sexta-feira, 20 de maio de 2005

COMUNICAÇÃO SOCIAL NOS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Encerrou ontem um curso de comunicação social para jornalistas oriundos de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe, num total de 20 formandos (organizado pela Gulbenkian e pela Universidade Católica). Nessa sessão final, jornalistas representantes dos cinco países deixaram-nos um retrato da realidade da comunicação social que neles existe.



Em Angola trabalham cerca de 1500 profissionais, 75% dos quais pertencem a media do Estado. O meio mais importante é a rádio nacional. A partir de 1991, surgiram também rádios privadas, a maior das quais é a Ecclesia (que já existia antes da independência de Angola). Dos meios escritos, o Jornal de Angola tira de 20 a 25 mil exemplares diários, número reduzido que se explica devido ao preço elevado dos jornais face ao poder médio de compra. O país tem uma agência de notícias. Neste momento, está em discussão a lei da imprensa, existindo já a comissão de emissão da carteira profissional. Alguns dos constrangimentos dos jornalistas e do jornalismo naquele país da África Ocidental são: 50% dos profissionais não tem habilitações académicas adequadas, há salários baixos e condições de trabalho precárias.

Em Moçambique, a lei da imprensa data de 1991, a qual permite a livre criação de media e garante o direito à liberdade de expressão. Há uma estação pública de televisão e uma de rádio - esta emitindo em português e em 19 línguas regionais para uma população de 18 milhões de habitantes -, 65 rádios comunitárias e duas estações privadas de televisão, dois jornais diários e semanários (impressos ou distribuídos por correio electrónico ou fax).

Já em Cabo Verde, o Estado é o maior empregador da comunicação social, incluindo rádio, televisão, agência noticiosa e o jornal Horizonte. Dos meios escritos privados, existem A Semana e o Expresso das Ilhas, bem como um jornal ligado à cultura, o Artiletras, que se publica há 14 anos. No passado dia 17 de Maio, foram passadas duas licenças para televisão por cabo, uma delas formada apenas com capitais chineses. Cabo Verde está a apostar nos media digitais, em especial para atingir a diáspora (cerca de um milhão de pessoas, a maioria a viver nos Estados Unidos, para 400 mil habitantes que vivem nas ilhas do país).

Quanto ao panorama da Guiné-Bissau, a viver um momento de grandes dificuldades políticas e económicas, há cinco estações de rádio, sendo quatro privadas, a emitirem de Bissau. Como em Moçambique, o país regista um fenómeno de crescimento de rádios comunitárias, ou locais,que permitem dar informação e música que não chega dos emissores irradiando da capital. No momento, está em estudo um processo de reestruturação dos media do Estado. Finalmente, S. Tomé e Príncipe tem rádio e televisão do Estado e um jornal estatal e seis privados, mas nenhum é diário.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

CIDADE CRIATIVA (II)

[continuação da mensagem de ontem]

O objectivo do trabalho da turma foi olhar este conceito (cidade criativa) e aplicá-lo a: 1) Lisboa, como constituída por bairros criativos, que dinamizam o espaço urbano e o tornam interessante, atractivo, competitivo e educador, e 2) com objectivos e resultados económicos.

O terceiro conceito – cadeia de valor – aplica-se às indústrias culturais (media, actividades de reprodutibilidade técnica como o cinema ou a indústria discográfica). Na cadeia de valor, uma empresa ocupa uma posição face a fornecedores, a montante, e a clientes, a jusante. No cinema, por exemplo, a cadeia de valor decompõe-se em: 1) pré-produção, 2) produção, 3) pós-produção, 4) gestão do catálogo/gestão de activos, 5) agregação, marketing e distribuição, 6) entrega e exibição.

Trabalhos da turma

Delinearam-se, a partir de um objectivo comum e baseado em conceitos mencionados, trabalhos individuais. Estudaram-se: 1) espaços maiores, tipo bairro criativo, 2) instituições de grande dimensão, e 3) entidades pequenas, no sentido de ver as correlações entre elas. Dos trabalhos das(os) alunas(os), escolhi quatro exemplos: 1) Bairro Alto (Raquel Leal), 2) Culturgest (Soraia Bragança), 3) Zona ribeirinha (Pedro Correia), 4) Danças na cidade (Joana Pinto).

a) Bairro Alto. No Bairro Alto, as indústrias criativas mais notórias são a publicidade e as actividades gráficas. Detecta-se uma interdependência entre elas. Incluem-se ainda as artes e ofícios, moda, exposição e comercialização de arte, ensino das técnicas e artes teatrais, ensino da música, práticas de expressões corporais como dança, ioga, tatuagem e piercing, design e comercialização de diferentes produtos considerados alternativos como discos de vinil ou comida vegetariana. Há a pretensão de captar públicos, expor, vender e promover(-se). O que é diferente e alternativo atrai tipos determinados de públicos (estudantes, turistas). Assim, estabelece-se no bairro uma comunicação implícita de excentricidade e de diferença, para além da marca cosmopolita e internacional.

b) Zona ribeirinha de Lisboa. Uma cidade criativa tem estrutura económica, comunidade social, ambiente projectado e ambiente natural. Na cidade, distinguem-se: centro, outras zonas residenciais, subúrbios residenciais, subúrbios industriais e residenciais, periferia. No caso estudado, olhou-se para a zona central perto do centro de Lisboa – zona ribeirinha do Tejo. Lá reúnem-se escolas ou universidades de ensino técnico e/ou artístico (IADE, joalharia, design), locais museológicos de elevado nível (museus, Jerónimos), centros de exposições e congressos (CCB), livrarias, lojas, bares e restaurantes.

[continua]
BEBIDAS REFRESCANTES

Agora que o tempo quente se anuncia [para hoje prevêem-se 28º para Lisboa, 34º para Beja], as marcas de águas e refrigerantes publicitam os seus produtos. Múltiplas combinações são feitas: os homens de marketing sabem que os gostos se alteram e toda a gente quer experimentar novas sensações. Daí as águas com gás surgirem com sabores. Tinha sido a Castelo, agora é a Vidago - com sabor a maracujá. A Caramulo, na linha de água lisa, dirige-se a cada género: revitalizar para o homem, hidratar para a mulher. E o Ice Tea pode mudar com magia.

Recordemos as campanhas ainda muito recentes num outro segmento de bebidas: as cervejas, com Sagres e Super-Bock a rivalizarem a atenção dos consumidores com novos lançamentos.






Boa Sorting

Era para ser, mas o Sporting não teve a força de se manter na segunda parte do desafio igual ao primeiro período. Ficou o esforço e uma campanha da Carlsberg, para recordar.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

CONFERÊNCIA DE PEDRO TAMEN

Traduzir Proust Em busca do tempo perdido. É o título da conferência a proferir por Pedro Tamen na Universidade Católica, Faculdade de Ciências Humanas (área científica de línguas e literaturas), no próximo dia 24 de Maio, pelas 17:00.

Nascido em Lisboa em 1934, Tamen foi administrador da Fundação Calouste Gulbenkian (pelouro de Belas Artes). No seu currículo, conta-se o de director da editora Moraes, responsável pela colecção Círculo de Poesia e editor da revista O Tempo e o Modo, dirigente da Associação Portuguesa de Escritores (1973-1975) e presidente do Pen Clube (1987-1990). Escritor, poeta e tradutor, como o mais recente Proust, agora em conferência.

Por compromisso assumido anteriormente, o blogueiro não estará presente para ouvir (conto participar, nesse dia, nas Primeiras Jornadas da Licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto). Aconselho, contudo, a conferência.
DEMOCRATIZAR A COMUNICAÇÃO COM OS NOVOS MEDIA

Beth Saad, professora da Universidade de S. Paulo, deixou um comentário à mesa Como Democratizar a comunicação nas novas mídias (internet e inclusão digital), em que participou e liderou no III Seminário Internacional Latino Americano de Pesquisa em Comunicação na ECA-USP, conforme se lê no blogue Intermezzo. Recomendo a leitura total do post, colocado ontem, mas tomo a liberdade de citar dois pontos:

"4. As novas mídias, e a internet em especial, elevaram a informação, graças às diferentes tecnologias a ela inerentes, como um bem público global, com características de renovação contínua por conta da instanteneidade da rede. Portanto, uma preocupação fundamental é garantir à população, de forma igual e homogênea o acesso a esse bem público global.

"5. Um dos principais valores associados à mídia digital é a possibilidade de trocas e interações coletivas. Um valor que, sem bem explorado, possui elevado grau de democracia em seu contexto. Tais valores, atualmente não são explorados pelas diferentes esferas sociais na grande rede, permanecendo vigentes modelos informativos comunicacionais verticalizados e mediados por filtros editoriais diversos. Portanto, mais uma tarefa pendente herdada da NOMIC: a reconfiguração dos modelos de informação e de participação das diferentes vozes".

Retiro três ideias fundamentais: rede, interacção colectiva e reconfiguração dos modelos de informação. A seguir com atenção estas perspectivas.
O QUE SE PROCURA NO GOOGLE?

Não sei se alguém está a estudar o que se procura no Google. Dou a minha experiência. Nos dias 7 e 10 deste mês escrevi sobre uma bióloga/stripper/escritora, Leonor Sousa. Na lista dos assuntos mais procurados no blogue I. C. encontra-se precisamente essa nova figura pública (?): sétimo e oitavo lugares. Caso para escrever: entrada directa no top ten.

Pergunta minha: o que se procura no Google? Aquilo de que se fala e escreve nos media? Trata-se de uma circulação e reforço do que se edita? Será que os media são mesmo muito poderosos e delimitam o nosso modo de pensar e agir?
LEITURAS DE HOJE

1) Público. Título: Media americanos resistem à agressividade dos blogues, p. 43 [página não identificada no topo do jornal]. Do começo do texto extraio: "Os blogues são uma poderosa nova força no panorama político dos Estados Unidos da América, mas não destronaram os media tradicionais em termos de informação e influência. Esta é a principal conclusão de um estudo realizado pelo Pew Internet and American Life Project e pela empresa de consultadoria BuzzsMetrics divulgado anteontem". O texto é de Ellen Wulfhorst, da Reuters. Os jornais (responsáveis, jornalistas) andam mesmo receosos (ou irritados) com os blogues. Será porque é jornalismo digital? Ou porque são mais rápidos e implacáveis na observação dos factos e relações que se estabelecem com outros factos e conseguem informações de agentes mais móveis?

Mas há aqui um erro de análise: a esmagadora maioria dos blogues não são ligados ao jornalismo nem contribuem para uma maior discussão na esfera pública; são diários (de animadores de grupos, adolescentes, gente que quer ter uma pequena tribuna, coleccionadores de temas, mero passatempo) fornecidos, até agora, gratuitamente por empresas que apostam nas tecnologias digitais em busca de novos mercados e nichos de mercado (e são mais bem cotadas na bolsa porque são inovadoras e dinâmicas nos seus processos de trabalho). O jornalismo como o conhecemos existe há mais de dois séculos e passou anteriormente por vários suportes: papel, rádio, televisão. Os blogues ainda não existem como estruturas organizadas e podem ser, no campo do jornalismo, ferramentas complementares (jornalistas que escrevem nos media e também nos blogues).

2) Diário de Notícias. Título: A avalancha do DVD, p. 41. Autor: João Lopes. Escreve o crítico de cinema a propósito do festival de Cannes: "a verdadeira avalancha do DVD, com vendas em crescimento constante, está a transfigurar por completo o mundo dos filmes, desde as estratégias industriais até ao funcionamento dos mercados. Na prática, cada filme tende a render nos circuitos do DVD pelo menos tanto quanto nas salas (muitas vezes, mais)". E acrescenta à frente: "o DVD está a revolucionar os hábitos de consumo e, em paralelo, a reconstruir as memórias cinematográficas de todas as gerações".

Lembro o que Carla Martins e colegas escreveram em A cadeia de valor do audiovisual (2004: 58): "Após a exibição nas salas de cinema, abre-se um horizonte de exploração dos direitos do filme em várias janelas. A designada profit release window representa o ciclo de vida de um filme e traduz o processo cronológico de exploração potencial de receitas nos diversos segmentos". Os autores falam, noutro local do mesmo texto, das várias janelas: televisão, video-on-demand, pay-per-view, DVD. E Carla Martins e colegas (2004: 59) vão mais longe: "A indústria cinematográfica parece estar inclinada para condicionar a aprovação de projectos à previsão do sucesso que a obra poderá ter na comercialização em DVD, o que, em última análise, se repercutirá na predominância dos géneros preferidos por este público, mitigando-se assim a variedade da oferta das produções cinematográficas".

No blogue, já fiz alguma abordagem a esta questão. E ao que João Lopes escreveu quero acrescentar uma outra ideia: festivais como o de Cannes, onde se faz a apresentação de novos filmes, simultaneamente com todo o glamour aliado ao aspecto financeiro (revestido de elementos estéticos: quem ganha, que cotação em termos de audiência, aplausos e críticas), passam a ter outro espaço. É o das antiguidades, ou melhor, de filmes antigos em suporte moderno. Trata-se de mais uma fonte de receita, e que vai trazer, certamente, novos agentes, desde as idosas estrelas aos homens de marketing e às empresas de vídeo. Sem esquecer as grandes produtoras dos filmes actuais em concurso no festival: elas são as detentoras dos catálogos de filmes antigos e querem vender. O cinema em casa triunfa [nota: fui atraído para o texto de João Lopes pelo post quase madrugador de Manuel Pinto no seu Jornalismo e Comunicação].
PLASTICINA - NOVA NEWSLETTER

Para ver as novidades editadas ontem, clicar em Plasticina.

CIDADE CRIATIVA (I)

Na sala de aula (módulo Novas tecnologias e indústrias culturais do mestrado em Ciências da Comunicação, na UCP), trabalhámos conceitos como indústrias criativas, cidades criativas e cadeia de valor. Repito aqui algumas das ideias já publicadas no blogue. Agora, a ideia foi adoptar Lisboa como cidade criativa.

Para John Hartley (2005), as indústrias criativas representam a convergência conceptual e prática entre: 1) artes criativas (ou tradicionais, como a joalharia e a dança), 2) indústrias culturais (à escala de massa, como a fotografia, o cinema, a televisão ou a rádio), 3) com a importância das tecnologias electrónicas e digitais (comummente conhecidas por NTI). Por seu lado, a designação indústrias criativas teve aplicação oficial no Reino Unido, com o Creative Industries Mapping Document 1998 e o Creative Industries Mapping Document 2001, onde se chama a atenção para: 1) importância do conjunto de indústrias criativas na constituição do PIB do país, 2) revitalização de cidades e regiões (umas porque saíram das indústrias pesadas, outras porque nunca desenvolveram uma base fabril forte).

No segundo destes documentos, definem-se indústrias criativas como as “indústrias que têm a sua origem na criatividade individual, capacidades e talento e com um potencial para criação de riqueza e de empregos através da gestão e exploração da propriedade intelectual”. Assim, as indústrias criativas remetem para actividades como: publicidade, design, design de moda, cinema e vídeo, televisão e rádio, música, edição software interactivo de lazer, arquitectura, mercados de arte e antiquários, artes performativas. As indústrias criativas: 1) contribuem para gerar riqueza e oportunidades de emprego, inclusão social e estratégias de regeneração, 2) articulam clusters criativos, em que o comércio electrónico e a internet têm um impacto significativo, 3) promovem parcerias e exportação (ou turismo).

O segundo conceito – cidade criativa – retirámo-lo de Jinna Tay (2005: 220): “espaços onde queremos estar, locais para serem vistos. As suas lojas, restaurantes e bares são as manifestações mais superficiais de um ambiente criativo”. Continua Jinna Tay (2005: 220) – “Para além destas «cenas», as cidades criativas também possuem várias características: a existência de um sector de artes e cultura vibrante; a capacidade de gerar empregos e lucros nos serviços e indústrias culturais; e as iniciativas políticas respeitantes à distribuição de recursos entre as procuras global e local”. Das cidades mundiais onde se pode aplicar este conceito, falámos de Bilbau (museu Guggenheim), Manchester (pólo de actividade televisiva complementar a Londres) e Vancouver (indústria de cinema complementar a Hollywood).

[continua]

terça-feira, 17 de maio de 2005

SECÇÃO DOS MEDIA NO JORNAL PÚBLICO

Na edição de hoje do Público, verifiquei o regresso de Elizabete Vilar à secção dos media do jornal. Se calhar ela já recomeçou a escrever há mais tempo e eu não reparei. De todo o modo, saúdo a jornalista! A secção estava a precisar de um reforço, como os jornalistas do desporto costumam dizer e escrever.
JORNADAS DE JORNALISMO E COMUNICAÇÃO NA UNIVERSIDADE DO PORTO

No próximo dia 24, vão decorrer as Primeiras Jornadas da Licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. O programa pode ser visto seguindo o link da jLJCC'05.

As jornadas começam às 09:00, com a presença do reitor da universidade e do director do curso, no salão nobre da faculdade de Direito do Porto. O ensino e investigação na assessoria de comunicação, comunicação multimedia e jornalismo em Portugal serão algumas das áreas em debate. O curso de Jornalismo e Ciências da Comunicação funciona na Praça Coronel Pacheco, 8, no Porto. Conto fazer uma resenha dos trabalhos do dia.
MSN ALARGA A SOCIEDADE EM REDE

Este era o título do trabalho de Filipe Morais (e Sónia Correia dos Santos) na edição de domingo do Diário de Notícias. Como não tive internet durante domingo e quase todo o dia de ontem (a avaria numa simples tomada fez "cair" o sinal), estou a recuperar hoje o atraso da leitura.

Retiro o comentário de Gustavo Cardoso, do ISCTE: "as pessoas que usam a internet comunicam mais, não há o isolamento que se pensa". Programas como o MSN só existem "porque há a necessidade de comunicar". E conclui pelo poder de "gerir a nossa «contactabilidade»".

Com um sentido pedagógico, dirigido a quem não conhece a matéria, o jornalista deixa ficar um pequeno glossário: emoticons (smiles que dão conta do estado de espírito de quem comunica), contactos (organizados ou não por grupos, cada conversa pode incluir vários contactos), nick (pseudónimo, que pode ser mudado conforme a disposição), updates (actualizações do programa, que se aconselha aos usuários) e webcam (câmara digital de filmar que comunica em tempo real).

segunda-feira, 16 de maio de 2005

SIMONE/MARLENE

Vi Simone de Oliveira a representar Marlene (Dietrich), no cinema Mundial (Lisboa), ao lado de Mafalda Drummond e Amélia Videira, com encenação e adaptação de Carlos Quintas.

É uma Marlene já cansada que a peça nos mostra, a recordar grandes êxitos do passado. Em que se entra pelo lado normalmente invisível: o da actriz/cantora no camarim, onde o carácter verdadeiro vem ao de cima. Por um lado, ela aparece volúvel ao jornalista que a entrevista; por outro, revela o autoritarismo para quem está abaixo, como a velha empregada.

Na história, julgo ver algum paralelo entre a representada e a representante, não a personagem violenta mas a mulher que olha para trás e revê o passado, de grandes glórias. Pode dizer-se que a peça se reparte em duas: uma primeira parte em que Simone de Oliveira faz bem o papel de Marlene; uma segunda parte em que a sua voz, agora mais grave, lembra quer as canções do mito do cinema americano (mais que alemão) e também o percurso da própria Simone.

Ainda me recordo de ver Simone de Oliveira a cantar Desfolhada, com música de Nuno Nazareth Fernandes e letra: Ary dos Santos. O poema era denso e polémico: "Corpo de linho/lábios de mosto/meu corpo lindo/meu fogo posto.//Eira de milho/luar de Agosto/quem faz um filho/fá-lo por gosto.//É milho-rei/milho vermelho/cravo de carne/bago de amor/filho de um rei/que sendo velho/volta a nascer/quando há calor.//Minha palavra dita à luz do sol nascente/meu madrigal de madrugada/amor amor amor amor amor presente/em cada espiga desfolhada.//Minha raiz de pinho verde/meu céu azul tocando a serra/oh minha água e minha sede/oh mar ao sul da minha terra.//É trigo loiro/é além tejo/o meu país/neste momento/o sol o queima/o vento o beija/seara louca em movimento.//Minha palavra dita à luz do sol nascente/meu madrigal de madrugada/amor amor amor amor amor presente/em cada espiga desfolhada.//Olhos de amêndoa/cisterna escura/onde se alpendra/a desventura.//Moira escondida/moira encantada/lenda perdida/lenda encontrada.//Oh minha terra/minha aventura/casca de noz/desamparada.//Oh minha terra/minha lonjura/por mim perdida/por mim achada.

Nessa altura, havia um só canal de televisão, a RTP. O Festival da Canção provocaria um grande impacto a nível nacional. Simone era uma estrela da nossa música, então chamada ligeira. Não lhe faltava uma adversária nem romances com homens da rádio e da televisão; só ainda não havia as revistas cor-de-rosa. Mas o tempo passou e Simone manteve-se. Recordo-me de um ainda muito recente programa na Antena 1 ao fim-de-semana, onde se passava música portuguesa. E lembro-me também da sua luta contra uma doença, e pela coragem em assumi-la.

sábado, 14 de maio de 2005

MESA REDONDA SOBRE O FUTURO DOS MEDIA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Irá decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 19 de Maio, a partir das 14:30, uma mesa redonda sobre o futuro dos media em língua portuguesa, em especial nos países africanos.

Sabe-se que há desejos de implementar um jornal semanário no nosso país que expresse a realidade de Cabo Verde, havendo novidades possivelmente nos próximos meses. A comunidade daquele país em Portugal é forte e acentua-se o interesse quando o país africano mostra desejos de ingressar na União Europeia e adoptar o euro como moeda.

Apesar de eu não conhecer bem a realidade dos países africanos de língua comum à nossa, as notícias recentes dão conta da abertura de um canal de televisão privado em Angola e a expansão da rádio Eclésia (ligada à Igreja Católica) por todo esse país. Da realidade moçambicana, noticia o Público de hoje que se constituiu o primeiro grupo multimedia, o Soico, com um jornal, uma rádio e uma estação de televisão. Aqui, reproduzo dois exemplares de meios impressos, uma revista (Mais) e um meio policopiado (Diário de Notícias).



Quanto à Guiné-Bissau, está em curso um projecto apoiado pelo Banco Mundial de reformulação dos media do Estado, que apontam para sinergias entre os meios, formação de recursos humanos e implementação de medidas tecnológicas que dotem o país de infra-estruturas que tem sido abandonadas ou maltratadas devido à recente guerra civil.

Na mesa redonda anunciada para dia 19, haverá intervenção de profissionais dos media de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

UM BOM BLOGUE DE JORNALISMO

João Paulo Meneses, do Blogouve-se, está em excelente forma. É um blogue a ler diariamente. Já escrevi sobre ele, mas não me canso de o elogiar. Da dieta de posts, destaco os da última quarta-feira. Acutilantes! A não perder.
UMA ANÁLISE COMPARADA DE JORNAIS PORTUGUESES E BRASILEIROS

Jornais brasileiros e portugueses - análise comparada do processo de produção de notícias, eis o título da tese de mestrado defendida hoje por Juliana Iorio, na Universidade Católica. O objectivo principal do trabalho foi encontrar diferenças e apontar semelhanças no processo de produção de notícias em quatro jornais, dois de cada lado do Atlântico: Diário de Notícias e Público, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Ela trabalhou esse processo a partir de conceitos como produção (newsmaking), selecção de notícias (gatekeeping), definição de agenda ou pauta (agenda-setting) e enquadramento (framework).

Quanto a trabalho empírico, Juliana Iorio observou a reunião de redacção da manhã, onde os editores preparam o trabalho para esse dia, nos quatro jornais, em Lisboa e em São Paulo. Usou também um questionário dirigido a directores e editores e fez entrevistas em profundidade com os editores das secções de nacional e internacional, áreas onde se produzem normalmente as notícias sobre Portugal e Brasil.

Apesar de partir da hipótese que o processo de produção de notícias seria distinto nos dois países, dadas as diferenças culturais (e mesmo linguísticas) que ela nota entre o seu e o nosso país, concluiu que, afinal, os critérios de selecção e edição são semelhantes. Daí definir-se uma cultura jornalística universal.

O arguente da tese foi Pedro Jorge de Sousa, da Universidade Fernando Pessoa (Porto), que fez uma pertinente leitura do trabalho presente, assinalando pontos fortes e debilidades. A nova mestre mostrou a sua intenção de prosseguir o estudo no doutoramento.

Conferência

No dia 19, pelas 18:30, na Universidade Católica, sob o tema modernidade(s) e cruzamento de saberes. Conferencistas: Jorge Fazenda Lourenço, Carlos Morujão, Ana Paula Rias, Rita Figueiras e Isabel Vieira. Moderadora: Isabel Gil.
ESTÁ UM MONSTRO CÁ DENTRO

É o título do número de Abril de Os fazedores de letras, jornal da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas o monstro é uma banda desenhada com texto de Karl G. e desenho de Emanuel Moita.

Além de uma entrevista a Rita Carmo, licenciada em design de comunicação e com trabalhos de jornalismo fotográfico no Melody Maker (já desaparecido) e no Snoozer Magazine (Japão), bem como uma edição de livro (Altas luzes, 2003, Assírio & Alvim), e muitos outros trabalhos, a publicação Os fazedores de letras traz um texto sobre mestrados e doutoramentos na Universidade de Lisboa (UL). Escreve Mafalda Azevedo: "Por curiosidade, prestígio ou como resposta a uma exigência do mercado, as especializações tornaram-se escolha obrigatória para os licenciados".

Lê-se mais à frente: "Muitos são os anúncios de mestrados e doutoramentos que as oito faculdades da UL põem à disposição nos meios de comunicação social. Basta estar atento e apresentar uma candidatura às Comissões Científicas, composta por um certificado de habilitações e um projecto de estudo. Em seguida, numa entrevista, serão avaliados os interesses, capacidades na área escolhida, curriculum e experiência profissional do candidato". Em média, informa o mesmo texto, os cursos de mestrado têm um professor a orientar cerca de dez alunos e os de doutoramento um professor para quatro alunos. Durante os dois anos de mestrado, os seminários são dados por professores da própria faculdade ou por convidados.

Há uma grande variedade na oferta: só na Faculdade de Belas Artes da UL há seis cursos de mestrado e 11 áreas de doutoramento, de que fazem parte pintura, escultura e arte pública. O custo de um curso de mestrado ou doutoramento pode atingir €5 mil.
AS MINHAS LEITURAS DE HOJE

As peças escritas por José Manuel Fernandes (Público) e Mário Bettencourt Resendes (Diário de Notícias) merecem ser lidas e comentadas.

Registo aqui a parte final do director do Público, peça com o título "Esclarecimento necessário": "Tal como surge consagrado no nosso Livro de Estilo, perante uma situação desta gravidade decidimos tornar públicas quais foram as fontes que afirmaram uma coisa e fizeram outra e só estas". Isto a propósito da candidatura independente de José Sá Fernandes às eleições para a autarquia de Lisboa e o apoio do Bloco de Esquerda (BE). Há duas questões aqui: 1) o jornal perdeu a confiança na fonte de informação e esta já não acederá mais com a mesma credibilidade ao jornal (o que poderá equilibrar o acesso do partido ao jornal, pois costuma dizer-se que o BE acede aos media proporcionalmente mais do que a sua representatividade política); 2) apesar da razão estar do lado do director, pelo que se consegue ler, Fernandes usou um espaço não adequado, o do "Direito de resposta". Este é um espaço que, por regra, usam as fontes que sentem ter sido mal representadas numa notícia. Dada a identificação habitual da coluna Direito de resposta, parece que o director se assume como fonte desrespeitada.

Quanto ao texto de Resendes, acho que ele está a escrever melhor do que há alguns meses atrás, quando pressionado por questões estratégicas do grupo onde trabalha. A leitura que faz de Rupert Murdoch e da "política de preços inovadora e agressiva", além de outras medidas (polémicas; logo, criticáveis), merece ser discutida e analisada por quem estuda jornalismo. É um artigo a recortar e guardar.

Ian Curtis

Li de um sôfrego o texto de Nuno Galopim sobre os Joy Division, no DNMúsica. Ian Curtis nasceu em 1956 e desapareceu tragicamente em 1980. O sucesso dos Joy Division estava, então, na calha. Não resisti e puxei a velha máquina de gira-discos para fora do seu reduto a que lhe destinei e pus a rodar Still, um disco vinil prensado em Espanha. Tive tempo apenas para ouvir o lado A: "Exercise One", "Ice Age", "The sound of music", "Glass", etc. Já não ouvia há muito a banda, que gosto não sei por que encanto...

quinta-feira, 12 de maio de 2005

ELEMENTOS PARA A PRODUÇÃO DE UMA PUBLICAÇÃO

Conquanto sem objectivos científicos na elaboração deste post mas sim práticos, menciono algumas pistas para o êxito de uma publicação de nicho de mercado. Dada a diversidade e concorrência de publicações, aconselha-se a que se estude previamente o mercado. No caso das revistas de nicho de mercado, há uma vantagem: as empresas desse sector podem aí colocar a sua publicidade.

Dos conceitos chave para esse sucesso, consideram-se essenciais: 1) a distribuição (existem cerca de 6500 pontos de venda no país, incluindo supermercados, quiosques, tabacarias e estações de serviço/gasolineiras), 2) a obtenção da liderança no mercado, 3) uma identidade forte que motive o leitor a comprar e a tornar-se fiel, 4) perceber que apenas 25% dos leitores passam além do primeiro parágrafo, fixando-se, em sentido da maior para a menor atenção, nas infografias, legendas de fotografias, títulos, publicidade e texto, 5) a articulação dos elementos informar, entreter e surpreender, e 6) se não puder medir o impacto (financeiro) da revista, não a faça [na imagem, campanha da revista SaberViver, uma publicação destinada a um público-alvo específico].

Outros conselhos incluem: 1) aquisição dos direitos de textos publicados em revistas internacionais, pois ficam mais baratos do que "montar" uma publicação de raíz, 2) não ter mais de 30% do total da publicação em sobras, algumas das quais podem (se o seu conteúdo o possibilitar) ser "escoadas" para cabeleireiros, consultórios médicos e outros espaços públicos, 3) colocar os principais títulos à esquerda (de modo a facilitar a sua leitura nos quiosques, dada a colocação das revistas numa montra), 4) na estrutura de custos de uma publicação pequena, a produção tem valores muito altos, e 5) nos resultados deve haver uma repartição entre valores obtidos com as vendas e com a publicidade.
BORDA D'ÁGUA - IV

[continuação do post de ontem e conclusão]

Um olhar das ciências sociais sobre o tema do Borda d'Água

almanaque.jpgFaçamos agora a leitura de um livro que trabalhou o tema, embora focado no Brasil, dada a origem desse livro, organizado por Marlyse Meyer (2001) e que conta com vários contributos [a data que acompanha cada referência aponta para o livro de Meyer]. Nesse texto colectivo, Jean-François Botrel fala no almanaque como guia e semiologia do tempo. Por meio do calendário, com as fases da Lua para a agricultura ou pesca, ou as informações necessárias para a vida civil ou religiosa, mas também pelas interpretações dos signos do zodíaco, o almanaque testemunha as constantes interrogações humanas sobre o tempo da vida, antes que chegue o tempo da morte e das obrigações da vida em sociedade (2001: 17).

Já Jerusa Pires Ferreira (2001: 19) diz que o almanaque é uma conjugação de saberes, de jogos de inteligência, espaço em que ocorria um certo literário, sério ou solene, ou textos jocosos em linguagem caricata. A mesma autora (2001: 20) fala da sua grande circulação no campo da edição popular, trazendo uma ideia de modernidade, a conjugação do fragmentário mas cumprindo a função de: 1) conselheiro e guia, 2) explicação das relações cosmológicas e astrológicas.

Hoje ainda não lemos os horóscopos em jornais de referência, ou não seguimos com atenção os programas da Maya a astróloga das cartas e dos tarots, não seguimos avidamente os novos livros de Paulo Coelho? Pode dizer-se que o almanaque é uma espécie de literatura de cordel que atravessa os séculos, em que crendice e cultura urbana se misturam.

Para concluir, algumas questões: 1) a distribuição (venda na rua, cara-a-cara), 2) alguma pré-modernidade na cultura urbana (crenças populares, misticismo), 3) imaginário popular associado à nostalgia da terra e do campo, 4) leitura simples como se fosse a revista do Reader's Digest.

Leitura: Meyer, Marlyse (org.) (2001). Do almanak aos almanaques. São Paulo: Ateliê Editorial

quarta-feira, 11 de maio de 2005

ARTIGOS, REVISTAS E COLÓQUIOS

1) Hoje - o pensamento de Dan Gillmor a partir de uma leitura atenta de Daniela Bertocchi, no Observatório da Imprensa (Brasil).

2) Dia 14 de Maio - conferência Compreender o mercado europeu dos media, a partir das 9:00, na Escola Superior de Comunicação Social (a Benfica, em Lisboa). A organização pertence à EMMA (European Media Management Education Association). Entre outros, serão oradores Robert Picard (Un. Jonkonping), Marco Gambaro (Un. Milão), Peter Goodwin (Un. Westminster) e Mercedes Medina (Un. Navarra). O presidente da EMMA é Sánchez-Tabernero (Un. Navarra).

3) Dia 23 de Maio - mesa-redonda A religião nos media a propósito da mediatização da morte e da sucessão do Papa João Paulo II. A realizar nesse dia, pelas 18:00 no auditório Vítor de Sá (Universidade Lusófona, Av. do Campo Grande, 376). Com moderação de Helena Garrido (Universidade Lusófona) e participação de António Rego (director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja Católica), Dimas de Almeida (pastor protestante, Universidade Lusófona), Graça Franco (Rádio Renascença), José Augusto Mourão (Universidade Nova de Lisboa), José Pedro Castanheira (Expresso) e Miguel Gaspar (Diário de Notícias/Universidade de Coimbra). Comentários: Paulo Rosado Silva (aluno finalista da Universidade Lusófona) e Mário Mesquita (Universidade Lusófona/ESCS).

4) Dia 8 de Junho - lançamento do número duplo (5/6) da revista Caleidoscópio - Revista de Comunicação e Cultura (da Universidade Lusófona e dirigida por António Machuco Rosa). Nesse dia, pelas 18:30, no El Corte Inglés, Av. António Augusto de Aguiar, 21, 7º piso). O volume, organizado por Mário Mesquita, chama-se Territórios do jornalismo. A apresentação contará com Estrela Serrano (professora da ESCS), Mário de Carvalho (escritor) e Nicolau Santos (sub-director do Expresso).
AUDIÊNCIAS



Segundo a newsletter da MediaMonitor TV, editada ontem, dos cinco programas mais vistos na semana de 25 de Abril a 1 de Maio, três foram transmissões de desafios futebol e duas telenovelas. O noticiário da RTP aparece em 10º lugar.
TELAS NOS CENTROS COMERCIAIS E OUTROS LOCAIS PÚBLICOS

Já aqui critiquei a colocação das telas colocadas pela MCO (Media Capital Outdoors) nas estações de metro. Representam uma fonte de poluição, com pouco conteúdo - com notícias que já todos conhecemos e anúncios com uma frequência que nem na televisão por feixe hertziano (estará regulamentada a actividade?).

Hoje, volto à carga. A propósito do equivalente no Centro Comercial Vasco da Gama, em que os ecrãs são explorados pela SIC Indoors. São curtos noticiários com anúncios a meio, em modelo semelhante ao da MCO. Durante a hora de almoço de hoje, uma das notícias referia-se ao funeral do jornalista Jorge Perestrelo como se tivesse ocorrido de manhã. Sucede que o malogrado relatador da TSF foi a enterrar ontem. Houve distracção na distribuição de cassetes? Ou foi um problema de montagem?

Acrescento que o local da restauração do Vasco da Gama, como o dos centros comerciais em geral, é deprimente. Se a comida não presta - é uma opinião de gosto, admito que discutível -, há pouca iluminação e a recolha de tabuleiros usados é lenta, dando um aspecto de grande sujidade. A juntar, a pressão de um ruído (de imagem mais que som) das telas da SIC Indoors. Logo: o ambiente não é propício para se permanecer muito tempo.
O BLOGUEIRO ENGANOU-SE

No dia 7, a propósito de um post com imagens de mupis, referi uma participação errada de Isabel Figueira em programa de televisão. Um(a) leitor(a) emendou-me, com a seguinte mensagem:

"Professor. Estava a navegar e fui dar, ocasionalmente, ao seu blogue Indústrias Culturais. A Isabel Figueira não participou no Big Brother da TVI, mas sim no programa Acorrentados da SIC. O professor chumbou-me mas eu mereci".

Obrigado pela correcção. Prometo rever o caso do chumbo, se voltar a ser meu(minha) aluno(a)!
BORDA D'ÁGUA - III

[continuação do post de 10 de Maio]

Os Borda d'Água do séc. XX

Encontram-se, por exemplo, os editados por Joaquim José de Matos Júnior, que vai até 1971, pelo menos (as duas imagens seguintes mostram as capas das edições de 1958 e 1971, o primeiro editado pela Livraria Popular de Francisco Franco e o segundo pela Livraria Barateira), com a designação Almanaque Borda D'Água. O custo pouco oscilou entre 1958 (2$50) e 1971 (3$00). O editado pela Livraria Minerva, ainda existente em 2005, era editado por Manoel Rodrigues em 1955 (preço: 2$50), e intitulava-se O Verdadeiro Almanaque Borda D'Agua.

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A figura que aparecia na primeira imagem era muito semelhante nos dois Borda d'Água concorrentes: um homem de fraque e cartola, barrigudo, com lentes grossas nos óculos, apoiado por um chapéu de chuva ou bastão, cabelo comprido e nariz pontiagudo, o que certamente introduzia confusão nos leitores. A semelhança era ainda maior quando se olha a frase que acompanha o título: "Reportório útil a toda a gente".

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Fixemo-nos em O Verdadeiro Almanaque Borda D'Água. Se, na edição de 1955, aparece Manoel Rodrigues como editor, o seu nome desaparece na de 1960. Dois anos depois, surge com a informação de fundado em 1927 por Manoel Rodrigues. Já na de 1976, aparece com a indicação de Associação dos Deficientes das Forças Armadas (preço: 4$00), dado que desaparece no ano seguinte para tomar outra designação de editor em 1978: Minigráfica, cooperativa de artes gráficas (preço: 6$00). As alterações devem ler-se atendendo à mudança de regime político ocorrida em 1974. Muitas das empresas ficaram sem proprietários, pela pressão das mudanças sociais e políticas, formando-se associações de operários sob a forma de cooperativa. Neste número, a página 2, dedicada a um pequeno tema, debruçar-se-ia exactamente sobre o cooperativismo. O nome da cooperativa desaparece em 1991, embora mantendo-se desde sempre a identificação da Livraria Minerva e da sede: rua Luz Soriano, 31-33. Data ainda de 1991 a passagem de 16 para 20 páginas, número que aumentou para 24 em 2000.

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Como disse acima, a segunda página - a partir de 1977 - passou a ter uma informação particular. Nesse ano, o tema foi Tempo universal, sobre o meridiano de Greenwich. O de 1978, já referido, seria sobre cooperativismo e o de 1979 sobre a visibilidade dos planetas. Em 1980, a página passa a ter o curioso título À nossa e à vossa consideração, iniciando a publicação de curtas biografias de cientistas e religiosos populares, como o dr. Sousa Martins e os padres Cruz e Américo (este da obra "Casa do Gaiato", em Penafiel).

[continua]

terça-feira, 10 de maio de 2005

ESCRITA TATUADA

Era este o título da carta assinada por Carlos J . F. Sampaio editada na secção de cartas ao director do Público do passado dia 5.

Ora, o que diz a mensagem? O seguinte: "olá linda... estás mesmo muito muito gira na foto, nunca te tinha visto com o cabelo assim, fica-te muito bem (sorriso). Tu és mesmo muito fixe, és cinco estrelas... por isso é que eu... (gargalhada). É melhor não dizer mais nada... senão ainda me enterro (gargalhada) (mas tu sabes o que eu quero dizer (sorriso). Nunca mais é amanhã... (gargalhada), estou ansioso... o dia vai ser demais porque não vou ter nenhum teste (gargalhada) (e mais uma cena mas é melhor não dizer. (gargalhada). Fica bem... adoro-te beijitos ****".

No rasto da mensagem, deparei-me com o blogue Experiências, de Mª M., de Vila Real. Copio dois comentários depositados no blogue, a propósito da escrita tatuada (respeitada a ortografia). Um diz: "Sobre o texto: Alguém aqui lembra da «Liberdade de expressão» ? Ou do livre arbítrio? A linguagem nasce da pressa, da inconsequência, da liberdade, da audácia, aquelas que só os jóvens possuem! E que os adultos insistem em esquecer! Não reparem na forma que escrevem, mas no que escrevem, no que gritam nossos jóvens! Não há certos, nem errados, o que há é o resquicio de liberdade. Microsoft não é um Deus! O que nos falta é que além de nos monitorarem os hábitos ainda nos tolha a expressão!!! Publicado por ¥aÐeshKa - 7/5/2005 12:52". E o outro: Se isto se generaliza em viva voz, então será que vamos ter um novo dialecto em PT? Ficam os cotas ouvir «navios» jinhos" Publicado por GuardiaDeSonhos - 9/5/2005 22:57. Estes blogues funcionam no MSN spaces! A seguir com atenção: quais as redes estabelecidas? São semelhantes às da Blogger.com? O que oferecem a mais ou a menos que a Blogger?

O leitor do jornal escrevia que tal grafismo, retirado de um blogue de adolescentes, deriva de uma nova estenografia "desenvolvida para as mensagens de telemóvel e conversação na internet (chat)". Há alguém a estudar o fenómeno?
AINDA SOBRE LEONOR SOUSA

Relevo para o corpo principal do blogue um comentário que Luís Graça, do sítio Escrita Teatral, colocou a um post meu (de 7 de Maio) sobre Leonor Sousa, autora de um livro sobre a sua actividade de stripper: "Já li o livro Amanhã à mesma hora. Se o rótulo stripper garante à partida um êxito comercial (até porque a D. Quixote está a promover muito bem o livro), a entrada na Quinta das Celebridades vai promover o sucesso do livro e estigmatizar de forma irreversível Leonor Sousa. Pode garantir-lhe mais um livro de sucesso sobre a experiência na Quinta e descredibilizá-la enquanto escritora e licenciada em Biologia Marinha. E assim se troca um QI de 146 pelo vil metal e pela fama. É pena".

Obrigado pelo comentário!
BORDA D'ÁGUA - II

[continuação do post de 8 de Maio]

O Borda d'Água é um almanaque popular anual que fornece elementos religiosos (festas, cultos), eclipses, fases da lua, previsões do tempo e juízo do ano, lê-se na Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura (vol. 3, p. 1619).

Almanaque quer dizer livro ou tabela com o calendário dos dias, semanas e meses do ano, festas religiosas, fases da lua e outras indicações. Até à invenção da imprensa, os almanaques possuíam o carácter de tábuas astronómicas e foram ganhando uma feição literária, instrutiva, crítica e recreativa, e mesmo como arma ao serviço da política (Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol. 1, p. 1351). Segundo Marlyse Meyer (2001: 129) [a referência bibliográfica completa surge no último post sobre este tema], o almanaque (no caso de estudo um relacionado com farmácia) traduz-se em lazer e utilidade. Enquanto leitura popular, ensina adultos e crianças, num tom de brincadeira. Mas dá também uma dimensão mística do cristianismo. O lazer no almanaque é o jogo, o passatempo, a carta enigmática. Há a piada, a anedota.

seringador.jpgO primeiro Borda d'Água

O primeiro Borda d'Água que se conhece data de 1811, saido da Imprensa Régia, de Lisboa, com o longo título de Lunário, e Prognóstico Diário, que contém as prognosticações dos tempos por extenso, e as horas particulares de semear as fases da Lua, e mais Planetas, calculados para o meridiano do Porto neste ano de 1812, Bissexto. Obra utilíssima, segundo as regras Astronómicas, aos Lavradores, Pomareiros, Hortelãos, e Jardineiros, Pescadores e Caçadores, por seu autor, um astrónomo lusitano da Borda de Água. Tratava-se de um folheto com 16 páginas [imagem retirada da Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol. 1, p. 1352, Editorial Verbo, Lisboa, 1963].

Já a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 4, p. 911) revela autorias e outros Borda d'Água subsequentes. O almanaque de 1818 trazia o nome do autor: António de Sousa. Nesse mesmo ano, aparecia um Borda de Água impresso em Lisboa, figurando como seu autor Roberto da Silva Pinto. Já em 1823, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, saía Um maltez da Borda de Água - Beira, e em 1824, em Lisboa, com a indicação de Necessário a todos em geral e muito particularmente a Lavradores - por Pedro Vila Nova, Amigo e Companheiro do Verdadeiro Borda de Água. Isto significa que havia clientela para comprar todas estas publicações, espalhadas pelo país.

[continua]

segunda-feira, 9 de maio de 2005

CIRCULAÇÃO DE COMENTÁRIOS

No dia 6, coloquei um post sobre o aniversário de um blogue afamado em Portugal, a propósito das peças jornalísticas saídas nos jornais Público e Diário de Notícias. Hoje, o blogue Atrium, de Luís António Santos, faz um comentário ao meu post. Estou de acordo com as suas achegas.
BLOGUES GALEGOS

Aconselho uma visita a dois blogues galegos: Facendo amigos e A canción do náufrago.

Do primeiro retiro uma parcela de um post do dia 6: "Edicións Xerais prepara a edición de Portugalizar, un aprendedeiro de portugués específico para alumnos galegos. A profesora lusa da Facultade de Traducción de Vigo, Elisabete Ramos, reparou en que os manuais de portugués para hispanofalantes "eran ridículos" para os seus alumnos galegos". Do segundo, e do mesmo dia, extraio o seguinte: "En Vigo esta fin de semana hai un Taller de Regueifas para nenos na Biblioteca Central. Ben. Nos últimos tempos semella como que existe un certo interés en recuperar esta poesía oral de tipo popular. De feito, están a celebrarse, cunha certa regularidade, certames promovendo as regueifas e os desafíos. Viva, viva".

Para mim, esta rede começara há semanas com o blogue Brétemas. Muitas felicidades para a Galiza em geral e para Vigo em particular!