"«Viajar não é passar umas férias lindinhas de cocktail na mão», conta Maria Miguel Pereira (32), a Mami Arqueolojista, que partiu do México para o Panamá há seis meses, de onde regressou recentemente. «Há dias de praia e de aventura, mas também há dias de chuva e cansaço. Os meus preferidos são quando já começo a sentir-me mais do sítio. E esses são os dias de ir ao café, falar com a velhota que viveu os tempos da revolução, comer bem na tasquinha ou sentar no banco de jardim da praça e sentir que a vida lá de fora é igual à de cá mas perceber que existem outras estratégias de lidar com as mesmas dificuldades, e isso é conhecimento precioso», conta.
Passou 180 noites fora. Dormiu em hósteis baratos, em autocarros, tendas e até em sofás alheios - o couchsurfing que traz surpresas a cada casa que se conhece. Não tem, porém, dúvida nenhuma: «Lá fora percebe-se o muito que há cá dentro». Talvez por isso, reconheça que há cada vez mais portugueses a aderir a estas «modas». «Um português no mundo descobre que tem uma guelra de herói. Somos resistentes, hospitaleiros e unificadores. Somos do caraças!», diz, admitindo que a sua casa agora também é de quem viaja: «Estou a arrendar a minha casa a mochileiros. Misturamos histórias de lá com o vinho de cá» (Diário de Notícias de hoje).
Ia vendo algumas imagens da Maria Miguel na América latina, algumas a lembrarem a Frida Kahlo, por causa das roupas que vestia, mas não sabia da longa digressão que ela fez nos últimos seis meses. De quando em vez, escrevíamo-nos, por causa do seu sítio Arqueologista de Lisboa, ela que fora minha aluna há alguns anos. Agora percebi. Lê-se no começo do artigo de Ana Margarida Pinheiro: "João Vasconcelos, presidente da Startup Lisboa, convive diariamente com jovens e sabe que estas experiências estão a crescer depois de anos de vontade e de falta de capacidade económica. «No meu tempo havia o inter-rail, que ainda existe, mas era uma coisa restrita. Agora é tudo mais fácil, com as companhias low-cost». A novidade, diz, é apenas nossa: «Muita gente de outros países está habituada a passar temporadas fora. Os norte-americanos e os brasileiros há muito que vêm passar um ano à Europa. Os portugueses estão agora a despertar para essa realidade», afirma. E há uma vantagem grande face ao seu tempo: estas opções, que podem acarretar a demissão ou uma licença sem vencimento, são bem vistas pelas empresas. «Os melhores empreendedores que temos na Startup Lisboa têm todos uma coisa em comum: ou viveram ou estudaram no estrangeiro», afirma".
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
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sábado, 11 de julho de 2015
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Sete milhões frequentam centros comerciais
"Os resultados de 2013 do estudo TGI da Marktest revelam que mais de sete milhões de residentes no Continente costumam ir a centros comerciais. Em 2013, o estudo TGI da Marktest contabiliza 7 273 mil indivíduos que dizem ir a centros comerciais (referência: foram nos últimos 12 meses), um número que representa 87,5% do universo composto pelos residentes no Continente com 15 e mais anos. Este hábito é comum a todos os grupos demográficos, sendo no entanto junto dos mais idosos, dos residentes na região Sul e dos indivíduos das classes mais baixas que encontramos percentagens mais baixas. Os dados do TGI indicam ainda que, entre os centros comerciais mais frequentados, Norte Shopping, Colombo e Vasco da Gama são os mais referidos. Os dados e análises apresentadas fazem parte do estudo TGI, propriedade intelectual da Kantar Media, e do qual a Marktest detém a licença de exploração em Portugal, é um estudo único que num mesmo momento recolhe informação para 17 grandes sectores de mercado, 280 categorias de produtos e serviços e mais de 3000 marcas proporcionando assim um conhecimento aprofundado sobre os portugueses e face aos seus consumos, marcas, hobbies, lifestyle e consumo de meios" (texto retirado de http://www.marktest.com/wap/a/n/id~1ca0.aspx).
terça-feira, 6 de março de 2012
Consumos
Consumos e classes sociais em Portugal: auto-retratos é um livro de Raquel Barbosa Ribeiro, a ser lançado no dia 21 de Março, pelas 19:30, na Livraria Ler Devagar (Rua Rodrigues Faria, 103, Ed. G-03, Lx Factory, Lisboa). Raquel Barbosa Ribeiro é docente no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas). A apresentação do livro conta com a presença de Luís Vicente Baptista, que prefaciou a obra. A edição pertence à Causa das Regras.
domingo, 11 de setembro de 2011
LOJAS DE GLASGOW
Carol Foreman, em 2010, publicou Glasgow shops. Past and present. Armazéns, lojas ligadas ou não à alimentação e centros comerciais fizeram parte do seu estudo. As lojas, diz a historiadora de Glasgow, começaram a ter a traça que conhecemos a partir do século XVIII, funcionando a loja no rés-do-chão e o resto da casa para habitação do proprietário. As principais zonas de comércio de lojas eram High Street, Gallwgate, Saltmarket, Trongate, Bridgegate e King Street. A primeira loja a ter iluminação a gás foi em 1818, com o merceeiro James Hamilton. Durante o século XIX, os comerciantes estenderam-se para a parte ocidental da cidade. A Argyle Street abriu em 1828, sendo ainda hoje parte central do movimento da cidade a par de Buchanan Street. Lentamente, formavam-se lojas com nomes que perdurariam, como Lipton (ainda hoje conhecida como marca de chá), Sarah Louise Bridal (roupas de casamento), Paterson (calçado, já não existente no Reino Unido mas na Europa) e Chisholm Hunter (ourivesaria e relojoaria).
Hoje, mantêm-se os edifícios sólidos mas o design exterior das lojas (e restaurantes) não é muito moderno, ficando a operacionalidade da montra e da sinaléctica.
Hoje, mantêm-se os edifícios sólidos mas o design exterior das lojas (e restaurantes) não é muito moderno, ficando a operacionalidade da montra e da sinaléctica.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
BRINQUEDOS MAIS VENDIDOS
"Em vésperas de Natal, os peões Beyblade, os monstros Gormiti, os bonecos Littlest Petshop, junto com os artigos marca Toy Story e Hello Kitty, estão no Top 5 de vendas da maior loja de brinquedos em Portugal" (Diário de Notícias).
SMARTPHONES
"No terceiro trimestre deste ano foram vendidos em Portugal 251 mil smartphones, segundo o estudo IDC European Mobile Phone Tracker. O valor representa uma subida de 82% da venda deste tipo de terminais face a igual período do ano passado, tendo sido o segmento de telefones móveis que mais contribuiu para o crescimento do mercado, que globalmente aumentou 12%, para os 1,3 milhões de unidades, revela o estudo da IDC. Foram «os telefones com o sistema operativo Android os que mais cresceram no mercado face ao terceiro trimestre de 2009»” (Meios & Publicidade).
terça-feira, 24 de novembro de 2009
A CIDADE E OS SEUS CONSUMOS CULTURAIS
Plural de cidade: novos léxicos urbanos é um livro organizado por Carlos Fortuna e Rogerio Proença Leite e editado recentemente pela Almedina. Lê-se no começo da apresentação do livro: "Plural de cidade são as cidades que existem dentro da cidade. Não é um conjunto diverso de cidades, nem uma questão de geografia. Plural de cidade são os territórios díspares que fazem a cidade, as políticas sócio-urbanas e a sua ausência, o atropelo aos direitos e as paisagens de privilégio, as formas de segregação e a ostentação, a cultura, a saúde, o emprego, o dinheiro, o futuro e, ao mesmo tempo, a falta de todos eles".
Além dos organizadores, o livro traz textos de autores como João Teixeira Lopes, Eva Vicente, Silvana Rubino, Paulo Peixoto, Lúcia Bógus, Cristina Meneguello, Luciana Mendonça, Eugénia Rodrigues e outros.
Ana Rosas Mantecón escreve sobre consumos culturais (pp. 299-317). Daí analisar o campo cultural, os públicos e a sua formação, os pactos de consumo (as negociações dentro e fora do campo cultural) e de leitura e de inteligibilidade e as margens de acção dos públicos. Claudino Ferreira estuda os intermediários culturais, que fazem funcionar os circuitos culturais e asseguram a mediação entre a criação e produção da cultura, por um lado, e a recepção e consumo, por outro lado. Por vezes, escreve, a intermediação cultural confunde-se com o próprio sistema de produção das indústrias culturais (p. 322).
Além dos organizadores, o livro traz textos de autores como João Teixeira Lopes, Eva Vicente, Silvana Rubino, Paulo Peixoto, Lúcia Bógus, Cristina Meneguello, Luciana Mendonça, Eugénia Rodrigues e outros.
Ana Rosas Mantecón escreve sobre consumos culturais (pp. 299-317). Daí analisar o campo cultural, os públicos e a sua formação, os pactos de consumo (as negociações dentro e fora do campo cultural) e de leitura e de inteligibilidade e as margens de acção dos públicos. Claudino Ferreira estuda os intermediários culturais, que fazem funcionar os circuitos culturais e asseguram a mediação entre a criação e produção da cultura, por um lado, e a recepção e consumo, por outro lado. Por vezes, escreve, a intermediação cultural confunde-se com o próprio sistema de produção das indústrias culturais (p. 322).
quarta-feira, 15 de julho de 2009
CENTROS COMERCIAIS

São 105 centros comerciais (os hipermercados estão fora) e ocupam 3,4 milhões de metros quadrados em lojas (em ABL, área bruta locável, que não inclui corredores, parques de estacionamento e armazéns), o que daria para albergar os 10,2 milhões de habitantes do país, se toda a gente decidisse ir ao mesmo tempo para esses espaços, conclui Joana Pereira Bastos (Expresso, 4 de Julho último). Cada português vai uma vez por semana a um desses espaços; em 2007, contabilizaram-se perto de 500 milhões de visitas.
O conforto, a diversidade de oferta de produtos e os horários alargados são razões principais dessa preferência. Ao invés, o comércio tradicional não procura a adaptação a estas condições. Por isso, até 2011 prevê-se a abertura de mais doze centros comerciais.
O mesmo trabalho de Joana Pereira Bastos, com Isabel Paulo, aborda dois exemplos de adaptação e sucesso e dois casos de decadência ou fracasso total. Curiosamente, as jornalistas olharam para Lisboa (Fonte Nova e Apolo 70) no primeiro caso e Porto (Brasília e Dallas) no segundo caso, mas poderiam olhar para outros exemplos nessas cidades. Basta percorrer um pequeno centro comercial junto ao Saldanha e os que estão perto da sede da PT, na Av. Fontes Pereira de Melo.
Mas peguemos nos quatro exemplos inseridos na notícia do jornal. Na realidade, o Fonte Nova soube sobreviver ao gigante Colombo; embora haja alguma rotação de lojas, o supermercado, os cinemas, a loja de gelados, a loja de fotocópias, os restaurantes e cafetarias e outras lojas souberam aproveitar-se de uma arquitectura quase quadrada do centro. O Apolo 70, já sem cinema há muitos anos, visitado diariamente por 2500 pessoas, soube aguentar-se mesmo com a grande concorrência do centro comercial por baixo da praça de touros do Campo Pequeno. Se o Fonte Nova está numa boa zona residencial, o Apolo 70 combina residências com forte zona de serviços.
Já os centros do Porto acima exemplificados tiveram outra sorte, até por terem maior dimensão. O Brasília foi, durante anos, um dos maiores centros comerciais do norte do país, com cinema e muitas lojas, alargando inclusivé as instalações. Igualmente situado na Boavista, zona central da cidade, o Dallas parecia ser uma alternativa ao Brasília mas cedo os problemas de estrutura física (problemas de perigo de incêndio, por exemplo) ditaram o seu encerramento. E o Brasília enfrentou a concorrência de centros próximos como o junto ao mercado do Bom Sucesso, que abriria com uma pista de gelo, entretanto desactivada, e um conceito mais moderno de restauração e de cinema multiplex.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
VAGA TGI 2009
A Marktest vai lançar este mês a vaga de 2009 do estudo Target Group Index (TGI), a qual permite o "desenvolvimento de análises evolutivas, identificação de tendências a par de análises centradas nos consumos de média de um determinado target com base nos dados TGI Fusão" (informação da empresa promotora). Assim, esta informação traça o perfil do consumidor, além da penetração de produtos, serviços e marcas para 17 áreas de actividade, 240 categorias de produtos e 3000 marcas.
sábado, 20 de dezembro de 2008
A CIDADE, O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO DO CONSUMO E AS SUAS CATEDRAIS
É o título de um texto de Miguel Silva Graça, a ler aqui.
O texto começa assim:
O texto começa assim:
- A busca de ofertas crescentes e diferenciadas de consumo com vista a construir novas formas de vida tornou-se, indubitavelmente, uma das características definidoras da vida urbana no início deste século. A partir da segunda metade do século XX, o consumo adquiriu uma condição omnipresente – evoluindo de uma categoria claramente ligada a uma noção de posse física para uma noção de acesso a bens e serviços (RIFKIN, 2001) – , assumindo-se como um dos interesses centrais da vida contemporânea.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
COMO APOCALÍPTICOS E INTEGRADOS OLHAM O CONSUMO
Se Lipovetsky (2007: 12) tem uma postura de optimismo - embora moderado - afastando-se das leituras paranóicas do consumo que prevêm o abismo por detrás da abundância e comunicação, Bauman (2007: 77) tem uma definição de “sociedade de consumidores” que não engana: tipo de sociedade que “interpela” os seus membros fundamentalmente enquanto capacidade de consumidores.
De um lado, os integrados (que não questionam a sociedade de consumo); do outro, os apocalípticos, que entendem que os consumidores são seres frágeis nas mãos da sociedade do capitalismo consumista.


A perspectiva de Lipovetsky
Lipovetsky fala em três fases do consumo. A primeira, a do mercado de massa, começou por volta de 1880, com a implementação de infra-estruturas de transportes e comunicações (comboio, telefone) e o fabrico contínuo: em 1914, saíam da fábrica diariamente mil automóveis modelo T da Ford. O surgimento do marketing de massa significou a criação de marcas: Coca-Cola, Procter & Gamble, Kodak. Ao mesmo tempo, na distribuição inventava-se o grande armazém (Printemps e Bon Marché em França, Macy’s e Bloomingdale nos estados Unidos). O grande armazém – de estilo monumental, cúpulas resplandescentes e montras de cor e luz – privilegiariam a rotação rápida de stocks e praticavam preços baixos. Por volta de 1950, nasce a economia de consumo, com produtos emblemáticos da sociedade de afluência: automóvel, televisão, aparelhos electrodomésticos. Melhores recursos sociais, difusão do crédito, modos de vida diferentes (lazer, férias, moda. Juventude, despesa em vez de poupança) (Lipovetsky, 2007: 31). Na terceira fase, a do hiperconsumo (anos 1980 em diante), a aquisição das coisas e as práticas de lazer escapam às lógicas de rivalidade estatutária. À ostentação social de objectos adveio o hiperconsumo sem conflitos e conformista, com uma paixão pelas marcas mas sem fidelidade e a febre da mudança perpétua (Lipovetsky, 2007: 57).
Na segunda parte do livro de Lipovetsky (2007: 131-133), ele fala de prazeres privados, especificando cinco modelos paradigmáticos do prazer e felicidade nas nossas sociedades: 1) penia (pobreza) – as sociedades de consumo assemelham-se a um interminável sistema de estímulos das necessidades que quanto mais prometem a felicidade ao alcance da mão mais causam a decepção e a frustração, 2) dioniso – o cosmos das necessidades sobremultiplicadas é consequência do princípio hedonístico, exacerbação da vida dos sentidos, prevalência dos desejos do desfrutar do prazer aqui e agora, 3) super-homem – reconhece na cultura contemporânea o prolongamento e acentuação dos antigos valores puritanos hostis aos prazeres sensíveis, 4) némesis – a era da abundância não se define tanto pelo clima de ligeireza e benevolência mas por exasperação dos conflitos inter-humanos (Némesis é a deusa que personifica a inveja), e 5) narciso – modelo construído na base da privatização das exigências levadas a cabo pela civilização consumista.
A perspectiva de Bauman
Igualmente partindo de uma perspectiva histórica, Bauman (2007: 79) indica que, no discurso do século XVIII, o consumidor estava praticamente ausente. Mesmo no século XIX, e apesar do incremento das práticas comerciais, publicitárias, técnicas de exposição e das arcadas ou galerias comerciais, arquétipos dos centros comerciais contemporâneos, não houve muitas referências a consumidores. Então, a metade masculina integrava-se como produtores e soldados e a metade feminina como prestadora de serviços. Ora, em contraste com a sociedade de produtores e soldados, a sociedade de consumidores concentra as suas forças de coerção e treino na manipulação do espírito. Cessam estratégias de treino diferenciadas para rapazes e raparigas: o papel de consumidor, diferentemente do papel de produtor, não tem um género específico. Especificando melhor: a sociedade de consumidores não reconhece diferenças de idade ou género nem as tolera nem reconhece distinções de classe.
Na sociedade de consumidores, os “indivíduos” marcados pela sua exclusão são “consumidores falhados”, não podem ser considerados pessoas. Portanto, consumir significa investir na própria pertença dentro da sociedade. Reforçando: o propósito fundamental e decisivo do consumo numa sociedade de consumidores não é satisfazer necessidades, mas converter e reconverter o consumidor em produto, elevar o estatuto dos consumidores em bens de troca vendáveis.
Bauman (2007: 91), entre outros exemplos, chama a atenção para o aparecimento de categorias como o consumismo infantil e a ideia da infância no produto de consumo, ajustando as estratégias de marketing do ponto de vista das crianças, com alteração da perspectiva dos pais. Ou da perda de solidariedade com o aumento da sociedade de consumidores: desaparecem os grupos e cresce o individualismo, sem qualquer vínculo duradouro na actividade de consumir.
Leituras: Bauman, Zygmunt (2007). Vida de consumo. Buenos Aires, México e Madrid: Fondo de Cultura Económica
Lipovetsky, Gilles (2007). A felicidade paradoxal. Lisboa: Edições 70
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
"DISNEYZAR" O MUNDO
Alan Bryman, em The Disneyization of society (2004, reeditado nos anos consecutivos), olha o mundo com lentes opostas à de George Ritzer (ver nomeadamente o que escrevi em 9, 17 e 25 de Novembro e 5 e 14 de Dezembro de 2006).

Isto é, Ritzer olha a mcdonaldização como a racionalização associada ao fordismo, gestão científica e burocracia, decomposta em quatro pontos: 1) eficiência, 2) calculabilidade, 3) previsibilidade e 4) controlo. Para o mesmo autor, "Estandardização e homogeneidade são outros elementos vitais para a McDonaldização – isto é, os negócios da McDonald’s oferecem produtos e serviços de forma eficiente na medida em que existe, para os consumidores, uma escolha limitada. Rapidez, linha de montagem e códigos escritos de conduta dos vendedores da comida McDonald’s situam-se na linha definida por Ritzer de McDonaldização. Trata-se [...] de uma perspectiva pessimista de olhar a presente sociedade de consumo" (texto escrito aqui em 9 de Novembro de 2006).
Já o pensamento de Bryman, embora afirme apostar na linha de pensamento de Ritzer, vai dar a resultados diferenciados. A essência da disneyização é o consumo e o aumento de interesse fornecido por produtos e serviços como variedade, imaginação e espectáculo. O autor aponta quatro princípios: 1) tematização (narrativas pouco articuladas com instituições ou objectos mas que resultam na popularidade destas), 2) consumo híbrido (formas diversificadas ligadas a esferas institucionais distintas), 3) merchandising (promoção e venda de bens sob a forma de imagem e/ou logótipo de instituições), e 4) trabalho performativo (tendência de olhar o trabalho como performance ou filosofia de valor).
Bryman elege os parques temáticos da Disney como estrutura base do seu conceito, onde o temático quer dizer significados e símbolos distintos e partilhados por consumidores, com novas oportunidades de entretenimento e experiências, em que nos expomos constantemente a formas de entretenimento e permanecemos mais tempo num local porque gostamos dele e consumimos mais. A ênfase é colocada na paisagem dos serviços [servicescape], onde o ambiente físico se adapta ao serviço apresentado. Música, desporto, moda, cinema e arquitectura são algumas das áreas empregues e visíveis em parques de diversão, restaurantes McDonald's, centros comerciais, lojas temáticas, cidades e museus.
CONSUMO CRÍTICO
Duas perspectivas críticas de consumo, a comentar quando houver disponibilidades de tempo.


Leituras: Bauman, Zygmunt (2007). Vida de consumo. Buenos Aires, México e Madrid: Fondo de Cultura Económica (original inglês de 2007)
Lipovetsky, Gilles (2007). A felicidade paradoxal. Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Lisboa: Edições 70 (original francês de 2006)
domingo, 1 de julho de 2007
CONSUMO EM APPADURAI

Appadurai escreve sobre consumo, entendendo que este só se torna perceptível quando surge a ostentação. Por outro lado, o consumo é habituação através da repetição. O centro das práticas do consumo é o corpo, por exemplo o comer.
O consumo contribui para um marcador fenomenológico do tempo que o trabalho deixa de fora. O consumo vê-se como intervalo necessário entre períodos de produção. Ou seja, o consumo é o marcador temporal do lazer, do tempo fora do trabalho, é a função civilizadora da sociedade pós-industrial. O consumo torna-se uma forma séria de trabalho, se por trabalho entendermos a produção disciplinada dos meios de subsistência do consumidor. Claro que nasce um paradoxo: as férias são atulhadas de actividades.
Se um sistema de consumo procura libertar-se desse hábito e repetição, ele é empurrado para a estética do efémero, com as características de consumo, moda e prazer. A chave das modernas formas de consumismo é o prazer, não o lazer ou a satisfação. O efémero é a disciplina do consumidor moderno. O consumo cria tempo mas o consumo moderno substitui a estética da duração pela estética do efémero.
Appadurai reflecte sobre o que chama revolução do consumidor enquanto conjunto de acontecimentos cuja referência principal é a passagem da lei sumptuária para a da moda. Esta é elo entre produção, comercialização e consumo. Em muitas sociedades, importantes ritos de passagem têm marcadores de consumo, agregados em torno da oferta de presentes, caso do Natal.
Leitura: Arjun Appadurai (2004). Dimensões culturais da globalização. Lisboa: Teorema, pp. 95-119
quinta-feira, 28 de junho de 2007
HÁBITOS DE CONSUMO DE MEDIA EM ANGOLA
Mais de metade da população residente em Luanda costuma ler ou folhear jornais (50,5%) e uma fatia ainda maior recorre às revistas (54,5%). Dos jornais, o Jornal de Angola tem 28,7% das preferências, seguindo-se o Jornal dos Desportos (17,8%) e a Folha 8 (15,1%). A revista mais lida é a Tveja, com 38,1%, a que se seguem A Caras, com 19,2% e a TV24 com 13,9%.
São estes alguns dados mostrados no estudo Angola - All Media & Products Study, da Marktest, agora a operar naquele país africano. O estudo decorreu sobre a população residente em Luanda, com 5000 entrevistas, entre 13 de Fevereiro e 24 de Maio últimos.
A televisão atinge 91,9% da população, dominada pela TPA (primeiro canal: 86%; segundo: 75,2%), vindo depois a Globo (27%) e a Record (22,8%). Já quanto à rádio, o ranking é o seguinte: Luanda (47,4%), Escola e a Ecclésia. 85,5% dos inquiridos costuma ouvir rádio.
Fonte: Meios & Publicidade (Maria João Morais)
quinta-feira, 9 de novembro de 2006
A sociedade Mcdonaldizada (1)
[conjunto de cinco mensagens]
De Ritzer a Debord, Baudrillard e Klein
Segundo George Ritzer (2004a), o sucesso da cadeia de restaurantes McDonald’s deve-se à existência de quatro tópicos principais aplicados a clientes, trabalhadores e gestores: 1) eficiência, 2) calculabilidade, 3) previsibilidade e 4) controlo. Estandardização e homogeneidade são outros elementos vitais para a McDonaldização – isto é, os negócios da McDonald’s oferecem produtos e serviços de forma eficiente na medida em que existe, para os consumidores, uma escolha limitada. Rapidez, linha de montagem e códigos escritos de conduta dos vendedores da comida McDonald’s situam-se na linha definida por Ritzer de McDonaldização. Trata-se, como desenvolvo aqui, de uma perspectiva pessimista de olhar a presente sociedade de consumo.
Para Ritzer, a McDonaldização infiltrou a sociedade na medida em que as pessoas querem ter gratificação instantânea. Os brindes a quem come um hambúrguer, os descontos numa loja ou a atribuição de pontos para um prémio na aquisição de um serviço fazem parte da mesma estratégia. A Mcdonaldização é um processo vasto de globalização. O livro vê a cultura urbana e popular contemporânea a partir da proliferação de franchising de alimentação da McDonald’s, bem como das lojas de centros comerciais e outras entidades comerciais.
O mesmo George Ritzer (2004b: 93) acha que as catedrais do consumo encantam pela sua capacidade de atrair um número elevado de consumidores. Ritzer fala em espectáculo, definido como um dispositivo público de interesse [dramatic]. Os espectáculos podem ser criados intencionalmente (as chamadas composições literárias, dramáticas ou musicais de carácter fantástico) ou parcial e totalmente não intencionais. A premissa básica é que não basta abrir uma loja, é preciso produzir um romance. Feiras e exposições são exemplos do uso de um espectáculo para vender bens [commodities]. Na realidade, o espectáculo é a base do sucesso de um dos mais importantes e imediatos precursores dos novos meios de consumo. Já há muito que os armazéns americanos usavam cor, vidro, luz, arte, montras, interiores elegantes, mostras temporárias e até encontros natalícios para criar espectáculo.
[continua]
De Ritzer a Debord, Baudrillard e Klein
Segundo George Ritzer (2004a), o sucesso da cadeia de restaurantes McDonald’s deve-se à existência de quatro tópicos principais aplicados a clientes, trabalhadores e gestores: 1) eficiência, 2) calculabilidade, 3) previsibilidade e 4) controlo. Estandardização e homogeneidade são outros elementos vitais para a McDonaldização – isto é, os negócios da McDonald’s oferecem produtos e serviços de forma eficiente na medida em que existe, para os consumidores, uma escolha limitada. Rapidez, linha de montagem e códigos escritos de conduta dos vendedores da comida McDonald’s situam-se na linha definida por Ritzer de McDonaldização. Trata-se, como desenvolvo aqui, de uma perspectiva pessimista de olhar a presente sociedade de consumo.
Para Ritzer, a McDonaldização infiltrou a sociedade na medida em que as pessoas querem ter gratificação instantânea. Os brindes a quem come um hambúrguer, os descontos numa loja ou a atribuição de pontos para um prémio na aquisição de um serviço fazem parte da mesma estratégia. A Mcdonaldização é um processo vasto de globalização. O livro vê a cultura urbana e popular contemporânea a partir da proliferação de franchising de alimentação da McDonald’s, bem como das lojas de centros comerciais e outras entidades comerciais.
O mesmo George Ritzer (2004b: 93) acha que as catedrais do consumo encantam pela sua capacidade de atrair um número elevado de consumidores. Ritzer fala em espectáculo, definido como um dispositivo público de interesse [dramatic]. Os espectáculos podem ser criados intencionalmente (as chamadas composições literárias, dramáticas ou musicais de carácter fantástico) ou parcial e totalmente não intencionais. A premissa básica é que não basta abrir uma loja, é preciso produzir um romance. Feiras e exposições são exemplos do uso de um espectáculo para vender bens [commodities]. Na realidade, o espectáculo é a base do sucesso de um dos mais importantes e imediatos precursores dos novos meios de consumo. Já há muito que os armazéns americanos usavam cor, vidro, luz, arte, montras, interiores elegantes, mostras temporárias e até encontros natalícios para criar espectáculo.
[continua]
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