sexta-feira, 15 de outubro de 2004

banda.JPGOS BLOGUES VISTOS POR MÚSICOS

A banda Ornato Violeta, "quinteto do Porto, nascido em 1991 e terminado uma década depois, criou um culto de seguidores, que continuam agora a seguir (em blogues e «sites» na net) os passos dos ex-elementos", escreve-se hoje no Público.

"Ao longo do tempo fui acordando para o efeito que isso (a dissolução) tinha em algumas pessoas. Confesso que não ia muito ver as coisas dos Ornato (à Net), foi só agora que comecei a ir e achei engraçado a forma como os putos falam - geralmente quem escreve para esses blogues são pessoas com certa disposição para estar a escrever e a falar, pessoal mais novo" (Manuel Cruz a Eurico Monchique, Público de hoje, suplemento Y).
LIVROS SOBRE AUDIÊNCIAS

Já se encontram à disposição de todos, na Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), as seguintes obras sobre audiências (para apoio às aulas de Públicos e Audiências e para alunos de outras universidades, desde que se tornem leitores da biblioteca e paguem uma inscrição. A biblioteca tem um acervo importante em livros de comunicação):

1) Bird, S. Elizabeth (2003). The audience in everyday life: living in a media world. Londres e Nova Iorque: Routledge

2) Brooker, Will, e Deborah Jermyn (eds.) (2003). The audience studies reader. Londres e Nova Iorque: Routledge

3) Gauntlett, David, e Annette Hill (2004). TV living: television, culture and everyday life. Londres e Nova Iorque: Routledge

4) Ritzer, George (2005) [é isso mesmo: tem a data de 2005]. Enchanting a disenchanted world: revolutionizing the means of consumption. Thousand Oaks: Sage

Coloquei pequenas notas sobre estes livros no blogue Media, Públicos e Audiências, de apoio às aulas que dou na universidade.
NO REINO UNIDO: TEORIA A MAIS NOS CURSOS DE MEDIA

Vem hoje numa das notícias do boletim electrónico do European Journal Centre. Os principais agentes empresariais dos media acham que os cursos de jornalismo e media, mesmo os mais populares no Reino Unido, são pouco práticos e não ajudam os alunos a encontrar emprego. Empresas como a British Sky Broadcasting e o Channel 4 querem empregados oriundos de cursos mais práticos ou com experiência de trabalho e não aqueles provenientes de cursos baseados em teoria.

Os dados oficiais não são animadores: em 2002-2003, apenas 15% dos licenciados em estudos de maior incidência teórica arranjaram emprego após seis meses de conclusão do curso, proporção que não aumentou nos últimos quatro anos. A explicação, diz a notícia, é que esses licenciados vêm de cursos muito teóricos. Em contrapartida, mais de 30% dos licenciados em cursos mais práticos encontram emprego nos seis meses seguintes.
CANAIS DA TELEVISÃO POR CABO

Quando esta semana recebi uma carta e um desdobrável da TV Cabo, a acompanhar a factura da televisão por cabo e da internet, não prestei muita atenção ao seu conteúdo. Só me apercebi do que esses documentos diziam quando li o Público de hoje.

tvcabo.JPGNo desdobrável da TV Cabo, intitulado Funtastic Outubro [presumo que a primeira palavra queira dizer fantástico, ou alegria misturada com fantástico, algum neologismo inglês], escreve-se que "A introdução de novos canais implica um realinhamento nas posições dos canais na grelha do serviço analógico".

A permanente descontinuidade de canais aflige-me. Enquanto consumidor não tenho qualquer palavra a dizer. Comprei um pacote de canais quando aderi aos serviços da empresa, e, se calhar, só permanecem os quatro canais generalistas porque a TV Cabo não os pode substituir. Isto é arrogância dos decisores da empresa, pois não se importam com os clientes. A justificação lê-se no Público de hoje: "Estes canais são canais de audiência muito baixos e de nicho, continuando assim na grelha do serviço cabo digital".

Notas: 1) apesar de eu pagar uma mensalidade de €20,45 (inclui já IVA), este valor é cruzado com as audiências dos canais, o que exorbita a relação entre fornecedor e cliente, pois o meu contrato assentou na prestação de serviços com base num pacote de canais e não na medição de audiências; 2) os canais de grande audiência ficam no serviço analógico e os outros migram para o digital.

Assim, se quiser continuar a seguir o ARTE, por exemplo, tenho de passar a receber canais digitais. A empresa garante o serviço desde que se compre uma caixa descodificadora Powerbox, que custa €50. Fica a consolação que o canal Memória, ainda não disponível no pacote generalista, passará para a posição 11 a partir de 9 de Novembro.

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

CITAÇÕES E COMENTÁRIOS

1) Emídio Rangel

"[Manuel Fonseca] está a fazer um bom trabalho de manutenção, mas não é suficiente. Aliás, eu preveni. Chamei a atenção para a Quinta [das Celebridades]. Disse que a TVI poderia voltar a liderar. A SIC não inova e isso é de quem não percebe nada de TV" (TV Guia desta semana, que já utilizei ontem).

Comentário meu: houve muito mérito em toda a carreira de Rangel. Mas criticar tão violentamente Manuel Fonseca e, noutro passo, Eduardo Moniz só prova que ele perdeu mas não soube ou aceitou perder. A queda de Rangel começou no dia em que não aceitou o Big Brother na SIC, animado por valores éticos. Ora, os valores da Quinta são semelhantes aos daquele programa.

2) José Pacheco Pereira

"Simultaneamente com este processo, um geração mais nova começou a substituir o alinhamento partidário restrito pelo alinhamento ideológico [...] À direita foram os blogues, um novo meio de afirmação política, que permitiu romper a tradicional dominação pela esquerda do espaço comunicacional, que ajudaram à afirmação de uma geração de jovens intelectuais, que, simpatizando com o PP e o PSD [...]. Na blogosfera foram hegemónicos numa primeira fase e estão agora a transitar para a comunicação social tradicional levando pouco a pouco para o «mainstream» da vida política uma sensibilidade conservadora e liberal que aí não tinha tradição. [...] Por outro lado, como o Bloco beneficia da activa simpatia no sistema comunicacional, nunca necessitou de forma crucial de formas alternativas como os blogues" (Público de hoje).

Comentário meu: parece que o fenómeno dos blogues foi, inicialmente, um movimento underground, a conhecer agora um estatuto de prestígio. A análise de Pacheco Pereira lembra a dos blogueiros do jornalismo que acham não haver outro tipo de blogues. Mas há mais mundo nos blogues, que não se reconhecem no jornalismo ou na política (dos partidos) e se dedicam à música, à literatura ou a simples desabafos diários. Não nos podemos esquecer que o blogue é uma ferramenta tecnológica que permite escrever diariamente na internet e sem conhecimentos informáticos. Qualquer ferramenta pode ter um uso social diferente do previsto inicialmente. Lembro a apropriação social das ondas curtas por parte dos radioamadores, há oitenta anos atrás. Como os poderes não acreditavam na qualidade daquelas frequências, deixaram-nas desocupadas. O movimento dos radioamadores cresceu como cogumelos e sem etiquetas de que tipo fosse.
FELIZES COINCIDÊNCIAS NOS DOIS JORNAIS DE QUALIDADE DE LISBOA

Hoje, o grande tema do Público e do Diário de Notícias é Paula Rego. Mais destacada na capa do jornal da rua do Viriato, gostei muito do tratamento gráfico nas páginas de interior do jornal da Avenida da Liberdade. E ambos os media com longas entrevistas da artista plástica, que agora expõe na Casa de Serralves.

Em segundo lugar, os cartoons. O tema é comum e a primeira frase é quase semelhante: no Bartoon, lê-se: "José Saramago e Jorge Sampaio gostavam de ressuscitar D. Afonso Henriques"; no Cravo e Ferradura, lê-se "Saramago e Sampaio gostariam de ver ressuscitar Dom Afonso Henriques". Se, para estes observadores privilegiados da realidade nacional, a intenção do escritor e do presidente da República merece a escolha em simultâneo do tema, é porque a hipótese é estranha (à falta de outra palavra que me não ocorre agora)!

bartoon.JPGcravo.JPG

As duas imagens foram tiradas dos primeiros quadrinhos dos cartoons, respectivamente Bartoon, de Luís Afonso, e Cravo e Ferradura, de Bandeira.

O INVERNO DO DESCONTENTAMENTO DO LE MONDE ACABA EM CRISE FINANCEIRA

Trata-se de um título cheio de conotações políticas o do texto editado hoje na newsletter do European Journalism Centre. Se o objecto desta mensagem é o jornal francês, fiquemo-nos agora pelo Inverno do descontentamento. Trata-se de frase retirada do início de uma peça de William Shakespeare, Ricardo III, e que se aplicou ao Inverno inglês de 1978-1979, quando cresceu o movimento grevista no Reino Unido. Nessa altura, o peso das greves levou a um voto de não confiança parlamentar ao primeiro-ministro trabalhista James Callaghan. As eleições gerais seguintes seriam ganhas pelo partido conservador de Margareth Thatcher.

Quanto ao Le Monde, à medida que se aproxima o seu 60º aniversário, a mudança de sede e de equipamentos está a ser acompanhada por uma grande crise financeira. A circulação está a baixar, a publicidade é escassa e o jornal anunciou a eliminação próxima de 100 postos de trabalho, como já dei conta neste blogue. Alguns deles pertencem à área de impressão mas há também jornalistas.

A newsletter do European Journalism Centre, que se serve de uma notícia do Guardian, indica que o problema de queda de circulação do Monde é uma questão que atravessa toda a imprensa de qualidade francesa. A explosão de jornais gratuitos – em especial dois novos títulos – e o surgimento de sítios de internet explicam as mudanças dramáticas nos jornais franceses. Para o Monde, este é o terceiro ano de perdas, atingindo já um total de €50 milhões. Se a circulação caiu 4% em 2003, estima-se que desça mais 3,5% este ano. E, apesar de se manter em primeiro lugar nas vendas (380 mil jornais por dia), o concorrente Le Figaro ameaça ultrapassar o Le Monde nos próximos meses.

No domingo, enquanto aqui comentava um texto do Le Monde desse dia, fazia mentalmente a comparação entre esse jornal e o El Pais. E fazia uma constatação: o jornal de Madrid respira saúde nos textos e nos colaboradores, com uma revista dominical de grande qualidade quer gráfica quer em termos de conteúdos; o jornal parisiense é muito mais modesto nesses aspectos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

José Castelo Branco

Neste momento, os media escritos e audiovisuais escrevem e falam sobre três nomes: Pedro Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa e José Castelo Branco. O último dos nomes é capa das revistas cor-de-rosa nas duas últimas semanas. Razão: a Quinta das celebridades, o novo reality-show da TVI. Sigamos este, mais consensual que aqueles outros dois em todos os media.
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A revista TV Guia, saída anteontem, tem como manchete (ou título principal) a seguinte: José Castelo Branco e Betty Grafstein. As últimas horas juntos. Lágrimas no adeus. Para quem não saiba, julga tratar-se de um grande drama familiar, pois se vêem duas figuras, a de um homem ainda relativamente jovem e de ar andrógino e de uma senhora mais velha, que está junta a ele com ar terno. Vendo mais de perto, conclui-se tratar-se do casal Castelo Branco, no momento da ida dele para o programa televisivo. O título mais abaixo na capa da revista diz: Júlia Pinheiro. "O Pavarotti já é um sucesso". Junto à apresentadora do programa da TVI encontra-se um burro!

Salto imediatamente para as páginas 20 a 23 (o tema de capa) e, depois, para as seguintes cinco páginas (com intervenientes do mesmo programa). Mas fixo-me no texto e nas imagens de Abel Dias sobre o agora residente do programa televisivo. E percorro detalhadamente essas duas componentes. Primeiro, as imagens. As da página 20 mostram Castelo Branco a vestir-se. Pormenores mais interessantes para mim: o cortinado e a cobertura do sofá são do mesmo tecido; ele tira a forma de um dos sapatos,enquanto o outro está sobre o sofá; cinzeiro, isqueiro, um maço de cigarros marca Marlboro e o telemóvel fazem parte do cenário da terceira fotografia, que se repetem na fotografia da página seguinte, mais uma cassete vídeo que não consigo identificar. Desta página 21, anoto a legenda a uma das fotografias: "Antes de sair, Betty, num acto de ternura, colocou na lapela do marido duas jóias representando dois gatos. «É para tomarem conta de ti», disse a brincar".

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Agora o texto e as citações que o jornalista faz de José Castelo Branco. Este confessa: "Estou de rastos. Nunca pensei que isto me fosse tão penoso. Não sei se fiz bem aceitar. Acreditem que esta tarde, quando vi a minha Betty tão deprimida, pensei em desistir de tudo. É horrível". E mais à frente, recorda com satisfação quando, entre os 18 e 23 anos, fez de Tatiana Valesca Romanoff: "aparecia nas festas absolutamente feminina, divina, maravilhosa". O travestir-se para uma revista render-lhe-ia €25 mil e "três passagens (para mim, para a Betty e para o meu filho)".

Procuro, agora, informação do mesmo José Castelo Branco na revista TeleNovelas, também tema de capa, em edição saída anteontem. Retenho duas citações de apresentadores de programas de televisão, na mesma capa, sobre ele - Manuel Luís Goucha: "É uma pessoa de coragem!"; Teresa Guilherme: "Ele é uma aberração".

Acompanho o texto de Patrícia Pato: "Tal como sempre sonhou, José Castelo Branco é uma estrela. A mulher, a multimilionária Betty Grafstein, achou bem que ele concorresse à «Quinta das Celebridades». Afinal, «desde pequeno que sonha ser famoso», disse ela na apresentação daquele que já deixou todos colados ao ecrã da TVI. E, de facto, a figura do jet-set não deixa ninguém indiferente".

Fanfarra para o homem vulgar

Este foi o título de uma crónica de Eduardo Cintra Torres editada no jornal Público (28 de Agosto de 2000) e republicada num belíssimo texto da MinervaCoimbra, intitulado Reality shows. Ritos de passagem da sociedade do espectáculo. Claro que o título apontava para os desconhecidos que tinham entrado no primeiro Big Brother, que tornou famoso o agora desgraçado Zé Maria.

castelobranco2.JPGMas o sumo do seu texto pode aplicar-se à actualidade. Escreveu então o crítico de televisão: "O Big Brother poderá provocar um terramoto na audimetria de televisão, pelo menos durante alguns meses. O futuro da TVI ficará ligado ao êxito deste programa". E mais à frente: "Quer dizer que a TV dá ao público aquilo que ele quer? Receio bem que sim, neste caso. Se bem que este tema, tão abordado nos encontros sobre televisão, se assemelhe à questão do ovo e da galinha, é certo que não posso discordar aqui dos programadores de TV quando dizem que dão ao público aquilo que ele quer ver. Por esta razão: o público vê. Se vê, é porque quer ver".

Confesso, publicamente, que, anteontem, enquanto jantava num restaurante, vi o senhor José Castelo Branco a massajar o pezinho de uma das concorrentes. Só não vi muito bem porque a televisão estava longe e eu não tinha os óculos colocados. Mas basta-me consultar a coluna do Público de hoje sobre os programas de televisão mais vistos nesse dia 11, a partir de dados da Marktest: a "Quinta das celebridades" vem em primeiro lugar, com 20,3% de audiência (percentagem de pessoas que contactou com o programa) e 46,6% de share (relação da audiência entre os canais de televisão).

Para mim, existe um ar demencial (no programa de televisão como na política nacional) que urge reflectir. Não podemos deixar o país perder-se em caricaturas de si mesmo.

Uma última nota
É importante perceber que na cadeia de valor do audiovisual - da concepção do programa ou produto audiovisual à sua produção, realização, distribuição e consumo -, despertam interesses económicos e culturais crescentes com os produtos criados à sua volta (os discos ou os livros que acompanham os jornais; os DVD, os produtos de entretenimento e as pipocas que se juntam aos filmes). Mas não podemos esquecer a simbiose entre programas de televisão, caso dos reality shows, e as revistas e publicações. Umas promovem as outras, numa retroalimentação (feed-back) incessante. Apercebi-me disso quando em visita à SIC, há dois anos atrás, vi na sala das Relações Públicas as capas de revistas cor-de-rosa que falavam das personagens do Masterplan. A SIC recuperaria a sua imagem graças a estas revistas. E quem é o proprietário destas revistas?

Publicações consultadas: 1) TV Guia, semanal, director - Nuno Farinha, 146 páginas, €1,25, 147000 exemplares de tiragem média, pertencente ao grupo Investec (Cofina), de Paulo Fernandes [detém a propriedade do Correio da Manhã]; 2) TeleNovelas, semanal, directora - Teresa Pais, 116 páginas, €0,65, 160225 exemplares de tiragem média em Setembro, pertencente ao grupo Edimpresa, de Pinto Balsemão [detém a propriedade do Expresso, Visão e SIC].

terça-feira, 12 de outubro de 2004

NOVOS BLOGUES

Saúdo os seguintes novos blogues que se dedicam a temas aparentados ao objecto de trabalho do I. C. ou que abordam assuntos que me interessam:

1) Um pouco de teatro, desde 6 de Outubro, com Cláudia (em estudo) e Sandra "critativa" [com colaboração mais desta que daquela]. Já escreveram sobre Albert Camus e Sarah Kane, a musa do blogue, e deram informação dos Artistas Unidos [presumo, por isso, que o blogue seja escrito em Lisboa];

2) Ângulo Cultural, também desde 6 de Outubro, com Vanessa Silva, Eliana Rodrigues e Alexandra Faria, desde Braga e sobre música, cinema, literatura, teatro, dança, artes plásticas [mas há que escrever e não ficar apenas nas intenções inscritas no editorial, única peça publicada até hoje].

3) Paixão da educação, blogue colectivo a funcionar desde 23 de Agosto e que pertence a Francisco, Ana, Fernando, Pedro Maia, José Rabaça Gaspar, José Gustavo Teixeira e Quim [alguns não têm nome de família, pelo que não posso apresentá-los melhor. Presumo que escrevam desde Braga, dada a informação contida na coluna da direita sobre um colóquio a realizar na Universidade do Minho]. Trata-se de um "edublogue de opinião sobre a paixão de aprender e de ensinar", onde se informa ter já saído o primeiro número do boletim do Projecto Público na Escola do ano lectivo de 2004/2005. O tema de capa são os videojogos, do ponto de vista dos "seus méritos educativos e dos seus principiais inconvenientes". Vou procurar adquirir o número, pois o tema interessa-me sobremaneira.
ESFERA PÚBLICA

Recuperei agora um texto de Michael Schudson (1995) enquanto preparava uma aula sobre o espaço público, onde ele critica Jurgen Habermas.

O professor californiano, com base em críticas que dizem haver um número reduzido de americanos que votam e um número reduzido de pessoas que demonstra interesse activo pelas questões políticas, estuda o declínio da esfera pública [imagem retirada do sítio UCSD Communication]. E parte de três pressupostos:


1) tem diminuído a seriedade dos media, caso da televisão,

2) está a enfraquecer o poder dos partidos políticos enquanto principal agente mobilizador de interesse dos cidadãos pela política,

3) existem notas cada vez mais baixas dos estudantes americanos, a par da erosão dos níveis académicos e da sedução da sociedade de consumo.

Schudson, para quem a percentagem de eleitores tem sido tão baixa agora como em 1790-1820, nos anos de 18920 e mesmo nas idealizadas assembleias de cidade da Nova Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, considera a esfera pública não como um espaço propriamente dito, mas como conjunto de actividades que constituem a auto-reflexão e o auto-governo numa sociedade democrática (1995: 150). Aí, as pessoas discutem, deliberam e decidem questões políticas. No moderno Estado-Nação, essa discussão-deliberação-decisão é realizada através de processos em que os eleitos tomam decisões por elas.

A sociedade civil entende-se como constituída por todas as instituições intermédias entre o Estado e as pessoas privadas – igreja, media, partidos políticos, associações. Mas há exclusões não implícitas na esfera pública habermasiana: judeus, católicos nos países protestantes, cristãos nos países muçulmanos, crianças.

Dos principais textos de Schudson destacam-se Discovering the news (1978), The power of news (1995) e The sociology of news (2003).

Leitura: Michael Schudson (1995) “A esfera pública e os seus problemas. Reintroduzir a questão do Estado”. Revista de Comunicação e Linguagens, 21-22: 149-166

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

III CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DO FÓRUM DC [DESENVOLVIMENTO E COOPERAÇÃO] - OS MEDIA E A CIDADANIA GLOBAL

Realiza-se hoje e amanha, no hotel Altis, em Lisboa, a conferência do Fórum DC subordinada ao tema dos media e cidadania global. Passei lá de tarde - onde o assunto era Media, conflitos e ajuda humanitária - e ouvi alguns dos conferencistas. Deles destaco Steven S. Ross, professor da Universidade de Columbia onde ensina jornalismo online e CAR, e autor de diversos livros, o último dos quais saiu recentemente, exactamente sobre a interrelação entre jornalismo e ajuda humanitária (encomenda do Fritz Institute, em conjunto com a Reuters AlertNet, e baseada em entrevistas em profundidade a responsáveis de relações públicas de 54 ONG ligadas a assuntos humanitários e a 290 jornalistas que cobrem essas actividades).

forumdc.JPGDos apontamentos que tirei da interessante e bem humorada comunicação de Ross, o autor destaca a existência de poucos jornalistas especializados e que apresentam falhas em termos de conhecimento histórico das regiões onde existem conflitos e onde as ONGs intervêm. Ao jornalista é exigido que escreva estórias durante o período destacado nessa zona e não um enquadramento com o conhecimento de longa duração do conflito ou problema social ou outro.

Uma outra nota deixada pelo investigador americano é a constatação de uma crescente cobertura de conflitos, fomes ou epidemias. Isto tem razões simples, para além do avolumar da conflitualidade. É que há cada vez mais ONGs no terreno; dependentes de doadores internacionais para as suas causas, elas colocam uma parte substancial do seu esforço no contacto com os jornalistas para terem visibilidade mediática. Seria o que outro comunicador na jornada, João José Fernandes, da Oikos, chamaria de efeito CNN: as crises humanitárias que recebem maior mediatização são aquelas que recebem donativos mais elevados. As cadeias de televisão, para o mesmo orador, marcam a agenda em termos de conflitos a reportar.

Da parte da manhã, o tema discutido foi a responsabilidade social dos media. Amanhã, destaco o programa da tarde, dedicado ao assunto O impacto social dos media, com comunicações, entre outros, da professora Isabel Ferin e da jornalista Diana Andringa.
LEITURA DA NEWSLETTER DO EUROPEAN JOURNALISM CENTRE DE HOJE

Editor alemão põe em on-line um arquivo de artigos científicos

O editor da Springer Science + Business Media publicará na internet o seu arquivo de 1250 publicações científicas. O arquivo completo, disponível em Janeiro, custará €15 milhões. De entre o conjunto há textos escritos por Albert Einstein.

Federação de Jornalistas critica acção policial contra o encerramento de sítios

A Federação Internacional de Jornalistas (International Federation of Journalists, IFJ) alertou para a atitude da polícia britânica contra a rede de media independentes, Indymedia [tem um link em português]. De acordo com esta federação de jornalistas, a polícia encerrou temporariamente 21 sítios de internet.

A rede da Indymedia tem perto de 140 sítios em todo o mundo e publica, sem censura, a perspectiva de colaboradores regulares. O FBI ajudou a polícia inglesa numa investigação, a partir do momento em que o sítio francês editou uma imagem de agentes secretos suíços que faziam fotografias de manifestantes.
PROVEDOR DO LEITOR EM JORNAL DIGITAL

João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (AIND), é o primeiro provedor do leitor do jornal digital Setúbal na Rede . Trata-se de um acto pioneiro no país em termos de tal figura. No texto de apresentação do provedor, este chama a atenção para a "responsabilidade social. […] Qualquer órgão de comunicação social que pretenda ter esta característica tem de ter um sistema semelhante ao do provedor do leitor". Para o mesmo responsável da AIND, é necessária uma “pessoa que estimule a participação dos leitores”, que responda às suas dúvidas e críticas e que “sublinhe os aplausos”.

Também professor universitário e gestor de media, João Palmeiro vai exercer o cargo durante três meses, pretendendo ser um “rosto para os leitores ou utilizadores de informação”. Define-se como “independente, sem qualquer relação com a hierarquia do jornal” e que tem “a responsabilidade de levar aqueles que fazem o jornal a reflectir sobre o que escrevem e como escrevem”. O seu grande objectivo é ser um “facilitador da comunicação entre quem produz a informação e quem a consome”.

O presidente da AIND foi escolhido para dar o arranque à nova secção porque “é a pessoa do conselho de opinião que está mais ligada às questões da imprensa”. Ele vai ter uma “visão mais teórica relativamente àquilo que diz respeito ao trabalho de um órgão de comunicação”. A sua primeira intervenção como provedor do Setúbal na Rede está aprazada para hoje, dia 11 de Outubro (à hora que consultamos a informação ainda não havia qualquer texto seu em linha). O endereço electrónico para o seu contacto é Provedor.

Observação: o texto segue de muito perto a informação contida no sítio do jornal digital Setúbal na Rede.

domingo, 10 de outubro de 2004

FITAS

Vi os filmes em salas ao lado uma da outra, versando sobre dois dos problemas mais graves que assolaram a Europa nos últimos 30 anos. O primeiro, Bom dia, noite, de Marco Bellocchio, com Maya Sansa no principal papel, trata do assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas. O segundo, A vida é um milagre, de Emir Kusturica, com Slavko Stimac e Natasa Solak nos principais desempenhos, tem como pano de fundo o dilaceramento da Jugoslávia e as terríveis guerras que desmembraram aquele belo país mesmo no final do séc. XX.

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O primeiro filme, apesar da crítica favorável, é, para mim, um filme opaco, onde as imagens dos noticiários televisivos da época fazem a diferença. A principal personagem feminina surge como a mais determinada e ortodoxa, onde nos é revelada a sua vida dupla. O filme é minimalista em recursos, pois precisamos do uso da memória dos conhecimentos para a reconstituição de um momento de ignomínia da política italiana. Nem chega a haver esperança ou a sua oposta desesperança, pois os assassinos movem-se num quadro mecânico de controlo psicológico, e pouco vão além disso. E os quadros fictícios no final da fita, da fuga de Moro, dão um ar mais irreal à narrativa.

Já Kusturica, com o seu habitual mundo surreal onde se entrelaçam o humano e o animal (patos, cães, gatos, burros), mostra, apesar da suprema ironia de cenas como a festa de despedida do jovem para a tropa, um quadro violento das relações humanas. E aparece também o habitual ponto de fechamento ou passagem, neste caso o túnel do comboio, onde tudo se decide e onde o decisor é um optimista - ou melhor, não acredita na violência intrínseca dos homens e se aproxima do comportamento do burro, animal mais nobre e inteligente que a maior parte das personagens do filme. E é um filme com uma comovente história de amor.

Cá fora da sala, a chuva despertava-nos para a realidade.
ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA 2004

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Abriu esta semana a Ilustração Portuguesa, evento organizado pela Bedeteca de Lisboa, sob o tema imprensa ilustrada, no edifício da Cordoaria Nacional (Lisboa) O núcleo central da exposição foi uma selecção dos ilustradores Alice Geirinhas, Cristina Sampaio e Vicente Ferrer. Fernanda Fragateiro, Cristina Sampaio e Pedro Zamith são dos nomes que apresentam imagens, algumas inéditas, outras publicadas em jornais e revistas como Independente, Público, Máxima e Blitz.

Para além de um núcleo de um desenhador estrangeiro, o mexicano José Posada (1852-1913), com cem ilustrações, em que cenas de costumes e a morte são elementos essenciais, faz-se uma retrospectiva da geração de ilustradores iniciados no Independente e no Público. Há ainda um espaço - uma lousa enorme - onde se pode desenhar à vontade.quadrado.JPG

A edição de ontem do jornal Público, que se associou pelo sétimo ano consecutivo ao evento, foi integralmente ilustrada por desenhadores e cartoonistas.

Aproveitei a visita à exposição para comprar o número 6 da revista Quadrado, de Maio deste ano, com uma entrevista a Joe Sacco feito por Sandy Gageiro, um levantamento de antologias de banda desenhada e um balanço anual da banda desenhada. Apreciei bastante a banda de José Manuel Saraiva.

LEITURAS DE JORNAIS

Provedor dos leitores

"Ao provedor compete acolher as observações dos leitores e analisar o conteúdo editorial. Não compete pronunciar-se sobre as estratégias da empresa e do grupo a que o JN pertence e, menos ainda, sobre os nomes escolhidos para levar a cabo essas estratégias. Mas já lhe cabe escutar as preocupações dos leitores sobre esta matéria. E o comentário que entende fazer, neste momento, é que seria um caminho insensato e ruinoso aquele que viesse porventura a pôr em causa a orientação editorial de independência e rigor que permitiu ao jornal conquistar o seu capital de credibilidade e a sua aceitação junto dos cidadãos". (Manuel Pinto, provedor dos leitores, hoje, na sua habitual coluna de domingo no Jornal de Notícias, com o títuto "Responsabilidades dos donos e gestores dos media", p. 23 da edição em papel).

Telelixo

"A «telebasura» é uma desgraça mundial, mas em Espanha chegou a extremos verdadeiramente repugnantes. A «telebasura» não é espanhola, é italiana e fundamentalmente [do magnata da televisão e primeiro-ministro] Berlusconi. Uma coisa interessante da televisão de Berlusconi em Espanha é que ganha muito dinheiro. Mas Berlusconi está a ordenhar a vaca e a levar o dinheiro, não está a criar um grupo de comunicação, instituições, etc. Acho que é uma desgraça. Tentei várias vezes fazer promover um debate sobre estas questões, mas é muito difícil porque os políticos têm muito medo dos meios de comunicação. O telelixo está directamente ligado a este excesso do jornalismo do coração, que não é do coração, nem sequer do fígado (como se fazia antes), é do pénis. Na televisão espanhola, a partir de determinada hora da noite, fala-se dos órgãos genitais dos convidados". (Juan Luis Cebrián entrevistado por Adelino Gomes, na Pública de hoje, p. 8).

Pode mudar-se o noticiário televisivo?

lemonde.JPGO jornal Le Monde de hoje traz, no seu caderno dedicado à rádio e televisão, uma análise sobre o formato dos noticiários televisivos. Se transmitidos à mesma hora e com o mesmo formato, isso pode dispersar audiências. Ao invés, se emitidos a horas diferentes e com formatos distintos, pode haver uma fidelização dos telespectadores [vem logo à memória a falta que se vai sentir hoje à noite da conversa de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI].

Ora, o que diz o texto do Monde? Primeiro, que, apesar da multiplicação de canais temáticos e da internet, continua o fascínio pela informação do noticiário televisivo. Segundo, que há algumas transformações em termos de layouts ou de apresentação (o jornalista com ou sem gravata, sentado ou de pé), misturando informação, debate e folhetim [em Portugal e na TVI, a presença de notícias sobre o reality show dentro do noticiário], com as notícias dadas em tom mais sério ou mordaz.

Mas, continua o texto do Monde, é difícil fazer alterações profundas no noticiário, dado ser um género com códigos bem definidos e assim aceite pelo público. Um dos jornalistas da TF1, Robert Namias, esclarece mesmo que "os noticiários televisivos fornecem temas de conversa e, numa sociedade esclarecida, constituem um programa federador". Já para Arlette Chabot, da France 2, a força dos noticiários reside "na estabilidade nos dirigentes, nas escolhas editoriais e nos apresentadores". Um objectivo sempre procurado é que os acontecimentos noticiados sejam bem explicados, enquanto que o apresentador tem de interiorizar a sua posição de mediador indispensável, de transmissor que assina o que diz.

sábado, 9 de outubro de 2004

OBSERVAÇÕES

1) A página "País real", ou "Rede Expresso", fruto da associação do semanário Expresso com vários jornais regionais, aparece na edição de hoje na página 23, a exemplo das últimas semanas. Mas, no começo, se não estou enganado, aparecia mais para o começo da edição, tipo página 5. Pergunta: será que o projecto está a perder fôlego?

2) O canal por cabo Memória, da RTP, é gratuito - para quem tem já assinatura da TV Cabo - ou é preciso um pagamento suplementar? Segundo me disseram, ainda não se sabe muito bem qual a modalidade futura.
AS MINHAS LEITURAS DOS JORNAIS DE HOJE

Acabar com o telelixo no horário infantil (El Pais, p. 34) - É o que Carme Chacón Piqueras, secretária de Cultura da Comissão Executiva do PSOE, gostaria de fazer.

Para ela, as crianças espanholas passam quase o dobro do tempo frente ao televisor se o compararmos com o tempo gasto com os seus professores. Se na escola tem 800 horas anuais, o aluno consome 1400 horas de televisão no mesmo período de tempo. E o que vê nesse tempo? Mais de 12 mil actos violentos como assassinatos, suicídios, ataques com armas de fogo e sequestros. E as matérias desse currículo formativo televisivo são: deseducação sexual, machismo e homofobia, banalização da violência do género (feminino) e de maus tratos e incitamento ao consumo de drogas.

Carme Chacón trabalha os dados de um estudo recente da Fundação Infância e Aprendizagem, encomendado pelo ministério da Educação, o qual revela que a televisão se tornou o principal meio de compreensão da realidade das crianças espanholas. E retira duas conclusões, já introduzidas acima. A primeira é a de que as crianças passam quase o dobro do tempo a ver televisão do que a aprender com os professores. A segunda conclusão é que o que elas recebem do ecrã se torna parte essencial da sua representação da realidade. A televisão, portanto, retirou à escola o tradicional papel de agente principal na socialização de crianças e adolescentes. O que se pode reflectir em desprezo pelos direitos fundamentais da honra, da intimidade, da verdade e da presunção da inocência, acompanhados por uma linguagem soez e por um maus gosto permanente.

No momento em que programas como A rua Sésamo, O cometa branco ou Os cinco desapareceram, o dedo é apontado às questões económicas. Os programas de telelixo têm, para os programadores, uma boa relação preço-audiência. Enquanto o custo de um capítulo de uma série de produção espanhola ronda seis mil euros por minuto, o custo de um reality-show ou de um programa de coração custa €300 por minuto.

Tele 5 com multa de 350 mil euros por fazer contraprogramação (El Pais, p. 69) - O governo espanhol tomou ontem a decisão de multar o canal Tele 5 por não cumprir a norma de 11 dias de antecipação relativamente a alteração de programas, como obriga a lei da Televisão sem Fronteiras. O canal decidiu emitir um episódio da série Los Serrano quando o que estava anunciado previamente era a estreia da sétima temporada de Hospital Central.

Isto não seria notícia se não fosse a multa avultada e, especialmente, por se tratar da primeira vez que tal acontece no país vizinho. A decisão política, muito pesada, assenta no facto de o canal ter cometido mais do que uma infracção em termos de contraprogramação e porque tal foi feito numa franja horária de grande índice de audiência (20:30- 00:00). Apesar de haver legislação desde anos atrás, a verdade é que contraprogramar tem sido uma prática frequente de todos os canais. A questão promete mais desenvolvimentos, com a Tele 5 a ameaçar recorrer de uma decisão sem fundamento jurídico.

E como aconteceria em Portugal, caso o governo tomasse uma decisão semelhante?
O MIRANTE COM NOVAS INSTALAÇÕES

Foram ontem inauguradas novas instalações do semanário de Santarém, O Mirante.

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O Mirante
é o maior semanário regional do país, editando 35 mil exemplares, com três edições diferentes, consoante as zonas para onde se dirige, todas no Ribatejo: Lezíria do Tejo, Médio Tejo e Vale do Tejo. Com uma redacção de 12 elementos e já quase a atingir os 18 anos de existência, o semanário pratica jornalismo de proximidade orientado para os 23 concelhos que serve, de Santarém a Abrantes e Vila Franca de Xira. Cada edição tem 72 páginas.

Segundo um desdobrável do semanário, e a partir de estudo da Marktest, ele é lido por mais de 80 mil pessoas, em que 55,6% dos seus leitores são do género masculino e 44,4% do género feminino e 63% pertencem às classes alta e média alta. Em termos de circulação a nível nacional situa-se no nono lugar (jornais diários e semanários de todo o país, incluindo os de grande circulação de Lisboa).

Ontem também entrou em actividade o sítio do jornal O Mirante. Revistas e livros (poesia, ensaio) são outras das actividades da empresa proprietária do semanário, que se prepara para mais altos balanços: passar a diário e comprar uma estação de rádio. Ao director-geral Joaquim Emídio e ao director do jornal Alberto Bastos desejo os maiores sucessos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

DAS MINHAS LEITURAS DOS JORNAIS

Reforma da imprensa regional (Público, p. 45) - o Governo aprovou, ontem, a nova versão da reforma da imprensa regional. A legislação seguiu para a Alta Autoridade para a Comunicação Social e para o Sindicato dos Jornalistas, para análise e sugestão. Os diplomas, em número de cinco, dizem respeito a alterações à lei da rádio, código de publicidade, distribuição de publicidade do Estado e regime de incentivo às rádios, revistas e jornais, além da criação de um regime próprio de atribuição de apoios à distribuição da imprensa regional (porte-pago).

Rádio Digital (Diário de Notícias, p. 60) - o apresentador de televisão Howard Stern, ligado ao gigante de comunicação Viacom Inc., vai "saltar" para a rádio digital, a partir de 2006, para a empresa Sirius Satellite Radio. O apresentador terá custado um investimento de cem milhões de dólares à rádio. Stern é o apresentador preferido dos americanos do sexo masculino entre os 18 e os 49 anos e líder de audiências em vários mercados, como o de Nova Iorque e Los Angeles. Isto ocorre num momento em que a indústria de rádio por satélite está em franca expansão.
MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA. UMA BREVE HISTÓRIA.

Rádio

A rádio como meio de comunicação iniciou-se em 1920 nos Estados Unidos (em Portugal, desde 1924). Dar notícias foi uma das características essenciais do novo meio, apesar da oposição dos jornais, temendo a concorrência.

Outra característica fundamental foi a programação. No Reino Unido, a programação teria dois sentidos: transmissão contínua de radiodifusão; componentes individuais de radiodifusão. Já por volta de 1940, e ainda no Reino Unido, com o lançamento de um novo canal emissor, com programação dirigida a minorias culturais, começava a fragmentação da rádio.

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[imagens: 1ª) emissor de faísca de Marconi, réplica existente no Museu da Rádio da RTP; 2ª) estação portuguesa CT1BO. A "jóia" da estação era o microfone, ao centro da fotografia. Outro elemento imprescindível era o piano, importante nas transmissões ao vivo. Conseguem identificar-se o proprietário Abílio Cunha, terceiro a contar da esquerda, e o locutor Fonseca Neves, à direita. Fotografia de Ferreira da Cunha, cerca de 1935. Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa; 3ª) anúncio de 5 de Outubro de 1937 no Diário de Notícias à marca Telefunken]

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Uma terceira característica da rádio foi a publicidade, que garantia a independência do meio. Logo no começo da actividade do novo meio de comunicação, em 1923, uma empresa americana, a A.C.Nielsen, estabelecia estatísticas de audiência, necessária para apoiar a colocação da publicidade. Nos Estados Unidos, as novelas radiofónicas receberam o seu nome dos patrocinadores dos dramas de 15 minutos de duração (Colgate-Palmolive, Procter Gamble): as soap operas. Em Portugal, seria o detergente Tide a patrocinar as radionovelas.

Televisão

A apresentação pública da televisão ocorreu na exposição mundial de Nova Iorque, em 1939. Mas foi em 1941 (quando os Estados Unidos entraram na II guerra mundial) que a NBC e a CBS começaram a emitir, embora em horários reduzidos. Depois, em 1948, o preço das acções do fabricante de televisores RCA subia 134%, devido ao sucesso de venda de receptores. Ao aumento de consumo de programas de televisão correspondia uma baixa de assistência nos cinemas.

Na Europa, cada país começou por ter um canal de televisão pertencente ao Estado. A concorrência na televisão inglesa ocorreu em 1954; Portugal começou a ver televisão privada apenas em 1992. As sitcoms inglesas e a transmissão em directo de grandes acontecimentos popularizou a televisão. A coroação da rainha Isabel II, de Inglaterra, em 1953, teve à volta de 20 milhões de espectadores.

Também sucessos populares foram os jogos olímpicos de Tóquio, em 1964, e a aterragem da Apolo XI, em 1969, esta vista por 125 milhões de espectadores nos Estados Unidos e mais 723 milhões em todo o mundo.

Internet

Tem uma arquitectura distinta da rede telefónica, pois pode ligar um mesmo utilizador em qualquer ponto do mundo, com a informação a ser transferida em parcelas ou pacotes. Criada pelos americanos que queriam garantir a segurança de informação, com ligação de computadores entre si, a WWW foi desenvolvida num instituto europeu de investigação de física de partículas, o CERN.

O inglês Tim Berners-Lee, em 1989, criou as hiper-ligações, palavras sublinhadas ou símbolos colocados no interior dos documentos que, pelo clicar neles, remete para outros endereços. Já antes, cientistas e académicos empregavam o @ no endereço electrónico e as abreviaturas ".com ", ".mil" e ".edu" indicavam áreas específicas de sites.

Duas palavras importantes ligadas aos meios de comunicação de massa foram informação e convergência, relacionando computador, redes de telecomunicações e media, e tecnologias como o transístor, o circuito integrado e a digitalização, numa integração de textos, números, imagens e sons.

Leituras
Asa Briggs e Peter Burke (2002). A social history of the media. From Gutenberg to the Internet. Cambridge, Oxford e Malden: Polity Press
Jean-Noël Jeanneney (2003). Uma história da comunicação social. Lisboa: Terramar

[mensagem colocada originalmente no blogue Teorias da Comunicação, em 24 de Setembro de 2003, pelas 9:11:10]

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

PARA OS MEUS ALUNOS DE PÚBLICOS E AUDIÊNCIAS

A aula de hoje foi baseada no primeiro capítulo do meu livro de 1997 Os novos media e o espaço público. O texto completo pode ser lido no sítio da editora Gradiva.
CONSOLAS DE JOGOS

Segundo a newsletter da Marktest.com, mais de 1,7 milhões de portugueses possui consola de jogos em casa. Este número é muito elevado junto dos jovens entre os 15 e os 17 anos. 50,5% destes jovens reside em lares onde existe consola de jogos. O valor é superior à média em alguns grupos-alvo, como os residentes na região da grande Lisboa (26,8% lares), os pertencentes à classe social alta/média alta (30,3%), os estudantes (42%) e os residentes em lares com crianças e jovens entre os 7 e os 13 anos (29%).
OS TEMPOS DE LEITURA NA HOLANDA

Retirei da newsletter do European Journalism Centre o seguinte sobre os tempos de leitura na Holanda.

Não houve qualquer alteração desde 1975 em termos de tempo de leitura, audição e visão dos media por parte dos holandeses: 19 horas semanais, segundo o Social and Cultural Planning Bureau. A única alteração tem sido a passagem dos velhos para os novos media.

Da leitura seca desta informação não retiro grandes conclusões. A manutenção de tempo gasto em obter informação ao longo de trinta anos (presumo que seja dela que se fala, e não de entretenimento, ou será que se combinam as duas?) significa que a sociedade se manteve estável em termos de tempos de consumo dos media. Mas isso indica que os níveis de literacia se mantêm? Se assim for não parece mau. Contudo, se aumentasse esse número de horas de consumo dos media não significaria melhores índices de informação?

E quanto a Portugal?
A MEDIA CAPITAL É NOTÍCIA DIÁRIA

A Media Capital, em especial o canal de televisão TVI, tem sido notícia todos os dias. Foi a estreia da Quinta das Celebridades, foi a entrada da Bertelsmann e agora é a saída do comentador Marcelo Rebelo de Sousa. Mas concentremo-nos na parceria com o gigante alemão dos media e nas cotações da bolsa.

tvi.JPGAssim, a Bertelsmann adquiriu uma posição de 11,6% do capital da Media Capital, negócio efectuado através da RTL (cadeia de televisão), ao fundo americano Hicks Muse Tate & Furst, que sai, por isso, da estrutura do grupo liderado por Paes do Amaral. Segundo a notícia de anteontem, o presidente da RTL manifestou o seu contentamento, afirmando que Portugal é um "mercado multimedia e de publicidade com bom potencial" (sirvo-me de uma das duas notícias do jornal Público de 5 de Outubro). Se a Media Capital possui a TVI e estações de rádio, como a Rádio Comercial, o grupo RTL (detido pela Bertelsmann em 83%) tem participações em 26 canais de televisão - M6, Antena 3 e os canais RTL em vários países - e 24 estações de rádio.

O comunicado da Bertelsmann diz o seguinte: "RTL Group Acquires Stake in Portuguese Grupo Media Capital RTL Group acquires an 11.6 percent share in Grupo Media Capital, one of the major media companies in Portugal. Grupo Media Capital is the leading TV provider in the country and represented on the market with four radio stations. It is active in the areas Internet, publishing and outdoor advertising. RTL Group takes over the shares in the media company from Hicks Muse Tate & Furst, a globally active investment company".

O grupo Media Capital, no dia em que foi divulgada a aquisição, atingia o seu máximo histórico, encerrando nos €4,67. Ontem, dia 6, o valor de cada acção ficava nos €4,88.

Adenda colocada por volta das 17:45

1. A cotação da Media Capital subiu hoje para os €4,9, mais 0,41% que ontem, num dia em que a Euronext registou uma queda de 1,06%.

2. "O povo de Marcelo, os portugueses distantes das elites que, às segundas-feiras, discutiam o sermão no emprego, deu ao ex-presidente [do PSD] uma dimensão impensável há quatro anos. Hoje, Marcelo é, num certo sentido, o terceiro partido político português, maior do que o PP, o PCP e o Bloco. Esse povo não vai aceitar o fim do comentário nem a atitude da TVI" (Miguel Gaspar, Diário de Notícias de hoje).

3. "As longas intervenções de Marcelo Rebelo de Sousa no noticiário dominical da TVI não eram, com certeza, um modelo de jornalismo. Porque eram praticamente monólogos - embora realizados com inteligência, notável capacidade de comunicação e alguma divertida maldade. E porque Marcelo é um político, não um comentador independente. Nada disso atenua o essencial: o que se passou é um mau sinal" (Francisco Saarsfield Cabral, Diário de Notícias de hoje).

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

INVESTIMENTO PUBLICITÁRIO EM OUTDOORS

Segundo o último anuário do Obercom, o investimento publicitário em outdoors no ano de 2003 foi de €200,1 milhões (em 2002, atingira €171 milhões), o que confere a esta forma de publicidade o terceiro lugar, a seguir à televisão e imprensa. O mês de maior investimento foi Outubro.

Nos últimos anos, o mobiliário urbano de publicidade mudou bastante, caso das paragens de autocarro, conforme se percepciona nas imagens de duas recentes campanhas de publicidade ilustram (ver em baixo).

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A primeira campanha aqui destacada foi a da Mango (MNG), marca de roupa para raparigas e jovens mulheres. A agência de publicidade decidiu espalhar várias imagens diferentes ao mesmo tempo, apostando na massificação e diversidade. A mulher fetiche e objecto de adulação surgia assim em espaços de grande concentração urbana (também se encontravam essas imagens nas estações de metropolitano em Lisboa). Todas as imagens tinham a mesma modelo, cujas poses remetiam facilmente para a memória cinematográfica. Misturava-se a roupa mais leve e desportiva com roupa de trabalho ou festa.

Na outra campanha, que decorreu também nas últimas semanas, a da EDP, empresa de electricidade, anunciava a nova imagem corporativa. Assim, os primeiros outdoors aludiam ao novo logótipo, mas ainda sem identificação da marca. Só depois surgiria a marca EDP, com várias imagens, dando conta dos diversos públicos-alvo: escolas, empresas, habitação.

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Foram, a meu ver, duas campanhas bem sucedidas. Contudo, duas notas. A primeira é sobre a campanha da Mango, com recurso habitual a modelos anorécticas. A fidelização à marca tem passado por mensagens semelhantes ao longo dos anos, sem momentos de ousadia. A modelo fotografada é vista em Lisboa e no Porto como em Madrid ou Paris; a variação é a imagem em si ou o tamanho. Por exemplo, nos anúncios do metro em Paris, as imagens são bastantes maiores do que os mupis utilizados em Portugal, pois aproveitam a curvatura da abóbada do túnel da linha ferroviária. A segunda nota vai para a EDP e para eu manifestar a pena que a mudança de imagem não tenha sido acompanhada por uma baixa nas tarifas. Os clientes decorariam mais facilmente a nova identidade corporativa.

Em todos os meios, incluindo outdoors, destacaram-se em 2003 as agências: Euro RSCG MRT, Mccann Erikson Portugal, BBDO Portugal e Young & Rubicam. Quantos aos primeiros cinco anunciantes em 2003, eles foram: TMN, Vodafone, L’Oreal, Procter & Gamble e Leverlida. Os cinco mais importantes sectores no investimento publicitário seriam em 2003: indústria alimentar, higiene pessoal, serviços de comunicação e indústria automóvel.

Uma observação final: a publicidade invadiu as ruas e as paredes das cidades. Umas vezes reparamos, outras nem tanto. Não sei o sucesso das sucessivas visualizações que fazemos dessas imagens. Mas parece-me exagerado que - com certeza provocado pela dimensão dos mupies - as paragens dos autocarros tenham crescido tanto que ocupam o passeio todo. Um peão, para ultrapassar a paragem, arrisca-se a saltar do passeio para a rua, com todo o perigo que isso evidencia, pois os automóveis circulam bem acima dos 50 quilómetros por hora numa rua ou avenida qualquer.

terça-feira, 5 de outubro de 2004

OS MEDIA ESCRITOS E A TELEVISÃO

Em posts colocados hoje, os blogues Jornalismo e Comunicação e ContraFactos & Argumentos - que leio regularmente - remetem para um post escrito no dia 30 de Setembro no blogue de JMF, Terras do Nunca, onde, sob o mote A crise dos media, se alerta para a perda, em termos de vendas, de jornais e revistas, assoberbados, em contrapartida, pela venda de "tachos e panelas, fascículos e coleccionáveis, coisas sem fim". E, continuando a citar o sítio de JMF, escrevem: "antes de venderem tachos e panelas, botões para as lapelas, os jornais vendiam notícias, histórias, sonhos até".

Aceito o que estes blogues dizem. Mas pretendo centrar a atenção nos media escritos de hoje. Selecciono três jornais: Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Público (observação: eu comprei as três edições em papel e não as consultei na versão online). O evidente destaque vai para o novo programa da TVI, a Quinta das Celebridades. Se fiz bem as contas, o jornal do Porto dedicou quase duas páginas inteiras à primeira edição do programa, o Público uma página e o Diário de Notícias apenas a coluna de Miguel Gaspar. A coluna deste jornalista ("Zero de audiência") bem como o espaço de Ana Vitória, no Jornal de Notícias (com o título "Toiro mimoso líder de campanha preventiva"), são linhas de uma profunda ironia. Já a peça de Fernando Magalhães, do jornal da rua do Viriato, é uma espécie de feature.

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Quem são os "famosos" da quinta?

not2.JPGRetenho a atenção na peça do jornalista Manuel Vitorino, no Jornal de Notícias, na secção "País", sobre Avelino Torres, presidente da Câmara de Marco de Canaveses e um dos residentes no espaço físico deste novo programa da TVI. Recolhendo opiniões de autarcas de Marco de Canaveses, Vitorino constrói uma interessante narrativa. Um dos entrevistados lamenta que "o autarca deixe as suas responsabilidades públicas e interprete o papel de «Zé Maria» do Marco". Outra ironiza, dizendo: "Oxalá que a sua participação no programa sirva de estágio para o autarca ir para a cadeia" [devido a uma decisão do tribunal em caso que afecta o autarca]. Um terceiro entrevistado esclarece: "Ele só lá deve permanecer uma semana, ou 15 dias, e depois volta. Depois de retocar a imagem, regressa à campanha eleitoral". Trata-se de "uma questão do foro pessoal", responde um dirigente local do partido a que pertence Avelino Torres, bastante incomodado com esta incursão do político pelo mundo dos reality-shows.

not3.JPGUma outra questão levantada pelo jornalista diz respeito ao número de faltas na autarquia que poderá acumular se se mantiver muito tempo no programa, acarretando eventualmente a perda de mandato. Mas Avelino Torres avisara, ao entrar no programa, que se encontrava de férias.

Dos "famosos" da quinta da ruralidade fazem parte, para além do citado Torres, personalidades do designado jet-set português, como Cinha Jardim e José Castelo Branco, pessoas que circulam frequentemente nas revistas cor-de-rosa.

Audiências e consumo diário de televisão

Duas notas: a primeira para destacar uma das peças do jornal Público. A audiência do primeiro dia do programa Quinta das celebridades rendeu à TVI uma audiência de mais de 1,6 milhões de telespectadores, um valor médio de 17,3%, o programa mais visto do canal de Queluz. De acordo com a Marktest, passaram pelo programa pelo menos um segundo das duas horas e 33 minutos quase 4,4 milhões de telespectadores! O programa foi mais visto aqui na grande Lisboa (22,9%), seguindo-se o grande Porto (13,8%). O share da TVI atingiu, no domingo, 35,4%, a que se seguiu a SIC com 26,7% e a RTP1 com 18,4%. O resultado da TVI deve-se a um triplo cruzamento: futebol, noticiário (mais os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa) e reality show.

A outra nota é para o destaque aos media dado na edição de hoje do Diário de Notícias. Os textos são sobre o Canal de História e a sua nova programação televisiva (duas peças), uma notícia com críticas do ministro dos Assuntos Parlamentares a Marcelo Rebelo de Sousa (pelas suas intervenções na televisão), a coluna de Miguel Gaspar sobre televisão, a efeméride do primeiro episódio da cadela Lassie na televisão há cinquenta anos e um pedido de desculpas da Fox News ao candidato presidencial americano John Kerry. Resultado: três páginas sobre televisão... num jornal.

Voltando ao assunto de começo da mensagem, o da quebra de venda de jornais diários e revistas. Sem ser muito rigoroso, sigo o que escreve Paulo Faustino no seu livro A imprensa em Portugal. Transformações e tendências na página 36: na maioria dos principais títulos, houve um decréscimo por volta de 1996, uma retoma a seguir, uma nova quebra em 2003 e um aumento já este ano (dados trabalhados pelo autor). Por seu lado, o último anuário do Obercom (p. 147) aponta para uma quebra de audiências das publicações generalistas já em 2004, enquanto crescem os leitores dos jornais populares, desportivos e alguns segmentos especializados (a base do Obercom é o Bareme Imprensa da Marktest). A disparidade de tendências pode encontrar-se no critério de análise: enquanto Faustino observa a circulação média, a partir da APCT, o Obercom deu igual relevo aos tipos de audiência e à circulação média e até 2003, não fazendo qualquer projecção [apenas surge uma indicação da tendência no texto inicial mas não reflectido nos quadros estatísticos]. À cautela assumida por esta entidade, Faustino tomou uma postura de risco. O resultado certo saber-se-á em começos de 2005.

Se os jornais, a exemplo do Diário de Notícias, dão muito espaço à televisão é porque esta tem uma influência cada vez maior. Num estudo publicado por David Gauntlett e Annette Hill [TV living. Television, culture and everyday life, 1999, p. 53 (estou a consultar a edição digitalizada de 2004)], baseado em entrevistas e num diário escrito por telespectadores ingleses, e confirmado em inquéritos nacionais externos a essa investigação, concluiu-se que as pessoas estão menos satisfeitas com o que a imprensa diz e acreditam mais nas notícias de televisão. Os telespectadores confiam nas imagens televisivas, no seu impacto e na ligação directa aos acontecimentos do dia. Claro que a tabloidização do noticiário televisivo as preocupa, mas tal discussão aparece contrabalançada pela linha frequentemente tendenciosa manifestada pelos jornais, afirmariam os respondentes do projecto do British Film Institute.

Apesar de eu subscrever as opiniões dos blogues listados no começo da mensagem, e temer pela redução continuada da leitura de jornais, acho que a temática precisa de ser alargada, para uma melhor percepção das mudanças. Não nos podemos cingir ao marketing dos livros, CDs e outros produtos. Até porque estes são vendidos a um preço suplementar - crescentemente superior - e nós não os compramos diariamente.

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

OBRIGADO

Ao Luís Ene, pelo link cimeiro do I. C. no seu blogue Ene coisas.
ONDE SE PODEM COMPRAR MANGAS EM INGLÊS

Há dias (23 de Setembro), escrevi sobre o shopping Brasília, no Porto. Já não ia ao centro comercial há bastantes anos, e fiquei preocupado com o estado de degradação: muitas lojas encerradas, o mesmo acontecendo com o cinema. Mas descobri uma lojinha, chamada Mundo Fantasma, no fundo de um corredor, onde ninguém quase passa, mas local em que se podem comprar livros de banda desenhada, incluindo a japonesa (manga), em traduções inglesas.

manga1.JPGClaro que fiz as minhas aquisições, preparando-me para as fruir de uma assentada, o que infelizmente ainda não aconteceu na totalidade. Kare Kano é a história de jovens liceais - as circunstâncias deles e delas, como aparece no subtítulo do livro -, com as suas paixões e actividades escolares e recreativas, como a representação de uma peça. Se Gundam 0079 é uma história baseada em séries de ficção científica e que recordam brinquedos infantis, de uma certa violência estética, já Kill me kiss me descreve um mundo juvenil e de jovens adultos de maior dureza social e de relacionamento que Kare Kano. Todos estes livros foram traduzidos e impressos nos Estados Unidos.

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Esta minha descoberta vem invalidar a opinião que formulei aqui no blogue, da última vez que escrevi sobre mangas (julgara ser possível só adquirir mangas em francês, resultado de uma pesquisa na FNAC). Afinal, o universo é mais alargado.

A cultura da loja das mangas

Mas pormenor quiçá mais interessante - e para mim foi-o - é o do aspecto da loja (não a fotografei e fiquei arrependido) quer na montra quer no seu interior. A loja Mundo Fantasma é um microcosmos específico e peculiar. A área da frente tem estantes de livros de banda desenhada, entre as quais as mangas. Mas tem uma área mais reservada, onde se podem jogar as cartas de Magic the gathering, com personagens enfeitiçadas e terrenas ou criaturas besta (as imagens seguintes fazem parte desse jogo) e onde se expõem e vendem miniaturas (bonecos) Dungeons and Dragons e Tolkien, universo que remete para a internet, os jogos de computador e as bandas desenhadas, com mostruários onde se montam tais miniaturas. Há, assim, uma interpenetação cultural de várias indústrias culturais, mais desenvolvidas no universo nipónico.

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magic03.jpgTrata-se de um tipo de loja em que o vendedor (o empregado de balcão) conhece os seus clientes e os seus gostos. Podíamos dizer que se trata de um empregado à maneira antiga, que fomenta a tertúlia com os visitantes. Ele próprio é um fã da literatura fantástica, tipo Tolkien.

Observação: agradeço aos irmãos Daniel e João Ribas pela ajuda na concatenação desta mensagem, com o seu entusiasmo e conhecimento sobre a matéria, durante um memorável serão num pequeno café na praia de Matosinhos (local onde decorria uma festa de aniversário de pessoas que não conhecíamos mas que nos ofertaram com uma fatia de bolo).

domingo, 3 de outubro de 2004

DAS MINHAS LEITURAS DE HOJE

Provavelmente não assinado por esquecimento, o Sunday Times de hoje traz um perfil sobre o músico Bob Dylan, agora que saiu uma sua muito aguardada autobiografia exactamente esta semana.

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Robert Allen Zimmerman nasceu em 24 de Maio de 1941, em Duluth, no estado do Minnesota, filho de um judeu, dono de um armazém de mobílias. Mais tarde, adoptou o seu nome artístico a partir do poeta Dylan Thomas. A origem das letras das canções de Dylan mantêm ainda uma certa aura de estranheza. Diz-se que A hard rain's a-gonna fall se inspirou na crise dos mísseis de Cuba, enquanto Blowin' in the wind se pode aplicar a qualquer tema sobre a liberdade.

Histórica é a sua aproximação a Joan Baez, em 1963. Baez, activista contra a guerra do Vietname, e Dylan eram vistos, pelos fãs, como namorados, mas rapidamente viram que eram pessoas totalmente diferentes. O afastamento foi natural. Também histórico é o seu gosto por automóveis e motas, com alguns acidentes enquanto jovem. Um deles, em 1966, levou-o ao afastamento do palco. Quando reapareceu, cantava com uma voz mais grave Lay Lady lay. Nessa altura, sentia-se satisfeito com a família (e cinco filhos).

No livro agora editado [lançamento previsto para 12 de Outubro], Dylan recusa a etiqueta de ter sido a "voz de uma geração". Mas um escritor, Andy Gill, autor de Classic Bob Dylan, 1962-9, anotara que, "desde Hendrix aos Beatles, de Clapton e Cohen... virtualmente toda a música de rock foi inspirada ou influenciada, em certa medida, pela ambição criativa de Dylan". Durante 40 anos, Dylan refugiou-se no mistério, conservando uma atitude de personagem messiânica constantemente em reinvenção e que enfurecia os seus fãs pois não tocava em palco as músicas gravadas. Reconhecido pelos movimentos dos direitos civis nos idos anos de 1960, visto como salvador pelos adolescentes de então, de Dylan também se escreveria ser órfão e ter viajado até Nova Iorque num comboio de mercadorias quando, na realidade, ele viera de carro com a família. A pergunta que se coloca é: até quando Dylan pode descontruir-se?

Em direcção ao lazer digital

É o título de uma entrevista dada por Kevin Frost, director-geral da Hewlett-Packard (HP) a Joseph M. Sarriegui, editada hoje no caderno de “Negócios” do El Pais. E o que diz o entrevistado? Aponta para a expansão, para além do negócio clássico da HP – computadores, impressoras e hardware –, do mercado do entretenimento digital. Assim, acompanhando a eclosão da fotografia digital, a HP desenvolve acções junto da cultura juvenil de massa, um segmento importante de consumidores. Mantém-se a associação com a MTV, com o patrocínio em Novembro da sua gala europeia em Roma, bem como a participação tecnológica na segunda parte do filme Shrek e da nova película de animação digital da Dreamworks, o Shark Tale. Agora, a multinacional apresenta o novo HP Media Center, onde confluem todas as tecnologias do entretenimento: cinema em casa, internet, fotografia digital e descarregamento de música.

Entretanto, não é por acaso que o mesmo caderno do jornal madrileno dedica mais duas páginas inteiras ao negócio das máquinas fotográficas digitais. Numa das páginas, apresenta-se o sector, nomeadamente em Espanha, onde já este ano se venderam mais de 2,1 milhões de máquinas digitais, mais 80% que em 2003. Nikon (14,7% do mercado), Canon (13,8%), Sony (13,2%), HP (9,2%), Olympus (7,9%), Kodak (5,8%) e Fujifilm (4,2%) são os grandes fabricantes envolvidos no negócio. Mas as máquinas digitais enfrentam um concorrente: os telemóveis com câmara fotográfica. Uma pergunta: com este boom do digital, o que fica para as máquinas analógicas? Não há uma resposta única, mas sabe-se que a empresa belga Agfa-Gevaert vendeu, há poucas semanas, a sua fábrica de película tradicional e o mercado da prata, empregue historicamente na emulsão das películas, está a ressentir-se, chegando a preços praticados até 1987.

Na outra página do El Pais, vem uma entrevista com Antonio Pérez, um espanhol que é o director de operações da Kodak encarregado de fazer a transição da empresa para a era digital. Curioso é saber o percurso de Pérez: ele trabalhou 25 anos na HP antes de entrar na Kodak o ano passado, ou seja, empregou-se para transformar a centenária empresa. Dividida em três sectores (consumo, impressão comercial e sanitário), é importante reter aqui algumas das linhas de actuação da Kodak, pela voz desse director: com as máquinas digitais, a Kodak é agora número dois nos Estados Unidos e número quatro a nível mundial. Diz ele: “Naturalmente, as margens das máquinas digitais não são altas, mas demonstramos que sabemos fazer desenhos digitais”. Conseguindo superar a ideia que a Kodak era apenas mundo analógico, os desafios são “a comercialização de produtos digitais e a cultura que necessitamos implantar dentro da empresa”. E Pérez conclui: “Aprendemos a trabalhar com outras empresas, como a IBM, Adobe, Microsoft, mas apenas nos dedicamos à parte da cadeia de valor em que somos os melhores”.