Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
domingo, 14 de março de 2010
CARTAS DO JAPÃO III - TRADIÇÕES
[textos e imagens de Rita Botelho]
As duas primeiras fotografias foram tiradas no desfile que ocorreu no último dia (17 de Julho de 2009) de um dos maiores festivais em Kyoto e do Japão: Gion Matsuri. Durante três noites seguidas, a baixa da cidade fica cortada ao trânsito e as ruas enchem-se de pessoas e de tendas onde se vendem comidas tradicionais de rua como yakitori, taiyaki, takoyaki e okonomiyaki. Quase todas as raparigas vestem a sua yukata que é uma espécie de Kimono mais leve para o Verão. É uma festa dedicada aos deuses com o objectivo de proteger o país das pragas, fogos, inundações e terramotos. No festival, são retratados episódios passados e, por isso, é sem dúvida, uma oportunidade única de ver os trajes tradicionais e os rituais do povo japonês.
Em todos os Santuários shintoístas, podemos encontrar na entrada uma base de madeira ou pedra com água fresca para os visitantes lavaram as mãos, a cara e até beberem água como ritual de purificação, como se observa na imagem seguinte. Cada pessoa pega numa concha de bambu que é muito útil para não salpicar o vizinho do lado. É também curioso observar a utilidade prática destes reservatórios de água que estão espalhados por toda a cidade (devido ao elevado número de santuários) durante o Verão extremamente quente e húmido de Kyoto. É comum ver durante esta época mais turistas a refrescarem-se do que habitantes locais, a purificarem-se.
A fotografia seguinte foi tirada à saída de um espectáculo único no centro de Kyoto em que as gueixas e maikos (aprendizes) de vários bairros tradicionais em Kyoto mostram os seus melhores trajes, dançam, cantam e tocam instrumentos musicais tradicionais, tal como se fazia há séculos atrás. Este é um espectáculo único pois só ocorre uma vez por ano e a única oportunidade de ver ao vivo, juntas, as gueixas mais populares de Kyoto. A autora, infelizmente, não teve acesso ao espectáculo mas passou por acaso à porta da sala de espectáculos quando as artistas estavam a sair e a dirigirem-se para os táxis. Esta imagem em particular, captou-lhe especial atenção pela expressão facial da gueixa e do seu acompanhante.
As duas primeiras fotografias foram tiradas no desfile que ocorreu no último dia (17 de Julho de 2009) de um dos maiores festivais em Kyoto e do Japão: Gion Matsuri. Durante três noites seguidas, a baixa da cidade fica cortada ao trânsito e as ruas enchem-se de pessoas e de tendas onde se vendem comidas tradicionais de rua como yakitori, taiyaki, takoyaki e okonomiyaki. Quase todas as raparigas vestem a sua yukata que é uma espécie de Kimono mais leve para o Verão. É uma festa dedicada aos deuses com o objectivo de proteger o país das pragas, fogos, inundações e terramotos. No festival, são retratados episódios passados e, por isso, é sem dúvida, uma oportunidade única de ver os trajes tradicionais e os rituais do povo japonês.
Em todos os Santuários shintoístas, podemos encontrar na entrada uma base de madeira ou pedra com água fresca para os visitantes lavaram as mãos, a cara e até beberem água como ritual de purificação, como se observa na imagem seguinte. Cada pessoa pega numa concha de bambu que é muito útil para não salpicar o vizinho do lado. É também curioso observar a utilidade prática destes reservatórios de água que estão espalhados por toda a cidade (devido ao elevado número de santuários) durante o Verão extremamente quente e húmido de Kyoto. É comum ver durante esta época mais turistas a refrescarem-se do que habitantes locais, a purificarem-se.
A fotografia seguinte foi tirada à saída de um espectáculo único no centro de Kyoto em que as gueixas e maikos (aprendizes) de vários bairros tradicionais em Kyoto mostram os seus melhores trajes, dançam, cantam e tocam instrumentos musicais tradicionais, tal como se fazia há séculos atrás. Este é um espectáculo único pois só ocorre uma vez por ano e a única oportunidade de ver ao vivo, juntas, as gueixas mais populares de Kyoto. A autora, infelizmente, não teve acesso ao espectáculo mas passou por acaso à porta da sala de espectáculos quando as artistas estavam a sair e a dirigirem-se para os táxis. Esta imagem em particular, captou-lhe especial atenção pela expressão facial da gueixa e do seu acompanhante.
sábado, 13 de março de 2010
A ILUSTRAÇÃO NAS REVISTAS
Revistas das décadas de 1910 a 1940 e suas ilustrações é a proposta do livro de Theresa Lobo, professora associada do IADE, Ilustração em Portugal 1910-1940. Ou melhor, a autora escreve sobre os ilustradores que publicam trabalhos em magazines, jornais e cartazes.
Modernidade, capas, moda e ilustradores em publicações como Ilustração Portuguesa, Sempre Fixe, Cinéfilo, Imagem, Presença, Panorama e muitas mais têm aqui uma análise de muito interesse.
Theresa Lobo chama a atenção, por exemplo, para o magazine da década de 1920 como espelho e consciência de um quotidiano vibrante e de euforia pós-guerra. O magazine tornou-se um hábil fabricante de imagens (fotografias, desenhos), com um gosto e uma estética específicos. Portugal, que viveria uma época bastante agitada e controversa, aparece nessas imagens e ilustrações como uma boa representação.
Modernidade, capas, moda e ilustradores em publicações como Ilustração Portuguesa, Sempre Fixe, Cinéfilo, Imagem, Presença, Panorama e muitas mais têm aqui uma análise de muito interesse.
Theresa Lobo chama a atenção, por exemplo, para o magazine da década de 1920 como espelho e consciência de um quotidiano vibrante e de euforia pós-guerra. O magazine tornou-se um hábil fabricante de imagens (fotografias, desenhos), com um gosto e uma estética específicos. Portugal, que viveria uma época bastante agitada e controversa, aparece nessas imagens e ilustrações como uma boa representação.
TOQUE DE CAIXA NA FNAC
O grupo Toque de Caixa actuou na FNAC do Colombo (Lisboa) (11.3.2010). Deixo aqui um curto vídeo que fiz.
Toque de Caixa nasceu com os cantares de janeiras, no Natal de 1985. O gosto comum pela música tradicional fez com que os seus músicos, um grupo de amigos, prosseguissem a recriação de novos ambientes sonoros.
Toque de Caixa nasceu com os cantares de janeiras, no Natal de 1985. O gosto comum pela música tradicional fez com que os seus músicos, um grupo de amigos, prosseguissem a recriação de novos ambientes sonoros.
sexta-feira, 12 de março de 2010
MONSTRA 2010
A MONSTRA 2010 não será apenas um espaço de exibição e competição de filmes. A organização espera também também reflectir sobre o futuro do sector em Portugal. Por isso, espera ter mais de uma centena de profissionais da animação amanhã, dia 13, entre as 10:00 e as 17:30, num encontro-reflexão onde se espera contribuir para a criação de uma carta estratégica - ou livro branco - da animação portuguesa.
CINEMA, PRIMEIRA REPÚBLICA E PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
No âmbito da exposição Portugal nas Trincheiras – a I Guerra da República, o Museu da Presidência da República programou um Ciclo de Cinema e Debate a ter lugar no Cinema S. Jorge, entre os dias 22 e 24 de Março (para ver melhor o documento abaixo, clicar para ecrã total).
Está prevista a exibição de documentários, filmes de ficção situados na época da Primeira Guerra Mundial de alguns dos mais relevantes cineastas (Jean Renoir, Stanley Kubrick), e momentos de debate com diversos especialistas que têm trabalhado sobre esta temática da participação de Portugal na I Guerra Mundial.
Está prevista a exibição de documentários, filmes de ficção situados na época da Primeira Guerra Mundial de alguns dos mais relevantes cineastas (Jean Renoir, Stanley Kubrick), e momentos de debate com diversos especialistas que têm trabalhado sobre esta temática da participação de Portugal na I Guerra Mundial.
REUTERS ADDS SOCIAL MEDIA RULES TO ITS HANDBOOK
The surge in social media has benefited journalists globally by offering them a world of information at their fingertips with powerful social networking tools and news aggregator sites. But this opportunity comes along with some risks as well. To lessen these risks, Reuters has added social media guidelines and principles to its handbook, Dean Wright, global editor for ethics, innovation and news standards at Reuters, announced Thursday in the Reuters Blog. While Reuters embraces social media as a powerful informative tool and encourages its usage among journalists, they must ask permission from managers to use social media in conjunction with their professional lives, MediaGuardian reported. The guidelines are now a part of the news agency's advice on "Reporting from the Internet," which include rules on avoiding biased approaches, making sure to always introduce oneself as a Reuters journalist, to not reveal sources and to be extra careful while publicly "following" or becoming "friends." Scoops are also not supposed to be tweeted if Reuters wishes to post the news on the wires first, according to MediaGuardian. Stressing on the importance of journalistic ethics, the guidelines recommend Reuters journalists set up a professional account in addition to their personal account, to avoid unification of personal and professional lives, thereby establishing a divide between the two [http://www.ejc.net/media_news/reuters_adds_social_media_rules_to_its_handbook/].
quinta-feira, 11 de março de 2010
CINEMA PORTUGUÊS
Realizadores e produtores de cinema lançaram hoje a petição Manifesto pelo Cinema Português dirigida à ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas (base: Público online e que o mesmo jornal publicará amanhã). Os subscritores consideram que se vive "uma situação de catástrofe iminente [a qual] necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos".
TOQUE DE CAIXA
Foi ao fim da tarde, na FNAC do Colombo (Lisboa), que a banda Toque de Caixa tocou. A imagem à direita resulta dessa actuação, assente nomeadamente no disco Cruzes Canhoto.
quarta-feira, 10 de março de 2010
MEDIA E GRUPOS ECONÓMICOS
Na Assembleia da República, na comissão de ética onde se tem discutido a possível compra da TVI pela PT, diversos agentes empresariais e jornalistas têm dito as suas posições relativamente a essa compra e a eventual pressão do governo sobre os media. Há posições convergentes, divergentes e contraditórias, o que ilustra a existência de variados interesses - económicos e políticos. É um bom estudo de caso para se perceber a importância dos media na sociedade contemporânea.- Em definição fundamental, Bourdieu (1997: 41) descreveu campo como espaço social estruturado onde, no seu interior, existem relações entre agentes. Provido de competência social e técnica, cada agente investe a força que detém na sua luta contra outros agentes, marcador da posição pessoal no campo e das estratégias que segue. O campo tem sentido na relação estabelecida pelos agentes nas oposições e nas distinções. Há, na estrutura de relações objectivas que forma o campo, invariantes que se concretizam na relação com um campo determinado. No campo político, por exemplo, as invariantes constituem-se por esquerda e direita, dois pólos em que tende a organizar-se o campo. O campo político é, para Bourdieu (1989: 164), o lugar onde se geram, na concorrência entre agentes envolvidos, produtos políticos, problemas, conceitos, análises, comentários e acontecimentos, a escolher pelos cidadãos. No interior do campo, os ocupantes de posições dominantes e dominadas efectuam lutas de diferentes formas, o que não significa a constituição de grupos antagonistas.
terça-feira, 9 de março de 2010
VI SEMINÁRIO DE JOGOS ELECTRÓNICOS
Chamada de Trabalhos – VI Seminário Jogos Eletrônicos, Educação e Comunicação, na Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Período: 6 e 7 de Maio de 2010. Local: UNEB – Salvador. "A chamada de trabalhos para o VI Seminário será divulgada em listas de discussão relacionadas com a temática jogos eletrônicos e nos sites da UNEB, da Comunidades Virtuais, Realidade Sintética e do Game Cultura".
Departamento de Educação – Campus I. Rua Silveira Martins no. 2555 – Cabula – Salvador – Bahia – At. Lynn Alves
Departamento de Educação – Campus I. Rua Silveira Martins no. 2555 – Cabula – Salvador – Bahia – At. Lynn Alves
INDÚSTRIAS CRIATIVAS
O Museu da Presidência da República promove, no dia 16 de Março, o seminário Indústrias Criativas: Arte, Tecnologia e Empreendedorismo, coordenado pelo Arq.º Luís Serpa. Duração: 6 horas. Destinatários: agentes de equipamentos e eventos culturais: responsáveis e gestores culturais (programadores) e quadros dirigentes e técnicos de autarquias, nomeadamente nas áreas do planeamento estratégico, planeamento urbano e cultura. Ver mais no sítio do Museu da Presidência da República.
segunda-feira, 8 de março de 2010
ÓSCARES
Kathryn Bigelow e o seu filme Estado de Guerra ganharam seis óscares, incluindo o de melhor filme. Assim, a aposta em James Cameron e o seu Avatar foi perdedora.
domingo, 7 de março de 2010
FINANCIAMENTO DO CINEMA
Como informa o Expresso de ontem, a indústria cinematográfica nacional pode paralisar, devido ao Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual (FICA) não ter financiamento nos anos mais recentes. Em 2007 e 2008, o Estado não entrou com a sua parte de financiamento, a que se seguiu o incumprimento por parte dos outros participantes - ZON, RTP, SIC e TVI. O jornal refere uma carta recente que a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, enviou aos produtores, procurando saídas alternativas para o financiamento. Por parte dos produtores, o jornal indica que os 16 milhões de euros anuais de investimento que não entraram no sector significam uma perda quase sem retorno na actividade do cinema português.
JOSÉ-MANUEL NOBRE-CORREIA E JOSÉ QUEIRÓS DISCUTEM O JORNALISMO
O primeiro, Nobre-Correia, em texto hoje publicado no Jornal de Notícias, propõe o repensar do jornalismo. Escreve ele: "Assistimos assim à eclosão de um jornalismo exaltado que funciona permanente numa lógica de conflito. De clã contra clã. De chefe contra chefe. Vendo nestas confrontações duelos puramente interesseiros, calculistas, alheios aos mais elementares princípios da deontologia e da ética. E por detrás dos contendores, escuras manobras, conspirações e conjuras. Tratando a actualidade política em termos de competição, como luta de ambições e de pessoas, o "novo jornalismo português" esquece que a vida política é feita de projectos, de programas, de políticas públicas. Matérias que deveriam naturalmente suscitar estudos, inquéritos, reportagens, perspectivações, análises e comentários".
Já José Queirós estreia-se na qualidade de provedor do jornal Público, a quem saúdo. Começando por indicar que não possui credenciais académicas, currículo de estudo e ensino de saberes específicos de jornalismo e da sua deontologia, mas 30 anos de profissão em O Primeiro de Janeiro, Expresso, Público e Jornal de Notícias, ele indica que zelará pelos critérios do jornalismo de qualidade e de referência. Assinala igualmente o seu respeito pela imprensa de cunho ideológico marcado, apesar da pouca tradição na história recente de Portugal. Estatuto editorial e livro de estilo do jornal são dois faróis de conduta do novo provedor. O leitor espera isso.
Já José Queirós estreia-se na qualidade de provedor do jornal Público, a quem saúdo. Começando por indicar que não possui credenciais académicas, currículo de estudo e ensino de saberes específicos de jornalismo e da sua deontologia, mas 30 anos de profissão em O Primeiro de Janeiro, Expresso, Público e Jornal de Notícias, ele indica que zelará pelos critérios do jornalismo de qualidade e de referência. Assinala igualmente o seu respeito pela imprensa de cunho ideológico marcado, apesar da pouca tradição na história recente de Portugal. Estatuto editorial e livro de estilo do jornal são dois faróis de conduta do novo provedor. O leitor espera isso.
30 ANOS DE COR NA RTP
Foi a 7 de Março de 1980 que a RTP começou a emitir a cores (embora já tivesse experimentado em 5 de Setembro de 1979) (texto de Isabel Teixeira da Mota no Jornal de Notícias de hoje e vídeo de LusitaniaTV). Escreveu a jornalista: "A chegada da cor à televisão portuguesa foi tardia. A primeira emissão regular deu-se em 1980. Mas conseguiu tirar público ao cinema. E, actualmente, o país está a acompanhar bem o passo dos novos avanços para o digital, a alta definição e as três dimensões. As imagens a preto e branco dão-nos, hoje, a percepção de estarmos a recuar muito no tempo. Porém, a televisão a cores chegou a Portugal há apenas três décadas" [para ler o texto, com ampliação, clicar em cima da imagem].
A BALADA DA MARGEM SUL
Helder Costa considera a peça como uma versão moderna da dramaturgia universal, referindo Romeu e Julieta. Eu prefiro considerá-la uma adaptação do musical West Side Story a uma história do outro lado do Tejo, em que os porto-riquenhos são jovens negros em luta contra skin-heads e a música de Leonard Bernstein é substituída pela de Jorge Palma. Com influências ainda do rap e de Michael Jackson.
Pedro (Sérgio Moras), um dos skin-heads, apaixona-se por Leonor (Ciomara Morais), negra e cabeleireira. Mas, antes, participara na morte do irmão dela. Isabel (Patrícia Adão Mendes), modista, é irmã dele e amiga dela. O grupo dos skin-heads acaba por gerar um grupo de radicais negros, que apelam igualmente à destruição. Isto num ambiente de desemprego e evidente muito tempo livre nos jovens da margem sul do rio.
O palco contém uma nítida linha divisória. de um lado, o quarto caserna do skin-head, num plano mais alto e distante, e a sala de cabelereira e casa de Leonor, mais perto da boca de cena. Do outro lado, o local da festa, do baile e do espaço de jogo de cartas dos negros mais velhos. A linha divisória é território de confronto e local por onde passam os mortos das lutas entre os dois grupos raciais. O palco enche-se todo quando há cenas de escola e de espaço público. Muito bonita a encenação deste espaço público, como se fosse uma praça, onde a população passa, do jovem executivo à mulher-estátua, ao jardineiro, à rapariga que busca namorado e ao que rouba as esmolas ao cantor de rua, com um grande colorido e animação. Também gostei do quadro dos negros velhos a jogarem às cartas. Igualmente bem construídos os quadros de endoutrinação dos skin-heads, manifesto mais político da peça de Helder Costa.
A sala do teatro Barraca é pequena, o que permite aos espectadores estarem quase face a face com os actores, percepcionando melhor os seus gestos, as suas emoções. Destaco o papel das personagens de Pedro e Leonor por actores já conhecidos: Sérgio Moras já participa há anos nas peças da Barraca, Ciomara Morais começou a sua carreira nos Morangos com Açúcar.
Pedro (Sérgio Moras), um dos skin-heads, apaixona-se por Leonor (Ciomara Morais), negra e cabeleireira. Mas, antes, participara na morte do irmão dela. Isabel (Patrícia Adão Mendes), modista, é irmã dele e amiga dela. O grupo dos skin-heads acaba por gerar um grupo de radicais negros, que apelam igualmente à destruição. Isto num ambiente de desemprego e evidente muito tempo livre nos jovens da margem sul do rio.
O palco contém uma nítida linha divisória. de um lado, o quarto caserna do skin-head, num plano mais alto e distante, e a sala de cabelereira e casa de Leonor, mais perto da boca de cena. Do outro lado, o local da festa, do baile e do espaço de jogo de cartas dos negros mais velhos. A linha divisória é território de confronto e local por onde passam os mortos das lutas entre os dois grupos raciais. O palco enche-se todo quando há cenas de escola e de espaço público. Muito bonita a encenação deste espaço público, como se fosse uma praça, onde a população passa, do jovem executivo à mulher-estátua, ao jardineiro, à rapariga que busca namorado e ao que rouba as esmolas ao cantor de rua, com um grande colorido e animação. Também gostei do quadro dos negros velhos a jogarem às cartas. Igualmente bem construídos os quadros de endoutrinação dos skin-heads, manifesto mais político da peça de Helder Costa.
A sala do teatro Barraca é pequena, o que permite aos espectadores estarem quase face a face com os actores, percepcionando melhor os seus gestos, as suas emoções. Destaco o papel das personagens de Pedro e Leonor por actores já conhecidos: Sérgio Moras já participa há anos nas peças da Barraca, Ciomara Morais começou a sua carreira nos Morangos com Açúcar.
sábado, 6 de março de 2010
PRODUTOS SONY
Através da infografia publicada no i de hoje, consegue-se ver a rápida evolução da Sony, embora outros fabricantes tenham igualmente produtos vencedores. A tónica que quero destacar é a tecnologia e a mudança de hábitos culturais que elas proporcionam (para ver melhor a infografia, clicar em cima da imagem).
CARTAS DO JAPÃO II - TEMPLOS E SANTUÁRIOS
A primeira carta escrita por Rita Botelho, que viveu nove meses em Kyoto, Japão, foi aqui publicada em 23 de Fevereiro último. Hoje, as fotografias e os textos da segunda carta subordinam-se ao tema templos e santuários. Aliás, como ela escreve, "Kyoto é famosa pelos seus templos e santuários. A cidade está rodeada de montanhas e a toda a volta estão localizados dezenas (talvez centenas) de espaços religiosos. Entre os muitos que tive oportunidade de visitar, estes que aqui mostro talvez tenha sido os melhores exemplos, não só pelas estruturas em si mas por toda a envolvência".
Kinkaku-ji (templo budista Zen do pavilhão dourado) é uma das principais imagens de marca de Kyoto e, sem dúvida, uma das suas grandes atracções turísticas. A sua popularidade deve-se ao facto de estar totalmente coberto de folha de ouro e destacar-se pela sua riqueza. É de encher a vista mas a multidão de turistas que o visitam apaga parte da magia de visitar um local tão singular.
Fushimi-Inari (santuário shintoista) é talvez um dos locais mais fascinantes de Kyoto.
Trata-se de um complexo de espaços religiosos dedicados aos negócios. Empresas e empresários pagam para ter uma porta (Dori) como uma forma de pedir boa fortuna para os negócios. As Doris são pintadas de vermelho e sucedem-se ao longo de vários caminhos que atravessam a montanha. É um espaço fascinante pelas efeitos de luz criados por essas estruturas de madeira, pela contraste do vermelho com o verde da natureza envolvente e por ser um espaço sempre aberto com entrada gratuita e por isso poder ser usufruído com toda liberdade.
Kyomizu-dera (templo budista). Localizado perto de Gion, a zona mais tradicional de Kyoto, destaca-se pelo terraço de madeira de onde se pode ter uma vista deslumbrante da cidade.
Como se vê na foto, é um espaço digno de muitas fotografias turísticas. Aqui podemos ver o famoso gesto (em V de vitória) que todos (quase sem excepção) japoneses fazem quando tiram fotografias.
Takao. Este é um local mágico rodeado de templos e natureza deslumbrante, localizado nas montanhas a norte de Kyoto. A fotografia foi tirada durante o Outono, que é quando as folhas das árvores mostram as suas melhores cores.
Textos e fotografias: Rita Botelho
Kinkaku-ji (templo budista Zen do pavilhão dourado) é uma das principais imagens de marca de Kyoto e, sem dúvida, uma das suas grandes atracções turísticas. A sua popularidade deve-se ao facto de estar totalmente coberto de folha de ouro e destacar-se pela sua riqueza. É de encher a vista mas a multidão de turistas que o visitam apaga parte da magia de visitar um local tão singular.
Fushimi-Inari (santuário shintoista) é talvez um dos locais mais fascinantes de Kyoto.
Trata-se de um complexo de espaços religiosos dedicados aos negócios. Empresas e empresários pagam para ter uma porta (Dori) como uma forma de pedir boa fortuna para os negócios. As Doris são pintadas de vermelho e sucedem-se ao longo de vários caminhos que atravessam a montanha. É um espaço fascinante pelas efeitos de luz criados por essas estruturas de madeira, pela contraste do vermelho com o verde da natureza envolvente e por ser um espaço sempre aberto com entrada gratuita e por isso poder ser usufruído com toda liberdade.
Kyomizu-dera (templo budista). Localizado perto de Gion, a zona mais tradicional de Kyoto, destaca-se pelo terraço de madeira de onde se pode ter uma vista deslumbrante da cidade.
Como se vê na foto, é um espaço digno de muitas fotografias turísticas. Aqui podemos ver o famoso gesto (em V de vitória) que todos (quase sem excepção) japoneses fazem quando tiram fotografias.
Takao. Este é um local mágico rodeado de templos e natureza deslumbrante, localizado nas montanhas a norte de Kyoto. A fotografia foi tirada durante o Outono, que é quando as folhas das árvores mostram as suas melhores cores.
Textos e fotografias: Rita Botelho
REFLEXÃO SOBRE OS MEDIA
Sobre a percepção dos media e das novas tecnologias.
"[...] Em termos etários, as audiências de televisão são mais velhas que as que usam as tecnologias electrónicas mais recentes (iPod, telemóvel, internet), ecrãs, vidros ou espelhos de comunicação. O que nos conduz ao constatado por Sonia Livingstone e Leslie Haddon (2009: 1), quando elas chamam a atenção para os títulos dos media que indicam as «crianças como pioneiros online, na vanguarda da exploração e da experimentação» da internet, a qual, ao mesmo tempo, significa «todas as esperanças e medos que rodeiam as nossas crianças» [...]".
[Sonia Livingstone e Leslie Haddon (2009) (eds.). Kids online. Opportunities and risks for children. Bristol: Policy Press]
ANTÓNIO SALA AO JORNAL I
O jornal i traz hoje uma longa entrevista com António Sala, 61 anos, radialista que deixou há uma semana os quadros da Rádio Renascença.
Sala começou aos 17 anos na rádio - em 1966, pelas minhas contas -, nos Emissores Associados de Lisboa, como actor de teatro radiofónico - a radionovela. Depois, foi locutor e ganhou sucesso na Rádio Renascença no programa Despertar, programa que fazia com Olga Cardoso e chegou a líder de audiências nas décadas de 1980 e 1990. Ele em Lisboa, ela no Porto. António Sala, que chegou a fazer o programa a bordo de um submarino a 300 metros de profundidade, reconhece que esteve mal preparado em algumas entrevistas que efectuou, a que atribui a idade jovem que tinha então.
A decisão de sair da rádio foi porque a Renascença está a reestruturar-se e lhe deu a oportunidade de negociar a saída. Isto é, larga uma profissão com 49 anos de actividade. Agora quer fazer outras coisas - ou recuperar o que ainda não conseguiu fazer totalmente: filmar e produzir documentários.
Sala começou aos 17 anos na rádio - em 1966, pelas minhas contas -, nos Emissores Associados de Lisboa, como actor de teatro radiofónico - a radionovela. Depois, foi locutor e ganhou sucesso na Rádio Renascença no programa Despertar, programa que fazia com Olga Cardoso e chegou a líder de audiências nas décadas de 1980 e 1990. Ele em Lisboa, ela no Porto. António Sala, que chegou a fazer o programa a bordo de um submarino a 300 metros de profundidade, reconhece que esteve mal preparado em algumas entrevistas que efectuou, a que atribui a idade jovem que tinha então.
A decisão de sair da rádio foi porque a Renascença está a reestruturar-se e lhe deu a oportunidade de negociar a saída. Isto é, larga uma profissão com 49 anos de actividade. Agora quer fazer outras coisas - ou recuperar o que ainda não conseguiu fazer totalmente: filmar e produzir documentários.
AGENDAS CULTURAIS
Como noutras ocasiões tenho escrito, as agendas culturais são um bom indicador de quanto os municípios nacionais têm tratado a cultura e os seus equipamentos.
A agenda de Cascais aborda a actividade da Casa das Histórias Paula Rego e do Conservatório de Música de Cascais, além do Dia Mundial do Teatro (27 de Março), em que o Teatro Experimental de Cascais e a autarquia prestam homenagem ao actor Raul Solnado.
A agenda de Oeiras, 30 Dias, entra no seu décimo terceiro ano de edição, agora reformulada. Os destaques da publicação são Pedro Almeida Vieira, escritor, convidado de Café com Letras; concertos com intérpretes como António Chaínho, Cristina Branco e António Pinho Vargas; entrevista a João Maria Pinto; Oeiras Valley; concurso de fotografia.
A agenda de Lisboa destaca o Monstra, festival de animação da cidade, o Ilustrarte 2009, o ciclo de colóquios dos cem anos da República, o Museu da Cidade, além de uma entrevista com João Paulo Cotrim (jornalista, escritor, curador de exposições e ilustrador).
sexta-feira, 5 de março de 2010
A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO A PARTIR DE PLATÃO E GOFFMAN
1. Em A República (VII), de Platão, o filósofo apresenta a alegoria da caverna: "Imagina uns homens numa morada subterrânea em forma de caverna, cuja entrada, aberta à luz, se estende ao longo de toda a fachada; eles estão ali desde a infância, as pernas e o pescoço presos a correntes, de forma que eles não podem mudar de lugar, nem olhar para outro lado senão em frente; porque os grilhões impedem-nos de virar a cabeça [...] Imagina agora, ao longo deste pequeno muro, uns homens com toda a espécie de utensílios, que ultrapassam a altura do muro, de todas as espécies de formas" (diálogo incluído no livro de Gaston Maire, Platão, Edições 70, 1991). Habituados a um mundo de sombras, como reagiriam os prisioneiros se fossem libertados e encarassem a luz do sol? Esta luz certamente os cegaria. Mas, antes: como é que os prisioneiros formavam as imagens das sombras? Que estruturas mentais construiriam?
2. A. esteve duas noites no hospital, a primeira das quais na sala de recobro. Estava impedido de levantar a cabeça, pois senão ficaria com fortes dores de tontura. Mas podia ouvir com muita atenção o que se passava à volta. Num espaço muito perto de si, um paciente gritava com dores, operado a um braço ou perna partida. Ele queria ir-se embora, atirar-se para o chão, morrer. Num espaço que a A. parecia bastante mais distante, um rádio esteve ligado toda a noite, aparentemente em espaço destinado a enfermeiras. Quando ficou de dia e a A. foi permitido levantar-se, este deu-se conta da pequena dimensão da sala de recobro. Os sons nocturnos, a agitação dele e dos doentes vizinhos e o som da rádio vindo de um local discreto fizeram-no pensar num espaço maior. Prisioneiro numa sala como os da caverna de Platão, A. formou do espaço exterior uma construção com pouca relação com a realidade.
3. Erwing Goffman distingue duas realidades sociais, a virtual (a personalidade que lhe imputam aqueles com quem o indivíduo está em contacto) e a real (a personalidade do indivíduo definida pelos seus verdadeiros atributos) (base: Nicolas Herpin, A sociologia americana. Escolas, problemáticas e práticas, Edições Afrontamento, 1982). Goffman define a interacção dos indivíduos numa situação, a partir de terminologia retirada da dramaturgia teatral, visível em A apresentação do eu na vida de todos os dias (Relógio d'Água, 1993). Aqui (p. 161), ele identifica dois tipos de regiões delimitadas: 1) fachada, onde se desenrola um desempenho, 2) bastidor, onde se desenrolam acções ligadas ao desempenho. Mas propõe a existência de uma terceira região, a que chama exterior.
4. Já não se está na situação do prisioneiro de Platão, pois Goffman redistribui os papéis entre actores (e receptores) sem uma hierarquia tão evidente como naquele. Mas destaca a observação e a inferência. Foi o que o doente A. fez aos sons que foi escutando nessa longa noite. Sem ter a verdadeira percepção espacial, ele foi organizando as possíveis hierarquias de distância, mais próximo a Platão, mas tacteou para traçar a linha entre fachada ou palco (ele e o outro paciente) e o bastidor (as conversas curtas e repetitivas dos enfermeiros sobre o estado de saúde dos doentes).
2. A. esteve duas noites no hospital, a primeira das quais na sala de recobro. Estava impedido de levantar a cabeça, pois senão ficaria com fortes dores de tontura. Mas podia ouvir com muita atenção o que se passava à volta. Num espaço muito perto de si, um paciente gritava com dores, operado a um braço ou perna partida. Ele queria ir-se embora, atirar-se para o chão, morrer. Num espaço que a A. parecia bastante mais distante, um rádio esteve ligado toda a noite, aparentemente em espaço destinado a enfermeiras. Quando ficou de dia e a A. foi permitido levantar-se, este deu-se conta da pequena dimensão da sala de recobro. Os sons nocturnos, a agitação dele e dos doentes vizinhos e o som da rádio vindo de um local discreto fizeram-no pensar num espaço maior. Prisioneiro numa sala como os da caverna de Platão, A. formou do espaço exterior uma construção com pouca relação com a realidade.
3. Erwing Goffman distingue duas realidades sociais, a virtual (a personalidade que lhe imputam aqueles com quem o indivíduo está em contacto) e a real (a personalidade do indivíduo definida pelos seus verdadeiros atributos) (base: Nicolas Herpin, A sociologia americana. Escolas, problemáticas e práticas, Edições Afrontamento, 1982). Goffman define a interacção dos indivíduos numa situação, a partir de terminologia retirada da dramaturgia teatral, visível em A apresentação do eu na vida de todos os dias (Relógio d'Água, 1993). Aqui (p. 161), ele identifica dois tipos de regiões delimitadas: 1) fachada, onde se desenrola um desempenho, 2) bastidor, onde se desenrolam acções ligadas ao desempenho. Mas propõe a existência de uma terceira região, a que chama exterior.
4. Já não se está na situação do prisioneiro de Platão, pois Goffman redistribui os papéis entre actores (e receptores) sem uma hierarquia tão evidente como naquele. Mas destaca a observação e a inferência. Foi o que o doente A. fez aos sons que foi escutando nessa longa noite. Sem ter a verdadeira percepção espacial, ele foi organizando as possíveis hierarquias de distância, mais próximo a Platão, mas tacteou para traçar a linha entre fachada ou palco (ele e o outro paciente) e o bastidor (as conversas curtas e repetitivas dos enfermeiros sobre o estado de saúde dos doentes).
quinta-feira, 4 de março de 2010
A MODA EM BARTHES
De vez em quando sabe bem voltar a ler Roland Barthes (fi-lo, por exemplo, aqui, há pouco mais de dois anos). Ele colocou a linguagem ao serviço da semiologia. Na introdução ao texto Elementos de semiologia (1953-1964/1981), apresenta o campo de actividade desta ciência, partindo de Saussure: qualquer sistema de signos. A substância visual confirma as significações no reforço da mensagem linguística, casos de cinema, publicidade, banda desenhada, fotografia de imprensa.
Quando escreve sobre moda, parte da distinção entre fala (acto individual de selecção e actualização) e língua (instituição, sistema) e distingue três sistemas diferentes: vestuário escrito, fotografado, usado (ou real). O vestuário escrito numa revista de moda é ajudado pela linguagem articulada; a sua descrição nunca corresponde a uma execução individual das regras da moda, é um conjunto sistemático de signos e regras (Barthes, 1981: 92). O vestuário fotografado não aparece como signo abstracto, porque é usado por uma mulher individual. Já o vestuário usado (ou real) é constituído pela oposição de peças, adornos ou "detalhes", como usar um chapéu ou uma boina.
Em Sistema de moda (1967/1999), retoma a distinção. Os primeiros dois sistemas interligam-se. Por exemplo, o texto que acompanha a fotografia: "cinto de couro um pouco acima da cintura, a que uma rosa dá um toque de festa, sobre vestido leve, de shetland" (Barthes, 1999: 15). Já o terceiro sistema, o do sistema do vestuário real, não pertence ao âmbito da língua. Além de que não vemos senão um modo pessoal de usar o vestuário, um porte particular. Daí três estruturas distintas: verbal, icónica, tecnológica (esta porque o vestuário é composto de materiais físicos). A estrutura tecnológica aparece como um tipo de língua-mãe, a que as outras - as publicadas na revista de moda - são línguas mais próximas da fala.
Barthes desenvolve a ideia de shifter (aparelho; translação), do real à imagem, do real à linguagem, da imagem à linguagem (1999: 18). Do vestuário tecnológico para o icónico, o shifter é o molde de costura, o desenho que reproduz o fabrico das peças de vestuário, a que se acrescem os processos gráfico e fotográfico. A passagem do vestuário tecnológico ao escrito envolve a receita ou programa
de costura - o texto assinado na revista de moda, a recomendação. Em terceiro lugar, a transferência do vestuário icónico para o falado significa não desenhos de moldes ou textos de receitas de costura mas anafóricos da língua: "este" saia-casaco, "o" vestido de shetland.
Claro, como observa muito bem José Augusto Seabra na introdução a Mitologias (1957/2007), que traduziu, Barthes analisa a moda real e a moda escrita, optando nitidamente por esta. A moda tem a inevitabilidade da mediação da escrita. Ou, como escreve Barthes: "desde que se observa a Moda, a escrita aparece como constitutiva" (2007: XXXVIII).
Quando escreve sobre moda, parte da distinção entre fala (acto individual de selecção e actualização) e língua (instituição, sistema) e distingue três sistemas diferentes: vestuário escrito, fotografado, usado (ou real). O vestuário escrito numa revista de moda é ajudado pela linguagem articulada; a sua descrição nunca corresponde a uma execução individual das regras da moda, é um conjunto sistemático de signos e regras (Barthes, 1981: 92). O vestuário fotografado não aparece como signo abstracto, porque é usado por uma mulher individual. Já o vestuário usado (ou real) é constituído pela oposição de peças, adornos ou "detalhes", como usar um chapéu ou uma boina.
Em Sistema de moda (1967/1999), retoma a distinção. Os primeiros dois sistemas interligam-se. Por exemplo, o texto que acompanha a fotografia: "cinto de couro um pouco acima da cintura, a que uma rosa dá um toque de festa, sobre vestido leve, de shetland" (Barthes, 1999: 15). Já o terceiro sistema, o do sistema do vestuário real, não pertence ao âmbito da língua. Além de que não vemos senão um modo pessoal de usar o vestuário, um porte particular. Daí três estruturas distintas: verbal, icónica, tecnológica (esta porque o vestuário é composto de materiais físicos). A estrutura tecnológica aparece como um tipo de língua-mãe, a que as outras - as publicadas na revista de moda - são línguas mais próximas da fala.
Barthes desenvolve a ideia de shifter (aparelho; translação), do real à imagem, do real à linguagem, da imagem à linguagem (1999: 18). Do vestuário tecnológico para o icónico, o shifter é o molde de costura, o desenho que reproduz o fabrico das peças de vestuário, a que se acrescem os processos gráfico e fotográfico. A passagem do vestuário tecnológico ao escrito envolve a receita ou programa

de costura - o texto assinado na revista de moda, a recomendação. Em terceiro lugar, a transferência do vestuário icónico para o falado significa não desenhos de moldes ou textos de receitas de costura mas anafóricos da língua: "este" saia-casaco, "o" vestido de shetland.
Claro, como observa muito bem José Augusto Seabra na introdução a Mitologias (1957/2007), que traduziu, Barthes analisa a moda real e a moda escrita, optando nitidamente por esta. A moda tem a inevitabilidade da mediação da escrita. Ou, como escreve Barthes: "desde que se observa a Moda, a escrita aparece como constitutiva" (2007: XXXVIII).
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