Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
Houve uma época de ouro na rádio portuguesa. Na minha perspetiva, ela ocorreu quando a rádio mandava na RTP. Numa das páginas do relatório da empresa de televisão em 1961, é feito um rasgado enaltecer da figura de Jorge Botelho Moniz, desaparecido em 29 de julho de 1961. O texto confirma a posição do presidente da direção de Rádio Clube Português como membro do conselho de administração da RTP. Manuel Lopes da Cruz, fundador e diretor de Rádio Renascença, era outro administrador da televisão. No conselho fiscal, dois dos membros eram da rádio: António Rosado (Rádio Clube de Moçambique) e António Rodrigues (Emissores do Norte Reunidos) (Diário do Governo, III Série, 25 de maio de 1962). Em 1960, o presidente da Assembleia Geral era José Aires Santa Clara Gomes (Posto Emissor da Radiodifusão do Funchal).
Na fundação da RTP, o Estado entrara com 20 milhões de escudos, ao passo que diversos bancos tinham posto na nova empresa 2,15 milhões de escudos cada um. As estações colocaram igualmente verbas avultadas, casos de Rádio Clube Português, com 9,26 milhões de escudos, e Rádio Renascença, com 4,63 milhões de escudos (Diário do Governo, III Série, 31 de dezembro de 1955).
O obituário não crítico de Botelho Moniz apareceu no Diário de Lisboa (30 de julho de 1961).
No dia 1 de março, pelas 15:30, na Universidade Católica Portuguesa, realiza-se um debate a partir da edição do livro Ética Aplicada Comunicação Social, coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Rui Sampaio da Silva (2017).
José Valle nasceu em 1939 e é engenheiro de máquinas e eletrotecnia. Entrou nos TLP em 1967 e pré-reformou-se na PT em 1997. De entre as funções profissionais que desempenhou, foi director da rede exterior da área de Lisboa (Conservação), director-geral da Tele-Larm e administrador delegado da CST – Companhia Santomense de Telecomunicações, de São Tomé e Príncipe.
Desde cedo, a sua paixão pelo colecionismo de telefones e aparelhos ligados à atividade levaram-no a procurar um local onde expusesse e desse uma sequência histórica à coleção. Em abril de 2015, abriu um espaço na Verdizela (Seixal). O sítio da internet é Museu dos Telefones de José Valle e o email é jose.valle@sapo.pt. A coleção de telefones de José Valle pode ser visitada mediante marcação prévia de dia e hora para a sua realização. Se a visita for em grupo, este não deverá ter mais de oito elementos por questões logísticas.
Coloquei um conjunto de vídeos que seguem a visita feita. No último vídeo, mais longo, o engº Valle explica de modo pedagógico a evolução dos telefones e das centrais telefónicas.
Por favor, comentem esta mensagem e partilhem os vídeos. O trabalho individual deste antigo profissional das telecomunicações deve ser muito acarinhado e divulgado. Além do valor patrimonial, existe um enorme valor simbólico de uma atividade (uma indústria).
Fiquei muito emocionado na cerimónia de ontem da entrega de diplomas com a atribuição da medalha UCP que me foi feita. Muito obrigado à Universidade Católica Portuguesa (imagens de Rita Curvelo, UCP e Patrícia Cardoso).
Na cerimónia, era para ler um texto sobre a biblioteca, que não cheguei a fazê-lo, devido à emoção. Fica aqui abaixo:
A biblioteca é o espaço que alberga livros, memória do conhecimento das culturas, com posições, muitas vezes, complementares ou contraditórias. Se a pudéssemos ouvir, a biblioteca seria um conjunto de múltiplas vozes. Num dos seus mais famosos romances, Umberto Eco escreveu sobre o diálogo estabelecido entre livros numa biblioteca. Os livros citam outros livros que, por sua vez, identificam mais livros, num circuito quase infinito de transmissão e interpretação.
Na Grécia do século VI a. C., a biblioteca substituíra funcionários específicos que executavam um trabalho para a sociedade não letrada, a perseveração oral de regras e os precedentes e a cronologia do passado, os memorizadores, como escreveu Eric Havelock (1996). Já para Harold Innis (1964), pai da escola canadiana da comunicação, o nosso conhecimento das outras civilizações depende muito do carácter dos media ali usados. Innis dividiu os meios de comunicação em leves e pesados. Os media leves, como papiro e papel, representam civilizações alargadas no espaço, ao passo que os media pesados como catedrais ou palácios – a que ele alcandorou ao estatuto de elementos de comunicação – significam civilizações que se estendem no tempo. O resultado é: cada meio de comunicação utiliza um tipo de escrita e, por sua vez, produz um tipo de monopólio do conhecimento. Innis não se terá debruçado sobre a biblioteca, que é, a meu ver, simultaneamente um meio pesado e alargado no tempo (edifício) e leve e que chega espacialmente muito longe (armazena livros).
Da história das bibliotecas lembro as antigas, como a de Alexandria, no Egito, com 700 mil volumes manuscritos em rolo de papiro e que ardeu. Parte do que se perdeu tinha sido, entretanto, traduzido; tal conhecimento chegou muito depois ao ocidente europeu. Também sabemos que, atualmente, a biblioteca do Congresso dos Estados Unidos é a maior do mundo. Da minha experiência, a sala de leitura geral da Biblioteca Nacional, ao Campo Grande, com a tapeçaria de Guilherme Camarinha ao fundo, é um local agradável para ler. E recordo a biblioteca joanina da Universidade de Coimbra, pelo espetacular dispositivo barroco de livros e prateleiras.
À biblioteca junto o arquivo. Tenho a Torre do Tombo como exemplo, onde se podem consultar documentos de instituições, ministérios e dirigentes políticos. O arquivo é do domínio das fontes primárias, de documentos privados e públicos, escritos com fins objetivos. A biblioteca é o espaço de fontes secundárias, de livros que, muitos deles, resultam da leitura e interpretação de arquivos. Com regularidade, a biblioteca tem a extensão de arquivo. Menciono a biblioteca e o arquivo fotográfico da Cinemateca e o arquivo musical da Biblioteca Nacional, com este a congregar arquivos de compositores ou artistas, doados por familiares ou associações. A nossa Biblioteca João Paulo II domicilia, por exemplo, o Centro de Documentação Europeia e arquivos pessoais (Cardeal Cerejeira, Ruy Cinatti, outros).
O arquivo é o depoimento ou testemunho (escutado, oral), escreveu Ricoeur (2012). Este autor enfatiza o testemunho como memória declarada, que entra no domínio do documento, tornado parte do arquivamento (lido, consultado). Ricoeur vai mais longe: como tudo o que está escrito, um documento na biblioteca ou no arquivo está disponível a quem o quer ler. Não há um destinatário preciso, diferentemente do testemunho oral, dirigido a um interlocutor específico. Sempre, ou quase sempre, o documento é lido fora do contexto original, funcionando como intrusão.
Ricoeur não analisou o doador de livros. O que eu fiz, ao criar núcleos de jornalismo e media, estudos de televisão e teorias da comunicação e colocar na coleção da nossa biblioteca, indica linhas de orientação e pesquisa. A opção de aquisição de cada volume em particular resultou de leituras e de aconselhamento de novas leituras, como se fosse construindo um mapa de produção do conhecimento, desenhado de modo inconsciente. Repete-se a ideia de circuito permanente de transmissão e interpretação. O investimento feito corresponde ainda ao conceito de Pierre Bourdieu: a aquisição de capital simbólico e cultural.
Deixo a pista tecnológica da desmaterialização. No arquivo sonoro da RTP, além de discos de vinil, há documentos sonoros em DAT (fita magnética digital) e formato mp3, o que obriga a manter diferentes reprodutores tecnológicos para leitura. A Biblioteca Nacional guarda jornais em papel e microfilme, a Hemeroteca Municipal tem-se esforçado por digitalizar documentos como revistas e os tornar públicos.
Concluo com uma distinção subjetiva entre arquivo e biblioteca. O arquivo resulta de documentos elaborados mas também de trocas epistolares sobre viagens e visitas e escritos mais comuns como pedidos, petições e postais de aniversário. A biblioteca possui livros escritos por quem refletiu após leituras e confronto de ideias. Tal indicia a biblioteca como espaço de sabedoria. Daí o meu conselho: visitar a biblioteca e descobrir o que de importante ela tem para nos revelar.
Muito obrigado.
Azurara (na fronteira com Árvore, outra freguesia do concelho de Vila do Conde) [imagem de 2017].
A instalação das antenas de Azurara (Vila do Conde) tornaria mais audível a emissão da Emissora Nacional e posto irradiador da voz do norte (Comércio do Porto, 24 de setembro de 1954) [em anexo, notícia publicada no Jornal de Notícias, 24 de setembro de 1954]. Até aí, ouvir rádio no Porto partia do emissor situado no Palácio de Cristal, no local onde fica hoje a biblioteca Almeida Garrett. O desaparecimento das estações de ondas médias da RDP provocou a perda de utilidade dessas antenas.
Rogério Seixas Costa Leal foi uma figura eminente da rádio no Porto, conforme se lê no obituário publicado no Jornal de Notícias, de 18 de janeiro de 1980. Emissora Nacional, Emissores do Norte Reunidos e Rádio Renascença tiveram a sua intervenção. Além da editora discográfica Rádio Triunfo.
Em entrevista ao "Observador", João Lourenço, responsável pelo Teatro Aberto, conta como começou a sua atividade no teatro via rádio: "Ainda me lembro como se fosse hoje de ir com os meus pais ao Teatro Nacional. E sentado na plateia sentir-me admiradíssimo, entusiasmado, com um rei que vi no palco. O rei era o Raul de Carvalho. No final o meu pai disse-me: «Eu conheço-o bem, ele costuma ir lá ao escritório, queres que vos apresente?» E apresentou-me ao Raul de Carvalho. Estávamos a conversar e ele disse ao meu pai que a Odette de Saint-Maurice, na Emissora Nacional, procurava um miúdo da minha idade, com a minha voz. O meu pai perguntou-me se queria experimentar e aceitei. Mas fui logo avisado que não poderia faltar à escola. [Risos] Lá apareci à Odette e fiz o meu primeiro folhetim na rádio. [...] fiz muitos folhetins na Emissora Nacional, no Rádio Clube Português, na Rádio Graça… E comecei a contactar, a conviver de perto com os atores todos".
Hoje, no programa Passado ao Presente, de João Carlos Callixto (https://www.rtp.pt/play/p1401/e330297/passado-ao-presente). Com Paulo Pepe e Rogério Santos. "Uma conversa com duas gerações de investigadores, o primeiro com o livro "Do Pop ao Teatro de Rua", que reflete sobre António Variações, e o segundo com "A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975)"".
No programa, as minhas duas escolhas musicais foram "O Mar Enrola na Areia", do Rancho Folclórico Poveiro (editora Rádio Triunfo) e "Trova do Vento que Passa", de Adriano Correia de Oliveira, com música de António Portugal e letra de Manuel Alegre (editora Orfeu). Aproveitei ainda para recordar Rogério Leal, Frederico Lupi Nogueira e Licínio Oliveira, todos da Emissora Nacional. E ainda Arnaldo Trindade, o editor da Orfeu. Uma curiosidade lembrada por João Carlos Callixto: a música do Rancho Folclórico Poveiro (1957) foi criada na transição da produção de discos de 78 para 33 1/3 rotações por minuto.
A investigação sobre a rádio obriga-me a ler muitos textos e documentos. Um dos meios impressos que sigo é o "Diário do Governo", III Série. Já me tinha cruzado com o relatório e contas da Diamang, empresa privada de exploração de diamantes em Angola. Li com atenção o relatório publicado na folha do governo a 13 de julho de 1954, de que ficam aqui cópias digitalizadas (pp.1600-1625).
A estação radiofónica do Dundo emitia programas diários com música gravada, palestras e teatro radiofónico (p. 1618). Diz o relatório: "Vários sócios e senhoras das suas famílias asseguraram o serviço de locução". A discoteca tinha 2662 discos, certamente em 78 rpm, de música clássica, concerto, regional e dança. Um concurso literário teria incluído as modalidades de peça radiofónica e programa radiofónico.
O meu interesse no relatório acaba aqui. Contudo, as 26 páginas impressas dão uma ideia antropológica geral do que era uma empresa numa colónia rica como Angola. Os diamantes significavam muito dinheiro e despertavam muita cobiça, o que levaria a administração a ponderar razões e sensibilidades. Por vezes, há críticas veladas ao funcionamento da política colonial. Mas múltiplos elementos, parecendo objetivos, mostram a brutal realidade em 1954 de uma exploração mineira. Por exemplo, a distinção entre pessoal branco (287, dos quais apenas 8 não eram portugueses), comparativamente com 17 mil indivíduos indígenas, ainda por cima divididos em assimilados e diferenciados. E uma experiência que não correu bem ou como diz o relatório: "infeliz experiência da introdução de mão de obra cabo-verdiana na Lunda" (p. 1606). Do pessoal branco, havia 9 engenheiros, sem contar com os da direção, 12 médicos e 16 enfermeiros. No ano a que reporta o relatório, tinham nascido 28 crianças brancas. Do conjunto de empregados brancos, 92 tinham até três anos de serviço.
Numa Festa Desportiva dedicada à população indígena, participariam nas eliminatórias: 396 quiocos, 34 songos, 27 minungos, 23 lundas, 22 balubas, 7 cafias, 8 luluas, 3 matapas, 3 quimbundos, 8 camaxilos, 2 luenas, 2 caquetes, 1 bângala, 1 bieno, 1 tucongo e 1 bailundo. Estes números indicam uma precisão diria que científica.
O relatório destacaria a visita do subsecretário de Estado do Ultramar, cujo avião aterraria no aeródromo do Dundo. A outra personalidade importante seria oferecido um jantar seguido de baile, com números de teatro e teatro radiofónico e um "vistoso" fogo de artifício.
Atente-se ainda nos subcapítulos como relações com as autoridades, visitas, exploração e prospeção, pessoal branco e indígena, serviços agrícolas e pecuários, assistência material e moral (como serviços de saúde, ensino primário, museu e realizações culturais, caso da rádio do Dundo), transportes e vias de comunicação e roubo de diamantes.
Um texto importante para se compreender o nascimento e a evolução das rádios livres: Ana Paula Azevedo (2001). "As Rádios Locais no Pós-25 de Abril". Observatório, 4: 113-122. Já referido nesta página, comparar com o texto de Ana Isabel Reis, no livro organizado por Ana Isabel Reis, Fábio Ribeiro e Pedro Portela: http://www.lasics.uminho.pt/…/cecs_e…/article/view/2049/1971.
O lançamento do livro A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975) foi um momento feliz para mim. Primeiro, pela editora: MinervaCoimbra (nas pessoas de Isabel e José Alberto Garcia), depois, pelo apresentador, Adelino Gomes. A seguir, pelo áudio na Antena 1, trabalho feito por Olívia Santos (https://www.rtp.pt/…/p1467/e328941/entrevista-tarde-antena-1), que me perguntou como ia eu ouvir a gravação, lançada no ar no momento da apresentação do livro, ao que respondi que o ouviria em podcast. A rádio, hoje, é mais completa que outrora: além de se ouvir em direto, os registos são guardados em formato digital e ouvidos em qualquer momento e nos dispositivos móveis. Depois, agradeço o vídeo feito por Nunes Forte, um homem que dedicou toda a sua vida à rádio e à indústria do audiovisual, e as fotografias feitas por Fernando Corrêa dos Santos.
Do apresentador, Adelino Gomes, retiro as seguintes ideias, algumas tiradas diretamente do seu texto: O apresentador falou em “jornada investigativa excecional”: a história desde os pioneiros da rádio em Portugal que o autor vem escrevendo e submetendo ao escrutínio dos pares e à curiosidade dos cidadãos. À medida que o tempo avança em direção aos dias de hoje, cresce o número de leitores (e especialistas) com memória de pedaços e nalguns casos até com vivência direta do lado de quem participou e até num ou noutro caso protagonizou história dessa história. Razão pela qual foi escolhida apenas a EN. Contextos políticos, sociais e profissionais que enquadram os dois períodos distintos da história da rádio oficial abarcados pelo trabalho: o que vai de 1968 a 1974, marcado por uma tentativa, falhada, de liberalização do regime de ditadura, e aquilo que o autor designa por “a dinâmica dos dezoito meses de revolução” (abril de 1974 ao imediato pós 25 de novembro de 1975). Opção que o leva a reservar atenção às biografias pessoais daqueles que designa como “agentes perdedores no começo e no fim da revolução”. Isto é, primeiro o que aconteceu ao pessoal mais identificado com o marcelismo; e depois, ao pessoal mais identificado com o gonçalvismo. O último parágrafo do livro presenteia-nos com uma síntese crítica do melhor que li ou ouvi sobre em que se traduziram e o que representaram radiofonicamente estes sete anos de fim de um regime e de início de outro [o posterior aparecimento das rádios livres, que introduziram um novo período de grande criatividade na rádio]. O apresentador falou também numa injustiça a um grande profissional, já falecido, e não abordado no livro: António Jorge Branco. O autor tomou nota do reparo, e agradece.
"Não sei como agradecer todas as dezenas e dezenas e dezenas de mensagens que por todos os meios tenho recebido de amigos, conhecidos, desconhecidos. Ao mesmo tempo que fui alvo de uma campanha difamatória reles, miserável, sem escrúpulos, lançada precisamente neste momento com o intuito de impedir a minha continuidade na administração da RTP - campanha, por sinal, bem sucedida - fui igualmente inundado por manifestações de pessoas que, não tendo contacto com tablóides onde trabalham pessoas que se fazem passar por jornalistas e que representam a pior escumalha da comunicação social, são pessoas que simplesmente como ouvintes e espectadores dos canais da RTP têm feito questão de me dizer que não percebem o que se passou e que estão a gostar cada vez mais desta RTP e a encontrar nela a evidência de serviço público. Tem sido para mim absolutamente inesperado, comovente, redentor, o que me têm dito do nosso trabalho nestes três anos na RTP. Quando penso em tudo o que a vida me tem proporcionado sinto-me um privilegiado. Este é um desses momentos. Foram três anos empolgantes em que, com excelentes equipas, pudemos concretizar muito do que acreditávamos que devia ser feito. Agora é tempo de regressar ao meu lugar de sempre: um qualquer sítio onde possa ter ideias, escrever e desenvolver projectos com outras pessoas. Continuarei sempre a fazer o que gosto. Com quem gosto. Tenho os inimigos certos. Que mais posso desejar?" (https://www.facebook.com/nunoartur?hc_ref=ARTMyv7lBVQ5amu8xvU0_Xy4_1j8RyfXoElDiCICJ9U2U8Cx6-j_4GhyseiEGN66DPA&fref=nf). Concordo com as palavras de Nuno Artur Silva. Sou um fã da sua obra. Mas uma empresa pública tem obrigações precisas: a separação entre interesse público e interesse privado. À criatividade opõe-se a necessidade de transparência. Estas palavras, assim ditas, são ocas? Talvez. Mas marcam a sociedade.
Há 30 anos, o país discutia a legislação das rádios livres. Um dos animadores do movimento das rádios livres foi António Colaço, primeiro na Rádio Antena Livre (Abrantes) e depois na Rádio O Ribatejo (Santarém). Ele foi um grande animador de encontros das rádios e artífice da emissão em cadeia (17 de novembro de 1988, com cerca de duas centenas e meia de rádios com RM sobre temas da sua freguesia, concelho ou distrito).
Na entrevista que lhe fiz a semana passada, António Colaço recordaria outros pioneiros do movimento das rádios livres, como João Duarte Soares, Daniel Guerra, Antonio Silva Oliveira e Bernardino Guimarães. E Pedro Rolo Duarte (semanário Sete) e Amílcar Mascarenhas.
Outra entrevista a António Colaço, no livro organizado por Ana Isabel Reis, Fábio Ribeiro e Pedro Portela (2014, capa ao lado), pode ser lida em aqui. Junto ainda parte do artigo de Kathleen Gomes (Público, 24 de dezembro de 1998) e artigo de António Colaço (O Ribatejo, 21 de novembro de 1996).
A Diamang (Companhia de Diamantes de Angola) tinha, na época colonial, uma estação de rádio, a emitir do Dundo, conforme se lê no relatório e contas da administração apresentado em assembleia-geral em junho de 1952 (Diário do Governo, III Série, de 15 de julho de 1952).
A ênfase, no relatório, é dada à Casa do Pessoal, responsável pela biblioteca (mais de cinco mil volumes), bilhares, ténis de mesa e de campo, e festas de Carnaval, santos populares e passagem de ano no então recente edifício do Dundo. Quanto a programas de rádio, havia música gravada (clássica, de concerto e de dança), peças de teatro radiofónico e palestras, incluindo as comemorações de datas históricas portuguesas. A discoteca tinha mais de 2500 discos (certamente de 78 rotações por minuto) e a estação emitia em 7070 kHz (ondas curtas).
Sobre a Rádio Diamang, retiro a informação de http://angolaradio.webs.com/, de Diamantino Pereira Monteiro: "A Rádio Diamang arrancou em 1946, com um emissor de 400W. Propriedade da Companhia de Diamantes de Angola - Diamang - a emissora nasceu para servir a significativa colónia de funcionários da empresa, um potentado económico que detinha o exclusivo da exploração e venda de diamantes em toda a região das Lundas. Por esse motivo, e porque funcionava em regime quase fechado, a Rádio Diamang não se enquadrava de todo no panorama da radiodifusão angolana, bipolarizada entre a rádio estatal e os rádio clubes".
No relatório da Diamang, não há indicação de locutores ou editores, mas o cartão QSL da estação indica a chamada: "Aqui Dundo, Estação Emissora da Companhia de Diamantes de Angola" (cartão inserido na página de Diamantino Pereira Monteiro). E menciona os nomes dos diretor-geral e técnico. A rádio era um dos entretenimentos do pessoal de raça branca a trabalhar ali (o cartão QSL alarga a música para a nativa, mas isso seria uma "conquista" recente, de finais da década de 1960).
Álvaro Belo Marques (1931-2017) escreveu um texto intitulado Rádio-Drama (1986), com 72 páginas, a problematizar a produção de teatro radiofónico. Na Emissora Nacional (1974-1975), foi responsável pela produção de teatro radiofónico, com peças suas e de outros autores (Jornal de Notícias, 19 de outubro de 1974, 26 de julho e 11 de agosto de 1975).
"Estava ainda em processo de digestão da despedida da sua biblioteca e acervo de arte decretada por “necessidade” quando, esta semana, uma outra notícia chegava para o entristecer. Fernando Fernandes soube por um jornalista do fim da Leitura, a livraria que fundou em 1958, ainda sob o nome de Divulgação, e que por quase 50 anos foi “espaço de resistência” e lugar de culto para quem gostava de livros”. A livraria decretou insolvência no último 15 de janeiro. Os quatro trabalhadores tinham salários em atraso há cerca de um ano.
A minha memória cultural da livraria Leitura remonta à década de 1970. A livraria vinha na sequência da livraria Divulgação (1958), que domiciliava gente da cultura e das artes da cidade, em especial a conotada com a oposição política: José Augusto Seabra, Carlos Porto, João Guedes (ator), Eugénio de Andrade, Egito Gonçalves, Fernando Guimarães, Rebordão Navarro, Óscar Lopes, Ramos de Almeida, Dinis Jacinto e Alves Costa. Sessões de autógrafos de escritores como Aquilino Ribeiro, Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Jorge de Sena e Orlando da Costa encheram a livraria até à rua. No mesmo mês de junho de 1958, uma exposição coletiva englobou obras de Amadeu de Sousa-Cardoso, Almada Negreiros, Dórdio Gomes, Carlos Botelho, Júlio Resende, Mário Eloy e outros. Como livreiro, Fernando Fernandes nunca dizia “não temos” ou “está esgotado”.
O jornal, no texto de hoje, fala do livreiro como profissão em extinção. Estou de acordo, mas penso num quadro mais vasto. A livraria Divulgação, depois Leitura, era vizinha dos estúdios de Rádio Clube Português, inaugurados na mesma época, transferidos para a rua de Tenente Valadim no início da década de 1970, e do café Ceuta, espaço de tertúlia e sala de bilhares, hoje uma sombra do passado. E ainda da principal central telefónica da cidade, na esquina da rua da Picaria com a rua de Ceuta. A estação telefónica perdeu impacto. A Faculdade de Letras, não muito longe (junto ao hospital de Santo António), afastou-se dali em meados da década de 1970. Outra livraria, quase junto à Leitura, a Livros do Brasil, fechou há talvez dez ou quinze anos. Agora, a zona não é de indústrias da cultura mas de restauração, de oferta orientada para a francesinha (até a loja dos bolos "éclaires" mudou de perfil). Quem sobe hoje a rua de Ceuta vê edifícios em recuperação, sinal do desinvestimento da zona. A livraria ressentiu-se muito disso.
Entrar nos últimos anos na livraria era uma tarefa triste. Eu recordo a alegria do lançamento de um livro meu em 1997, a inaugurar a coleção Comunicação, dirigida por Mário A. Mesquita, integrada na Editora MinervaCoimbra. E, durante a década de 1980 e parte da década de 1990, onde comprei muitos livros de arte e estética para aulas na Árvore, cooperativa de ensino artístico, realço o atendimento conhecedor dos livreiros e a permanente atualidade. A Leitura chegou mesmo a produzir um catálogo regular com títulos e capas, um grande esforço de divulgação do livro de cultura (literatura, arte, ciências sociais e humanas), mal designado como técnico, como uma fatura de livro que ali comprei e que anexo.
Está quase a fazer 30 anos que se discutiu a Lei da Rádio, aprovada no final de 1988, muito em resultado da criatividade das rádios livres (ou rádios piratas).
Mas gostaria de voltar um pouco antes. Em 1984, a conferência mundial das radiocomunicações em Genebra decidira atribuir mais três frequências de FM de cobertura nacional. Dessas, uma seria atribuída à RDP (rádio do Estado, a Antena 3) e uma à Rádio Renascença (da Igreja Católica, a RFM). O secretário de Estado de então era Anselmo Rodrigues.
Em dezembro de 1986, o parlamento, com maioria de esquerda, pretendeu reverter o diploma, com a retirada das frequências da RDP e da Rádio Renascença. O presidente da República, Mário Soares, vetou a lei no final do ano. Para ele, as leis não deviam servir de pretexto ou bandeira para criar divisões entre os portugueses. O veto recolheu apoio na direita parlamentar e estranheza no PS, então liderado por Vítor Constâncio, que sucedera a Soares. O parlamento confirmaria, contudo, a sua posição, ao manter a reversão da atribuição das recentes frequências aos dois grupos de rádio.
Definiram-se duas posições fortes. Do lado da esquerda, defendia-se a posição do parlamento: estavam a emergir as novas rádios (livres), que podiam concorrer a três licenças nacionais e não apenas a uma. O texto do semanário O Jornal (30 de janeiro de 1987) acompanha, sem necessariamente o refletir, esse ponto de vista. Já a peça do Semanário (7 de fevereiro de 1987) enfatiza a posição de um dos grupos de rádio que ia perder uma licença, a Rádio Renascença.
Embora questão distinta do problema de 1974-1975, pela altura da ocupação dos estúdios da Rádio Renascença em Lisboa por um grupo de profissionais radiofónicos (locutores e técnicos), parecia renovar-se a luta. Entretanto, o governo caiu e o parlamento mudou para uma maioria de direita política, que apostaria não nesta questão mas no concurso das rádios livres.
A análise das forças e interesses diferentes em jogo fica para outra altura e local.
"O Minuto de Ódio foi um programa de rádio criado em 1986 por Neno Costa e David Pontes, na Rádio Caos. A Caos foi uma das primeiras rádios “livres” - também conhecidas por “piratas” - a operar em Portugal e a primeira no Porto, nos inícios da década de 1980. Os “estúdios”, situados no último andar de um prédio relativamente antigo da Praça da República portuense, limitavam-se a duas salas, uma das quais (do tamanho de uma marquise) servia de cabina para as longas horas de emissão, na frequência 93.4 MHz. O “autor” – eram todos “autores de programas” cheios de personalidade, originalidade, experimentalismo e títulos impensáveis – sentava-se numa cadeira giratória de napa e manipulava ele próprio a mesa de mistura, posta ali mesmo à sua frente. De manhã até de madrugada, a Caos era um oásis de música “alternativa”, comentários curtos e em voz grave e séria, algum noticiário, alguns entrevistados, tudo feito com o amadorismo próprio de uma rádio livre. Os programas emitidos na Caos obedecerem (pelo menos em princípio...) a um “projeto” previamente entregue aos “diretores” da rádio. O Minuto de Ódio dedicava-se à divulgação das sonoridades punk/hardcore. Neno Costa e David Pontes editaram, realizaram e produziram meia dúzia de programas. Posteriormente, Óscar Pinho deu continuidade ao programa que terá durado cerca de um ano.
Hoje, na Associação 25 de Abril, o convidado do almoço foi o jornalista Joaquim Letria (organizado por António Colaço). Letria trabalhou na BBC na secção portuguesa. Ele recordou essa passagem neste excerto (https://soundcloud.com/rog-rio-santos-6/bbc) [imagem retirada da página de António Colaço].
Alexandra Lucas Coelho escreve hoje o artigo Eu acredito em Woody Allen no portal Sapo. Acho o texto da jornalista muito lúcido. Também me parece haver uma tentativa de reciclagem do sistema de Hollywood.
Celestino de Anciães Felício trabalhou em Angola e esteve intimamente ligado ao planeamento da radiodifusão naquele país (então ainda colónia de Portugal). Foi contratado em maio de 1962. O texto é de 1973.
Em setembro de 2016, num café da avenida da Igreja (com som ambiente) ouvi atentamente Fernando Quinas falar-me dos programas de Rádio Clube Português: Onda do Optimismo, Parodiantes de Lisboa, Produções Carrocel. Dele, fica um apontamento sobre Joel Nelson e os programas de verão nas praias do Algarve. A voz fantástica que ele tinha nesses programas!
Júlia Barroso, Francisco José (Galopim), Maria de Fátima Bravo, Artur Garcia, Maria Marize e Simone de Oliveira debutaram no Centro de Preparação de Artistas da Rádio (CPAR), estrutura da Emissora Nacional criada em 1947 e com Mota Pereira, cantor lírico, à sua frente. A ideia de António Ferro (então presidente da Emissora Nacional), era a rádio oficial (pública) ter artistas seus e com um tipo de canções adequadas ao tempo - música ligeira orquestrada. Os ensaios, para candidatos dos 14 aos 25 anos, decorriam todas as tardes nas instalações da Casa da Imprensa.
À "Flama" (meados de março de 1963 - não consegui apurar a data precisa), Mota Pereira disse: "o nosso apelo é mais para cançonetistas e intérpretes de «bossa nova», que aparentem um mínimo de todo artístico. Deito fora as cartas de recomendação: a melhor recomendação é a voz, o talento e a personalidade". Madalena Iglésias (1939-2018) foi uma das maiores revelações do CPAR, visível na sua vitória no festival da canção da RTP em 1966. Ela tinha voz, talento e personalidade.
Não gosto muito da expressão "nacional-cançonetismo", que abrange a música ligeira da época e a identifica apenas com o regime político de então. Também não gosto da expressão "música ligeira orquestrada", por extensa e por não responder ao propósito de Mota Pereira de intérpretes de "bossa nova".
Luís Filipe Costa, cineasta e autor de ficção, foi um conhecido realizador e locutor de rádio. Ele associa-se indiscutivelmente a Rádio Clube Português, a maior estação comercial da rádio portuguesa até 1975. A sua voz é inconfundível - ainda hoje reconheceria a sua voz. Ele foi o noticiarista (jornalista de rádio) a revolucionar os noticiários da sua estação e, por influência e imitação, das outras rádios, com duração de três minutos. Isto aproximou cada notícia ao tempo da publicidade - curto e objetivo. Se necessário, tirava-se o verbo ou o artigo definido (exemplo: em vez de dizer "O Belenenses é o campeão" bastaria dizer "Belenenses campeão"). A revolução começou por volta de 1960, quando a estação deixou os estúdios da Parede e passou a funcionar na rua Sampaio e Pina, onde ainda hoje trabalha a Rádio Comercial. O locutor tinha a experiência da publicidade e Rádio Clube Português já tinha o noticiário Repórter Mabor, um noticiário curto às 14:00.
Rádio Cube Português modernizou-se nessa década. Para fazer reportagens em direto, alugou um helicóptero, em que vemos Luís Filipe Costa pronto a fazer reportagem (revista Nova Antena, 25 de abril de 1969). Rapidamente a estação apercebeu-se que o meio aéreo não era eficaz e comprou um avião. Para acompanhar em tempo real a volta a Portugal em bicicleta ou o rali do Vinho do Porto, o avião trouxe vantagens. E, se um membro da família Botelho Moniz quisesse ir para uma sua propriedade, o avião garantia melhor qualidade.
Mas os programas mais inovadores também usaram meios de transporte. O programa PBX, iniciado em 1967, usou um carro elétrico para um programa. A primeira emissão de Tempo Zip, na Rádio Renascença, fez-se a bordo de avião da TAP (29 de março de 1970), com o Boeing a sobrevoar o espaço entre Lisboa e Setúbal durante 30 minutos. Um outro programa também usou o barco entre Lisboa e a outra margem do rio Tejo para entrevistar passageiros e passar música ao vivo.
Os rapazes dos Emissores Associados de Lisboa, com menos capacidade financeira, não ficaram atrás. Organizaram um programa com uma viagem de elevador. Em cada andar do prédio, o repórter, o animador e o músico paravam e discutiam um tema. Creio que não foi no Bairro Azul, onde funcionava Rádio Peninsular mas perto da igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde se instalou a Alfabeta (empresa comercial de Rádio Peninsular e Rádio Voz de Lisboa).
Retiro o título de programa seminal de Luís Garlito feito na Antena 1 durante a década de 1990. A fotografia mostra o casal Maria Leonor Magro e Pedro Moutinho (cerca de 1945, arquivo RTP). Trata-se de uma composição fotográfica de grande equilíbrio: como na pintura renascentista, ele está concentrado na tarefa, com um pequeno sorriso, enquanto ela tem um sorriso mais aberto e segue atentamente o que ele faz. O texto contido no papel está, com certeza, a ser lido, pois o locutor apresenta-se orientado para o microfone, à esquerda da composição.
Leonor Magro, sempre conhecida apenas por Maria Leonor, tem os lábios pintados e brincos nas orelhas. O ainda seu marido (divorciar-se-iam pouco depois, desfazendo a ideia de casal modelo da rádio pública) ostenta um anel de brasão e um lenço no bolso do casaco. A mesa sobre a qual o seu braço esquerdo se debruça está muito limpa, de modo a vermos o reflexo do anel, do relógio e dos dois botões da manga do casaco.
Não sei se se tratava de um diálogo, embora ela não tenha um papel para ler, o que quase elimina esta ideia. Talvez um comentário político, pois Pedro Moutinho estava identificado com o regime político, destacado com frequência para reportar atividades e cerimónias solenes do Estado Novo. Mas é, sobretudo, uma imagem idílica da rádio, num tempo em que não havia muitas oportunidades de conhecer as caras dos locutores que falavam aos "estimados ouvintes".
Um pormenor: em 1945, data provável desta imagem, a Emissora Nacional desdobrava, para os ouvintes de Lisboa, o seu programa em I e II, para garantir os gostos de música ligeira e clássica, após entrada em funcionamento dos emissores de ondas médias de Castanheira do Ribatejo. No Porto, o desdobramento só aconteceu em 1954, com a instalação do emissor em Azurara (Vila do Conde).
O
programa Página 1 nasceu em 2 de
janeiro de 1968, a emitir na Rádio Renascença. Certamente o programa mais
importante da história da rádio em Portugal, Página 1 resultou de parceria entre a Rádio Renascença e a revista católica
Flama.
Em
horário nobre (19:30-21:00), atingiu um vasto auditório jovem e com consciência
política, através de música pop, soul
e baladeiros (Manuel Freire, António Macedo, Fausto Bordalo Dias), crónicas de rádios internacionais e
rubricas sobre automobilismo, cinema e teatro. O programa, com indicativo musical composto por Miguel Graça Moura (Pop Five Music
Incorporated), deu ainda a conhecer a música espanhola de
Patxi Andion, Joaquín Díaz e Manolo Díaz. Deste último, o programa passou
regularmente La Juventud Tiene Razón (1969),
proibida pela televisão espanhola, uma espécie de hino de revolta política.
O
programa organizou iniciativas de grande projeção pública. Uma delas foi o
acampamento da juventude nas Caldas da Rainha (junho de 1970). Os milhares de
participantes a ouvir música de Adriano Correia de Oliveira, Fausto e José
Jorge Letria foram vigiados à distância por elementos da Guarda Nacional
Republicana montados a cavalo. Outra iniciativa foi o espetáculo na Escola dos Salesianos
(Estoril), em agosto de 1970. Sob pretexto da não autorização oficial, a polícia
invadiu o perímetro da festa e bateu em quem encontrou, incluindo o filho do
primeiro-ministro Marcelo Caetano. O inquérito oficial reconheceu exagero nas
agressões [imagem em baixo retirada do Jornal de Notícias, 5 de setembro de 1970]. Das emissões ao vivo, destacou-se a realizada em novembro de 1971 no
cinema Roma (Lisboa), a estrear discos de José Mário Branco e Sérgio Godinho. Como
os músicos viviam exilados em Paris, no palco colocou-se um gravador de música em
vez de cadeiras e microfones.
O
núcleo do programa foi constituído por José Manuel Nunes (realizador e locutor),
Adelino Gomes (jornalista), Homero Cardoso (diretor comercial da Flama e
produtor do programa) e Moreno Pinto (técnico), depois
substituído por José Videira. Duas colaborações fundamentais foram Fernando
Tenente (Porto), angariador de música ainda não editada e lançada pelo programa, e
Viriato Dias, repórter parlamentar que registou intervenções do grupo
parlamentar liberal [imagem abaixo retirada da revista Rádio & Televisão, 22 de abril de 1972)].
A
entrada do jornalista Adelino Gomes para o programa foi significativa, com
muitas reportagens e apontamentos noticiosos. Ele recebeu também convite para
organizar o serviço noticioso da estação. Mas, a 6 de setembro de 1972, Página 1 seria proibido pela censura (e o
programa Tempo Zip, dirigido por João
Paulo Guerra). O jornalista comentara na véspera o massacre de atletas
israelitas por comando palestiniano nos Jogos Olímpicos de Munique, repetido no
segundo programa. No texto, o jornalista afirmou
que se tratava de um episódio da guerra do Médio Oriente, que começara em 1948
com a expulsão dos palestinianos árabes do território em que viviam. No
apontamento, Adelino Gomes citava uma notícia em que o presidente Nixon chamava
ignominioso ao ato, embora autorizasse que aviões bombardeassem aldeias, diques
e hospitais do Vietname do Norte nessa mesma noite.
Muitas
das chamadas recebidas que entupiram os telefones de Rádio Renascença seriam
para felicitar o jornalista. Mas a reação da Secretaria de Estado da Informação
e Turismo foi a suspensão imediata do programa (e Tempo Zip), atitude marcante na história da rádio portuguesa. A
condição para a retomada dos programas implicou o despedimento de Adelino Gomes
e de João Paulo Guerra. Foi ainda imposta a criação de um serviço de censura externo
na estação.
O
conselho de gerência, em documento interno de 26 de setembro de 1972, condenara
o texto de Adelino Gomes, por não permitir intervenções em oposição ou
desacordo com a política do Estado e por o jornalista se subtrair ao trabalho de
fiscalização (eufemismo a cobrir a palavra censura). Logo depois, surgia um
documento de normas de procedimento de censura, determinando aprovação da
gerência e tempo de antecedência a apresentar apontamentos e reportagens.
Página 1
recebera um prémio de rádio pela Casa da Imprensa (1971). A título excecional,
a mesma Casa da Imprensa atribuiu o prémio de Reportagem Radiofónica a Adelino
Gomes (1972). A cerimónia de entrega do prémio decorreu em espetáculo promovido
no Coliseu dos Recreios apenas a 30 de março de 1974. Segundo o relatório da
Polícia de Segurança Pública de Lisboa, a sala estava superlotada, predominando
a juventude e elementos conhecidos da CDE. Na ocasião, o jornalista diria:
“tive o prémio do melhor locutor da rádio, mas fui despedido por ter dito
algumas coisas e por pretender dizer muitas coisas que vocês deviam saber”.
Depois
da saída do programa Página 1, Adelino
Gomes trabalhou na Deutsche Welle. Regressado no final do verão de 1973, foi
substituído na rádio alemã por José Manuel Nunes, também a sofrer pressões políticas.
Luís Paixão Martins ficou como locutor de Página
1 até março de 1975, quando o programa acabou.
Para memória futura, a discussão no Facebook em torno do programa Página 1 (2 de janeiro de 2018). A qualidade não é muito boa, mas pode ser pesquisada na página de João Carlos Callixto.