20.7.14

Clara Riso na Casa Fernando Pessoa

A nova directora da Casa Fernando Pessoa, Clara Riso, considerou ser "um grande desafio" trabalhar numa instituição ligada ao universo do poeta, cuja riqueza "será um motor para criar uma programação criativa".

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, desempenhou funções nas áreas de produção e internacionalização na Real Pelágio, coordenou as duas edições de Grandes Lições (publicações do programa Gulbenkian de cultura contemporânea) e o "Próximo Futuro" da Gulbenkian - com direcção artística de António Pinto Ribeiro. Em 2004, tornou-se leitora do Instituto Camões, tendo sido responsável pelo Centro de Língua Portuguesa desse instituto em Budapeste, na Hungria. Publicou nomeadamente Ou o poema contínuo de Herberto Helder: o livro de agora, uma espécie de lapso (Budapeste, 2008) e Um corpo escrevente - a poesia de Luiza Neto Jorge (Colóquio/Letras, 2002) (a partir do Diário de Notícias e do Expresso).

19.7.14

O olhar inabitado das manhãs

Num pavilhão do Jardim Botânico ouviam-se, ao longe, os sons urbanos. Por vezes, um avião sobrevoava à procura de aterrar no aeroporto não distante do centro da cidade. A noite prometia ser de tempestade em dia de verão, mas apenas caíram uns pingos, que se ouviam sobre as folhas do jardim. Insectos rodeavam os holofotes que iluminavam a cena do interior do pavilhão.

Aqui, com texto de Cátia Terrinca a partir do universo poético de Sophia de Mello Breyner Andresen, e com direcção artística de Daniel Gorjão, execução de figurino de Teresa Capitão e cartaz de Ricardo Aço, para o Teatro do Vão, a actriz Sara Carinhas interpretou o papel único da peça. Às vezes, não ouvi bem o que ela disse, porque a poesia é uma arte difícil. De ler, de ouvir. Mas bastava a magia das palavras - os sons das palavras que se juntavam a outros sons vindos de fora, como escrevi acima.

No verdadeiro começo, Sara Carinhas indicara o caminho do pavilhão. Depois, elegante nos seus passos de dançarina, entrou no pavilhão. Ali não havia a divisão clássica de palco e plateia mas uma espécie de separador de fios, de onde se via a actriz. Uma vez, ela passou essa barreira de fios e ficou junto aos espectadores, evocando as palavras da poetisa que descansa agora no Panteão. Sara Carinhas elogiou, quase chorou, falou das coisas da vida, do amor e da maternidade, e também da separação.

Quanto tempo durou a representação? 30 minutos? 40 minutos? A poesia correu depressa, os gestos delicados concluíram-se. A noite de verão ficava serena. E acabava a contradição com o título O olhar inabitado das manhãs. Afinal, a noite e a manhã fazem parte do dia e da arte e da poesia.

18.7.14

Sessenta anos de música de Elvis Presley

No Guardian de hoje, Michael Hann escreveu sobre Elvis Presley. Amanhã, dia 18, faz sessenta anos que o Rei lançou o seu primeiro disco. Não mudou tudo na música mas quase tudo. Antes, havia música adolescente, mas Elvis foi o primeiro a fazer música feita por adolescentes em vez de para adolescentes, disse o historiador pop Jon Savage. Elvis Presley era ainda adolescente quando fez esse registo. Depois, a indústria percebeu que tinha de fazer isso para os adolescentes gostarem de música, o que continua hoje a ser a regra.

No final de uma sessão fracassada nos Sun Studios, durante um intervalo de gravação, Presley começou a cantar uma música, acompanhado por Bill Black no contrabaixo e Scotty Moore na guitarra (na imagem ao lado). Impressionado com o contraste com o registado antes, o produtor Sam Phillips pediu ao trio para tocar de novo a música para a sua gravação em fita. Como contaria o historiador Jon Savage, demorou algum tempo para se compreender a música de Elvis. Ele era um músico local a gravar numa etiqueta local. Mas acabou por ser uma grande notícia em Memphis. Em 1956, Elvis tornou-se conhecido como cantor nacional e internacional, com o lançamento de Heartbreak Hotel, Don't Be Cruel and Hound Dog.

Ver aqui vídeo That's Alright Mama.

13.7.14

Curado Ribeiro e Milú

"Aconteceu nesta casa [Emissora Nacional, actual RDP, então em instalações da Rua do Quelhas, Lisboa]. Estávamos no hall e terão dito ao senhor Burnay, que era o padrasto da Milú: «precisamos de um rapaz que cante para fazer uma fita com a Milú». A Milú falou-me nisso. Depois o senhor Burnay falou-me também e disse-me se eu [Fernando Curado Ribeiro] queria. Eu queria tudo. «Quer fazer cinema»? «Quero sim senhor», disse logo. «Vai a provas». «Sim, senhor». E, pronto, fui fazer provas, que era para o Costa do Castelo, perdão, que eram para A Menina da Rádio e não para o Costa do Castelo. Mas as provas feitas com a Milú agradaram e anteciparam a feitura do Costa do Castelo e ficámos ambos, tanto a Milú como eu. E, depois, quando se fez A Menina da Rádio, eu continuei a ser a pessoa que estava indicada. Só a Milú por razões particulares é que não fez A Menina da Rádio. Foi feito o papel dela pela Maria Eugénia" (entrevista de Luís Garlito a Fernando Curado Ribeiro, programa A Minha Amiga Rádio, RDP, 3 de Junho de 1991, Arquivo Sonoro da RTP, AHD 11861-1).

Num dado momento, a actriz Milú decidiu ir para Espanha, para continuar a sua vida no cinema. Fernando Curado Ribeiro entrevistou-a e a fotografia ao lado foi reproduzida no semanário Rádio Nacional, de 18 de Julho de 1943.

10.7.14

Artistas da Emissora Nacional

A revista O Mundo Gráfico foi agora digitalizada na Hemeroteca Municipal de Lisboa. Ela foi editada entre entre 1940 e 1948, com o jornalista Artur Portela como primeiro director. O último número, 135, de Fevereiro de 1938, traz duas fotografias curiosas, a primeira respeitante ao coro feminino da Emissora Nacional e a segunda à orquestra típica portuguesa da mesma estação de rádio. Estes grupos actuavam  nomeadamente nos Serões para Trabalhadores. Uma das cantoras que mais se destacou no coro feminino foi Maria de Lourdes Rezende, que rapidamente fez uma carreira a solo (pela má qualidade da imagem não consigo saber se ela ainda faz parte do agrupamento). O coro participava nos espectáculos com um vestuário uniformizado. A orquestra tinha 24 elementos e o maestro, podendo ver-se na fotografia uma cantora que a orquestra acompanhava.


9.7.14

As notícias sobre os festivais musicais

Durante o mês de Junho, o NOS Primavera Sound foi o festival de Verão com melhor desempenho mediático nos meios de comunicação social, com 986 notícias apuradas e mais de doze horas e vinte minutos no meio televisivo. Em segundo lugar, tendo perdido a liderança que mantinha desde Janeiro, o festival Rock in Rio teve 1392 notícias e oito horas e quarenta e cinco minutos de antena em televisão. Em terceiro lugar, surgiu o festival Sumol Summer Fest, com 232 notícias apuradas e uma hora e treze minutos registados na televisão (dados fornecidos pela Cision, empresa de planeamento, monitorizacão e análise dos media).

8.7.14

Scannell e a televisão

O livro de Paddy Scannell, Television and the meaning of live, editado pela Polity (2014), chegou-me agora pelo correio. Fenomenologia da televisão, com grande destaque ao pensamento de Martin Heidegger, tecnologias, a voz na rádio e na televisão, a televisão e a história - eis alguns dos tópicos do novo livro do professor de Estudos de Comunicação da Universidade de Michigan. Dos textos mais recentes dele, retenho o livro Media and Communication (2007) e os capítulos de livro “The Question of Technology” (Michael Bailey (ed.), 2009 Narrating Media History) e “The Dialectic of Time and Television” (The Annals of the American Academy of Political and Social Sciences, 2009, vol 625). O prazer que me vai dar a sua leitura.


7.7.14

Pirandello no Porto

Com encenação de Nuno Carinhas, no Teatro Helena Sá e Costa, num exercício de alunos finalistas de teatro da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo), representou-se Luigi Pirandello, Esta Noite Improvisa-se.

Os actores e actrizes, num total de quase quarenta alunos finalistas, foram generosos, alguns quase profissionais (por exemplo Maria Quintelas, Alexandre Calçada e Alejandro Rodríguez). A personagem encenador (Fábio A. Costa, que se intitula "moço de recados e actor em part-time" na sua página do Facebook) improvisa e procura apresentar as outras personagens artistas. Alguns protestam por causa da improvisação.Havia personagens-público, que barafustavam igualmente, com alguns a saírem da plateia. Alguns quadros gostei muito, caso da dança-aviadora e da procissão. A parte final, mais dramática, foi bem executada. Tudo a conferir alegria e intriga que interessa num espectáculo como este, arrancando gargalhadas sonoras no público aqui e ali (ver vídeo de apresentação).




6.7.14

Tubitek

A loja de discos Tubitek reabriu ontem no Porto, no mesmo local onde fez fama à volta da década de 1980. Nessa altura, coincidiu com dois movimentos distintos no campo da cultura musical: a passagem do vinil para o CD e as emissões de rádios livres.

Na abertura da loja, muita gente desse tempo estava ali para comprar e rever amigos ou revisitar uma época. A música pop-rock está muito presente no vinil e no CD, mas também há outros géneros, como a clássica.

Colóquio sobre história da rádio

Foi ontem no Porto que se discutiu sobre a história da rádio, com organização de Jorge Guimarães Silva.

Deixo momentos visuais desse encontro, realizado na loja MUUDA, onde se falou da rádio desde o começo até às rádios livres da década de 1980, casos da Rádio Delírio e da Rádio Caos (o segundo vídeo tem algumas irregularidades de boa captação de imagem).


4.7.14

Museu do ano segundo o Guardian

O que faz com que um museu seja nomeado indicado como o mais importante do ano? O Guardian de hoje ouve o artista Tracey Emin, o historiador David Starkey, a designer Margaret Howell e outros, que traçam o modelo de espaço favorito de exposição. Pelas fotografias, fico cheio de vontade em visitar: Hayward Gallery, Yorkshire Sculpture Park, Mary Rose Museum, Tate Britain, Ditchling Museum of Art + Craft e Sainsbury Centre for Visual Arts. Grande óbice: ficam a milhares de quilómetros de Lisboa.

A notícia conclui que o prémio de melhor museu será anunciado pela National Gallery no próximo dia 9 de Julho. E em Portugal?

2.7.14

Sophia

Retiro do Diário de Notícias online: "«A concessão das honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner Andresen faz da sua memória um símbolo colectivo», afirmou hoje José Manuel dos Santos, no elogio fúnebre à poetisa, na sua trasladação para este o monumento nacional. Na sua alocução, José Manuel dos Santos, membro da Academia Nacional de Belas Artes, sublinhou que esta decisão da Assembleia da República «não faz - nunca fará - de Sophia um escritor oficial ou um poeta de regime, mesmo daquele que a reconheceu e que ela reconheceu». Santos ressalva que a entrada de Sophia no Panteão Nacional «é rito, símbolo e sinal». «Tem aquela solenidade, irmã do silêncio e da solidão, que é o contrário da pompa e da propaganda»".

1.7.14

Carlos do Carmo

Do Expresso online: "Carlos do Carmo acaba de ser distinguido com o Lifetime Achievement Award, o Grammy que premeia a obra das grandes referências do panorama musical internacional. É a primeira vez que a maior e mais importante distinção da indústria musical internacional é atribuída a um artista português".

Paisagens sonoras

A paisagem sonora incorpora duas dimensões (som e silêncio) (p. 48), quer dizer som e vibração acústica (p. 13), actua na relação entre escutar e produzir som (p. 17), na harmonização de soar e ouvir (p. 18). Resumo para Carlos Alberto Augusto: paisagem sonora inclui ruído, silêncio e música. O seu livro Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa (2014) contém quatro capítulos (Rebates, Silêncios, Trovas, Harmonias), uma introdução e uma conclusão (Coda).

Seguindo um investigador (Bernie Krause), distingue  três tipos de paisagem sonora: geofonia (sons da natureza, mar e vento), biofonia (sons dos animais e das plantas) e antropofonia (sons dos objectos feitos pelo homem, como as máquinas) (p. 24). O ruído é o caso do som intimidatório que invade a privacidade individual (p. 27), como o escape de uma motoreta ou o concerto na praça pública. Aparentemente, o ruído opõe-se ao silêncio. Mas John Cage concluiu que o silêncio não existe: fechado numa câmara anecóica (compartimento usado pelos especialistas de acústica, que elimina todos os ruídos do ambiente), Cage começou a ouvir ruídos - sons do fluxo sanguíneo e da corrente eléctrica que percorre o corpo humano (p. 47). Isso levou Carlos Alberto Augusto a preparar uma teoria do silêncio em seis constatações, uma delas em que indica que cada sociedade produz o seu silêncio (p. 52). Pode prevalecer o silêncio da suspeita e da desconfiança (p. 53), por exemplo nos países sem liberdade de expressão.

O primeiro símbolo que o autor estuda é o sino, instrumento poderoso cujo domínio sempre foi praticado pela Igreja e, em cada paróquia, dá conta da passagem do tempo mas também de acontecimentos sociais e de alerta (toque de rebate) (p. 20). O sino ainda repercute uma relação do espaço sonoro que define a área da paróquia: o sino da minha aldeia. Mas o autor estudo outros meios sonoros, caso da rádio. O som que se ouve através da rádio é transportado de um espaço para um outro espaço e tempo, a esquizofonia, que significa a não coincidência entre o espaço/tempo de produção e a sua recepção (pp. 40-41).

Leitura (muito aprazível): Carlos Alberto Augusto (2014). Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 94 p., 3,50 € (capa mole)

28.6.14

A acompanhante

Um dia, Cecília Ferreira ouviu na TSF uma reportagem sobre uma enfermeira que acompanhava o funeral de mortos que não tinham mais ninguém a despedir-se deles, tendo totalizado cerca de mil funerais. Muito sensibilizada com o tema, ela começou a escrever uma peça, em que Luzia, agora já reformada e isolada em casa após a morte do seu gato, recordava os funerais e as histórias desses homens que tinham morrido.

Na peça, alguns deles tinham sido íntimos dela, marido ou amantes, tinham nome, profissão, idiossincrasias, pronúncias. Um deles, achava que ia morrer quando perdesse o último dente, simultâneo do Apocalipse. Quando o dente desapareceu, ele verificou que não morrera, decidindo ir ao dentista pôr uma placa brilhante e abrindo um consultório de cartomância. Outro era um excelente vendedor pelo telefone. Outro ainda conhecera numa viagem para Paris: ele tinha em mente suicidar-se na torre Eifell, que ela não permitiu, com a amizade entre ambos a acabar naquele momento. No final da peça, a personagem reflecte ser não uma acompanhante de luxo, empregada sexual, mas acompanhante de mortos: uma prostituta de mortos, conclui. A caixa onde estão as fotografias dos mortos e as suas biografias é empurrada para debaixo da cama, como Luzia querendo libertar-se dessas recordações.

Em entrevista, a autora comentou sobre o tema: "Havia uma estranheza, inerente à própria condição de se fazer o acompanhamento de mortos, que eu queria que perpassasse todo o texto". Para prestar homenagem à enfermeira da reportagem da TSF, Cecília Ferreira inventou tudo de novo e transfigurou a personagem em absoluto. Com a peça, ela ganhou o Grande Prémio de Teatro Português SPA/Teatro Aberto 2013 e agora no palco deste teatro. A autora, licenciada em Teatro/Interpretação pela ESMAE (Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo) e licenciada e mestre em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade do Porto, é membro fundador da companhia Teatro a Quatro em 2010, no Porto, uma das companhias residentes na Fábrica da Rua da Alegria, naquela cidade.

Em toda a peça, a actriz Mónica Garnel é enérgica: dança, salta, é ginasta, enche o palco, imita sotaques, faz trejeitos, é séria e brinca, independente e receosa. Gostei ainda da música (Joana Sá e Luís Martins) e da cenografia (Gonçalo Amorim). O tema leva o espectador a pensar - a morte. Mas o modo como a narrativa decorre prende o mesmo espectador, que aprecia as múltiplas e, às vezes, divertidas histórias.

27.6.14

Os media portugueses em 1974-1975

A Revolução nos Média é um conjunto de seis textos de estudos de caso sobre a situação dos media (imprensa, rádio e televisão) durante 1974 e 1975.

Na introdução, assinada pelos coordenadores Maria Inácia Rezola e Pedro Marques Gomes, reflecte-se sobra a possibilidade de os media terem constituído uma peça importante nas lutas políticas e nas transformações operadas então. Os coordenadores consideram faltar ainda fundamentação e aprofundamento.

Os textos do livro procuram encontrar essa fundamentação. Assim, Inácia Rezola escreve sobre a RTP no PREC [período revolucionário em curso, referência dada ao período de 1974 e 1975], João Figueira sobre o jornal República, Pedro Marques Gomes sobre o semanário O Jornal, Paula Borges sobre a Rádio Renascença, Francisco Pinheiro sobre a imprensa desportiva e Marco Gomes sobre a imprensa no geral nesse período pós-revolucionário (que o autor prefere designar por intentona ou golpe dos capitães). Há uma estrutura próxima a todos os textos: uma introdução de contextualização, a apresentação e análise do caso e um apoio rigoroso em fontes documentais.

Alguns dos temas já conhecia, por produção anterior dos seus autores. Destaco, pela inovação, os trabalhos de Pedro Marques Gomes (de que saiu recentemente um trabalho sobre o Diário de Notícias e os saneamentos no PREC, e que está à espera aqui ao lado na minha linha de leitura) e Marco Gomes, com uma linguagem diferente dos outros. Apesar de ser igualmente historiador, a sua escrita aproxima-o do terreno do sociólogo. E trata, embora não tão profundamente como o leitor gostaria, de imagens como os cartoons desses anos, de que sobressaiam os trabalhos de João Abel Manta.

De repente, apercebo-me de como esse universo de há 40 anos está longínquo, o que permite agora análises sérias e objectivas. Por isso, relevo igualmente o trabalho da investigadora sénior nas matérias de história dos últimos 40 anos: Maria Inácia Rezola. Depois de nos conduzir às sucessivas administrações da RTP, nota-se o imenso pudor nela em dar nomes aos saneados, excepto os mais famosos como Alves Caetano e Henrique Mendes, logo identificados na época. Escreve a historiadora: "Apesar da vertigem dos acontecimentos, e das profundas mudanças que percorrem a RTP nestes anos de 1974-1975, é possível estabelecer as tendências e evoluções no que diz respeito às purgas políticas efectuadas na empresa" (p. 27). Em especial após o 11 de Março de 1975, quando se pedia internamente uma "purga política mais profunda". Mais à frente, a autora indica suspensões na administração de Duarte Belo, num total de 25 (p. 31) e abaixo-assinados opostos subscrito por 110 trabalhadores e 400 trabalhadores (pp. 32-33). E uma nova lista de pessoal a sanear, num total de 60 nomes, naquilo que ficou conhecido como o caso Veloso (Manuel Jorge Veloso, com uma carreira dedicada ao jazz e a programas de jazz quer na televisão quer na rádio).

Um pormenor final: a qualidade estética do livro. A editora Tinta da China constitui obras de arte em cada edição. É um gosto ler e tactear obras daquela editora.

Leitura (frenética ao longo do final da tarde e da noite): Maria Inácia Rezola e Pedro Marques Gomes (coord.) (2014). A Revolução nos Média. Lisboa: Tinta da China. 199 páginas, 11,90 €

História da rádio por Jorge Guimarães Silva

Dia 5 de Julho, às 17:00 (Artecore Festival no MUUDA, rua do Rosário, 294, Porto).

24.6.14

Fazer notícias segundo Nikki Usher

Quando na aula discutimos o texto de Nikki Usher Goodbye to the News: How Out-of-work Journalists Assess Enduring News Values and the New Media Landscape (texto publicado na New Media & Society, 2010: 911-928), vim embora intranquilo. O texto era claro mas expressava um ponto de vista pessimista: jornalistas despedidos por encerramento de jornais ou redução de pessoal nas redacções escreviam cartas onde se chamava a atenção para a perda de qualidade dos media e para o cinismo patronal que não via os jornalistas como pessoas com família mas como números. No texto, Usher surgia com uma base teórica simples mas poderosa: os conceitos de nostalgia, de Jameson, e de comunidade interpretativa, de Zelizer. Depois, partia para o método: uma análise de conteúdo de 31 cartas escritas por jornalistas despedidos.

A palavra (ou conceito) mudança era a mais evidenciada no texto. Agora, com a edição de Making News at the New York Times (2014, Ann Arbor: The University of Michigan Press), o pensamento da jovem investigadora torna-se mais transparente. Deixo ficar algumas ideias do último capítulo, Prelúdio a Quê? Ela avança com três palavras-chave do novo jornalismo: urgência (no sentido de imediato), interactividade e participação. Refere que estamos num ponto de viragem de paradigma, seguindo Thomas Khun, onde ainda não há todas as certezas mas em que mudaram: as tecnologias (as redes sociais estão na ordem do dia; a actualização 24 horas por dia; a agregação de conteúdos e não a simples produção), as audiências (conteúdos gerados por utilizadores), os métodos de distribuição. Mantêm-se, seguindo Herbert Gans, o inspirador de Usher, as rotinas e as práticas de produção de notícias e a influência das fontes poderosas, apesar de existirem fontes de informação novas e não tradicionais, caso da informação veiculada pelo Twitter.

Música tradicional em conversa

No dia 30 de Junho às 21:00, a Biblioteca Operária Oeirense organiza uma conversa com Manuel Pedro Ferreira com o tema É a música tradicional antiga? Aí se falará de música antiga e música tradicional numa abordagem histórica sobre a tradição e a relação tempo/espaço na audição. A Biblioteca Operária Oeirense fica na rua Cândido dos Reis, 119, em Oeiras.

Manuel Pedro Ferreira é autor de O Som de Martim Codax (Prémio de Ensaísmo do Conselho Português da Música, 1986), compositor, fez o curso de flauta transversal no Conservatório Nacional de Lisboa com Carlos Franco e licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Tendo-se dedicado ao estudo da música medieval, apresentou na Universidade de Princeton (Estados Unidos) uma tese de doutoramento em Musicologia sobre o canto gregoriano na Abadia de Cluny. Lecciona actualmente na Universidade Nova de Lisboa, é director executivo do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (desde 2005) e director artístico do grupo Vozes Afonsinas.

One Century of Record Labels – Mapping places, stories and communities of sound

International Centre for Music Studies, Newcastle University, Newcastle-upon-Tyne November 6th – 7th 2014

Keynote: Dr Pete Dale (Slampt Records, Manchester Metropolitan University)

This two-day interdisciplinary conference will expose, question and celebrate the enduring role of independent and commercial record labels in the construction of musical patrimony, from the early days of the record industry to the present. Record labels have traditionally functioned as organs of representation (replicating for instance racial stereotypes), codification (setting genres and trends), as well as emancipation (allowing for marginal trends, voices and groups of artists to emerge). They exist at the intersection of the public and the personal, capturing the collective imagination as well as the private fascination of the collector. They occupy different spaces and scales, from internationally influential, legendary record labels (Stax, Motown, or Columbia) to more obscure, bedroom-run, non-commercial labels (Sarah Records, Musical Traditions Records).

The aim of the conference is to gather a variety of perspectives on the past and present legacy of record labels, and to examine their changing status and relevance in an age of increasing dematerialisation. While this conference should be of interest to researchers in popular music studies, we particularly encourage contributions from within the fields of musicology, cultural studies, media studies, and sociology.

Papers could address (but are not limited to) the following aspects:

- Record labels, race and gender. Representations of minorities through records (for instance, early American 'race records' or 'ethnic records'). The role of record labels in colonialism and post-colonial development.
- Record labels, resistance and subculture. The politics of DIY, non-commercial, micro-record labels, which are especially relevant in subcultural scenes such as punk, hardcore, rap, hip hop and twee pop.
- Record labels, consumption and geography. Local, national, transnational and globalised identities. Audio tourism and the commodification of cultural difference.
- The sonic iconicity of record labels and associated studios/producers (Sun, Motown, Chess). The linked histories of audiences, record labels and record production.
- The material culture of record labels and ‘gramomania’ (Katz). Fans, collectors and personal archives. Lost record labels and their subsequent revivals, through practices of vinyl archaeology, collecting, curating and reissuing. The visual iconography of labels, cover-art and liners note as paratext (also digital metadata or downloadable supplementary visual/textual content).
- Historiographical perspectives. How have record labels impacted the creation of musical canons? The many ways in which labels have organised musical production; the construction and contestation of normative production practices and codes.
- How labels mediate ideologies of musical creativity/talent.
- Representations of record labels in the media.
- Record labels in the digital age. MP3 labels, netlabels and the use of technological platforms such as Bandcamp, Soundcloud or YouTube.

A selection of papers will be included in an edited book or journal. Proposals for individual papers (thirty minutes including discussion) and for panels (up to one hour) will be considered. Abstracts (300 words maximum) should be submitted to recordlabelconference2014@gmail.com with a short biographical note. Proposals for panels should also include an abstract for each individual paper. The deadline for submissions is 4th July 2014. Selected speakers will be notified by the first week of August.

Conference organisers: Dr Elodie A. Roy (Newcastle University), Matthew Ord (Newcastle University)