Fiquei a pensar na expressão de Jorge Silva Melo, o encenador de Jardim Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams, no Teatro da Politécnica, pelos Artistas Unidos: "Derrotados, sim, abandonados, sem hipótese, deixados para trás, com a electricidade cortada e contas por pagar, vencidos: mas estes são os invencíveis, esses sonhadores que Tennessee Williams cantou".
Da trilogia encenada por Jorge Silva Melo das obras de Tennessee Williams (Thomas Lanier Williams III, 1911-1983) - Gata em Telhado de Zinco Quente, Doce Pássaro da Juventude, Jardim Zoológico de Vidro -, esta parece mais intimista, talvez porque a sala que recebe a peça permite que o espectador esteja mais perto dos atores e entenda melhor o que dizem e o modo como o expressam. Mas há o mesmo universo das outras peças que decorrem no Missouri, com fazendeiros, homens de sucesso e de fracasso, embora a trama se urda no seio de uma só família, com a entrada de um forasteiro no final da peça.
Aqui, na cidade de S. Louis, o fracasso parece momentaneamente compensado pelo sonho: arranjar um pretendente para a filha que coxeia, incentivar o filho a ter um melhor emprego. Mas aquela, Laura (Vânia Rodrigues), tímida, refugia-se na coleção de peças de vidro representando animais e aquele, Tom (João Pedro Mamede), frequenta o cinema em busca de aventuras que a vida de empregado num armazém de calçado não tem. A única voz realista é a do jovem Jim O'Connor (José Mata), convidado para jantar e, possivelmente, apaixonar-se e casar com a rapariga daquele lar que parou no tempo em que o marido e pai se foi embora sem nunca mais dar sinal, a não ser um postal sem endereço. E tudo se esclarece quando a empresa de eletricidade desliga o fornecimento, por falta de pagamento.
Publicada em 1945, a peça seria o primeiro grande êxito do dramaturgo na Broadway. Tom reflete a personalidade do autor. O seu pai, vendedor de sapatos viajante, alcoólico e viciado em jogos de aposta, aparece na peça como empregado dos telefones de longa distância até um dia desaparecer. Para fugir ao mundo caseiro insuportável, Williams ter-se-ia refugiado no seu quarto pintado de branco e com miniaturas de animais de vidro. Talvez Laura se assemelhe à sua irmã, Rose, com sintomas de esquizofrenia desde jovem e submetida a uma lobotomia. A história da peça decorre na década de 1930, quando os Estados Unidos viviam os problemas da grande depressão financeira e os indivíduos por mais que lutassem quase sempre perdiam, desempregados, deserdados, escorraçados, arredados de tudo por uma estranha força do destino - o capitalismo.
Compreendo a frase de Jorge Silva Melo, quando fala de vencidos que são sonhadores invencíveis: a mãe Amanda (Isabel Muñoz Cardoso) tem uma grande persistência em enfrentar os problemas e inventa soluções para eles. Infelizmente, ela está desfasada da realidade e os resultados não são adequados.
Tradução de José Miguel Silva, cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, luz de Pedro Domingos, coordenação técnica de João Chicó, produção de João Meireles e assistência de encenação de António Simão. Fotografia de Jorge Gonçalves.
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
sábado, 30 de abril de 2016
sexta-feira, 29 de abril de 2016
O sonho de Ricardo Isidro, o médico da coxinha do Tide
Ricardo Isidro e Lily Santos Frias foram os célebres protagonistas dos folhetins Tide, da Rádio Graça, que, depois, vieram a ser conhecidos pelos folhetins da Coxinha. Ele encarnava a personagem de um médico, ela a de uma deficiente (coxeava). Propôs-se operá-la e torná-la uma pessoa normal. Mas apaixonou-se por ela. Após a morte da esposa do médico, este ficou livre e casou com a antiga coxinha. O enredo lento da história, no tocante à agonia de Raquel, a má da radionovela, exasperou as ouvintes do programa das 14:30. O rápido casamento e o nascimento de uma criança fizeram chegar à estação roupas para bebé, numa confusão entre ficção e realidade. O detergente patrocinador dos folhetins cessou a sua ligação à rádio em 1961, mas ficou marcada na cultura popular radiofónica essa relação, nomeadamente com a Rádio Graça.
Profissionalmente a trabalhar num escritório, Ricardo Isidro reaparecia no mundo da rádio em 1968 e confessava-se: estava perto dos cinquenta anos de idade sem conseguir realizar o seu sonho de sempre: viver de e para o teatro (Plateia, 21 de janeiro de 1969).
Profissionalmente a trabalhar num escritório, Ricardo Isidro reaparecia no mundo da rádio em 1968 e confessava-se: estava perto dos cinquenta anos de idade sem conseguir realizar o seu sonho de sempre: viver de e para o teatro (Plateia, 21 de janeiro de 1969).
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Ruy Castelar e Noite é Nossa
Noite é Nossa foi um programa das 3:00 às 6:00 em Rádio Clube Português de 1967 a 1975: "muitos ouvintes, que toda a noite trabalham nos mais diversos misteres, escolhem a nossa música e as nossas palavras como companhia para as suas labutas". Música do jazz ao ié-ié, da cançoneta romântica ao fado sentimental, lia-se na notícia (Plateia, 9 de abril de 1968).
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Teatro Aberto na gestão da EGEAC?
A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou hoje a passagem de alguns museus para a EGEAC (Empresa Municipal de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), leio na edição em linha do Diário de Notícias. A mesma notícia indica quais os museus que a EGEAC gere: Museu de Lisboa (núcleos Torreão Poente do Terreiro do Paço, Palácio Pimenta, Santo António, Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e Teatro Romano), Museu do Aljube, Museu Bordalo Pinheiro, Galeria da Mitra, Projeto Africa.Cont e dois edifícios situados no Largo de Santos e na Avenida Calouste Gulbenkian. A proposta passaria com os votos favoráveis do PS, Cidadãos por Lisboa (eleitos nas listas socialistas) e Parque das Nações por Nós (PNPN), a abstenção do BE, PSD e PAN e os votos contra do CDS-PP, MPT, PCP e PEV.No lote, aparece também o Teatro Aberto. No sítio deste teatro, continua a ler-se: "O Novo Grupo de Teatro – Teatro Aberto - foi fundado em 1982 por profissionais de teatro ligados aos primeiros grupos de teatro independente em Portugal. Foram seus fundadores, entre outros: João Lourenço, Irene Cruz, Francisco Pestana e Melim Teixeira".
Espero por mais notícias para confirmar ou não a informação.
terça-feira, 26 de abril de 2016
Teatro amador na empresa
Hoje, ao final da tarde, foi lançado o livro de Carmen Zita Monereo, A Empresa na Cultura. O Teatro Amador e a Criação de Novos Públicos da Cultura, na sala do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. A apresentação coube-me (ver abaixo ficheiro pdf), eu que orientara a sua dissertação de mestrado na Universidade Católica Portuguesa.
[imagens retiradas da página do Facebook de Pessoas@2020]
Após a apresentação do livro, seguiu- se o debate sobre As Artes no Desenvolvimento da Cultura Organizacional [da esquerda para a direita: Maria Duarte Bello, da Comissão Promotora do Pessoas@2020, moderadora, Natália Correia Guedes, presidente da Academia Nacional de Belas Artes, Carlos Pimenta, encenador e gestor cultural, Inês de Medeiros, vice-presidente da Fundação Inatel, e Nuno Barra, administrador do Grupo Vista Alegre-Atlantis, imagem minha].
[imagens retiradas da página do Facebook de Pessoas@2020]Após a apresentação do livro, seguiu- se o debate sobre As Artes no Desenvolvimento da Cultura Organizacional [da esquerda para a direita: Maria Duarte Bello, da Comissão Promotora do Pessoas@2020, moderadora, Natália Correia Guedes, presidente da Academia Nacional de Belas Artes, Carlos Pimenta, encenador e gestor cultural, Inês de Medeiros, vice-presidente da Fundação Inatel, e Nuno Barra, administrador do Grupo Vista Alegre-Atlantis, imagem minha].
Liberdade de expressão
Ontem, nas comemorações de 25 de abril de 1974, uma das ideias centrais dos discursos políticos foi liberdade de expressão. Mas a data não identifica apenas a formação de partidos ou movimentos políticos. O período foi cheio de surgimento de entidades, de associações de caçadores e de profissionais de golfe, associações de moradores e de pais em escolas secundárias, cooperativas culturais, de consumo e de habitação, editoras e livrarias a sindicatos, confissões religiosas (Testemunhas de Jeová, Baha'is, evangélicas), clubes físicos e espirituais orientais (judo, karaté, ioga) e associações artísticas.
A Associação Portuguesa de Evangelização (registo notarial de 5 de março de 1975) tinha no seu segundo artigo o objeto: "fomentar a proclamação do evangelho de Jesus Cristo, através da pregação pública, distribuição de literatura, emissões radiofónicas e televisionadas, exibição de filmes e outros meios". A Arco - Centro de Arte e Comunicação Visual (registo notarial de 27 de janeiro de 1975) propunha a "atividade de promoção, divulgação, experimentação e ensino das artes visuais, de desenho de equipamento e ambiente, das artes gráficas, comunicação visual e animação cultural, assim como das artes em geral, e ainda a prática de quaisquer outras manifestações culturais e de investigação". Se os estucadores formaram a Artistuque - cooperativa operária dos estucadores associados do Barreiro em registo notarial de 10 de dezembro de 1974, o Grupo Recreativo Zip-Zip da Fomega (freguesia da Caparica, concelho de Almada, registo notarial de 24 de março de 1975) tinha como objetivo "promover o recreio dos seus associados através de récitas, festas recreativas, saraus, bailes, jogos lícitos e teatro amador".
De repente, o mundo parecia em expansão total. Em que as indústrias culturais e criativas, a arte, a comunicação e o entretenimento brotavam energicamente. Chamo a atenção para pormenores não despiciendos - conceptual (grupo profissional operário do Barreiro promove uma cooperativa para elevar a sua atividade à categoria de arte) e legal (o termo lícito aplicado a jogos indica a existência de uma fronteira que o grupo recreativo de Almada quis traçar).
A Associação Portuguesa de Evangelização (registo notarial de 5 de março de 1975) tinha no seu segundo artigo o objeto: "fomentar a proclamação do evangelho de Jesus Cristo, através da pregação pública, distribuição de literatura, emissões radiofónicas e televisionadas, exibição de filmes e outros meios". A Arco - Centro de Arte e Comunicação Visual (registo notarial de 27 de janeiro de 1975) propunha a "atividade de promoção, divulgação, experimentação e ensino das artes visuais, de desenho de equipamento e ambiente, das artes gráficas, comunicação visual e animação cultural, assim como das artes em geral, e ainda a prática de quaisquer outras manifestações culturais e de investigação". Se os estucadores formaram a Artistuque - cooperativa operária dos estucadores associados do Barreiro em registo notarial de 10 de dezembro de 1974, o Grupo Recreativo Zip-Zip da Fomega (freguesia da Caparica, concelho de Almada, registo notarial de 24 de março de 1975) tinha como objetivo "promover o recreio dos seus associados através de récitas, festas recreativas, saraus, bailes, jogos lícitos e teatro amador".
De repente, o mundo parecia em expansão total. Em que as indústrias culturais e criativas, a arte, a comunicação e o entretenimento brotavam energicamente. Chamo a atenção para pormenores não despiciendos - conceptual (grupo profissional operário do Barreiro promove uma cooperativa para elevar a sua atividade à categoria de arte) e legal (o termo lícito aplicado a jogos indica a existência de uma fronteira que o grupo recreativo de Almada quis traçar).
domingo, 24 de abril de 2016
Documento sobre o Museu da Rádio
Em abril de 1976, o Diário da República publicava o estatuto da RDP (Radiodifusão Portuguesa), empresa que resultara da nacionalização e fusão da rádio decidida em novembro de 1975. Num dos artigos, era incluída a criação de um museu nacional da rádio (e outro a criação de uma fonoteca nacional). A Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD) contestou esse articulado.
Na altura, o presidente da comissão administrativa da RDP, major João Figueiredo, viu-se obrigado a responder ao ministro da Comunicação Social através do chefe de gabinete, com data de 2 de junho de 1976. O major Figueiredo recordava que, por iniciativa de trabalhadores das antigas estações Emissora Nacional e Rádio Clube Português, se reunira uma apreciável quantidade de material com interesse histórico. Apesar de o presidente da comissão administrativa da RDP manifestar muito interesse na criação do museu da rádio, ele não deixava de considerar que tal significava um encargo suplementar ao objeto fundamental da empresa: a prestação do serviço público de radiodifusão.
José Nascimento foi um desses obreiros do museu da rádio. Outro foi Manuel Bravo, aliás seu responsável durante a permanência do museu na rua do Quelhas.
Na altura, o presidente da comissão administrativa da RDP, major João Figueiredo, viu-se obrigado a responder ao ministro da Comunicação Social através do chefe de gabinete, com data de 2 de junho de 1976. O major Figueiredo recordava que, por iniciativa de trabalhadores das antigas estações Emissora Nacional e Rádio Clube Português, se reunira uma apreciável quantidade de material com interesse histórico. Apesar de o presidente da comissão administrativa da RDP manifestar muito interesse na criação do museu da rádio, ele não deixava de considerar que tal significava um encargo suplementar ao objeto fundamental da empresa: a prestação do serviço público de radiodifusão.
José Nascimento foi um desses obreiros do museu da rádio. Outro foi Manuel Bravo, aliás seu responsável durante a permanência do museu na rua do Quelhas.
sábado, 23 de abril de 2016
À espera de Scheherazade
O tema deste ano dos Dias da Música é a viagem de Phileas Fogg à volta do mundo em oitenta dias, um dos livros mais conhecidos de Júlio Verne. Ontem, ouviu-se Scheherazade, de Rimsky-Korsakov, entre outras peças.
terça-feira, 19 de abril de 2016
85 anos de Rádio Clube Português
Se Rádio Clube Português ainda existisse, faria hoje 85 anos de emissões. Aqui, recordo a notícia publicada no jornal Diário Popular de 19 de abril de 1971, a publicitar a programação especial da estação nos seus 40 anos de vida.
A estação era, então, um grupo multimedia, atendendo a que comprara outras estações (Rádio Alto Douro e Rádio Ribatejo), iria estabelecer-se em Luanda com uma rádio (1973), e a preparar a entrada em canal de televisão angolano prometido (que não chegou a abrir), comprava um avião para fazer a cobertura de eventos em direto, como a volta em bicicleta a Portugal, comprava o cinema GL (Nimas) e criava a editora Imavox. A marca original Rádio Clube Português desapareceu em 2 de dezembro de 1975, com a nacionalização da rádio e da televisão. Mais tarde, a marca reapareceu mas voltou a desaparecer.
A estação era, então, um grupo multimedia, atendendo a que comprara outras estações (Rádio Alto Douro e Rádio Ribatejo), iria estabelecer-se em Luanda com uma rádio (1973), e a preparar a entrada em canal de televisão angolano prometido (que não chegou a abrir), comprava um avião para fazer a cobertura de eventos em direto, como a volta em bicicleta a Portugal, comprava o cinema GL (Nimas) e criava a editora Imavox. A marca original Rádio Clube Português desapareceu em 2 de dezembro de 1975, com a nacionalização da rádio e da televisão. Mais tarde, a marca reapareceu mas voltou a desaparecer.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
NewsMuseum (Sintra)
Hoje, integrado num grupo, visitei o NewsMuseum (Media Age Experience), em Sintra, cuja inauguração está apontada para 25 de abril próximo (gentileza de Luís Paixão Martins).
A ideia do museu nasceu um ano atrás e teve 80 colaboradores a trabalhar até chegar ao momento de apresentação pública, num espaço de 900 metros quadrados, mesmo no centro de Sintra. Destaques, para mim, da recriação de espaço de emissão de rádio, do lounge e interatividade com imagens, páginas e vídeos (históricos e depoimentos de profissionais e investigadores, que narram a história do media e do jornalismo ao longo de várias salas (de guerra, fotojornalismo, desportivo, jornalismo e cinema, sala dos imortais, ética e liberdade de imprensa, realidade virtual - desmaterialização dos media), cada qual com o seu curador (profissional ou especialista que apresenta o conteúdo da sala, equipamentos de televisão.
A jóia do museu é a torre de Babel, uma enorme coluna que acompanha a altura dos diversos andares, com ecrãs ligados a 90 canais de televisão. Mas ainda a sala da propaganda, com cartazes políticos ao longo das últimas décadas, em que se pode colar um cartaz (isto é, simular a sua colagem), com um mural do criador de murais do MRPP junto a um busto de António Ferro, dentro da ideia de contradição máxima: o que é próximo e o que é distante.Ou a sala dos duelos, de que recordo o debate Soares-Cunhal (e a frase: "olhe que não, olhe que não"). Diretor: Rodrigo Manuel Botelho Moniz Moita de Deus (pelo nome, descobre-se logo ser bisneto do fundador de Rádio Clube Português, Jorge Botelho Moniz) [numa das fotografias a "colar" um cartaz]. Ver mais em NewsMuseum.
Já estou a ver o Newsmuseum a ganhar o prémio de melhor museu do ano. Pelo conteúdo, pelas ideias inovadoras nas diversas salas e pelas tecnologias de interatividade!
[António Ribeiro, António Mocho, João David Nunes, Luís Paixão Martins, Joaquim Furtado, Rogério Santos à porta do #NewsMuseum. Ligados à Rádio, desta ou daquela maneira. — com António Ribeiro, António Mocho, João David Nunes,Joaquim Furtado e Rogério Santos em Vila De Sintra]
A ideia do museu nasceu um ano atrás e teve 80 colaboradores a trabalhar até chegar ao momento de apresentação pública, num espaço de 900 metros quadrados, mesmo no centro de Sintra. Destaques, para mim, da recriação de espaço de emissão de rádio, do lounge e interatividade com imagens, páginas e vídeos (históricos e depoimentos de profissionais e investigadores, que narram a história do media e do jornalismo ao longo de várias salas (de guerra, fotojornalismo, desportivo, jornalismo e cinema, sala dos imortais, ética e liberdade de imprensa, realidade virtual - desmaterialização dos media), cada qual com o seu curador (profissional ou especialista que apresenta o conteúdo da sala, equipamentos de televisão.
A jóia do museu é a torre de Babel, uma enorme coluna que acompanha a altura dos diversos andares, com ecrãs ligados a 90 canais de televisão. Mas ainda a sala da propaganda, com cartazes políticos ao longo das últimas décadas, em que se pode colar um cartaz (isto é, simular a sua colagem), com um mural do criador de murais do MRPP junto a um busto de António Ferro, dentro da ideia de contradição máxima: o que é próximo e o que é distante.Ou a sala dos duelos, de que recordo o debate Soares-Cunhal (e a frase: "olhe que não, olhe que não"). Diretor: Rodrigo Manuel Botelho Moniz Moita de Deus (pelo nome, descobre-se logo ser bisneto do fundador de Rádio Clube Português, Jorge Botelho Moniz) [numa das fotografias a "colar" um cartaz]. Ver mais em NewsMuseum.
Já estou a ver o Newsmuseum a ganhar o prémio de melhor museu do ano. Pelo conteúdo, pelas ideias inovadoras nas diversas salas e pelas tecnologias de interatividade!
[António Ribeiro, António Mocho, João David Nunes, Luís Paixão Martins, Joaquim Furtado, Rogério Santos à porta do #NewsMuseum. Ligados à Rádio, desta ou daquela maneira. — com António Ribeiro, António Mocho, João David Nunes,Joaquim Furtado e Rogério Santos em Vila De Sintra]
quarta-feira, 13 de abril de 2016
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Notas sobre António Cartaxo
Se a primeira parte do livro Quase Verdade como são Memórias se intitula "Outrora", a segunda parte leva o nome "Londres e Depois", onde regista todo o trabalho na secção portuguesa da BBC, o seu despedimento (objeto central do livro que escreveu com Jorge Ribeiro, BBC Versus Portugal. História de um Despedimento Político), realização e sucesso do programa Você Gosta de Beethoven? e feliz carreira na Antena 2 (para ele e para os imensos ouvintes dos seus programas), onde desenvolveu um ofício de mais de quarenta anos - o de colar música e palavra. Entre 1963 e 1975, período em que foi funcionário da BBC, ia quase todos os dias a um concerto de música clássica (grande música, como escreve), e que serviu de base conceptual para os seus programas em Portugal (as notas que foi tirando ao longo dos concertos serviram como matéria-prima futura).
Na secção portuguesa, o que mais gostava de fazer era dar notícias sobre a situação do Portugal ditatorial, expondo o que aqui era censurado e proibido - presos políticos, tentativas goradas de manifestações, notícia do assassinato de Humberto Delgado e sua origem política. Mas a BBC não queria ofender muito o regime da ditadura. Quando o país assistiu à revolução de 1974, António Cartaxo e Jorge Peixoto foram acusados de apresentarem uma visão de esquerda e alvo de sanções, que culminariam em tribunal e com o despedimento. A história que o autor narra em ambos os livros faz pensar na situação analisada no livro de Nelson Ribeiro sobre a BBC na época da II Guerra Mundial: o dissidente Armando Cortesão seria afastado por influência indireta de Salazar e do embaixador Armindo Monteiro (2014, Salazar e a BBC).
Quer a análise académica de Nelson Ribeiro quer a descrição mais emotiva de António Cartaxo, porque viveu pessoalmente uma situação muito delicada, revelam uma BBC que não corresponde à imagem que temos da estação pública britânica: independência e rigor. Cartaxo conta a história de divulgação quase clandestina de situações muito graves em Portugal, aproveitando, por exemplo, os programas de fins de semana, quando não havia tanto controlo do que era dito. O livro BBC Versus Portugal. História de um Despedimento Político enumera a hierarquia da secção portuguesa e sua relação com as áreas superiores de decisão e revela a linha tendenciosa e não independente da BBC.A censura interna a António Cartaxo e Jorge Ribeiro começaria com as denúncias do deputado conservador Winston Churchill neto de a secção portuguesa da BBC irradiar propaganda pró-comunista. Entre julho e agosto de 1975 os dois profissionais da BBC eram suspensos. O julgamento considerando-os culpados por erros de emissão ocorreria em janeiro de 1977. Foi nesse período que os dois fizeram o programa Você Gosta de Beethoven?, apresentado e vencedor no concurso pró-música de Rádio Budapeste, uma espécie de compensação moral.
O período que António Cartaxo considera áureo na secção portuguesa seria o de 1970-1974, com colegas como Manuela de Oliveira, Paulo David, Jorge Ribeiro, António Borga, José Júdice, Carlos Alves e Joaquim Letria, em que incluiu as reportagens que fez da campanha eleitoral de 1973 em Portugal. Neste ano, António Cartaxo receberia um Special Award (prémio especial) pelas realizações radiofónicas ao longo da sua permanência na BBC. Se tinha dificuldades em entrevistar políticos da oposição, por recomendação ou resposta negativa da linha hierárquica, era mais fácil entrevistar cantores da resistência na qualidade simples de artistas: José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho e padre José Fanhais.
Em 1978, através do Instituto de Cultura Portuguesa, António Cartaxo seria leitor de português em Varsóvia. A experiência letiva mantê-la-ia durante vinte anos na Universidade Clássica em Lisboa. O livro Quase Verdade como são Memórias acaba quase aqui, sem antes referir brevemente as suas relações sentimentais com Beatriz, Manuela e Rosa, mãe do seu filho António Maria. O livro seria Prémio Alçada Baptista da Sociedade Portuguesa de Autores (2012). Agora, o autor recebeu o prémio da rádio Igrejas Caeiro 2016.
Leituras: António Cartaxo (2009). Quase Verdade como são Memórias. Lisboa: Colibri, 157 páginas, 15 euros
António Cartaxo e Jorge Ribeiro (1977). BBC Versus Portugal. História de um Despedimento Político. Lisboa: Editorial Estampa
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Um livro sobre a editora Romano Torres
A alma da editora foi a literatura infantil e popular, com abertura ao romance histórico, ainda no final do século XIX. A coleção "Biblioteca de Recreio", iniciada em 1888, combinaria obras de referência, divulgação, história e romances. A coleção foi uma estratégia editorial para desenhar o catálogo da Romano Torres, que se prolongou por décadas e que se traduziu numa novidade à época: a especialização.
Os romances de aventuras nas coleções Salgari, Manecas e Gigante marcaram o conhecimento da juventude masculina de gerações, já na primeira metade do século XX. A coleção Azul, orientada para um público feminino, composta de novelas sentimentais e referenciada como a biblioteca ideal da família. Dito de outro modo: a biblioteca como lugar simbólico que incorporava novas relações temporais, acumulação, leitura e difusão.
Por outro lado, pseudónimos escondiam autores portugueses, que se identificavam apenas como "tradutores", o que lhes trazia mais liberdade quanto a histórias, lugares e fantasias. O tradutor era o elemento central no modo de circulação principal do livro a partir do século XIX, permitindo que textos romanceados europeus mas de línguas estrangeiras chegassem às mãos de leitores ávidos de novidades. Walter Scott, Dumas pai e filho, Emilio Salgari, Charles Dickens, Emile Zola, Jane Austin, as irmãs Brontë (Emily e Charlotte) e Odette de Saint-Maurice seriam alguns dos autores privilegiados pela editora.
Um terceiro fator marcante é a viabilização do negócio dentro de uma estrutura familiar. A editora Romano Torres nasceria do trabalho e conhecimento de tipógrafos, litógrafos e profissionais ligados à impressão, que criaram competências e negócios entre tipografias e editoras em torno do livro e do didatismo. A Romano Torres insere-se na regra da maioria das empresas que começam com um nome de família, com as chancelas das editoras a revelarem dois universos: empresarial e profissional.
O livro agora publicado revela uma faceta que não deixo de destacar: o arquivo organizado da empresa e a generosidade do último proprietário, Francisco Noronha e Andrade, doar o arquivo para melhor tratamento e divulgação de um espólio cultural marcante. Isso ilustra uma estabilidade empresarial ao longo da sua existência, em especial pela conservação da sua propriedade e identidade numa família.
O projeto, corporizado em torno de Daniel Melo e da sua equipa, chamou-se "Romano Torres: um arquivo histórico representativo da edição contemporânea", foi apoiado financeiramente pela Fundação Calouste Gulbenkian e em termos logísticos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dentro do Centro de História da Cultura. Além do arquivo, o projeto promoveu encontros, edição de revistas e criou um sítio na internet. O livro tem capítulos escritos por Daniel Melo, João Luís Lisboa, Afonso Reis Cabral, Joanna Latka e Patrícia Cordeiro. A capa do livro tem ilustração de António José Ramos Ribeiro, trabalhada para aparecer na História Ilustrada da Guerra de 1914.
Leitura: Daniel Melo (2015). História e Património da Edição - a Romano Torres. Famalicão: Humus, 153 páginas, 8,5 euros
sábado, 2 de abril de 2016
Abandono da informação de "última hora"?
Os media digitais de qualidade estão a repensar o conceito de notícia de última hora. "Abrandar o ritmo noticioso e permitir que os leitores digiram a informação com mais tempo", segundo escreveu ontem o jornal Público.
Os exemplos são os dos jornais britânicos The Times e The Sunday Times (grupo News Corp, de Rupert Murdoch), que vão adotar o modelo editorial de "abandono da cobertura noticiosa ao minuto e pela aposta no tratamento aprofundado das histórias do dia", ainda segundo a mesma notícia. Os títulos passam, assim, a ser atualizados online em três momentos diários: 9:00, 12:00 e 17:00. A decisão parece estar em oposição à tendência das edições online dos media mundiais difundirem informação ao minuto. Um objetivo maior será o de escrever textos mais profundos e compreensivos para os leitores que se interessam por saber mais sobre o mundo e parte da ideia que um leitor não absorve completamente mais do que cinco ou seis temas por dia.
Os exemplos são os dos jornais britânicos The Times e The Sunday Times (grupo News Corp, de Rupert Murdoch), que vão adotar o modelo editorial de "abandono da cobertura noticiosa ao minuto e pela aposta no tratamento aprofundado das histórias do dia", ainda segundo a mesma notícia. Os títulos passam, assim, a ser atualizados online em três momentos diários: 9:00, 12:00 e 17:00. A decisão parece estar em oposição à tendência das edições online dos media mundiais difundirem informação ao minuto. Um objetivo maior será o de escrever textos mais profundos e compreensivos para os leitores que se interessam por saber mais sobre o mundo e parte da ideia que um leitor não absorve completamente mais do que cinco ou seis temas por dia.
quinta-feira, 31 de março de 2016
Cultura, ciência e política em seminário
De abril a junho, na Universidade Nova de Lisboa. Seminário livre oferecido em conjunto pelo Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudo em Música e Dança, pelo Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa e pelo Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa que visa debater as relações entre intelectuais, cientistas e artistas, por um lado, e o poder político, por outro. Inscrições aqui. Organização: Manuel Deniz Silva (INET-md), Frederico Ágoas (CICS.NOVA) e Tiago Baptista (IHC).
Last Call For Entries 2016! For International, Experimental and Curtinhas Competition
Submissions for the International, Experimental and Curtinhas Competition of the 24th Curtas Vila do Conde – International Film Festival, are reaching the deadline: 8th April 2016.
You can apply with new short films produced in 2015 or 2016; within the duration limit of 60 minutes (unless exceptions below); film (35 or 16 mm), DCP or video file. You can submit your new films in the following competitions:
- International (fiction, documentary and animation);
- Portuguese (Portuguese films of fiction, documentary and animation);
- Experimental (films that defy narrative and technical conventions);
- Music Videos (music videos from portuguese artists/producers);
- Curtinhas (films for kids until 30 minutes);
- Take One (productions until 30 minutes by Portuguese film students).
- Portuguese (Portuguese films of fiction, documentary and animation);
- Experimental (films that defy narrative and technical conventions);
- Music Videos (music videos from portuguese artists/producers);
- Curtinhas (films for kids until 30 minutes);
- Take One (productions until 30 minutes by Portuguese film students).
Please check the complete regulations before applying. Online submission at: http://curtas.pt/festival_submissions
DEADLINES AND SUBMISSION FEES
International, Experimental and Curtinhas Competition (LAST CALL!)
Submission deadline: 8th April 2016.
Submission Fee: 12,00 euros;
Portuguese and Music Videos Competition
Submission deadline: 23rd May 2016.
Submission Fee: 12,00 euros;
Take One! Competition
Submission deadline: 23rd May 2016.
Free submission.
DEADLINES AND SUBMISSION FEES
International, Experimental and Curtinhas Competition (LAST CALL!)
Submission deadline: 8th April 2016.
Submission Fee: 12,00 euros;
Portuguese and Music Videos Competition
Submission deadline: 23rd May 2016.
Submission Fee: 12,00 euros;
Take One! Competition
Submission deadline: 23rd May 2016.
Free submission.
The starting point is to register*. After registry, using the given username and password sent to your e-mail, you can access the online entry form, submitting all the required data for each film (film info and screener). From your login, you may also access all submitted films data to verify and eventually correct it.
*If you are already registered, please insert your username (your email) and password (you can also ask immediately for a new password). If you already completed any submission and received a confirmation email, please note that this message was sent automatically to our entire mailing list.
*If you are already registered, please insert your username (your email) and password (you can also ask immediately for a new password). If you already completed any submission and received a confirmation email, please note that this message was sent automatically to our entire mailing list.
Any questions about submissions should be addressed to submissions@curtas.pt or the following phone numbers +351 252638025.
24th Curtas Vila do Conde International Film Festival
Praça José Régio, 110-1º
4480-718 Vila do Conde, Portugal
www.festival.curtas.pt
Praça José Régio, 110-1º
4480-718 Vila do Conde, Portugal
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Exposição de 60 anos da Fundação Liga
A Livraria Círculo das Letras em colaboração e parceria com a Fundação LIGA e o Pelouro dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa mantém a exposição 60 artistas da casa das artes nos 60 anos da fundação Liga naquela livraria, à rua Voz do Operário, 62, em Lisboa.
quarta-feira, 30 de março de 2016
António Cartaxo e o prémio Igrejas Caeiro
António Cartaxo nasceu na Amadora, em 1934, e trabalhou na secção portuguesa da BBC entre 1962 e 1976. Nesse período, ouviu muita rádio e assistiu a muitos concertos de música clássica, aí aprendendo muito do que realizaria na rádio nacional, onde ingressou (Antena 2) em 1976 e trabalhou durante 40 anos.
Ainda em 1976, António Cartaxo e o realizador Jorge Ribeiro foram distinguidos internacionalmente com o programa Você gosta de Beethoven?, em que eram entrevistados operários da Sorefame sobre a música de Beethoven, e que na sessão de hoje na SPA se ouviu um excerto. Em 1987, António Cartaxo venceu o Prémio Gazeta de Jornalismo na modalidade Rádio, com um programa sobre Fernando Lopes Graça. Em 2012, publicou Quase Verdade como São Memórias, editado pela Colibri e que lhe valeu o Prémio António Alçada Baptista. Agora o prémio atribuído pela SPA. De António Cartaxo, recordo o programa Em Sintonia, na Antena 2, um dos melhores programas de autor que se ouvia até algum tempo atrás.
terça-feira, 29 de março de 2016
Almeida Garrett no teatro de Almada
A 153.ª criação da Companhia de Teatro de Almada no Teatro Municipal Joaquim Benite é a peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, com encenação de Rogério de Carvalho. Como intérpretes Adriano Carvalho, Alberto Quaresma, António Fonseca, Carlos Fartura, Joana Castanheira, João Farraia, Marques d’Arede, Pedro Walter, Teresa Coutinho e Teresa Gafeira, cenografia de José Manuel Castanheira, figurinos de Mariana Sá Nogueira, luz de Guilherme Frazão, som de Miguel Laureano, voz e locução de Luís Madureira.
Em cena de 1 a 30 de Abril, de quarta-feira a domingo (informação da entidade organizadora).
Em cena de 1 a 30 de Abril, de quarta-feira a domingo (informação da entidade organizadora).
segunda-feira, 28 de março de 2016
Os Fantasmas do Feminismo - Lançamento do número 6 da Diffractions, 13 de abril
13 Abril às 18h30 - Rua das Gaivotas6 (rua das Gaivotas, 6, Lisboa). Performance de Vera Mota + Mesa-redonda com Ana Vidigal, Isabel Capeloa Gil e Eugénia Vasques. Entrada livre.
O número mais recente da Diffractions - Revista de Estudos de Cultura tem como tema "Feminist Ghosts: The New Cultural Life of Feminism" e procura analisar, através de um enfoque teórico-cultural, as várias faces dos feminismos contemporâneos, da cultura popular à esfera política, confrontando-os com o legado dos discursos feministas do século XX. A apresentação inclui uma performance de Vera Mota e uma mesa-redonda com Ana Vidigal, Isabel Capeloa Gil (UCP) e Eugénia Vasques (ESTC-IPL), com moderação da equipa editorial da revista.
Este número, que ficará disponível online no próprio dia, conta com uma entrevista à teórica e cineasta Laura Mulvey, bem como depoimentos de Rosi Braidotti, Jill Dolan, Heidi Mirza, Catherine Rottenberg, Catherine Driscoll, Rosalind Gill, entre outras autoras. A Diffractions é a revista online e de acesso aberto do programa de Doutoramento em Estudos de Cultura - The Lisbon Consortium, sediado na Universidade Católica Portuguesa. As edições são temáticas e semestrais, contendo artigos, entrevistas, recensões, textos de formato livre e ainda intervenções de artistas convidados. Ver mais informações em http://
domingo, 27 de março de 2016
Côa ou as gravuras não sabem nadar
Rapidamente, nos pôs a ler os traços e o significado em termos de animais representados: auroque, cabra e cavalo. Das interpretações e das dúvidas sobre como se teriam inscrito na pedra aquelas gravuras, foi tudo explicado, levando-nos ao museu de Côa, um magnífico edifício mas parecendo um bunker de guerra nuclear, o que amedronta um pouco.
Lá dentro, com excesso de informação visual, talvez a agradar a uma população juvenil que toma contacto pela primeira vez com um mundo de 25 mil anos antes do presente (BP - before present, com está escrito no texto em português). Pirotécnico, diria eu, ao ver citações de professores de reconhecida notoriedade da Universidade Nova de Lisboa mas cujos trabalhos de arte rupestre ignoro junto a imagens explicativas da evolução da cultura naquele vale. Sei que se podem reduzir as gravuras a simples (ou complexos) signos, mas daí a ter citações de professores dedicados a semiótica ou filosofia da linguagem parece-me exagerado. Sem me querer centrar nas citações, estas soam a soundbites dos jornalistas e dos técnicos de relações públicas.
Felizmente que a anunciada barragem no Côa não foi para a frente. Ficou um magnífico património num local de uma enorme beleza. E de fora ficou uma recente polémica de dificuldades financeiras, com histórias de jipes avariados. Houve jipe e houve explicações bem feitas pela guia. Lembrei-me do conceito ou grito "As gravuras não sabem nadar", a partir da música dos Black Company (1994) Não sabe nadar.
quinta-feira, 24 de março de 2016
Museu de Lamego
O Museu de Lamego está instalado no antigo paço episcopal, no largo de Camões, onde ficam alguns edifícios de grande valor histórico como a catedral. Reedificado na segunda metade do século XVIII, o palácio serviu de residência a oito prelados que ocuparam o governo da diocese de Lamego (1773-1911). O museu começou a ser instalado em 1907, quase a fazer um século. Tem tapeçarias flamengas e francesas dos séculos XVI e do XVII, ourivesaria, cinco painéis de retábulo pintado por Grão Vasco (século XVI) e peças de heráldica, túmulos, estelas funerárias, lápides, esculturas e elementos arquitetónicos de edifícios demolidos (informação do próprio museu).
quarta-feira, 23 de março de 2016
Museu do Douro
O Museu do Douro define-se como museu de território, vocacionado para reunir, conservar, identificar e divulgar o património museológico e documental disperso pela região, dentro de uma perspetiva de "museologia de comunidade" (da documentação explicativa do museu). Situado no Peso da Régua, o edifício do museu está relacionado com a fundação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (1756), que criou a primeira zona vinícola regulada do mundo.
terça-feira, 22 de março de 2016
Do livro de Carlos Cruz à memória do programa PBX
Na apresentação do livro de Carlos Cruz.
PBX foi um dos programas de rádio que celebrizaram Carlos Cruz e José Fialho Gouveia. Na festa do primeiro aniversário do programa, houve um espetáculo gratuito no Rossio. Aí, entre outros, estiveram Carlos do Carmo, Thilo Krasmann e Raul Solnado (Diário Popular, 1 de setembro de 1968).
PBX foi um dos programas de rádio que celebrizaram Carlos Cruz e José Fialho Gouveia. Na festa do primeiro aniversário do programa, houve um espetáculo gratuito no Rossio. Aí, entre outros, estiveram Carlos do Carmo, Thilo Krasmann e Raul Solnado (Diário Popular, 1 de setembro de 1968).
segunda-feira, 21 de março de 2016
Carlos Cruz e o poder da sugestão da rádio
No livro que lança amanhã, Carlos Cruz refere o seu casamento com Lisete Cruz e o motivo que o levou a sair da Rádio Renascença, onde fazia o programa 23ª Hora com João Martins (pp. 151-153). No programa, ele estreara o álbum Revolver dos Beatles. Depois, o realizador e apresentador iria participar em duas das maiores aventuras da rádio: PBX e Tempo Zip (este sucedeu ao popular programa televisivo Zip-Zip, com dois companheiros de Carlos Cruz: José Fialho Gouveia e Raul Solnado).
De PBX, Carlos Cruz conta uma história dita no dia das mentiras de 1968: a existência de uma nuvem de pirilampos. Uma voz castelhana informou da vinda migratória dos insetos luminosos para Portugal (p. 168). Logo, o programa recebeu telefonemas, com ouvintes dizendo que tinham visto a tal nuvem. Um presidente de câmara mandou desligar a iluminação pública para não afastar a rota dos pirilampos. Como os apresentadores do programa disseram que a nuvem se dirigia para Sintra, houve uma excursão de automóveis com os seus condutores a quererem testemunhar o fenómeno. Era, escreve o autor, o poder da sugestão da rádio.
Depois, a 25 de novembro de 1967, quando se abateu uma tromba de água sobre Lisboa, PBX tornou-se uma espécie de proteção civil da época, prolongando o programa para além da hora com informações úteis para a população da cidade, incluindo os bombeiros, pois muita gente pedia informações e ajuda (p. 169). Carlos Cruz ganhava mensalmente 7500$00 nesse programa diário da meia-noite às duas da manhã, uma produção dos Parodiantes de Lisboa. Mas a colaboração não durou mais de um ano, pois os produtores entenderam estar a perder dinheiro e a querer menos reportagens e mais rubricas de humor (p. 171).
O casamento de Carlos e Lisete Cruz realizou-se em novembro de 1966. Pouco depois, o Diário Popular, na coluna "As Mulheres dos Famosos", entrevistava Lisete Cruz (25 de agosto de 1968), já o marido era uma celebridade na televisão. Aí revelou, entre outras coisas, a discoteca do marido - cinco mil LP. Nesse momento, Lisete Cruz estudava na Faculdade de Letras (p. 171).
De PBX, Carlos Cruz conta uma história dita no dia das mentiras de 1968: a existência de uma nuvem de pirilampos. Uma voz castelhana informou da vinda migratória dos insetos luminosos para Portugal (p. 168). Logo, o programa recebeu telefonemas, com ouvintes dizendo que tinham visto a tal nuvem. Um presidente de câmara mandou desligar a iluminação pública para não afastar a rota dos pirilampos. Como os apresentadores do programa disseram que a nuvem se dirigia para Sintra, houve uma excursão de automóveis com os seus condutores a quererem testemunhar o fenómeno. Era, escreve o autor, o poder da sugestão da rádio.
Depois, a 25 de novembro de 1967, quando se abateu uma tromba de água sobre Lisboa, PBX tornou-se uma espécie de proteção civil da época, prolongando o programa para além da hora com informações úteis para a população da cidade, incluindo os bombeiros, pois muita gente pedia informações e ajuda (p. 169). Carlos Cruz ganhava mensalmente 7500$00 nesse programa diário da meia-noite às duas da manhã, uma produção dos Parodiantes de Lisboa. Mas a colaboração não durou mais de um ano, pois os produtores entenderam estar a perder dinheiro e a querer menos reportagens e mais rubricas de humor (p. 171).
O casamento de Carlos e Lisete Cruz realizou-se em novembro de 1966. Pouco depois, o Diário Popular, na coluna "As Mulheres dos Famosos", entrevistava Lisete Cruz (25 de agosto de 1968), já o marido era uma celebridade na televisão. Aí revelou, entre outras coisas, a discoteca do marido - cinco mil LP. Nesse momento, Lisete Cruz estudava na Faculdade de Letras (p. 171).
domingo, 20 de março de 2016
Livro sobre ciberjornalismo de Helder Bastos em segunda edição
Já tinha escrito aqui, a 18 de janeiro de 2011, sobre a primeira edição do livro de Helder Bastos, Origens e Evolução do Ciberjornalismo em Portugal. Agora, saiu a segunda edição, a que juntou ao título Os primeiros Vinte Anos (1995-2015) e com alargamento de textos, de 106 para 143 páginas.
Então escrevi: "Com quatro capítulos (contexto global do ciberjornalismo, antecedentes do ciberjornalismo em Portugal, periodização em três fases, e evolução do modelo de negócios), constitui um útil instrumento de trabalho para quem quer estudar e conhecer o jornalismo electrónico em Portugal". A edição saída agora (final de 2015) mantém a estrutura de quatro capítulos mas adequa o segundo, designado por contexto nacional do ciberjornalismo.
O autor destaca três etapas na evolução do jornalismo digital: implementação, expansão e depressão/estagnação. Sobre os modelos de negócios, Helder Bastos distingue o iniciado em 2001, reparte a atenção por pagamento de conteúdos, assinatura, acesso gratuito como forma de publicitação dos meios pagos (jornal), lenta inclusão de anúncios em banners, organização de conferências pagas mas publicitadas gratuitamente na internet, design e construção de sites, a que se seguem modelos sem negócio. Neste caso, inclui criação de fundações, mecenato, crowdfunding de conteúdos, sinergias dentro de um grupo de media e micro-pagamento. O autor identifica modelos emergentes, onde se desenvolvem tipos de modelos já ensaiados, como conteúdos patrocinados, conferências e conteúdos patrocinados, e venda de conteúdos para plataformas móveis, a que junta a circulação digital residual. Já em 2009, Helder Bastos realça o regresso da cobrança de conteúdos.
Detenho-me brevemente nas páginas 42-43, em que se recorda o ano de 1995, quando as redações dos jornais começaram a adotar o online, caso do Jornal de Notícias (Porto), quando dois jornalistas, um da secção de política (Helder Bastos) e outro da secção de nacional (Nuno Marques) foram destacados para trabalhar em exclusivo na edição digital do jornal. Então, havia quatro vertentes principais no trabalho dos jornalistas: interatividade com os leitores, edição de notícias, gestão de participação dos leitores em fóruns de discussão e passagem dos conteúdos do jornal em papel para o digital. Isso inibiu os jornalistas de saírem da redação, por exemplo para fazerem reportagens. Helder Bastos, deste modo um pioneiro e observador atento do fenómeno da digitalização e do online até hoje, escreveu que o ciberjornalismo inicial foi marcado pela predominância técnica e pelo esvaziamento da produção jornalística própria.
Por interesse de investigação, gosto particularmente do capítulo 2, onde o autor e docente universitário escreve sobre o contexto nacional do ciberjornalismo, com recurso a muitos números e etapas do desenvolvimento tecnológico, associando o telemóvel, a internet, a rádio e a imprensa em papel, o meio mais afetado pela economia e pela migração para o digital. Fixo as páginas 35 a 40, onde há uma análise diacrónica a partir da década de 1980, quando o país assistiu à revolução informática, responsável por alterações profundas nos mecanismos de produção gráfica e do funcionamento e competências das redações dos jornais.
Realce ainda para a útil cronologia colocada no final do livro, onde o leitor pode verificar a rápida evolução dos domínios em internet, edições eletrónicas digitais, portais, emprego e despedimentos, jornais e portais universitários, parcerias, sinergias dentro de grupos (televisão, rádio, imprensa), acesso gratuito e a pagamento, evolução de sistemas operativos e mais tópicos.
Leitura: Helder Bastos (2015). Origens e evolução do ciberjornalismo em Portugal. Os primeiros Vinte Anos (1995-2015). Porto: Afrontamento, 143 páginas
sábado, 19 de março de 2016
1955-1969: Quando a febre em Portugal era o Yé-Yé (Blitz, publicado inicialmente em 2008)
O texto é de Rui Miguel Abreu, que o publicou inicialmente na revista Blitz em julho de 2008. Como é um tópico que me interessa estudar, guardo aqui como memória (http://blitz.sapo.pt//principal/update/2016-03-19-1955-1969-Quando-a-febre-em-Portugal-era-o-Ye-Ye, acedido hoje, cerca das 17:30). O jornalista escreve no início do texto: "Antes do 25 de Abril mudar para sempre o rumo da vida em Portugal, uma outra revolução trouxe os jovens para a rua: o rock and roll. Graças ao cinema, aos Beatles e a uma vontade imensa de pegar em guitarras eléctricas, uma geração não se contentou em estar «orgulhosamente só» e sintonizou-se com o resto do mundo".
sexta-feira, 18 de março de 2016
Administração da Media Capital inclui Pilar del Rio e António Pires de Lima
Pilar del Río, presidente da Fundação Saramago, António Pires de Lima, antigo ministro da economia, e Agnés Noguera Borel entram na administração da Media Capital, detentora da TVI e da Rádio Comercial: Juntam-se a Manuel Polanco e José Luiz Sáinz Diaz como membros independentes e não executivos do conselho de administração. Se Pires de Lima tem uma grande experiência profissional na área da gestão, Pilar del Rio é reconhecida como ligada à cultura e defesa da língua portuguesa, fazendo uma ponte entre o seu país de origem e o seu país de acolhimento. Para o mandato 2016/2019, Miguel Pais do Amaral mantem-se como presidente não executivo do conselho de administração. A atual administradora-delegada da Media Capital, Rosa Cullell Muniesa, será reconduzida nas funções executivas.
Livro de Jorge Barreto Xavier
A Cultura na Vida de Todos os Dias é o título de livro de Jorge Barreto Xavier, a sair em breve. O livro, com prefácio de Guilherme D’Oliveira Martins, reúne vários textos que refletem o percurso do fundador do Clube Português de Artes e Ideias e organizam-se duas partes – antes e depois da sua experiência como secretário de Estado da Cultura, num período que começa em 2004.
A Cultura na Vida de Todos os Dias vai ser lançado em Lisboa, a 6 de abril, 18:00, no Grémio Literário, com apresentação de Eduardo Lourenço e Guilherme D’Oliveira Martins, em Coimbra, a 7 de abril, 18:00, no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, com apresentação de Álvaro Laborinho Lúcio e Carlos Fortuna, e no Porto, a 8 de abril, 18:00, na Livraria Lello, com apresentação de Rui Moreira e João Teixeira Lopes (a partir de informação da Porto Editora).
quinta-feira, 17 de março de 2016
Sobre as humanidades
O título é já um programa: Humanidade(s). Considerações radicalmente contemporâneas. Se a palavra considerações remete para uma opinião bem formulada e defendida, o advérbio de modo radicalmente imprime uma orientação precisa mas enérgica. Explico melhor: o que o livro de Isabel Capeloa Gil aponta é para a universidade, a sua avaliação hoje e a produção do conhecimento. Há uma ideia muito interessante que a autora - antiga diretora da Faculdade de Ciências Humanas e atual vice-reitora da Universidade Católica Portuguesa com os pelouros da investigação e internacionalização - desenvolve: a escadaria das letras (pp. 29-38). O Palais Académique de Paris IV (Sorbonne) tem um vestíbulo que dá para duas escadarias, a de letras no lado direito e a das ciências no lado esquerdo. Isabel Capeloa Gil coloca aqui uma distinção de saberes, entre o "inútil" e o que fornece produtividade. Ao longo do texto, de modo exaustivo e profundo, a autora combina pensamento filosófico e relatórios e estudos de mercado sobre a realidade que fala.
A palavra radicalmente no título tem, dentro do livro, um significado preciso, o de combater a hegemonia do conhecimento dito científico e elevar o saber das humanidades e das ciências sociais. Na atribuição de bolsas e projetos de investigação, o pote das humanidades e das ciências sociais tem vindo a ser mais pequeno e quase residual. No subcapítulo a que chamou de dilemas contemporâneos, a autora recolhe evidências que contesta de modo veemente apesar de elegante, quando indica que a universidade ameaça ser a nova fábrica que produz graduados em termos de avaliação, impacto e empregabilidade, como se as competências do estudante universitário fossem calculadas como um bem económico puro.
Isabel Capeloa Gil defende que as humanidades constituem a base de qualquer projeto epistemológico, em que qualquer ciência (humanidades ou pura), porque feita por seres humanos, tem valores e identidades reconhecidas social e culturalmente. O corte provocado nomeadamente pelo positivismo permitiu alargar o fosso entre as duas posturas culturais - a ciência que estuda a natureza e a ciência que reflete e problematiza. O seu livro é um programa, como escrevi acima, mas é também um manifesto de luta contra a depreciação cultural das ciências sociais e humanidades. Sem estas não há pensamento mas apenas máquinas e lucros.
No começo do livro, a autora refere, julgo que ironicamente, o aparecimento de um novo género de produção académica, a jeremiada (lamentação longa e profunda). É contra isto, contra o quase desprezo pelas ciências humanas, que o livro surge, daí as "considerações radicalmente contemporâneas".
Leitura: Isabel Capeloa Gil (2016). Humanidade(s). Considerações radicalmente contemporâneas. Lisboa: Universidade Católica Editora, 68 p., 4,50 euros. Parceria com a Fundação Cupertino de Miranda
A palavra radicalmente no título tem, dentro do livro, um significado preciso, o de combater a hegemonia do conhecimento dito científico e elevar o saber das humanidades e das ciências sociais. Na atribuição de bolsas e projetos de investigação, o pote das humanidades e das ciências sociais tem vindo a ser mais pequeno e quase residual. No subcapítulo a que chamou de dilemas contemporâneos, a autora recolhe evidências que contesta de modo veemente apesar de elegante, quando indica que a universidade ameaça ser a nova fábrica que produz graduados em termos de avaliação, impacto e empregabilidade, como se as competências do estudante universitário fossem calculadas como um bem económico puro.
Isabel Capeloa Gil defende que as humanidades constituem a base de qualquer projeto epistemológico, em que qualquer ciência (humanidades ou pura), porque feita por seres humanos, tem valores e identidades reconhecidas social e culturalmente. O corte provocado nomeadamente pelo positivismo permitiu alargar o fosso entre as duas posturas culturais - a ciência que estuda a natureza e a ciência que reflete e problematiza. O seu livro é um programa, como escrevi acima, mas é também um manifesto de luta contra a depreciação cultural das ciências sociais e humanidades. Sem estas não há pensamento mas apenas máquinas e lucros.
No começo do livro, a autora refere, julgo que ironicamente, o aparecimento de um novo género de produção académica, a jeremiada (lamentação longa e profunda). É contra isto, contra o quase desprezo pelas ciências humanas, que o livro surge, daí as "considerações radicalmente contemporâneas".
Leitura: Isabel Capeloa Gil (2016). Humanidade(s). Considerações radicalmente contemporâneas. Lisboa: Universidade Católica Editora, 68 p., 4,50 euros. Parceria com a Fundação Cupertino de Miranda
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