28.10.14

A morte de Carlos Silva

Carlos Silva foi um locutor e realizador de rádio no Porto. Ele criou um dos primeiros programas noturnos da rádio portuense, no ano de 1953, Última Hora. Foi ele o iniciador do programa que mais entrou pela madrugada, no tempo em que as estações fechavam à meia-noite.


Fiz-lhe uma entrevista notável (para mim) em Agosto de 2012. De tão entusiasmado, fomos do café onde decorrera a entrevista para casa dele, onde me mostrou documentos relacionados com a sua actividade. Foi um momento inolvidável.

Uma das profissões iniciais de Carlos Silva, nascido a 27 de maio de 1926, foi a de vendedor das máquinas de costura Oliva, que lhe granjeou muita popularidade e muitos contactos. Antes, começara já como locutor da estação mítica Portuense Rádio Clube. Depois, profissionalizou-se na estação Rádio Porto, que pertencia ao conjunto dos Emissores do Norte Reunidos. Foi muito amigo dos Mafras (conjunto de música popular e folclórica António Mafra), acompanhando-os em digressão pelos Estados Unidos. Na entrevista que me deu, recordaria assim o seu começo:

"Porque a clientela da Rádio Porto também era muito selecionada. A Rádio Porto tinha nos Clérigos, tinha uma casa de eletrodomésticos, tinha os Hornyphon [marca austríaca de rádios, com publicidade na imprensa em 1952], rádio Hornyphon. Ainda hoje há um senhor que sempre que passa por mim: “oh, Hornyphon é um rádio que é bom”. Ainda hoje… A Rádio Porto, a Orsec e o Rádio Clube do Norte tinham mais categoria, percebe, principalmente a Rádio Porto e a Orsec. Na Orsec estava um casal que era marido e mulher, eram os locutores e eram muito bons locutores. Eu não me lembro o nome deles. Depois, a certa altura aparece um senhor que é o senhor Militão Porto, que é jornalista. E foi lá à rádio falar com o senhor Rodrigues, era o sócio maioritário, para fazer um programa a partir da meia-noite . E o senhor Rodrigues olhou” “oh, senhor Militão, o senhor quer fazer um programa à meia-noite? Mas à meia-noite ninguém ouve o rádio”. “Oh, senhor Rodrigues, mas eu queria tentar”. “Mas o senhor veja lá”. O Militão era jornalista mas não tinha nada a ver com a rádio. Começa a fazer o programa à noite. Da meia-noite à uma. Já não sei quanto é que ele pagava. Agora sei que ao fim de seis meses ele deu com os olhos na água. Porquê? Porque tinha de contratar pessoal, tinha de comprar discos. Quando ele acaba o programa, eu já não sei esses pormenores, vou ter com o senhor Rodrigues: “oh, senhor Rodrigues, eu queria fazer o programa do senhor Militão”. “Oh, pá, tu és doido? Então não viste que ele… A fazer o quê, pá”? “Oh, senhor Rodrigues, deixe-me tentar”. “Oh, pá, tu vais-te meter numa, tu vê lá”. “Senhor Rodrigues, faça-me um preço jeitosinho e tal. Eu já tenho anúncio para o programa”. “O quê, tu já tens anúncios, mas eu disse-te alguma coisa que ias fazer o programa”? “Oh, senhor Rodrigues, eu arranjei clientes. Já tenho anúncios para pagar uma certa importância”. E, então, alugaram-me aquela hora, baratíssima. [...] Eu tinha muito gosto naquilo e comecei a interessar muita gente: o Arnaldo Trindade, a Rádio Triunfo, que eram produtores de discos. O Arnaldo Trindade tinha a representação em Portugal dos discos da Vogue. Eu fui, veja lá que a coisa tomou tal extensão que eu fui convidado pela Vogue a passar lá uns dias a Paris. Portanto, o Arnaldo Trindade, a Rádio Triunfo, o Figueiredo aqui da rua Santo António, que era malas, carteiras de senhora, também tinha uma secção de discos".

O velório dele decorre hoje no Tanatório de Matosinhos, na rua de Sendim, com funeral marcado para amanhã à tarde.

27.10.14

Byung-Chul Han

Descobri agora Byung-Chul Han. A editora Relógio d'Água editou de uma só assentada três livros do filósofo coreano mas a trabalhar e investigar na Alemanha: A Sociedade do Cansaço, A Sociedade da Transparência, A Agonia de Eros. Li os livros numa frenética sequência. Eles também não são grandes e dividem-se em capítulos pequenos. Li-os, compreendo e não compreendendo tudo o que escreveu. Certamente uma segunda leitura é-me recomendada.



 Primeira surpresa, o seu currículo. Ele estudou metalurgia no seu país de origem. Como queria estudar filosofia e a família e o meio cultural da Coreia do Sul não facilitavam, ele foi para a Alemanha, primeiro para aprender a língua e depois para aprender filosofia. Tornou-se familiar das leituras de Nietzsche e de Heidegger. Sobre o último, escreveu a sua tese de doutoramento. Nos livros agora editados em português, o autor evidencia um longo conhecimento daqueles dois filósofos mas também de Freud, Barthes, Benjamin, Agamben, Foucault, Baudrillard, Deleuze.

Nos capítulos, há uma espécie de técnica de apresentação do tema. Ele cita um autor, enaltece o seu ponto de vista mas depois faz uma crítica quase impiedosa. Assim, Han cria polémica, o que estimula a leitura, não tenho dúvidas. No primeiro livro, por exemplo, refere e critica Esposito, Foucault, Arendt. Mas cria um pensamento novo e provocador. Retiro algumas ideias: imunologia e negatividade, tédio e cansaço (que leva ao burnout, ou cansaço permanente), vida activa e incapacidade contemplativa, positividade da presente sociedade, sociedade disciplinar versus sociedade produtiva, sociedade da exposição e sociedade porno, obscenidade, perda do amor em detrimento da depressão do sucesso e do narcisismo.

Voltando às críticas que faz a outros autores e à sua arrumação posterior, retenho a análise feita a Agamben (A Agonia de Eros, pp. 35-39). Para Agamben, o museu substitui o templo, e seculariza o que é sagrado, na medida em que os objectos dentro do museu não têm uso livre. Antes, os peregrinos andavam de santuário em santuário, para rezar; agora, os turistas viajam pelo mundo tornado museu. Sacralização e profanação opõem-se, diz Han de Agamben. Ora, para Han, a musealização aniquila o valor dos objectos, em benefício da exposição. Já em A Sociedade da Transparência, Byung-Chul Han tratara o tema a partir de Benjamin (pp. 21-27). Na sociedade positiva, as coisas transformam-se em mercadorias e um objecto cultual desaparece em benefício do seu valor de exposição.

O tema central dos textos agora publicados por Han relaciona-se com o tempo. Para ele, vive-se numa época em que não há tempo. O indivíduo, preocupado com a produção, perde a dimensão de pensar e refletir. Uma sociedade de tarefas múltiplas em simultâneo (multitasking) não tem tempo senão para a repetição, para reproduzir o já existente. Em última instância, o filósofo coreano entende haver direito à reflexão e até à preguiça como modo de escutar e atentar à sua volta. A liberdade reside aqui, conclui.

De Han se diz evitar dar entrevistas e referir o seu currículo. De uma entrevista dada ao El Pais (22 de Março de 2014), percebe-se melhor o seu pensamento:

"No hay, sin embargo, que confundir la seducción con la compra. “Creo que no solo Grecia, también España, se encuentran en un estado de shock tras la crisis financiera. En Corea ocurrió lo mismo, tras la crisis de Asia. El régimen neoliberal instrumentaliza radicalmente este estado de shock. Y ahí viene el diablo, que se llama liberalismo o Fondo Monetario Internacional, y da dinero o crédito a cambio de almas humanas. Mientras uno se encuentra aún en estado de shock, se produce una neoliberalización más dura de la sociedad caracterizada por la flexibilización laboral, la competencia descarnada, la desregularización, los despidos”. Todo queda sometido al criterio de una supuesta eficiencia, al rendimiento. Y, al final, explica, “estamos todos agotados y deprimidos. Ahora la sociedad del cansancio de Corea del Sur se encuentra en un estadio final mortal”. En realidad, el conjunto de la vida social se convierte en mercancía, en espectáculo. La existencia de cualquier cosa depende de que sea previamente “expuesta”, de “su valor de exposición” en el mercado. Y con ello “la sociedad expuesta se convierte también en pornográfica. La exposición hasta el exceso lo convierte todo en mercancía. Lo invisible no existe, de modo que todo es entregado desnudo, sin secreto, para ser devorado de inmediato, como decía Baudrillard”. Y lo más grave: “La pornografía aniquila al eros y al propio sexo”. La transparencia exigida a todo es enemiga directa del placer que exige un cierto ocultamiento, al menos un tenue velo. La mercantilización es un proceso inherente al capitalismo que solo conoce un uso de la sexualidad: su valor de exposición como mercancia." (texto acedido hoje).

26.10.14

Sangue na guelra

O cenário é mínimo: duas cadeiras, um homem (Graeme Pulleyn) e uma mulher (Rafaela Santos). Fernando Giestas (1978) é o autor da peça chamada Sangue na Guerra/Guelra/Guerra (2011) e publicada na colectânea "Oficina de Escrita Odisseia: Textos Escolhidos", uma edição do Teatro Nacional São João (2011). Ele lembrava a sua ida de barco para muito longe, num mar imenso, para um país que não era o seu mas podia ser o seu. E recordava que encontrou mulheres de olhos negros e pele semelhante. Ele teria dezoito, vinte anos. Ela lembrava a chegada de tantos homens, jovens e de bigode, de olhos claros e pele semelhante. Sabia que eles vinham de outro sítio com outra cultura. A mulher de olhos negros ou o homem de olhos claros aproximaram-se, começaram a ir à praia, ao cinema, apaixonaram-se.

Um dia, os homens, armados, levantando uma enorme nuvem de poeira, aproximaram-se da aldeia. Eles queriam que elas fugissem. Estas ficaram de pé, à espera que a poeira assentasse no chão, e viram os pais, os maridos e os filhos tombarem pelas balas saídas das armas. Era a guerra. O sangue na guelra (juventude, inquietude) tornara-se sangue da guerra. O país que não era o dele mas podia ser dele deixava de o ser.

O curto texto de Fernando Giestas foi sendo repetido, em diferentes ângulos da sala, com os corpos dos actores expressando outros sentimentos. O encenador Rogério de Carvalho quis que os actores fossem também co-autores do texto. Como quem conta a memória, histórias passadas a gente presente, como se um casal lembrasse o que tinha acontecido quarenta anos atrás. Na representação, senti algo tirado do neo-realismo, dos quadros de Picasso, das tragédias gregas. A música, não identificada no programa, enquadrava o dramatismo dos corpos que tinham perdido a felicidade e a que, agora, só restava a recordação.


Lembrei-me da guerra entre Israel e a Palestina, mas a história não se encaixava porque não há mar longínquo entre os dois países (ou territórios). Tive de ajustar a minha própria memória. Senti-me comovido. O barco demorou oito dias a chegar de Lisboa a Luanda. Sempre tortilha ao almoço e ao jantar. Havia quem aproveitasse o tempo a jogar cartas, algo que nunca me seduziu (os jogos que aprendi, esqueci logo a seguir). À chegada, havia um velho comboio puxado a locomotiva de carvão, a única viagem que fiz num comboio desse tipo.

Fernando Giestas e Rafaela Santos são fundadores da Amarelo Silvestre/Magnólia Teatro, a partir de Canas de Senhorim (2009). A peça, agora representada no Teatro Meridional, foi escrita sob orientação de Jean-Pierre Sarrazac.  Ver apresentação da peça aqui.

23.10.14

Financiamento de projectos culturais através de patrocínio, mecenato e crowdfunding


De 18 de Novembro, às 18:30, a 9 de Dezembro às 10:00. Cooperativa Cowork em Torres Vedras.

15.10.14

Prémio Indústrias Criativas

No Prémio Indústrias Criativas para Orquestra, dedicada a bandas sonoras originais, venceu a Weso, orquestra especializada em bandas sonoras para a indústria cinematográfica. Trata-se da 6ª edição do Prémio Nacional Indústrias Criativas Super Bock/Serralves (PNIC), integrada na categoria Música e Artes do Espetáculo (informação retirada do jornal online Expresso).

Reality-shows e classes sociais altas

Para o Diário de Notícias (ontem), a edição atual de Casa dos Segredos, conduzida por Teresa Guilherme, conta com mais crianças e jovens entre os espectadores. São cerca de 200 mil - de um total aproximado de 1,4 milhões de pessoas de média - que veem regularmente o programa de domingo à noite, desde 21 de setembro. Há em média 41 mil espectadores da classe alta (A), os mais ricos, e 162 mil da classe média alta (B) a ver o formato.

Também a coluna de José-Manuel Nobre Correia acabou no Diário de Notícias

A mudança de rumo do Diário de Notícias levou a uma saída de colunistas, além dos jornalistas, já aqui anunciado. José-Manuel Nobre Correia despediu-se no passado dia 11 de Outubro:

"Tudo tem um princípio. E, ao que parece, tudo tem necessariamente um fim. O que é certo, em todo o caso, é que esta é a última rubrica Planeta Media. Após quase sete anos e mais exatamente 320 semanas. Pontualmente, aos sábados, sem exceção alguma, a não ser as quatro semanas de férias de verão previstas por contrato. E pontualmente com os dois mil caracteres da crónica e os mil partilhados em três breves, apertadamente impostos pela direção precedente do Diário de Notícias".

800 anos de literatura em português


14.10.14

Imagens de Cuba


O studioteambox apresenta em Outubro a exposição de fotografia e cartazes de cinema originais de Cuba: Cuba en Cartel. É uma exposição onde Havana, o cinema e a fotografia se encontram. Filipe Raimundo e Sandra Pereira – fotógrafos e apaixonados pelo cinema - protagonizam uma viagem a Cuba, em 2012. Local: studioteambox, LXFactory, edif G, sala 6.A, Lisboa.

As meninas da rádio também fazem teatro


Teatro TRISTERO & COMPANHIA MAIOR representa Um de Nós, de 29 de Outubro a 2 de Novembro (quarta-feira a sábado às 21:30 e domingo às 18:30). Na mesma semana em que Um de nós estreia, é apresentado no CCB um novo trabalho da Companhia Maior O melhor e o mais rápido, o pior e o mais triste, o mais longo, o mais complexo, o mais difícil e o mais divertido, com texto de Tim Etchells e encenação de Jorge Andrade. O ano de 2014 marca a internacionalização da Companhia Maior. O Teatro Maria Matos juntou a Companhia Maior e o colectivo belga Tristero para criarem a versão portuguesa da peça original Iemand van ons. Um de nós é um espectáculo delicioso que põe a nu questões fundamentais da existência, jogando com um fluxo incessante de factos, brincadeiras, clichés, aforismos e confissões para proporcionar um olhar inesperado sobre a política, o amor e a intimidade de cada um. O que é que sabes da política? O que é que sabes do amor? O que é que sabes de nós? Os intérpretes vão dando todas as respostas, num espectáculo perspicaz, divertido e cheio de reviravoltas.

Com Carlos Fernandes, Elisa Worm, Isabel Simões, João Silvestre, Júlia Guerra, Maria Helena Falé e Maria José Baião, as três últimas meninas da rádio. Com encenação de Peter Vandenbempt, assistência de encenação de Henrique Neves e texto de Peter Vandenbempt em colaboração com o elenco e Henrique Neves. No Teatro Maria Matos.

10.10.14

Nicola Conte Jazz Combo

Concerto a não esquecer. Com Melanie Charles na voz. Sala cheia.

8.10.14

Baptista Bastos - ponto final nas suas crónicas do Diário de Notícias

"Durante sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a convite expresso de João Marcelino, uma crítica de costumes e hábitos. Foram sete anos excelentes, de trabalho entendido como tal, e de uma estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com os princípios marcantes de outro tempo, de integridade a toda a prova e de uma cortesia e camaradagem que se perdeu quando as palavras foram substituídas por números, e quem dirigia foi trocado por porta-vozes estipendiados. Como a personagem de Sartre, «je suis irrécuperable» na certeza das minhas convicções sem certezas absolutas. Vivo, ainda hoje, sob o fascínio das palavras e do seu poder subversivo" (Diário de Notícias).

7.10.14

A reflectir

"Horace Enghdal, membro do júri da Academia sueca para o prémio Nobel da Literatura, afirma que a «profissionalização do ofício, as bolsas e apoios financeiros» estão a destruir a literatura ocidental. «Antigamente, os escritores trabalhavam como taxistas, funcionários, secretários ou empregados de balcão»" (Expresso).

Cinema português

De repente, parece que se descobriu o cinema português. Os últimos números de espectadores que li indicam 70 mil para Os Maias – Cenas da Vida Romântica, filme de João Botelho, e mais de 25 mil para o Os Gatos Não Têm Vertigens, filme de António-Pedro Vasconcelos, na primeira semana. A crítica não tem realçado muito os dois filmes, mas os números inspiram confiança.

Num, há um olhar político, recuperando um grande romance de Eça de Queirós, como se não tivessem passado cerca de 120 anos desde a sua publicação. Portugal, a bancarrota e o olhar do centro do país, então o Chiado ou o corredor Chiado-Passeio Público, não parecem muito diferentes. Nas telas pintadas por João Queirós, que substitui muito bem a reconstituição dos sítios históricos, há uma grande poesia. Claro que, na época, o café da Brasileira não existia, mas a corrida de cavalos vale pela representação e pelo pintado, um verdadeiro simulacro que encanta. Se Eça pertencia a uma estética realista, João Botelho desconstrói. O João da Ega (Pedro Inês) é uma personagem bem conseguida, aquela que vive do que tem e do que obtém de empréstimo e, em simultâneo, fala e consegue convencer os outros da sua visão do mundo. Faltou-lhe apenas escrever o livro como fresco dessa cultura. A abertura do filme (com Jorge Vaz de Carvalho a fazer de narrador-leitor) e o fim (em que tudo parece mudar mas fica tudo igual) são momentos bem conseguidos. As personagens dos irmãos incestuosos, Carlos da Maia (Graciano Dias) e Maria Eduarda (Maria Flor), são igualmente bem trabalhados.

Fruto da parceria na produção luso-brasileira do filme, João Botelho apresentou já a versão brasileira do seu filme no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. A co-produção recebera uma  parte do financiamento da Agência de Cinema do Brasil (Ancine).

Por seu lado, o filme Os Gatos não Têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos, partiu da ideia de "Todas as respostas estão por escrito", num contexto de crise financeira e até de valores. Na minha perspectiva, o realizador conseguiu fazer um filme muito equilibrado e agradável em termos de ritmo de narrativa. Há uma terna história de compreensão e afecto de uma recém-viúva por um rapaz que atingiu a idade adulta mas com um futuro social e profissional complicado, dada a origem familiar e social. Rosa (Maria do Céu Guerra) descobre um grande potencial de romancista em Jó (João Jesus), jovem expulso da casa do pai e que encontra a casa de Rosa (o seu terraço) através de endereço encontrado na sua mala roubada pelo grupo a que pertencia aquele rapaz. Depois, e numa inversão da situação, ele deixara os seus cadernos no terraço, o que levou à curiosidade de Rosa. O mau ambiente social e financeiro em casa de Jó e nas suas relações, o jovem vê reproduzir-se na família de Rosa: a filha Luísa (Fernanda Serrano) e o genro (Ricardo Carriço).

Segundo António-Pedro Vasconcelos: "Para este filme, questionei-me muito sobre que história faria sentido contar num momento de crise como o que vivemos. Isso levou-me a pensar muito no Frank Capra e no Vittorio De Sica, que fizeram filmes em momentos de crises terríveis, mas sem deitar as pessoas abaixo. A questão é que o Capra tinha o Roosevelt e nós temos o Cavaco. É um bocado diferente. O neorrealismo partiu de coisas atrozes como a guerra e o fascismo, mas havia um horizonte de esperança. Hoje as pessoas não têm esse horizonte, mas não queria fazer um filme a dizer amem-se uns aos outros e sejam uns gajos porreiros. Julgo que esse equilíbrio é a chave do sucesso do filme" (http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=4161934).

6.10.14

O peso das indústrias culturais discutido em Florença

No Terceiro Fórum Mundial da UNESCO sobre Cultura e Indústrias Culturais, realizado em Florença, Itália,  de 2 a 4 de Outubro, representantes de vários países discutiram os contributos que a cultura pode fazer para um "futuro sustentável" através do estímulo ao emprego, crescimento económico e inovação. A agência cultural das Nações Unidas apontou que o comércio mundial de bens e serviços culturais duplicou na última década, agora avaliado em mais de 620 mil milhões de dólares, embora haja discordâncias sobre este número (http://www.nationofchange.org/2014/10/05/sustaining-future-culture/).

5.10.14

CFP: Technologies and Recording Industries Creative Industries Journal, Special Issue 8.2 (Fall 2015)

Deadline: March 6, 2015

The past 15 years have proven transformative for music recording industries around the world, as digital technologies from the ground up (mp3s) and the top down (streaming platforms) have helped transform the landscape of production, promotion, distribution, retail, and fandom.

Yet while these transformations have recently upended assumptions about musical practice for artists, industry workers, fans, journalists, and researchers, a broader historical perspective situates them in a legacy more than a century long. Indeed, a history of recording industries told from a media and technology perspective is one of constant flux. The introduction of new media technologies has continually reorganized the practices, regimes of value, discourses, and power relationships of the recording business.

This issue of the Creative Industries Journal seeks to address the constitutive roles of technologies in shaping recording industry practices. How have the introduction and adoption of new tools of production, distribution, promotion, or consumption facilitated changes in the creative and industrial practices surrounding popular music in a variety of global contexts? Following Williamson & Cloonan (2007) and Sterne (2014), we specify “recording industries” instead of “music industries” to focus attention on the myriad creative and industrial processes related to music (or, broadly, sound) recordings, and to evade the tendency to group a variety of disparate music and sound-related industries (licensing, instrument sales, live performance) under one heading. We use the plural to assert the multiplicity and variety of recording industries that have emerged over time, which may not have anything to do with the current corporate-owned, multinational recording industry.

Possible topics for this issue include, but aren’t limited to: * Connections between technological formats and genres * Streaming services and music distribution * Discourses surrounding the vinyl record resurgence * Collectors and collecting practices * Record stores and the recording industries * New technologies and global/local regimes of representation * Music, technology, and identity * Industry practices of the digital music era * Trade papers and the recording industries * Media mobility vs. audio fidelity * Sound recordings and radio * Television and the recording industry * Failed or ephemeral formats * Re-issues and new formats * Record label histories * Technological experimentation * From cylinder to disk * Recordings as material culture * The history of personal recordings * Internationalization of recording technologies/industries * The recording industry and children’s media * Spoken-word phonography * Taste-making and technologies

To be considered for publication, articles should be between 5000 and 6000 words, double-spaced in Harvard Style. For more information on style and formatting, please see Intellect’s style guide. All submissions in these categories will be blind reviewed. Queries regarding potential submissions also are welcome. Authors are responsible for acquiring related visual images and the associated copyrights. For more information or to submit a query, please contact the issue’s editors Kyle Barnett (kbarnett@bellarmine.edu) or Eric Harvey (ericharvey@weber.edu) All submissions are due via email by March 6, 2015.

Creative Industries Journal is a peer reviewed journal with a global scope, primarily aimed at those studying and practicing activities which have their origin in individual creativity, skill and talent, and which have a potential for wealth creation. These activities primarily take place in advertising, architecture, the art and antiques market, crafts, design, fashion, film, interactive leisure software, music, the performing arts, publishing, television and radio.

Eric Harvey, Ph.D., Assistant Professor, Department of Communication, Weber State University, 1395 Edvalson St., Ogden, UT 84408

4.10.14

Em Parte Incerta

George Gerbner, fundador da teoria da enculturação, dizia que o consumo prolongado de televisão conduzia a comportamentos menos sociabilizados, como um incremento da violência e uma maior fobia em viver na cidade, com receio de se ser vítima dessa mesma violência. Gerbner, que chegou a reitor da Annenberg School for Communication, baseou as suas conclusões numa análise de conteúdo de programas em horário nobre de televisão realizada ao longo de uma década. Uma investigação tão prolongada pode ser uma marca da sua idoneidade.

Contudo, a sua teoria sofreu contestação, pois não há relação directa ou excluindo outros factores de quem vê muitas horas de televisão passe a ter comportamentos violentos e há pessoas que não vêem televisão e têm comportamentos socialmente desaprovados.

Mas penso sempre no impacto da televisão e, por exemplo, nos jovens que entram em programas como reality-shows. Expostos durante semanas, mostrando a sua beleza pessoal ou as suas tatuagens ou ainda as suas conquistas sexuais, como sobrevivem depois? Passado um período curto de fama e celebridade, como é o resto das suas vidas? Como são vistos pela comunidade a que pertencem?

A televisão é um meio que identifica e que conduz a uma formação superficial de opinião pública. Havia os políticos que se fabricavam na televisão, como um director de programas já falecido dizia conseguir. Ou os jogadores de futebol, os heróis do nosso tempo, que passam vezes sem conta no ecrã e são idolatrados e imitados - nos penteados, na roupa e, em especial, funcionam como modelos de profissão. Mas ainda não tinha visto como a relação entre marido e esposa, com um casamento à beira da ruptura, consegue reorientar-se através da televisão, como o filme Em Parte Incerta (filme de David Fincher) apresenta.

Sim, há perfídia e mau carácter na mulher (Rosamund Pike no papel de Ammy Dunne) e oportunismo, displicência e ambiguidade no homem (Ben Affleck no papel de Nick Dunne). Mas, enquanto ele sai com uma rapariga sua aluna, ela engendra uma vingança cuja cenografia segue os livros que a tornaram célebre em criança (Amazing Ammy). Ela desaparece no dia do quinto aniversário do casamento, depois de três anos a viver em Nova Iorque e os últimos no estado do Missouri, com problemas financeiros e outros. Nick Dunne torna-se rapidamente o suspeito número um, como mostra a primeira parte do filme, relatando o que se vai passando ao longo dos primeiros dias do desaparecimento, com alguns planos do começo da relação afectiva entre os dois. Mas, a segunda parte do filme mostra Ammy Dunne a fugir pelo país, à espera que a justiça prenda e condene o marido a prisão e pena de morte. Falta o cadáver mas a televisão ajuda a fazer justiça popular.

É aqui que recupero Gerbner e penso nos jovens que entram na Casa dos Segredos. No filme, a televisão e os programas de formato talk-show modelam a opinião pública popular, se assim posso designar a opinião expressa pela comunidade a que os Dunne pertenciam. Um advogado célebre em prestar serviço a causas perdidas (Tyler Perry) consegue contrariar o equilíbrio público sobre o assunto. Se um talk-show mostra a desumanidade de Nick para a mulher por quem nutria indiferença, ainda por cima grávida, outro talk-show revela o lado humano e frágil do marido, a pedir que Ammy regresse a casa, pois ele acreditava que ela estava viva. No filme, sabemos que ela engendrou toda a história e matou um antigo namorado mas, para a moral do filme, Fincher ignora isso. O importante é mesmo o julgamento via televisão, as posições pró e contra. Nesta perspectiva, o Ponto de Encontro e o Perdoa-me, programas muito populares do tempo do nascimento da SIC e da televisão privada em Portugal, eram muito ingénuos quando promoviam o reencontro de pessoas que há muito não se viam.

2.10.14

Vera mais Rita no Boca a Boca

"A Vera [Marmelo] e a Rita [Tomás] conhecem-se há anos e sempre caminharam paralelamente no trabalho e na vida sem nunca terem desenvolvido um projecto que as unisse. Foi preciso colaborarem numa outra proposta, em que a Rita tomou conta da escrita e a Vera tratou dos retratos, para perceberem que a oportunidade para um projecto conjunto estava criada". Criaram o sítio Boca a Boca.

Elas acrescentam: "O nome inicialmente concebido pela Rita para um blogue de comida assentava perfeitamente naquilo queriam agora fazer. Na mesa do café ou no sofá lá de casa, entrevistam e fotografam amigos e desconhecidos que admiram. Boca a Boca, porque são assumidas devotas do discurso directo e intuitivo, porque sabem que só faz sentido se for assim".

Não se pode calá-lo?

Esta semana, num programinha que tem na rádio pública sobre música nostálgica e conservadora americana, dedicou o disco à mulher com quem casara há 14 anos. Na sua coluna diária de um jornal que compro, onde substituiu o saudoso Eduardo Prado Coelho, passa a vida a dizer bem dos pratos de peixe que almoça nos restaurantes da zona onde habita. Um dia, foi ao Porto e descobriu um prato saboroso para os lados do mercado do Bom Sucesso. Parecendo que nunca ninguém estivera no lugar, estava ufano como o explorador africano de finais do século XIX que mostrava os dentes de marfim como troféus após uma, a nossos olhos, desgraçada caçada. Uma grande parolice num homem que se afirma muito cosmopolita. Ou petulante aristocrata que come lavagante com ovos estrelados e pimentos de Padrón (Público de hoje).

Não se pode calar Miguel Esteves Cardoso?

Annie Lennox e o jazz

Confesso que, desde há muito tempo, sou fã de Annie Lennox. Os Eurythmics foram uma das bandas inglesas com quem me identifiquei mais. Agora, a fazer 60 anos, Lennox vai lançar um disco de jazz ainda este mês, Nostalgia, que incluirá standards como Summertime, God Bless the Child, Strange Fruit, I Put A Spell On You e Georgia On My Mind. Vai ser um dos acontecimentos do outono.

1.10.14

Audiências de televisão

"O diretor de conteúdos da RTP, Luís Marinho, afirmou que medir as audiências de TV apenas nos lares é insuficiente, já que o consumo através de outras plataformas e fora de casa é uma tendência" (Diário de Notícias). Ainda para aquele responsável, a Nielsen, nos Estados Unidos, "está a fazer um trabalho na área das audiências para saber o real impacto dos produtos de televisão".

30.9.14

Manuela Patrocínio

Em 1957, Manuela Patrocínio começou a sua actividade como locutora de rádio, então ao serviço do SNI, participando também em folhetins radiofónicos. Concorreu a um lugar na Emissora Nacional como locutora e ficou. Que Quer Ouvir (discos pedidos), Correio dos Ouvintes e Clube dos Madrugadores (para emigrantes) foram programas em que se destacou.



No Correio dos Ouvintes de 6 de Dezembro de 1966, programa com música e mensagens para portugueses no mundo (referido como "dedicado aos que se encontram ausentes do lar"), Manuela Patrocínio falava nos nomes dos ouvintes. A Américo de Jesus Nunes pedia que lhe fizesse chegar uma fita gravada para ser transmitida no Natal, a Joaquim Vieira Fontes, a residir em Cabo Verde, dedicava uma música e enviava revistas, a Júlio da Silva Matos era portadora de mensagem de saudades da noiva dele e fez tocar a música Cantiga de Boa Gente, a César Joaquim Simões dava conta da saúde da tia dele e passava Carlos do Carmo. Muito mais gente foi receptora de mensagens, incluindo um alferes J. E. Marques Patrocínio, a quem a locutora tratou familiarmente por Zé (no bate-papo semanal) e mandou cumprimentos ao capitão Valente e ao alferes Fevereiro. Namorar pela rádio?

Hoje, já não há esta poesia nas ondas hertzianas, pois o telefone celular e o Facebook substituíram as mensagens unidireccionais da rádio. Mas, afinal, o serviço público continua, com a locutora-jornalista da Antena 1 Alice Vilaça a falar diariamente com Portugueses no Mundo, onde estes contam histórias do país de acolhimento, do emprego, dos sítios a visitar, da comida e das saudades. Só não há música nem mensagens de familiares nem um certo sentimento de inferioridade ou obrigação.

[imagens retiradas da revista Plateia, de 13 de Abril de 1971, e da página do sítio do Museu RTP, de 6 de Dezembro de 1966].