SÁBADO, DIA DE IR AO CINEMA
Para a Marktest, na mais recente newsletter, o sábado recolhe 27,6% das respostas de ida ao cinema ao sábado (dados do Bareme Cinema). A seguir, vêm a sexta-feira (15,6%) e o domingo (11,9%). À segunda-feira, dia em que há bilhetes mais baratos, vão apenas 9,8% dos entrevistados no estudo. Entre os fãs da ida ao cinema ao sábado, prevalecem as mulheres. Os jovens até aos 35 anos representam 71,6% dos que afirmam preferir o sábado.
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
quinta-feira, 23 de março de 2006
NEWSLETTER RUA DE BAIXO DE MARÇO
Traz notícias de Vanitas, o novo filme de Paulo Rocha, a estrear no dia 30, de Le Futur Pompiste @ Mercado, indie pop finlandesa a invadir o Clube Mercado a 6 de Abril, Palmela Beat, música electrónica em 31 de Março e 1 de Abril em Palmela, e Rodney Hunter @ Mercado, a G-Stone no Mercado a 31 de Março. Tudo em Rua de Baixo.
Traz notícias de Vanitas, o novo filme de Paulo Rocha, a estrear no dia 30, de Le Futur Pompiste @ Mercado, indie pop finlandesa a invadir o Clube Mercado a 6 de Abril, Palmela Beat, música electrónica em 31 de Março e 1 de Abril em Palmela, e Rodney Hunter @ Mercado, a G-Stone no Mercado a 31 de Março. Tudo em Rua de Baixo.
ÁGUAS COM SABORES (II)
Estava a editar a anterior entrada, quando li a newsletter da Meios & Publicidade de hoje. Uma das notícias dizia respeito ao lançamento de uma gama de águas Pedras Sabores, em texto assinado por Sara Martinho.
Assim, arrancou "esta semana a primeira fase teaser da campanha publicitária da nova gama de águas Pedras Sabores com o claim «O poder da Natureza é infinito».Com um investimento global de cerca de quatro milhões de euros, a primeira fase teaser vai estar presente em mupis e será depois alargada a televisão, imprensa, rádio, outodoor, internet, cinema e carrinhos de supermercado". A campanha vai ter três filmes publicitários (da Publicis): strip, massagem e cama, com recurso "a imagens arrojadas e sensuais, utilizando os canais sensoriais para despertar as emoções associadas aos valores da marca", lê-se ainda na mesma notícia.
A marca Pedras avançará ainda "com uma acção no canal alimentar que consiste numa edição especial limitada de um Pack Duo contendo quatro garrafas de 25 cl, com duas referências de cada sabor: 2x framboesa/2x limão ou 2x pêssego/2x limão".
[continua]
Estava a editar a anterior entrada, quando li a newsletter da Meios & Publicidade de hoje. Uma das notícias dizia respeito ao lançamento de uma gama de águas Pedras Sabores, em texto assinado por Sara Martinho.
Assim, arrancou "esta semana a primeira fase teaser da campanha publicitária da nova gama de águas Pedras Sabores com o claim «O poder da Natureza é infinito».Com um investimento global de cerca de quatro milhões de euros, a primeira fase teaser vai estar presente em mupis e será depois alargada a televisão, imprensa, rádio, outodoor, internet, cinema e carrinhos de supermercado". A campanha vai ter três filmes publicitários (da Publicis): strip, massagem e cama, com recurso "a imagens arrojadas e sensuais, utilizando os canais sensoriais para despertar as emoções associadas aos valores da marca", lê-se ainda na mesma notícia.
A marca Pedras avançará ainda "com uma acção no canal alimentar que consiste numa edição especial limitada de um Pack Duo contendo quatro garrafas de 25 cl, com duas referências de cada sabor: 2x framboesa/2x limão ou 2x pêssego/2x limão".
[continua]
ÁGUAS COM SABORES (I)
Escrevi aqui aqui que gosto de ler soft news, ou aquilo a que João Paulo Meneses, no seu Blogouve-se, chama features ou estórias (aqui, seguindo Nelson Traquina). Isto a propósito de textos editados no Público. Dentro deste capítulo, destaco o relevo dado pelo jornal a temas como moda e pirataria fonográfica (que recolhi nas semanas mais recentes e que procurarei recuperar e comentar).
Mas o tema de hoje, embora não seja o standard de soft news, tem a ver com uma notícia saída no dia 19, no mesmo jornal Público, intitulada Corrida aos sabores vence prémio de marketing, assinada por Inês Sequeira. O ponto de partida foram os prémios Portugal Marketing Awards 2005 (da APPM, Associação Portuguesa de Profissionais de Marketing). A jornalista poderia escrever simplesmente que o prémio carreira foi para João Lagos (organizador do Estoril Open e do último Lisboa-Dakar), o prémio profissional de marketing para Fernando Oliveira (unidade de águas da Compal/Frize), e prémio jovem profissional de marketing para Susana Fernandes (azeites Sovena). Mas escolheu um ângulo que prende bem mais o leitor: as bebidas de água com sabores (e também o azeite).

E, assim, fica-se a saber que a Frize iniciou há quatro anos uma estratégia para criar tais bebidas. Primeiro, foram limão (2002), tangerina (2003), figo (apenas no Verão de 2004) e ananás (nesse mesmo ano de 2004). Já o ano passado, a Frize lançou bebidas com morango e maracujá.
Parece que a estratégia está a ter resultados nas vendas, com o triplo face a 2003. Além disso, há meios alternativos de publicidade: elevadores, casas de banho, aviões.
Mas a concorrência, caso da Vidago, também se lançou nas águas com sabores. E quanto a volume de vendas, também subiu? Devo dizer que consumo uma determinada marca de água com gás; quando no supermercado só há água com gás a sabor, mudo de marca. Há sempre um reverso...
[continua]
Escrevi aqui aqui que gosto de ler soft news, ou aquilo a que João Paulo Meneses, no seu Blogouve-se, chama features ou estórias (aqui, seguindo Nelson Traquina). Isto a propósito de textos editados no Público. Dentro deste capítulo, destaco o relevo dado pelo jornal a temas como moda e pirataria fonográfica (que recolhi nas semanas mais recentes e que procurarei recuperar e comentar).
Mas o tema de hoje, embora não seja o standard de soft news, tem a ver com uma notícia saída no dia 19, no mesmo jornal Público, intitulada Corrida aos sabores vence prémio de marketing, assinada por Inês Sequeira. O ponto de partida foram os prémios Portugal Marketing Awards 2005 (da APPM, Associação Portuguesa de Profissionais de Marketing). A jornalista poderia escrever simplesmente que o prémio carreira foi para João Lagos (organizador do Estoril Open e do último Lisboa-Dakar), o prémio profissional de marketing para Fernando Oliveira (unidade de águas da Compal/Frize), e prémio jovem profissional de marketing para Susana Fernandes (azeites Sovena). Mas escolheu um ângulo que prende bem mais o leitor: as bebidas de água com sabores (e também o azeite).
E, assim, fica-se a saber que a Frize iniciou há quatro anos uma estratégia para criar tais bebidas. Primeiro, foram limão (2002), tangerina (2003), figo (apenas no Verão de 2004) e ananás (nesse mesmo ano de 2004). Já o ano passado, a Frize lançou bebidas com morango e maracujá.
Parece que a estratégia está a ter resultados nas vendas, com o triplo face a 2003. Além disso, há meios alternativos de publicidade: elevadores, casas de banho, aviões.Mas a concorrência, caso da Vidago, também se lançou nas águas com sabores. E quanto a volume de vendas, também subiu? Devo dizer que consumo uma determinada marca de água com gás; quando no supermercado só há água com gás a sabor, mudo de marca. Há sempre um reverso...
[continua]
quarta-feira, 22 de março de 2006
TESE DE CARLA GANITO DEFENDIDA NA UCP
Desde hoje de manhã mestre pela UCP, Carla Ganito apresentou uma tese subordinada ao tema O impacto da mobilidade na indústria de conteúdos. Tendências de entretenimento móvel em Portugal.
Na apresentação, ela dividiu o seu trabalho em quatro partes: introdução, metodologia e enquadramento, análise de resultados e conclusões. Com uma estrutura invejável de trabalho, Carla Ganito enunciou: 1) objecto de estudo, o entretenimento móvel enquanto actividade de lazer com recurso a tecnologias pessoais e em rede, 2) objecto, o telemóvel, o meio de maior disseminação, com convergência entre comunicação e computação, multifuncional e ferramenta para a indústria de conteúdos, 3) objectivo, o impacto do telemóvel em Portugal, 4) problemática, relação entre mercado, telecomunicações e indústria de conteúdos, 5) hipótese, entretenimento móvel como impacto na indústria de conteúdos em Portugal.
Se, na fundamentação teórica, a autora escolheu fundamentalmente Marshal McLuhan (eliminação de disparidades temporais e barreiras geográficas, transformação dos consumidores em produtores, metáfora de aldeia global) e Manuel Castells (espaço de fluxos e tempo atemporal), em termos de metodologia escolheu a perspectiva científica perspectivista e de carácter exploratório, com métodos qualitativos. Fez dois estudos de caso (empresas YDreams e Direct Mobile) e efectuou entrevistas aprofundadas com diversos players da área de estudo, incluindo aquelas empresas, operadores de telecomunicações e empresas produtoras de equipamentos e de conteúdos.
Carla Ganito definiu cinco categorias de entretenimento móvel: jogos, música e toques, imagem e vídeo, media, e conteúdos para adultos. Caracterizou ainda estas áreas como começando em 1999, com o WAP, com ainda baixa penetração no mundo, excepto no Japão, com poucas barreiras à entrada e domínio da distribuição e promoção por parte dos operadores móveis. No caso português, ela detecta uma evolução de um mercado de pequenas empresas para uma consolidação (concentração) a partir de 2004. Em áreas como a música e os jogos, o negócio é de cariz internacional, enquanto os grupos de media, caso dos canais de televisão, assumem uma posição importante na cadeia de valor destas actividades.
Tomei nota de quatro pontos essenciais na análise efectuada por Carla Ganito: 1) novo contexto induzido pelo telemóvel, com conteúdos a se adaptarem ao meio, 2) bem de experiência (economia de atenção), 3) indústria fresca, 4) economia de informação, e 5) constrangimentos (domínio dos operadores, dificuldade de acesso a capitais, focagem na tecnologia e não no consumidor, indústria emergente). Já em termos de conclusões, elenquei sete: 1) o entretenimento móvel é uma área prioritária (12% do negócio pertence já aos toques), 2) terminal do entretenimento móvel é o telemóvel (a autora não estudou o mercado de videojogos), 3) domínio dos operadores, 4) papel relevante dos grupos de media, em especial os canais de televisão, 5) necessidade de cooperação entre operadores e grupos de media, 6) o que é novo é a possibilidade de chegar a uma pessoa e não a um lugar, e 7) a indústria de conteúdo não é remédio para as dificuldades das comunicações móveis, agora que o mercado da voz já está saturado.
Carla Ganito é professora na licenciatura de comunicação social e cultural da Universidade Católica Portuguesa. A sua dissertação teve orientação científica do professor Fernando Ilharco. Espero que o trabalho hoje brilhantemente defendido tenha conhecimento público, em forma de livro, artigos e entrevistas nos media clássicos como os jornais. Pela apresentação de hoje, o tema e o modo como foi abordado merecem esse destaque público.
[som da apresentação da dissertação aqui]
Desde hoje de manhã mestre pela UCP, Carla Ganito apresentou uma tese subordinada ao tema O impacto da mobilidade na indústria de conteúdos. Tendências de entretenimento móvel em Portugal.
Na apresentação, ela dividiu o seu trabalho em quatro partes: introdução, metodologia e enquadramento, análise de resultados e conclusões. Com uma estrutura invejável de trabalho, Carla Ganito enunciou: 1) objecto de estudo, o entretenimento móvel enquanto actividade de lazer com recurso a tecnologias pessoais e em rede, 2) objecto, o telemóvel, o meio de maior disseminação, com convergência entre comunicação e computação, multifuncional e ferramenta para a indústria de conteúdos, 3) objectivo, o impacto do telemóvel em Portugal, 4) problemática, relação entre mercado, telecomunicações e indústria de conteúdos, 5) hipótese, entretenimento móvel como impacto na indústria de conteúdos em Portugal.
Se, na fundamentação teórica, a autora escolheu fundamentalmente Marshal McLuhan (eliminação de disparidades temporais e barreiras geográficas, transformação dos consumidores em produtores, metáfora de aldeia global) e Manuel Castells (espaço de fluxos e tempo atemporal), em termos de metodologia escolheu a perspectiva científica perspectivista e de carácter exploratório, com métodos qualitativos. Fez dois estudos de caso (empresas YDreams e Direct Mobile) e efectuou entrevistas aprofundadas com diversos players da área de estudo, incluindo aquelas empresas, operadores de telecomunicações e empresas produtoras de equipamentos e de conteúdos.
Carla Ganito definiu cinco categorias de entretenimento móvel: jogos, música e toques, imagem e vídeo, media, e conteúdos para adultos. Caracterizou ainda estas áreas como começando em 1999, com o WAP, com ainda baixa penetração no mundo, excepto no Japão, com poucas barreiras à entrada e domínio da distribuição e promoção por parte dos operadores móveis. No caso português, ela detecta uma evolução de um mercado de pequenas empresas para uma consolidação (concentração) a partir de 2004. Em áreas como a música e os jogos, o negócio é de cariz internacional, enquanto os grupos de media, caso dos canais de televisão, assumem uma posição importante na cadeia de valor destas actividades.
Tomei nota de quatro pontos essenciais na análise efectuada por Carla Ganito: 1) novo contexto induzido pelo telemóvel, com conteúdos a se adaptarem ao meio, 2) bem de experiência (economia de atenção), 3) indústria fresca, 4) economia de informação, e 5) constrangimentos (domínio dos operadores, dificuldade de acesso a capitais, focagem na tecnologia e não no consumidor, indústria emergente). Já em termos de conclusões, elenquei sete: 1) o entretenimento móvel é uma área prioritária (12% do negócio pertence já aos toques), 2) terminal do entretenimento móvel é o telemóvel (a autora não estudou o mercado de videojogos), 3) domínio dos operadores, 4) papel relevante dos grupos de media, em especial os canais de televisão, 5) necessidade de cooperação entre operadores e grupos de media, 6) o que é novo é a possibilidade de chegar a uma pessoa e não a um lugar, e 7) a indústria de conteúdo não é remédio para as dificuldades das comunicações móveis, agora que o mercado da voz já está saturado.
Carla Ganito é professora na licenciatura de comunicação social e cultural da Universidade Católica Portuguesa. A sua dissertação teve orientação científica do professor Fernando Ilharco. Espero que o trabalho hoje brilhantemente defendido tenha conhecimento público, em forma de livro, artigos e entrevistas nos media clássicos como os jornais. Pela apresentação de hoje, o tema e o modo como foi abordado merecem esse destaque público.
[som da apresentação da dissertação aqui]
VOZES DA RÁDIO
Os media clássicos - imprensa e rádio, nomeadamente - e os novos media, como os blogues, já deram duas notícias sobre vozes da rádio, desde ontem ou anteontem. Uma é agradável, a outra triste.
A agradável é a nomeação de José Nuno Martins para provedor do ouvinte na RDP (rádio do Estado). A voz do programa "Os cantores da rádio" e de muitos outros tem um reconhecido mérito. Durante muitos anos, Nuno Martins foi um dos realizadores de rádio da minha preferência, formando o bom gosto por ouvir a rádio.
A notícia triste é a morte de José Ramos, inconfundível voz da rádio e também voz off na SIC. Tinha 51 anos de idade. Hoje, quando eu vinha de automóvel da universidade para casa, ao começo da tarde, escutava Luís Caetano, no seu programa da Antena 2, a homenagear o locutor e realizador da rádio, pondo no ar uma das suas últimas colaborações na Antena 1, de manhã, nos "reis da rádio". José Ramos chamava "caramelo" a um director de antena de uma rádio temática, que tinha uma playlist de 250 canções e as punha em medição de audiências para saber o que passar na antena da estação, para agradar à mesma audiência.

Observação: retiro de empréstimo as páginas em papel do Diário de Notícias e do Público de hoje para ilustrar as duas notícias.
Os media clássicos - imprensa e rádio, nomeadamente - e os novos media, como os blogues, já deram duas notícias sobre vozes da rádio, desde ontem ou anteontem. Uma é agradável, a outra triste.
A agradável é a nomeação de José Nuno Martins para provedor do ouvinte na RDP (rádio do Estado). A voz do programa "Os cantores da rádio" e de muitos outros tem um reconhecido mérito. Durante muitos anos, Nuno Martins foi um dos realizadores de rádio da minha preferência, formando o bom gosto por ouvir a rádio.A notícia triste é a morte de José Ramos, inconfundível voz da rádio e também voz off na SIC. Tinha 51 anos de idade. Hoje, quando eu vinha de automóvel da universidade para casa, ao começo da tarde, escutava Luís Caetano, no seu programa da Antena 2, a homenagear o locutor e realizador da rádio, pondo no ar uma das suas últimas colaborações na Antena 1, de manhã, nos "reis da rádio". José Ramos chamava "caramelo" a um director de antena de uma rádio temática, que tinha uma playlist de 250 canções e as punha em medição de audiências para saber o que passar na antena da estação, para agradar à mesma audiência.

Observação: retiro de empréstimo as páginas em papel do Diário de Notícias e do Público de hoje para ilustrar as duas notícias.
A HISTÓRIA DO JAZZ, SEGUNDO ERIC J. HOBSBAWM
Hobsbawm escreveu inicialmente a sua História social do jazz em 1959-1961 sob o pseudónimo de Francis Newton (de Frankie Newton, trompetista), para manter separada a sua obra de historiador da de jornalista de jazz no New Statesman. A edição não teve êxito, pelo que ele propôs uma nova edição, saída já com o seu nome, como explica na introdução feita nessa edição de 1989 (e que serve de ponto de partida para a tradução feita no Brasil em 2004).
O autor divide o livro em quatro partes: 1) história, 2) música, 3) negócios, e 4) gente. Na minha leitura, a última parte é a menos interessante, pois mistura frequentemente a análise com considerações de ordem ideológica, o que obscurece a compreensão (o jazz como protesto social, o jazz como afirmação contra a opressão política da classe dominante). Já a segunda e a terceira partes parecem-me mais estimulantes, com o autor a aliar um grande conhecimento da história do jazz e uma bela escrita literária, jogando com estilos e linguagens musicais, instrumentos e tipos de pessoas e ambientes sociais muito ricos.
Surgido como forma musical reconhecível por volta de 1900, Hobsbawm vê o seu "grande despertar" na mescla de música europeia e africana, de inspiração religiosa, em direcção a New Orleans. O autor encontra ainda outros dois factores: o aparecimento do entretenimento profissional dos trabalhadores pobres e o crescimento das grandes cidades. Hobsbawm divide, grosso modo, a história do jazz em quatro tempos: 1) pré-história, de 1900 a 1917, quando se torna a música negra em todos os Estados Unidos (ragtime, síncope), 2) antigo, de 1917 a 1929, em que o jazz estrito se expandiu pouo mas evoluiu muito (jazz), 3) médio, de 1929 a 1941, conquista de públicos minoritários na Europa e com músicos avant-garde (swing), e 4) moderno, a partir de 1941, quando se dá a verdadeira internacionalização e aceitação de linguagens puras (bop ou cool). Esta periodização corresponde a uma estrutura tripla: pré-história, expansão e transformação.
Recorde-se que, a partir de 1920, as empresas de discos passam a achar valer a pena a gravação exclusivamente para o mercado de negros. Aliás, o jazz é uma forma de fazer música mas também uma forma de fazer lucros, combinando entretenimento comercial realizado por artistas profissionais contratados por empresários de variado tipo, em que a venda de ingressos e os níveis de vendas são determinantes no movimento da arte e do destino dos artistas. Ao mesmo tempo, Hobsbawm analisa dois momentos diferentes na conduta dos músicos: o espectáculo (para ganhar dinheiro) e a junção de músicos após os concertos (after hours), onde têm liberdade de movimentos e se ouvem uns aos outros em jam sessions, sem tocar estereótipos e o tipo de música que o público quer ouvir.
Linguagem de dança moderna e música popular da civilização industrial, o jazz tem, na perspectiva do autor, cinco características principais: 1) peculiaridades quanto ao uso de escalas orginárias da África ocidental, 2) ritmo africano, 3) cores instrumentais e vocais próprias (poucas cordas e muitos metais e madeiras), 4) formas musicais e repertório específicos (blues, balada), e 5) música de executantes (e menos de compositor).
O jazz, diz Hobsbawm, foi sempre um interesse de minoria, de modo semelhante ao da música clássica, mas o eco junto dos fãs nunca se estabilizou como na última. Esta instabilidade teve razão devido à ascenção do rock, tipo de música com o qual o jazz estabeleceu relações de interinfluência. Mas o rock superou o jazz, devido à inovação tecnológica (o uso da música electrónica na guitarra, o microfone pessoal, o sintetizador), à ideia de conjunto ou banda (unidade colectiva, ao passo que o jazz é um agrupamento de individualidades que se expõem em solos) e o ritmo insistente e palpitante.
Leitura: Eric J. Hobsbawm [Francis Newton] (2004). História social do jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Hobsbawm escreveu inicialmente a sua História social do jazz em 1959-1961 sob o pseudónimo de Francis Newton (de Frankie Newton, trompetista), para manter separada a sua obra de historiador da de jornalista de jazz no New Statesman. A edição não teve êxito, pelo que ele propôs uma nova edição, saída já com o seu nome, como explica na introdução feita nessa edição de 1989 (e que serve de ponto de partida para a tradução feita no Brasil em 2004).
O autor divide o livro em quatro partes: 1) história, 2) música, 3) negócios, e 4) gente. Na minha leitura, a última parte é a menos interessante, pois mistura frequentemente a análise com considerações de ordem ideológica, o que obscurece a compreensão (o jazz como protesto social, o jazz como afirmação contra a opressão política da classe dominante). Já a segunda e a terceira partes parecem-me mais estimulantes, com o autor a aliar um grande conhecimento da história do jazz e uma bela escrita literária, jogando com estilos e linguagens musicais, instrumentos e tipos de pessoas e ambientes sociais muito ricos.Surgido como forma musical reconhecível por volta de 1900, Hobsbawm vê o seu "grande despertar" na mescla de música europeia e africana, de inspiração religiosa, em direcção a New Orleans. O autor encontra ainda outros dois factores: o aparecimento do entretenimento profissional dos trabalhadores pobres e o crescimento das grandes cidades. Hobsbawm divide, grosso modo, a história do jazz em quatro tempos: 1) pré-história, de 1900 a 1917, quando se torna a música negra em todos os Estados Unidos (ragtime, síncope), 2) antigo, de 1917 a 1929, em que o jazz estrito se expandiu pouo mas evoluiu muito (jazz), 3) médio, de 1929 a 1941, conquista de públicos minoritários na Europa e com músicos avant-garde (swing), e 4) moderno, a partir de 1941, quando se dá a verdadeira internacionalização e aceitação de linguagens puras (bop ou cool). Esta periodização corresponde a uma estrutura tripla: pré-história, expansão e transformação.
Recorde-se que, a partir de 1920, as empresas de discos passam a achar valer a pena a gravação exclusivamente para o mercado de negros. Aliás, o jazz é uma forma de fazer música mas também uma forma de fazer lucros, combinando entretenimento comercial realizado por artistas profissionais contratados por empresários de variado tipo, em que a venda de ingressos e os níveis de vendas são determinantes no movimento da arte e do destino dos artistas. Ao mesmo tempo, Hobsbawm analisa dois momentos diferentes na conduta dos músicos: o espectáculo (para ganhar dinheiro) e a junção de músicos após os concertos (after hours), onde têm liberdade de movimentos e se ouvem uns aos outros em jam sessions, sem tocar estereótipos e o tipo de música que o público quer ouvir.
Linguagem de dança moderna e música popular da civilização industrial, o jazz tem, na perspectiva do autor, cinco características principais: 1) peculiaridades quanto ao uso de escalas orginárias da África ocidental, 2) ritmo africano, 3) cores instrumentais e vocais próprias (poucas cordas e muitos metais e madeiras), 4) formas musicais e repertório específicos (blues, balada), e 5) música de executantes (e menos de compositor).
O jazz, diz Hobsbawm, foi sempre um interesse de minoria, de modo semelhante ao da música clássica, mas o eco junto dos fãs nunca se estabilizou como na última. Esta instabilidade teve razão devido à ascenção do rock, tipo de música com o qual o jazz estabeleceu relações de interinfluência. Mas o rock superou o jazz, devido à inovação tecnológica (o uso da música electrónica na guitarra, o microfone pessoal, o sintetizador), à ideia de conjunto ou banda (unidade colectiva, ao passo que o jazz é um agrupamento de individualidades que se expõem em solos) e o ritmo insistente e palpitante.
Leitura: Eric J. Hobsbawm [Francis Newton] (2004). História social do jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
terça-feira, 21 de março de 2006
ONDE SURGEM AS NOTÍCIAS NOVAS?
De acordo com notícia de anteontem do USA TODAY, exclusivos e notícias novas (breaking news) estão a passar das primeiras páginas dos jornais para as filiais dos media na internet.
Isto deve-se às disponibilidades introduzidas pela banda larga e pela tecnologia sem fios, que torna mais fácil a produção de texto e vídeo e permite a qualquer pessoa editar essas informações, a partir de casa, do escritório e da rua, usando um telefone celular ou um computador sem fios.
Claro que o papel do jornalista, acrescento eu, continua a ser imprescindível. É ele que selecciona, que indica o que é mais importante, que interpreta.
De acordo com notícia de anteontem do USA TODAY, exclusivos e notícias novas (breaking news) estão a passar das primeiras páginas dos jornais para as filiais dos media na internet.
Isto deve-se às disponibilidades introduzidas pela banda larga e pela tecnologia sem fios, que torna mais fácil a produção de texto e vídeo e permite a qualquer pessoa editar essas informações, a partir de casa, do escritório e da rua, usando um telefone celular ou um computador sem fios.
Claro que o papel do jornalista, acrescento eu, continua a ser imprescindível. É ele que selecciona, que indica o que é mais importante, que interpreta.
NOVOS TIPOS DE EMPREGO TECNOLÓGICO
Segundo notícia saída no domingo passado no El Pais (texto de Susana Hidalgo), o mercado de telecomunicações procura empresários capazes de se adaptarem a novos negócios, como o lazer pelo telefone celular e a telefonia pela internet.

Há a ideia de reciclagem permanente. Se, há anos, o boom estava na internet, agora o mercado aposta nos conteúdos de alta definição e banda larga, na venda de conteúdos por canais alternativos (como o iTunes e comercialização de canções), na gestão nos telefones móveis (como operar na Bolsa e saber a que horas chega o autocarro) e na televisão digital terrestre. À escala mundial e em 2005, o mercado digital gerou à volta de €2700 mil milhões.
A notícia, que segue um estudo da consultora Accenture, fala de um perfil determinado de dirigente: aquele que tem uma visão global dos mercados e que não está centrado no seu sector de actividade ou região. Dantes, as empresas precisavam sobretudo de engenheiros; agora, empregam também gestores com conhecimentos comerciais e financeiros, ou seja, empresários multidisciplinares.
Segundo notícia saída no domingo passado no El Pais (texto de Susana Hidalgo), o mercado de telecomunicações procura empresários capazes de se adaptarem a novos negócios, como o lazer pelo telefone celular e a telefonia pela internet.

Há a ideia de reciclagem permanente. Se, há anos, o boom estava na internet, agora o mercado aposta nos conteúdos de alta definição e banda larga, na venda de conteúdos por canais alternativos (como o iTunes e comercialização de canções), na gestão nos telefones móveis (como operar na Bolsa e saber a que horas chega o autocarro) e na televisão digital terrestre. À escala mundial e em 2005, o mercado digital gerou à volta de €2700 mil milhões.
A notícia, que segue um estudo da consultora Accenture, fala de um perfil determinado de dirigente: aquele que tem uma visão global dos mercados e que não está centrado no seu sector de actividade ou região. Dantes, as empresas precisavam sobretudo de engenheiros; agora, empregam também gestores com conhecimentos comerciais e financeiros, ou seja, empresários multidisciplinares.
HIP-HOP (II)
[continuação da entrada de ontem]
Inês Pinto Correia, Joana Lopes e Vera Silva aplicaram o seu inquérito no momento em que o rapper 50 Cent actuou no Pavilhão Atlântico (Lisboa), a 1 de Outubro do ano passado, querendo validar a hipótese: a transformação do hip-hop de cultura marginal e restrita numa cultura mainstream. Claro que os 100 inquiridos, pela ida ao concerto, eram fãs do rapper.


As três alunas definiram uma faixa etária consistente: 56% tinham entre 21 e 29 anos. Seguiam-se a faixa dos 16 aos 20 anos e 14% dos 10 aos 15 anos. Aqui, há uma distinção face ao texto empregue ontem ("Pública", 20 de Novembro de 2005), pois o público do 50 Cent é mais jovem que o analisado no inquérito. A minha explicação é que uma coisa é gostar do músico e outra o ter dinheiro para ir ao concerto, com os mais velhos a disporem dessa facilidade.
Como o hip-hop é um género suburbano, a Grande Lisboa representa, no inquérito, 41% da área de residência dos fãs. Igual percentagem conhece o artista há mais de três anos, pois foi nessa altura que 50 Cent foi considerado a revelação do ano. O que ilustra a actualidade dos fãs e liga o artista ao fenómeno comercial que caracteriza o género.
55% dos fãs está mais interessado no ritmo do que nas letras e na mensagem veiculada nas músicas. Estilo de vida (42%) e estilo de música (41%) são os valores mais evidentes da música transmitida pelo rapper. Já a mensagem do hip-hop, segundo os inquiridos, pode desdobrar-se em revolta (23%), estilo de vida e sexo (19% cada), liberdade e paz (14% cada) e crítica social (12%). O público do músico tomou conhecimento dele maioritariamente através da televisão, sendo menor o conhecimento veiculado pela rádio e por amigos.
Quanto a outros estilos de música, os inquiridos referiram Rythm & Blues (31%), pop (22%), rock (18%), alternativa (8%), heavy metal (4%). E, conquanto a televisão seja a principal fonte de informação dos respondentes, a Rádio Cidade é a estação favorita, pois passa os três principais géneros musicais de preferência. E 59% declarariam fazer downloads das músicas, com 12% a afirmarem comprar merchandising do artista.
[continuação da entrada de ontem]
Inês Pinto Correia, Joana Lopes e Vera Silva aplicaram o seu inquérito no momento em que o rapper 50 Cent actuou no Pavilhão Atlântico (Lisboa), a 1 de Outubro do ano passado, querendo validar a hipótese: a transformação do hip-hop de cultura marginal e restrita numa cultura mainstream. Claro que os 100 inquiridos, pela ida ao concerto, eram fãs do rapper.


As três alunas definiram uma faixa etária consistente: 56% tinham entre 21 e 29 anos. Seguiam-se a faixa dos 16 aos 20 anos e 14% dos 10 aos 15 anos. Aqui, há uma distinção face ao texto empregue ontem ("Pública", 20 de Novembro de 2005), pois o público do 50 Cent é mais jovem que o analisado no inquérito. A minha explicação é que uma coisa é gostar do músico e outra o ter dinheiro para ir ao concerto, com os mais velhos a disporem dessa facilidade.
Como o hip-hop é um género suburbano, a Grande Lisboa representa, no inquérito, 41% da área de residência dos fãs. Igual percentagem conhece o artista há mais de três anos, pois foi nessa altura que 50 Cent foi considerado a revelação do ano. O que ilustra a actualidade dos fãs e liga o artista ao fenómeno comercial que caracteriza o género.
55% dos fãs está mais interessado no ritmo do que nas letras e na mensagem veiculada nas músicas. Estilo de vida (42%) e estilo de música (41%) são os valores mais evidentes da música transmitida pelo rapper. Já a mensagem do hip-hop, segundo os inquiridos, pode desdobrar-se em revolta (23%), estilo de vida e sexo (19% cada), liberdade e paz (14% cada) e crítica social (12%). O público do músico tomou conhecimento dele maioritariamente através da televisão, sendo menor o conhecimento veiculado pela rádio e por amigos.
Quanto a outros estilos de música, os inquiridos referiram Rythm & Blues (31%), pop (22%), rock (18%), alternativa (8%), heavy metal (4%). E, conquanto a televisão seja a principal fonte de informação dos respondentes, a Rádio Cidade é a estação favorita, pois passa os três principais géneros musicais de preferência. E 59% declarariam fazer downloads das músicas, com 12% a afirmarem comprar merchandising do artista.
segunda-feira, 20 de março de 2006
- COMUNICADOS DO GOVERNO?
No dia 16, pelas 11:54:39, foi colocado o seguinte comentário neste blogue: "gostaria que me indicassem um email para vos enviar informação com relevância para eventual publicação no vosso blog. Carlos Narciso assessor do Ministro dos Assuntos Parlamentares". Segui o rasto, que me levou a Carlos Narciso, 47 anos, do signo Virgem e do ano do Cão, animador do blogue Escrita em dia.
No Público de hoje, na secção nacional (p. 14), percebi a razão. Augusto Santos Silva, o ministro, pediu uma lista de blogues, ponderando o envio de comunicados do governo para estes novos meios de comunicação, agora que está em causa o alargamento da discussão pública sobre as leis da rádio e da televisão e a legislação sobre a concentração dos meios de comunicação social.Agradeço o contacto, embora não entenda o alcance. É que o ministro está diariamente a perder a sua "batalha", como se viu ontem no jornal Público, com a escrita violentíssima do crítico de televisão Eduardo Cintra Torres. E não creio que os blogues possam servir de re-equilíbrio face aos media clássicos, pelo que conheço dos blogues identificados na notícia do jornal como tendo recebido a referida mensagem.
- A PUBLICIDADE NA "PÚBLICA"
No dia 26 de Fevereiro, escrevi sobre um anúncio inserido no meio de uma página sobre José Afonso na revista "Pública". O provedor do leitor chamou a atenção dos responsáveis do jornal. A desculpa dada foi: falta de atenção.
Valha a verdade que, ontem, no meio da história de um russo que fez um palacete no seu país imitando um monumento manuelino, o mesmo anúncio voltou a aparecer. O que aconteceu desta vez? Nova distracção?
HIP-HOP (I)
A capa do último suplemento "Y" do Público (17 de Março) destacava o hip-hop de luxo, trazendo uma fotografia de Kanye West. Dentro, para além deste, vinha a imagem de Pharrell Williams. Começo do lead: "A Esquire americana elegeu Pharrell Williams como o homem mais bem vestido do mundo. Kanye West foi considerado pela Time um dos 100 mais influentes homens do nosso tempo".
Ambos, diz ainda o texto de Vítor Belenciano, já não correspondem ao estereótipo de negro amante de rap, habitante de bairros degradados e revoltado com o mundo. Kanye cresceu em Chicago e é filho de pai sociólogo e mãe professora universitária; Pharrel nasceu na Virgínia no seio de uma família burguesa. Para ambos, o hip-hop é arte, negócio e entretenimento.

Se esta análise do Público foca especialmente o mundo da produção do hip-hop, o jornal já dedicara atenção, algum tempo atrás, ao mundo da recepção do hip-hop ("Pública", 20 de Novembro de 2005). Aí, revisitava-se o universo juvenil que assistira ao concerto dos "50 Cent", rap duro com história violenta ligado ao tráfico de droga e à luta de gangsters, cujo concerto no Pavilhão Atlântico atraiu 15 mil pessoas (texto de Joana Gorjão Henriques). Mas o sociólogo António Contador, autor de Cultura juvenil negra, entende que "O que a indústria musical portuguesa não percebeu foi que o cliché hip-hop-preto-jovem-pobre não faz sentido e que a essência do hip-hop não é a negritude, mas a juventude urbana", "tão consumível como os D'Zert".


Rap quer dizer Rhythm and Poetry e Hip-hop é a união entre hip (balancear as ancas) e hop (salto). Segundo este segundo texto, o rap nasceu em Nova Iorque, mas nos finais dos anos de 1980 surgiu em Los Angeles uma nova escola, o "gangsta" rap, com discurso rude e hiper-realista. No nosso país, o rap foi usado nos anos 1994 e 1995 para protagonizar uma mensagem de tolerância racial e de denúncia de injustiças sociais.
A capa do último suplemento "Y" do Público (17 de Março) destacava o hip-hop de luxo, trazendo uma fotografia de Kanye West. Dentro, para além deste, vinha a imagem de Pharrell Williams. Começo do lead: "A Esquire americana elegeu Pharrell Williams como o homem mais bem vestido do mundo. Kanye West foi considerado pela Time um dos 100 mais influentes homens do nosso tempo".Ambos, diz ainda o texto de Vítor Belenciano, já não correspondem ao estereótipo de negro amante de rap, habitante de bairros degradados e revoltado com o mundo. Kanye cresceu em Chicago e é filho de pai sociólogo e mãe professora universitária; Pharrel nasceu na Virgínia no seio de uma família burguesa. Para ambos, o hip-hop é arte, negócio e entretenimento.

Se esta análise do Público foca especialmente o mundo da produção do hip-hop, o jornal já dedicara atenção, algum tempo atrás, ao mundo da recepção do hip-hop ("Pública", 20 de Novembro de 2005). Aí, revisitava-se o universo juvenil que assistira ao concerto dos "50 Cent", rap duro com história violenta ligado ao tráfico de droga e à luta de gangsters, cujo concerto no Pavilhão Atlântico atraiu 15 mil pessoas (texto de Joana Gorjão Henriques). Mas o sociólogo António Contador, autor de Cultura juvenil negra, entende que "O que a indústria musical portuguesa não percebeu foi que o cliché hip-hop-preto-jovem-pobre não faz sentido e que a essência do hip-hop não é a negritude, mas a juventude urbana", "tão consumível como os D'Zert".


Rap quer dizer Rhythm and Poetry e Hip-hop é a união entre hip (balancear as ancas) e hop (salto). Segundo este segundo texto, o rap nasceu em Nova Iorque, mas nos finais dos anos de 1980 surgiu em Los Angeles uma nova escola, o "gangsta" rap, com discurso rude e hiper-realista. No nosso país, o rap foi usado nos anos 1994 e 1995 para protagonizar uma mensagem de tolerância racial e de denúncia de injustiças sociais.
domingo, 19 de março de 2006
- OBRIGADO
A todos(as) que colocaram comentários na minha mensagem de 17 de Março, bem assim como aqueles que assinalaram os três anos do I.C. nos seus blogues.
MAIS PUBLICIDADE EM MUPIS


















Chá (Lipton), jogos (Playstation), roupa (Throttleman), roupa e acção social (Lanidor), jornal (Público), relógios (Tissot), conta de electricidade (EDP), bebidas (Sagres; Coca Cola), queijo (Castelões), concerto de música (Marley), cartão bancário (Visa), automóveis (Citröen; Renault), exposição (São Francisco Xavier) e teatro (da Garagem), eis a panóplia quase completa dos actuais mupis em Lisboa.


















Chá (Lipton), jogos (Playstation), roupa (Throttleman), roupa e acção social (Lanidor), jornal (Público), relógios (Tissot), conta de electricidade (EDP), bebidas (Sagres; Coca Cola), queijo (Castelões), concerto de música (Marley), cartão bancário (Visa), automóveis (Citröen; Renault), exposição (São Francisco Xavier) e teatro (da Garagem), eis a panóplia quase completa dos actuais mupis em Lisboa.
AGENDAS CULTURAIS
De Março as de Lisboa e de Tomar, até Abril a de Cascais.


Relevo a de Cascais, pela oportunidade de destacar a passagem de Edward Murrow pelo Estoril em 1940-1942. Agora que o filme Boa noite e boa sorte (realizado por George Clooney) está a fazer carreira, é interessante recordar que o broadcaster e jornalista Edward Murrow, figura central do filme, opondo-se ao senador Joseph McCarthy, esteve múltiplas vezes no hotel Palácio, no Estoril. O texto da agenda cultural, não assinado, recorda com pormenor essas estadias em Portugal.

Destaque ainda para a figura de Fernando Lopes Graça, recordado nas agendas de Tomar e de Cascais.
De Março as de Lisboa e de Tomar, até Abril a de Cascais.


Relevo a de Cascais, pela oportunidade de destacar a passagem de Edward Murrow pelo Estoril em 1940-1942. Agora que o filme Boa noite e boa sorte (realizado por George Clooney) está a fazer carreira, é interessante recordar que o broadcaster e jornalista Edward Murrow, figura central do filme, opondo-se ao senador Joseph McCarthy, esteve múltiplas vezes no hotel Palácio, no Estoril. O texto da agenda cultural, não assinado, recorda com pormenor essas estadias em Portugal.
Destaque ainda para a figura de Fernando Lopes Graça, recordado nas agendas de Tomar e de Cascais.
- CONTADORES DE HISTÓRIAS
Começou ontem, mas prolonga-se até 3 de Junho, percorrendo muitos municípios do país. A ideia, conforme se lê no blogue Casa de Garrett, "Aos participantes é sugerido que tragam um livro de casa, de forma a ser trabalhado na sessão. Um aspecto significativo deste projecto é a maneira informal como chega aos pais: as sessões são divertidas, os participantes são convidados a mudarem o seu ângulo de visão para se tornarem eles próprios receptores dos contos, entendendo assim de uma forma mais correcta como é que os seus filhos ouvem as histórias. Mas a experiência individual é muito importante, pelo que as oficinas são um espaço de diálogo e debate em que todos podem participar".
Trata-se, continua a ler-se naquele blogue, do "Reflexo do trabalho de uma década na promoção da leitura por parte do Grupo O Contador de Histórias, a Oficina de Sobrevivência para Pais Contadores de Histórias pretende ser um espaço de diálogo e informação para aqueles que diariamente se vêem confrontados com a necessidade de contar histórias aos filhos".
Depois de ter passado por Aveiro, as próximas sessões serão em: 1) Loulé (Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner, 22 de Março, 16:30), 2) Cascais (Biblioteca Municipal, 25 de Março, 15:30), e 3) Lisboa (Loja Fermento, 4 de Abri, 18:00). Participação: €10.
- UMA EDITORA DE LIVROS NO BRASIL
Em mensagem que escrevi sobre o livro de José Afonso Furtado, referi o projecto gráfico e a editora do livro, Escritório do Livro, com sede em Florianópolis, no Brasil. Convido os leitores a darem uma espreitadela ao sítio do Escritório do Livro, onde o amor pelos livros é mais que evidente.
sábado, 18 de março de 2006
PEÇA NO TEATRO PAX-JULIA (BEJA)
A decorrer nos dias 27, 28, 29 e 31 de Março em Beja, no teatro Pax-Julia. Do comunicado recebido, lê-se: "O espectáculo, construído para uma única actriz, divide-se em duas partes: na primeira, a personagem Maria Madalena dá voz ao belíssimo e perturbante texto de Marguerite Yourcenar, situado, nas suas palavras, «no mundo judaico-sírio onde o cristianismo surgiu, e que os pintores da Renascença e da era barroca gostaram sempre de povoar com belas arquitecturas clássicas». Na segunda parte, o mesmo corpo encarna uma outra personagem, pertencente à cultura moderna e urbana: Janis Joplin, cantora americana, que personificou os mais alarmantes aspectos do estilo de vida rockn'roll".
Texto de Marguerite Yourcenar, Maria Madalena ou a salvação, e de Janis Joplin, por ela própria. Encenação e interpretação de Gisela Cañamero, com violoncelo de Alina Berezowvska. Dramaturgia de Tito Lívio e Gisela Cañamero. Cenário e figurinos de José Barbieri. Banda sonora das canções de Janis Joplin gravadas em estúdio por Luís Beco (bateria), Joca (guitarra), Mazin Ferreira (baixo) e Zé Leaça (teclas). Som de Luís Beco. Luz de Ivan Castro. Imagem de Rafael del Rio. Assistência técnica de Adriana Freitas, Ana Raquel e Rute Inocêncio. Produção Arte Pública e Cigarra na Paisagem.
A decorrer nos dias 27, 28, 29 e 31 de Março em Beja, no teatro Pax-Julia. Do comunicado recebido, lê-se: "O espectáculo, construído para uma única actriz, divide-se em duas partes: na primeira, a personagem Maria Madalena dá voz ao belíssimo e perturbante texto de Marguerite Yourcenar, situado, nas suas palavras, «no mundo judaico-sírio onde o cristianismo surgiu, e que os pintores da Renascença e da era barroca gostaram sempre de povoar com belas arquitecturas clássicas». Na segunda parte, o mesmo corpo encarna uma outra personagem, pertencente à cultura moderna e urbana: Janis Joplin, cantora americana, que personificou os mais alarmantes aspectos do estilo de vida rockn'roll".Texto de Marguerite Yourcenar, Maria Madalena ou a salvação, e de Janis Joplin, por ela própria. Encenação e interpretação de Gisela Cañamero, com violoncelo de Alina Berezowvska. Dramaturgia de Tito Lívio e Gisela Cañamero. Cenário e figurinos de José Barbieri. Banda sonora das canções de Janis Joplin gravadas em estúdio por Luís Beco (bateria), Joca (guitarra), Mazin Ferreira (baixo) e Zé Leaça (teclas). Som de Luís Beco. Luz de Ivan Castro. Imagem de Rafael del Rio. Assistência técnica de Adriana Freitas, Ana Raquel e Rute Inocêncio. Produção Arte Pública e Cigarra na Paisagem.
ENCONTRO NACIONAL DE BLOGUES
Organizado por Oceano de palavras, irá decorrer no dia 22 de Abril, um encontro de blogues em Seia. A concentração dos participantes efectua-se nesse dia, pelas 10:00, no café Residência, frente à Câmara Municipal de Seia. Meia hora depois, dá-se a saída em visita ao Sabugueiro (aldeia mais alta do País), com percurso pedestre no local. O almoço (12:30) é no restaurante Montanha, no Sabugueiro. Segue-se uma visita às Lagoas, pistas de ski e Torre, acabando com jantar e convívio (20:00) na Quinta do Crestelo, seguido de visita ao Museu Nacional do Pão. As inscrições decorrem até 15 de Abril.
Para inscrições, contactar com Luís Silva.
Organizado por Oceano de palavras, irá decorrer no dia 22 de Abril, um encontro de blogues em Seia. A concentração dos participantes efectua-se nesse dia, pelas 10:00, no café Residência, frente à Câmara Municipal de Seia. Meia hora depois, dá-se a saída em visita ao Sabugueiro (aldeia mais alta do País), com percurso pedestre no local. O almoço (12:30) é no restaurante Montanha, no Sabugueiro. Segue-se uma visita às Lagoas, pistas de ski e Torre, acabando com jantar e convívio (20:00) na Quinta do Crestelo, seguido de visita ao Museu Nacional do Pão. As inscrições decorrem até 15 de Abril.Para inscrições, contactar com Luís Silva.
- O QUE É UM BLOGUE?
A polémica começou aqui, no dia 14, quando escrevi sobre as jornadas de Portalegre, onde se discutiu o tema dos blogues. Depois, foi transferida para o blogue de Paulo Querido, Mas certamente que sim. Vale a pena espreitar essa mensagem e os comentários.
O CONTRADITÓRIO SOBRE OS MORANGOS COM AÇÚCAR
No último número da revista pontos nos ii (que acompanhou a edição nº 5830 do Público), um tema foi a série Morangos com açúcar, sobre a qual tenho aqui escrito. A posição da publicação é interessante, pois pegou numa perspectiva que a olha como deseducativa (Alice Vieira, escritora e jornalista) e outra que acha que os pais e professores devem vê-la com outros olhares (Clara Ferrão Tavares, professora do ensino secundário e autora do livro A escola e a televisão: olhares cruzados, 2004).


Alice Vieira escreveu: "o que mais me move contra eles [a série] é a má qualidade do produto". E continua: "Mau ainda a ligeireza com que problemas sérios (geralmente metidos a martelo) são abordados, numa discussão (?) onde só há lamechice e lugares-comuns. [...] aqueles colégios não existem, aquele bar não existe, aqueles professores não existem, aqueles alunos não existem".
A opinião de Clara Ferrão Tavares é oposta: "Mostra escolas bonitas com equipamentos modernos, frequentadas por diferentes grupos urbanos, escolas com projectos, escolas abertas a outros espaços de aprendizagem. Mostra a importância da amizade, da solidariedade, da justiça. Coloca em situação de risco as adolescentes que não cumprem as regras. Mostra situações em que os jovens se apaixonam nem sempre pelas pessoas «certas». Mostra jovens que vão à discoteca, que praticam desportos radicais, que se passeiam pelos centros comerciais. Provoca o aparecimento de blogues e de fóruns e os adolescentes escrevem, mesmo que as regras da escola não sejam seguidas.. e de livros e peças de teatro". E Clara Ferrão Tavares quase conclui assim: "Por favor, pais e professores! Não fechem esta escola, não desliguem a televisão e já agora aproveitem para espreitar para esta escola".
O blogueiro regista esta dissidência e reflecte sobre os pontos de vista de Clara Ferrão Tavares. Nunca pensara assim, e há lógica no que ela escreve.
No último número da revista pontos nos ii (que acompanhou a edição nº 5830 do Público), um tema foi a série Morangos com açúcar, sobre a qual tenho aqui escrito. A posição da publicação é interessante, pois pegou numa perspectiva que a olha como deseducativa (Alice Vieira, escritora e jornalista) e outra que acha que os pais e professores devem vê-la com outros olhares (Clara Ferrão Tavares, professora do ensino secundário e autora do livro A escola e a televisão: olhares cruzados, 2004).


Alice Vieira escreveu: "o que mais me move contra eles [a série] é a má qualidade do produto". E continua: "Mau ainda a ligeireza com que problemas sérios (geralmente metidos a martelo) são abordados, numa discussão (?) onde só há lamechice e lugares-comuns. [...] aqueles colégios não existem, aquele bar não existe, aqueles professores não existem, aqueles alunos não existem".
A opinião de Clara Ferrão Tavares é oposta: "Mostra escolas bonitas com equipamentos modernos, frequentadas por diferentes grupos urbanos, escolas com projectos, escolas abertas a outros espaços de aprendizagem. Mostra a importância da amizade, da solidariedade, da justiça. Coloca em situação de risco as adolescentes que não cumprem as regras. Mostra situações em que os jovens se apaixonam nem sempre pelas pessoas «certas». Mostra jovens que vão à discoteca, que praticam desportos radicais, que se passeiam pelos centros comerciais. Provoca o aparecimento de blogues e de fóruns e os adolescentes escrevem, mesmo que as regras da escola não sejam seguidas.. e de livros e peças de teatro". E Clara Ferrão Tavares quase conclui assim: "Por favor, pais e professores! Não fechem esta escola, não desliguem a televisão e já agora aproveitem para espreitar para esta escola".
O blogueiro regista esta dissidência e reflecte sobre os pontos de vista de Clara Ferrão Tavares. Nunca pensara assim, e há lógica no que ela escreve.
FÃS DA MANGA
Segundo a revista "Yo Dona", do jornal El Mundo,editada hoje, em artigo de Ana Artigas e fotos de Ricardo Cases e Alex Rivera, as espanholas estão loucas por manga, a banda desenhada japonesa. Cantam karaoke em japonês, comem sushi e até aprendem japonês.


Uma rapariga, de 14 anos, confessa que se disfarça da personagem de Naruto: "é um vício que tenho, estou todos os dia com estas séries". Ela pratica artes marciais, estuda japonês e sabe muitas canções naquele idioma. Em toda a Espanha há, pelo menos, seis associações da banda desenhada manga.
Lê-se no texto: "É fácil reconhecer uma ilustração manga (comic em japonês) pela sua estética. As suas personagens têm uns olhos enormes e redondos que lhes dão uma expressão de inocente ternura. O seu olhar naif encaixa numa cara oval, de boca e nariz diminutos, sobre um corpo estilizado. Como resultado: uma figura quase andrógina sem qualquer semelhança com os rostos orientais". Uma ilustradora, pertencente à associação Manga Densetschu, explica que o yaoi tem duas personagens, o seme, com características mais masculinas, e o uke, com características mais femininas.
Dicionário básico: 1) maca, banda desenhada, 2) mangaka, desenhador de manga, 3) otaku, pessoa fanática do género, 4) chan, sufixo para se referir a alguém com carinho (exemplo: Maria=Maria-Chan), 5) shonen, rapaz, 6) bishonen, rapaz bonito, 7) shojo, rapariga, 8) bishojo, rapariga bonita, 9) sensei, mestre, 10) sengai, colega que está num curso superior, 11) kusei, estudante, 12) ganbatte, boa sorte, 13) terebi, televisão, 14) XXD, letras empregues para expressar gargalhadas por escrito, 15) costumeplay, quando se disfarça de um personagem de manga.
[para ler a revista "Yodona", clicar aqui]
Segundo a revista "Yo Dona", do jornal El Mundo,editada hoje, em artigo de Ana Artigas e fotos de Ricardo Cases e Alex Rivera, as espanholas estão loucas por manga, a banda desenhada japonesa. Cantam karaoke em japonês, comem sushi e até aprendem japonês.


Uma rapariga, de 14 anos, confessa que se disfarça da personagem de Naruto: "é um vício que tenho, estou todos os dia com estas séries". Ela pratica artes marciais, estuda japonês e sabe muitas canções naquele idioma. Em toda a Espanha há, pelo menos, seis associações da banda desenhada manga.
Lê-se no texto: "É fácil reconhecer uma ilustração manga (comic em japonês) pela sua estética. As suas personagens têm uns olhos enormes e redondos que lhes dão uma expressão de inocente ternura. O seu olhar naif encaixa numa cara oval, de boca e nariz diminutos, sobre um corpo estilizado. Como resultado: uma figura quase andrógina sem qualquer semelhança com os rostos orientais". Uma ilustradora, pertencente à associação Manga Densetschu, explica que o yaoi tem duas personagens, o seme, com características mais masculinas, e o uke, com características mais femininas.
Dicionário básico: 1) maca, banda desenhada, 2) mangaka, desenhador de manga, 3) otaku, pessoa fanática do género, 4) chan, sufixo para se referir a alguém com carinho (exemplo: Maria=Maria-Chan), 5) shonen, rapaz, 6) bishonen, rapaz bonito, 7) shojo, rapariga, 8) bishojo, rapariga bonita, 9) sensei, mestre, 10) sengai, colega que está num curso superior, 11) kusei, estudante, 12) ganbatte, boa sorte, 13) terebi, televisão, 14) XXD, letras empregues para expressar gargalhadas por escrito, 15) costumeplay, quando se disfarça de um personagem de manga.
[para ler a revista "Yodona", clicar aqui]
LANÇADO LIVRO ENCICLOPÉDIA E HIPERTEXTO
Ontem, à noite, foi lançado o livro Enciclopédia e Hipertexto, uma edição de Olga Pombo, António Guerreiro e António Franco Alexandre, conforme havia noticiado aqui. O encontro ocorreu no Palácio dos Condes de Ficalho, à rua dos Caetanos, em Lisboa, e contou com a participação de Manuel Villaverde Cabral e uma performance de Alexander Gerner e Catarina Pombo Nabais (estes, durante a sessão, colaram frases diversas em postais de correio, em que um dos exemplares pode ser visto ao lado da capa do livro).


Os temas enciclopédia e hipertexto foram, obviamente, fulcrais na erudita apresentação e Villaverde Cabral (ver vídeo com uma pequena parcela da sua intervenção aqui). Nela, destacou-se Isidoro de Sevilha (570-636), autor da primeira grande enciclopédia cristã e padroeiro da internet. Também uma das responsáveis pela edição, Olga Pombo, interveio [ver também a autora num pequeno vídeo].
Dos textos do volumoso livro (556 páginas, Edições Duarte Reis) destaco, sem hierarquia (mas segundo o meu conhecimento dos autores), António Guerreiro, Fernando Ilharco, José Afonso Furtado, Leonor Areal, Maria Augusta Babo, Olga Pombo e Silvina Rodrigues Lopes.
Ontem, à noite, foi lançado o livro Enciclopédia e Hipertexto, uma edição de Olga Pombo, António Guerreiro e António Franco Alexandre, conforme havia noticiado aqui. O encontro ocorreu no Palácio dos Condes de Ficalho, à rua dos Caetanos, em Lisboa, e contou com a participação de Manuel Villaverde Cabral e uma performance de Alexander Gerner e Catarina Pombo Nabais (estes, durante a sessão, colaram frases diversas em postais de correio, em que um dos exemplares pode ser visto ao lado da capa do livro).


Os temas enciclopédia e hipertexto foram, obviamente, fulcrais na erudita apresentação e Villaverde Cabral (ver vídeo com uma pequena parcela da sua intervenção aqui). Nela, destacou-se Isidoro de Sevilha (570-636), autor da primeira grande enciclopédia cristã e padroeiro da internet. Também uma das responsáveis pela edição, Olga Pombo, interveio [ver também a autora num pequeno vídeo].
Dos textos do volumoso livro (556 páginas, Edições Duarte Reis) destaco, sem hierarquia (mas segundo o meu conhecimento dos autores), António Guerreiro, Fernando Ilharco, José Afonso Furtado, Leonor Areal, Maria Augusta Babo, Olga Pombo e Silvina Rodrigues Lopes.
DO PAPEL AO PIXEL
Quando escrevi a entrada anterior, estava sob a influência do livro de José Afonso Furtado, O papel e o pixel. Do impresso ao digital: continuidades e transformações, editado no Brasil no passado mês de Janeiro, leitura que eu acabava de fazer.
É que, do mesmo modo que se fala na substituição do cinema pelo vídeo, também se fala no desaparecimento do livro e emergência de suportes digitais. A internet, diz Furtado (p. 29) traduz-se no surgimento de novas formas de escrita, edição, distribuição e leitura, mas também de editores electrónicos, livrarias virtuais, obras hipertextuais e dispositivos de leitura de livros electrónicos.
Furtado chama a atenção para uma ecologia que evita a oposição simplista entre impresso e digital (p. 87), pois a passagem da cultura do livro em papel para o digital não é a morte de uma por outra mas antes uma transição, existe mais compromisso que ruptura. E apela à distinção produzida por Martin-Barbero entre palimpsesto e hipertexto: aquele põe-nos em contacto com a memória e a pluralidade dos tempos que acumulam os textos, este remete para a enciclopédia e para a intertextualidade (p. 184). O que nos conduz para a aceitação de três modos diferentes de inscrição e transmissão dos textos: manuscrito, impresso e electrónico.
O autor prefere olhar a mediação tecnológica no centro desta mudança, socorrendo-se de dois autores, Bolter e Grusin (1999), que desenvolveram o conceito de remediação: operação de transferência de conteúdos para outros suportes (p. 95). A remediação é a operação de translação-tradução-conversão para outros media e significa a lógica formal em que os novos media remoldam (refashion) formas anteriores dos media. Daí, desembocar em algo que escrevi acima: 1) os historiadores do livro mostram que uma técnica em si não é suficiente para originar uma cultura, 2) não se pode dizer que uma nova tecnologia aniquila as anteriores, 3) pois isso seria determinismo tecnológico, e 4) os novos media trabalham em conjunto com os media clássicos e com as mesmas forças económicas e sociais (pp. 104-105).
Há uma defesa concreta do livro, pois ele, com a sequencialidade da escrita, preserva o desenvolvimento da singularidade (p. 125). O papel e a tinta no livro garantem um equilíbrio entre portatibilidade e imutabilidade, algo que se perde nos media seguintes: desaparece a imutabilidade no telégrafo, telefone e rádio (p. 132), o que ocorre também no mundo digital. Neste, apesar da semelhança entre texto digital e texto impresso, o produto digital pode sofrer permanentes alterações, como se observa nas páginas da internet, constantemente em mudança. Credibilidade, confiança e qualidade são outras dificuldades que separam o mundo impresso do digital.
Outras distinções aparecem: do mesmo modo que a cultura do livro remetia para a relação entre passado e presente, a televisão remetia para o eterno presente e o computador mostra-nos o tempo real. Contudo, acrescento eu, a televisão também nos dá já o tempo real quando se realiza o directo. Creio que é por tudo isto que José Afonso Furtado nos fala de diferentes tempos: 1) tempo longo, feito de sequências lineares, 2) tempo curto, o do flash, zapping, replay e surfing, clip musical e spot publicitário, e 3) tempo largo, o do capital-tempo acumulado (biblioteca, artigos arquivados, memorização da informação), investimento que pode ser reutilizado na concretização de novos projectos (pp. 114-115).
Porém, a leitura de livros é cada vez menos importante no conjunto das práticas culturais, diz o autor (p. 169). E não se pense que o universo digital é do domínio do mais simples. Pelo contrário, é do mais complexo. Primeiro, pela necessidade de mediação tecnológica como acima identifiquei. Depois, porque o acesso configura modalidades de consulta múltipla: não linearidade, tabularidade, scrolling, links, ambiente multi-windows (p. 165).
O livro de José Afonso Furtado - que uma vez se refere aos blogues (p. 181) como fazendo parte do novo fenómeno de multiplicação da autopublicação na internet - representa "um panorama muito actualizado dos desafios que enfrentam a edição, a autoria e a leitura, em todos os seus espaços de produção e realização", conforme escreve Aníbal Bragança, o prefaciador brasileiro (p. 16). Distinção ainda para o projecto do livro, editado por uma associação sem fins lucrativos, em que relevo o projecto gráfico de Dorothée de Bruchard, que torna a obra uma pequena maravilha gráfica.
Licenciado em filosofia, José Afonso Furtado é director da biblioteca de arte da Gulbenkian, tendo sido já presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura (actual IPLB), entre 1987 e 1991. Como docente, a sua actividade tem-se desenrolado em universidades como a Clássica de Lisboa e a Católica, na área de edição e da sociologia do livro e da leitura.
Leitura: José Afonso Furtado (2006). O papel e o pixel. Do impresso ao digital: continuidades e transformações.Florianópolis: Escritório do Livro, 205 páginas.
Quando escrevi a entrada anterior, estava sob a influência do livro de José Afonso Furtado, O papel e o pixel. Do impresso ao digital: continuidades e transformações, editado no Brasil no passado mês de Janeiro, leitura que eu acabava de fazer.
É que, do mesmo modo que se fala na substituição do cinema pelo vídeo, também se fala no desaparecimento do livro e emergência de suportes digitais. A internet, diz Furtado (p. 29) traduz-se no surgimento de novas formas de escrita, edição, distribuição e leitura, mas também de editores electrónicos, livrarias virtuais, obras hipertextuais e dispositivos de leitura de livros electrónicos.
Furtado chama a atenção para uma ecologia que evita a oposição simplista entre impresso e digital (p. 87), pois a passagem da cultura do livro em papel para o digital não é a morte de uma por outra mas antes uma transição, existe mais compromisso que ruptura. E apela à distinção produzida por Martin-Barbero entre palimpsesto e hipertexto: aquele põe-nos em contacto com a memória e a pluralidade dos tempos que acumulam os textos, este remete para a enciclopédia e para a intertextualidade (p. 184). O que nos conduz para a aceitação de três modos diferentes de inscrição e transmissão dos textos: manuscrito, impresso e electrónico.O autor prefere olhar a mediação tecnológica no centro desta mudança, socorrendo-se de dois autores, Bolter e Grusin (1999), que desenvolveram o conceito de remediação: operação de transferência de conteúdos para outros suportes (p. 95). A remediação é a operação de translação-tradução-conversão para outros media e significa a lógica formal em que os novos media remoldam (refashion) formas anteriores dos media. Daí, desembocar em algo que escrevi acima: 1) os historiadores do livro mostram que uma técnica em si não é suficiente para originar uma cultura, 2) não se pode dizer que uma nova tecnologia aniquila as anteriores, 3) pois isso seria determinismo tecnológico, e 4) os novos media trabalham em conjunto com os media clássicos e com as mesmas forças económicas e sociais (pp. 104-105).
Há uma defesa concreta do livro, pois ele, com a sequencialidade da escrita, preserva o desenvolvimento da singularidade (p. 125). O papel e a tinta no livro garantem um equilíbrio entre portatibilidade e imutabilidade, algo que se perde nos media seguintes: desaparece a imutabilidade no telégrafo, telefone e rádio (p. 132), o que ocorre também no mundo digital. Neste, apesar da semelhança entre texto digital e texto impresso, o produto digital pode sofrer permanentes alterações, como se observa nas páginas da internet, constantemente em mudança. Credibilidade, confiança e qualidade são outras dificuldades que separam o mundo impresso do digital.
Outras distinções aparecem: do mesmo modo que a cultura do livro remetia para a relação entre passado e presente, a televisão remetia para o eterno presente e o computador mostra-nos o tempo real. Contudo, acrescento eu, a televisão também nos dá já o tempo real quando se realiza o directo. Creio que é por tudo isto que José Afonso Furtado nos fala de diferentes tempos: 1) tempo longo, feito de sequências lineares, 2) tempo curto, o do flash, zapping, replay e surfing, clip musical e spot publicitário, e 3) tempo largo, o do capital-tempo acumulado (biblioteca, artigos arquivados, memorização da informação), investimento que pode ser reutilizado na concretização de novos projectos (pp. 114-115).
Porém, a leitura de livros é cada vez menos importante no conjunto das práticas culturais, diz o autor (p. 169). E não se pense que o universo digital é do domínio do mais simples. Pelo contrário, é do mais complexo. Primeiro, pela necessidade de mediação tecnológica como acima identifiquei. Depois, porque o acesso configura modalidades de consulta múltipla: não linearidade, tabularidade, scrolling, links, ambiente multi-windows (p. 165).
O livro de José Afonso Furtado - que uma vez se refere aos blogues (p. 181) como fazendo parte do novo fenómeno de multiplicação da autopublicação na internet - representa "um panorama muito actualizado dos desafios que enfrentam a edição, a autoria e a leitura, em todos os seus espaços de produção e realização", conforme escreve Aníbal Bragança, o prefaciador brasileiro (p. 16). Distinção ainda para o projecto do livro, editado por uma associação sem fins lucrativos, em que relevo o projecto gráfico de Dorothée de Bruchard, que torna a obra uma pequena maravilha gráfica.
Licenciado em filosofia, José Afonso Furtado é director da biblioteca de arte da Gulbenkian, tendo sido já presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura (actual IPLB), entre 1987 e 1991. Como docente, a sua actividade tem-se desenrolado em universidades como a Clássica de Lisboa e a Católica, na área de edição e da sociologia do livro e da leitura.
Leitura: José Afonso Furtado (2006). O papel e o pixel. Do impresso ao digital: continuidades e transformações.Florianópolis: Escritório do Livro, 205 páginas.
sexta-feira, 17 de março de 2006
"AMANHÃ, VAMOS AO VÍDEO"
A afirmação parece-me estranha, pois se costuma dizer "vamos ao cinema". Isto deduz-se das palavras de João Sousa Cardoso, coordenador das conferências Os dias de Janus, na Universidade do Porto - "O cinema tem os dias contados".
O texto de duas colunas hoje editado no Público (assinado por Miguel Lourenço Pereira, p. 36) dá conta desse acontecimento e regista dados para reflexão. Lê-se: "João Sousa Cardoso, autor do primeiro trabalho em Portugal sobre a história do vídeo (uma tese de mestrado à espera de publicação), reforçou a ideia de que «a película cinematográfica está a dar as últimas - o futuro é o vídeo»". Para este autor, o cinema e o vídeo irão conviver, como o VHS e o DVD; depois, a substituição da película pelo vídeo será natural. E Paulo Miguel Forte, outro dos presentes no evento do Porto, diria: "A grande vantagem do vídeo em relação ao cinema é que com ele todos os dias se pode filmar, montar, treinar. Com o cinema isso é impossível".
Entretanto, a Marktest divulgou ontem o estudo Bareme Cinema, contabilizando meio milhão de espectadores assíduos de cinema (frequência regular semanal). Lê-se: "Os dados mostram que, no Continente, são 2398 mil os portugueses com 15 e mais anos que costumam ir ao cinema. Este valor representa 28,9% do universo em estudo, mas apresenta uma grande diferenciação sobretudo se analisada a idade dos entrevistados. Entre os jovens dos 15 aos 17 anos, 67,5% afirma costumar ir ao cinema, tal como 67,5% dos jovens entre os 18 e os 24 anos. Uma análise do perfil dos indivíduos que costumam ir o cinema mostra que 50,1% são homens, 70,6% são jovens com menos de 35 anos, 45,2% são estudantes e quadros médios e superiores, 43,9% residem na Grande Lisboa ou Litoral Norte e 58,2% pertencem às classes sociais alta e média alta".
Pelo perfil dos espectadores regulares de cinema (classes abastadas, jovens, urbanas, estudantes e quadros superiores e médios), será fácil a aceitação da migração do filme em película para o vídeo. A "naturalidade" defendida por João Sousa Cardoso contempla, certamente, evoluções dentro do cinema - que a nós nos parecem naturais -, como a passagem do cinema mudo para o sonoro e do filme a preto e branco para a cor. O suporte, sendo importante, nomeadamente no embaratecimento da produção e na instantaneidade entre filmar e ver o filmado, não substitui a estética e a narrativa das imagens em movimento, a que nos habituámos desde 1895, com os irmãos Lumière. O prefixo cine (origem grega) na palavra cinema exprime a ideia de movimento, essencial na nossa cultura.
A afirmação parece-me estranha, pois se costuma dizer "vamos ao cinema". Isto deduz-se das palavras de João Sousa Cardoso, coordenador das conferências Os dias de Janus, na Universidade do Porto - "O cinema tem os dias contados".
O texto de duas colunas hoje editado no Público (assinado por Miguel Lourenço Pereira, p. 36) dá conta desse acontecimento e regista dados para reflexão. Lê-se: "João Sousa Cardoso, autor do primeiro trabalho em Portugal sobre a história do vídeo (uma tese de mestrado à espera de publicação), reforçou a ideia de que «a película cinematográfica está a dar as últimas - o futuro é o vídeo»". Para este autor, o cinema e o vídeo irão conviver, como o VHS e o DVD; depois, a substituição da película pelo vídeo será natural. E Paulo Miguel Forte, outro dos presentes no evento do Porto, diria: "A grande vantagem do vídeo em relação ao cinema é que com ele todos os dias se pode filmar, montar, treinar. Com o cinema isso é impossível".Entretanto, a Marktest divulgou ontem o estudo Bareme Cinema, contabilizando meio milhão de espectadores assíduos de cinema (frequência regular semanal). Lê-se: "Os dados mostram que, no Continente, são 2398 mil os portugueses com 15 e mais anos que costumam ir ao cinema. Este valor representa 28,9% do universo em estudo, mas apresenta uma grande diferenciação sobretudo se analisada a idade dos entrevistados. Entre os jovens dos 15 aos 17 anos, 67,5% afirma costumar ir ao cinema, tal como 67,5% dos jovens entre os 18 e os 24 anos. Uma análise do perfil dos indivíduos que costumam ir o cinema mostra que 50,1% são homens, 70,6% são jovens com menos de 35 anos, 45,2% são estudantes e quadros médios e superiores, 43,9% residem na Grande Lisboa ou Litoral Norte e 58,2% pertencem às classes sociais alta e média alta".
Pelo perfil dos espectadores regulares de cinema (classes abastadas, jovens, urbanas, estudantes e quadros superiores e médios), será fácil a aceitação da migração do filme em película para o vídeo. A "naturalidade" defendida por João Sousa Cardoso contempla, certamente, evoluções dentro do cinema - que a nós nos parecem naturais -, como a passagem do cinema mudo para o sonoro e do filme a preto e branco para a cor. O suporte, sendo importante, nomeadamente no embaratecimento da produção e na instantaneidade entre filmar e ver o filmado, não substitui a estética e a narrativa das imagens em movimento, a que nos habituámos desde 1895, com os irmãos Lumière. O prefixo cine (origem grega) na palavra cinema exprime a ideia de movimento, essencial na nossa cultura.
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