quinta-feira, 30 de maio de 2019

Bernardino Pires (5)

Na fotografia de Bernardino Pires em cima, vê-se a rua das Flores (Porto) quase até ao final, cheia de edifícios do século XVII em diante. O edifício da esquina com a rua Mouzinho da Silveira ostenta um anúncio que percorreu décadas de exposição - talvez o mais emblemático da cidade: "Vestir Bem e Barato Só Aqui". Só o reclame merecia ser considerado património nacional. Nem vestígios de automóveis, que vieram depois, nem esplanadas com guarda-sois a publicitarem cervejas e gelados, que existem hoje. Felizmente que agora, naquela rua encantadora que já foi de ourives e de ourivesarias, abriu um museu magnífico de arte sacra.

A fotografia tem outro plano, que me interessa explorar, a do muro à saída da estação ferroviária de S. Bento, um balcão para a cidade - para esta parte da cidade. Os dois homens da fotografia parecem desfrutar da paisagem exuberante, mostra da capacidade empreendedora da burguesia da cidade, que se desenvolveu com o comércio marítimo e fluvial ali mais abaixo.

Fardados (militares? taxistas?), talvez estejam apenas a observar algo que decorre mais à frente. Nós não sabemos mas imaginamos uma conversa mais acesa entre dois transeuntes. É um instantâneo que o fotógrafo não deixou perder, embora não nos tenha possibilitado conhecer a história toda.

A fotografia de Bernardino Pires em baixo também tem um pequeno muro como referência. Mas, ao contrário da anterior, em que o olhar dos homens fardados se virava para o exterior, a conversa entre namorados é para dentro. Possivelmente, estão a preparar o futuro do casal. Eles são jovens, elegantes e bem vestidos, ele com anéis nos dedos e ela com brincos (argolas), e bem penteados. Seria um passeio de domingo à tarde, com tempo para falar. Em dia quente, a conferir pela blusa e sapatos da rapariga. Um pormenor: o chão está sujo, pois um dos sapatos da jovem tem algo pegado ao tacão (papel? folha de árvore?).

O muro está colocado junto a um vale, pelo declive do fundo da imagem, se calhar um caminho onde corre o rio Douro (junto às Fontainhas). A rapariga ao lado, igualmente bem vestida, observa a paisagem, como os homens fardados da outra fotografia, a olhar para fora. A escarpa em frente não tem muitas árvores, talvez acácias e eucaliptos. O fundo da imagem tem um elemento estranho que não consegui interpretar - um drapeado. Não me parece ser um pano para toldo colocado em dia de festa. Ou, então, foi simplesmente uma falha no negativo.



quarta-feira, 29 de maio de 2019

Bernardino Pires (4)

A série de hoje de fotografias de Bernardino Pires mostra dois quadros: um fixo e outro em movimento. O fixo é o da vendedeira e do homem a dormitar. De vendedeira diz-se de quem trabalha num mercado de abastecimento de géneros alimentares (Ciberdúvidas). O quadro em movimento é o das pessoas que passam naquele espaço.

A mulher que vende já é velha, com rosto de sofrimento e olhar focado no vazio. As mãos, pousadas no regaço, parecem inchadas por doença. Veste um xaile, a indicar temperatura menos amena. Nos pés, parece que usa uns tamancos de madeira. O cesto à sua frente está vazio ou quase. Não sei se ela vendia alhos ou batatas; eu gostaria que fosse algo mais agradável como figos. O cesto atrás está mais cheio mas não adivinho o conteúdo.

Do homem, há menos detalhes, pois ele está escondido sob o casaco. Certamente a dormitar ou porque quis evitar o contacto visual com o fotógrafo. Mas, no casal, os sinais de pobreza são claros. Duas janelas em prédio ao fundo da arcada estão muito destruídas e sem vidros. Efabulo: seriam vendedores de alhos ou batatas de Gondomar? Ou da Maia?

Nas outras duas fotografias visualizam-se uma mulher de avental com um bebé ao colo e uma jovem com uma mala a lembrar uma lancheira, esta em passo mais rápido que aquela. O homem continua dobrado sobre si mesmo, a indicar estar a dormitar e não a evitar o fotógrafo. Este teria tirado as três imagens como instantes do quotidiano, quase a lembrar um filme, embora na terceira imagem ele se tenha deslocado para a sua esquerda (já sem se vislumbrar as janelas ao fundo da arcada).

O local é o de arcada da Ribeira (Porto), perto da ponte D. Luís I. Bernardino Pires fez muitas fotografias naquela área. O Barredo, o bairro por detrás da arcada, é muito antigo. Na época das imagens, as lojas em frente ao rio eram mais armazéns onde se guardavam legumes secos, como feijões, azeitonas e outros bens. Ainda havia tráfego fluvial - barcos e batelões acostavam; na outra margem do rio, a azáfama comercial envolvia barcos rabelos com vinho fino oriundo da Régua e chamado vinho do Porto. Um pouco acima do local fotografado, transitários e empresas marítimas ainda animavam muito a zona. A população local estava envolvida em pequenos ofícios, de carregador a trolha (pedreiro) e a empregado de loja de ferragens, que existiam pela rua de Mouzinho da Silveira acima. Na década de 1960, a zona da Ribeira entrou em decadência, com a mudança do peso do porto fluvial para o porto de Leixões (Matosinhos), a permitir a atracagem de navios de maior calado. Os transitários saíram todos para Matosinhos e Perafita (terminal de contentores). No final da década de 1970, houve renovação predial mas muitos dos moradores locais seriam colocados noutras zonas do Porto, alterando as características locais, hoje um grande espaço de restaurantes e alojamento local para turistas internacionais chegados em voos de baixo preço.




terça-feira, 28 de maio de 2019

Bernardino Pires (3)

Bernardino Pires fotografou a loja de fruta no rés-do-chão e o primeiro andar habitado com floreiras e um pequeno santuário, além da varanda de ferro a toda a largura do prédio. Concentrou ainda a sua atenção no rapazinho que seguia pela rua dos Caldeireiros a atravessar a travessa do Ferraz, não muito longe da então prisão ao Campo dos Mártires da Pátria (onde estivera preso Camilo Castelo Branco).

O rapazinho preenche uma parte da fotografia do lado esquerdo. Vê-se que está afoito na rua, conhece-a bem. De calções, blusa aberta e uma mão atrás das costas, olha para o lado no momento em que desce do passeio. Quantos anos teria ele? Quatro? Cinco? Vai fazer um recado? Ou vai ter com um companheiro para uma brincadeira? Na mão esquerda ele transporta um objeto mas eu não consigo perceber o que é.

Volto ao edifício e ao exterior. No primeiro andar, percebe-se que o prédio tem azulejos a revestir o seu exterior, com um desenho de figura circular, a aparentar uma boa construção. A luz solar desce forte pela rua e obscurece a parede visível da travessa do Ferraz. Pela minha leitura, passaria pouco tempo depois do meio-dia. Assim, talvez o rapazinho tivesse chegado de uma brincadeira no jardim do Campo dos Mártires da Pátria, o Jardim da Cordoaria (de João Chagas) e a preparar-se para almoçar.

[na foto a seguir, a imagem do local obtida através do Google Maps. As comparações entre as duas imagens deixo-as a quem ler esta mensagem]



segunda-feira, 27 de maio de 2019

Bernardino Pires (2)

Claude Monet pintou a catedral de Rouen em diversas horas do dia, de modo a obter diferentes impressões de cor. Na fotografia, Bernardino Pires usou um princípio próximo - o da usura do tempo num espaço.

Das imagens já publicadas pelo filho, Daniel Pires, há duas séries retratando mulheres: na estação ferroviária de S. Bento e nas arcadas da Ribeira do Porto. Fico-me pela primeira série. Na fotografia inicial, duas mulheres ainda jovens conversam. Muito serena, a mulher à direita parece estar a confessar um pormenor mais íntimo da sua vida - talvez a pedir um conselho à outra mulher. Elas estão sentadas junto a um pilar da entrada da estação e o fotógrafo indica-nos um pormenor, a do sítio onde elas se sentam: cestos fortes de verga onde transportam certamente produtos domésticos ou alimentares. Mas o maior enquadramento vai para a imagem de azulejos da estação. Uma análise superficial pareceria indicar que a atividade das mulheres se ligaria ao rio ou ao mar, mas a estação ferroviária não é rota para qualquer das áreas, exceto numa zona longínqua, a de Viana do Castelo. Olhando melhor a imagem de azulejos, vejo dois motivos: transporte de pessoas, com um guarda-chuva a despontar, transporte de mercadorias de praia ou de encosta com uma parelha de bois a ajudar a transferência desses bens. O vestuário das mulheres pode configurar esta minha hipótese. À falta de melhor descrição chamo-as de minhotas: o lenço, o avental, as cores percecionadas da roupa.

Não tenho ainda informação sobre o modo como Bernardino Pires fotografava: com tripé? Com que tipo de máquina? Portátil? A fotografar de modo discreto ou quase clandestino? Qual a diferença entre o que ele queria fotografar e o que aparece na imagem?

A segunda fotografia alarga o ângulo de visão. Uma das mulheres, a que parecia estar a confidenciar, está de pé, e veem-se duas outras mulheres que parecem fazer parte do mesmo grupo, dadas as semelhanças de vestuário, além de uma criança. A imagem revela-nos que estão no átrio da estação mesmo junto à porta de entrada para a gare dos comboios. Talvez a hora de partida esteja a aproximar-se e a mulher levantou-se.

Na terceira imagem, duas das mulheres e criança desaparecem de cena, a indicar movimento para o comboio ou saída para obter informações sobre horários. A fotografia revela um pormenor delicioso. A mulher a vestir roupa menos tradicional abaixa-se e pega num garrafão: vinho? azeite? O comboio deve estar pronto a partir, pois se observa movimento na entrada para a gare. Nas duas últimas fotografias, à entrada da gare, está um polícia no mesmo sítio, o que pode indicar que as fotografias teriam sido feitas quase umas atrás das outras, como se fossem instantâneos.

Por conseguinte, a decisão de fotografar é imediata, mas o fotógrafo não perde de vista os seus objetivos principais: o painel de azulejos e as mulheres em viagem. A conversa, a espera e o momento de partida estão bem patenteadas nas imagens. O comboio que não se vê poderia ser um movido por uma máquina a carvão (a vapor), como outras fotografias de Bernardino Pires mostram.

Desta análise, ficou-me uma pergunta: e os homens onde estão? Pela divisão social de tarefas existente à época, a atividade exercida pelas mulheres era doméstica - compras. Ou uma outra hipótese: visita a um familiar doente ou internado no hospital.

Mas há um tempo sereno de espera, sinal que hoje não encontraríamos: a estação de S. Bento, no Porto, como a do Rossio, em Lisboa, é (são) porta(s) de acesso a uma população flutuante e diária entre emprego na cidade e habitação nos subúrbios urbanos. O vestuário à minhota e os cestos de verga fazem parte da história de há sessenta setenta anos. A fotografia é um meio privilegiado de se estudar uma sociedade e um cultura. Bernardino Pires foi um bom observador dos costumes, combinando tempo e espaço com harmonia. Julgo, assim, muito útil contribuir para a divulgação de uma obra que não é mero trabalho de amador.




domingo, 26 de maio de 2019

Bernardino Pires (1)

[interrompo o longo silêncio e quebro por dias o fim do blogue. Uma razão: a escrita de alguns textos sobre um fotógrafo que estou a descobrir, embora já tivesse falado dele aqui: Bernardino Pires]

O que se segue é um começo de ensaio sobre Bernardino Pires (1904-1977), ilustrador e desenhador gráfico na área da publicidade, tendo trabalhado para grandes empresas como a Ciba-Geyge (atual Novartis), de produtos farmacêuticos e para agricultura [enquanto tentativa, o presente texto pode ser alterado no sentido de melhorar as interpretações que se seguem].

Apaixonado pela fotografia, participou em concursos patrocinados pela Associação Fotográfica do Porto, a título individual e integrado em grupo restrito de amigos – Tertúlia Fotográfica "4+" –, ganhando variados prémios. A época de maior atividade fotográfica foi durante as décadas de 1950 e 1960. As imagens abaixo cobrem este período, sem se poder datar com maior rigor tal produção, e refletem a realidade do Porto e seus arredores. O espólio fotográfico de Bernardino Pires inclui negativos 6x6, 35mm, filmes, diapositivos e amplicópias.

Das imagens já disponibilizadas no Facebook por Daniel Pires, a quem agradeço toda a informação prestada e permissão para escrever sobre o pai, destaco algumas. Ainda sem um grande apuro estético, eu identifico as imagens como pertencentes ao estilo neorrealista. Várias fotografias representam espaços de trabalho artesanal, como agricultura e venda de peixe e de legumes. Lazer ou compromisso social são fornecidos em outras imagens. No conjunto, há ainda imagens consideradas mais artísticas, como o nevoeiro a encobrir a ponte D. Maria Pia (Porto).

O movimento da mulher que transporta o saco à cabeça retirado da carroça junto à ria (de Aveiro, julgo) mostra-nos uma pessoa ágil e decidida, a deslocar-se rapidamente e em equilíbrio. O ligeiro desfocar da figura feminina ilustra essa velocidade. A imagem não nos revela o rosto, apesar dos óculos, mas podemos concluir que o esforço denota uma tarefa de rotina. Olho ainda os pés descalços, marcador de uma época.

"Grupo de amigos" mostra um conjunto de cinco crianças em redor, que convergem a sua atenção compenetrada para o mais velho, vestido com casaco, à direita, a mostrar um objeto - que não consigo identificar. As crianças estão descalças e o local parece-me junto à Ribeira (Porto), dado existir uma outra fotografia em local parecido - venda de legumes. A análise ao vestuário das crianças daria um ensaio. A fotografia remete para a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, Aniki-Bóbó (1942).

Bernardino Pires parece, por vezes, um fotógrafo tímido, pois as cenas são captadas por detrás. Talvez não quisesse perturbar os acontecimentos com a sua presença mas ficar-se no lado mais antropológico, como a imagem de homens montados em bicicleta. Eles estão em pausa e a escutar algo. Não nos são dadas muitas pistas mas vislumbra-se um homem ao fundo e voltado para os ciclistas. Distribuição de tarefas de trabalho? Escuta de relato de futebol no rádio (telefonia) em dia de domingo? A reunião iniciou-se sob a sombra de árvore mas o número de homens cresceu além da proteção daquela. Diversos indivíduos usam boinas. Na bagageira de algumas máquinas há embrulhos, talvez um lanche ou encomenda a entregar. Uma nota: as bainhas estão protegidas com molas, para evitar rasgões das calças junto dos pedais. Acrescento: à esquerda está um militar, à direita uma criança.

Menos habitualmente, o fotógrafo remeteu-nos para um universo mais abstrato mas sem descuidar o labor. Um exemplo desta modalidade é "Bicicleta", composição simétrica com troncos de madeira, certamente guardados em armazém. Cada tronco é um ponto branco de diferente tamanho. A bicicleta, a pá e as roupas constituem elementos suplementares de composição. Apesar de ser uma imagem a preto e branco, há cores distintas em cada um desses objetos.




terça-feira, 24 de julho de 2018

Um blogue - de 17 de março de 2003 a 24 de julho de 2018

O projeto do blogue Indústrias Culturais começou em 17 de março de 2003, há mais de quinze anos. Agora, chegou a altura de o encerrar. O cansaço de pesquisar e de fornecer informação, quase diária ao longo de muito tempo, e a necessidade de me concentrar numa tarefa específica - a rádio, como tem transparecido nos anos mais recentes - são duas razões que justificam esta decisão.

Nunca pensei em seguir o exemplo de Aby Warburg, que dedicou a sua vida à criação de biblioteca como memória coletiva europeia assumindo a cultura da antiguidade pagã, conforme António Guerreiro, crítico de literatura, mostrou em conferência sobre Warburg, a 13 de dezembro de 2007, e cujo vídeo recupero aqui. Também nunca julguei tornar o blogue Indústrias Culturais uma espécie de wikipedia dedicada a assuntos de cultura e das indústrias relacionadas com ela, mais o jornalismo e os media. A sua linha foi-se construindo ao longo do tempo, com muita dedicação e procura.

Quero agradecer a todos os leitores que o leram e deram contributos para uma maior compreensão dos temas que fui tratando.

   

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Rádio Con:Vida em Aveiro em novembro de 2018

A Universidade de Aveiro, o INET-md e a UNESPAR apresentam o evento rádio con:vida que terá lugar entre os dias 15 e 17 de novembro de 2018 na Universidade de Aveiro. Na página rádio con:vida, já se encontra informação geral sobre a exposição e a conferência internacional e a relativa a inscrições, submissões, datas, programa, locais, entre outros. Com o apoio da Fábrica Centro de Ciência Viva de Aveiro, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação para Ciência e Tecnologia, da Rede de Museus Oliveira do Bairro, da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro e da Radiolândia, a conferência – que inclui também uma exposição – tem por objetivo colocar em diálogo os investigadores e os protagonistas envolvidos em diferentes experiências sobre rádio.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Serviço Público de Media em Portugal em tese de doutoramento

Foi hoje de manhã que Nuno Conde defendeu a sua tese de doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, sob o título Legitimidade do Serviço Público de Media e Relações de Poder: o Caso Português (2002-2014). A prova foi classificada com Excelente, 19 valores.

Do resumo da tese, retiro o seguinte: "A presente investigação incide sobre a problemática da legitimidade do serviço público de media em Portugal. A pesquisa empírica desenvolvida (análise documental e entrevistas a protagonistas dos campos político, regulatório, dos media e da sociedade civil) centra-se na RTP, ao longo de três ciclos políticos, entre 2002 e 2014. Assim, analisamos as opções políticas sobre os modelos de financiamento e governação do operador de serviço público, devidamente contextualizadas nos planos económico e regulatório. A investigação permite-nos concluir que o serviço público é perspetivado pelo poder político como um agente regulador do mercado, quer no plano económico, por via da imposição de restrições à publicidade comercial na RTP, quer na dimensão mais abstrata e subjetiva de agente indutor da qualidade na programação e de uma ética de antena no espaço comunicacional. Constatamos que a comunicação política em torno da ideia da privatização da RTP é utilizada como estratégia de afirmação política, mobilizadora de outros significados, designadamente de opções ideológicas sobre o papel do Estado na sociedade e na economia".

Aqui, manifesto a minha grande alegria e orgulho pelo trabalho apresentado e aprovado. Como orientador (e amigo) de Nuno Conde no mestrado e agora no doutoramento, reconheço a enorme valia da sua investigação. Profissional que trabalhou (ou trabalha) como consultor de entidades do Estado e gestor em várias empresas de media (e televisão), o seu conhecimento do serviço público de media é um dos mais estruturados que existem no país. Espero sinceramente que publique a sua tese, alargamento fundamental para se compreenderem os media, e a televisão em especial, no primeiro quartel deste século em Portugal.

Com a realização desta prova pública, fecho o meu ciclo de docência e orientações. Foi um período riquíssimo e agradeço à Universidade Católica todas as oportunidades que tive. Mas, acabado este ciclo, começa um novo. Um projeto financiado pela FCT, Broadcasting in the Portuguese Empire (acrónimo: BiPE), sob a liderança de Nelson Ribeiro, diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, mais três elementos, entre os quais eu me encontro, já está em curso. A vida da universidade é assim: colorida e cheia de desafios.

Abaixo a fotografia do júri com o novo doutor e um vídeo, feito após a prova, onde Nuno Conde apresenta as principais linhas do seu estudo.


Da esquerda para a direita: Manuel Pinto (Universidade do Minho), Sílvio Santos (Universidade de Coimbra), Rogério Santos, Nelson Ribeiro (Universidade Católica Portuguesa), Nuno Conde, Rita Figueiras (Universidade Católica Portuguesa) e Francisco Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa). Fotografia: Cristina Morgado

 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vida de telefonista

A leitura da tese de doutoramento de João Moreira dos Santos sobre relações públicas e estudo de caso da Anglo-Portuguese Telephone (APT) levou-me a procurar material que tinha recolhido sobre essa empresa e que há mais de 30 anos não via e, por isso, não trabalhei em termos de investigação histórica. Agora, por exemplo, encontrei dois documentos que me elucidaram sobre a vida da telefonista e a precariedade de trabalho no final da década de 1940. Em ambos, expurguei os nomes das intervenientes.

Um deles é de 1948. Para crescer economicamente, a APT fez contratos leoninos com os empregados. A telefonista admitida entrava na reserva eventual, fora de regalias (serviços médicos ou vencimento quando doente) e sem aviso prévio se o posto de trabalho fosse extinto. Há um parágrafo mais elucidativo do que outros: trabalho temporário e serviço em dias isolados ou em determinadas épocas, como o verão.

O outro documento traz dados ainda mais relevantes, a partir da ficha de avaliação de pessoal de uma agente da central telefónica da Afurada (Vila Nova de Gaia), com contrato estabelecido em abril de 1946. Se, pelo primeiro documento, a precariedade resulta da necessidade de preencher vagas por férias, pelo segundo documento, toma-se conhecimento de uma empregada a residir no local de trabalho, com apoio da colaboração de familiares. Pelo documento, não se sabe que exigências e regalias se colocaram à empregada, mas admito que o contrato tivesse balizas de apoio social e médico semelhantes (ou, por isso, inexistentes). A estação onde a agente ficava a trabalhar era no lugar da Alumiara, em Canidelo. Não andarei longe da localização se a colocar na rua da Bélgica, entre Afurada de Cima e Lavadores, ainda hoje uma via de acesso essencial no percurso do centro de Gaia às praias.

A unidade de secagem de bacalhau, algumas fábricas de cerâmica, lavradores mais abastados, donos da frota pesqueira (pesca artesanal), lojas (mercearias e padarias), profissões liberais (como médicos), possivelmente já alguns concessionários da praia de Lavadores e o pessoal da antena de rádio dos Emissores do Norte Reunidos seriam alguns dos clientes da central telefónica. A estação da Afurada estava caracterizada como de tráfego médio.

Nessa época, a agente já era casada. O filho nasceria ainda em 1946 e a filha em 1950. Logo no ano do contrato, o marido foi autorizado a fazer serviço e para apoio da agente entrou uma empregada (criada) ainda em 1949. O pai da agente obteria autorização para residir na casa-central telefónica por um período curto em 1950 e em definitivo em 1954. Uma prima da agente, nascida em 1938, foi igualmente autorizada a residir no mesmo lar em 1950 mas impedida de trabalhar, assunto revogado em 1951 quando a jovem atingiu 14 anos de idade. O trabalho na central telefónica era 24 horas por dia, 365 dias por ano. Daí, a pequena equipa de quatro adultos: agente, marido, pai e prima. Talvez a empregada ainda ajudasse em algum momento.

Uma visitadora avaliaria o trabalho regular da agente telefonista da estação. A visitadora seria uma encarregada, já com experiência de serviço, correspondente à vigilante, que, na central com muitas telefonistas, zelava pelo bom atendimento e resolvia situações de telefonemas mais complexas. No caso presente, a tabela de avaliação geral não foi totalmente simpática para a agente: em cinco anos observados, 18 meses com muito bom, 16 com bom, 12 com sofrível e 11 com mau e 3 muito mau ou péssimo. O serviço começou a melhorar em 1952. Uma razão plausível para a melhoria seria a entrada da jovem prima, com o alargamento da equipa.

A remuneração mensal era de 400 escudos em 1946, tendo subido a 500$00 em abril de 1953, quatro anos depois do começo do contrato. Uma gratificação ou bónus anual (espécie de subsídio de férias de valor variável e atribuível ou não) não atingia o salário mensal, a oscilar entre 250$00 e 375$00, mas chegou a mil escudos em 1955.

Como seria garantir a subsistência de um agregado de oito pessoas com 400 escudos? O aluguer mensal de 120$00 era retirado do vencimento ou funcionava como usufruto? Há uma observação, em julho de 1951, que indica ter sido retirado o subsídio para a luz por ele ser incorporado no subsídio da energia, o que significa haver outros pagamentos não identificados nesta folha de pessoal. Apesar de muito distinto, podemos comparar aquele salário com preços de roupa de uma loja de luxo, em 1950, a Casa Africana: “Se a ouvinte vai para a praia, termas ou campo, não se preocupe com as suas toilettes: a Casa Africana tem modelos de vestidos todos diferentes ao preço de 200$00 a 250$00. Vestido de lantoc a 300$00. Vestido de linho a 350$00” (Arquivo Nacional Torre do Tombo, SNI, Caixa 791).

Uma última observação: o casamento estava vedado às telefonistas das maiores centrais mas não às agentes das centrais manuais de bateria local ou bateria central, possivelmente por força do isolamento profissional.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

João Moreira dos Santos, as relações públicas e a APT

Hoje, no ISCTE, João Moreira dos Santos defendeu tese de doutoramento em Ciências da Comunicação com o título As Primeiras Manifestações de Relações Públicas Empresariais no Portugal do Início do Século XX (1910-1948). Modelos de Comunicação no caso The Anglo-Portuguese Telephone Co. Ltd. O aluno teve como orientadora a professora Sandra Pereira e como co-orientadora a professora Maria Inácia Rezola.

Retiro do resumo da tese o seguinte: "O presente estudo tem como objeto de análise as primeiras manifestações de Relações Públicas (RP) empresariais em Portugal, muito particularmente os modelos de RP adotados (Grunig e Hunt, 1984), procurando evidenciar o papel do contexto histórico na sua prática. Cingindo-nos ao período compreendido entre 1910 e 1948, seguimos como estratégia de pesquisa a metodologia de estudo de caso. Para o efeito, elegemos a The Anglo-Portuguese Telephone Company, Ltd. (APT), também conhecida como Companhia dos Telefones, que desenvolveu atividade em Portugal entre 1887 e 1967. Cientificamente, pretendeu-se contribuir para colmatar as lacunas existentes na historiografia nacional e europeia das RP empresariais".

Como arguente, interessou-me sobremaneira a análise da APT, presente nos capítulos V e VI. Daquele (A APT em Portugal e o contexto para as Relações Públicas), o agora doutor trabalhou breve historial da APT, introdução e adaptação (1882-1902), sistema de bateria central (1903-1930), sistema automático (1930-1967), contexto para as Relações Públicas, enquadramento contratual, ambiente político e regulatório, ambiente laboral, ambiente social, ambiente operacional e comercial, ambiente mediático, cultura empresarial e ambiente concorrencial. Do segundo (As Relações Públicas na APT), retiro os seguintes subcapítulos: organização, terminologia e conceptualização, dos secretários da administração à departamentalização, origem e progressão do termo, conceptualização teórica, influências estrangeiras na aquisição de competências, influência britânica, influência norte-americana, práticas e modelos de Relações Públicas, relações com o poder político e regulador, relações com os empregados, relações com a comunidade, relações com os clientes e relações com a comunicação social.

Das conclusões, o autor menciona indícios de que durante o terceiro quartel do século XIX algumas empresas e organizações enviavam aos jornais informação referente às suas iniciativas, serviços e produtos, numa atividade do tipo publicity. A nível empresarial, João Moreira dos Santos considera o pioneirismos das RP na APT, enquadradas sob esse mesmo termo – Relações com o Público – a partir dos anos 1930. Em 1948, Mello Portugal, funcionário do departamento de tipo-RP da APT, defendeu, contudo, que seria mais apropriado usar o termo Relações Públicas (Portugal, 1948), sendo essa, possivelmente, a primeira referência ao mesmo em Portugal. Nos anos 1950, o designativo Relações Públicas era já utilizado por empresas/organizações como a APT, Shell Portuguesa e CTT.

A APT (Anglo-Portuguese Telephone) era a empresa de telefones conhecida como Companhia dos Telefones, a operar nas áreas de Lisboa e Porto até 1967, quando deu origem aos TLP, fundidos com a parte de telecomunicações dos CTT em 1994, originando a Portugal Telecom.


Fonte: Ilustração, 16 de dezembro de 1933


Adaptação de anúncio da realidade inglesa à portuguesa. O júri da prova, mais o novo doutor, aparece na fotografia a seguir.


[da esquerda para a direita: Jorge Vieira, ISCTE, Nuno Estêvão Ferreira, Universidade Católica, Sandra Pereira, Escola Superior de Comunicação Social, João Moreira dos Santos, Gustavo Cardoso, ISCTE e presidente do júri, Gisela Gonçalves, Universidade da Beira Interior, e Rogério Santos, Universidade Católica]

 

domingo, 8 de julho de 2018

Pedro Morais

Vestia sempre de branco e o seu saco de pano era branco. No inverno, a sua canadiana de pipinhas era de lã muito clara.

Viamo-lo a almoçar na cafetaria aqui da rua. O nosso vizinho de mesa parecia um poeta.

Afinal, era pintor com obra sólida, conforme li no obituário há pouco no jornal. Tão elegante quanto discreto. Artista e professor. Que ignorância a minha. Quantas conversas poderia encetar com ele.  Talvez me mostrasse as obras em criação no seu ateliê, presumo, do outro lado da rua.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A imprensa católica açoriana segundo José Paulo Machado

Hoje, na Universidade Católica Portuguesa, defendeu tese de doutoramento José Paulo Machado, com o título A Imprensa Católica nos Açores: do Início do Século XX ao Concílio Plenário Português.

Da introdução, retiro uma questão que segue o título da tese: como se organizaram os media religiosos nos Açores nos três primeiros decénios do século XX, atendendo a escassos recursos financeiros e humanos? Por diversas vezes, os jornalistas desses meios apelaram à ajuda. Ou, como escreveu o aluno: "colocavam-se junto dos seus leitores de mão estendida" (p. 46). No todo, a tese procurou saber as causas que levaram a igreja a abraçar a imprensa, a imprensa nos Açores no início do século XX e as principais temáticas dos editoriais católicos açorianos.

O padre e agora doutor José Paulo Machado estudou 17 periódicos (jornais nacionalistas, boletins paroquiais, jornais associados ao Centro Católico Português, imprensa diarista de Angra do Heroísmo e revistas de foro cultural) num total de 5132 jornais, focando a sua análise empírica nos editoriais ("entrevista", aspas colocadas por mim, âmbitos religioso, político, locais-regionais e sociais-económicos, sobre o ensino, patrióticos, sobre a imprensa, âmbito literário-científico-cultural e sobre política internacional).

Como um resultado da investigação, em antecipação ao Concílio Plenário Português (1926), a reunião dos jornalistas católicos açorianos (1923) delineou, como grande linha de força, a unidade temática da imprensa católica insular. Seguindo esta orientação, com a extinção ou persistência dos periódicos estudados, seria criado o órgão oficial da Diocese, A União, em consonância com as deliberações do Concílio Plenário Português de 1926. Isto numa altura de grandes mudanças políticas (ditadura e Estado Novo) e situação económica (preço crescente do papel de jornal).

Além do trabalho escrito e apresentação oral do mesmo, a arguição tem um papel importante no valor da prova pública. Aqui, a leitura atenta e crítica de Alexandre Manuel Leite e Maria Inácia Rezola, bem como os contributos dos meus colegas da Universidade Católica, alargou muito a perspetiva do texto, num verdadeiro contributo científico. Enquanto orientador desta tese de doutoramento, senti-me gratificado pelo rigor das intervenções. E manifesto ainda a minha alegria pelo presidente do júri ser o padre José Tolentino Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e muito recentemente nomeado arcebispo e com os cargos de arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Vaticana, a assumir no começo de setembro de 2018.


[da esquerda para a direita: Alexandre Manuel Leite, Universidade Autónoma de Lisboa, José Miguel Sardica, Universidade Católica Portuguesa, Nelson Ribeiro, Universidade Católica Portuguesa, José Tolentino Mendonça, Universidade Católica Portuguesa, José Paulo Machado, Rogério Santos, Universidade Católica Portuguesa, e Maria Inácia Rezola, Escola Superior de Comunicação Social]

Em último, fica aqui um apontamento em vídeo do próprio José Paulo Machado.

 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

José Manuel Tengarrinha

José Manuel Tengarrinha foi o arguente da minha tese de mestrado em media e jornalismo, em maio de 1992. Ele foi dirigente político e um importante historiador da imprensa.

Agora, com o anúncio do seu falecimento, presto-lhe a minha singela homenagem. Obrigado por tudo, professor.

sábado, 16 de junho de 2018

António Macedo

Toma, serviço público de media!

Eu ouvi agora o elogio de António Macedo feito por David Ferreira: a perda do mais caloroso dos seus animadores. E a crítica ao serviço público de media, isto é, à rádio. Penúria, perda de ativo, negligência ou estratégia (escondida?).

quarta-feira, 13 de junho de 2018

As emissões de rádio em Portugal começaram no outono de 1924

A revista TSF em Portugal começou a publicar-se em 9 de novembro de 1924, dirigida por Álvaro Contreiras, então funcionário da Marconi. O seu objetivo era "publicar em Portugal uma revista da especialidade, onde informássemos os nossos compatriotas dos progressos existentes, acompanhando a sua marcha, elucidando os novos inventos que aparecem, enfim, tudo que interessa à radiotelefonia e à radiotelegrafia".

No número de 15 de fevereiro de 1925, a revista publicava, na página inicial, a fotografia do emissor 1AB (pouco depois CT1AB), de José Joaquim Dias de Sousa Melo, e, no número de 15 de março do mesmo ano, o esquema do mesmo emissor. Na primeira imagem, no topo do móvel, além da campânula (gramofone) observa-se a bobina emissora (ninho de abelha), e, abaixo, os auscultadores e o microfone. As primeiras experiências, escreveu o amador, começaram em novembro de 1924, com duas válvulas, continuando em dezembro, com cinco bobinas e três condensadores. Por esta descrição, o esquema parece-me incompleto, pois apenas se vê representada uma válvula eletrónica.

Fixo-me na data aproximada das primeiras experiências: novembro de 1924.



Na realidade, o número de 30 de novembro de 1924 noticiava um amador a fazer ensaios na onda de 450 metros, com as iniciais PS (tornada, como acima indico, em 1AB e depois CT1AB). Todas as noites, o amador chamava "Allo! Allo! Aqui, posto português PS". No número de 14 de dezembro de 1924, a revista TSF em Portugal indicava continuarem as experiências e avisava outro posto emissor de estar a criar obstáculos a esta ação, "pois não gostaria de ser perturbado se estivesse em audição". Também CTV, o posto militar de telegrafia de Monsanto, era uma ameaça à transmissão dos amadores, devido ao uso de emissor de faísca (isto é, sem frequência definida), depois substituído por equipamento com frequência determinada por oscilador.


TSF em Portugal, no número de 18 de janeiro de 1925, publicaria a fotografia de José Joaquim de Sousa Dias Melo, considerado o "primeiro amador de Lisboa que construiu um posto de transmissão".


Mas a notícia mais interessante seria publicada pela revista no número de 28 de dezembro de 1924. Além da referência a 1PAB, agora com quatro lâmpadas eletrónicas, que emitia em telegrafia e telefonia, a indicar a passagem da transmissão de morse para a da voz, através de microfone. A mesma notícia apresenta outro emissor, o que realmente me interessa aqui: 1PAA, depois modificado para CT1AA. Lê-se: "1PAA tem feito interessantíssimas experiências, tendo já por diversas vezes transmitido concertos que têm agradado imenso a todos os que têm ouvido tanto em nitidez, como em intensidade". As experiências caminhavam no sentido da regularidade, no que posso definir como emissões de rádio. Logo, a rádio em Portugal começou a sua existência no final do outono de 1924.


No número de 8 de março de 1925, a revista publicaria o programa de P1AA com a emissão do terceiro concerto-prova da Sociedade de Amadores de Rádio Portugal (a designação mais frequente de 1PAA, depois CT1AA), a começar às 21:00 na banda dos 300 metros. Os anteriores concertos transmitidos pela estação teriam ocorrido entre meados de dezembro de 1924 e fevereiro de 1925. Tal significa que, em menos de três meses, os amadores da rádio portuguesa evoluíram rapidamente. A revista TSF em Portugal teria forte influência nesse desenrolar, pelo incentivo constante. O número de 15 de março do mesmo ano inseria uma carta encomiástica "tanto na organização feita pelo sr. dr. Carlos Pimentel , como pela execução dos distintos amadores e artistas musicais, o programa marcou pela seleção dos seus números e pela perfeição da transmissão levada a efeito pelo proprietário do posto sr. Abílio dos Santos".  Por seu lado, a estação P1AB emitiria um concerto a 12 de março de 1925: além de música clássica, atuaria o fadista Alfredo Marceneiro, acompanhado à guitarra por Álvaro Cunha. Um intervalo humorístico também fazia parte do programa, com Lino Sousa.


Na edição seguinte de TSF em Portugal, a 15 de março de 1925, o anúncio do quarto concerto-prova da Sociedade de Amadores Rádio Portugal, trazia uma novidade, o speaker (locutor) Herculano Levy.


A vida de Herculano Levy dava quase um filme. Nascido em São Tomé, filho ilegítimo de Salvador Levy, procurou herdar o que lhe competia da fortuna do pai, o que conseguiu após decisão do tribunal. Mas, antes, e para sobreviver, foi crítico de arte, teatro, cinema e música. Depois, passou a gerir uma distribuidora de filmes até ser convidado por Ricardo Covões para fazer a publicidade e promoção do Coliseu dos Recreios. Quando o tribunal considerou legal usar o nome e receber a parte da fortuna do pai a que tinha direito, ele retirou-se da atividade e passou a administrador de prédios que comprou. O seu conhecimento musical permitiu-lhe fazer diversas conferências sobre músicos internacionais [informação a partir do livro de Carlos Espírito Santo, Herculano Levy, Poemas, 2000].

domingo, 10 de junho de 2018

Estúdios da rua Cândido dos Reis (Porto)

No Porto, a Emissora Nacional inaugurava os seus estúdios na rua Cândido dos Reis, em 1943 (Panorama, nº 17, outubro de 1943). A satisfazer um desejo antigo, o Emissor Regional do Norte passava a contar com instalações adequadas para a produção de programas. O relevo era dado ao estúdio principal e à central técnica (fotografias de Mário Novais).


Agora, os estúdios da rádio pública estão no Monte da Virgem (RTP) e a rua Cândido dos Reis alberga bares que se enchem de movimento e alegria ao final da tarde e noite.

sábado, 9 de junho de 2018

Sobre a rádio pública

Nas décadas de 1950 e 1960, aqueles que tinham uma visão geral do serviço público de media eletrónicos olhavam mais para a televisão do que para a rádio, escreveu Jack W. Mitchell, relatando a situação nos Estados Unidos. O eixo Boston-Nova Iorque, com as universidades de Harvard, Princeton e Yale, nomeadamente, não tinha uma estação de rádio como objetivo, apesar das comunidades académicas olharem o serviço de rádio da BBC (Inglaterra) como meio ideal em termos educacionais.

Em Boston, continua Mitchell a escrever, a estação WGBH foi o modelo americano, instituição independente e sem o objetivo do lucro, propriedade de um conjunto de instituições educativas, cuja estrutura, governação e obtenção de fundos se assemelhava aos museus, orquestras sinfónicas e outras entidades privadas a funcionarem dentro do ideal filantrópico dos Estados Unidos [modelo que não se replica, por razões históricas e sociais, noutros países como Portugal]. Como a BBC e outras entidades que emergiram depois, a rádio WGBH representava os valores sociais e culturais da elite civil educada, emitindo muitas horas de música clássica, intercalada com teatro radiofónico e entrevistas. A qualidade inerente não buscava educar ou elevar a literacia da população, no sentido do missionário, mas tornou-se tão só um refúgio cultural.

A rádio cultural perdeu impacto ao longo da década de 1960, reporta ainda Mitchell, porque não se enquadrava no espírito da transformação da sociedade. A televisão passava a ser o alvo prioritário do dinheiro a investir na educação. Mitchell identifica, por exemplo, a Fundação Ford. A educação pelo meio televisão ajustava-se às ideias do presidente americano Johnson de criar uma sociedade com direitos iguais para as minorias, fim da pobreza e segurança para os idosos. Apesar da corrente, os novos ideais americanos conduziram a Fundação Carnegie a envolver-se num projeto que seguia a perspetiva de Reith e Hoover da rádio servir as minorias. Daí, saiu um relatório sobre o meio negligenciado que se tornou a rádio (The Hidden Medium: Educational Radio. A Status Report, 1967).

O relatório, conhecido por relatório Herman Land, nome do consultor responsável pelo documento, descrevia os ouvintes da rádio educativa como possuindo valores de educação e de rendimento acima da média e mais velhos que os ouvintes das rádios comerciais e musicais. Falava-se, nesse sentido, de rádio pública. A discussão política, no Senado por exemplo, não interessa aqui. Mas importa realçar que, da quase invisibilidade da questão, se proporcionou o nascimento da Rádio Pública Nacional (National Public Radio, NPR).

Jack W. Mitchell quando publicou Listener Supported. The Culture and History of Public Radio (2005) tinha 64 anos de idade. Ele fora o primeiro produtor do programa All Things Considered e fora, por três vezes, presidente da NPR, não sei se mandatos seguidos ou intercalados. All Things Considered foi um programa muito focado na informação e nas notícias. À data da edição do livro, Mitchell era docente na universidade de Illinois.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Command Performance - Fazer um disco em 1942



O filme de William Ganz (1942), Command Performance, da RCA Victor, mostra os processos envolvidos na produção da gravação de discos de laca, incluindo a elaboração do disco master, o disco mãe e os estampadores (e matrizes).

Observação: a gravação musical era, à época, feita diretamente da peça tocada por músicos para o disco. Muito pouco tempo depois, o processo inicial de registo seria feito por fita magnética. No filme, fala-se em laca e ainda não em vinil.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O barroco em Rui Osório

De Rui Osório (1940-2018), recordo o que escrevi aqui em 10 de junho de 2010.

"Rui Osório é cónego da paróquia de S. João Baptista da Foz do Douro (Porto) desde 2006, sucedendo ao padre Joaquim Fonseca. Vem deste mas foi Rui Osório quem se dedicou exemplarmente ao restauro das obras religiosas da paróquia, nomeadamente a igreja começada a construir entre 1709 e 1712 e concluída em 1736. Escreve o cónego e autor do livro Tesouro Barroco da Foz do Douro (2010, edição da Paróquia de S. João Baptista da Foz do Douro) que a igreja barroca "deveria ser mais visitada no circuito turístico do Porto e obrigatoriamente referida [...]. Passam por ali muitos turistas, nacionais e estrangeiros, que desconhecem esse notável e deslumbrante tempo barroco" (p. 58). O livro fala do Porto, da zona da foz do rio Douro, onde está implantada a igreja barroca, de Raul Brandão e os seus textos sobre aquela zona, da presença beneditina e da ordem de S. Bento, da igreja de S. João Baptista, da sua talha esplendorosa, dos diferentes padroeiros, das capelas da paróquia e da acção social e da dinamização paroquial. O livro, além do texto muito bem trabalhado e documentado, tem fotografias de Pereira de Sousa, no que constitui um belo livro-álbum".


Rui Osório foi jornalista do Jornal de Notícias, onde chefiou a redação, e fundou a publicação Voz Portucalense, além de pároco na Foz do Douro (Porto). Ouvi-o falar com muito entusiasmo do barroco do Porto.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Arroios TV

Colaborei com a Arroios TV em quatro episódios da série Associações e Coletividades em 2016. O segundo episódio encontra-se aqui (2 de maio de 2016). O terceiro episódio, respeitante ao Clube Filatélico de Portugal, foi emitido em 28 de maio e 2 de junho de 2016 (e que aqui reproduzo).



A Arroios TV começou a emitir a 15 de outubro de 2015 e encerra amanhã, 31 de maio de 2018.

A capa da alegria

A capa pertence a O Domingo Ilustrado, de 30 de maio de 1926: a semana dos jardins. No resto da publicação não encontro mais informações sobre os eventos, mas reparo na imagem colorida, possivelmente de autoria de um dos diretores: Leitão de Barros e Martins Barata. Bandeiras, balões, flores, duas mulheres a ensaiarem uma dança folclórica, acompanhadas de um fadista, apontando para o Santo António que se avizinhava.


Na comparação com capas de números anteriores e posteriores, esta possui uma ilustração alegre. Dois dias antes, uma marcha sobre Lisboa inaugurava um longo processo de ditadura. As capas seguintes mostravam os autores do golpe de Estado. No número de 27 de junho de 1926, junto à ficha técnica, a publicação revelava o futuro, ao indicar o visto da comissão de censura. Os jornalistas tinham sido recebidos numa sala do quartel do Carmo e "amavelmente avisados da maneira que deveríamos escrever". Dantes, a censura limitava-se a cortar o que não queria, ficando os espaços em branco de onde tinham sido excluídos os textos. Mas, com a boa (má) nova vinda de Espanha e do ditador Primo de Rivera, os jornais teriam de preencher os espaços em branco com uma notícia ou imagem qualquer. O comentário final do jornalista ia para o futuro, em que se escreveria de acordo com o que outros querem. "É uma questão de tempo e de paciência". Ele acertou no alvo.

A ingénua capa alegre das festas de Lisboa não se repetiu, embora os diretores fossem colaborar com o regime nascente. E continuariam o humor e desenhos de humor, as histórias de crimes hediondos a merecer desenhos de primeira página, crónicas do teatro de Lisboa e fotografias desportivas e da alta sociedade. Revista publicada entre 1925 e 1927, O Domingo Ilustrado teve 154 números. José de Oliveira Cosme, depois muito ligado à rádio, em especial programas infantis, coordenava a secção de charadas Moinho de Paciência. Em 1929-1930, Leitão de Barros dirigiria O Notícias Ilustrado, com alguma continuidade face à revista aqui presente mas maior recurso à fotografia.


terça-feira, 29 de maio de 2018

Em homenagem a Júlio Pomar

Na semana passada, obituários, homenagens e comentários a Júlio Pomar, pelo seu passamento, deixaram-me sem margem para escrever algo diferente. Recupero o pequeno texto que aqui escrevi em 7 de abril de 2013:

Abriu na semana passada o Atelier Museu Júlio Pomar, num armazém comprado (2000) e recuperado pela Câmara Municipal de Lisboa com traço de Álvaro Siza Vieira, na rua do Vale, 7, muito perto da Igreja das Mercês. É um espaço airoso de dois pisos, em que se expõe a obra do pintor Júlio Pomar. A fundação que gere o atelier museu possui um total de várias centenas de obras no seu acervo, incluindo pintura, escultura, desenho, gravura, cerâmica, colagens e assemblages, que irá expor doravante. Alberga ainda um auditório para realização de conferências, lançamentos de livros e outros eventos.



A exposição inaugural tem obras da fundação e de entidades privadas e está dividida em quatro núcleos, o primeiro dos quais mostra a pintura do artista no período neo-realista das décadas de 1940 e 1950, como Resistência (1946) e Marcha (1946). O segundo núcleo pertence à década de 1960, de linguagem gestual, onde estão presentes temas como as corridas de touros e cavalos. O terceiro núcleo, que ocupa uma parede do segundo piso, revela colagens, de grande beleza conceptual, com temas de animais e cenas de corpos, desejo e maior erotismo, e assemblages. O último núcleo, um regresso à pintura nas décadas de 1980 e 1990, tem telas de maior dimensão, de cores fortes e vivas, o que expressa vidas intensas, algumas delas dedicadas aos índios da Amazónia.

O formidável volante Nunes dos Santos

O depois comendador Abílio Nunes dos Santos Júnior foi um grande pioneiro da rádio portuguesa, com o seu CT1AA. No verão, ele fechava a estação para demandar os Estados Unidos e comprar microfones e outros equipamentos de radiodifusão. Filho e sobrinho dos donos dos Armazéns do Chiado, era também conhecido pelas suas proezas automobilísticas. Aqui, na fotografia (O Domingo Ilustrado, nº 100, 12 de dezembro de 1926). Nunes dos Santos acabara de ganhar o quilómetro, presumo que no Campo Grande, junto ao hipódromo. Nada nos identifica o vencedor com a rádio.


Eu sempre pensei que o Bugatti do industrial e radialista era pintado de amarelo. Ou seria branco? Alargo a página: além do formidável volante no grande chassis Bugatti, outra fotografia com o sportsman Artur Alves e a célebre divette Laura Costa com um manteaux de petit gris e uma terceira fotografia com Luís José Frade de Almeida e o seu soberbo Jean Gras. Incluo ainda a última página da edição. Hoje, a cada palavra portuguesa introduz-se uma inglesa; então, era o francês que se intrometia entre nós. Gosto particularmente de divette, cantora de opereta ou de café-concerto. Ontem, como hoje, o espetáculo e o desporto associavam-se.


Abílio Nunes dos Santos Júnior receberia a Comenda de Mérito Agrícola e Industrial em 1931 (revista Rádio-Ciência, novembro de 1931). Três anos depois, retirava-se da atividade radiofónica, quando a Emissora Nacional começou a emitir (ainda na fase experimental).

segunda-feira, 28 de maio de 2018

The King's Face (왕의 얼굴)

A série The King's Face (왕의 얼굴), com 23 episódios, foi exibida na televisão sul-coreana KBS (Korean Broadcasting System) em 2014-2015, agora em reposição no canal de cabo KBS World. Normalmente, as séries históricas coreanas têm 60 episódios, o que tornam esta série mais ágil.



A história da série baseia-se no começo de vida de um dos reis mais populares da Coreia, Gwanghae (1575-1641), que governou de 1608 a 1623. A série, porque seguiu de perto o filme The Face Reader, causou um processo judicial por violação de direitos de autor, mas o canal de televisão não foi condenado. No conjunto, a série seguiu muitos dos factos reais da vida do príncipe herdeiro, tornado rei quando o pai faleceu. Além da história do príncipe Gwanghae (Seo In Guk), o enredo assenta na leitura facial como base de intrigas, ciúmes e superstições que existiam no reino de Joseon, então governado por Seonjo (Lee Sung Jae).

Um livro sobre arte da leitura facial era considerado essencial para determinar qual o melhor candidato a rei. Da cartomância ao uso da leitura da fisionomia - eis armas e meios antigos para obter poder. Alguns indivíduos treinados desta forma posicionaram-se para a função, também empregue na concorrência entre os filhos do rei Seonjo. Gwanghae era filho de uma concubina. O irmão mais velho era o príncipe Imhae (Park Joo Hyung), violento nos sentimentos e quase sempre alcoolizado. A mãe de Imhae, Gwi In Kim (Kim Gyu Ri), quis promover seu filho a príncipe herdeiro, e, mesmo que Gwanghae tenha salvo a vida de Imhae, prisioneiro dos japoneses, Gwi In Kim manteve a sua aspiração. O modo como o príncipe Gwanghae atua (e fala) ao longo dos episódios denota um lado rígido e assumido de predestinado. O rosto quase não tem expressão. Ele toma iniciativa, distribui pelouros, está sempre junto ao povo, enfrenta as dificuldades e os inimigos.

No início da série, Gwanghae surgiu como criança com uma paixão romântica por Ga Hee Kim (Yoon Hee Jo). Mais tarde, reencontraram-se num mercado, mas ela vestia-se de rapaz, proteção aconselhada pelo pai. Gwanghae ficou intrigado com o "rapaz"; ele não esquecera Ga Hee e ainda a amava. Entretanto, Baek Kyung (Lee Soon Jae), leitor de rostos, anteviu que ela estava destinada a ser uma esposa do rei Seonjo. O seu rosto combinava com o dele. Além disso, a tragédia atingiu a sua família: os seus pais foram mortos após acusação de traição. Ga Hee aderiu a um grupo de idealistas que queriam livrar-se do rei Seonjo, liderado pelo revolucionário Do Chi Kim (Shin Sung Rok), que a ensinou a tornar-se especialista em arco e flecha. Do Chi apaixonou-se por Ga Hee, supondo serem almas gémeas políticas, mas o tempo provou ser errada essa convicção.

O rei Seonjo tinha, além da decisão do príncipe herdeiro, a grande preocupação da invasão por países estrangeiros: Japão e China. Um dos episódios mostra o saque e o morticínio em Pyongyang. Gwanghae adquiriu competências na defesa do país e expulsou os inimigos, o que impressionou o pai, mas sem este o expressar. O revolucionário secreto Do Chi apresentou-se como perito leitor de rosto e defendeu a vida do rei (mesmo que o odiasse), conquistando assim a sua confiança. A verdadeira ambição, mas secreta, de Chi era derrubar o rei Seonjo e o príncipe herdeiro Gwanghae e tornar-se ele próprio rei.

A série, que me traz o conhecimento de uma cultura que não domino, e, por isso, me impede de aquilatar a veracidade de costumes, relata dispositivos de poder e normas estranhas ao nosso modo atual de pensar e agir. A relação entre rei e subordinados é marcada por formas vincadas, muito hierarquizadas, como se houvesse o sol e pequenos planetas, estes dispondo quase em subserviência diante daquele. O papel dos subordinados, da mulher (no caso, a rainha e as concubinas), as trocas existentes, o equilíbrio instável nessas relações (como a punição por pena de morte), o começo do armamento com recurso a pólvora, embora coexistisse com o arco e a flecha, o medo estampado (e exagerado) dos aldeões e dos cidadãos perante a ameaça da invasão estrangeira e os artifícios teatrais nas danças e nas entoações verbais permitem concluir estar-se perante uma boa construção narrativa.

Seo In Guk, no papel de Gwanghae, ganhou o Prémio KBS em 2014 de melhor novo ator, e, no papel de idealista mas vilão, Shin Sung Rok ganhou em 2014 o prémio KBS de melhor ator secundário pela sua interpretação na série.

domingo, 27 de maio de 2018

Contributo para o conhecimento da produção do disco

Durante muitos anos, parte das etapas da produção da indústria discográfica era feita fora do país, caso dos acetatos, a base da multiplicação de exemplares do disco ( Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e França). Primeiro, as matrizes eram de cobre, passando depois a níquel (como se observa numa das imagens), material mais resistente e flexível. Os sons estampados na matriz eram transmitidos por meios eletrolíticos (de eletrólise) para o vinil do disco. Cada matriz podia ser usada para a impressão de 300 exemplares, em média. A Rádio Triunfo, a primeira editora do país, iniciaria o processo fabril de corte de acetatos e produção das matrizes de cobre em Portugal em 1960, em unidade fabril instalada na rua do Campo Lindo, no Porto.

Dentro do processo tecnológico, nasceram profissões como verificadora da qualidade (discos e matrizes), técnico de corte de acetatos (registo de som em acetatos a partir de bandas magnéticas), operadora de laboratório (análises e ensaios químicos), operador de galvano (pratear acetatos e carregar banhos eletrolíticos) e apontador arquivista (preparação de obra a executar, controlo de matérias-primas e produtos acabados). Como habilitações literárias, o analista principal tinha o curso industrial ou frequência de curso superior, o operador de galvano do ensino primário a frequência de ensino secundário, a apontadora frequência liceal e o técnico de som o curso industrial.

A terceira imagem é a capa de disco de 45 rpm do Grupo Folclórico Poveiro (etiqueta Alvorada, Rádio Triunfo). A editora (também fabricante, como escrevi acima) teve, em dois dos três sócios iniciais, responsáveis nascidos na Póvoa de Varzim, pelo que se aceita a ênfase dada à música local. A fotografia da capa mostra a parte ribeirinha da cidade, já com edifícios altos, e parte das embarcações de trabalho pesqueiro. Os nomes dos dois barcos em primeiro plano identificam uma realidade religiosa: Herança de Deus e Pastorinhos. Esse rancho seria responsável por um dos maiores êxitos da editora: O Mar Enrola na Areia, de 1957.


sábado, 26 de maio de 2018

"A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas, 1968-1975) apresentada no Porto

Foi anteontem, ao final da tarde, que o meu livro A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975) foi mostrado no Porto, com a professora Ana Isabel Reis (Universidade do Porto)  a apresentar a obra (ver vídeo no final da mensagem). O encontro decorreu na sede da Associação de Trabalhadores e Reformados da PT, à rua do Almada (fotografias de António Campo Leal). O livro, com a chancela da MinervaCoimbra, anteriormente apresentado em Coimbra e Lisboa, analisa a história da Emissora Nacional (1968-1975).


 Estudar o período antes e depois do golpe de Estado em 25 de abril de 1974 e da revolução que lhe sucedeu acarreta um risco de interpretação, por se estudarem dois tempos com agentes culturais e políticos antagónicos, o primeiro cheio de rotina, formalidades e defesa de um estilo, o segundo com experimentação, ruturas e conflitualidade interna, a refletir a realidade externa.

A investigação partiu da análise qualitativa do conteúdo de atas de reuniões do conselho de planeamento de programas e da direção da estação. Para o livro, segui outra documentação escrita, caso da imprensa diária e semanal (Diário Popular, Jornal de Notícias, Flama, Diário do Governo) e imprensa especializada no campo da rádio e das indústrias culturais (Rádio & Televisão, Plateia) entre 1968 e 1975. A investigação seguiu ainda a audição de programas gravados (arquivo sonoro da RTP), entrevistas a dezenas de profissionais da rádio (e indústrias criativas) e entrevistas conduzidas por Luís Garlito no programa radiofónico A Minha Amiga Rádio (Antena 1) e João Paulo Diniz no programa televisivo No Ar, História da Rádio Em Portugal.






(Fotografia de autor anónimo)