31.10.15

Bonnard, Kandinsky, Munch

Quando Bonnard, Kandinsky e Munch se encontram na mesma cidade há uma grande festa. Bonnard luminoso, Munch melancólico e obsessivo e Kandinsky inventor de formas abstratas - alegram o coração.

Pierre Bonnard (Fundación Mapfre) começou por estudar direito ao mesmo tempo que frequentava pintura na Académie Julian, onde conheceu outros membros do que se chamou mais tarde os nabis (profetas). O grupo seguia Gauguin e queria obter uma verdade que transcendesse a realidade através da exaltação da cor. Bonnard afastou-se das correntes modernistas e criou o seu estilo próprio, dentro de uma estética decorativa. Estranheza, melancolia, sonho - são alguns dos atributos. A sua mulher Marthe de Méligny, que serviu de modelo, teve problemas de saúde, com o pintor a retratar estados neuróticos. Ele pintou nus com outros modelos, Trabalhou paisagens mas concentrou-se muito em cenas íntimas de interior, como à volta da mesa, experimentação de cores (branco, amarelo), parecendo iluminadas por detrás, algumas delas sem profundidade, com as paredes revestidas de papel de parede, cujos temas se confundem com as personagens representadas. Mas também pintou telas gigantes de encomenda (para mim, de impacto estético menor). Bonnard viveu entre a Normandia e a Cote d’Azur, com iluminações diferentes, o que se reflete no seu trabalho. Dos quadros expostos, saliento um em que ele mostra o escritório dos comerciantes da sua obra. Há uma paisagem junto à costa, com cores muito experimentais. No seu percurso, há um momento de inspiração baseado na cultura japonesa. A reflexão do fim da vida nos autorretratos, caso do boxeur, quadros de crueza perante a morte.


Edvard Munch. Arquetipos (Museo Thyssen-Bornemisza). Muitas das obras provêm do museu de Oslo. Os temas são estados anímicos (melancolia, paixão, submissão) e obsessões existenciais (amor e ódio, desejo, ansiedade e morte). No primeiro tema, talvez o que mais me tenha chamado a atenção. As mulheres do campo mas junto à costa olham desencantadas ou sem esperança, repetindo formas em gerações diferentes. Mãe e filha têm a mesma postura de corpo, já conformadas com o destino, a pobreza e as condições duras da vida. Há cenas de uma povoação interior, com a sua pobreza e finitude de valores. Não sei se há alguma solidariedade entre as personagens. Munch retoma temas trabalhados quase trinta anos depois, como a doença da menina, experimentando ainda diversos materiais: folha de cobre (para impressão), litografia, tela com óleo. As salas do amor e do ódio são as mais significativas dos trabalhos presentes. A um conjunto pequeno de peças que representam o beijo (a lembrar também Klimt), no resto do tema o homem é apresentado como o sexo fraco. A mulher aparece como o vampiro, que morde e assassina o homem. Vê-se isso em cenas em que a mulher, de pé, contempla o cadáver do homem deitado na cama. Já nos quadros iniciais da povoação rural, as formas que se tornariam célebres em O Grito aparecem ali, uma espécie de grafia repetida ao longo da sua carreira. De O Grito, há uma pequena obra, um esboço do que se tornaria a mais emblemática obra do autor.



Kandinsky (CentroCentro Cibeles). A amostra não é significativa da evolução estética do autor, embora a sua divisão em quatro capítulos, de estudante de direito e economia a pintor nos dê instruções de percurso. Ela centra-se na fase geométrica, das linhas e dos círculos, da régua, esquadro e compasso, nomeadamente obras feitas no tempo da Bauhaus, para onde foi a convite de Gropius. Poucas obras da sua fase inicial figurativa e poucas obras fundamentais da abstração e da escolha de cores que o tornaram grande pintor (que se pôde ver poucos anos atrás no Centre Pompidou). Não há, portanto, uma linha biográfica muito forte mas uma aposta num determinado tempo ou esquema estético, sem permitir o conhecimento da sua evolução como artista, as ligações com outros pintores e com a sua mulher que o ajudou num tempo determinado, a relação dos materiais com a maior ou menor possibilidade financeira (Kandinsky, na fase do regresso à Rússia revolucionária, não tinha dinheiro para comprar telas, pelo que se ficou no papel, o que implica outras técnicas pictóricas). Vislumbra-se de longe a sua passagem por Paris ou pela Alemanha.

30.10.15

A história da rádio

Na secção Histories and historiographies of radio da conferência da ECREA, Radio Research Conference 2015, realizada em Madrid (28-30 outubro), destaco as comunicações de Anja Lindelof (Universidade de Roskilde; Radio, music and liveness) e Steen Kaargaard Nielsen (Aarhus University; Danish radio broadcasting on trial – revisiting the 1931-debate on "living music" versus "mechanical music"), ambos dinamarqueses.

Anja Lindelof destacou o papel da orquestra sinfónica (orquestra de câmara) da rádio pública dinamarquesa, nascida em 1925 e desaparecida em 2014. No diapositivo abaixo, ela falaria das lutas de sobrevivência da orquestra. Primeiro, a atual modernidade da rádio implica o desaparecimento de um modelo com quase cem anos. Se a transmissão para restaurantes, por exemplo, pedida em 1937, perdeu total significado, ou o registo de discos pela estação de rádio foi abandonado pela atividade privada, o conceito de orquestra sinfónica representa uma mentalidade em termos de produção presente. Curioso em 1949 a separação entre rádio clássica e rádio de música ligeira, pelas semelhanças com a ação da nossa Emissora Nacional de Radiodifusão. A recente luta pela sobrevivência passou pelos patrocínios, pela criação de uma marca e por festas, como se se tratasse de uma banda que tem contactos massificados nos concertos. A autora teve tempo ainda para refletir na idade de ouro da música de câmara na rádio e na distinção entre alta e baixa cultura. O trabalho de Anja Lindelof inspirou-me a traçar uma linha na investigação que não imaginava existir.


Já Steen Kaargaard Nielsen, a trabalhar na edição de um livro sobre a matéria da querela em 1931 entre música ao vivo e música gravada, que o diapositivo abaixo (cartune) ilustra, tem igual paralelo na vida cultural portuguesa, o que indica que as realidades sociais e tecnológicas não andam distantes de país para país. Steen Nielsen desenvolveu uma ideia de som natural e de som metálico, de efemeridade da emissão radiofónica - e da sua imaterialidade, acrescento. Claro que a música ao vivo atingia poucas pessoas e identificadas com um estatuto social mais elevado, ao passo que a música gravada, a partir do momento da massificação e baixa de preços dos discos e dos dispositivos mediados da música, tornou-se uma espécie de propriedade do povo. O autor referiu ainda a importância dos jovens na renovação musical, pelo que falou de movimentos juvenis. Uma última nota: na Dinamarca, fala-se mais de música de ritmo do que música popular.



28.10.15

O jornalismo segundo Eco

Umberto Eco é um bom contador de histórias. Ele tem muita experiência de escrita de narrativas, possui uma enorme cultura europeia (e norte-americana, quando escreveu sobre banda desenhada em Apocalíticos e Integrados) e é sábio pela idade. Logo, um novo livro aguça o apetite do leitor em busca de uma história palpitante.

Número Zero não foge à regra. Primeiro, tem uma dimensão própria para se ler num serão ou numa viagem de comboio, por exemplo. Depois, há uma intriga policial, aqui com um regresso a acontecimentos passados, como ele produziu no livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, por exemplo. Sob a forma de diário, Colonna, jornalista e escritor fantasma (ghost-writer), escreve sobre um jornal chamado Amanhã, de que apenas se editarão números zero. Além do dr. Colonna, têm importância para a história o diretor Simei, a solteira Maia Fresia e o investigador de coisas ligadas à teoria da conspiração, Romano Braggadocio. Colonna amparar-se-ia no ombro de Maia, Braggadocio vasculharia na História a morte do ditador Mussolini, o que ditaria o assassinato do jornalista, o fecho mais rápido do jornal e a fuga do diretor e de Colonna, que ia escrever um livro sobre a experiência do jornal de números zeros. Há uma personagem distante, apenas entrevista, a do comendador, o dono do jornal e com interesses económicos e financeiros em muitas áreas de negócio.

Um terceiro elemento a retirar do romance é a erudição do autor, aqui excessivamente aplicada. E, talvez, algum exagero na descrição da história de Mussolini e do presumível duplo deste, que teria morrido na praça pública, enquanto o verdadeiro ditador se refugiava na Argentina, como Braggadocio estava a investigar. Porém, por outro lado, o centrar muito da narrativa na história do fascismo italiano de um modo leve mas relevando a estupidez, a perversidade e o tenebroso do regime habilita leitores mais jovens a compreenderem o núcleo político desse regime desaparecido no final da II Guerra Mundial. Além de nos levar a pistas engenhosas de grupos extremistas como Gladio e Aginter Presse, este último com atividade verdadeira em Portugal e já romanceado por João Paulo Guerra, pelo menos.

O quarto elemento - e a razão principal que me leva a escrever sobre o romance de Eco - é o que ele conta ou analisa sobre a atividade jornalística: os temas, as relações com o mundo político, empresarial e económico, o que convém dizer ou não, as insinuações, a ausência de objetividade e, mais do que isso, de verdade em muitas notícias. Não sendo um livro de sociologia ou de história dos media, sem a organização dos textos de ciências sociais, mas um romance, onde o mais importante é o enredo, do livro retiram-se muitos conhecimentos, interessantes para quem quiser estudar o jornalismo. Reconheço que a imagem que daqui sai sobre os media está longe de ser otimista ou positiva, mas a sua leitura permite pensar (ou efabular) sobre jornais e meios de comunicação que conhecemos. A morte de caráter (indivíduos ou entidades), o tendencioso e o falso em muito do que se noticia, surgem no livro em toda a sua nudez.

Recupero Eco de um seu texto que li com muita atenção Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais: "Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor" (p. 12). E lembro-me dos tão brilhantes quanto impenetráveis livros de semiótica do autor: a Obra Aberta continua uma das minhas grandes referências literárias de sempre. E O Nome da Rosa um romance de uma enorme imaginação e que passou para o cinema.

25.10.15

A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (3)

No Diário Popular, de 18 de agosto de 1970, Álvaro de Andrade escreveu sobre o Quarteto Vocal da Emissora Nacional, recordando a composição do grupo e suas histórias desde 1947. Ele incluía Mota Pereira (baixo, professor liceal e profissional da Emissora), tenor Guilherme Kjölner, barítono Paulo Amorim e Fernando Pereira, popular cantor de opereta, sob a direção do maestro Belo Marques. Mota Pereira, depois de atuar em recitais na Rádio Nacional de Espanha, trouxe a ideia e pô-la em prática.


18.10.15

Luís Miguel Cintra

Leio e fico com muita pena: Luís Miguel Cintra anunciou a despedida dos palcos. Ligado desde sempre ao teatro Cornucópia, acaba a sua carreira devido a problemas de saúde. O ator nasceu em 1949.

[Diário Popular, 7 e 18 de outubro de 1974]


16.10.15

A vida de Luís Paixão Martins contada pelo próprio

Luís Paixão Martins lançou ontem, na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, o livro Tinha Tudo para Correr Mal. Memórias de um Comunicador Acidental, pela Chiado Editora. Ao mesmo tempo, a sessão serviu para apresentar o News Museum, a lançar em Sintra em março de 2016 (ver vídeo abaixo).

O livro, como se lê no título, constitui as memórias do autor, de 61 anos, que passou sucessivamente pela rádio e pelo jornalismo, até montar uma empresa que se confunde com o seu nome, LPM. Quem lê a badana do livro, fica impressionado com o nome dos seus clientes: José Sócrates, Aníbal Cavaco Silva, Ricardo Salgado, Jorge Nuno Pinto da Costa e Isabel dos Santos.

Na Rádio Renascença, entrou em 1971, para substituir Fernando Sousa, entretanto integrado no serviço militar (p. 13). Com apenas 16 anos e quase a completar o liceu, recebia o número de funcionário 309 na estação. O horário era da meia-noite às seis da manhã, dia sim dia não, alternando com António Sérgio Ferrão. Depois, esteve no programa Página 1, nos noticiários da estação, esteve de serviço na madrugada de 25 de abril de 1974 sem se aperceber de imediato do que se passava. Mais tarde, colaborou no Jornal Novo e na ANOP (p. 32), Nessa altura, frequentou cursos em Paris, nomeadamente no CFPJ, Centre de Formation et de Perfetionement des Journalistas. Foi ainda colaborador da Rádio Comercial (fornecedor externo) entre 1979 e 1986 (p. 43). Aos 32 anos, em 1986, deixava o jornalismo e iniciava o trabalho de contactos com empresas em termos de comunicação e marketing. Começou a trabalhar para o Gabinete de Imprensa dos CTT, alugando a sala 18 do Forum Picoas e operacionalizando a LPM (p. 49). Tinha, então, como escreve no livro, condições para que tudo corresse mal. Mas parece que não,

Arroios TV


Arroios TV from Rogério Santos on Vimeo.

Arrancou ontem o canal de televisão Arroios TV, projeto daquela autarquia de Lisboa. Segundo notícia ontem do jornal Público, são cerca de 48 mil euros investidos - 35 mil para a aquisição de equipamentos como câmaras de filmar e computadores, 10 mil para o estúdio, localizado num dos pólos da junta de freguesia, e 2350 euros para a anuidade do canal MEO.

Ainda de acordo com a mesma notícia, "não há uma equipa própria para a Arroios TV, esta será composta por pessoas que trabalham simultaneamente noutros projectos e se voluntariaram para ajudar. Muitos deles são jovens em estágio profissional". A transmissão do canal será feita de segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas, com repetições aos fins-de-semana. A Arroios TV será inicialmente transmitida nos pólos que a junta tem na freguesia mas em breve será alargada a outros locais, como os mercados. A transmissão pode ser vista no canal Meo 5050 (www.kanal.pt/5050). Na mesma notícia, indica-se que o canal Arroios TV pretende reforçar a sua componente internacional ao incorporar o projeto de cinema Arroios Film Festival 2016 (1 a 8 de julho), conciliando multiculturalidade e cinema,

[o vídeo mostra alguns preparativos e entrevistas a alguns dos principais intervenientes]

14.10.15

Arroios TV

Amanhã, a partir das 10:00, a Arroios TV começa a emitir em direto do Largo do Intendente Pina Manique, Lisboa. Projeto da Junta de Freguesia de Arroios, estará presente na emissão inaugural o olisipógrafo José Sarmento de Matos. O acesso à emissão faz-se através do canal 5050 do Meo ou através de www.kanal.pt/5050. Ver vídeo de introdução.

Os Mallet e Sousa. Ourives e Cappelistas na Praça de Lisboa

Livro de Luísa Vilarinho Pereira, a lançar dia 19 de outubro na Biblioteca Nacional.

Livro de Carla Martins "Mulheres, Liderança Política e Media"

Ontem, na Casa da Imprensa, em Lisboa, foi lançado o livro de Carla Martins Mulheres, Liderança Política e Media, editado pela Aletheia (à direita na fotografia). Da apresentação, destaco as intervenções de Carla Baptista e Mário Mesquita. O livro estuda em particular a vida política de duas mulheres que, nas últimas quatro décadas, ascenderam a cargos políticos de topo: Maria de Lurdes Pintasilgo como primeira-ministra em 1979 e Manuela Ferreira Leite como ministra das Finanças em 2002 e presidente do PSD em 2008.



13.10.15

Código Postal: A2053N

Código Postal: A2053N é o trabalho fotográfico de Pepe Brix que documenta a vida a bordo dos bacalhoeiros portugueses, que ano após ano seguem viagem para os Grandes Bancos da Terra Nova em busca do Bacalhau. Publicado na edição de fevereiro da revista National Geographic Portugal, o trabalho está agora a percorrer as galerias do país e chega a Lisboa, ao Time Out Market (Mercado da Ribeira), com exposição a inaugurar em 15 de outubro, pelas 21:30. Pode ser vista até 15 de novembro. É apresentada como homenagem aos últimos heróis portugueses da pesca do bacalhau (informação da organização).


11.10.15

NewsMuseum

Primeira iniciativa do NewsMuseum, com apresentação do Novo Dicionário da Comunicação. Dia 15 pelas 19:00, na Escola Superior de Comunicação Social.

Sobre João Paulo Guerra e João Paulo Baltasar

Retiro o que escrevi sobre os dois nomes acima indicados em mensagem recente. No Facebook de João Paulo Baltasar, li: "A partir desta semana, há mais cinco boas razões para começarmos os dias ligados à Antena 1: Rui Ramos, Irene Pimentel, Rui Cardoso Martins, Teresa Bizarro e João Paulo Guerra partilham connosco pistas para alimentar a reflexão. Todas as manhãs, de segunda a sexta, por volta das 08.50h". Então, lamentava o desaparecimento da leitura dos jornais pelo primeiro daqueles nomes.

10.10.15

Retorno e Simplesmente Maria

Dulce Maria Cardoso (1964) foi para Angola em tenra idade, saindo de lá em 1975, quando diferentes movimentos políticos encetaram uma violenta guerra para controlo do poder político.

O romance O Retorno narra uma vinda precipitada de uma família branca no seu êxodo. A autora coloca um narrador a contar a história da vinda, em três momentos, de muita rapidez de ocorrências mas de grande lentidão a apresentar essas ocorrências. Trata-se de um permanente diálogo interno de um adolescente de quinze anos (até aos dezoito), das conversas tidos com familiares e amigos, e da interpretação desses diálogos. O livro, bem escrito, é, assim, constituído por um enorme monólogo, onde se veem as forças e as fragilidades de um conjunto de indivíduos perante um momento de vida social que não dirigem mas gostariam de liderar. Um dos momentos interessantes e mais perspicazes é a distinção entre Angola – de largos horizontes – e a metrópole – de ruas estreitinhas e gente de pequenas invejas. Rui, o narrador, a irmã, pouco mais velha, a mãe, sempre doente com espíritos, e o pai, homem que fazia transporte de mercadorias em Angola, preso mesmo quando fazia a mala para sair do país, são o mundo mais íntimo. Mas o romance tem mais personagens, com fino recorte social e cultural.

Se a primeira parte trata a partida, a segunda parte narra a vida no hotel no Estoril, onde os retornados em si discutem um cada vez menos provável regresso às colónias, com os homens com um fumo negro na manga do casaco em sinal de luto, e Rui e a família esperam o pai preso em Luanda. A terceira parte, mais pequena, é a do reencontro do pai, regressado depois de torturado e com muitas cicatrizes no corpo devido a essa violência.

No livro, há três referências à rádio. Uma, na p. 166, revela o excesso de canções revolucionárias em 1975 nas rádios nacionais. As outras duas referências, nas páginas 27 e 196, com alusão à radionovela Simplesmente Maria. A irmã Maria de Lurdes, ou Milucha, sonhava que a personagem Alberto a esperava à sua chegada ao aeroporto da metrópole. Rui admirou-se de a irmã contar algo tão infantil. Antes e depois da novela, a estação dava o nome completo dos desaparecidos na mortandade de Sanza Pombo. A radionovela passou em Portugal em 1973 e 1974. Com a revolução de abril de 1974, os produtores pensaram que ela podia ser eliminada, como acontecera com o concurso de misses de Portugal, a que Vera Lagoa, depois diretora do semanário O Diabo, dava tanta colaboração.

Tomé Barros Queirós foi o produtor da radionovela. Ele abandonara uma carreira de sucesso de cantor de opereta em 1960 e passou a dedicar-se a atividades publicitárias, que incluíam a rádio. No romance de Dulce Maria Cardoso, a radionovela é deslocada para 1975. Não sei se ela foi também transmitida em Angola ou se é um artifício de ficção. O importante no livro é a colocação de uma informação importante – a lista de pessoas que teriam morrido em ataques guerrilheiros. Tal dá conta da dimensão da tragédia.

O primeiro romance de Dulce Maria Cardoso, Campo de Sangue (2001), recebeu o Grande Prémio Acontece. Seguiram-se os romances Os Meus Sentimentos (2005), Prémio da União Europeia para a Literatura, e O Chão dos Pardais (2009), Prémio Pen Club, O Retorno é de 2011.

9.10.15

A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (2)

Em 1936, ao microfone de Rádio Clube Português, surgiu a orquestra Aldrabófona, cerca de vinte elementos com idades entre os 12 e os 30 anos. Álvaro de Andrade recorda-a, no Diário Popular de 11 de agosto de 1970. Ele foi vê-la um dia e ao vivo no estúdio grande da Emissora Nacional, onde colaborava então. Hino, Danúbio Azul, Atalaia, Eneida, Sinos de Mafra, secção brasileira, Fragateiros de Lisboa, Canções e Cantares e Marcha de Lisboa seriam alguns temas ou tipos musicais ouvidos nessa audição, a fazer perceber um repertório entre a música clássica leve e as modas populares. Os instrumentos confirmam isso: violas, guitarras, harmónios, pífaro, berimbaus, harmónicas de boca e pandeireta. Não há violinos ou violoncelos, por exemplo, muito embora o estúdio tivesse um piano ao centro, talvez utilizado. Dos nomes dos músicos, aparece apenas António, que cantou a solo, como diz o programa, e a indicação do maestro, “um rapazinho de grandes óculos à Harold”.


8.10.15

Voltaire & Rousseau

A livraria fica na Ontaro Lane (Glasgow) (gentileza de P. C.). Cá em casa, ameaço seguir o exemplo, ainda na tendência da imagem à esquerda, esperando não chegar ao caos da outra.





7.10.15

Conversa à volta da Fotografia Estenopeica [Pinhole] com António Campos Leal


Foi hoje, no Com Calma - Espaço Cultural, Rua República da Bolívia, nº5 C, Lisboa. Para António Campos Leal, a fotografia estenopeica (ou pinhole) é a apropriação, como técnica fotográfica, do processo elementar da formação da imagem. Como explica, "a formação da imagem tem como razão de existência um simples furo. Furo pelo qual passam os raios luminosos reflectidos por superfícies e volumes. São esses raios luminosos que ao penetrarem através desse furo, no interior que qualquer volume escurecido formarão uma imagem sobre uma superfície com a possibilidade de reflectir os raios incidentes sobre a mesma". Dito de outra maneira: "conversa à volta de latas e caixinhas".




Com Calma "é um espaço cultural aberto à comunidade: com musica ao vivo, com dança, com debates, com workshops, com biblioteca alternativa, Com Calma". Abriu em 26 de setembro de 2015.

Imprensa empresarial em Portugal


João Moreira dos Santos é o comissário da exposição ontem inaugurada na Biblioteca Nacional sob o título Imprensa Empresarial em Portugal: 145 anos de Jornais de Empresa. O primeiro jornal publicado seria editado em 1869 pela Caixa de Crédito Industrial. A mostra é representativa de cerca de 900 títulos que João Moreira dos Santos recolheu, não podendo expor todos, dado o espaço disponível (abaixo vídeo com o comissário da exposição a apresentar os principais objetivos da mostra).

Uma referência exemplar à Associação Portuguesa de Comunicação de Empresa (APCE), criada em 1990, e à sua figura tutelar, Vítor Baltasar, diretor do jornal Águas Livres, que a exposição homenageia.



[o som do vídeo está baixo, pelo que deve aumentar para ouvir em condições]

À espera de Godot


À espera de Godot, de Samuel Beckett, estará em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, nos dias 9 e 10 de Outubro. O espetáculo é uma produção da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, com encenação e interpretação de Luís Vicente, e conta ainda com Pedro Laginha e Pedro Lima nos principais papéis [texto da organização].

5.10.15

Abi Feijó na Cinemateca

Entre 5 e 20 de outubro, está de regresso à Cinemateca (sala Luís de Pina) a rubrica Realizador Convidado, agora vindo do cinema de animação, Abi Feijó, num conjunto de 28 sessões. Dividido em seis grandes temáticas (os filmes de Abi Feijó; os filmes do “atelier” de Abi Feijó - nas duas casas de produção que fundou, a Filmógrafo e a Ciclope Filmes; a animação portuguesa contemporânea; pioneiros da animação portuguesa; longas-metragens de produção internacional; e curtas-metragens da produção internacional), o ciclo encerra no dia 20 com o colóquio A Prática do Cinema de Animação em Portugal, que contará com a presença de Abi Feijó e de vários convidados a anunciar, todos pertencentes ao sector da animação feita em Portugal [texto da entidade organizadora].

3.10.15

Lançamento do livro Mulheres, Liderança Política e Media


No dia 13 de outubro, pelas 18:30, na Casa da Imprensa, Carla Martins vai lançar o livro Mulheres, Liderança Política e Media, em edição da Alêtheia. A apresentação será feita por Mário Mesquita, Carla Baptista e Carlos Magno. O livro tem por base a tese de doutoramento da autora em Ciências da Comunicação.

Carla Martins é docente da licenciatura de Comunicação e Jornalismo da Universidade Lusófona e investigadora do Departamento de Análise dos Media da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

Conversas à volta da Fotografia Estenopeica [Pinehole] com António Campos Leal

Uma conversa à volta das máquinas e imagens estenopeicas expostas no espaço Com Calma Espaço Cultural, Rua República da Bolívia, 5 C, Lisboa, 7 de outubro, às 19:30, com o organizador e fotógrafo António Campos Leal.

Para o organizador, "A designada de Fotografia Estenopeica a que o aparecimento da internet influenciou com a designação anglófona de fotografia “pinhole” mais não é que uma apropriação, como técnica fotográfica, do processo elementar da formação da imagem. A formação da imagem tem como razão de existência um simples furo. Furo pelo qual passam os raios luminosos reflectidos por superfícies e volumes. São esses raios luminosos que ao penetrarem através desse furo, no interior que qualquer volume escurecido formarão uma imagem sobre uma superfície com a possibilidade de reflectir os raios incidentes sobre a mesma. É então que, se nesse interior colocarmos um qualquer sistema sensível, teremos a possibilidade de recolher a imagem formada".


2.10.15

Livro de Vasco Ribeiro

Hoje, em Lisboa e ao final da tarde, foi lançado o livro de Vasco Ribeiro Os Bastidores do Poder. Como os Spin Doctors, Políticos e Jornalistas Moldam a Opinião Pública Portuguesa, uma edição da Almedina, com prefácio de Joaquim Martins Lampreia. Além do autor e do prefaciador, na mesa estavam o editor Pedro Bernardo e o jornalista Gonçalo Bordalo Pinheiro, que apresentou a obra, a par com Martins Lampreia.

Da página 11, retiro a seguinte ideia: "Acontece que o processo noticioso, sobretudo envolvendo matérias políticas mais delicadas, assume uma grande complexidade. O jornalista é obrigado a adotar sofisticadas estratégias para a obtenção de informação exclusiva de natureza política, as quais implicam, muitas vezes, difíceis negociações com as fontes oficiais e oficiosas, onde se incluem os spin doctors".

No vídeo, a intervenção do próprio autor (cerca de 10 minutos).



Vasco Ribeiro é doutor em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e docente na Universidade do Porto (Faculdade de Letras), onde leciona nomeadamente Assessoria Política e Comunicação Política. Na sua atividade profissional, entre outras funções, foi assessor de imprensa no Parlamento. Publicou Fontes Sofisticadas de Informação (2010) e Assessoria de Imprensa - Fundamentos Teóricos e Práticos (2015).

1.10.15

Exposição de Finalistas do Curso Profissional de Fotografia

A exposição anual dos trabalhos finais do Instituto Português de Fotografia vai decorrer nas instalações da galeria Geraldes da Silva (Rua de Santo Ildefonso, 225/229, Porto). Participam Ana Nunes da Silva, Ana Guedes, António Veiga, Cármen Figueira, Iva Guedes, João Vicente, Marco Duarte, Martin Henrik, Melnyk Ganna, Sara Pinheiro, Sara Ritchie, Tânia Maia, Tadeu Machado e Telma Araújo. A reunião destes trabalhos na exposição coletiva evidencia a diversidade de abordagens técnicas e estéticas do seu universo formativo com que o IPF sabe conviver e ajudar a consolidar em cada formando (texto da organização).

Imprensa empresarial em Portugal


Gosto do cartaz da exposição Imprensa Empresarial em Portugal. 145 Anos de Jornais de Imprensa, a inaugurar dia 6 de outubro, às 18:30, na Biblioteca Nacional. Retiro da apresentação da exposição:

"Esta exposição bibliográfica celebra não só os 145 anos deste género particular de imprensa, mas também o 20.º aniversário do primeiro livro nacional publicado sobre a referida temática – Imprensa Empresarial: da Informação à Comunicação (Porto: Edições ASA, 1995) –, obra da autoria de João Moreira dos Santos, comissário e autor desta exposição. Tendo por base uma amostra relevante de publicações – representativas de um universo de cerca de 900 títulos empresariais, publicados desde 1869 por empresas de todos os sectores de atividade económica –, é possível seguir a história económica e política de Portugal dos últimos dois séculos, verificando os seus reflexos na linha editorial e gráfica dos chamados «jornais de empresa», a qual foi sendo alterada ao longo dos diferentes regimes políticos portugueses".