Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Crónicas Marcianas, por Hélio Cunha
domingo, 14 de maio de 2017
Jornalismo iconográfico em livro de Jorge Pedro Sousa

Veja! Nas Origens do Jornalismo Iconográfico em Portugal: um Contributo para uma História das Revistas Portuguesas (1835-1914), livro de Jorge Pedro Sousa e editado pela Media XXI, foi ontem lançado na Universidade Fernando Pessoa (Porto) [ver abaixo depoimento do autor em vídeo].
Na mesa, para além do autor, de Ricardo Jorge Pinto, o editor João Paulo Faustino, João Lourival da Silva, a apresentação principal coube a Helena Lima (Universidade do Porto). Para esta investigadora, a obra agora conhecida é densa e resulta de trabalho meticuloso e sistemático, referindo que o tema - história do jornalismo - não é uma área moderna e popular. Ela destacou ainda o prazer da leitura da obra, pois constitui uma aprendizagem da história dos media e, por isso, útil para os investigadores. Ao olhar para as sucessivas imagens que acompanham o livro, torna-se possível ver a transformação do jornalismo e dos seus públicos, que evoluíram de um público de elite para uma massificação de leitores. Uma das vantagens expostas pela imprensa ilustrada é que mesmo os que não sabem ler conseguem entender o significado das imagens.
Como objetivos principais do livro, Jorge Pedro Sousa destaca: elaborar um inventário das principais revistas ilustradas portuguesas (entre 1835, ano da primeira revista, e 1914, começo da I Guerra Mundial), papel das revistas ilustradas na transformação do jornalismo em Portugal na viragem do século XIX para o seguinte, identificar e mapear o contributo de fotógrafos e outros profissionais ligados à ilustração (com um valioso apêndice com os nomes e funções), compreender que imagem as revistas ilustradas deram da sociedade do seu tempo e que valores, ver semelhanças e divergências entre o jornalismo gráfico nacional e o internacional. Trabalho ambicioso, pois, alicerçado por uma metodologia rigorosa. Ainda na introdução, o autor desenvolve o referencial teórico, apresentando muita bibliografia nova sobre o tema do jornalismo iconográfico, que interessa a quem estuda a matéria.
Os capítulos 2 a 4 detalham as três gerações de revistas ilustradas, de acordo com a datação proposta por Jorge Pedro Sousa. A primeira é constituída por revistas enciclopédicas ilustradas pós século XVIII, enquanto a segunda não abandona a característica cultural generalista mas propõe também a atualidade, como os acontecimentos, e a terceira, mais para o final do século XIX, em que há uma grande preponderância da imagem, indo da gravura à fotografia. Aqui, começa o fotojornalismo, um dos temas mais estudados pelo autor e objeto de publicação em anos anteriores.
sábado, 25 de abril de 2015
Museu da Imagem (Braga)
No Museu da Imagem em Braga está exposta uma coleção de fotografias do chileno Adolfo Vera. O texto disponível na exposição não nos diz claramente de que se trata a exposição, mas, pelo perfil do artista, percebe-se que as fotografias resultam de um período em que esteve no Benim (2006), numa residência de artista.
O título do museu é errado. Apesar de um belo edifício, com parte da antiga muralha da cidade e uma boa arquitetura interior, com recurso ao ferro, o artigo definido (contração com a preposição de) indica a entrada de qualquer imagem no museu e aguça o apetite para a inclusão de equipamentos dedicados à fotografia, ao cinema, à televisão e à internet. Afinal, parece que apenas permite exposições temporárias substituídas de mês e meio em mês e meio.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
ASSOCIAÇÃO DE INVESTIGADORES DA IMAGEM EM MOVIMENTO
Para os mentores da associação, a AIM "surgiu da necessidade de reunir em Portugal, numa mesma entidade representativa, um conjunto de investigadores que têm em comum objectos e temas de pesquisa. À vontade de saberem exactamente quem são e onde trabalham, em que projectos estão envolvidos e a que instituições estão ou poderiam estar ligados, somou-se a coincidência gradualmente mais frequente de se encontrarem em conferências, colóquios e reuniões em volta do estudo das imagens em movimento".
Dois objectivos imediatos são a organização das I Jornadas de Investigação (Junho, Lisboa) e o envio de informação relevante, através do sítio da internet, de newsletters e do Facebook para os investigadores da imagem em movimento.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
CARTAZES POLÍTICOS
Da selecção de imagens a seguir, o único cartaz para as autárquicas engloba a coligação a que o Partido Comunista pertence. O cartaz do MPT é o mesmo das recentes eleições europeias. Em todos não achei qualquer elemento relevante quer em termos de ideias quer em termos estéticos, como aliás já vira e comentara os cartazes das europeias. Mas considero desastroso o cartaz do MMS. Falar da Conchichina remete para os imperialismos ocidentais e povos submissos e explorados no oriente (a Conchinchina foi a colónia criada por França no século XIX no sul da Indochina, onde ficam os actuais países do Laos, do Cambodja e parte do Vietname), e, ao mesmo tempo, espaço onde se poderiam enviar assassinos, criminosos e ladrões europeus, a par de políticos de oposição aos regimes. Além de que os desenhos dos líderes dos partidos parlamentares são horripilentas caricaturas. Não é um cartaz civilizado, mesmo que não se goste desses políticos, é um cartaz anti-sistema e simplesmente feio (nem sequer o posso rotular de piroso ou parolo).
[ver blogue dedicado ao assunto: Imagens de Campanha]
quarta-feira, 1 de abril de 2009
SELOS
A vinda de uma carta do Brasil fez-me olhar com atenção para essas pequenas estampas, no caso imagens representando profissões, a de sapateiro e de manicure, desenhos de Hector Consani, cujo sítio vale a pena visitar, apesar de pequeno em informação. Consani desenhou outras profissões: barbeiro, carpinteiro, engraxador (engraxate, no Brasil).

O desenho é simples: a cabeça é redonda, os cabelos parecem os raios de sol de um desenho de criança, os olhos e a boca são representados por um único círculo preto, o fato-macaco alterna com a bata do barbeiro, cada profissional usa uma t-shirt (camiseta, no Brasil), os braços e os dedos das mãos parecem uma forquilha, há três a quatro cores bem definidas. Mas este minimalismo de traços contém toda a informação, além da data e do preço do selo.
Se convocasse a história da arte, encontraria elementos do expressionismo, da pop art e da banda desenhada. Uma só vinheta de Consani conta uma história de vida, um estado de alma, uma profissão e a sua designação local (ou nacional), a relação do profissional com a sua actividade: a bancada, a cadeira, as ferramentas, por vezes o cliente, mostrado de lado ou de costas.
Além disso, o selo é uma pequena peça que chega a outras partes do mundo e leva a arte e a informação do país emissor. O selo é um excelente embaixador da cultura moderna.
quinta-feira, 5 de março de 2009
ÍCONES
Jonathan Meades, no Intelligent Life (The Economist), edição da Primavera de 2009, escreve sobre ícone, que considera uma palavra omnipresente. Cada época usa um léxico próprio com algumas palavras a terem um emprego exagerado (hoje, no começo de uma frase, diz-se o irritante: "é assim"). Isto é, as palavras são sujeitas a modas, a morais, a etiquetas, à política e à música popular. Hoje, uma palavra tem uma vida quase desconhecida, amanhã, pode ser um termo influente. Há palavras pseudo-científicas que vêm dos dirigentes - empowerment, SWOT, driver, implementar. O jornalês pode ser outro tipo de linguagem.
Vivemos, continua Meades, num mundo de celebração e moda permanente (hype). Tudo tem classe mundial, qualquer banda rock que sobreviva à depreciação narcótica ou a um empresário menos sério é lendária, os artistas são heróis. Cada cidade ou região tem um edifício de que se vangloria: torre, catedral, arranha-céus, câmara municipal. Para além da representação e do símbolo, estas estruturas têm utilidade: a estação do Oriente (Calatrava), o museu Guggenheim de Bilbau (Gehry), a ópera de Sidney (Jørn Utzon). A estas estruturas juntam-se imagens, esculturas, ícones.Ícone deriva de uma palavra grega, significando semelhança, retrato ou imagem. Durante séculos associou-se a imagens de Cristo e o seu sofrimento e ressurreição. O ícone foi adoptado pela igreja oriental: imagens pintadas da Virgem a cores douradas e circulares. Na Anatólia, a cidade de Konya chamara-se primitivamente Iconium.
Implícito no uso moderno de icónico é a aspiração deliberada de investir coisas e pessoas com propriedades que se tornam milagrosas e sobre-humanas, mágicas e parecidas a deuses, Futebolistas, estrelas de cinema, celebridades, Jagger parece Pã, o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores da mitologia grega, Robert Plant lembra Dionísio, deus grego do vinho, das festas, do lazer, do prazer [Barack Obama, pelo artista de rua de Los Angeles Shepard Fairey]. A mudança do nome de Farrok Bulsana para Freddie Mercury foi uma antevisão do que aconteceu. A música popular criou estes deuses. Regimes como o Terceiro Reich (Hitler), União Soviética (Estaline) e China (Mao) foram teocracias (tipo de governo com influência religiosa): os ditadores procuraram matar Deus e substitui-lo.Veja-se Hitler, continua Meades: o bigode, a saudação nazi, a madeixa no cabelo. A suástica é um logo, que não foi roubado deliberadamente à religião indiana do jainismo. Os comícios de Nuremberga eram rituais entre o marcial e o sagrado. Terríficos como uma cerimónia azteca e piegas como uma opereta amadora, esses comícios ficavam na retina de quem assistia a eles. Hojes, tais cenários são visíveis em palcos de estádios que acolhem as bandas de rock.
Os ícones significam quatro condições:
1) afectam-nos quer gostemos ou não. Exemplos: Picasso, Oprah Winfrey, Michael Schumacher,2) a imagem transcende o seu objecto,
3) o sujeito é legível em termos de escrita visual. Exemplos: a silhueta de Napoleão com a mão dentro do capote; Chaplin com o chapéu, o bigode e a bengala, Jagger com o par de lábios [imagem pertencente ao Victoria and Albert Museum],
4) reconhecimento imediato, o que pede imutabilidade. Exemplos: garrafa de Coca-Cola, torre Eiffel, Big Ben, cabina telefónica e autocarro de dois pisos em Londres, Che Guevara, Marilyn Monroe, James Dean, Barack Obama.
O domínio da televisão durante meio século trouxe o declínio gradual da retórica e da oratória, substituindo-as pelo discurso naturalista em múltiplos media, com uma grande disseminação de imagens.
sábado, 31 de maio de 2008
UMA COLECÇÃO MUITO CUIDADA
[Declaração de interesse: editei um livro nesta colecção, esperando vender todos os exemplares]




A colecção A Construção do Olhar, das Edições 70, é dirigida por José Carlos Abrantes e o responsável pelas edições é Pedro Bernardo.
Em primeiro lugar, friso a qualidade e o lado apelativo das capas. Em segundo, os temas seleccionados: imagens da ciência, imagens dos media, reflexão sobre a televisão, desenhos animados e crianças. Autores: Monique Sicard (de que fiz aqui referência, incluindo imagens e vídeos, como o abaixo inserido), eu próprio, Serge Tisseron e Ema Sofia Leitão. Em terceiro, e na sequência da escolha de autores e temas, o conteúdo.
Já há algum tempo ando para ler o texto de Ema Sofia Leitão, Desenhos animados. Discursos sobre ser criança, tarefa que me vou incumbir nos próximos tempos, para verter aqui um comentário mais suculento.
terça-feira, 27 de maio de 2008
CONCURSO DE IMAGEM
Aos participantes basta criar um vídeo (individual ou em grupo), que conte uma história real ou ficcionada, em que um ou mais produtos da Páginas Amarelas sejam protagonistas. Há prémios para os três melhores videos.
Ver informações detalhadas sobre o desafio aqui e como participar aqui.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Livro sobre infografia

Dividido em três partes (definição, objectivos e tipologias; história e análise da infografia de imprensa em Portugal e Espanha; infografia jornalística digital animada), o livro começa por abordar a definição da palavra. Infografia, que parte do inglês information graphics, decompõe-se em info (informação) e grafia (de desenho), aliando dois tipos de linguagens, a textual e a visual.
Área de fronteira entre o texto e a imagem, a infografia estudada no livro é a que diz respeito ao jornalismo. A infografia costuma acompanhar as notícias de ruptura (acontecimentos imprevistos e de grande impacto na vida e na opinião pública) e é produzida por profissionais mestiços (oriundos de áreas como as belas-artes e design publicitário, a que juntam a necessidade do discurso jornalístico), com características específicas de utilidade e visualidade.
Na segunda parte do texto, Susana Almeida Ribeiro estuda a história da infografia da imprensa em Portugal e Espanha, comparando a produção de infografias em quatro jornais (dois portugueses, Público e Diário de Notícias, e dois espanhóis, El Pais e El Mundo). Os jornais espanhóis são os que editam mais infografias próprias.
Curiosa a descoberta da autora sobre a mais antiga infografia portuguesa e que ilustra a capa do livro, a publicada originalmente na Gazeta de Lisboa Ocidental, em 21 de Janeiro de 1723. Trata-se do desenho de uma baleia que teria entrado no rio Tejo e subido até à zona de Madre de Deus e seguira para a área de Cacilhas, onde ficou em seco após a maré vazar, urrando de modo tão veemente que assustou os moradores daquele local (p. 98). Susana Almeida Ribeiro entende que a imagem da baleia é o segundo mais antigo infograma de imprensa identificado em todo o mundo.
A terceira parte do livro editado pela Minerva de Coimbra aborda a infografia jornalística digital animada, definida pelas seguintes características: multimedia, hipertextualidade, interactividade, personalização do conteúdo e imediatismo/actualização constante. Trata-se de uma área ainda jovem em Portugal.
O trabalho apurado da investigadora leva-a a contabilizar o número de infografistas nos jornais nacionais, as suas origens académicas e a produção semanal ou mensal de trabalhos. E ainda a revelar a inexistência de disciplinas ou cursos universitários numa área de crescente importância no mundo dos jornais. Num mundo cada vez mais dominado pela imagem (televisão e internet), há uma maior necessidade da visualização de factos e acontecimentos, possibilitada pela combinação de imagens e textos.
Trabalho que parte de tese de mestrado defendida na Universidade de Coimbra, Susana Almeida Ribeiro é jornalista no serviço noticioso do Público "Última Hora".
sábado, 19 de janeiro de 2008
PIRATARIA
O caderno "Digital" do Público de hoje traz textos sobre imagens (colocadas na internet), reprodução e pirataria das mesmas (caso de imagens feitas por indivíduos e usadas, sem autorização, por empresas para actividades comerciais). A ler, nomeadamente o texto de José Vítor Malheiros, que estabelece a distinção entre copyright e fair use (conceito legal americano onde, a par dos direitos de autor, se diz que qualquer um tem o direito de usar uma imagem em termos de liberdade de expressão, investigação científica ou criatividade artística).
domingo, 16 de dezembro de 2007
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
A ILUSTRAÇÃO EM JUAN MARTÍNEZ (II)
[texto a partir do livro de Juan Martínez]
Autores como Omar Calabrese falam da influência exercida sobre o sistema cultural contemporâneo por noções científicas como teorias da catástrofe, fractais, teorias da complexidade e caos. A arte contemporânea adquire uma dinâmica de cariz barroco, estabelecendo-se um paralelismo entre a situação presente e a pluralidade dos mundos do século XVII, como consequência dos descobrimentos geográficos, científicos e perceptivos.
O princípio essencial do método surrealista põe em crise o significado das coisas tal como aparecem ou como se entendem sob o critério do sentido comum. O surrealismo atende a realidades como criações da mente na ausência de actividade consciente, situações paradoxais, alucinação e loucura.
Desde os anos 60, a actividade gráfica transformou os parâmetros espacio-temporais,aderindo aos mais diversos objectos em virtude de uma versatilidade inédita na escala e na sua adaptação a todo o tipo de suportes [imagem retirada do sítio de Juan Moro].Nos últimos 500 anos de cultura ocidental produziu-se um crescimento exponencial no peso que adquiriu a imagem de reprodução gráfica, até atingir, no nosso tempo, o dos meios de comunicação de massa, o domínio da imagem mediática. Estamos na época de obra de arte da reprodução (Walter Benjamin).
A arte do século XX fez a contínua revisão crítica das formas de percepção, representação, recepção de e sobre a imagem, experimentação exaustiva dos materiais, suportes, procedimentos e métodos geradores de produtos artísticos. Há a busca generalizada de novas formas de expressão, baseadas na novidade e idiossincrasia temática ou ideológica, iconográfica ou simbólica, estatística e física da imagem. Face ao império de um único sistema de representação dominante, que desde o Renascimento esteve assente nas perspectivas cónica e aérea, assim como no naturalismo do claro-escuro, a explosão morfológica e idiomática que começa no século XIX encontra a sua plenitude nas vanguardas da primeira metade do século XX. Assim, apresenta-se-nos como uma excepção e quase uma singularidade evolutiva.
Desde os anos 1960 com a arte pop e as tendências conceptuais foi-se derivando pouco a pouco para um tipo de obra em que iria dominar cada vez mais a utilização, de forma directa e indirecta, de meios mecanizados de reprodução e elaboração da imagem. Esta vê-se mais bidimensional e desmaterializada que nunca.
Com a criação digital nasce o conceito central de interface, de vínculos interligados ou interactivos. Mas a criação digital entronca estruturalmente nos sistemas gráficos históricos e bebe a tradição do pensamento e do conhecimento através de diagramas e esquemas, jogos visuais, labirintos e hieróglifos.
Nas artes plásticas produziu-se, de forma progressiva, uma passagem do objectual, que actuava directamente em e sobre o papel e a tela, ao visual, mediante um processo de desmaterialização da imagem que, começando com a fotografia e meios de reprodução gráfica como a serigrafia, se consumou na arte digital. O fenómeno de desmaterialização é a consequência lógica do crescente domínio dos meios de comunicação.
A imagem gráfica, sendo teoricamente uma, possui uma natureza dupla e diacrónica, pois pode ter uma multiplicidade e mutação quase infinita a partir de um original: repetição, redundância, variação, fragmentação, deformação, descontextualização, interferência, intervenção e instalação. A nova imagem mediatizada converte-se numa parte discreta de material plástico, codificado em cada caso, formando parte do património pessoal, colectivo ou universal para seu uso consciente ou aleatório.
Leitura: Juan Martínez Moro (2004). La ilustración como categoría. Una teoría unificada sobre arte y conocimiento. Gijón: Ediciones Trea, pp. 174- 187
domingo, 5 de agosto de 2007
A ILUSTRAÇÃO EM JUAN MARTÍNEZ
[texto a partir do livro de Juan Martínez]
Com a invenção dos tipos móveis por Johannes G. Gutenberg (1397-1468) - e com eles a indústria editorial - começa o declínio do império do "livro dos livros". O lugar para o livro já não é o recôndito mosteiro ou a abadia medieval, nem as poderosas universidades pertencentes ao clero, em cujos mercados o papel passa a ser mais um produto de troca. Além disso, o livro impresso torna-se no meio que configura formalmente, através de texto e imagem, o conhecimento humano. O homem moderno afigura-se como leitor. O livro é discurso narrativo, sequência organizada, esquema e estrutura organizada do conhecimento. No seu conjunto, o mundo editorial define-se pela multiplicidade e renovação.
A partir do século XV, e sobretudo do XVI e XVII, o horizonte europeu dilatou-se graças aos descobrimentos geográficos mas, principalmente, através da edição de livros. A imprensa teve um especial efeito estimulante sobre as faculdades imaginativas e inventivas.O desenvolvimento da imprensa moderna e o êxito e expansão da Reforma Luterana na Europa do século XV são dois fenómenos intimamente ligados. Os herejes eram conhecidos como comunidades textuais. A participação da imprensa na revolução reformista contribuíu para liquidar o monopólio que ostentava o clero sobre a produção e transmissão de todo o tipo de conhecimento. O surgimento posterior do Index como ferramenta inquisitorial evidencia o problema que a expansão do livro tinha para o poder religioso de então.
Mais importante ainda era o uso da imagem impressa como meio de propaganda. O património visual do Ocidente cresceu exponencialmente a partir da invenção da imprensa. Em alguns campos do conhecimento como a arquitectura, a geometria, a geografia e as ciências biológicas, a cultura da estampa cumpriu um papel essencial.
A função mais sensível e eficaz que cumpre a ilustração gráfica no livro é a descritiva. Há a consolidação de um novo padrão visual de aproximação ao mundo. A relação entre arte e ciência sobreviveria no terreno específico da ilustração gráfica, dado que a ciência se serviu dos recursos oferecidos pelas artes gráficas. Os grandes tratados de arquitectura passaram a ser modelo para a edição de livros ilustrados durante todo o Renascimento, caso de Leon Battista Alberti com o seu De re aedificatoria (1452).
O trabalho descritivo baseia-se na observação visual centrada no: 1) tangível, próximo e imediato, 2) desconhecido, inalcançável e oculto. Em termos gerais, e a partir do Renascimento, produz-se uma ampliação do horizonte visual em todas as suas dimensões.
O desenvolvimento da óptica com a construção de lentes macroscópicas e microcóspicas terá um protagonismo chave na superação das fronteiras perceptivas. A nova ferramenta óptica tem no século XVI o começo do seu desenvolvimento e no século XVII o momento do seu máximo esplendor e integração plena na cultura visual da época.
[continua]
Leitura: Juan Martínez Moro (2004). La ilustración como categoría. Una teoría unificada sobre arte y conocimiento. Gijón: Ediciones Trea, pp. 107-116
sábado, 31 de março de 2007
MARCAS
- o futuro será das marcas que comunicarem valores com emoção a gerações e gerações de consumidores (p. 169)
Para além da parte teórica, abaixo apresentada em curta nota, a autora fez um estudo empírico sobra a marca Vista Alegre Clássica, empresa e marca com quase 200 anos.

No percurso do livro, Teresa Ruão distingue produto e marca (p. 27), com aquele a ser o que a empresa fabrica e esta o que a empresa vende. O capital da marca surge como o valor acrescentado ao produto, ou, na linguagem da autora, a dimensão do valor patrimonial e da gestão da marca. A construção do capital de marca passa pela escolha dos elementos constituintes da identidade da marca - casos do nome, logótipo e símbolos - e pela integração em programas de marketing (p. 43). Para a sua caracterização, Teresa Ruão alude ao marketing de relacionamento, centrado na procura de relacionamentos positivos e estáveis com clientes e outros associados (stakeholders, em inglês).
Um segundo conceito forte do livro é a identidade da marca, aberta à interacção das visões de públicos externos (clientes e accionistas, por exemplo) e internas (colaboradores, fornecedores). Ou seja, a identidade da marca é o resultado do fluxo de informações, cognições e emoções que se orientam para o seu interior (p. 53). Alguns investigadores, diz Teresa Ruão, atribuem à personalidade de uma marca características como sexo, idade e classe socioeconómica (p. 59). Assim, distinguem-se personalidades: masculina (Marlboro), jovem (Apple), carismática (Nike). As estratégias de identidade de marketing envolvem relacionamento, emoção e interacção.
Quanto ao terceiro conceito chave, a comunicação das marcas, entende-se como o processo de transferência da identidade em imagem de marca (p. 77). Dentro da comunicação, distinguem-se os meios above the line (publicidade nos media, incluindo o cinema) e below the line (relações públicas, promoções, força de vendas, merchandising, patrocínio, mecenato) (p. 72). A autora acaba por referir um quarto conceito essencial, a imagem, desdobrado em duas leituras opostas mas complementares: imagem interna e externa, projectada e percebida, natural e controlada (p. 90).
Trata-se de um importante estudo sobre as marcas, área com grande desenvolvimento no estrangeiro, e que eu tenho referido no blogue (marcas em Wally Olins, Naomi Klein e Douglas Atkin; relações públicas e publicidade em Al Ries e Laura Ries). Para além de Olins, a leitura do livro lembrou-me autores como Ind, Kapferer, Levitt, Thayer, van Riel, Villafañe, que trabalhei em anos anteriores, em especial quando leccionei Comunicação Empresarial na Universidade Lusófona e estive activo na Associação Portuguesa de Comunicação de Empresa (APCE), no final dos anos 1980 e década seguinte.
Pontos fortes do livro: quase todo o livro. Destaco a imagem da formação da identidade da marca (p. 137), o texto sobre relações públicas e patrocínios (p. 83 e seguintes) e o marketing de relacionamento (p. 45 e seguintes). Pontos fracos do livro: poucas páginas. Saliento o erro (a meu ver) da editora, ao etiquetar com data de 2006 um livro saído para as livrarias no mês que hoje acaba. No livro faltam textos sobre cultura empresarial e uma análise a peças produzidas pela fábrica (nem que fosse apenas a chávena que está na capa). Detecto uma discrepância quanto à localização histórica da teoria hipodérmica (a seguir à Primeira Guerra Mundial e não Segunda) e da teoria dos efeitos limitados. E um índice de temas e nomes (no final do livro) ajudaria.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
LER IMAGENS
O CD-ROM, trabalho prático no campo da literacia audiovisual ou educação para os media, destina-se a alunos dos 2º e 3º ciclos do ensino básico e do ensino secundário, com distribuição em escolas de todo o país. Explica o autor que, no CD-ROM sobre imagens fixas, há quatro partes, com exemplos de leitura de fotografia, de pintura, de publicidade fixa e de imprensa. Nas três partes do CD-ROM sobre imagens em movimento, analisam-se anúncios e extractos de filmes e programas televisivos. Ambos os discos contêm material de background (informação adicional, glossário e dados biográficos).
O trabalho de Eduardo Cintra Torres foi realizado através do Cenjor, teve a coordenação pedagógica de Teresa Fonseca, do Ministério da Educação, e edição deste ministério.
Eduardo Cintra Torres é crítico de televisão (Público), professor da Universidade Católica Portuguesa e autor de livros como A tragédia televisiva (2006) e Anúncios à lupa. Ler publicidade (2006).
sábado, 3 de fevereiro de 2007
UM DIA A FALAR DE IMAGENS MÉDICAS
A organização pertence a José Carlos Abrantes (email: josecarlos.abrantes@gmail.com), em colaboração com o Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, o Instituto Franco-Portugais e as Edições 70. Preços: até 10 de Fevereiro, 40 euros; depois de 10 de Fevereiro, 70 euros; estudantes: 15 euros.
terça-feira, 15 de novembro de 2005
A Construção do Olhar
Incluem-se textos do organizador e de Monique Sicard (televisão), Didier Epelbaum (provedor de televisão), Renaud Gilbert (provedor da rádio), Eduardo Cintra Torres (crítica de televisão), Serge Tisseron (as imagens e a construção da criança), Hannah Davies (como as crianças são representadas na televisão), Cristina Ponte (olhares das crianças) e Jean-Pierre Esquenazi (públicos).

A apresentação do livro, para além do organizador e de dois autores de textos - Cristina Ponte (professora da Universidade Nova de Lisboa) e Eduardo Cintra Torres (crítico de televisão no Público e professor na Universidade Católica) -, contou com Eugénio Lisboa (à altura do evento director dos cursos da Arrábida), Leonor Areal (cineasta e que se prepara para estrear o filme Doutor Estranho Amor) e Bárbara Coutinho (responsável dos Serviços Educativos do Centro Cultural de Belém).
Enquanto os intervenientes no encontro da Arrábida refizeram o seu olhar sobre o ocorrido há cinco anos, Leonor Areal e Bárbara Coutinho deram contributos a partir dos seus olhares profissionais, resultando uma multiplicidade de pontos de vista que, sumariamente, coloco nas linhas seguintes.
Assim, se Eugénio Lisboa contou uma velha história passada entre Wittengstein e Popper em colóquio organizado por aquele e cuja memória foi produzida por este, num apelo à re-construção, Cristina Ponte falou da marca do tempo que um texto produz quando se volta a ele. Se o lado da recepção tem sido o mais estudado, importa também perceber o que profissionais e empresários pensam sobre o que produzem e, do mesmo modo, realçar os olhares das crianças, perspectiva que animou, em 2000, Serge Tisseron e Hannah Davies (ver textos editados no livro). Cristina Ponte anotou ainda o desinvestimento feito nos últimos anos em termos de programação (de qualidade) para crianças e adolescentes.
Eduardo Cintra Torres preferiu evocar as boas memórias do encontro, da informalidade e da importância do mesmo, quer quanto à qualidade das intervenções quer quanto ao facto da cultura francesa ter estado ali muito presente (quando há hoje um peso esmagador da cultura em língua inglesa). Cintra Torres, que considera o trabalho de crítica de televisão como comportando uma atitude de cidadania (tema aflorado por diversos intervenientes, hoje), destacou ainda o facto do encontro ter servido para se falar, pela primeira vez, do exercício de provedoria de rádio e de televisão. Duas ideias mais no texto de Cintra Torres: 1) o facto de a Fundação Oriente infelizmente não voltar a organizar encontros em que a discussão são os media, 2) a necessidade de pôr na prática - e não apenas como intenções - os provedores de televisão e rádio públicas, mas também nas estações privadas.
Leonor Areal falou da sua profissão, dos documentários e das tendências em torno deste, que oscilam entre televisão e cinema. Ela, no momento, está mais interessada em documentário de cinema, onde a atenção do espectador não é tão conduzida como na televisão, obrigando-o a interpretar a narrativa. E defendeu uma segunda leitura na construção do olhar. Um filme é percebido melhor com uma segunda leitura, que nos dá conta das intenções do autor, das suas ligações, no sentido de uma leitura retroactiva.
Finalmente, Bárbara Coutinho perspectivou a construção do olhar a partir de quem prepara exposições de arte contemporânea e programa acções pedagógicas. Num improviso coerente, a responsável dos Serviços Educativos do CCB (que participou numa das minhas aulas do ano lectivo passado) entende que uma exposição é também uma construção do olhar, pois implica selecção, relação entre peças, suportes de informação, catálogo. Opôs dois modelos de expor arte contemporânea, o do MoMA (Nova Iorque), nos anos de 1930, e o da Tate Modern (Londres), mais perto do nosso tempo, de uma concepção histórica a um diálogo entre épocas, tendências e olhares. E situou a importância dos serviços educativos de um museu, a partir dos anos 1960-1970, que trabalham a construção do olhar nos vários públicos (etários, profissionais, sociais). E defendeu o parar o olhar: momento de avaliar e discutir a importância de uma imagem, nomeadamente a produzida pela arte contemporânea.
José Carlos Abrantes, antes de encerrar, destacaria o peso das imagens fabricadas (exteriores a nós) e as imagens interiores, o conceito de espectador (em Esquenazi), a tecnologia e a educação para os media.






