sábado, 16 de abril de 2005

DIÁRIO DE SOFIA

Lê-se no sítio da SonaeCom, de 21 de Fevereiro de 2003: "O Diário de Sofia, o primeiro passatempo virtual interactivo, lançado pela Optimus no final do mês de Janeiro, está a revelar-se um verdadeiro sucesso entre os jovens portugueses. Em pouco mais de duas semanas conseguiu milhares de participantes e uma interacção de mais de 50 mil contactos. Este passatempo inédito em Portugal permite aos participantes o poder de decidirem sobre o dia-a-dia de Sofia, uma jovem de 17 anos".

Do casting ao sucesso

Entre Janeiro e Fevereiro de 2003, decorria um casting com 1200 jovens, para escolha dos intérpretes da história televisiva. Desse mais de um milhar foram seleccionados 24, apresentados no começo de Março de 2003 numa discoteca em Lisboa, mas somente seis entrariam na novela.

O Diário de Sofia surgira como um novo conceito de ficção interactivo. Assim, na internet eram publicados os capítulos da história (Diário de Sofia), também disponíveis em ficheiro de texto para clientes com acesso normal, em ficheiro multimedia em acesso por banda larga e via e-mail.

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A primeira série interactiva portuguesa seria transmitida no canal SMSTV do cabo [em cima, página do Diário de Notícias de hoje; em baixo, imagens dos episódios de hoje na RTP]. Agora, regressou à televisão, passando na RTP. O quotidiano da adolescente mais popular de Portugal aparece em episódios de cinco minutos. No final, pede-se à audìência que envie uma mensagem, para decidir o que a Sofia tem de fazer no dia seguinte. Ao fim-de-semana, o que aconteceu hoje, foi emitido um compacto de 25 minutos.

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O que se vê na série? Sofia, as amigas Rita e Joana, o antigo namorado Joca e a irmã Mariana. Com uma montagem rápida, a história acompanha a vida de uma estudante do secundário, as aulas e o relacionamento com o género oposto. Do compacto de hoje, vi algum product-placement. O formato, da produtora nacional beActive, começou na internet através do portal Clix. A série, que envolve oito actores principais e 11 secundários, será exportada para a Malásia, Áustria, Filipinas, Itália, Eslovénia e Croácia.

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Mas o sucesso obtido no portal da Sonae somou-se ao êxito da colecção de livros editados pela Presença, que anuncia o oitavo volume da saga. Há, aqui, um exemplo claro de sinergia de várias indústrias culturais: livro, televisão, telemóvel e internet (complementado através de fóruns de discussão). Com a vantagem acrescida de ser um programa que ascende de um canal por cabo e conhece tal fama que é guindado a um canal de sinal aberto, de maior audiência. O horário habitual de emissão será às 15:30, voltado aparentemente para um público mais jovem que o do programa Morangos com açúcar, que passa ao fim da tarde na TVI, embora o ambiente escolar esteja presente em ambas as ficções. No Diário de Sofia, o ponto fulcral é a interactividade (a votação dos telespectadores é fundamental na continuação para a narrativa).
INDIELISBOA 2005

Lê-se no Público de ontem: "A aposta inicial do festival mantém-se: permitir que o IndieLisboa seja um espaço reconhecido pela sua capacidade de revelar novas obras e novos cineastas, com um carácter marcadamente internacional, e capaz de aproximar o cinema independente e a sua enorme capacidade criativa de um público alargado". O IndieLisboa inclui secções de competição, observatório, herói independente, sessões especiais, antestreias e o IndieJunior. As sessões decorrerão de 21 de Abril a 1 de Maio nas salas do King e do Fórum Lisboa.





O IndieLisboa 2005 terá extensões no Porto (7 a 9 de Maio), Famalicão (12 a 14 de Maio), Aveiro (3 a 5 de Maio), Caldas da Rainha (2 a 5 de Maio) e Faro (2 a 6 de Maio), uma prova de descentralização das indústrias culturais.

Um pequeno estudo sobre o cinema independente

Raquel Leal, do mestrado de Ciências da Comunicação da Universidade Católica, fez um trabalho, para o módulo de Media, Públicos e Audiências, sobre o cinema independente e o IndieLisboa 2004. Ela partiu de várias perguntas: "O que distingue o cinema comercial do cinema independente? Serão os temas? Será o público que assiste? Será o financiamento privado para a produção do cinema independente? Será a sua colocação no mercado, ou seja, a sua menor circulação? Serão os realizadores de um ou outro tipo de cinema?"

A aluna entende o cinema independente como tendo mais "autonomia na produção deste tipo de cinema, em relação ao cinema comercial: ambos são indústrias culturais, contudo a componente do lucro é, sem dúvida, uma maior imposição no cinema comercial". Segundo Raquel Leal, cerca de 40% do orçamento de um filme comercial destina-se à publicidade; assim, falar de independência pode significar uma questão financeira. A que se prendem os apoios à produção cinematográfica: 1) o cinema comercial conta com investimentos privados, 2) o cinema independente conta com subsídios de apoio à cultura, prémios e auto-promoção.

A primeira edição do IndieLisboa (Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa, INDIE) decorreu em Lisboa, no cinema São Jorge, de 24 de Setembro a 2 de Outubro de 2004. A ideia de realizar um festival deste tipo surgira da Zero em Comportamento (ZeC), uma associação cultural sem fins lucrativos que promovera durante seis anos e até 2003 vários ciclos de cinema no Cine-Estúdio 222, perto do Saldanha, em Lisboa. Estes ciclos da ZeC tinham um público maioritariamente na faixa etária dos 18 aos 30 anos, estudantes universitários e recém-licenciados, pertencentes à classe social AB. Cada dia dos ciclos contava com uma média de 110 pessoas por dia, perfazendo duas mil por mês. Além disso, a ZeC publicou uma revista, a Zero Mag, com uma tiragem de cinco mil exemplares,e que eu fiz aqui alusão.

O projecto do Indie surgiu depois da ZeC abandonar a exploração dos ciclos no cinema Estúdio 222. Rui Pereira, Nuno Sena e Miguel Valverde acumulariam funções de direcção e de programadores do festival, tendo depois convidado Ana Teresa Real para responsável da direcção artística. A primeira edição, a de 2004, procurou homenagear o mais famoso festival de cinema independente americano, Sundance, dirigido por Robert Redford. Um dos grandes objectivos é o da criação de novos públicos. A atribuição de prémios está também incluida nos atributos do festival que vai entrar em segunda edição.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

EMISSORA NACIONAL NOS ANOS 1930-1940

No seu catálogo, a editora Quimera anuncia a saída do livro de Nelson Ribeiro, A Emissora Nacional nos primeiros anos do Estado Novo, 1933-1945.

Lê-se no catálogo que o trabalho estuda e compreende as "estratégias implementadas pela ditadura do Estado Novo, no sentido de utilizar a Emissora Nacional como veículo privilegiado para aceder a um público vasto e heterogéneo e, desta forma, veicular o ideal salazarista".

O livro tem 326 páginas e custa €15. A ida para as livrarias ocorrerá, previsivelmente, ainda dentro do primeiro semestre de 2005. O texto de Nelson Ribeiro segue a tese de mestrado que defendeu na Universidade Católica, e que eu fiz aqui alusão.

O autor é docente na Universidade Católica e director da emissora Mega FM.
UM BLOGUE SOBRE RÁDIO E TECNOLOGIAS A ELE ASSOCIADO

João Paulo Meneses, do Blogouve-se, começou ontem um novo blogue, chamado osegundochoque. Deve atentar-se na sua declaração de princípios. Para além da estética e da organização (faço uma pequena crítica: tamanho reduzido de letra que emprega no blogue), importa seguir o que ele escreve, em termos de mutação dos media. Neste caso a rádio.

Compreendo a sua apreensão face ao futuro da rádio - como a conhecemos - mas, se calhar, as mudanças enformam todos os media. O mundo não está parado e todos os dias nos deparamos com diferenças. A velocidade de alterações tecnológicas é cada vez maior. Mas há outra questão a salientar: o mercado precisa de novidades para vender produtos. Não é preciso ir longe: basta passar por uma loja FNAC e ver as mudanças em meio ano ou num ano em termos dos produtos tecnológicos que estão nos primeiros escaparates.

Importante o lado dos blogues favoritos - a que Meneses chama enlaces. Entre eles, está o blogue da Paula Cordeiro, NetFM, ela própria a fazer doutoramento em ciências da comunicação (rádio) e também com um discurso muito bem articulado e interessante de seguir.

Publicidade no Estado Novo


O segundo volume do livro de Rui Estrela, A publicidade no Estado Novo (da editora Caminhando), analisa o período de 1960 a 1973 (em post de 10 de Março, fiz referência ao primeiro volume da obra). No estudo - correspondente a tese de doutoramento defendida na Universidade de Salamanca -, o autor, professor universitário de marketing e publicidade, são abrangidas as áreas da imprensa, cartaz, cinema, rádio e televisão.


ruiestrela1.jpgSe, no começo do período em observação, a imprensa era o principal receptor da publicidade, a televisão assumiria a liderança no final do período (p. 15). 1970 foi o ano em que a televisão passou a captar mais investimento publicitário que a imprensa, ainda que mínimo (39,9% contra 39,8%). Ao mesmo tempo, as revistas especializadas adequavam-se a públicos específicos [reprodução autorizada pela editora Caminhando da capa e de anúncios incluidos no livro].

Em 1960, Rui Estrela refere a existência de cerca de 200 diários e semanários, número que sobe para 250 em 1973. O preço de publicidade por página era de €25 no Jornal de Notícias (Porto) e de €50 no Diário de Notícias (Lisboa), em 1973. Quanto ao Século, também aqui na capital, oferecia vantagens em termos de pagamento. Mas desenvolvia-se uma área de revistas, algumas associadas com a televisão e outras orientadas para o público feminino: a Crónica Feminina, carregada de anúncios com produtos de beleza, higiene e saúde, tinha um preço de publicidade por página mais elevada: €63, em 1971 [optei por passar para euros os valores indicados no livro em escudos, porque me parece mais fácil raciocinarmos em termos da presente moeda].


ruiestrela2.JPGRui Estrela (aqui na imagem ao lado) aplica uma bem elaborada grelha para análise dos anúncios, tendo feito muito trabalho de classificação. Ele considera o estilo informativo o mais usado no período (1960-1973), presente nos transportes, turismo e banca, a que se seguia o estilo comparativo, que se usava em 20% dos anúncios de imprensa (electrodomésticos, automóveis, produtos alimentares, higiene e beleza). O estilo promocional chegava aos 10% - a época da óptica de vendas - e incluía o sector de higiene e beleza, caso dos detergentes, e electrodomésticos. Anunciantes importantes seriam a Companhia dos Telefones, Gazcidla, banca e RTP (promoção de programas). No sector de automóveis, verificar-se-ia uma diminuição dos anunciantes norte-americanos, um aumento dos europeus e o surgimento, mais para o final do período, dos construtores japoneses (p. 28). O sector relojoeiro, outrora uma fatia importante no mercado publicitário, perdia influência, o mesmo ocorrendo com o sector têxtil, ao passo que as empresas de higiene e beleza desviavam os seus investimentos publicitários para a rádio e para a televisão.

Os media audiovisuais

Cartaz, cinema, rádio e televisão passam a ter fatias mais elevadas em investimentos publicitários, que Rui Estrela analisa com muito pormenor. Anunciantes e empresas produtoras merecem adequada atenção. Para não alongar a mensagem - e não substituir o livro, que se lê com muito agrado -, detenho-me na produção de filmes publicitários. A Telecine-Moro era a maior produtora: realizou, entre 1960 e 1968, cerca de 31% dos filmes para o cinema. Chegava-se a uma altura de transferência de consumo deste meio audiovisual para a televisão, mas em que esta ainda operava a preto e branco. Em 1965, o preço do filme publicitário produzido pela Belarte, outra empresa de topo, com 30 metros (ou 15 segundos), exibido uma vez por sessão durante uma semana, custava cerca de €27. No início da década seguinte, a Belarte cobraria já €35 (p. 37).

A rádio captava cerca de 25% do total do investimento publicitário, em 1970, chegando assim aos €560 mil. As grandes vozes da rádio, como Artur Agostinho, Henrique Mendes, Igrejas Caeiro, Mary Tarant, Matos Maia e os irmãos Andrade, eram algumas delas. Gravados já em suporte magnético, o preço da publicidade ao fim do dia (19 às 20 horas) por 20 segundos era de €0,9 no Rádio Clube Português e €0,32 nos Emissores Norte Reunidos (Porto). O estilo de anúncio era o musical.

Finalmente, quanto à televisão, os anúncios iniciais eram dados em directo, com uma demonstradora a falar do produto. Por vezes, havia enganos. O primeiro equipamento de videotape seria comprado pela RTP em 1960. Do mesmo modo que tinha peso no cinema, a Telecine-Moro tornou-se a principal produtora de filmes publicitários para a televisão. De meados dos anos 1960 a 1974, 80% dos filmes publicitários na televisão pertenceram a essa produtora. Em 1967-1968, um filme de 15 segundos custava €12500 (preto e branco) ou €37500 (cores). O locutor recebia entre €1 e €1,25.

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No período de 1960 a 1973, Rui Estrela observa os seguintes traços: 1) aumento considerável do negócio publicitário, 2) desenvolvimento de antigas agências e aparecimento de novas agências, 3) maior organização interna, 4) importância crescente dos meios rádio, cinema e televisão, 5) maior variedade de estilos, 6) necessidade de formação contínua e contactos diversificados com o estrangeiro, através de congressos nacionais e internacionais, 7) aparecimento de associações profissionais (pp. 126-127).

Com um sentido muito pedagógico, a obra tem, em cada começo de capítulo, uma síntese de enquadramento político e económico, bem como elementos demográficos e sócio-culturais, tudo para tornar mais compreensível o período em observação.

Leitura: Estrela, Rui (2005). A publicidade no Estado Novo. Volume II (1960-1973). Lisboa: Comunicando

quinta-feira, 14 de abril de 2005

SEMINÁRIO

O agendamento mediático de Timor Leste, por Rui Marques, no dia 28 de Abril, pelas 17:00, no edifício da Biblioteca João Paulo II, na Universidade Católica. Integrado no ciclo de seminários de investigação do mestrado em ciências da comunicação mas aberto a quem quiser estar presente.

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AS RÁDIOS PORTUENSES EM 1948

"As emissoras do Porto têm o privilégio de fazer publicidade, o mesmo não acontecendo às de Lisboa que a isso não estão autorizadas. Resultou dessa circunstância que a discoteca das estações do Porto continua a ser melhorada consideravelmente, enquanto as emissoras alfacinhas estão a servir-se de discos velhos, com ruído de agulha resultante do seu uso", assim escrevia Manuel Correia de Brito, no semanário Brisa, de Março-Abril de 1948.

O mesmo articulista, que era simultaneamente director da Portuense Rádio Clube, naquela cidade do norte do país, escrevia ainda:

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Já o número de Setembro de 1948 da mesma revista dava uma notícia má para as rádios do Porto: "o cancelamento da publicidade que vinham fazendo os postos particulares de radiodifusão" daquela cidade, seguindo o exemplo do aplicado a Lisboa. Mas ao protesto segue-se uma nota de compreensão: "Evidentemente que a publicidade, tal qual estava a ser feita nos postos portuenses, tornava-se intolerável, mas nada melhor do que a regular, com uma doutrina que assentasse nestas bases fundamentais: limites mínimos de preços, publicidade artística e receitas totalmente aplicadas no progresso da rádio".

Arqueologia industrial

As rádios entravam no período de férias (era hábito as emissões fecharem em Setembro, prática que vinha desde o começo da rádio comercial), "prematuramente", considerava Manuel Correia de Brito. Cessando a publicidade, acabavam "determinados programas que estavam a ser subsidiados por firmas comerciais". Vivia-se já do patrocínio directo a programas radiofónicos. Esmorecia o peso da Portuense Rádio Clube, do mesmo modo que o Rádio Clube do Norte. Manter-se-iam, até 1974, estações populares como a Ideal Rádio, a Orsec e a Electro-Mecânico, associadas nos Emissores Norte Reunidos, funcionando numa mesma frequência apesar de estúdios separados [imagens de Jorge Guimarães Silva, do sítio As rádios no Porto, 1920–1970, cedidas para ilustrar este post, a quem agradeço].

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quarta-feira, 13 de abril de 2005

TESE DE DOUTORAMENTO EM JORNALISMO

Hoje, pelas 15:00, na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, defende tese de doutoramento o aluno Dinis Manuel Alves. A tese intitula-se Mimetismos e determinação da agenda noticiosa televisiva. A agenda-montra de outras agendas.

É uma tese sobre jornalismo. Dinis Alves é jornalista e professor universitário. Publicou, entre outros, o livro Foi você que pediu um bom título? Foi um dos proponentes do primeiro projecto de rádio local (ou de proximidade) nos anos de 1980.

Actualização em 14 de Abril, às 22:40: Dinis Alves fez uma análise a noticiários de televisão dos quatro canais de sinal aberto, durante três semanas em 1999. Analisou ainda a rádio e imprensa, em período semelhante. Como tese demonstrou o mimetismo da agenda da televisão face aos outros media, em especial a imprensa.

Em termos de metodologia científica, fez ainda observação participante e inquérito nos canais de televisão, numa triangulação de processos. Dinis Alves é o primeiro doutor em jornalismo pela Universidade de Coimbra. Os meus parabéns [na imagem: aspecto da prova].

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CONGRESSO DE RÁDIO

Realiza-se entre 29 de Abril e 1 de Maio o X Congresso Nacional de Radiodifusão, promovido pela Associação Portuguesa de Radiodifusão e apoiado pela Anacom. O evento decorrerá no Centro de Congressos do Tagus Park, em Oeiras.

O papel das rádios de proximidade, regulação, a necessidade de mudar a lei da rádio e profissionalização serão alguns dos temas em discussão nesse fim-de-semana.
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LEGENDAS ANIMADAS

A legenda do "boneco" de Silva Neto diz: "Em vista de tamanho cuidado com os ruídos, é de supor que estejam na altura daquela cena em que o poeta, agarrado à argola, grita «Há-se sair... Há-de sair...». Se assim é, fazemos votos por que não suceda o mesmo que com o foguete das «Pupilas»".

bocage1.jpgDescodifiquemos. O primeiro número da revista Espectáculo, semanário de cinema, teatro e actualidades, saía a 13 de Junho de 1936, dirigida por Armando de Miranda, que assinava frequentemente A. de M.

O cartoon desse número inicial, que ocupava a página toda, era uma referência ao filme então em rodagem de Leitão de Barros, Bocage. O regime político solidificava-se, com a guerra civil no país ao lado a chegar ao fim e o fervor nacionalista e patriótico a aumentar pela Europa inteira. O cinema era, ao lado da rádio, uma grande arma de propaganda. Na altura da rodagem de Bocage, António Lopes Ribeiro dirigia A revolução de Maio, uma encomenda do Secretariado de Propaganda Nacional de António Ferro.

Alguns quadros do quadro

A imagem deve decompor-se em vários quadros, como se estivesse em espiral, para uma compreensão mais delicada. O primeiro é o da rodagem propriamente dita. Vê-se o cameraman, o projeccionista, o actor. Mas o homem da câmara quer silêncio - num espaço de grande algazarra. Algumas das cenas do filme decorriam nessa altura em exteriores, caso de Queluz, pelo que li na imprensa.

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Ao filme a ser rodado, há um outro "filme", o da vida do dia-a-dia. E o que se vê? A contradição entre o campo e a cidade ou, se olharmos de outro prisma, entre a tradição e a modernidade, representadas respectivamente pela carroça e pelo burro impertigado, por um lado, e pelo automóvel que fazia um atropelamento à vista de toda a gente, por outro lado. Parece que ainda não se circulava pela direita, mas à inglesa.

A autoridade concentra-se no acidente da modernidade, que o burro aos pinotes era coisa do passado. Vêem-se dois agentes, um levando a mão ao cassetete. Mais atrás, a cavalo, um graduado olha quer o acidente quer um par de namorados, em que ele é militar (imagem seguinte). Nesta última, figura ainda o par de músicos com calças cheias de remendos, sendo o acordeonista cego, uma mãe que tem dificuldades em conter o berreiro da criança, um par de crianças que oscila o seu olhar entre os tocadores-cantores e a mãe com a filha.

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bocage4.jpgA história do poeta

Vê-se ainda um carro eléctrico da CCFL - sigla que quer dizer Companhia de Carris de Ferro de Lisboa - a ir para a Estrela. Juntamente com o automóvel em experiência (de atropelamento) e o filme de Leitão de Barros, o eléctrico [bondinho, para os meus leitores brasileiros] é um dos sinais de modernidade da capital do então ainda império.

Entrevistado no número 6 do mesmo semanário Espectáculo, Leitão de Barros diria sobre os púbicos que iriam ver o seu novo filme [já fizera a Severa e As Pupilas do Senhor Reitor]: "Há os que esperam, ingenuamente, um filme onde passam todas as falsas anedotas de Bocage, desde as poesias eróticas às brejeirices de viela, às porcarias de Carnaval, a certos improvisos imundos que correm hipocritamente atribuídos a Bocage. Há outro sector público que gostaria de ver um filme revolucionário e político, irreverente, agressivo e doentio. [O público mais culto] espera ou exige um filme onde se respeite a verdade psicológica, mais que a semelhança física, do grande poeta lírico, do maior poeta nacional depois de Camões, que paira ainda hoje como árvore frondosa e isolada nessa desoladora planície, que é a literatura poética do século XVIII".

terça-feira, 12 de abril de 2005

QUEIMAR, SUGERI EU?

Escreve hoje Pedro Fonseca, do blogue ContraFactos & Argumentos, sob o título "Um conjunto de nada": "1) Rogério Santos do Indústrias Culturais atira com a candidatura de JPMenezes para provedor do Público. Em tempos de conclaves papáveis, é para queimar? É pena...".

Reconheço que o título mordaz e o uso do verbo "queimar" me magoaram, mas quem anda numa praça pública arrisca-se a ouvir/ler comentários menos lisonjeiros. Não, eu não quero queimar ninguém. Aliás, tenho uma grande admiração pelo trabalho de João Paulo Meneses, desde que vi e comentei as provas do seu livro Tudo o que se passa na TSF. O que ele escreveu nesse livro de estilo de rádio - e que eu positivamente anotei aqui na devida altura - e o que tem escrito no seu blogue exactamente sobre os provedores de leitor dos jornais, no qual venho colocando frequentes comentários mostrando a minha concordância, prova que eu não quero eliminá-lo. Dei uma sugestão. Não sou pirómano e a minha influência é reduzidíssima (ou nenhuma, acrescento).

O post de Pedro Fonseca tem um elemento útil, o link para o blogue Não Sei Brincar. Neste blogue, há uma mensagem assinada por António Vergara e que merece muita atenção. Ele escreve sobre a blogosfera e a "infinita variedade da estupidez humana". Apesar de concordar com quase tudo, noto na mensagem uma tendência apocalíptica que deixa quase imobilizada a capacidade humana de imitar os bons modelos. Ora: lê a blogosfera quem quer; ela não se impõe autoritariamente nem custa dinheiro.

Adenda: ainda sobre o blogue ContraFactos & Argumentos. O Pedro Fonseca escreveu no passado dia 7, mas só li hoje, uma ligação entre o novo blogue de Helder Bastos, Travessias Digitais, e um texto que aqui publiquei sobre o livro de Dan Gillmor, Nós, os media. Ao Helder, um grande abraço daqui de Lisboa até ao Porto e desejos de um bom blogue sobre "media, novos media, jornalismo e ciberjornalismo".
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Este é o título da coluna saída no Diário de Notícias de ontem, no caderno de "Negócios", assinada por José Correia Guedes, da Universidade Católica (eu não o conhecia até ler o texto).

Começa bem o artigo: "Grandes transformações económicas, com impacto generalizado no bem-estar da sociedade, conseguiram-se sempre à custa de rupturas com interesses instalados. Foi assim na aurora da revolução industrial, com a introdução do conceito de fábrica no sentido moderno, e é hoje com as novas tecnologias e processos de negócio assentes na Internet".

Fonografia e telecomunicações

Depois de analisar a introdução da máquina a vapor e da produção em massa sob um mesmo tecto (a fábrica), com uma transformação total em termos de trabalho e das suas relações, onde até tem espaço para recordar os luditas (que partiam as máquinas), Correia Guedes olha para a Internet e as mudanças que ela antecipa. Aponta duas indústrias essenciais no decurso do séc. XX: a discográfica e a de telecomunicações. Aquela foi ameaçada com empresas como a Napster: os modelos de partilha de ficheiros "tornaram obsoleto o sistema tradicional de produção e comercialização de música. Os incumbentes [empresas previamente existentes e com poder de decisão] usaram todos os meios ao seu alcance para neutralizar os novos piratas; conseguiram, finalmente, fechar a Napster por sentença judicial. Tarde de mais: o génio já estava fora da lâmpada".

Agora, cabe a vez aos incumbentes das telecomunicações fixas. Niklas Zennstrom e Janus Friis, jovens escandinavos criaram a Skype, uma espécie de Napster para as comunicações: esta permitia ouvir música de forma gratuita, aquela possibilita fazer chamadas telefónicas sem pagar. E, ao contrário da Napster, a Skype tem uma base sólida legal. Escreve Correia Guedes: "O modelo da Skype, tal como anteriormente o da Napster, assenta em tecnologia peer-to-peer: redes informais de computadores pessoais interligados por conexões de banda larga, via Internet, que permitem a circulação de conteúdos digitais, sejam eles ficheiros musicais ou ficheiros de voz". As chamadas entre aderentes do Skype são gratuitas.

O que aqui se noticia é de uma importância enorme. Se as telecomunicações fixas chegarem a um ponto de gratuitidade como o são hoje o e-mail e os web-browsers [e acrescento eu: a possibilidade de fazer páginas pessoais como o meu blogue], isso significa que os nossos consumos podem alargar muito pois o dispêndio económico é nulo ou muito baixo. Mas fica uma pergunta: quem monta e mantém as infra-estruturas e as paga? O Estado? Através de impostos?
MODA E PUBLICIDADE

Eduardo Camilo estrutura a mensagem publicitária como produto de "exercício linguístico de índole referencial e de natureza comercial" (2005: 88). Mas equaciona também a hipótese da existência de uma moda na publicidade em que, para além da ostentação objectual, há a presença de actores que "envergam um determinado vestuário, que protagonizam um determinado estilo".

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Professor da Universidade da Beira Interior (Covilhã), Camilo destaca a publicidade do BPI (a actriz Fernanda Serrano cortou o cabelo e envergou um determinado vestido) [observação minha: o corte de cabelo teve a ver com a sua participação numa telenovela. Posteriormente, grávida, o BPI usou esse estado natural da actriz para avançar com uma nova campanha de anúncios]. Ele chama ainda a atenção para o design dos fatos de banho envergados pelas protagonistas que evocam o ideal de corpo dos iogurtes Danone. Ou seja: há sujeitos na mensagem publicitária que implicam práticas linguísticas para além do valor estrutural.

Por isso, destaca o facto de a moda na publicidade ser uma funcionalidade estritamente comercial e inspirar-se no conceito de figurino para teatro ou cinema (Camilo, 2005: 92). De novo, Fernanda Serrano e a publicidade no BPI - o seu look publicitário radica no corte de cabelo, adequado a uma baixa na taxa de juros: "quanto menos melhor". A moda na publicidade é determinada pela dicotomia entre funcionalidade (existência do produto e vantagem comercial) e artificialismo (estilo em que se afirmam valores) (2005: 104). Por isso, a mensagem publicitária perde a ênfase na vantagem competitiva e alinha no stlyling, em abordagens criativas e dispersas mas também errantes.

O autor elenca três tipos de publicidade: 1) marca, 2) informativa, e 3) apelativa. Na publicidade de marca, o destaque não vai para a comunicação de uma existência e vantagem comercial, mas para a com-textualização face a outros relatos, histórias e imaginários nos quais o produto apresenta um estatuto central (2005: 97). Isto é: há um relacionamento (mediado por uma oferta comercial) com outras produções textuais. Já na publicidade informativa, o look da moda é o mais apagado possível, operando apenas para chamar a atenção do destinatário de uma existência comercial (2005: 100). Ao invés, a publicidade apelativa mostra os valores inerentes ao consumo e ao usufruto dos produtos.

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Leitura: Camilo, Eduardo (2005). "A moda na publicidade: apresentações com estilo e o estilo nas apresentações". In Cicília Khrohling Peruzzo e José Benedito Pinho (org.) Comunicação, identidades, migrações e culturas na lusofonia. Anuário Internacional de Comunicação Lusófona. São Paulo e Lisboa: Intercom e Lusocom, pp. 88-108.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

BLOCO-NOTAS

1) Este blogue não pretende - não tem condições para - ser um meio de comunicação social. Recentemente, recebi a seguinte mensagem: "Caro Rogério Santos, gostaria de saber se você poderia me ajudar a colocar esse grupo para tocar aí em Portugal". Tratava-se de uma banda hip-hop angolana a trabalhar no Brasil. Há mais tempo, o teor era o seguinte: "À equipa de Indústrias Culturais, parabéns pelo excelente trabalho neste blog. [...] Cumprimentos a toda a equipa". No meio da mensagem vinha um pedido para eu comentar um livro de poesia "numa das vossas edições". Calma, sou sozinho, faço esta escrita nas horas vagas ou quando estou a preparar aulas. Mas alguém já me aconselhou que eu podia começar a montar uma empresa de comunicação ou de relações públicas, ou um jornal electrónico. Só se aparecer um patrocinador, embora tivesse necessariamente de mudar de alojamento.

2) Este blogue começou como ferramenta pedagógica. Em especial para os alunos de mestrado em Ciências da Comunicação da Universidade Católica, como o blogue Teorias da Comunicação o fora relativamente a aulas de licenciatura.

3) O esforço (ou seja, o prazer) do blogueiro. O blogueiro de serviço não tem capacidade de se desdobrar para além do que faz, lendo jornais, artigos de revistas, livros, olhando a publicidade, os filmes e a televisão. Por vezes, efabulo em termos de mensagens que gostaria de produzir, mas não tenho editor ou jornalista ou cronista além de mim. Isto aqui nasceu de uma necessidade de reflexão ou indicador de trabalhos sobre as indústrias culturais e vai continuar assim.

4) Mas o blogue entra (ou tem entrado em contacto) com os media. De modo simpático, nomeadamente como os provedores do leitor. Numa altura, com Joaquim Furtado, no Público (agora sem provedor); mais recentemente com José Carlos Abrantes, do Diário de Notícias. Comentei a página de Abrantes de faz hoje uma semana. Ele dá-me uma resposta hoje - na sua secção Bloco-notas. Cito: "o trabalho específico do provedor está definido no Estatuto, que permite, recordo, fazer três tipos de crónicas e não apenas um: 1) As crónicas de resposta a interpelações dos leitores com a desejável resposta dos jornalistas ou outros responsáveis; 2) As análises do jornal; 3) A crítica do funcionamento e do discurso do media [presumo que seria meio], o que tem sido regularmente feito". Não sabia o âmbito alargado das funções de José Carlos Abrantes, pelo que agradeço a explicação.

5) Movimentamo-nos em círculo, lêmo-nos uns aos outros. O curioso é que este tema do blogue serviu para reflexão e comentário no Blogouve-se, o magnífico blogue de João Paulo Meneses , que dava aliás um bom provedor do leitor ... no Público (ver a nota dele, publicada hoje, ao bloco-notas de Abrantes em resposta ao meu comentário).
OS MODELOS DAS INDÚSTRIAS CULTURAIS EM BERNARD MIÈGE

Se a ideia central em Adorno foi a da degradação da arte e da perda de carácter próprio, devido à sua entrada no mercado, Miège considera que essa forma mercantil está longe de recobrir todas as actividades de ordem cultural. Uma análise a fileiras diferentes como o disco, o cinema e os novos produtos audiovisuais permite entender que os produtos culturais não são idênticos ou indiferenciados, mas o resultado de condições de produção e valorização diferentes. Eles podem ser ou não facilmente reproduzíveis, implicando ou não a participação directa de artistas na sua concepção (Miège, 2000: 18) [imagem retirada do sítio da Universitatea din Bucuresti, por altura da atribuição do grau de Doctor Honoris Causa 2004 a Miège].miege1.jpg

Assim, o sociólogo francês define três tipos de indústrias culturais: 1) os produtos reprodutíveis não se inserem directamente no trabalho dos artistas (ou intelectuais) mas referem-se à gama de aparelhos, aos dispositivos culturais, 2) os produtos reproduzíveis supõem a actividade dos artistas, o centro da mercadoria cultural, incluindo livros, discos e espectáculos cinematográficos, e 3) os produtos semi-reproduzíveis supõem a intervenção de artistas, na concepção e na produção, caso de litografias, reproduções numeradas de obras de artistas plásticos e edição de livros de tiragem limitada (o critério de limitação da reprodução combina com o critério de estratégia e raridade).

Esta definição atribui um lugar central, mas não exclusivo, à reprodutibilidade, considerada como primeira marca da indústria. Além da reprodutibilidade e inserção do artista, enunciam-se outras três proposições: 1) incerteza do sucesso do produto cultural, acompanhada do seu desperdício e obsolescência, com busca permanente de novos talentos e renovação regular das formas, 2) criação, profissões, salários e intermitência do trabalho (há poucos períodos com trabalho estável, geralmente compostos de intermitentes, o que questiona a remuneração de artistas, intelectuais e técnicos), e 3) internacionalização.

Dois modelos de cultura

miege.jpgMiège apoia-se em dois autores: Ramón Zallo e Patrice Flichy. O primeiro (El mercado de la cultura, 1992) – já apresentado neste blogue – coloca as indústrias culturais no centro da análise e mostra as segmentações internas: o processo de trabalho e o processo de valorização. Quanto a Flichy ( Les industries de l'imaginaire, 1991), conclui pela composição de dois tipos de produtos culturais: 1) mercadoria cultural – produtos vendidos nos mercados: produtos editados ou cinema; 2) cultura de fluxo – produtos caracterizados pela continuidade e amplitude da sua difusão, o que implica que diariamente novos produtos tornem obsoletos os de véspera. Miège acaba por estruturar cinco lógicas: 1) edição de mercadorias culturais, 2) produção de fluxo (informativo, distractivo e cultural), 3) informação escrita, 4) produção de programas informatizados, e 5) retransmissão do espectáculo ao vivo (incluindo espectáculos desportivos). Estas lógicas heterogéneas agem entre si e é em volta delas que se desenvolvem as estratégias dos actores, nomeadamente os dominantes (grandes grupos de comunicação, Estado). Dá primazia às três primeiras (embora, posteriormente, alinhe no modo apresentado por Flichy: editorial, de fluxo).

As indústrias culturais emergentes ao longo da história funcionam segundo o modelo editorial: livros, música registada, cinema (Miège, 2000: 45). A imprensa, que começou sob o modelo editorial, tornou-se de fluxo (com os recursos publicitários e as assinaturas). A rádio tornou-se um meio a actuar no modelo de fluxo desde cerca de 1924. Por volta de 1985, segundo Miège, com o lançamento do Canal Plus e das televisões comerciais de massa, dos novos media e da televisão por cabo, deu-se um forte impulso ao modelo de fluxo. O autor francês analisa o caso do cinema, que passa do modelo editorial, na exploração dos filmes de sala, ao modelo em fluxo, com a produção de telefilmes. Os modelos organizam a produção e a distribuição, atravessando as diversas fileiras das indústrias culturais, e esclarecem os comportamentos dos artistas que concorrem na criação bem como as estratégias de pequenas e médias empresas que participam na produção.

Miège explica porque juntou, aos dois modelos de Flichy, o modelo de informação escrita (2000: 55). A imprensa, diária e de revistas, funciona segundo o sistema de “duplo mercado”: o mercado dos leitores e o mercado dos anúncios. A informação escrita aproxima-se, sob muitos aspectos, da edição de livros, como a utilização do papel (aproximações simbólicas e económicas). Mas abandonaria, em artigo de 1987, a terceira lógica, propondo uma nova hipótese: a da existência de dois modelos genéricos, postulando a posição da imprensa junto ao modelo de fluxo e ao modelo editorial.

Observação: Miège trabalha um conjunto de termos aproximados: indústrias culturais, indústrias da informação, indústrias de programas, indústrias de conteúdo, indústrias de multimedia, indústrias do audiovisual (2000: 7).

Leitura: Miège, Bernard (2000). Les industries du contenu face à l’ordre informationnel. Grenoble: PUG

domingo, 10 de abril de 2005

O MUNDO APETITOSO DAS REVISTAS DE (SOBRE A) TELEVISÃO

Em artigo assinado por Nuno Azinheira, o Diário de Notícias de hoje faz uma análise das revistas de televisão, a propósito do 18º aniversário da TV 7 Dias, a líder de mercado no segmento. A revista (do grupo Impala) vendeu em 2004 quase 169 mil exemplares por semana, deixando para trás a TV Guia (grupo Cofina), com 82 mil exemplares por semana, e a TV Mais (da Edimpresa), com quase 70 mil exemplares semanais (dados da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens, APCT).

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A peça de Azinheira toca em alguns dos pontos mais importantes numa abordagem às revistas do género: o piscar de olho ao "glamour" do social e o sensacionalismo, a que responde a directora da TV 7 Dias, Luísa Jeremias, à frente da publicação há dois anos. Quanto ao lado do embelezamento do social, a jornalista entende que as histórias publicadas são investigadas, ao passo "que as revistas cor-de-rosa passam ao de leve sobre elas". E rejeita o sensacionalismo, pois o que fazem "é jornalismo de investigação, um género que infelizmente cada vez se pratica menos na nossa imprensa". Mas Jeremias entra em contradição, ao reconhecer que um corpo redactorial de 13 jornalistas "para uma publicação de 160 páginas e o destacável sobre telenovelas" é curto. Ora, sabe-se que o jornalismo de investigação implica muita disponibilidade de tempo para procurar dados e fontes de informação.

A TV 7 Dias, quando nasceu em 1987, concorreu directamente com a então líder TV Guia (que pertencia ao grupo RTP). A situação inverteu-se, devido também à vida desta segunda publicação, cujo título renasceu dentro de outro grupo mediático. De notar ainda a informação que acompanha os dados referentes a cada uma das três publicações, em termos de audiência média (Marktest): 1) TV 7 Dias, 6,3%, 2) TV Guia, 5,2%, 3) TV Mais, 3,5%.
BORDADEIRAS

Certamente não vai ficar na história do cinema como uma obra-prima, mas o filme de Éleanore Faucher é de muita qualidade, a começar pela fotografia.

A história é simples. Claire (Lola Naymark) está grávida mas esconde o seu estado (e pensa, após o nascimento do bebé, dá-lo para adopção). Tem um trabalho precário como caixa de um supermercado mas precisa do dinheiro que recebe. A sua paixão de trabalho é a de bordadeira, pelo que se aproxima de Mme Mélikian (Ariane Ascaride), que acabara de perder o filho num acidente de viação.

As duas mulheres acabam por estabelecer uma rede de cumplicidades, até porque uma perdeu um filho e a outra espera um, cada história com a sua carga emotiva [imagem retirada do sítio cinemasmag.com].

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Há um fundo de ruralidade, de pré-modernidade e de mistura de culturas. Explicando melhor: a história desenrola-se num ambiente fora de um grande centro urbano (a paisagem, a referência a uma ida e volta a Paris num só dia), a profissão é artesanal e Mme Mélikian é de origem arménia. vermeer_la-dentelliere.jpgTrata-se pois da França profunda; daí que não se note a "dimensão política das relações de trabalho, mas [...] uma anulação da conflitualidade", como observa Mário Jorge Torres, na sua crítica de anteontem no caderno "Y" do Público. O mesmo crítico chama a atenção para alguma semelhança entre o filme e o quadro de Vermeer (La Dentellière, de 1670) [imagem retirada do sítio Aux aRtistes peinTres].

Na verdade, nunca há uma queixa, uma crítica à situação narrada no filme, mas uma aceitação - diria, sabedoria - do que vai acontecendo. O bordar, leio na crítica de Vasco Baptista Marques, no caderno "Actual" do Expresso de ontem, acaba por ser "uma metáfora do processo de reparação das almas ou, segundo as palavras da própria realizadora, um «diário íntimo» que «exprime aquilo que habita as personagens»".

sábado, 9 de abril de 2005

O BLOGUE ENGANOU-SE

No passado dia 2, coloquei um post sobre a guerra das cervejeiras: Sagres versus Super Bock. E atribui a esta segunda marca o anúncio No dia 6, com qual das duas é que vai jantar? Afinal, a publicidade pertence à Sagres. As minhas desculpas.

Nota acrescentada no dia 10, pelas 22:15

O eixo central da campanha da cerveja Bohemia da Sagres assemelha-se ao da Super Bock. Esta fala em alma gémea - a ligação do que bebe à cerveja que é bebida? A ideia da Sagres começa com a apresentação de duas estrelas da novela do horário nobre da SIC, que, embora distintas - uma loura e uma morena -, podem remeter para uma duplicidade ou mesmo um lado de gémeo.

Além disso, a saída simultânea das duas campanhas provavelmente não surtiu efeito, dada a aproximação temática. Com a desvantagem do teaser da campanha da Sagres, obrigando a um esforço de memorização.

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LEITURAS E CITAÇÕES

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De Maria Filomena Mónica: "Aqui, o seu [de Frank Furedi, autor do livro Where have all the intellectuals gone?] objectivo é o de questionar o postulado que pressupõe serem as audiências elevadas [da televisão] incompatíveis com a excelência. A retórica declara que aquilo que se está «a dar ao povo é o que ele gosta» tem como base a crença de que as massas populares são intrinsecamente estúpidas e, portanto, incapazes de seguir um raciocínio complexo ou de admirar uma obra de arte. Uma tendência paralela é o endeusamento da Internet como transmissora da cultura, tema retomado, entre nós, na recente campanha eleitoral, sob a designação do «choque tecnológico», proposto pelo PS. Num país de analfabetos, o computador transformou-se numa varinha mágica capaz de transformar um bronco num génio. Por outro lado, a profusão recente dos blogues poder dar a ilusão de que existe uma maior democratização da opinião pública. Nada é menos verdade: a maioria dos blogues são versões modernizadas do que dantes se escrevia nas paredes das casas de banho. Os jornais, as rádios e as televisões continuam seguros nas mãos de quem tem dinheiro" (Público, caderno "Mil folhas", 9 de Abril).

De João Lopes: "podemos lamentar a falta de educação dos leitores, especular sobre a discutível eficácia dos serviços de limpeza do metropolitano ou ainda lembrar que não é legítimo avaliar as qualidades jornalísticas de um produto através da sua regular transformação em lixo [a propósito dos jornais gratuitos deixados no chão das carruagens e estações do metropolitano]. Tudo isso é verdadeiro. Mas também insuficiente. Isto porque, face à desoladora paisagem dos papéis abandonados, emerge uma pergunta menos cómoda, porventura mais urgente. A saber: que conceito de jornalismo anda, literalmente, pelo chão da nossa cidade?" (Diário de Notícias, 9 de Abril).

sexta-feira, 8 de abril de 2005

PRODUCT PLACEMENT: UMA FONTE DE RECEITAS

É o tema principal da secção "Marketing&Marcas" do Diário Económico de hoje, com peças assinadas por Marta Diniz de Araújo e Raquel Correia.

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O que é o product placement? Trata-se de "uma técnica de marketing que as marcas usam para a sua própria promoção, aparecendo em séries de ficção, programas ou reality-shows", lê-se no jornal. Para ser mais simples, basta lembrar - acrescento eu - as conferências de imprensa de treinadores e jogadores de futebol. Aparecem sempre com um e o mesmo boné, publicitando uma determinada marca.

Na principal peça dedicada ao tema de hoje do Diário Económico, escreve-se que as razões do crescimento da técnica de marketing se prendem "com os avanços tecnológicos, a fragmentação da audiência e a crescente fama de meios como a internet e os jogos vídeo". Mas, na televisão, a principal razão do product placement é a compensação do zapping por altura dos intervalos para publicidade. O telespectador não tem, assim, a mesma facilidade de mudar de canal enquanto dura o período de publicidade.

Marta Diniz de Araújo e Raquel Correia falam de programas como Gato fedorento, Quinta das celebridades (TVI) e Querido, mudei a casa (SIC Mulher) como alguns onde o product placement é mais visível. Para a produção do primeiro dos programas acima identificados, foi graças a essa técnica que o programa teve condições financeiras para "ir para o ar". Uma das empresas que aposta no product placement investe na ficção, em pivots de canais televisivos e em figuras públicas. As áreas que mais apostam nesta técnica, continua a ler-se no Diário Económico, são as dos telemóveis, bebidas, roupas, automóveis e alimentação.

Também no cinema, o product placement é empregue. O documentário Farhenheit 9/11, por exemplo, contém referências a 54 marcas. Para a Brandchannel, os documentários têm a particularidade de reflectirem a realidade, “e a realidade é que vivemos num mundo cheio de marcas”, conclui uma das peças do jornal económico.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

NEWSLETTERS

Embora de modo não regular, tenho acompanhado a proliferação de newsletters electrónicas que falam sobre Lisboa e a sua cultura em termos de indústrias criativas (e em que identifico como tendo sido meus alunos alguns dos seus membros). Uma delas é a Rua de Baixo, com Hugo Pinheiro como jornalista, e que já destaquei aqui a produção dessa newsletter.

Mais recentemente descobri (ou foi-me dado a descobrir) a Plasticina, com Gonçalo Caldas (gestor de projecto, editor de áudio e chauffeur de praça) e Marta Frade (relações públicas e chefe de cozinha), entre outros. Como ideia, "O projecto plasticina surge como um desafio académico, mas desde logo pensado como algo a dar continuidade fora do âmbito universitário. Os objectivos passam pela criação de um espaço onde novos projectos artísticos possam ser divulgados, aproveitando as capacidades actuais do multimedia on-line para possibilitar uma outra forma de acesso à arte".

Fotografia, design gráfico e desenho incluem-se nas artes que fazem parte do seu portfólio. Mas também a joalharia, caso de Filipa Rodrigues, que usa "materiais nobres e materiais alternativos, como a borracha, o vidro, o plástico" [nas duas imagens vêem-se duas criações da jovem artista, que frequenta presentemente o curso de Design de Moda da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa]. As suas peças são "ajustáveis a todos os dedos (no caso dos anéis) e, como peças articuláveis que são, as pessoas que as usam podem usar a imaginação e alterar a sua forma original".

Observação 1: a newsletter Plasticina tem um conjunto de links para outras newsletters, o que permite acompanhar o movimento e estudar que áreas das indústrias criativas estão a ser mostradas.

Observação 2: não conheço a estrutura destas newsletters, para além do nome dos colaboradores inseridos na ficha técnica. Não sei o seu suporte económico nem a inserção em movimentos mais vastos. O ideal seria passarem de espaços experimentais e de entidades sem fins lucrativos para organizações vivendo de publicidade e de actividades próprias, gerando riqueza e emprego. Utopia?
NÓS, OS MEDIA - DE DAN GILLMOR

O livro Nós, os media saiu, em Portugal, já este ano. Li, creio, que foi a primeira tradução a partir do original de Gillmor, dado à estampa nos Estados Unidos o ano passado. Curiosamente, a sua leitura despertou-me a lembrança de outros dois, que tinha cá em casa e resolvi fazer uma cópia da capa.

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O primeiro, de Alvin Toffler, Choque do futuro, lançado nos Estados Unidos em 1970 e publicado em Portugal pelos Livros do Brasil (sem data), impressionara-me pela quantidade de dados coligidos na obra. Descobri depois que ele tinha uma batalhão de colaboradores. Li, pela primeira vez, ideias fundamentadas em torno da mudança, transitoriedade, novidade e velocidade. Impressionei-me com a necessidade do indivíduo estar preparado para mudar de profissão ao longo da sua vida activa, como forma de combater as alterações empresariais e do mercado em si. Aquilo que, quando li, me parecia algo estranho, hoje qualquer pessoa o pode constatar.

Um elemento comum a este e ao livro de Howard Rheingold - para além de uma profunda reflexão sobre as tecnologias da comunicação - é o optimismo com que escreveram os seus trabalhos. A comunidade virtual, de 1993, entre nós editada pela Gradiva, numa colecção soberba, em 1996, fala de mudanças já do plano material ou físico para o das redes virtuais. O que outro autor, agora mais na moda - Manuel Castells -, nos tem mostrado com outra ênfase social. Em Rheingold, aprendi a formação das comunidades assentes em redes da internet, com amizades e parcerias de longa duração, e que os almoços e jantares recentes com blogueiros eu posso confirmar.

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Gillmor traz também a marca de optimismo no seu texto. Se Toffler vinha de um domínio mais identificado com a economia e a antropologia e Rheingold da comunidade das ciências exactas, Gillmor apresenta-se como jornalista. Há, em todos os textos, um determinismo tecnológico que dá pouco espaço à compreensão da apropriação social e cultural das tecnologias por parte de quem as usa - como se encontra em Marshall McLuhan. Visível é quando Gillmor se refere às ferramentas de criação (música, vídeo digital) (p. 164), sem olhar para as relações no mercado laboral. Também comum aos três é a capacidade de contarem histórias com exemplos práticos e um esquema de quase suspense, o que não acontece com os autores franceses, mais lógicos ou cartesianos. Mas, nestes, somos capazes rapidamente de extrair uma síntese. Com os autores americanos isso custa-nos mais. Há também um esforço pedagógico nos escritores americanos: eles captam a realidade quotidiana e dizem-nos como actuar perante uma situação determinada.

Código aberto e cidadania

Quando a tradução surgiu, o livro de Gillmor foi muito aplaudido pela comunidade da blogosfera. Vi, em vários blogues, a reprodução da capa, como o faço neste momento. Mas notei alguma displicência na sua análise. Talvez porque saudassem o seu aparecimento e o começassem a ler depois (eu também fiz referência ao livro num post anterior). Olhando agora o livro, sinto necessidade de o desconstruir. Confesso que não me encantou por aí além. Ele conta muita coisa, ensina umas dicas tecnológicas, mostra-se muito entusiasmado embora chame a atenção para alguns desvios (no caso da legislação e no controlo das empresas multinacionais), por vezes confunde blogosfera com jornalismo (mas observa que isso não é verdade: página 234, citando um colega). Sem ser demasiado severo para com Gillmor, a única vantagem que nele encontro relativamente ao texto de iniciação aos blogues de António Granado e Elizabete Barbosa (Weblogs. Diário de bordo, 2004) é a maior quantidade de exemplos práticos.

As últimas páginas são claras: para ele, o livro mostra como a "colisão do jornalismo e da tecnologia está a ter consequências para três grupos de indivíduos: jornalistas; aqueles que são objecto das notícias; público" (p. 228, também nas pp. 15-16) [imagem do autor retirada do seu blogue Dan Gillmor on Grassroots Journalism, Etc.]. Apesar das loas às novidades, Gilmor conclui que os media (os grandes media) ainda estão a precisar de ouvir, de mudar as estruturas verticais, o que se aplica também aos jornalistas. As ferramentas digitais ainda não estão bem aproveitadas pelos jornalistas, mas também pelos gestores e mesmo pelos políticos. Quanto ao "antigo público", como ele chama, tem de ser mais activo e interveniente. Aqui entram os conceitos de jornalismo de proximidade ou cívico e de código aberto, porventura os aspectos mais interessantes do seu livro.

O blogue situa-se num espaço entre o e-mail e a Web, escreve Gillmor (p. 45). Um blogue é postcêntrico (centra-se na unidade e no tempo) ao passo que a Web é página-cêntrica, em que a página é a marca estrutural. E o jornalista cita Jay Rosen, simultaneamente autor que reflecte a blogosfera mas também um arauto do jornalismo cívico, onde se apela ao uso, por parte dos cidadãos, de listas de e-mails, blogues, sistemas de gestão e assinaturas de acesso a conteúdos de outras pessoas para passarem informações úteis às comunidades (p. 42). Para Rosen, o blogue deriva da economia da troca, ao passo que o jornal tradicional é um produto da economia de mercado. Por outro lado, o jornalismo tornou-se um domínio de profissionais, enquanto os blogues são predominantemente amadores. E se até agora, acrescenta Gillmor, os blogues são usados a título individual, o futuro será dos blogues de grupo, a que a adição de som, vídeo e animação vai trazer muitos novos visitantes.

Há uma referência ao Linux e a muitas outras aplicações de software e sistemas operativos livres. Muitos dos utilizadores "contribuem com pedaços do que vai tornar-se um código padronizado. Em muitos casos, o software de código aberto é tão bom, ou melhor, que a variante comercial" (p. 35). Os blogues entram nesta caracterítica de código aberto, pois não estão sujeitos a hierarquias e imposições de controlo do que se faz e não pode fazer. Mas já anteriormente havia a disponibilidade de listas de correio electrónico e de salas de conversação, abertas à intervenção pessoal.

Há recados para a comunidade jornalística, quando Gillmor escreve sobre os riscos da criação de blogues por parte de jornalistas que se querem libertar das suas empresas que os inibem quanto ao tratamento de certos temas (pp. 123-124). Dando o nome ou actuando sob anonimato, há o perigo de despedimento ou de perda de funções. A explicação é que "os interesses individuais exteriores ao jornal não podem entrar em conflito com [...] os deveres profissionais" (p. 124).

Como penúltima referência nesta rapidíssima passagem pelo livro de Dan Gillmor, acrescento que as suas observações colocam-se para além do universo dos jornalistas e alocam áreas como a governação, o marketing, as relações públicas, as empresas e o público. A esperança dele conflui no desejo de um melhor e mais rápido e eficaz jornalismo, capaz de tornar cada um de nós para além do consumidor: o cidadão atento.

Finalmente, um dos tópicos eleitos pelo experimentado jornalista é o dos direitos de autor (copyright). Uma parcela do livro foi publicada na internet como forma de recolher críticas e sugestões. Daí, Gillmor falar em autoria com alguns direitos reservados (p. 230), expirando os direitos de autor ao fim de 14 anos. Contudo, a edição em português traz a indicação "Todos os direitos reservados". Em que ficamos?

quarta-feira, 6 de abril de 2005

AUDIÊNCIAS

1) Televisão

Em Março, segundo a Marktest Audimetria/MediaMonitor, a SIC obteve 29,0% de share de audiência, a TVI 27,6%, a RTP1 24,5% , a 2: 4,8% e o vídeo e outros canais 14,0%. O gráfico da evolução mensal do share de audiência, mostra uma tendência de aproximação entre SIC, TVI e RTP1 - quatro pontos e meio separam a RTP1 do canal com maior share em Março.

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AudTv-S.JPGNos programas mais vistos no mês que terminou recentemente, o futebol liderou, com a presença de oito jogos nos principais 15 programas mais vistos. O top registou ainda a presença dos dois programas de humor, dois programas de informação e de duas emissões do reality show da TVI, Quinta das celebridades II. A presença da novela da SIC, A senhora do destino, completa a lista dos 15 programas com mais audiência em Março. Esta obteve, no dia 30, 18,9% de audiência média e 49,2% de share de audiência.

Na lista dos 15 programas mais vistos em Março, sete foram exibidos pela TVI, seis passaram na RTP1 e os restantes dois foram exibidos na SIC.

2) Cinema

Conforme o sítio do ICAM, a semana de 17 a 23 de Março teve a seguinte assistência, em termos de espectadores, às salas de cinema: 1) The ring 2 - o aviso (de Hideo Nakata), com 64102 espectadores, 2) Hitch - a cura para o homem comum (de Andy Tenant), com 54358, 3) Robôs (de Chris Wedge), com 34677, 4) Million dollar baby (de Clint Eastwood), com 29373 [alcançando já um total de 212302 espectadores], e 5) Constantine (de Francis Lawrence), com 18948 espectadores. O filme português Um tiro no escuro, de Leonel Vieira, vem em 10º lugar, com 9144 espectadores.

Dos cinco primeiros filmes, dois são distribuidos pela Lusomundo, dois pela Columbia e um pela CLMC - Multimedia.
A SENHORA DO DESTINO

joanapinto1.jpgJá aqui tenho escrito sobre a novela brasileira âncora da SIC, A senhora do destino. Foi também o assunto escolhido pela aluna Joana Pinto, no módulo do mestrado de Media, Públicos e Audiências. Para além de uma componente teórica, ela observou os dados da audiência da novela nos dias 14 e 15 de Fevereiro último (valores fornecidos pela SIC).

Conclusões

1) apesar da campanha eleitoral (legislativas) então em curso, os níveis de audiência da novela mantiveram-se elevados. Às 23:06 de 14 de Fevereiro, a SIC atingia 41,9% de share, contra 3,5% da 2: (entrevista a Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda), 16,4% da RTP1 (ficção histórica falada em português) e 24,6% da TVI (telenovela Mistura fina).

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2) durante o intervalo da telenovela da SIC, uma pequena parcela da audiência deslocou-se para a TVI (33,6% para 35,1% às 22:42 do dia 14). Seis minutos depois, quando ambos os canais estavam em intervalo, a SIC continuava na frente (33,5% contra 26,3%). Aliás, a preponderância seria mantida em grande parte do prime-time, entre as 22:21 e as 23:15.

3) quanto ao target, embora a RTP esteja bem implantada no norte do país, em especial no Porto, o que dificulta a penetração da SIC, a novela brasileira teve, no dia 14, uma maior audiência no Porto (43,5%) que em Lisboa (37,3%). Usando valores da audiência média, grande parte da audiência pertence à classe baixa D (18,1%) quando comparada com a classe média alta AB (10,8%). Há uma maioria feminina (15,4%) face ao público masculino (10,9%). Em termos de faixa etária, a audiência privilegiada (22,1%) situa-se entre os 55 e os 64 anos. As donas de casa são o grupo-alvo (16,2%) quando comparadas com as não donas de casa (11,5%).

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4) no dia 15 de Fevereiro, a SIC partiu em desvantagem (26,8%). Na RTP1 decorria um debate político, com 38,9%. A SIC diminuiria a diferença às 22:23 (31,8%) comparada com os 36,5% da RTP1. Minutos depois, às 22:50, quando termina o noticiário da televisão pública, a SIC chega aos 41,6% de share, ainda que a RTP1 tenha iniciado um desafio de futebol. Às 23:13, A senhora do destino somava 44,9% de share.

5) através dos snapshots, concluiu-se que a atenção dos telespectadores foi maior durante cenas dedicadas a Maria do Carmo, à sua procura pessoal para encontrar a filha raptada, ao seu núcleo familiar e à vilã da história (Nazaré). Também chamam a atenção dos telespectadores as acções de violência doméstica e cenas com cariz sexual.