quarta-feira, 27 de abril de 2005

GIAMBATTISTA BODONI

No passado dia 22, quando analisei o último romance de Umberto Eco, A misteriosa chama da rainha Loana, chamara a atenção para o personagem-narrador da história, familiarmente conhecido como Yambo, mas com nome de baptismo de Giambattista Bodoni, igual ao de um tipógrafo italiano (1740-1813).

É, pois, sobre esse tipógrafo que pretendo falar na mensagem de hoje. Como base, tenho o livro organizado por João Bicker para a Almedina e com tradução de Rita Marnoto, o Manual tipográfico de Giambattista Bodoni.

Harmonia, proporção e mercado

Antes de partir para a apresentação do livro, quero destacar o modo como o livro é tratado, a exemplo de outro da mesma colecção e que já fiz referência aqui, o de Eric Gill. Na nota prévia do livro de hoje, escreve-se que a sua publicação "corresponde, mais do que uma intenção técnica ou didáctica, à satisfação de um desejo pessoal, determinado por uma admiração antiga pelo trabalho do grande tipógrafo".

O início da obra de Bodoni é o seguinte: "Eis o fruto da minha indústria e das fadigas que, com verdadeiro fervor, durante muitos anos consagrei a uma arte que é o resultado da mais bela, da mais engenhosa e da mais proveitosa invenção dos homens, quero dizer, a escrita, cuja melhor forma é a imprensa, pois reproduz as mesmas palavras para um vasto público, o que é particularmente importante quando se quer ter a certeza de que não há diferenças" (pp. 53-54).

Passo outra citação: "em que diremos nós que consiste o belo? Talvez, mais do que tudo, em duas coisas. Na harmonia, que satisfaz o espírito quando ele descobre que todas as partes de uma obra concorrem para um mesmo fim, e na proporção, que contenta o olhar, ou antes, a fantasia, entendida como reservatório de certas imagens e figuras, às quais mais agrada aquilo que com elas melhor se conforma" (p. 67). Harmonia e proporção, elementos que Giambattista Bodoni vai buscar às artes plásticas, como a pintura, associam-se à elaboração dos livros. Ou seja: o livro é, em simultâneo, um objecto de conhecimento e uma obra de arte. E liga-se à escrita e a uma forma superior da sua expressão: a imprensa. Pudera Bodoni ser lido hoje por editores mais apressados e que olham apenas o mercado como objectivo.

No começo da obra, a tradutora Rita Marnoto introduz Bodoni na sua época. Publicado em 1818, o livro remete para: 1) capacidades artísticas do autor, 2) ambiente editorial agitado, numa Itália ainda não reunificada e em que os direitos de autor variavam conforme as regiões. Na época, Bodoni, impressor em Parma, foi elogiado pelos maiores autores seus contemporâneos. Teve preocupações pedagógicas, concebendo folhetos informativos e volumes consagrados à arte do livro, sistematizando "preceitos e normas gráficas, regularmente enviadas a companheiros de profissão e a amigos" (p. 19). A edição original, que Bodoni deixou incompleta, continha dois volumes de mais de 600 páginas, com caracteres romanos e exóticos, vinhetas, ornamentos, algarismos e notas musicais (p. 41).

1 comentário:

Maria Joao Caldeirinha disse...

Sabia da amizade que este tipógrafo estabeleceu com o pintor português Vieira o Portuense ?
é uma história curiosa... e que explica a provenîência da colecção Bodoniana da BN.