18.9.14

Áurea Sampaio

Áurea Sampaio, a primeira editora de política do jornal Público há 25 anos, regressa em Outubro ao jornal, agora como directora adjunta. Recentemente saíra da revista Visão e vem preencher o lugar vago de Miguel Gaspar.

16.9.14

Os candidatos a programa da TVI


Este é um título ilustrativo da condição do país. Conforme se lê no Diário de Notícias de hoje, inscreveram-se 105 mil indivíduos no programa da TVI. Na primeira fase de inscrição nas universidades, o número fora de 42 mil. Divertir durante três semanas no concurso, trabalhar e preparar-se para toda a vida - eis a visão da apresentadora do mesmo programa perante as duas situações.

Audiências de rádio - uma análise mais profunda de dados aqui colocados em 26 de Agosto de 2014

No final do mês passado, coloquei aqui alguns dados de audiências da rádio respeitantes a Junho de 2014. Um colega, muito ligado ao assunto, deu-me informações mais aprofundadas, que eu não podia fornecer por não ter acesso a esse detalhe.

Assim, os ouvintes mais jovens, dos 15 aos 24 anos, ouvem sobretudo a Comercial e a RFM. As rádios Cidade e a Mega Hits vêm logo a seguir mas com valores mais baixos, por não terem rede FM com cobertura nacional (embora sejam os projectos mais vocacionados para este grupo etário). Depois, os jovens adultos dos 25 aos 34 anos ouvem sobretudo a Comercial e a RFM. A Cidade e a Mega também têm audiências significativas, mas mais baixas que no grupo etário anterior.

Já os adultos dos 35 aos 44 anos ouvem sobretudo a RFM e a Comercial. Das restantes rádios, destacam-se ainda a TSF e a Renascença com 5,7% e 5,3%, respectivamente, enquanto outras rádios têm menos de 4%. Os adultos dos 45 aos 54 anos mantêm a preferência pela RFM e Comercial, a que se segue a Renascença. Enquanto os adultos dos 55 aos 64 anos preferem sobretudo a Renascença e a Antena 1, os adultos de mais de 64 anos ouvem a Antena 1 e a Renascença.

Como conclusão, os ouvintes até aos 54 anos preferem claramente duas rádios musicais – Comercial e RFM, com audiências bastante acima das restantes. A Comercial é mais ouvida que a RFM entre os ouvintes até aos 34 anos e a RFM é mais ouvida que a Comercial entre os ouvintes com mais de 34 anos. Os ouvintes com mais de 54 anos preferem duas rádios generalistas – a Renascença e a Antena 1.


[todos os dados a partir da Marktest]

15.9.14

Balanços de António Ferro




António Ferro esteve à frente do Secretariado de Propaganda Nacional e do Secretariado Nacional de Informação entre 1933 e 1949. No primeiro texto, Dez Anos de Política do Espírito (1943), Ferro faz o balanço do primeiro decénio da sua actividade. Exposições, prémios, apoios à literatura, artes plásticas, cinema e teatro fizeram parte desse período que chegou quase até ao final da II Guerra Mundial e coincidiu com a mudança de designação do organismo da propaganda do regime.

Os dois outros textos foram editados quando António Ferro cessava funções, onde fez outros balanços e confessa ter contribuído "para a criação de uma consciência cívica e política no povo português". As duas publicações seriam a compilação de conferências e discursos que fez no exercício no SPN/SNI nas artes plásticas, no teatro e no cinema.

Indústria cultural e criativa em Zhou YuJun

"Cultural creative industry is the inheritance and development of the cultural industry, mainly refers to those gaining momentum from the individual creativity, skill and talent in the enterprise, as well as those activities through the development of intellectual property rights creating the potential wealth and jobs. This paper first introduces the basic situation of Chinese culture industry, analyzes the reasons of cultural industry commercial imbalances, puts forward three suggestions: (1) the cultural positioning clear cultural and Creative Industrial Park, take the culture industry social benefits; (2) the creative industries and commercial real estate developers to combine; (3) strengthening government policy support. Only commercial cultural transference of interest, providing space and support for its development, to its unique cultural forces, nourish the growth of cultural industries" (Zhou YuJun).

14.9.14

Mercado de 31 de Janeiro (Saldanha)

O mercado 31 de Janeiro, ao Saldanha (Lisboa), foi remodelado. Pareceu-me mais bonito e animado. Algumas bancas (peixe) desceram do andar superior, juntando-se às outras bancas de produtos frescos e a lojas de artesanato. O andar liberto vai ser ocupado para outras actividades.

Os mercados públicos higienizados foram sendo construídos no começo da década de 1950, como o de Arroios. Era um tempo em que a cidade crescia em termos de população e não havia ainda as grandes cadeias de distribuição de bens alimentares. Com o tempo, com a diversidade de produtos e horários mais alargados e compatíveis com as novas necessidades da população que sai cedo de casa para o emprego e volta tarde, os mercados públicos perderam clientela. O mercado da Ribeira, mais antigo, está a reinventar-se. O mercado de Campo de Ourique é uma mistura interessante entre o mercado de produtos alimentares frescos e espaços de degustação.

Agora, o mercado de 31 de Janeiro segue nessa linha de adaptação. Ainda me lembro há 40 anos ele funcionar em espaço aberto, como seria em 1920 ou 1930. Nos últimos 20 anos, e até porque a pressão imobiliária foi forte, a zona foi urbanizada e o mercado ficou enquadrado no interior de um edifício. A concorrência das cadeias de distribuição e, repito, os horários desenquadrados da vida moderna, afastaram os clientes. Para quem sai às 18 ou 19:00 do emprego não serve um mercado que às 17:00 já não funciona.

Ontem, até havia espaço para a tecelagem artesanal.


13.9.14

Uma memória da Cornucópia

O Misantropo (ou O Atrabiliário Apaixonado), de Molière, seria o primeiro trabalho do teatro Cornucópia, empresa de teatro recentemente formada por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo (final de 1972), ambos a concluir a licenciatura em Românicas (revista Rádio & Televisão, nº 880, de 22 de Setembro de 1973). Para além da Faculdade de Letras e da paixão pelo teatro, Cintra e Melo tinham estado a estudar em Londres, o primeiro em teatro e o segundo em cinema. Eles fundariam a revista Crítica com Eduarda Dionísio e uma colecção de teatro na Estampa/Seara Nova.

Do elenco da peça inicial da Cornucópia, faziam parte Luís Lima Barreto, Glicínia Quartin, Raquel Maria, Filipe La Féria, Orlando Costa e Carlos Fernando. O sítio onde ensaiavam era o Barracão, que pouco antes as autoridades consideravam sem condições para a arte da representação.

Sobre a peça, o jovem Luís Miguel Cintra diria: "É uma peça surpreendentemente abstracta e construída geometricamente. E com um conjunto de leis típicas de teatro em geral e do teatro de uma determinada época em particular. É um documento muito importante e essencial na História do Teatro".







A Casa de Ramallah

Pai, mãe filha viajam num suposto comboio interregional passando por Ramallah (capital da Palestina) e outros sítios bíblicos. Enquanto viajavam, a mulher comia, a filha lia e o homem falava. Da casinha que fora destruída pelos mísseis ou por um helicóptero ou uma bomba, que abrigava uma tenda; da apanha do tomate na planície onde conheceu a mulher; da organização que levara os seus quatro filhos e ia fazer agora da sua filha uma suicida. Depois, a mulher teceu a sua narrativa, coincidente com a do marido, mas através da lente feminina. Quando ela a conheceu, ela usava calças e cabelo ao ar, o que era contrário às regras rígidas já então existentes. Igualmente, lamentava a perda dos filhos mas acusava o homem de ter aderido à organização. E pedia ao marido para falar baixo pois podiam estar perto membros da polícia secreta israelita ou palestiniana. A rapariga fala da relação sexual a que foi obrigada pelo seu professor da escola corânica.

O texto do italiano António Tarantino é duro, até feio. Não há um só momento de esperança. Através da peça, não se vê uma solução para o problema da Palestina, uma terra cercada e onde cada cidadão vigia e é vigiado e com medo das denúncias. Se esta ocorre, a família sofre represálias sérias: morte, destruição da casa. A casa de Ramallah fora a promessa do homem quando ainda namorava, mas nunca se concretizou. Afinal, Ramallah é uma pequena cidade de casinhas brancas, onde não mudou nada, disse ele.

Tradução de Alessandra Balsamo, com António Simão, Andreia Bento e Nídia Roque, com luz de Pedro Domingos, cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, encenação de Jorge Silva Melo e produção executiva de João Chicó, pelos Artistas Unidos, na sala da rua da Escola Politécnica. Espero voltar muitas vezes aquela sala para ver a companhia de teatro criada em 1995 por Jorge Silva Melo (fotografia de Jorge Gonçalves, fornecida pela companhia).

12.9.14

Conselho Geral Independente da RTP

Ontem, tomou posse o Conselho Geral Independente da RTP. A cerimónia pública deve acontecer até ao final do mês. Compõem o Conselho: António Feijó, vice-reitor da universidade de Lisboa, Ana Lourenço, docente em Direito e investigadora na área da regulação da Universidade Católica do Porto, ambos nomeados pelo governo, Simonetta Luz Afonso, gestora cultural e ex-presidente do Instituto Camões, e Manuel Pinto, professor catedrático em ciências da comunicação da Universidade do Minho, indicados pelo Conselho de Opinião da RTP. Os quatro elementos cooptaram Álvaro Dâmaso, ex-presidente da Anacom, e Diogo Lucena, antigo administrador da Gulbenkian (a partir de texto do Diário de Notícias).

Tatuagens

Texto publicado no Expresso online: "O Expresso teve acesso exclusivo a dezenas de peles humanas tatuadas, conservadas em formol, com imagens e datas que as remetem para os finais do século XIX e inícios do século XX".

Ulmann

"Liv Ullmann on Miss Julie, Donald Trump and why she hates the modern age. Ingmar Bergman’s muse talks about directing a version of Strindberg’s Miss Julie, terrorism and Twitter" (The Guardian).

Exposição Ritual II, rua de Miraflor, 159, Porto


11.9.14

5º Bairro das Artes


"Dedicado à arte contemporânea, o evento Bairro das Artes (que na 5ª edição compreenderá a zona do Príncipe Real até ao Bairro Alto) marca a cena cultural de Lisboa com a divulgação do trabalho de dezenas de artistas e espaços culturais da cidade. Em edições anteriores, o evento abrangeu uma oferta artística bastante eclética e contemporânea, onde visitante pôde assistir a inaugurações, visitas guiadas, lançamentos de livros, encontros com os artistas. Estiveram envolvidos, diversos espaços culturais, entre os quais galerias de arte, livrarias, espaços museológicos e institucionais, que se associaram a este evento para receber os inúmeros públicos que visitam a sétima colina, preservando a ideia de bairro aberto subjacente ao evento Bairro das Artes" (informação da organização).

Viver (Com) a Escrita

A iniciativa pretende colocar três autores em diálogo com o seu público, adequando os temas e a forma como o seu trabalho é apresentado à audiência em questão. João Morales coordena e modera as conversas.

No dia 20 de Setembro, às 16:00, com Gonçalo Cadilhe, na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André, para nos falar sobre as suas viagens. No dia 17 de Novembro, à tarde, com Inês Botelho, novamente na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André. Na sua companhia, alunos do concelho, para troca de impressões sobre o trabalho que tem vindo a desenvolver. No dia 21 de Novembro, de manhã, com Sílvia Alves na Biblioteca Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém, e alunos do 1º Ciclo, mostrando os seus livros e aprendendo com as leituras que eles lhes encontrarem. Organização: Câmara Municipal de Santiago do Cacém. Parceiros: Livraria A das Artes e Antena Miróbriga.

Jornadas Europeias do Património



"As Jornadas Europeias do Património 2014 decorrem este ano nos dias 26, 27 e 28 de Setembro subordinadas ao tema Património, sempre uma descoberta com cerca de 500 actividades que se desenvolvem em todo o Território Continental e nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, distribuídas por 130 concelhos, com a participação de 310 entidades públicas e privadas, oferecendo um programa vasto e diversificado que engloba, 7 animações de rua, 53 oficinas pedagógicas/workshops, 2 concursos, 11 projeções de documentários/filmes, 47 encontros/conferências, 59 espectáculos artísticos, 34 exposições, 6 feiras/festivais, 5 jogos tradicionais, 4 lançamentos de publicações, 17 peddy/rally papers, 6 recriações e encenações históricas, 23 rotas patrimoniais/itinerários culturais, 2 sessões de leitura, 198 visitas guiadas/percursos orientados, e 27 outras actividades variadas" (ver o sítio das Jornadas).

Dentro das Jornadas, a Associação Portuguesa de Casas Museu promove a visita às Casas-Museu Medeiros e Almeida, Passos Canavarro, Patudos – Museu de Alpiarça, Bissaya Barreto, Fernando Namora, Egas Moniz, Abel Salazar e Fundação Eça de Queiroz.

Acesso à informação

O Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra - CEIS20, o Grupo de Investigação Europeísmo, Atlanticidade e Mundialização do CEIS20 e o Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu convidam-no a participar na Acção de Formação para Jornalistas e Profissionais da Comunicação: Europa - Acesso à Informação, meios de comunicação a decorrer no dia 3 de Outubro de 2014, às 14h30, na Sala de Conferências do CEIS20 (Coimbra). Os interessados deverão inscrever-se até 30 de Setembro enviado um correio electrónico (nome completo, e-mail, contacto telefónico, nome da instituição ou do órgão de comunicação social) para debatereuropa@gmail.com.

9.9.14

Call for papers Web25

Special issue of New Media & Society on the Web’s first 25 years In August 2016 the World Wide Web can celebrate its 25th anniversary. Or can it?

No doubt that the World Wide Web — or simply: the Web — has played an important role in the communicative infrastructure of most societies since the beginning of the 1990s, but when did the Web actually start? And how has the Web developed? These are the two main areas of study that this special issue intends to investigate. The start of the Web As with any other new media form it is difficult to determine in a clear cut manner when it was invented. Was it the first time it was thought of? Or when it was made publicly or commercially accessible? Or? In the case of the Web its 25th anniversary was widely celebrated in March 2014, thus celebrating that Tim Berners-Lee circulated his "Information Management: A Proposal" in 1989. But one could also maintain that the Web only started when it was named "WorldWideWeb" (October 1990), when the first Web server and the first Web page were created (November 1990), or when the WWW software was made available on the net, posted on alt.hypertext (August 1991) (cf. http://www.w3.org/History.html). Or maybe the Web started years before, with Paul Otlet’s Mundaneum in the beginning of the 20th century, with Vannevar Bush’s ideas about the Memex in 1945, or with the invention of HyperCard in the late 1980s?

These questions all revolve around underlaying questions such as ”what is a start?” — ”when is something ’new’”? — ”and to what extent is it relevant to ask for clear cut dates”? This is one set of issues related to the history of the Web that this special issue of New Media & Society intends to explore and question. The historical development of the Web Despite the fact that it can be difficult — and interesting — to investigate the beginning of the Web, the Web was invented after all, and it has been with us for approximately 25 years now. What has it looked like, and how has it been used? Who and what has affected its development? These are some of the general questions regarding the history of the Web, but they can be narrowed and detailed in a number of ways, for instance by focusing on specific areas of society — politics, culture, news, business, etc. — on specific demographic groups, on different regions on the globe, on the technical infrastructure, or on software.

In addition, the historical development of the Web not only calls for empirical studies, historiographical issues are also highly relevant to address, that is theoretical and methodological topics related to the writing of the histories of the Web. The historical development of the Web as well as historiographical questions related to the history of the Web constitute the second area of interest for this special issue of New Media & Society. Papers must address one of these two areas of study regarding the Web — or they may address both, and even focus on their interplay — as well as they must adopt a historical approach. With a view to sparking discussion, the point of departure of the special issue is that what should be celebrated is the date when the Web was made publicly availabe, that is August 1991 — but contributors are welcome to question this.

Literature - Banks, M.A. (2008). On the Way to the Web: The secret History of the Internet and its Founders. Berkeley: Apress. - Berners-Lee, T. (1999). Weaving the Web: The Past, Present and Future of the World Wide Web by its Inventor. London: Orion. - Brunton, F. (2013). Spam: A shadow History of the Internet. Cambridge, Mass.: MIT Press. - Brügger, N. (Ed.) (2010). Web History. New York: Peter Lang. - Burns, M. & Brügger, N. (Eds.) (2012). Histories of Public Service Broadcasters on the Web. New York: Peter Lang. - Carey, J. & Elton, M.C.J. (2010). When Media are New: Understanding the Dynamics of New Media Adoption and Use. Ann Arbor: The University of Michigan Press. - Gillies, J. & R. Cailliau. (2000). How the Web was Born: The Story of the World Wide Web. Oxford: Oxford University Press. - Gitelman, L. (2006). Always Already New: Media, History, and the Data of Culture. Cambridge, Mass.: MIT Press. - Park, D.W., Jankowski, N.W. & Jones, S. (2011). The long History of New Media: Technology, Historiography, and contextualizing Newness. New York: Peter Lang. - Poole, H.W. (Ed.) (2005). The Internet: A historical Encyclopedia. Santa Barbara, CA.

Possible topics may include, but are not limited to:
· Broad as well as specific histories of the development of the Web, focusing on, for instance, technology, graphic design, culture, politics, etc. 
· The history of sharing syndication, or viral spread
· The development of blogs and microblogs
· The history of one website, or types of websites
· Web elements transcending more websites, for instance the use of images, sound, or video on specific types of websites (news, social network sites, other)
· The Web’s interplay with traditional media (books, newspapers, film, radio, television)
· The big trends, developments of entire national Webs, or of the entire Web
· The history of spam, or of hacking
· The role of familar, but often unaknowledged Web features such as search engines, browsers, and plugins
· The use of the Web as a historical source, for instance archived Web
· The history of events on the Web, such as political elections, catastrophies, sports events, etc.
· What is ’new’? — intersections of ’old’ and ’new’ on the Web
· The gouvernance of the Web (on a global, regional, or national scale)
· Defining moments and events on the Web, regarding inventions as well as use
· Social networking sites
· The need for and use of digitally supported methods and digital analytical tools
· The history of the Web in the larger framework of cultural history

Please email a 700 word abstract proposal, along with a short author biography, no later than 15 November 2014 to nb@dac.au.dk. On the basis of these abstracts invitations to submit articles will be sent out no later than begin January 2015. Final selected articles will be due 1 June 2015 and will undergo peer review following the usual procedures of New Media & Society. Invitation to submit a full article does not therefore guarantee acceptance into the special issue. The special issue will be published in 2016. The special issue is edited by Niels Brügger, the Centre for Internet Studies, and NetLab, Aarhus University, Denmark, nb@dac.au.dk. This call for articles can be found in pdf format at http://imv.au.dk/~nb/Web25_call_nms.pdf. Please forward as appropriate to interested parties.

A televisão para Raymond Williams

O terceiro capítulo do livro de Raymond Williams, Television, tem o nome de "Formas de Televisão", o segundo mais extenso. Williams começa por notar que a televisão combina e desenvolve formas de comunicação anteriores - jornal, reunião pública, classe de aula, teatro, cinema, estádio desportivo, anúncios de publicidade. Um outro meio electrónico, a rádio, serviu ainda de modelo à televisão.

O autor, um dos fundadores do grupo dos Cultural Studies britânicos, viu a televisão como tendo uma dupla influência face a esses outros media: de um lado, combinação e desenvolvimento de formas anteriores, de outro lado, formas mistas e novas.

No primeiro conjunto, ele associou notícias, argumentação e discussão (vindos do sermão, da conferência, do discurso político, e de onde emergiu a representação da opinião informada), educação (seminários ou conferências com professores comunicativos que geram grandes audiências), drama ou teatro (em que no começo da década de 1950 houve um significativo corpo de novos programas, onde, além da qualidade, surgiram as soap operas, de grande popularidade), filmes, variedades (como o music-hall, que conjugou dança, canto, tipos de comédia, em que algum deste material era visto como de baixa cultura, através de sketches, burlesco, entretenimento), desporto, publicidade e programas sobre o passado (ou recuperando formas antigas, como concursos). No território das novas formas, Williams destacou drama-documentário, educação, discussão (entrevistas), documentários e sequências (séries).

Recupero o subcapítulo de Williams sobre notícias (pp. 40-45). Nos tempos iniciais, a rádio estava absolutamente dependente das agências noticiosas (e dos jornais). A apresentação de notícias na rádio era feita por locutores, com voz neutra mas de autoridade. Na II Guerra Mundial, apareceram repórteres e correspondentes de guerra. Williams edita quatro perspectivas na relação entre o jornal e o boletim noticioso na televisão, o primeiro dos quais designou de sequência. Esta era dada pela coluna. Depois, a partir da década de 1920, implantou-se o modelo do mosaico, que leva o leitor a percorrer a página até se fixar num espaço. Na rádio, o modelo manteve-se linear, embora com a II Guerra Mundial tenha principiado a prática dos títulos, depois usada na televisão. A repetição dos principais pontos no final do noticiário também se tornou comum.

A segunda perspectiva é a das prioridades. A apresentação linear organiza a prioridade de itens noticiosos, que despertam a atenção. Durante muito tempo, essa prioridade era dada à alta política e ao realce nos actos e palavras dos líderes políticos. Mas houve necessidade de alcançar um público mais popular e mais vasto. A terceira perspectiva é a da apresentação. Até à II Guerra Mundial, o locutor tinha uma voz anónima mas com autoridade. Na televisão, a identificação pessoal é inevitável. Na televisão americana, é relevante a auto-apresentação do locutor. A última característica é a da visualização. Em muitos tipos de reportagem, há uma diferença absoluta entre registo escrito ou falado e registo visual com comentário. Há cada vez mais material visual na apresentação.

A televisão do século XXI tem outros elementos não trabalhados ou previstos por Williams, como a emissão permanente de televisão 24 horas por dia, em que não há apenas um só programa num só canal mas dezenas e centenas de canais por cabo, em que o espectador vagueia por esses canais num fluxo contínuo de notícias, concursos, desporto, filmes e publicidade.

Leitura: Raymond Williams (1974/2008). Television: Technology and Cultural Form. Londres e Nova Iorque: Routledge, pp. 40-75

8.9.14

Fotografias de Robério Braga

O fotógrafo brasileiro Robério Braga fez do Quénia, na África Oriental, o seu objecto de investigação. O resultado está patente na exposição de fotografia Luz Negra, vinda do Museu da Imagem e do Som em São Paulo para o Centro Cultural de Cascais. Tem vinte imagens, todas a preto e branco, que revelam aspectos quotidianos e culturais de três tribos do Quénia e Tanzânia: Maasai, Pokot e Samburu. Ao travar contacto com elas, entre 2011 e 2012, Robério Braga ficou impressionado com os seus costumes e crenças, verdadeiros símbolos de resistência na preservação de tradições ancestrais cheias de significados. Ele escreveu: "Os adornos feitos pelas mulheres da tribo Maasai, por exemplo, carregam um mundo rico em códigos sociais que se materializam em belas formas, cores e padrões. Antes feitos de sementes, fibras vegetais e couro de zebras, leões, gnus e outros animais selvagens, hoje empregam missangas plásticas, nylon e tecidos. Muda-se o significante, mas não o seu significado" (a partir do texto enviado pela organização da exposição).


Local e datas de funcionamento da exposição: Fundação D. Luís I (Centro Cultural de Cascais), de 6 de Setembro a 2 de Novembro de 2014.


Rádio Nova

Em Abril de 1972, a Casa da Imprensa atribuía o prémio anual da rádio a três programas ex-aquo: Página Um, Tempo Zip e Vértice (este para o período de Rui Pedro como realizador). O júri da Casa da Imprensa criticava o resto da programação, muito assente no triângulo "disco-anúncio-duas tretas". Os realizadores dos programas premiados salientariam o risco permanente no trabalho diário. Não dito explicitamente mas perceptível: censura.

No caso de Vértice, nos dois meses orientado por Rui Pedro, foi um programa que tentava "aproximar vários ramos de Literatura e Filosofia ao ouvinte com pensamento e Música popular e erudita". O programa pertencia à empresa Espaço 3P, que pretendia um programa exclusivamente musical. Já para Página Um, José Manuel Nunes diria querer um "programa virado aos problemas da sociedade portuguesa e também internacional, mas em menor escala", em termos de textos. No tocante à música estrangeira, divulgava singles de êxito internacional, para satisfazer os 79,4% de ouvintes jovens, ao passo que na música portuguesa estabelecia um critério rígido, não explícito no trabalho da revista Rádio & Televisão de 22 de Abril de 1972. Críticas: no Tempo Zip, a selecção musical chegara a ser feita pelo vendedor da etiqueta musical Zip, além de campanhas de publicidade encapotadas na forma de reportagem, O programa passaria entretanto das Organizações Zip para a Sassetti.

O texto da revista de onde tiro estas páginas não menciona o nome dos membros do júri do prémio da rádio da Casa da Imprensa. Mas o título do texto é marcante: Rádio Nova: rasgar horizontes. Percebia-se a tendência, em especial em programas de fim de tarde e noite. Além da censura, a rádio tinha a concorrência da televisão e precisava de se redefinir para atrair novos públicos. Foi aí que um grupo de jovens - jornalistas e radialistas - começaram a ocupar os períodos de produtores independentes tornados vagos, com especial incidência na Rádio Renascença.



7.9.14

Animação digital

O título da notícia do Expresso de ontem era apelativo: “Portugal no mapa da indústria de animação digital”. O conteúdo revela a realização de um evento mundial em Troia, a segunda edição do Torjan Horse was a Unicorn, terceiro evento de maior impacto mundial de entretenimento digital, segundo o CreativeBlog (a seguir ao Siggraph America, de Vancouver, e Siggraph Asia, de Shenzeng), com 500 participantes de 33 países e com 33 oradores internacionais a animarem conferências e workshops. Alguns dos nomes mais conhecidos são Syd Mead (Blade Runner), Sven Martin (Games of Thrones), Andy Jones (Avatar) e Rob Legato (Titanic, Hugo). Os organizadores do evento, André Luís e Inês Silva, conseguiram o entusiasmo de Scott Ross, ligado aos efeitos especiais dos filmes de George Lucas. Festival a decorrer entre 17 e 20 de Setembro.


A segunda parte do texto esclarece o título do artigo: as eventuais receitas do festival revertem para o desenvolvimento da indústria de entretenimento digital e atribuição de bolsas de estudo.

5.9.14

Teatro Estúdio de Lisboa (inícios de 1972)

Em Dezembro de 1964, Luzia Maria Martins e Helena Félix apresentavam o primeiro espectáculo do Teatro Estúdio de Lisboa, Joana de Lorena, de Maxwell Anderson, no teatro da feira popular de Lisboa. As duas, que se tinham conhecido em Londres, a primeira era funcionária da secção portuguesa da BBC, a segunda frequentava um curso naquela cidade, pensavam que o público português não conhecia peças fundamentais da dramaturgia mundial.

A companhia seguia uma linha ideológica marcada, o que despertava a atenção da censura. Na entrevista que concedeu à revista Rádio & Televisão, de 8 de Janeiro de 1972 (quatro imagens seguintes, peças assinadas por Regina Louro e Rui Paulo da Cruz), Luzia Maria Martins considerava que "tanto o texto como a encenação tentam exprimir uma posição, mas claro que ela tem de ser sempre apenas implícita. Não nos é permitido fazer um teatro em que possam exprimir totalmente as linhas que nos podem reger". Sobre a censura em si, Luzia Maria Martins entendia ser a censura sempre nefasta: "em qualquer situação deveríamos ter a liberdade de decidir por nós próprios". E acerca do repertório, ela respondeu que, apesar da proibição de certas peças, a censura nunca impôs peças".





Desde o começo da sua actividade, o Teatro Estúdio de Lisboa quis alargar-se a outros campos, incluindo um festival de poesia, uma biblioteca de teatro, uma galeria e um bar-restaurante. Sobre as finanças da companhia, Luzia Maria Martins e Helena Félix não receberiam qualquer ordenado nos primeiros cinco anos de actividade. Em 1972, ganhariam cinco mil escudos, o mesmo valor dos actores que entravam nas peças da companhia. Os valores remunerados eram baixos, levando os actores a procurar igualmente trabalho na rádio e na televisão.

O Teatro Estúdio de Lisboa funcionava no Teatro Vasco Santana, em Entrecampos, Lisboa (a área onde funcionava a feira popular está hoje toda desactivada). Em finais de 1971 e começos de 1972, a Câmara Municipal de Lisboa, proprietária do edifício, e o Teatro Estúdio de Lisboa negociavam um novo espaço para a companhia. Deduzo que, por causa desta questão, Luzia Maria Martins fosse entrevistada duas vezes nos três primeiros meses de 1972 pela revista Rádio & Televisão. A responsável da companhia reforçaria o seu sonho de possuir uma biblioteca, uma galeria, um bar-restaurante, como expressara na entrevista de 8 de Janeiro de 1972, ela que julgava que o teatro do futuro seria o centro de convívio das várias artes [performativas, como hoje se diz].

Então, o Teatro Estúdio de Lisboa estava a trabalhar numa peça sobre Antero de Quental. A responsável do teatro esperava poder convidar no futuro alguns dramaturgos portugueses dentro da sua linha programática. Objectivo principal: trabalhar nos domínios da participação e da comunicação. Além disso, queria que o teatro fosse frequentado por gente sem gravata, o que dá conta do ambiente ainda muito conservador, rigoroso e formal de quem ia assistir a um espectáculo performativo.




Em números sequenciais da revista Rádio & Televisão, iam-se revelando os novos rumos do teatro português. O Grupo dos 4, depois Teatro Aberto, os Bonecreiros e, algum tempo depois, a partir de uma cisão dentro deste grupo, A Comuna, criava-se a estrutura principal do teatro que surgia em Abril de 1974.

Sobre Luzia Maria Martins já escrevi aqui.

4.9.14

Da oralidade à escrita em Jack Goody


Em A Lógica da Escrita e a Organização da Sociedade, Jack Goody (Edições 70, 1987) considera a intersecção entre oral e escrito como tópico central na sua investigação. Outro objectivo foi ver os efeitos a longo prazo da escrita da sociedade. Muito do trabalho que Goody provém do seu, e de outros, trabalho na África ocidental. Goody deslocou-se muitas vezes ao Gana. Alguns conceitos que trabalhou seriam fronteira (p. 21), mudança (p. 22), obsolescência (p. 24), incorporação ou conversão (p. 26), universalismo e particularismo (p. 27) e especialização (sacerdotes e intelectuais, p. 32).

Nas sociedades religiosas compostas por homens eruditos, especialmente quando estes profissionais controlam, de alguma forma, o conhecimento proveniente do livro, pelo menos da Escritura religiosa, ocorre uma forma de especialização (p. 33). Claro que o clero, como corpo distinto, também aparece em sociedades orais sem escrita. Com a escrita, surge uma nova situação - o sacerdote tem acesso privilegiado a textos sagrados. Como mediador, ele possui uma ligação única com Deus. No princípio, era o livro, mas o sacerdote lê-o e explica-o. Daí, as religiões baseadas no livro serem frequentemente associadas a restrições nos usos e extensão da instrução. No caso extremo, os sacerdotes são a única categoria de pessoas capazes de ler, situação em diferentes etapas da história indiana, quando a instrução estava restrita aos brâmanes, e nos primeiros tempos da Europa medieval, a seguir ao declínio da instrução laica com a queda de Roma. Na Inglaterra, clericus acabou por se identificar com literatus e este com o conhecimento do latim, o que trouxe privilégios. Os especialistas da escrita adquirem o controlo inevitável de entrada e saída de um segmento de conhecimento (p. 34).

Goody, ao decifrar as influências da escrita na religião, fala de tendências (p. 194). O tema do livro é a influência de um modo de comunicação fundamental, a escrita, na organização social (p. 205). Com isto, Goody não pretendeu negar a relevância deste ou de outro meio de comunicação. Como influenciou a escrita a orientação política? (p. 107) As nações modernas estão muito dependentes da escrita para sistemas eleitorais, legislações, administração interna e relações externas.

O uso da escrita é-o também para o registo de mudanças de estatuto social no ciclo de vida – nascimento, casamento, morte (p. 60). A publicação toma muitas formas e aspectos nas culturas escritas, com mensagens inscritas na pedra. As narrativas da Mesopotâmia insistem no grau em que a economia e escrita estavam mutuamente dependentes (p. 67). A escrita era utilizada fundamentalmente para a condução dos assuntos económicos – e não tanto para a conservação do conhecimento pelos sacerdotes (como visto acima). Mas os livros eram também usados nas contas dos depósitos do templo (p. 68). Os registos incluem dádivas dos palácios reais e transacções a partir de casamentos, adopções e testemunhos. O templo recebia a sua dotação do palácio, que, por sua vez, arrecadava a receita, organizava a produção primária, participava no comércio (p. 81). Sobre a escrita e a economia em África, em observações feitas pelo próprio Goody, tome-se a simples questão do crédito (p. 103). Por exemplo, as mulheres ganesas forneciam comida a crédito a empregados de um recinto de transportes. Tinham um número restrito de tipos de transacções, devido ao esforço de memória em fixar os diferentes negócios, a menos que houvesse um livro de contabilidade. A vantagem da escrita funcionava também no domínio da prova e do acordo. A factura escrita fornece a oportunidade de examinar e verificar o conteúdo, o que garante autoridade (p. 104).

Goody dedicou atenção a duas situações, uma com e outra sem escrita – o Próximo Oriente da Antiguidade, onde apareceu a escrita, e a África ocidental contemporânea, onde o seu uso tem proliferado nos últimos 75 anos (p. 9). Ele olha os colegas antropólogos – habituados a analisar um contexto particular a partir do terreno e com atenção aos informadores – e os historiadores e arqueólogos – que reconstituem situações ao longo do tempo e estabelecem sequências cronológicas de desenvolvimento, o que o conduziu a uma terceira hipótese, que seguiu, a de pegar numa sequência (ou tópico) e seguir o seu trajecto variável no tempo e no espaço (p. 12). O autor estabelece a relevância de alguns elementos (mas não a teoria funcionalista, onde tudo influencia tudo, e a análise sociocultural). Na bibliografia, não há referências a Harold Innis, Marshall McLuhan, James Carey ou Walter Ong. Mas cita E.L.Eisenstein (The printing Press as na Agent of Change) sobre as implicações da imprensa e de Sherry Turkle sobre o efeito dos computadores no espírito humano. Goody e I.P.Watt publicaram em 1963 um artigo (The Consequences of Literacy) na revista Comparative Studies in Society and History. Neste artigo, exploram o significado do desenvolvimento e do movimento da alfabetização. Ao discutir a mudança, e os seus benefícios, da oralidade para a cultura escrita, Goody e Watt notam que “a natureza intrínseca da comunicação oral tem um efeito considerável sobre o conteúdo e a transmissão do repertório cultural” (p.2). A citação acaba por definir um contexto.

Leituras suplementares: Análise SocialHorizontes Antropológicos.

Google

Nasceu em 4 de Setembro de 1988, numa garagem em Merlon Park. Responsáveis: Sergey Brin e Larry Page quando estudantes de doutoramento na universidade de Stanford. O Google tornou-se, ao longo destes dezasseis anos, o grande gigante da internet.

3.9.14

Vilar de Mouros em 1971

Li há pouco tempo que o festival de Vilar de Mouros teve este ano pouca assistência. Trago aqui o que aconteceu em 1971, segundo a revista Rádio & Televisão (14 de Agosto de 1971). Para escrever o seu claro texto, Emílio Filipe ouviu longamente o organizador do festival, António Augusto Barge. Para este, dezenas de milhar de jovens tinham acampado nas margens do rio Coura para assistir ao primeiro festival internacional de música pop, 90% dos quais provenientes do sul do país. Muitos usavam cabelos compridos, ficaram entusiasmados com a paisagem e passaram alguma fome, por avaria na padaria de apoio ao festival.

O concerto não era bem um corte com os velhos costumes e a velha música, a plasmar a radicalidade de Woodstock, pois incluiu no programa Amália Rodrigues e Duo Ouro Negro. Além de uma curiosa componente de música clássica, com Joly Braga Santos e António Vitorino de Almeida e um coral polifónico de Viana do Castelo com 270 elementos e a Banda da Guarda Nacional Republicana. A verdadeira atracção seria o britânico Elton John. Claro que os boatos fervilhavam: ele estaria bêbado durante a sua apresentação e no recinto havia casos de cólera, o que talvez afastasse do local alguns espectadores. Mas Elton John fora pontual, o que não aconteceria com algumas bandas portuguesas.

António Augusto Barge queixou-se ao jornalista da falta de apoio governamental e da ausência dos jornais locais e da RTP. A televisão ainda o entrevistara antes, onde ele pode anunciar o programa, mas não apareceu em Vilar de Mouros. O regime político de então não gostava de encontros deste tipo e dos costumes fora da ordem que os festivais representavam.

Além do texto, sublinho as fotografias cedidas pelo Diário Popular. Basta ver a fotografia que mostra Elton John.




2.9.14

Claves (1966)

No dia 25 de Maio último, como aqui referi, Luís Pinheiro de Almeida lançou o seu livro Biografia do Ié-Ié, na Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais. Foi uma sessão riquíssima, pois tocaram e cantaram alguns dos protagonistas da música portuguesa dessa época. Uma das bandas que tocou foi Os Claves, que interpretou o seu êxito de 1966 Crer (embora de não boa qualidade, o vídeo é um excelente documento).



Letra e música de Luís Pinto de Freitas (1966): "Chovia lá fora / Quando saíste / Quando te foste embora / Eu fiquei tão triste / Talvez tu regresses / Ainda algum dia / Eu rezei minhas preces / À Virgem Maria / Tu foste embora / Sem querer saber / Que importa agora / Crer ou não crer / Tu foste embora / Sem querer saber / Que importa agora / Crer ou não crer / Chovia lá fora / Quando saíste / Quando te foste embora / Eu fiquei tão triste / Talvez tu regresses / Ainda algum dia / Eu rezei minhas preces / À Virgem Maria / Tu foste embora / Sem querer saber / Que importa agora / Crer ou não crer / Crer ou não crer".

Retiro de um sítio da internet (http://www.oocities.org/vilardemouros1971/claves.htm): "Vencedores do único concurso de música ié-ié realizado em Portugal, que teve lugar no Teatro Monumental em 1966, e especialistas em cantar em inglês os grandes êxitos da época, Os Claves são lembrados pela gravação da balada Crer, em português, escrita por Luís Pinto de Freitas propositadamente para a final daquele concurso. A história de Os Claves começa quando em 1965 Luís de Freitas Branco (viola ritmo e voz), João Valeriano (baixo e voz) e Alexandre Corte Real (bateria), formam um trio a que dão o nome The Saints. Com a saída do baterista e a entrada de novos elementos, os Saints passam a ser cinco, incluindo Luís Pinto de Freitas (viola solo e voz), João Ferreira da Costa (teclas e voz) e José Atouguia (bateria). Decidem participar no Concurso de Música Ié-Ié no Teatro Monumental, organizado por jornal O Século, Movimento Nacional Feminino, Emissora Nacional, Rádio Clube Português e empresário Vasco Morgado. Passaram três eliminatórias, ganhando folgadamente a meia-final em que se apresentaram: Claves 47 pontos; Jets 34,5; Tubarões 33,5; Cometas 28,5; Kimicos 25,5; Boys 24,5. Antes de chegarem à final mudam o nome para Os Claves, designação sugerida por Moreno Pinto, técnico de som da Rádio Renascença. A final do concurso ié-ié teve lugar no Teatro Monumental em 30 de Abril de 1966, após o que o jornal O Século publicou: “Explosão Juvenil no Monumental”. O Diário de Notícias titulou “Final Yé-Yé: delírio e pandemónio”, anunciando em caixa «O melhor entre 100: O conjunto Os Claves». O artigo do jornal dizia: “Noite yé-yé de delírio. Os ritmos modernos viram ontem à noite, de forma inequívoca, empolgante, a confirmação do seu êxito junto das camadas juvenis. Abertas as bilheteiras, cedo se esgotou a lotação da ampla sala de espectáculos. Os aplausos foram indescritíveis. Quentes, entusiastas, intermináveis. O Teatro Monumental vibrou como nunca se viu. Terminou, em autêntico delírio, a grande maratona de música yé-yé que, desde Agosto findo, através da actuação de cerca de 100 conjuntos, da Metrópole e Ultramar, alvoroçou milhares de jovens, no decurso das várias eliminatórias de apuramento e meias finais realizadas sobre a égide do Grande Concurso Yé-Yé”. A classificação final ficou assim ordenada: 1) Claves, 55 pontos (pontuação máxima), 2) Rocks (de Angola, com Eduardo Nascimento), 45, 3) Night Stars, 39,5, 4) Jets, 35, 5) Ekos, 29,5, 6) ChinchiIas, 29, 7) Espaciais, 18, 8) Tubarões, 18".

Num livro que também já fiz aqui referência (Yeah, Yeah, Yeah. The Story of Modern Pop, 2013), Bob Stanley alude a 1966 (finais de 1965 a começos de 1967) como sendo um tempo fantástico na música pop, com os Beatles (Paperback Writer, Eleanor Rigby), Beach Boys (Barbara Ann, God Only Knows, Good Vibrations), Kinks (Till the End of the Day, Sunny Afternoon), Rolling Stones (Lady Jane), Beatles (Sgt Pepper's Lonely Heart Club Band), Four Tops (Opus 17). A minha preferência vai para os Kinks, dos irmãos Ray e Dave Davies (havia também um Rod Stewart). 1966, escreve Stanley (2013: 193) é o ano em que a moderna música pop adquire significado cultural e artístico.

Da vida dos festivais culturais

Um estudo de Tino Carreño sobre festivais culturais fala sobre o desaparecimento de muitos deles e procura saber das causas. O trabalho, agora reconhecido com o Prémio Internacional Ramon Roca Boncompte de Gestão Cultural 2014, baseia-se na análise do impacto da crise na gestão de vários festivais (artes cénicas, música e audiovisual) do Estado (Portal Iberoamericano de Cooperación y Gestión Cultural). A obra trabalha quatro sectores: caracterização dos modelos de festivais de gestão, estratégias de financiamento, estratégias de gestão de recursos humanos e impacto da recessão no período 2008-2013.

Os festivais culturais são "uma área onde é fácil entrar, mas onde também é fácil de sair, se a proposta não criar raízes", acrescentou Carreño. Isso é o que aconteceu com 20% de 800 festivais nos últimos três anos, desaparecidos, embora substituídos por outros. Uma das saídas mais faladas foi o festival Jiwapop Montcada i Reixach (Barcelona). Apesar dos bilhetes de entrada terem sido vendidos, o festival foi cancelado e não houve ainda devolução de dinheiro. "Os festivais são muito dependentes da bilheteira porque caiu o patrocínio governamental e porque os investidores privados apoiaram menos. Assim, sem um mínimo de entradas vendidas, os organizadores optam por cancelar o festival". Neste sentido, a crise ultrapassa-se com mais facilidade se o festival for numa grande cidade ou numa zona turística forte. 40% dos 158 festivais que nasceram em Espanha nos últimos três anos residem em Madrid ou Barcelona, concluiu o estudo de Carreño.

Carreño é gestor cultural e especialista na gestão e produção de espectáculos e festivais de música e artes cénicas e docente na Universidade de Barcelona.

Relógios inteligentes

Lembro-me sempre dos filmes de ficção científica em que o relógio servia para comunicar (telefonar) e obter informação do local onde o seu utilizador estava. Mas nunca mais chegava a realidade. Descobri agora que a realidade se apropriou da ficção, como li no texto editado hoje pelo Guardian, a propósito da feira de Berlin.

Mudanças nos jornais

No diário i, Eduardo Oliveira e Silva é substituído por Luís Rosa, até agora director-adjunto. Luís Osório, antigo director do jornal A Capital, também encabeça a liderança do jornal. Este passa para a posse da Newshold, já detentora do semanário Sol e de parte do grupo Cofina. Por seu lado, no Diário de Notícias, a nova equipa de André Macedo assume funções a 15 de Setembro. Nuno Saraiva transita da anterior direcção, que conta ainda com as jornalistas Ana Sousa Dias (pelouro cultura), Joana Petiz (já trabalhava directamente com André Macedo) e Mónica Belo (estratégia digital do jornal). Pedro Fernandes, o novo director de arte, vem do jornal i.

31.8.14

Kate Bush

Naquele Verão de 1985, o programa Discoteca de Adelino Gonçalves na Rádio Comercial (13:00-15:00) passava todos os dias Kate Bush, Running Up That Hill. O sol, a terra, a água morna do mar e as conversas ao almoço nas férias algures numa praia no centro do país ainda estão na minha memória. Exactamente quando Agosto acabava e Setembro começava.

Da amplificação sonora

Foi há quase três anos que assisti à representação da ópera Sansão e Dalila, de Camille Saint-Saëns, no Coliseu do Porto. A história baseia-se no "Livro dos Juízes" e narra a exortação de Sansão junto dos hebreus que choram a derrota diante dos filisteus. Depois, aparece Dalila, acompanhada de outras palestinianas, com flores e cânticos a celebrar a chegada da Primavera. Dalila procura seduzir Sansão. Preso numa prisão em Gaza, a Sansão cortam-lhe os cabelos e cegam-no, pelo que perdeu todo o seu poder. No terceiro acto da ópera, passado no interior de um templo, Sansão faz uma prece a Deus, que parece restituir-lhe a força. Mas o templo desaba e morrem Sansão, Dalila, o sacerdote e os outros presentes.


Guardei o bilhete porque quis escrever não sobre a ópera em si mas sobre dois fenómenos que observei. O primeiro foi a atitude de uma espectadora durante quase toda a representação, a consultar o seu telemóvel, a ler a sua página de Facebook. Hoje é ainda mais notória tal actividade em qualquer sítio onde se esteja, no cinema, num concerto. Além das redes sociais, há também a tendência para fazer fotografias. Alguns músicos nos concertos pedem para os seus fãs não fotografarem ou usarem o telemóvel em qualquer situação. Isso aconteceu na semana passada em concerto dado por Kate Bush.

O outro fenómeno analisado nesse dia de Outubro de 2011 foi a distância a que, a partir do balcão popular, me encontrava do palco (ver desenho da sala). O som da orquestra e dos cantores, mesmo que poderosos, chegavam até mim com alguma dificuldade. Pensei - porque não electrificar (amplificar)? No teatro musical, isso já constitui prática, com pequenos microfones no cabelo dos cantores ou junto à boca.

Sei que isto é heterodoxo, inculto mesmo. Mas a leitura de um capítulo do livro de Andrew Crisell (2012), Liveness & Recording in the Media, trouxe de novo a questão à minha cabeça. No que me parecem as melhores páginas do seu livro, Crisell escreve sobre o aparecimento do rock & roll e as mudanças na dimensão dos grupos (bandas, orquestras) e no registo sonoro. A guitarra eléctrica e os seus acessórios (tremolo, fuzz-box, câmara de eco) distorcem a música face à realidade instrumental até aí empregue. A potência da amplificação faz com que quatro a seis músicos tenham um som mais elevado que uma orquestra completa.

Na gravação, o que era registado de uma só vez passou a sê-lo por parcelas, primeiro os instrumentos e depois a voz. Nesta divisão de tarefas, o registo faz-se por fases (takes), ficando o registo final o da melhor fase. Crisell tem uma frase central e que explica bem a transformação: até ao rock & roll, a gravação procurava seguir o mais fielmente possível o concerto ao vivo; depois do rock & roll, o espectáculo ao vivo, que seguia o disco e a sua promoção, nunca consegue atingir a qualidade e a perfeição de som da gravação no estúdio. Crisell ironiza: as bandas rock, tentando mostrar que a sua música tem nível, promovem espectáculos unplugged (acústicos), mas precisam sempre de electricidade para amplificar vozes e instrumentos.