbra relegado para um 6º ou 7º lugar. Boa altura para enviar um abraço ao meu amigo Alfredo Nunes Silva, que, guiando uma potente Renault 4L, me levou aos 4 cantos do Portugal que queria mais liberdade radiofónica".

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

A Guerra dos Mundos em Braga (1988)

A minha primeira tese é a do jornalismo atender ao facto e não à problemática. Explico melhor, a partir de duas notícias publicadas no Jornal de Notícias (30 e 31 de outubro de 1988). O episódio radiofónico emitido por Orson Welles ocorrera cinquenta anos, pelo que o jornal o recordou. No primeiro daqueles dias, o jornalista deu o destaque ao episódio e, em texto pequeno, informou a realização de uma evocação em rádio pirata. 1988 foi um ano muito rico em experiências radiofónicas e nada melhor do que experimentar a guerra dos mundos.


O texto do segundo dia tem título, antetítulo e pós-título bem expressivos. A homenagem voltara a assustar uma população e a polícia teve de intervir (e proteger os animadores da rádio). Os dois telefones da rádio não pararam de tocar nessa tarde. Brincadeira de mau gosto e ameaça de bomba nos estúdios da rádio foram consequências não previstas. Por isso, um dirigente da estação de Braga prestou declarações ao jornal mas manteve o anonimato. O medo voltara-se contra ele.



A minha segunda tese sobre o jornalismo é a ausência de memória cultural. Em 1958, o então jovem realizador José Matos Maia, levado pela leitura de revistas e fanzines, descobrira Welles e produzira o episódio para a Rádio Renascença. O episódio não chegou ao fim, porque as linhas de telefone da polícia estavam "entupidas", com ouvintes muito amedrontados, e agentes da polícia entraram na estação e puseram cobro à aventura estética. Nos dias seguintes, Matos Maia foi responder a um inquérito na polícia política. Se repetisse um pânico semelhante, ficaria preso.

O jornalista não fez qualquer alusão a essa história. No caso de 1958, esteve em causa a ausência de liberdade e a presença constante da vigilância e da censura. Em 1988, o episódio português era já conhecido e o realizador voltaria a repeti-lo, agora em situação de liberdade de expressão e com igual medo coletivo, o que indica o impacto dos media. A rádio talvez tenha maior peso que a televisão, porque falta a imagem e o ouvinte obriga-se a reconstruir o que ouve para o tornar mais real ou inteligível.

A meu ver, houve preguiça - é mais fácil retirar a informação oriunda de uma agência, ou hoje de um sítio da internet, do que procurar divulgar o que aconteceu no país.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O fim das rádios livres (dezembro de 1988)



As rádios piratas ou livres fecharam a emissão na noite de 23 de dezembro de 1988. Uma comissão nomeada pelo governo iria estudar condições económicas e técnicas para atribuir as cerca de 400 alvarás de emissão e precisava de silêncio no éter. Uma condição de preferência era um projeto de estação incluir profissionais da comunicação social.

Nesse mesmo dia, o Jornal de Notícias (Porto) editava uma página completa ao tema. O sugestivo título era Rádios locais. Agora é o som do dinheiro. Da página, retive dois textos assinados por dois radialistas piratas, que tinham estado na Rádio Caos (e ainda na Rádio Delírio), as duas estações mais ousadas ou dessintonizadas do Porto.

No dia seguinte, o jornal voltaria a dar destaque ao tema, com entrevista ao ministro António Couto dos Santos, que esperava que a comissão governamental concluísse o seu trabalho em dois meses. Uma nota do governo, colocada em destaque nessa página, concluía que era forçoso acabar com a anarquia das ondas radioelétricas.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Escutam a Rádio Caos em 102 MHz

Daniel Guerra (Expresso, 2 de julho de 1983), falou com Krenox, Oliveira, Silveira, Goldstein e Hermenegildo [vários colaboradores ou um e seus heterónimos?]:

“A Caos tem já ouvintes fieis, que sabem de cor os dias e as horas em que é preciso procurar, na frequência conhecida boca a boca, a informação alternativa, a discussão de problemas que raramente encontram debatidos nas emissoras com alvará e programa anunciado nos jornais”. O animador António da Silva Oliveira diria: “O que queremos acima de tudo é comunicar, estabelecer uma comunicação de rutura perante as exigências de integração num espírito novo. Tudo isto tendo em vista a proposta de uma alternativa aos modelos tradicionais de fazer rádio. […] A Caos não é um sítio de emoções fracas, nenhum dancing, nenhum centro de repouso. É assumidamente um lugar de prazer, um espaço de interpelação”.

Sob o tema geral “Os Binários do Planeta em Vigor”, o jornalista, também colaborador da Rádio Caos, registou rubricas como “O Crepitar da Pipoca”, “Leite, Literatura e Assassinos”, “Os Cogumelos da Masmorra” e “Jazigo de Família”. Naquele momento, um grupo estava a reestruturar a secção de noticiário e reportagem, para dar importância ao setor. Objetivo: lutar contra a “massificação desregrada da produção cultural”. Em montagem nessa data uma entrevista com elementos da FDR (El Salvador) e Comissão Justiça e Paz (Guatemala). A Caos daria voz aos presos do PRP, levando em direto os pontos de vista de Isabel do Carmo. O microfone da estação assentava em cima de dois tomos das obras completas de Lenine!

Como as outras rádios piratas, a Caos encerrou em 24 de dezembro de 1988. Ainda concorreu a uma licença mas ficaria fora dos lugares elegíveis.


sábado, 18 de novembro de 2017

A Emissora Nacional no período 1968-1975


Este livro analisa a história da Emissora Nacional durante o período de 1968 a 1975, compreendendo os tempos do governo de Marcelo Caetano e os dezoito meses de revolução política (abril de 1974 a novembro de 1975). O estudo incide sobre a programação, os objetivos ideológicos, estéticos e culturais da rádio pública e a mudança de geração de dirigentes, profissionais e orientações radiofónicas. [nº 5 da Colecção Comunicação História e Memória, dirigida pela Prof. Doutora Isabel Nobre Vargues].

Lançamento em Coimbra a 24 de novembro de 2017.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Concurso de cantadeiras do Porto

Em 1949, duas entidades juntaram-se para realizar o concurso da rainha das cantadeiras do fado das freguesias do Porto: Portuense Rádio Clube e Jornal de Notícias. O objetivo principal era encontrar novos valores musicais para a rádio e o teatro. Publicitado em agosto, o concurso terminaria em novembro, com a vitória de Maria Rosa Rodrigues, de Ramalde, que teve uma curta carreira profissional e editou alguns discos com a etiqueta Alvorada, da Rádio Triunfo (Porto).

A notícia do Jornal de Notícias de 5 de setembro de 1949 (faz hoje 68 anos) dá conta de 400 jovens já inscritas, prontas a ensaiar, de segunda a sexta-feira nos horários 18:00-20:00 e 21:30-24:00, no salão da estação, à avenida Rodrigues de Freitas, para afinarem tons de voz e se adaptarem a público, além da gravação de discos. A etapa seguinte seria a das eliminatórias, inicialmente previstas para decorrerem em palcos de coletividades locais, levando Portuense Rádio Clube microfones para transmissão em programas de rádio. O espetáculo final decorreu no Coliseu do Porto. Uma notícia falaria em três mil espectadores. Os dois principais prémios eram uma máquina de costura (Oliva) e um recetor de rádio (Philips). Tudo isto implicou uma grande logística e o esforço de muitas pessoas, dos músicos aos ensaiadores. O homem da ideia foi João Pereira de Lima, presidente da estação de rádio e proprietário da tabacaria Tivoli, onde também se vendia lotaria, na praça da Liberdade, 33, Porto (hoje, ocupado parcialmente pela farmácia Vitália, quase na esquina com o Largo dos Lóios). Domingos Vieira, mais conhecido por Domingos Parker, seria o realizador por detrás do evento, repetindo o feito nos concursos seguintes de 1952 e 1955, agora ao serviço de duas outras estações de rádio portuense (Rádio Clube do Norte e Ideal Rádio).

Portuense Rádio Clube teve condições para ser uma grande estação. Fundada em 1937, foi a centralizadora no período inicial da II Guerra Mundial (todas as estações locais usavam a sua antena para emissão, pagando um valor pela sua utilização) e tinha uma frequência própria (ao contrário das outras estações portuenses, agrupadas no começo da década de 1950 nos Emissores do Norte Reunidos). Era uma estação e um clube. Durante a semana, funcionava como espaço de convívio. Aos fins-de-semana, havia bailes.

Mas a estação teve azares e erros de estratégia. Por exemplo, comprou um emissor, que chegou avariado ao Porto. Tal levou a nova encomenda, que não chegou a tempo do legalmente imposto e a licença de emissão foi cassada. A posição majestática e inflexível dos CTT, entidade que passava as autorizações de emissão à época, levou ao desaparecimento da estação, mesmo que as forças políticas do Porto lutassem pela manutenção da rádio. Em 1954, o terreno no Monte da Virgem (Gaia) para instalar o novo emissor foi vendido à Emissora Nacional, que o usou para emitir FM e ainda em onda média. Os seus principais animadores como Júlio Guimarães, Domingos Parker e Carlos Silva saíam para outras estações, o mesmo acontecendo a programas emblemáticos (A Voz dos Ridículos) e espetáculos (Parada da Alegria, no velho Palácio de Cristal, desaparecido em finais de 1951).

Sobre o concurso das cantadeiras, espero escrever com mais profundidade um dia.