Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência mantida desde 2003.

30.5.16

Encontro internacional de marionetas em Montemor-o-Novo

A equipa Alma d'Arame programou sete espetáculos, dois workshops, três concertos (dois em Off), uma exposição e uma instalação, num total de seis companhias nacionais e uma internacional com diferentes formas de abordagem ao mundo da marioneta e das formas animadas que criarão um espaço de cruzamento artístico. Ler mais aqui.


29.5.16

Ibsen no Porto

Já não me lembrava de ver Júlio Cardoso (pastor Manders) representar. Sem ser deslumbrante, o papel saiu-lhe muito bem. Gostei igualmente ou mais até de Custódia Gallego (Helene Alving). Dos outros atores (e personagens) da peça de Henrik Ibsen, Espetros (1881), reconheço a boa presença em palco de António Reis (carpinteiro Engstrand), Catarina Campos Costa (Regine Engstrand) e Ricardo Ribeiro (Osvald Alving).

A peça gira em torno do senhor Alving, já falecido, e cuja memória se ia perpetuar enquanto benfeitor com a inauguração de um infantário. Da conversa entre o padre Manders e a senhora Alving sabemos duas coisas: o defunto não fora tão puro que merecesse uma homenagem, porque bêbado e pai fora do casamento (Regine era filha dele e de uma criada, depois casada com Engstrand); entre Manders e Helene houve uma muito antiga paixão, sublimada por aquele.

Pela má relação do casal Alving, a mãe decidira enviar para fora e desde muito novo o filho Osvald. Ele estivera em Paris onde começou uma atividade artística ligada à pintura mas de que não se fica a saber muito. Mas sabe-se que ele herdara a sífilis do pai e vinha para morrer nos braços da mãe.

Ibsen, que estava à frente no seu tempo, recupera a tradição de grande teatro que parecia perdida desde Shakespeare. A sua peça é um drama que retoma o modelo grego, onde se evoca o passado e se pressagia o futuro, embora a ação não se prolongue muito no tempo e o número de personagens se reduza à família e núcleo íntimo. E ressalta uma quase incongruência: de um doente de sífilis, o filho legítimo recebe-a ao passo que a filha fora do casamento é uma rapariga cheia de saúde, como James Joyce escreveu após ver a peça em Paris.

Julgo que a peça fez uma boa temporada no Teatro São João (Porto), augurando um bom regresso do grupo Seiva Troupe, não muito bem tratado pelo anterior executivo camarário, cujas prioridades não passavam pelo teatro da cidade. No pequeno texto incluído no programa, o grupo manifesta a sua alegria por representar uma peça com tantos anos num tempo muito afeito à grande contemporaneidade, que não permite refletir sobre as humanidades.

28.5.16

Último dos românticos

Ele tem 55 anos, está casado há 31 anos e é dono de um restaurante de peixe. Apesar da estabilidade económica e psicológica, tenta uma aventura, tipo romântica e pura. Faz três tentativas. O local de encontro é o andar da mãe dele.

A primeira mulher conheceu-a no restaurante, mas revela-se rapidamente muito carnal e pouco espiritual. Faz uma constante alusão ao tique dele: aproximar os dedos das mãos ao nariz a ver se o cheiro a ostras desapareceu. Ele tem apenas uma garrafa de uísque mas ela precisa de fumar, para evitar ataques alucinantes de tosse. Ela sai mas volta para recomeçar, acabando aos insultos.

A segunda mulher é uma psicopata, temendo os olhares de todos mas achando-se ter um perfil de artista de sucesso. Enquanto conta histórias cada vez mais violentas e angustiantes, leva-o a fumar um charro. A terceira mulher é amiga de família, à beira de uma separação. Mas admite logo que não quer ter uma relação com ele por o não achar atraente. É igualmente uma conversa repleta de estranheza, com tiques de novo à vista, com ela a não se libertar da sua mala, obrigando-o a ele a arrancar. Parecia que a conversa não podia prosseguir enquanto ela não a abandonasse.

As tentativas são um fracasso, porque não acontece(u) nada. Ele telefona à mulher para uma conversa a dois. A liberdade a que ele se propusera não o levara a nada romântico e puro, mas a uma reflexão sobre os motivos que levam cada indivíduo a tomar as decisões que toma sem que o(s) outro(s) compreenda(m) bem. Logo, as relações humanas são muito complexas e as situações não se repetem.

A peça O Último dos Românticos, de Marvin Neil Simon (1927), dramaturgo muito conceituado nascido no Bronx em Nova Iorque, esteve para ser representada há muito. A tradutora Teresa Lacerda entregara a peça a João Mota no final da década de 1970 para ser representada por Raul Solnado. Mas a peça tinha direitos de representação de alguém, pelo que só agora entrou no repertório da Comuna Teatro de Pesquisa e faz parte dos 44 anos de existência do teatro. A interpretação pertence a Carlos Paulo, Margarida Cardeal, Maria Ana Filipe e Maria Vieira.

26.5.16

Obras do Museu Grão Vasco em exposição em Cascais


No Centro Cultural de Cascais, a exposição Museu Nacional Grão Vasco. Reservas em Bruto. Pintura e Escultura dos Séculos XVI e XVII mostra tesouros artísticos guardados em reserva no museu de Viseu, como o transepto atribuído a Estevão Gonçalves Neto (?-1627). De acordo com o desdobrável que acompanha a exposição, as obras são provenientes da região da Beira Alta e refletem a relação da arte com as práticas litúrgicas e devocionais e a generosidade de ofertantes  e empenho de antigos diretores do museu e que testemunham as dinâmicas com que se constroem as coleções. A exposição, que se estende até 19 de junho, é comissariada por Graça Abreu.

24.5.16

Apresentação do livro organizado por Sílvia Torres sobre jornalismo e guerra colonial


Lançamento do livro O Jornalismo Português e a Guerra Colonial (editora Guerra e Paz), hoje, na Universidade Nova de Lisboa [na imagem, da esquerda para a direita: Jacinto Godinho, docente da Universidade Nova de Lisboa, Carlos de Matos Gomes, coronel do exército, a autora e Manuel S. Fonseca, da editora Guerra e Paz].

Encontro sobre Os Pescadores, de Raul Brandão‏

No dia 4 de Junho, com início às 10:00, tem lugar na Sociedade Cooperativa União Piscatória Aldegalense, Montijo, um encontro em torno da obra Os Pescadores, de Raul Brandão. A conversa conta com as participações de Francisco Oneto, João Delgado, Luís Martins e Maria Miguel Cardoso e surge no âmbito de projeto de investigação artística sobre o litoral português. Organização a cargo da Galateia, em parceria com a Companhia Mascarenhas-Martins e apoio da Mútua dos Pescadores, da SCUPA e da Câmara Municipal de Montijo.

23.5.16

Old Meets New, de Paula Rego

Na Casa das Histórias Paula Rego, entre 25 de Maio e 30 de Outubro, está patente a exposição Old Meets New, que marca o regresso das pinturas de Paula Rego às narrativas de Eça de Queirós.


A exposição centra-se na leitura que a pintora faz dos livros de Eça de Queirós, o escritor que ela mais aprecia, casos das obras O Primo Basílio (1878) e A Relíquia (1887), com dramas morais e sociais e as relações humanas. Com curadoria de Catarina Alfaro, as ficções são representadas e reinterpretadas no ateliê da pintora, através de modelos vivos como Lila Nunes e figurinos. Na imagem, a pintora representa-se a si própria, com uma máscara (Self portrait triptych left panel). Exposição patente até 30 de outubro.

Presente outra exposição, a de Manuel Amado, com curadoria de Paula Rego e Catarina Alfaro, até julho deste ano, onde se representam espaços vazios mas habitáveis de casas e de palcos e camarotes de teatro, quadros realizados entre 1975 e 2008.

22.5.16

Eduardo Batarda

Mise en Abyme, de Eduardo Batarda com curadoria de Julião Sarmento, no Pavilhão Branco, 27 de maio às 18:30.

Mise en Abyme é o resultado de proposta que o artista, e agora curador, Julião Sarmento (Lisboa, 1948) fez a Eduardo Batarda (Coimbra, 1943). A exposição reúne no Pavilhão Branco um conjunto de 21 pinturas, algumas obras nunca antes mostradas, de períodos distintos que percorrem quatro décadas de trabalho, desde 1966 a 2002. No dia da inauguração, será também lançado o catálogo relativo à exposição. Nesta publicação o curador procura, através de uma cronologia iniciada em 2016, percorrer todos os anos com produção artística de Eduardo Batarda até 1965, fazendo representar cada ano através de uma obra. O catálogo conta com textos de Julião Sarmento, Pedro Faro e David Barro [texto da organização].


20.5.16

O carro elétrico em festa no dia 21 de maio


Os elétricos históricos do Museu do Carro Eléctrico abrem as comemorações do São João no Porto. Em formato de Festival, o elétrico será celebrado em toda a Baixa da cidade e marginal, com animações a bordo e no Museu do Carro Elétrico durante todo o dia. Música, teatro, histórias, passeios, visitas guiadas, artistas plásticos ao vivo, um mercado de produtos tradicionais portugueses e degustações são algumas das experiências oferecidas. Destaques: Teatro (vida social vs quotidiano nos séculos XIX e/ou inícios do XX; ir a banhos à Foz no século XIX; peixeiras do mercado de Matosinhos), Trengo chega à cidade (festival de circo), Batucada Radical (ritmos brasileiros) e Elétricos em parada até ao Museu, fado a bordo, visita guiada à arquitetura do Porto e a um dos seus mais carismáticos arquitetos (Marques da Silva) e degustação de vinho do Porto Calém [informação da entidade promotora].

Mapa das artes de Lisboa

É lançado hoje, gratuito, cabe no bolso e escrito em português e inglês - é um mapa com galerias, museus, fundações e outros espaços dedicados à arte em Lisboa – apenas arte contemporânea (retirado do Observador).


O mapa abrange Lisboa, com a maior mancha de instituições a situar-se na Baixa, Chiado e Bairro Alto, com informações do nome do espaço, morada, horário e número de telefone.

19.5.16

Workshop de Crítica de Cinema

Orientado por Daniel Ribas e Paulo Cunha durante o próximo Curtas Vila do Conde (9-17 julho). O workshop, com masterclasses com convidados internacionais, é orientado para a escrita de textos críticos ao longo da semana do festival, em complemento ao visionamento nas sessões. Oportunidade única para aprender com jornalistas e críticos, e, ao mesmo tempo, aproveitar uma semana intensiva do melhor do cinema contemporâneo numa atmosfera de festa. Formulário disponível em https://goo.gl/9SCU11.

Jornalismo e guerra colonial

Saiu o livro organizado por Sílvia Torres, O Jornalismo Português e a Guerra Colonial, numa edição da Guerra e Paz. O livro começou por ser um projeto organizado na Universidade Nova de Lisboa, agora ampliado na edição. A organizadora define a obra como teórico-prática: além do conhecimento científico engloba narrativas individuais. Sílvia Torres escreve que o "jornalismo é um bem público essencial para a compreensão de fenómenos, acontecimentos e ações" (p. 34).

Do que já li, destaco dois capítulos finais que relacionam jornalismo e história: um mais conceptual (José Manuel Tengarrinha) e outro mais de carpintaria (do investigador que escreve sobre o passado a partir das notícias de jornais, Aniceto Afonso). Sem estar totalmente em acordo com o que ambos escrevem, noto que são textos fundamentais para a matéria objeto do livro.

A primeira parte parece-me estruturante do livro, pois dá título ao livro. Ainda não lidos por mim, vou dedicar atenção, num primeiro momento, aos capítulos assinados por Carla Baptista e Sílvia Torres. A segunda parte está intitulada Censura e a terceira tem dezoito entrevistas, a maioria de profissionais que trabalharam nas antigas colónias ou foram repórteres. Uma ideia fica já gravada na minha memória: quase nada se escreveu sobre a guerra colonial exceto as notas oficiais das forças armadas ou do governo. A censura a isso obrigava. Os efetivos militares chegaram aos cem mil e, por dia, houve dois mortos: "O silêncio imposto pelo regime faz a guerra parecer distante, faz a guerra parecer ausente, de certa forma, torna a guerra inexistente" (p. 413, texto de Aniceto Afonso).

Li já os textos de (sobre) Diamantino Pereira Monteiro e David Borges. Fico-me por este último: entrou a trabalhar em Rádio Clube de Huíla (Sá da Bandeira, hoje Lubango) com 16 anos, terminando o 5 ano liceal com muito esforço. Fez de tudo: radioteatro, publicidade, jogos de futebol e reportagens por mato dentro. No começo, também programas de discos pedidos, essenciais para a existência da estação: cada pedido de disco era pago, Ele lia os cartões com os pedidos e punha os discos no ar. Era uma rádio feita por brancos e para um auditório branco. Apenas havia um programa feito por dois negros em umbundo, uma das línguas angolanas, que passava diariamente música africana. O programa "era um mundo absolutamente exótico para nós, porque não percebíamos nem o que eles diziam, nem as letras das músicas que eles passavam" (p. 184).

18.5.16

50 Anos de Rádio em Angola

50 Anos de Rádio em Angola, de José Maria Pinto de Almeida, é um livro de memórias de gente que fez rádio naquele país, do arranque das estações em cada cidade (Rádios Clubes) até 1975 (em alguns casos até depois). Não é uma história da rádio mas uma história das pessoas que fizeram a rádio. Não é um livro de um autor mas de muitos locutores, técnicos e homens de cultura que nasceram em Angola ou adotaram aquele país como o seu. Ao ler o livro, verifico que a rádio em Angola teve tão ou maior importância que em Portugal - pela dimensão, pela originalidade, pelas influências (Portugal, Brasil, culturas locais).

É um livro de cultura maioritariamente branca, pensei num primeiro momento. Mas o que este retrata nos 50 anos de rádio naquele país foi o que foi feito, logo não existe razão para a crítica. E, depois, cria espaço para os esforços de promoção da música angolana, branca e negra. Se aparece o Duo Ouro Negro, há atenção para N'gola Ritmos, Elias Dia Kimuezo, Liceu Vieira Dias (Muxima), Lurdes Van-Dúnem.

Da leitura das páginas do livro de José Maria Pinto de Almeida, revejo alguns dos nomes mais importantes na rádio portuguesa, a começar pelo pioneiros Fernando Curado Ribeiro e Joana Campina, idos para Nova Lisboa (Huambo). Mas também Fernando Alves, Emídio Rangel, Carlos Cruz, Carlos Brandão Lucas, Alexandre Caratão, Sebastião Coelho, Paulo Cardoso, Alice Cruz, Maria Dinah, Adelino Gonçalves, Jaime de Saint-Maurice, Celestino Leston Bandeira, Jorge Pêgo, António Macedo, António Taklim, Jorge Perestrelo, Rui Romano, Júlio Coutinho Antunes, Humberto Mergulhão e Natália Bispo. E muitos outros, que nunca ouvira os nomes.

Há estações que registo como sendo das mais importantes, como Rádio Clube de Huíla, Rádio Clube de Huambo, Rádio Ecclesia, Rádio Clube de Angola, Emissora Oficial de Angola. E programas como Luanda (de 1962 a 1975). José Maria Pinto de Almeida, o autor do livro, foi também o grande animador do programa (pp. 46-49). No arranque do programa, ele é apresentado como um rapazinho desconhecido que dançava twist, o ritmo da moda, no cinema Restauração, operadorzeco que substituía o operador Armando Rebordão Correia na abertura da estação às sete da manhã, já a mostrar uma tendência para a sonoplastia. Quem o conhece dele diz que foi o maior sonorizador da rádio angolana e, com isso, também ganhou muita fama e proveito. O livro agora editado é o velho sonho dele - um balanço de carreiras fabulosas e ricas de locutores, sonoplastas e escritores. Onde descobri, por exemplo, que Leston Bandeira foi locutor de desporto para os lados longínquos do Moxico (estou certo do sítio?).

Ao ler o livro é que compreendi a saudade dos que deixaram Angola: os cheiros, a savana, a Mutamba e o Bairro Operário de Luanda, os embondeiros e os animais, a poesia e as artes. Em que a rádio, lê-se no livro, foi um elemento muito importante. Nestes dias de leitura do livro, fiquei apaixonado por Angola e encantado pela cultura feita pelos homens da rádio em Angola.

Leitura: José Maria Pinto de Almeida (2016). 50 Anos de Rádio em Angola. Casal de Cambra: Caleidoscópio. 247 páginas, 34,98 euros.

Observação: ao longo do texto, a maior parte das palavras não estão separadas, o que causa bastantes problemas de leitura.

17.5.16

Consumos de media


Foi ontem de manhã que a ERC, a Universidade Católica e a GfK apresentaram o estudo As Novas Dinâmicas do Consumo Audiovisual em Portugal, mais assente na televisão que nos restantes media audiovisuais. Conforme alguém da assistência resumia na parte de debate, desapareceram alguns mitos da atual conceção dos media: a internet atinge 60% da população, a televisão é o meio audiovisual de maior consumo de informação e entretenimento, o consumo é fundamentalmente linear (o consumo posterior ou time-shift tem uma expressão de 12%).

O cenário do auditório em que decorreu a apresentação dos resultados estava bonito - parecia a sala de estar onde consumimos habitualmente a televisão, a preparar a apologia deste meio de comunicação. Os resultados foram apresentados por Nelson Ribeiro e Catarina Burnay, investigadores da Universidade Católica, e Joelma Garcia e Natacha Cabral, especialistas e responsáveis da GfK.

Retenho-me no sumário executivo do documento apresentado (total de 66 páginas, e que pode ser lido aqui). O sumário executivo divide-se em duas partes (consumo de media; consumo de conteúdos audiovisuais). Enfatizo a segunda parte do sumário executivo: equipamentos/aparelhos, consumo por tipos de conteúdos, consumo em direto versus em diferido, multi-ecrãs, rotinas de consumo de televisão indoor, outdoor e em linha e subscrição de conteúdos em linha. Foco ainda mais em pormenor no consumo por tipos de conteúdos: informação (89,5%), telenovelas, filmes e séries (56,3%), entretenimento (50,3%), documentários (47,2%), desporto (44,6%) música e desenhos animados (perto de 30%). O trabalho de campo, realizado pela Intercampus, foi feito entre 3 de outubro e 30 de novembro de 2015, num processo de random-route para seleção do lar e teve uma amostra inicial de 1018 entrevistas.

A conferência terminou com a participação de Nuno Artur Silva (RTP) e José Eduardo Moniz (especialista de televisão e antigo diretor-geral da TVI)

[vídeos com parcelas das intervenções de Catarina Burnay e Joelma Garcia]

Públicos dos museus

Li no Público que o visitante dos museus nacionais (perfil social predominante) é um indivíduo relativamente jovem (média de 41 anos no público nacional, 43 no estrangeiro), qualificada em termos de escolaridade e ocupação profissional, que visita o museu por diversos motivos - como conhecer melhor a diversidade cultural ou porque lhe dá prazer -, de acordo com o coordenador do estudo, José Soares Neves. Oito em cada dez são estreantes, um em cada quatro visitantes estrangeiros é francês. O Estudo de Públicos dos Museus Nacionais foi desenvolvido pela Direção-Geral do Património Cultural (que gere catorze museus) e Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa. Foram validados 14 mil questionários em computadores colocados no final da visita (47% portugueses, 53% estrangeiros).

16.5.16

Rui Macedo no Museu Nacional Machado de Castro (Coimbra)

O Museu Nacional Machado de Castro (Coimbra), entre 21 de maio e 18 de setembro de 2016, vai ficar diferente, com a exposição temporária de Rui Macedo Avesso da Norma. Constituída por dezasseis instalações pictóricas num total de cento e uma pinturas a óleo sobre tela, elas articulam-se diretamente com a colecção exposta. As pinturas que integram as instalações foram realizadas especificamente para cada lugar onde se posicionam (informação da entidade organizadora).


15.5.16

Prémio Primeiro Olhar 2016

O Prémio PrimeirOlhar (Viana do Castelo), no valor de mil euros, foi para Becco do Cotovelo, de Eduardo Cunha e Pedro Cela, alunos do Curso de Comunicação Social, da Fundação Edson Queiroz - Universidade de Fortaleza/ Brasil. Da sinopse retira-se o seguinte: um filme que retrata o movimento de um tradicional beco no centro de Sobral-CE, construído a partir de encontros e de observação das pessoas que transitam e ocupam o lugar.


14.5.16

Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja


O Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja realiza-se entre 27 de maio e 12 de junho de 2016, já na sua 12ª edição, dentro do centro histórico da cidade. A inauguração decorre no Pax Julia – Teatro Municipal, o núcleo principal da festa da BD, onde estarão parte das exposições e da programação paralela. Para saber mais: https://www.facebook.com/festivalbdbeja [informação da entidade organizadora].

Repórter X

Retiro e sigo literalmente (transcrevo) a informação preparada por Rita Correia para a Hemeroteca Digital:

"Faça da sua pena de jornalista uma agulheta para desencardir as maquilhagens da hipocrisia, da hipocrisia que artificializa a honra e oculta o crime, do crime que consegue a impunidade subornando ou ferindo. É esta a mais doirada gloria da imprensa, o mais digno orgulho do jornalista (...) alguem cuja vida é um continuo triturar de almas e de vidas, sem escrúpulos nem piedade; (...) vingar as vítimas e abrir os olhos aos iludidos, revelar a verdadeira personalidade do bandido com a certeza que nem o suborno nem o mêdo nos desviarão do caminho traçado – que apoteose dentro da nossa consciência! Que admirável profissão a que nos concede essa orgia de bem!"

Estes Conselhos a um futuro jornalista poderiam ser o manifesto pessoal de Reinaldo Ferreira (1897-1935), uma das mais interessantes e complexas figuras do jornalismo português, o famoso Repórter X, cujo projeto editorial homónimo - Repórter X : Semanário das Grandes Reportagens - está agora disponível na Hemeroteca Digital, com algumas falhas.

Nas suas páginas, crimes financeiros e de sangue, fraudes, negócios sórdidos, casos de espionagem, investigações policiais, escândalos com vultos famosos, paixões proibidas, personalidades e acontecimentos históricos marcantes e fraturantes, projeções futuristas, dramas sociais, questões civilizacionais, horrores da guerra, catástrofes naturais e grandes desastres, revoluções e conspirações, servem de base a textos onde a investigação jornalística se cruza com a ficção, resultando as reportagens num produto híbrido, perfeitamente assumido: "Quando não rigorosamente exactas em certos pormenores, são-no na essência. Por vezes, a linguagem de que as revestimos, os nomes supostos que lhes arranjamos, e a sucessão melhor combinada de certos quadros, são como os vestidos e os adornos para certos corpos de mulher – embelezam-nos sem lhes alterarem a linha impecável e escultural."

13.5.16

O mundo novo dos media

Há minutos, na minha caixa do Facebook, Ricardo Tomé ("a sentir-se determinado") escrevia: "Estamos há quase 2 anos na liderança ininterrupta do segmento, no digital". E completava: "Lamento, mas não vamos querer ficar por aqui". Dois anos é o tempo que medeia a sua saída da RTP por troca com a TVI. Ele era responsável pela área multimédia da RTP, tendo estado à frente de RTP Play e da plataforma second screen 5i. Trabalhou na estação pública durante dez anos.

Por sua vez, chegava-me uma notícia, também pelo Facebook, sobre quatro locutores que descobriam a nova “cidade da rádio” (Renascença): as vozes das rádios ou "inquilinos da novíssima casa da rádio": José Coimbra (RFM), Renato Duarte (Renascença), Filipa Galrão (Mega Hits) e Aurélio Carlos Moreira (Rádio Sim).

E leio ainda que Bruno Nogueira vai de férias para as Manhãs da Rádio Comercial e leva a Joana Azevedo consigo, juntando-se à equipa das Manhãs da Comercial: Pedro Ribeiro, Vasco Palmeirim, Nuno Markl, César Mourão e José Avillez. Ontem, já tinha lido que Vanda Miranda deixava o programa e trocava de estação (M80).

A comunicação passa cada vez mais pelas redes sociais e os media até agora clássicos estão rendidos. Além de textos, colocam fotografias e vídeos.


12.5.16

Memórias em torno da história da rádio

Do livro de José Maria Pinto de Almeida (50 Anos de Rádio em Angola, p. 107, pp. 112-113), retiro o seguinte:

1) "Estive lá [Angola, um reino mágico como Camelot ou a Atlântida] uma dúzia de anos fabulosos. Lá casei e conheci gente fantástica. A melhor e a pior. De lá consegui ficar com a mulher, o cão, as fotografias do casamento, duas ou três mudas de roupa e as recordações. Acho que fiquei com o importante. Em 73, recusei uma proposta para ficar na América a trabalhar. E quando ampliaram a proposta lembro-me de ter dito: «Não vale a pena... não saio de Angola por dinheiro nenhum». A verdade é que saí meses depois, mas de facto não foi por dinheiro nenhum" (João Fernandes, que, no texto, recorda João Sebag, Herberto Hélder, Edite Soeiro e Acácio Barradas, entre outros).

2) João Saldanha foi comentarista em Rádio Guanabara (1960) e trabalhou na TV Rio [de Janeiro]. Quando começou a ditadura no Brasil, ele passou a viajar com frequência para a Europa, até que o convidam para selecionador de futebol (1969). E o meu passado de comunista, perguntou? No curto período em que foi selecionador, nunca perdeu a oportunidade de falar das torturas e dos presos e dos desaparecidos do seu país. Ele gostava de ser entrevistado por repórteres da rádio. Um dia, à entrada do estádio Maracanã, perguntaram se ia ver o jogo. Respondeu: "não, vim visitar o museu do índio". Dentro do estádio, outro repórter perguntou se tinha gostado da relva. Respondeu: "aguenta aí companheiro, ainda não a provei".

11.5.16

Radio-Toulouse e Radio-Andorre no livro de Sylvain Athiel

O livro de Sylvain Athiel é de 2008: Conquérants des Ondes! L'Incroyable Aventure de Radio-Toulouse et Radio-Andorre. Na contracapa, o autor fala de rádios periféricas mas, no fim de contas, da liberdade das ondas (ou da guerra das ondas, se quisermos ver de outro prisma), numa luta quase permanente entre propriedade privada e estatal. Radio-Toulouse e Radio-Andorre foram mitos, em que o slogan da última - Aqui Radio Andorra - testemunha essa força.

O livro de Athiel leva o leitor até à Toulouse da década de 1920, onde apresenta os pioneiros da rádio que, devido ao seu talento e a métodos (políticos, económicos) que se podem contestar, fundaram um dos impérios mediáticos mais ambiciosos do século XX, pelo menos na Europa. Os fundadores foram Léon Kierzkowski (1877-1959),, na imagem à esquerda, e Jacques Trémoulet (1896-1971), o primeiro comerciante de equipamentos e peças eletrónicas, e o segundo jornalista. Ambos tiveram a ideia de montar uma estação de rádio em Toulouse que retransmitisse a programação de uma estação de Paris, até se tornarem independente e criarem uma estação autónoma, num tempo em que o Estado não queria abrir a mão das estações de rádio à atividade privada.



Nem sempre os processos usados pelos dois sócios foram os de maior lisura. A uma primeira associação, eles manipularam a sua direção e tornaram-se os únicos proprietários. A luta contra os PTT (os CTT franceses) foi violenta, numa altura em que os correios tinham a força de um ministério (como em Portugal), a quem chamavam os petetistas (seriam os cetetistas franceses, se a palavra existisse aqui).

Mas foram inovadores e empreendedores. Saliento o uso do speaker (locutor) Jean Roy, que trabalhou sempre na Radio-Toulouse (365 dias por ano) entre 1925 e 1944. O uso do gira-discos, a relação entre música e palavra, a defesa da região de Toulouse face ao poder centralista de Paris, a passagem de artistas e da cultura no auditório de Radio-Toulouse, a perspicácia da instalação de uma estação no principado de Andorra como porta de acesso (ou defesa) face à ponderável permanente atitude de nacionalização da rádio por parte do Estado. Saliento um facto: quando um Zeppelin voou da Alemanha para os Estados Unidos, a Radio-Toulouse estabeleceu uma ligação com uma estação alemã e o balão voador, uma experiência de interligação de sucesso num mundo em rápido progresso tecnológico.

Entre Kierzkowski e Trémoulet, este último foi o estratega e o criador do império mediático. O problema de ambos foi a II Guerra Mundial. Acusados de retransmitir a programação do lado do governo instalado em Vichy, foram acusados de colaboracionistas com o nazismo. O processo político seguinte foi nefasto para os dois sócios: ficaram sem os seus bens e Trémoulet foi condenado à morte. Mas este escapou dado estar a residir na Suiça. Depois, mercê de testemunhas abonatórias ao seu comportamento, a condenação foi retirada. Mas ficou a marca e a desconfiança. Radio-Toulouse foi fechada em 1944, com a concorrência estatal na cidade a controlar a rádio. Uma das acusações era o uso noturno da estação para a transmissão de mensagens codificadas para os serviços secretos alemães, a horas em que a estação não emitia programação.

Trémoulet, dados os seus conhecimentos, refez o império mediático, ao comprar uma rádio em Tânger, depois cedida quando Marrocos nacionalizou os bens estrangeiros. E Trémoulet fez uma parceria com Ramón Serrano Suñer (1901-2003), conhecido por cunhadíssimo (cunhado de Carmen Polo, mulher do ditador Francisco Franco), promotor do envio da Divisão Azul, unidade militar integrada na Wehrmacht que lutou contra a União Soviética, e responsável pela deportação de republicanos espanhóis para campos de concentração alemães. A Rádio Intercontinental, em Madrid, resultou dessa parceria. Mais tarde, em Portugal, os dois instalariam uma estação a transmitir para o leste europeu. Isso faz parte de uma investigação minha em curso.

O texto de Sylvain Athiel não é um monótono livro de História mas lê-se como um romance, com discurso direto, e uma espécie de trama policial. A vida de Trémoulet dava, por si, um romance ou filme, com um capítulo dedicado a Portugal (este ainda não feito). Athiel é diretor na empresa A2PRL e vice-presidente na empresa Pyrénées FM, La Radio des Vallées e vive em Toulouse.

Mais recursos de leitura: Radio-Toulouse.

10.5.16

Rádio em Angola a partir de José Maria Pinto de Almeida

A ler freneticamente 50 Anos de Rádio em Angola, de José Maria Pinto de Almeida. Ele trabalhou nomeadamente na Rádio Ecclesia. Quem o conhece diz-me que foi o maior sonoplasta e produtor de rádio de Angola em termos de popularidade e de retorno publicitário.

Curta portuguesa premiada no Festival de Cinema de São Francisco


Noite Sem Distância, de Lois Patiño, foi galardoada com o prémio para Melhor Curta-Metragem no 59º Festival Internacional de Cinema de São Francisco, que decorreu entre 21 de abril e 5 de maio nos EUA. O filme, rodado na fronteira entre Portugal e Espanha, é uma produção do Curtas Vila do Conde e integra o catálogo de filmes da Agência da Curta Metragem. Contando com uma equipa de estudantes de Cinema e Multimédia, Noite Sem Distância teve estreia em julho de 2015 no 23º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. A curta-metragem já integrou o circuito dos festivais internacionais de cinema, tendo sido exibida nomeadamente nos festivais de Locarno, Toronto, Nova Iorque e Hong Kong. A história foca o papel do contrabando na fronteira entre Portugal e Galiza [informação da entidade promotora].

9.5.16

Ao Vivo e em Direto no Teatro Aberto

Gosto de teatro mas não sou crítico de teatro. Logo, não sei escrever um texto sobre o que vi enquanto espectador com o aparato conceptual próprio do crítico. O que debilita a leitura ou interpretação. Mas sei que gosto de compreender a história que vejo e as opções tomadas na representação. Concluo pela existência de camadas de interpretação: o autor, o encenador, os atores, o espectador.

Por isso, convidei o autor da peça Ao Vivo e em Direto em representação no Teatro Aberto, Raul Malaquias Marques, a explicar a história e os fios narrativos, em aula de estudos de jornalismo. Ele esclareceu algumas questões que eu formulara a mim mesmo quando vi a peça.

A peça, vencedora do Grande Prémio de Teatro SPA/Teatro Aberto 2014, tem seis personagens (Homem, Diretor, Mulher, Filha, Jornalista, Inspetor) e vozes (jornalistas dos diretos) e dois homens de óculos escuros. Primeira inquietação: não há nomes nas personagens, perguntou uma aluna. O autor disse querer universalizar a situação, que se podia passar em qualquer parte do mundo. Aliás, no frontispício da peça (chamemos-lhe assim), Raul Malaquias Marques escreveu: "A ação decorre na atualidade, num pais igual a outros". Sem sinais de identificação identitária, torna-se mais fácil desterritoralizar a ação.

Ao Vivo e em Direto significa quatro pilares da realidade diária: a comunicação social (o diretor de informação e o jornalista que prepara um programa de entrevistas), o poder político (o homem, que foi ministro, presidente de empresas estratégicas, agora arrependido da evolução de um processo político, pois as suas práticas não seriam as mais sérias), a justiça (o poder do tribunal, a força das fontes e dos grupos de pressão) e a família. O julgamento que se seguira ao processo não fornecera um apuramento de provas, pelo que não houve culpados. Mas um jornalista morrera (fora assassinado, esclarece o Homem quando é entrevistado, agora que se arrependeu e ganhou coragem para o dizer publicamente).

O encontro do diretor de informação e do Homem, num local ermo da cidade, tem o lado de intriga policial e que também remete para o mundo da relação entre jornalistas e fontes noticiosas, quando estas têm interesse de promover a divulgação de uma ação. No caso, é a recuperação de uma situação que fora escândalo, embora o caso tivesse prescrito pelos anos de intervalo entre o acontecimento e a atualidade. Enquanto o Homem preparava a entrevista, a peça regista três momentos específicos. Um é a discussão entre diretor de informação e jornalista, onde se revela a concorrência interna de um meio de comunicação: o primeiro pedira discrição na procura de informação para apoio à entrevista; um velho político telefona ao diretor a tentar impedir a entrevista. Isso revela que rapidamente houve circulação de informação e revelação do que se pretendia ser discreto. O diretor acusa o jornalista de fuga de informação. Outro é a curiosidade da mulher do antigo político, quando o vê a manusear alguns velhos dossiês. Ela, em momento oportuno, lê os dossiês e fica assombrada com a informação, fazendo fotocópias. O terceiro é quando o Homem diz que, a acompanhar as revelações, vai depositar a informação em boas mãos.

Raul Malaquias Marques realça a ambiguidade da trama narrativa. Não se sabe em que boas mãos foi depositado o dossiê nem se sabe o que a mulher fez com as fotocópias. O que a peça revela é que o Homem, feita a declaração, se suicida, dando um tiro de pistola em si mesmo - ao vivo e em direto. Isto tem duas consequências: a audiência do canal subiu muito, levando a administração a elogiar o diretor de informação; este vê-se obrigado a falar na televisão a pedir desculpa pelo acidente grave. Embora o texto seja omisso, o diretor de informação saberia do desfecho, tal o desespero do Homem. Por isso, o autor acha que a sua personagem é oportunista, o contrário do perfil ideal de jornalista que se ensina nas minhas aulas. Além disso, a ideia de denúncia, como aparece na peça, não é própria do jornalista. Este observa o poder e as máscaras com que ele se apresenta e questiona e escrutina. A comunicação social, para o autor, é a-poder. O poder vem da prática. A peça é, assim, sobre a relação entre os media e o poder. Mas não é sobre o espetáculo mediático, espaço em que se encontram hoje os media.

Peça ambígua, história sombria, conclui o autor. Alguns elementos ficam por explicar. Por exemplo, não se sabe o que a mulher fez quando o político se suicidou. Ela teve coragem de continuar a denúncia iniciada pelo marido? Se ela não conhecia muito bem as rotinas do marido porque se quis encontrar com o diretor de informação no mesmo local afastado da cidade? E qual o comportamento da filha? Dado ela ter vivido uma adolescência traumatizante por causa do julgamento do pai, porque aparece numa posição tão libidinosa? Não deveria ter uma postura mais fechada? E qual a profissão da mulher? Talvez doméstica mas com estudos, foi respondido. E quando escreveu o autor a peça? Foi influenciado por algum processo que se veiculou nos media dos últimos anos?

Raul Malaquias Marques foi jornalista em Rádio Clube de Moçambique, regressando a Portugal em 1977 para trabalhar na agência noticiosa ANOP, depois Lusa, onde escreveu maioritariamente sobre política internacional e cultura. A peça reflete o seu conhecimento dos media, mas não necessariamente da televisão, como fez questão de indicar. Rapidamente, durante a aula, o autor refletiu sobre ética e responsabilidade dos media na atualidade e sobre a relação entre a notícia de agência noticiosa e os media que dão as notícias ao público. E voltou a frisar a importância da análise do poder pelos media.

Intérpretes: Ana Lopes, Dina Félix da Costa, Emanuel Rodrigues, Francisco Pestana, Maria Emília Correia, Paulo Pires, Rui Mendes, Tiago Costa e Vítor d’Andrade. Encenação e dramaturgia de Fernando Heitor, cenário de Eurico Lopes, figurinos de Dino Alves e desenho de luz e vídeo de José Álvaro Correia (fotografia fornecida pelo Teatro Aberto).




7.5.16

A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (7)

Em 1970, numa coleção de artigos no Diário Popular, Álvaro de Andrade escreveu sobre as memórias do tempo em que era colaborador da Emissora Nacional, logo nos seus primeiros anos de atividade. O texto de hoje saiu em 15 de setembro de 1970 e versou sobre um cortejo regional folclórico. Já o Estado Novo dominava politicamente o país e António Ferro ensaiava as suas estratégias de arte e cultura popular a culminarem nas comemorações dos centenários de 1940.


Em 1938, ainda Henrique Galvão estava à frente da Emissora Nacional de Radiodifusão, a estação organizou o Grande Cortejo Regional do Campo Grande. Álvaro de Andrade contou três mil homens e mulheres, do Minho ao Algarve, representando os vinhedos, os pomares, as amendoeiras, o jaspe.

O desfile durou cerca de duas horas. Duas notas, a primeira para escrever o seguinte: à época, o Campo Grande ficava no extremo da cidade e era local de feiras e corridas de automóveis. Penso que, algum tempo depois, o Benfica funcionava num estádio de tábuas, antes de se mudar para as Amoreiras e se fixar na Luz, espaço depois ocupado pelo Sporting. Segunda nota: o desfile de quilómetro e meio de extensão lembra a atual marcha de Santo António, pela avenida da Liberdade abaixo.

Carros alegóricos, etnografia, orfeões e bandas de música faziam parte da reconstituição histórica, um dos objetivos do desfile, dividido em doze grupos. O jornalista destacou a representação da Estremadura, e de Lisboa, os pescadores da Nazaré, com um barco puxado a bois, e os campinos do Ribatejo. Álvaro de Andrade seria o organizador do grupo do Minho.

6.5.16

Circo Média

Li na notícia: "Senhoras e senhores, meninas e meninos, o espectáculo está prestes a começar". Comecei a apurar a leitura: "Júlia Pinheiro e José Pedro Vasconcelos são os anfitriões do programa, coadjuvados por Vítor Hugo Cardinalli que terá também a seu cargo a direção do circo". Também li a notícia: "Trupe Circo média". Não, estas não eram as notícias que eu queria ler.

E procurei melhor, pois queria saber mais das histórias de Viriato, Irene, Lina, Lucy, Rúben, Eva Celina e Cassandra. Cheguei à página do Teatro Bocage e não vi senão o cartaz. Propus-me então reconstituir o percurso e a história, embora com o meu pouco engenho.

O Teatro Bocage comemorou ontem dez anos de existência. Ele fica na rua Manuel Soares Guedes, 13 A, à Rua Damasceno Monteiro, em Lisboa. Entre as suas atividades, desenvolve um curso destinado a quem se quer divertir com "improvisações, jogos e dinâmicas de grupo, relaxamento e construção de personagens" e construção de "um espetáculo de raiz, criando o próprio texto, a cenografia, os figurinos, os adereços, o desenho de luz e a música", trabalhando "a contracena, a relação espaço-actor, a voz e o corpo, sempre num ambiente descontraído, propício à libertação da criatividade", segundo a informação disponível nesse sítio. Durante o dia, os artistas trabalham em escritórios, em fábricas, em escolas, no próprio teatro, e encontram-se às terças-feiras à noite para a preparação de uma peça. O resultado dessa atividade começou a ser visto ontem.

Palhaços, focas amestradas, a mulher que entra numa caixa e desaparece por magia, as cantigas, o patrão do circo (cuja mulher, trapezista, fugiu com o domador de cavalos) a resolver sempre problemas como o corte de eletricidade, a madama (a que deita cartas para adivinhar o futuro), o jovem que faz cartazes e anúncios do circo e se engana sistematicamente mas acha ter força para dirigir o circo, a mulher barbuda com um forte sotaque açoriano e que intriga o resto da tribo circense. A peça não devia ter estreado ontem mas, por engano de Rúben, o público apareceu. E, logo à entrada da sala, alguns dos intérpretes gritam entre si, querem mandar o público embora, apenas fazer o ensaio geral. Por isso, as focas ainda não tinham sido disponibilizadas, elas que estavam no aquário Vasco da Gama.

Os papéis foram desempenhados por Carmo Franco, Fátima Bartolomeu, Filipa Roldão, Inês Santos A., José Pereira, Miguel Santos e Sara Maia. Encenadora: Maria João Miguel, mestre em Encenação pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Diretor do teatro: Carlos Cardadeiro (na fotografia, o agradecimento do diretor, encenadora e atores, no final da representação).


O Teatro do Bocage é um teatro de bairro, orienta-se para públicos específicos, nomeadamente o infantil, com peças a apresentar conforme o desejo de espetadores coletivos como escolas. Tem, por isso, uma grande proximidade à freguesia de Arroios e aos seus habitantes. A peça em representação, durante apenas três dias, revela essa dinâmica de relação popular e de grande entusiasmo e adesão.

Obrigado pelo tempo e dedicação que deram aos espectadores.

4.5.16

A revolução para José Miguel Sardica

Terminar a Revolução. A Política Portuguesa de Napoleão a Salazar é o novo livro de José Miguel Sardica, hoje lançado na livraria Bertrand no Picoas Plaza, em Lisboa. A apresentação coube ao professor Manuel Braga da Cruz.

Na contracapa, o autor explica o objetivo do livro - explorar um dos eixos fundamentais da realidade portuguesa ao longo de mais de um século (XIX e XX), o da revolução. O livro é composto de três partes, com uma introdução (o problema da revolução na contemporaneidade europeia e nacional), a(s) revolução(ões) e as dinâmicas e as raízes do revolucionarismo português.

O vídeo seguinte mostra parte da apresentação pelo próprio autor. José Miguel Sardica é professor associado com agregação na Universidade Católica Portuguesa. O livro resulta da versão alargada da lição de síntese apresentada nas provas académicas de agregação em História.

3.5.16

Reportagem no ar de Tempo Zip

Naquele dia, Vera Lagoa foi generosa na prosa (Rádio & Televisão, 4 de abril de 1970). Ida no avião Caravelle (TAP), na inauguração do programa Tempo Zip, encontrou-se com Fialho Gouveia, José Nuno Martins, Joaquim Letria, Edite Soeiro, Mário Zambujal e Baptista-Bastos. Uma inauguração assim, num avião novo que partiu de Lisboa, andou pela península de Setúbal e regressou a Lisboa, nunca tinha acontecido. Depois, já nos estúdios da Rádio Renascença, ela cruzou-se com Manuel Freire, João Paulo Guerra (sem barba mas com um grande bigode), Raul Solnado, Torcato da Luz e Carlos Cruz. Vera Lagoa tinha uma rubrica muito lida no Diário Popular, Bisbilhotices, e o texto em Rádio & Televisão, também do grupo do Banco Borges & Irmão, tinha ingredientes semelhantes. João Paulo Guerra sentia-se bem, por haver um bom entendimento na realização do programa e ele conhecia todos os colaboradores, de Michel Giacometti a Urbano Tavares Rodrigues (Rádio & Televisão, 25 de abril de 1970). Quatro anos depois, a repórter ali generosa e alguns dos seus colegas separar-se-iam politicamente- ela no semanário Sol, à direita, alguns deles defendendo a luta de classes, à esquerda.

O programa de rádio Tempo Zip, após o sucesso do programa televisivo Zip-Zip, ficou na história como um dos melhores de sempre e um marcador da rádio nova.  Foi uma sessão que os protagonistas nunca esqueceriam, tanto mais que Fialho Gouveia e Carlos Cruz, além da televisão, tinham feito o programa PBX em Rádio Clube Português, em 1968, o primeiro marcador dessa rádio nova. Logo depois, a Rádio Renascença emitia 24 horas por dia, com o jovem José Manuel Nunes a assegurar a emissão de madrugada, em 1972 Carlos Cruz era nomeado responsável pelos noticiários e em setembro de 1972 João Paulo Guerra era despedido (ao mesmo tempo que Adelino Gomes) devido a um relato sobre o assassínio de atletas israelitas levado a cabo por um comando palestiniano nos Jogos Olímpicos de Munique.





2.5.16

Associações e coletividades

Tenho colaborado com a Arroios TV, na rubrica Associações e Coletividades. O primeiro episódio foi sobre a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto. O segundo, com vídeos aqui, foi sobre o Teatro Bocage. Entrámos pelas peças, nos ensaios, nos bastidores e nas conversas com responsáveis pela produção, encenação e representação.