Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

30.6.15

"Sam Shaw: 60 Anos de Fotografia", no Centro Cultural de Cascais a partir de 11 de Setembro‏

A Shaw Family Archives elegeu o Centro Cultural de Cascais como ponto de partida para a digressão mundial da grande retrospetiva da obra do famoso fotógrafo nova-iorquino, que inaugura no final deste Verão e conta com imagens raras e nunca antes apresentadas ao público.

Sam Shaw: 60 Anos de Fotografia percorre as mais de seis décadas da fantástica carreira de Sam Shaw, da qual fazem parte imagens tão célebres quanto a fotografia de Marilyn Monroe de saia esvoaçante sobre o respiradouro do metro, em Nova Iorque. Shaw (1912-1999) retratou praticamente todas as estrelas da indústria cinematográfica da sua época, mas também músicos, artistas, escritores e intelectuais da altura, sendo os seus trabalhos bem conhecidos do público português. A exposição composta por mais de 200 imagens, estará patente no Centro Cultural de Cascais, de 11 de Setembro até 8 de Novembro de 2015 (na imagem: Marlon Brando, Los Angeles 1959) [informação fornecida pela organização da exposição].

29.6.15

Sobre o melodrama

Hoje, na Universidade Católica Portuguesa, foi defendida a dissertação de mestrado de Pedro Lopes, Imitação da Vida. A Escrita Cinematográfica e o Melodrama. No trabalho, o autor presta uma homenagem aos filmes realizados por John Stahl (1934) e Douglas Sirk (1959), a partir de um romance de Fannie Hurst, na busca da evolução do melodrama desde o seu aparecimento como género no teatro e a sua evolução com o cinema. Pedro Lopes estudou também as obras tardias de Douglas Sirk e olhou a reinvenção do melodrama a partir da década de 1970 em realizadores como Rainer Werner Fassbinder, Pedro Almodóvar e Todd Haynes. O trabalho hoje defendido serviu de moldura teórica para a escrita de uma longa metragem, a realizar para o próximo ano.

 

Pedro Lopes trabalhou para a Casa da Criação onde colaborou na escrita de novelas da TVI (Saber Amar, Queridas Feras e Morangos com Açúcar). Licenciado em História, o agora mestre em Ciências da Comunicação estreou-se na SIC como autor principal em Perfeito Coração. Depois, foram Laços de Sangue, telenovela vencedora de um Emmy, Dancin' Days e Sol de Inverno. O diretor de conteúdos da SP Televisão também escreveu séries para a RTP.

27.6.15

Festa popular

Festa popular do Brasil na freguesia de Arroios: danças a reconstituir a festa de casamento na Bahia.

25.6.15

Jorge Moyano na Sociedade de Geografia de Lisboa


Ele tocou Chopin, Debussy, Ravel e Gershwin. A noite estava muito quente, pelo que se abriram as janelas. De fora, vinham sons da rua e de música popular, o que levou a fecharem-se as janelas. Algo estranho mas agradável.

23.6.15

As minhas pinturas preferidas

Um dia, sonhei escrever um livro sobre o Museu Nacional Soares dos Reis (Porto) e a sua pintura. Já tinha título (As Minhas Pinturas Preferidas) e tinha a lista das cinco pinturas sobre as quais queria escrever.

Em primeiro lugar, O Barredo de Dórdio Gomes (1935), talvez por causa de imagens do rio Douro que guardo dos meus primeiros anos de vida. Depois, Henrique Pousão e o seu Esperando o Sucesso (1882), a obra mais moderna do grupo que selecionei. Falecido muito jovem, aquela pintura remete para a infância do autor, com um desenho de criança semelhante aos sonhos que todos têm naquela idade. Interior (Costureiras Trabalhando) (1884), de Marques de Oliveira, exerce um fascínio permanente de cada vez que percorro as salas do museu. Creio que por causa do artista pintar a mesma modelo (a sua mulher) em duas posições diferentes nessa atividade doméstica de coser a roupa. Era a época em que a máquina de costura estava a entrar no conjunto de artefactos caseiros. Também a ampla porta para o jardim desperta o interesse pelas flores e pelos cheiros da natureza.

Aqui, sou levado à minha quarta obra preferida, a de Silva Porto, Um Campo de Trigo - Seara (Arredores de Paris) (1878-1879). Durante muitos anos, considerei a obra do pintor e de outros naturalistas perfeitamente anacrónica. Mas a posição do quadro na sala permite-me imaginar um zoom como se fosse no cinema, vindo da sala anterior até olhar muito de perto os pigmentos das cores do quadro. O que me reconciliou com o pintor. De novo, a imaginação dos cheiros da seara no verão quando os cereais estão a ser recolhidos e da chuva caindo sobre pequenos troncos em decomposição no outono seguinte. O último quadro de eleição pessoal é obra dupla de August Roquefont (sem data) com o Retrato da Baronesa do Seixo e o Retrato do Barão do Seixo, sobre os quais já aqui escrevi sob a ideia de, depois de ver os quadros, só lhe falta ouvir a voz dos retratados. Eles estão logo à entrada do percurso pictórico do museu, prontos a lembrar como seria a burguesia do Porto numa época de grande pujança da cidade comercial e cultural.

Reconheço que houve uma alteração de gostos estéticos. Ou, parece-me mais adequado, deixei de ser radical face a gostos anteriores muito pós-modernos. Um dia, quando dirigia uma visita de estudo a uma exposição na Árvore, uma aluna perguntou-me se eu gostava mesmo daquela pintura tão abstrata. Sonhei escrever o livro, mas já não tenho tempo para isso, pois estou ocupado com outros projetos. Limito-me a ir com frequência ao museu e, se for a altura e estiver bom tempo, de almoçar no pátio interior.

22.6.15

Rádios piratas e rádios na internet

O livro Das Piratas à Internet: 25 Anos de Rádios Locais foi organizado por Ana Isabel Reis, Fábio Ribeiro e Pedro Portela e editado pelo CECS (Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho). Tem data de publicação de dezembro de 2014 e foi divulgado essencialmente em formato ebook.

É um belo livro, desde já porque se trata de um livro sobre rádio. Depois, recolhe muitos autores especializados além dos organizadores: Alberto Arons de Carvalho, Elsa Costa e Silva, Luís Bonixe, Madalena Oliveira e Luís António Santos. Em terceiro lugar, uma boa surpresa: entrevistas a profissionais da rádio: António Colaço, António Macedo, Carlos Daniel Alves, David Pontes, Francisco Amaral, João Paulo Meneses, Joaquim Franco, José Carlos Barreto e José Coimbra. Em quarto lugar, o projeto gráfico (e edição digital), a cargo de Alberto Sá e de Ricardina Magalhães.

Na nota introdutória, os organizadores lembram o marco significativo da lei da rádio de 1988 e da atribuição de frequências locais em 1989, tópicos para reflexão do fenómeno das rádios locais. O texto de Ana Isabel Reis dá uma boa perspetiva da evolução histórica (pp. 11-26), onde define três gerações (ou etapas, na minha leitura): entusiasmo amador, interesse dos poderes locais, projetos profissionais. Algumas centenas de projetos idealistas terão ido para o ar, com a legislação de 1988 a atenuar esse entusiasmo não ligado a práticas comerciais e organizativas. No Porto, a Rádio Caos, em Lisboa, a TSF, são dois exemplos olhados pela autora. Mas também a Rádio Antena Livre (Abrantes) e a RUC (Coimbra) figuram na lista, com bastante detalhe. O texto de Arons de Carvalho é mais político e sobre a legislação. As responsabilidades políticas dele aparecem aqui bem expressas. Destaco o seu ponto de vista sobre mudanças recentes, com os processos de concentração, as modificações de projeto nas rádios locais e a possibilidade de nova vaga de experimentalismo e poesia com o licenciamento de rádios comunitárias.

A perspetiva mais económica é apresentada por Elsa Costa e Silva, na sequência de outros estudos que a autora tem feito sobre os media. Destaco o texto das pp. 52-56, com atenção à propriedade e concentração da rádio local em Portugal. O fracasso dos ideais de 1989 foi a concentração e a perda de (alguma) diferenciação dos projetos ao longo do país. Agora, muitas das frequências locais são repetidores de estações com sede em Lisboa - boas para quem se desloca de automóvel ao longo do país e ouve a sua estação em todo ele. No período entre 2006 e 2011, a autora estima 43 operações de retransmissão autorizadas pela ERC.

Seguindo um percurso sólido na análise do jornalismo na rádio, com um ponto alto na sua tese de doutoramento e posterior publicação, Luís Bonixe identifica rotinas e constrangimentos no jornalismo radiofónico. Com dados sobre 50 jornalistas trabalhando em 35 rádios locais, o autor traça uma radiografia precisa: metade são mulheres, 42% têm entre 31 e 40 anos de idade, 24% são jornalistas há menos de cinco anos mas 18% trabalha como jornalista da rádio há mais de 11 anos, 74,19% formaram-se em ciências da comunicação, 42% indica que o reduzido número de profissionais afeta o seu dia a dia de trabalho. Madalena Oliveira prefere destacar a proximidade, o caráter intimista e de sotaque na rádio local, a diferença entre as categorias temática e generalista. A autora foca a linguagem simples e descomplexificada e a orientação local para a promoção musical mas também a participação do ouvinte através do telefone, em busca do popular e do trivial.

21.6.15

As Raposas

Luísa Cruz desempenha muito bem o papel de Regina Giddens na peça As Raposas, de Lillian Hellman. Não é um registo autobiográfico da escritora, apesar dela ter observado uma realidade semelhante na sua infância, a dos jogos de poder dentro da família. Cada elemento vangloriava-se de ser mais rico e hábil nos negócios que os outros familiares, tema usado com frequência nas reuniões familiares mais ou menos regulares à volta da mesa. A Regina da peça representada no Teatro Aberto é paciente, tenaz e dura para com os irmãos e o marido. Ela sabe esperar o seu momento de ataque, aliás secundada por um dos irmãos, Benjamin Hilton (Virgílio Castelo), que, no final, reconhece que perdeu mas há mais situações no futuro. O mundo, a seus olhos, é construído por ganhos e perdas, processo dinâmico a que os mais fortes e ágeis estão atentos.

O cenário fixo, desenhado por António Casimiro e João Lourenço , decompõe-se em três espaços. A sala, onde decorre a maioria dos diálogos, o fundo, de entrada para a casa e onde se observa o verde da paisagem, a escada, onde o desenlace se dá: Henrique Giddens, regressado a casa após vários meses numa clínica, morre de ataque cardíaco no momento em que procurava um remédio. A mulher, Regina, mantém-se fria sentada no sofá à espera que ele morra. Em jogo estavam 30 milhões de euros em ações, roubados pelo sobrinho Leonardo (Pedro Caeiro) e que Henrique não queria que fossem para Regina. Roubo, traição, perfídia e interesses individuais face ao coletivo são tópicos fundamentais da peça.

Das outras personagens, retive a de Betty Hilton (Gracinda Nave), a mulher-boneca e que foi a oportunidade para Oscar Hilton (Marco Delgado) aceder à riqueza e aristocracia à moda americana. Hábil a tocar piano, ela confessa não saber fazer nada na vida e passa os dias a beber para esquecer a perdida Quinta dos Leões e o tempo dos seus pais, que procuravam ser mais honestos entre si e respeitosos da condição dos seus trabalhadores. O negócio, agora em desenvolvimento, com a entrada de um financeiro para expandir linhas de produtos, William Marshall (Eurico Lopes), permitia um leve sonho dela regressar a esse tempo de inocência. Mas os restantes elementos da família logo se encarregaram de eliminar essa possibilidade.

A peça teve adaptação ao cinema em 1941, com realização de William Wyler e Bette Davies no papel de Regina, e à ópera em 1947, com o título Regina e música de Marc Blitzsein. Em Portugal, a peça, com o título As Pequenas Raposas, foi estreada em 1966, com Eunice Muñoz, Maria Lalande, Rogério Paulo, Henriqueta Maia e João Perry, entre outros. Então, Perry fazia de Leonardo, o filho de Oscar que roubou as ações de Henrique; agora, faz o papel do mais velho.

Por instantes, a partir das diferentes posições de cada membro da família representada, lembrei-me da história do banqueiro Ricardo Salgado, da família deste e do Banco Espírito Santo.

19.6.15

Impressões do jornalista após a Expo de Osaka

Disse Adelino Gomes, à chegada de Osaka, Japão, onde foi reportar a Expo 70 para o Rádio Clube Português: "séculos de História, de progresso científico, que estão em cada um dos pavilhões das setenta e sete nações presentes" (Diário Popular, 28 de março de 1970). O jornalista falaria para Portugal via satélite, sem retorno de som de Lisboa, junto a técnicos que apenas falavam japonês e a oitocentos homens de informação de todo o mundo.


18.6.15

Hands-on history: exploring new methodologies for media history research

8—10 February 2016, Geological Society, London (can also be viewed at http://tinyurl.com/HandsOn16)

Confirmed keynote speakers: * Prof. Susan J. Douglas (Professor of Communication Studies, University of Michigan) * Dr. Gerard Alberts (Associate Professor of the History of Mathematics and Computing, University of Amsterdam) “Media Scholars and Amateurs of All Countries and Disciplines, Hands-on!”


* Recent years have witnessed a growing turn to experimental historical research in the history of media technologies. In addition to archival investigation and oral history interviews, historians and enthusiasts are increasingly uncovering histories of technology through hands-on exercises in simulation and re-enactment. Equipment lovingly restored by amateurs, or preserved by national heritage collections, is being placed in the hands of the people who once operated it, provoking a new and rich flood of memories.

The turn to experimental research raises profound methodological questions. The unreliability of narrative memory is well proven, but what do we know about the limits of haptic and tactile memory? To what extent is it possible to elicit useful memories of technological arrays when parts of those arrays are missing or non-functional? How do the owners of old equipment shape the historical narratives which are stimulated by their collections?

Hands-On History is a colloquium designed to facilitate discussion of these issues between historians, users, curators and archivists (amateur and professional) who are making use of and taking part in these historical enquiries. In addition to a series of keynote presentations by leading scholars in the field, the event will also include stimulating workshops on specific focus areas. While the focus of the event will be on media technologies, broadly defined, we invite contributions from other areas of technology and from other academic disciplines. This colloquium aims to make a decisive intervention in this emerging area of academic interest. It is part of the ADAPT project, a European Research Council funded project investigating the history of television production technologies through hands-on simulations. Research conducted by ADAPT will form a key case study for the colloquium.

In order to facilitate productive discussion, numbers will be limited. It is expected that papers presented will form the basis of an edited collection focused on hands-on historical research. We invite proposals for research presentations, panel discussions, and historical equipment demonstrations. Presentations may take whatever format is most appropriate, and we welcome approaches which deviate from the traditional 20 minute lecture.

Please send a brief proposal to nick.hall@rhul.ac.uk by 28 August 2015. * Andreas Fickers and Annie van den Oever, “Experimental Media Archaeology: A Plea for New Directions” 2013


See full cal for papers: http://www.adapttvhistory.org.uk/

Alice Vieira crítica de televisão

Não conhecia Alice Vieira como crítica de televisão. Ela escreveu no Diário Popular, de onde retirei uma das suas análises Ontem Vimos, de 25 de outubro de 1969. Alice Vieira comentou um episódio da série Casei com uma Feiticeira, uma dona de casa que fazia magia sempre que torcia o nariz. Lembro-me da série, onde a personagem marido era inculta, nem sempre sensível por não compreender o que se estava a passar. Além das gargalhadas que irrompiam nos episódios como se fosse uma representação ao vivo em sala de teatro.

 
Alice Vieira escreveu sobre o que aprendeu em termos culturais, a começar pela palavra gloxímia. O episódio de 24 de outubro de 1969 meteu imagens de Londres, Paris e um campo de golfe na Escócia e desportos como corridas de automóveis, roleta (desporto?) e saltos de paraquedas. A escritora e crítica de televisão concluía pelo grande poder de atração da imagem. Lembro que a televisão então era a preto e branco.

17.6.15

Do telefone à rádio

Não pretendo fazer uma investigação em torno da matéria trabalhada por Gabriele Balbi Dal telefono alla radio (e ritorno?), mas fica aqui a ligação.

16.6.15

O que são e para que servem as indústrias culturais e criativas?

Hoje, publiquei as notas de uma disciplina iniciada este ano na licenciatura de Comunicação Social e Cultural com o nome de Indústrias Culturais e Criativas. Por opção pessoal, foi também o último ano que a lecionei. Dividi-a em três blocos - matéria teórica, leituras para fazer e apresentar na aula por parte da turma e presença de convidados. O que são e para que servem as indústrias culturais e criativas, perguntei à partida. Trata-se afinal do tema central deste blogue alimentado desde 2003, responsabilidade que eu nunca pensei em prolongá-la por tanto tempo.

A uma introdução rápida do conceito fundador de Adorno e Horkheimer em 1947, alarguei o âmbito do tema e falei de conceitos retirados de Bernard Miège, David Hesmondhalgh (2007). The Cultural Industries. London: Sage, Justin O’Connor (2007). The Cultural and Creative Industries: A Review of the Literature (texto de trabalho não editado), Christiane Eisenberg, Rita Gerlach, Christian Handke (eds.) Cultural industries. The British experience in international perspective (texto em formato electrónico pdf Adobe) e Dieter Putcha, Friedrich Schneider, Stefan Haigner, Florian Wakolbinger e Stefan Jenewein (2010). The Berlin Creative Industries. An empirical analysis of future key industries. Heidelberg: Gabler. Acrescentei o fantástico livro de Rosamund Davies e Gauti Sigthorsson (2013). Introducing the Creative Industries. Los Angeles e Londres: Sage, o necessário embora controverso Richard Florida (2002). The Rise of the Creative Class: and how it’s transforming work, leisure, community. Nova Iorque: Basic Books e o relatório de Augusto Mateus sobre indústrias criativas (2013), com as sinergias cultural, turística e industrial. Dos convidados, tive presente Alexandre Rodrigues (fãs de videojogos), Pedro Russo Moreira (música e rádio no Estado Novo), Joana Linda Correia (fotografia e artes performativas), Pedro Lopes (produção de ficção televisiva), Ana Garcia Martins (blogues, moda e tendências de consumo), João David Nunes (gestão das indústrias culturais), João Porto (audiências dos media), Anabela Mota Ribeiro (jornalista), Miguel Fernandes e Francisco Garcês (comunicação audiovisual no poder local) e José Carlos Alfaro (livreiro). Após estas presenças inquiri a turma para catalogar cada convidado nas três categorias de organização como o livro de Davies e Sigthorsson explica: freelancers, pequenas e médias empresas, grupos de media e indústrias criativas.

O trabalho produzido na turma foi muito rico, como os seus trabalhos finais refletem. A aluna polaca escreveu sobre as indústrias culturais e criativas de Varsóvia, a aluna basca escreveu sobre a realidade em Bilbau, ensinando que há mais coisas além do museu Guggenheim, os alunos portugueses escreveram sobre Lisboa. Um elemento da turma ficou tão entusiasmado que me falou já de querer estagiar numa nova empresa aqui em Lisboa na área das indústrias culturais e criativas. Outro elemento de alegria foi o falarmos uma linguagem nova, com conceitos que, de início, pareciam estranhos. Quase todos os elementos da turma me falaram das discussões tidas entre eles sobre o que ouviram dos convidados e dos ensinamentos recolhidos nesses contactos.

15.6.15

Património sonoro e fotográfico em discussão na Torre do Tombo

No dia 18 de junho, entre as 14:30 e as 17:30, na Torre do Tombo, vai decorrer mais uma sessão da iniciativa SOS digital. O objetivo é abordar a temática do património sonoro e fonográfico através da identificação de problemas, campos de intervenção e questões técnicas estruturais que se colocam a quem trabalha nesta área, na perspetiva da digitalização no longo prazo.

Organizada pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas em parceria com o Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança este evento está alinhado com o Projeto Continuidade digital. Participação: gratuita, mas sujeita a inscrição (enviar mensagem eletrónica para mario.santana@dglab.gov.pt , referindo: nome, entidade/serviço, designação “SOS digital” em assunto). Local de realização: Edifício do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Alameda da Universidade, Lisboa. Data de realização: 18 de junho de 2015 (14h30 – 17h30)

Ver mais em http://arquivos.dglab.gov.pt/2015/06/04/sos-digital-patrimonio-sonoro-e-fonografico/.

14.6.15

A história de uma repórter intrépida contada por Gonçalo Pereira

Quando escrevi aqui sobre o livro de Gonçalo Pereira Parem as Máquinas!, anotei que faltavam histórias de mulheres jornalistas. O autor quase não descansou até editar a história da repórter Fernanda Reis.

«Salte!»
Fernanda Reis não assimila de imediato as implicações daquela ordem. Foi proferida num tom imperativo, mas com uma calma totalmente desajustada da realidade que se vive a bordo daquele bombardeiro pintado com as cores da Organização das Nações Unidas (ONU). Foi o soldado encarregado da metralhadora que ordenou a Fernanda que saltasse para o vazio, o mesmo soldado que, instantes antes, ficara com um «dos braços inutilizados por uma rajada de metralhadora inimiga».
«Salte!»

Assim começa a história de Fernanda Reis na guerra da Coreia, em 1952. Portuguesa, aluna de Medicina até ao segundo ano, piloto de automóveis nos tempos livres e repórter, mulher de "moral duvidosa", como a rotulou a polícia política portuguesa em 1940, foi para o Brasil e trabalhou para jornais do Rio de Janeiro, como A Noite e O Globo. A jornalista esteve no centro da guerra e relatou-o. Se quiser continuar a ler, veja aqui: http://ecosferaportuguesa.blogspot.pt/2015/06/fernanda-reis-reporter-intrepida-na.html.

Ainda sobre o texto Televisão e Sociedade (aqui apresentado no passado dia 5 de junho)

Há dias, publiquei um recorte de imprensa do Diário Popular (22 de setembro de 1969), artigo de Fernando Correia com o título "Televisão e Sociedade".

Agora recolho memórias do autor e do texto. Em 1969, Fernando Correia estava na tropa, e ia escrevendo em casa umas coisas para o jornal. Por simpatia de Pinto Balsemão, e para poder ganhar algum dinheiro visto não receber salário, até colaborou com crítica de televisão, assinando António Pinheiro. O cumprimento do serviço militar não era compatível com o exercício da profissão, que ele iniciara em 1966, no mesmo Diário Popular.

Fernando Correia, ao recordar este texto, mostrou-se surpreendido com a leitura de algumas passagens. Em princípio, a censura cortaria, embora em textos deste tipo, mais "difíceis" para os leitores habituais de um jornal como o Popular, a censura fosse, por vezes, mais "condescendente". Mas o então jovem jornalista também recorreu a metáforas como sistema englobante em vez de sociedade capitalista. Há ainda uma referência cifrada à ação da censura, implícita na equívoca alusão à falta de espaço para poder escrever mais: "De tudo isto (e de muito mais que não pode ser dito) resulta".

As entrelinhas funcionavam para alguns leitores!

12.6.15

O jornal do futuro em 1969

As eleições de outubro de 1968 levariam Francisco Pinto Balsemão ao parlamento, enquanto deputado da ala liberal da União Nacional. Ele já era um homem dos jornais, como um dos responsáveis do Diário Popular. Aqui, no seu jornal, uma notícia sobre uma conferência por ele dada a um curso de jornalismo (22 de março de 1969). Mais tarde, em 1973, fundaria o Expresso.

O curso era promovido pelo Sindicato Nacional dos Jornalistas, ainda antes das licenciaturas em jornalismo e comunicação. Na conferência, Balsemão falava em computadores e atraso tecnológico em Portugal e desenvolvia o neologismo tecnetrónica, sociedade onde se juntavam as ideias de tecnologia e eletrónica. Diria: "As empresas de Imprensa, para se manterem, para ganharem dinheiro, precisam de acompanhar o progresso tecnológico". Reconheço a importância da pertinente e permanente ideia em Balsemão ao longo de décadas até hoje.


9.6.15

Portal Iberoamericano Gestión Cultural

O portal Gestión Cultural, na sua edição de junho de 2015, destaca o blogue Indústrias Culturais. Obrigado.

8.6.15

El humor en la historia de la comunicación en Europa y América

Antonio Laguna Platero e José Reig Cruañes (eds.) (2015) escrevem, na introdução do livro: "El humor como la risa no sólo son formas de expresividad y comunicación sino que, de acuerdo con distintas investigaciones psicológicas o fisiológicas, son medios importantes para la propia salud. Teorías sobre el poder curativo de la risa, sobre los beneficiosos efectos en todo tipo de traumas del ser humano, circulan hoy en día de una manera generalizada sustentadas en una amplia bibliografía. Es lógico, por tanto, entender por qué la receptividad del mensaje humorístico es y ha sido siempre elevada. No sólo por lo atractivo del mensaje, casi siempre adornado con imágenes y poco texto, sino por la predisposición del receptor a su consumo. Una predisposición que, como hemos señalado, supera el nivel intelectual para recalar en el emotivo. Con la risa –se ha teorizado– el individuo expresa emociones, libera tensiones, muestra placer".

O livro resulta das comunicações apresentadas ao XIII Congresso Internacional da Asociación de Historiadores de la Comunicación realizado em Cuenca, Espanha, em outubro de 2013 (ler aqui). Eu escrevi sobre um programa radiofónico de humor, A Voz dos Ridículos.


6.6.15

Casamento com manta dos afetos de Santa Maria Maior em fundo

A manta tem 1700 peças em malha ou pintadas e resulta do trabalho coletivo de 258 pessoas. Durante este mês, cobre a fachada do edifício da sede da junta de freguesia de Lisboa (Alfama, Baixa, Castelo, Chiado e Mouraria).


5.6.15

Televisão e sociedade

Fernando Correia era jornalista do Diário Popular. Este texto, publicado em 22 de setembro de 1969 (pouco antes das eleições para deputados), terá sido uma marca do então jovem profissional e que se viria a notabilizar nos media. Aqui, sob o título Televisão e Sociedade, ele escreveu: "O valor social da Televisão é, hoje em dia, um facto incontroverso e que se mede, até, através dos resultados concretos obtidos em alguns países, onde a sua utilização como meio de formação e informação tem contribuído decisivamente para o progresso cultural e a consciencialização do povo".

O texto dividia-se em alguns subtítulos: a chave da questão, o rótulo e o conteúdo, a publicidade, a resistência dos intelectuais, contradições. Com notas de rodapé e bibliografia então muito recente, o texto aproximava-se de um ensaio. O autor especializar-se-ia depois nesse tipo de trabalho.

4.6.15

Museu do Trabalho Michel Giacometti (Setúbal)

Instalado numa antiga fábrica conserveira, desde 1987, relevo a reconstituição da mercearia da Liberdade (que existiu na avenida da Liberdade, em Lisboa) e da fábrica da indústria conserveira, bem como os equipamentos e utensílios do trabalho da terra recolhidos pelo etnomusicólogo Michel Giacometti. A visita guiada foi muito bem conduzida e pude aperceber-me de todo o processo de trabalho da conserva de peixe. Na década de 1920, Setúbal tinha perto de 130 fábricas, empregando muita mão de obra da região mas também de zonas portuárias como Murtosa e Aveiro (mais a sul, há cerca de cem anos, pescadores daquelas zonas implantaram a pesca de xávega em Santo André, mais a sul de Setúbal).




3.6.15

O livro de Nelson Ribeiro e uma tertúlia em seu torno

No passado sábado, falámos sobre o livro de Nelson Ribeiro, Salazar e a BBC, na Casa da Cultura dos Olivais. Foi um momento agradável onde se aproveitou para apreciar a importância dos arquivos, acesso e preservação.
 




Mestrado em Comunicação Digital (Universidade Católica Portuguesa, Braga)



Doutoramento de José Carlos Gonçalves na Universidade da Beira Interior

Foi no passado dia 15 de maio que José Carlos Fernandes Gonçalves defendeu a tese de doutoramento A relação entre os media e a GNR em Portugal, a nível local, à luz da teoria dos campos, na Universidade da Beira Interior (Covilhã).

Retiro a informação do sítio http://www.labcom.ubi.pt/sub/evento/895: "A investigação desenvolvida partiu de duas questões fundamentais. Através de que forma(s), os jornais e/ou rádios, a nível local, concretizam uma lógica de relação permanente com a polícia? De que maneira é que o poder detido por cada campo em estudo se manifesta na relação que os mesmos possam manter entre si? Os dados empíricos recolhidos através de estudo caso, observação (não participante) e entrevistas permitiram, segundo o autor, extrair diferentes conclusões. José Carlos Gonçalves destaca o facto de «ter ficado vincado que a intenção final dos agentes que se disputam socialmente passa pela legitimação pública (considerados os interesses tidos por cada um dos campos na disputa de produção de sentido e mediante o uso de diferentes estratégias próprias)». Segundo o autor da pesquisa desenvolvida, «para além do acesso privilegiado da GNR aos media locais no distrito, aquela força de segurança consegue a cobertura noticiosa que mais lhe convém». As conclusões obtidas referem a existência de uma valorização por parte dos media (mediante os enquadramentos) daquilo que é próximo; ambos os campos valorizam a credibilidade na interação; e o poder dos media reside essencialmente em selecionar e ter a última palavra no que é notícia, face ao poder da polícia (GNR) se constituir como fonte de informação. O estudo desenvolvido permitiu «identificar os interesses de cada campo em estudo, bem como as estratégias utilizadas na relação mantida», explica José Carlos Gonçalves".


Na fotografia (publicada no sítio http://www.labcom.ubi.pt/sub/evento/895), da esquerda para a direita: Rogério Santos, Hermenegildo Ferreira Borges (Universidade Nova de Lisboa), Teresa Cierco Gomes (co-orientadora) (Universidade do Porto), João Carlos Correia (Universidade da Beira Interior), Anabela Gradim (Universidade da Beira Interior), o novo doutor José Carlos Gonçalves (GNR), Joaquim Serra (Presidente Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior e presidente do júri), José Ricardo Carvalheiro (orientador) (Universidade da Beira Interior) e Joaquim Fidalgo (Universidade do Minho).

2.6.15

Omar Shariff

Há dias, os media anunciaram que Omar Shariff estava doente com Alzheimer, incapaz já de conhecer o próprio filho. Ele representou uma geração de cinema e de público de cinema.

Aqui, recordo a sua vinda a Portugal em 1969, a primeira vez que tirava férias em vários anos e em que aproveitou para jogar bridge, a sua paixão pelas cartas (Diário Popular, 18 de abril de 1969). No mesmo jornal, no dia seguinte, outro texto faz-se acompanhar de uma fotografia em que se vê ele a jogar, absorto do que se passava à sua volta. Ele perdeu mas sentiu-se feliz. E avisava que não queria ser importunado antes das treze horas de cada dia.

Nessa época, a vinda de estrelas a Portugal (a rodagem de uma parte de um filme em que O Santo se casa foi também muito badalada em notícias) era uma janela para o mundo além da rotina do regime político. Marcelo Caetano fez uma viagem pelas principais colónias mantidas por Portugal em África. Na chegada a Bissau, a legenda da fotografia indicava que ele "acena para a multidão". As únicas pessoas que se veem é a sua própria comitiva (Diário Popular, 14 de abril de 1969). Logo depois, em Moçambique, ele disse: "Deve ser cada vez mais larga e importante a participação dos povos no governo local" (Diário Popular, 18 de abril de 1969). Por essa altura, anunciava-se que um importante chefe do norte de Moçambique tinha abandonado a Frelimo.

O II Congresso Republicano arrancava em Aveiro, com algumas páginas do Diário Popular sobre o assunto (caso da edição de 16 de maio de 1969), logo depois da quase enigmática nota do gabinete do ministério da Educação sobre o encerramento das aulas na Universidade de Coimbra (Diário Popular, 6 de maio): "Não haverá, assim, qualquer atividade escolar até ao início dos exames". Quem não tivesse outros canais de informação, ignoraria o que se passou. Um pouco mais clara era a notícia de desacatos na Faculdade de Medicina, com a Polícia Judiciária a instaurar inquérito a 50 estudantes (Diário Popular, 27 de maio de 1969). E mais claro ainda o regresso do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Diria este: "Não é o exílio que custa. O que custa é ser bispo" (Diário Popular, 21 de junho de 1969). O regresso do bispo seria apreciado pelo New York Times, pois isso se integraria "na política de liberalização" de Caetano.

As eleições de 1969 aproximavam-se e Caetano ia revelando as suas ideias: "Não tenciono fazer uma revolução - as alterações virão a seu tempo" (declarações ao New York TimesDiário Popular, 19 de maio de 1969), "O Chefe do Giverno quer andar depressa mas não iludir ou mentir aos seus concidadãos" (dito no Porto, Diário Popular, 21 de maio de 1969), "As revoluções mais fáceis e baratas são as revoluções verbais: deixam-se ficar as coisas e mudam-se-lhe os nomes" (dito ainda no Porto, Diário Popular, 22 de maio de 1969).

1.6.15

A ausência de programação de rádio para as crianças

Hoje, no dia mundial da criança, o Pedro, o Afonso, a Laura, o Francisquinho e muitas outras crianças deram a voz na rádio (Antena 1) para os separadores. Não ouvi as outras rádios, pois a maior parte do dia foi passado fora de casa.

Curiosamente, na edição deste mês da revista Ecos do Minho, da Associação Pediátrica do Minho, o cónego João Aguiar Campos, presidente da administração do grupo Renascença (r/com), publica um curioso artigo, Apontamentos sobre uma Ausência, onde o tema é a programação para público infantil. Ele parte da ideia de inexistência (ou quase total ausência) de programas de rádio orientados para as crianças, com base na sua experiência e em investigação como a de Ângela Silva (A Programação Infantil nas Rádios Portuguesas: dos Primeiros Ensaios ao Desafio do Online) [http://ubithesis.ubi.pt/handle/10400.6/1282] e na minha própria (A Rádio em Portugal, 1941-1968), onde tenho um capítulo sobre programas infantis na Emissora Nacional (1934-1975) [estes duas marcas também podem ser lidas como 1935-1974], onde escrevi sobre Madalena Patacho e Odette de Saint-Maurice, embora não com a profundidade que o assunto ainda merece.


O texto do responsável da Renascença ainda dedica atenção aos trabalhos de outros investigadores como Nelson Ribeiro, Paula Cordeiro, Madalena Ribeiro, João Paulo Meneses e autores brasileiros.

[o meu obrigado ao Paulo Cezar Lepetri por me ter dado a conhecer a revista e o artigo]