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sábado, 21 de abril de 2018

A rádio no livro "Café Central" de Álvaro Guerra

A primeira vez que o livro de Álvaro Guerra (Café Central) se refere à rádio é quando chega a televisão a Vila Velha. O Clube Vila-Velhense decidira adquirir um recetor e a montagem da antena exigiu uma reunião da direção para aprovar a despesa suplementar e confiar no engenheiro Silvério a sua instalação. O referido engenheiro, sócio da coletividade, era funcionário da Emissora Nacional e oferecera-se como voluntário para o desempenho da função, apoiado por dois eletricistas (p. 118). Estaríamos em 1957.

Depois, Vicente Mourão, de uma família de esquerda de Vila Velha, foi o primeiro habitante dali a saber do desaparecimento do paquete Santa Maria. Ele ficaria de orelha atenta a todos os sons mais ou menos inteligíveis das ondas curtas da velha telefonia, pois continuava fiel aos noticiários da BBC (p. 169). Por aquela estação, acompanhou o relato do debate na Câmara dos Comuns e ouviu a oposição trabalhista criticar "the dictatorship of Dr. Salazar". A BBC desmentia o Diário de Notícias. Contudo, "semanas depois, os situacionistas de Vila Velha seguiam aliviados a reportagem radiofónica da chegada do Santa Maria a Lisboa, empolgados pelo nacionalismo inflamado do versátil locutor Artur Agostinho, ao microfone da Emissora, o qual viria a ser condecorado por tanto zelo" (pp. 170-171). O ano de 1961, cheio de vicissitudes para o regime de Salazar, estava no começo.

O autor refere Barradas de Oliveira na sua tribuna "Rádio Moscovo não Fala Verdade" (p. 207), indica que não se arroga, por definição, a alterar o enredo ao folhetinista (p. 285) e chega à notícia de Salazar caído na cadeira. Ao passar pela porta da taberna do Belezas, uma das personagens ouvira, na rádio, a voz solene de Pedro Moutinho a dar a notícia (p. 299). Corria o ano de 1968.

Por último, a personagem David Castro procurava sintonizar a frequência dos Emissores Associados de Lisboa, com a pergunta: "onde é que são os «minhocas»"? (p. 422). O mesmo David, às 00:15, foi ouvir a Rádio Renascença. Reagiam a David: "Não te conhecia essa paixão radiofónica". David justificou-se: "É recente... Este programa O Limite é feito por uns rapazes amigos" (p. 425). Vivia-se a madrugada de 25 de abril de 1974.

Álvaro Guerra (1936-2002) foi jornalista, diplomata (embaixador de Portugal em Estocolmo) e escritor. Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi fundador do jornal A Luta. Oposicionista ao Estado Novo, poderia ter subido a ministro no pós 25 de abril de 1974 mas ficou-se pela direção de informação da RTP. Na sua biografia, que consultei na wikipédia, evoca-se o ter sido um dos fundadores do Partido Socialista e gostar de touradas, em especial na sua terra, Vila Franca de Xira. Da sua bibliografia, destaque para a trilogia dos cafés: Café República, Café Central e Café 25 de Abril.

Leitura: Álvaro Guerra (1984). Café Central. Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha (1945-1974). Lisboa: O Jornal

sábado, 20 de maio de 2017

Obra de Mário-Henrique Leiria

 
Obra completa de Mário-Henrique Leiria apresentada no Centro de Arte Manuel Brito (Algés) por João Morales (jornalista da Time Out) e Tania Martuscelli, especialista na obra do autor e responsável pela presente edição. Dia 24, às 18:30, no Palácio dos Anjos.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Natércia Freire

Dar a conhecer a escritora Natércia Freire (1920-2004) foi a motivação que levou a filha Isabel Corte-Real a escrever a obra Da memória, do amor e do génio. Uma fotobiografia de Natércia Freire, publicada pela Alêtheia Editores. Foi hoje lançada na Biblioteca Nacional de Portugal, com apresentação por Fernando Pinto do Amaral (eu não assisti).

Retiro da informação publicada na página da Biblioteca Nacional: "Nascida em Benavente, Natércia Freire dirigiu o suplemento literário «Artes e Letras» do Diário de Notícias, tendo sido umas das primeiras jornalistas literárias portuguesas. Colaborou em publicações diversas, e na antiga Emissora Nacional. Estudou música e concluiu o curso do Magistério Primário, tendo iniciado a carreira docente em 1944. Integrou ainda, entre 1971 e 1974, a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian".


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Recordar os esquecidos

Em Agosto, a tertúlia habitual da livraria Almedina, Recordar os Esquecidos, tem um formato diferente. Desta vez, é o próprio moderador dos debates o convidado. Assim, no sábado, dia 29, pelas 18:00, João Morales vai falar sobre livros e autores que caíram no esquecimento ou até mesmo passaram (injustamente) ignorados. Na praça Duque de Saldanha, 1, Atrium Saldanha (Lisboa). Neste ano, o grupo Almedina faz 60 anos.


segunda-feira, 16 de março de 2015

3.ª edição do Fronteira — Festival Literário de Castelo Branco


















O Festival Literário de Castelo Branco, em 10 e 11 de abril e 4 de maio, agora em terceira edição, toma o nome de Fronteira. Alguns dos autores presentes irão a escolas do concelho, no sentido de criar novos públicos. Entre os autores, destaque para Bruno Vieira Amaral, Francisco José Viegas, o músico João Afonso, João de Melo, João Tordo, José Manuel Fajardo, Valério Romão e Valter Hugo Mãe.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A reflectir

"Horace Enghdal, membro do júri da Academia sueca para o prémio Nobel da Literatura, afirma que a «profissionalização do ofício, as bolsas e apoios financeiros» estão a destruir a literatura ocidental. «Antigamente, os escritores trabalhavam como taxistas, funcionários, secretários ou empregados de balcão»" (Expresso).

sábado, 27 de setembro de 2014

Dona Alice Mexe o Tacho

Hoje à tarde, na Biblioteca de São Lázaro, em Lisboa, foi lançado o livro Dona Alice Mexe o Tacho, contos, lengas-lengas e poesias de Ana Ventura, Emílio Miranda, Fátima Vivas, Maria Apolinário e Rui Carvalho, vencedores de concurso promovido pela editora Alfarroba. Foram ainda publicados mais dois textos, de Cláudia Neto e Magda Massano e de Frederico Leite, como menções honrosas do referido concurso.

Foi uma sessão muito concorrida, até pelo número de autores. Literatura com histórias mais adequadas a públicos infantis, o objectivo do volume foi encontrar sabores e cheiros, doces e salgados, apetitosos e quentes ou frios, que se encontram a partir de uma receita culinária. Esta é o começo de cada história e, depois, existe um enredo, uma memória ou uma efabulação, como cada autor explicou durante a sessão. No vídeo, ouvem-se vozes, em especial de crianças, numa melhor contextualização da apresentação.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Viver (Com) a Escrita

A iniciativa pretende colocar três autores em diálogo com o seu público, adequando os temas e a forma como o seu trabalho é apresentado à audiência em questão. João Morales coordena e modera as conversas.

No dia 20 de Setembro, às 16:00, com Gonçalo Cadilhe, na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André, para nos falar sobre as suas viagens. No dia 17 de Novembro, à tarde, com Inês Botelho, novamente na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André. Na sua companhia, alunos do concelho, para troca de impressões sobre o trabalho que tem vindo a desenvolver. No dia 21 de Novembro, de manhã, com Sílvia Alves na Biblioteca Manuel da Fonseca, em Santiago do Cacém, e alunos do 1º Ciclo, mostrando os seus livros e aprendendo com as leituras que eles lhes encontrarem. Organização: Câmara Municipal de Santiago do Cacém. Parceiros: Livraria A das Artes e Antena Miróbriga.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cem Anos de Solidão

O livro narra a história da família Buendía a viver num sítio imaginário chamado Macondo. Cem Anos de Solidão foi um marco na literatura escrita por Gabriel García Márquez. Ele morreu hoje com 87 anos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Guedes de Dion

Manuel Eduardo José Guedes Coelho Moreno Dion nasceu em Abril de 1922 em Lisboa. Adoptou o nome profissional de Guedes de Dion. Em 1950, publicou um livro intitulado Pedras de Fogo e Cinza, um interessante conjunto de contos que eu, na sua leitura, procurei desconstruir. O meu objectivo era compreender como se vivia em Lisboa naquela época.

São onze contos. O primeiro chama-se "Reportagem na Europa" e conta a história de um jornalista que viaja de navio dos Estados Unidos para a Europa e que lhe é dado conhecer um passageiro que procura encontrar a sua mulher em Espanha, que o havia abandonado e fugido com outro homem. "Carta para Lisboa", a segunda história, descreve a presença de um caixeiro-viajante no Alentejo e o seu conhecimento de uma família em cuja casa pernoita nesse dia e recebe o pedido da jovem adulta desse lar para ser portador de uma carta para o seu marido, então a trabalhar em Lisboa. O penúltimo conto, "Madrugada no casino", narra a história de um homem que, todas as noites, joga e perde muito dinheiro no casino e paga refeições a um número crescente de "amigos". As mulheres também o rodeiam. No final, o "engenheiro", como gostava que o tratassem, saiu do casino, acompanhado de dois polícias. Era, afinal, um burlão. Uma das histórias mais marcantes do livro é a que dá pelo título "O telefone tocou às 5", em que duas mulheres conversam, ou melhor, criticam a pequena alta sociedade em que se inserem. O conto é um retrato da frivolidade de uma camada social da Lisboa de 1950.

Mas o que me levou a escrever sobre o livro de um autor esquecido é o seu último conto: "Noticiário das Dez". O autor narra a história de Jorge, seu velho camarada da escola básica e do reencontro entre ambos quinze anos depois, já homens feitos e com uma história de vida completa. Jorge gastara mal muito dinheiro do seu pai, que o expulsou de casa e, com isso, o obrigou a uma árdua vida de trabalho. Empregado de mesa num paquete, quando regressou a Lisboa, procurou um novo emprego. Como que por milagre apareceu-lhe um lugar na secretaria de uma estação de rádio. Vencimento mensal: novecentos e cinquenta escudos. Rapidamente, as suas qualidades vieram ao de cima e concorreu e obteve um lugar de locutor na mesma estação. A prova de acesso ao lugar consistia em ler um texto em português, em francês e em inglês. Empregado de mesa habituado a servir gente de muitos países, as provas sairam-lhe muito bem. Pouco tempo depois, subia mais um degrau na responsabilidade da estação de rádio, em especial os serviços de exterior. No ano de 1945, um dos acontecimentos internos mais importantes seria uma cheia no Ribatejo, o que o obrigou a deslocar-se à lezíria para fazer a reportagem. Chegado à estação, todo molhado e sem ter jantado, ele ia ler o noticiário das dez, mas o director dispensou-o, passando o serviço a outro colega. Na viagem de táxi de regresso a casa, ele ouvia, pela voz do seu colega, que o seu pai, então administrador-geral do Banco Imperial, falecera. Desde que começara a trabalhar na rádio, ele quisera fazer as pazes e pedir desculpa ao pai, mas não conseguira. Agora, ia fazer-lhe a última despedida.

 

Guedes de Dion, com esta história, que pode ser lida no slideshare acima, mostra como funcionaria uma redacção de rádio, assente em serviço de notícias e reportagens. Guedes de Dion seria, naquela época, produtor radiofónico. Há um som de reportagem sua que pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Letras & Rádio


"Hei-de correr por todos esses campos, como se fosse rapariguita, e roubar fruta em todas as herdades. Hei-de colher flores aos braçados e levá-las ao Senhor Padre António para o altar do Santíssimo. Senhor! Há lá nada mais bonito do que os campos pela Primavera! Hei-de também levar os filhos da Engrácia à Fonte Nova, para comermos amoras e trazer para casa uns dois ou três cabazitos bem cheios. Farei doce e com a amora mais graúda encherei uns cestos maneirinhos para ofertar a quem se deva algum favor" (p. 131).

"Numa Primavera de luz suave, o mundo não esperou mais, porque ela tinha dezanove anos, um olhar assustado, um corpo irrequieto, e havia a força estranha das coisas desconhecidas a abrir caminho, o caminho mais ou menos tortuoso de cada um" (p. 59).

"Conheci-o num garden-party de Edith Grey, como afinal o podia ter conhecido à beira-rio, junto daqueles pequenos vendedores ambulantes, num antiquário da Rua de S. Bento, ou em qualquer teatro de revista. Mas isto só o compreendi mais tarde, e ainda mais tarde o ousei confessar" (p. 42).

"Corro e a minha saia tem cintilações vistosas. Ele segura-me pela cintura e rimos. À nossa esquerda, uma alegre barraca pintada de verde com uma grande árvore fazendo sombra às pequenas mesas de madeira tosca. Sentamo-nos. Ah! Cerveja fresquinha! Que bom! E farturas acabadas de fazer, com muito açúcar e canela" (p. 33).

"O claxon voltou a tocar. Peguei então na bolsa que estava sobre o leito e lancei em redor um olhar cansado. Não poderia abandonar todas aquelas coisas em que vivera durante alguns anos sem mágoa. O nosso quarto!... A nossa casa!... Os nossos filhos!... Abandonar!... Não há palavras que exprimam certos estados de alma. Há apenas estados de alma que a alguns é dado suportar... Ele foi o homem que casou comigo. E, como tal, deu-me uma casa, dois filhos, um automóvel, criadas, algumas viagens... enfim, o que todos os maridos dão ou procuram dar às mulheres. Mas, em troca, eu não sei o que lhe dei" (p. 95).

"De súbito, julgo que vou rir também, que sou capaz de trautear uma canção em voga, que sou capaz de desnudar os ombros, de conquistar os homens, de arrebatar a Primavera e de me encontrar outra num sítio diferente. Ali, naqueles cabarets, há muitas que passaram a ser outras... E eu sinto o Destino quebrar-se em mim, na síncope do meu coração desnorteado. Mas avanço exaltada pela mesma insatisfação que me deslumbra! Uma porta abre-se e batem-me no rosto as notas vibrantes de uma melodia e o cheiro acre de tabaco e de gente. O fumo envolve-me. Um calor imenso inunda-me a fronte. E assalta-me uma necessidade inadiável de beber. Vou entrar, vou beber, vou rir e chorar e ser para todo o sempre a sombra de mim própria. Um homem passa e dá-me um encontrão. Ao fundo, uma mulher pintada chama-o. Fujo" (pp. 166-167).

Maria Irene Dionísio publicou Adeus, Amigo!... em 1960, resultado de prémio atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), então liderado por César Moreira Baptista. António Quadros, no prefácio, dá indicações preciosas sobre o livro de contos: "Dir-se-á que as qualidades de Maria Irene Dionísio ainda não amadureceram por completo; que, atraída pela sua grande facilidade. deixa às vezes resvalar a sua linguagem para o lugar comum; que os contos podiam ser mais seleccionados pois nem todos possuem a mesma altura".

Da autora, não conheço mais nenhuma obra. Esta é certamente de juventude. Nem sei bem o seu percurso pelo teatro e pelo teatro radiofónico. Na fotografia, Maria Irene Dionísio contracena com Manuel Lereno, uma representação evocativa do quinto centenário do nascimento da rainha D. Leonor na Emissora Nacional, ao lado de actores conhecidos como Carmen Dolores, Jaime Santos, Álvaro Benamor, Luís Filipe, Isabel Wolmar, João Perry, Júlia Santos, Luís Santos, Varela Silva, António Sarmento, Odete André e Mário Sargedas (Flama, 16 de Maio de 1958).

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Raymond Roussel

Michel Foucault publicou o livro Raymond Roussel em 1963, faz agora 50 anos. Não se deve ler o texto sobre Roussel por comparação ou complemento a História da Loucura na Idade Clássica (1961), o primeiro grande livro do filósofo francês, mas há uma aproximação a Nascimento da Clínica: uma Arqueologia do Olhar Médico, publicado também em 1963. Neste, regista-se uma mudança de perspectiva da patologia geral para a doença mental.

Ora, Roussel (1877-1933), poeta, escritor, autor de peças, músico e entusiasta de xadrez, descoberto pelos surrealistas como um seu antecessor, caso de André Breton, foi visto como louco. As edições de livros, as encenações dos seus trabalhos e a sua vida faustosa foram suportadas pela fortuna elevada herdada do pai, a ida de Paris para Palermo, onde acabou por morrer (ou ser assassinado), viagem extravagante mas decidida nos seus contornos finais por ele - comportaram sempre situações de desviante ou excluído ou marginal. Tudo assuntos que interessaram a Foucault.

Por isso, ao contrário de outros analistas, Foucault não olhou Roussel através da loucura mas pela leitura da obra, de forma distinta da do psiquiatra Pierre Janet, que conhecia o caso, e da de Michel Leiris, autor muito próximo de Roussel. Este, aos olhos de Foucault, aparece-lhe como uma das vítimas da medicalização moderna da loucura. No primeiro capítulo sobre o autor de Locus Solus e Nouvelles Impressions,  Foucault foi directamente ao seu último texto: Comment J'ai Écrit Certains de mes Livres (1932), obra autorizada a publicar após a morte de Roussel, por vontade expressa deste, onde ele revela o segredo da sua escrita.

Este autor construíra um modelo, um procedimento ou jogos de linguagem, como diz Foucault, em que as palavras assumiam significados distintos sempre que colocados uns a seguir aos outros. Casos de lettres (cartas epistolares ou letras gráficas)  e bandes (pano verde ou selvagens de uma tribo africana de um dos seus textos). Ou: vocábulos emparelhados que formam o eco sonoro de palavras nunca enunciadas (p. 39). Isto é um facto de linguagem, em que palavras idênticas dizem duas coisas diferentes (p. 12). O procedimento é uma espécie de purificação dos falsos acasos da inspiração e da fantasia para se colocar perante uma linguagem clara mas impossível de dominar, continua Foucault (p. 34), embora haja "alguns dos seus livros" estranhos ao procedimento (p. 83), como indicaria o próprio Roussel.

Dito de outro modo: as palavras são como que desviadas do seu sentido primitivo para adquirem um sentido novo (p. 13). É deste espaço de deslocamento que nascem as figuras da retórica: metonínimia, sinédoque, antonomásia, litote, metáfora, uma espécie de espaço tropológico do vocabulário. Depois, cada palavra está associada por um domínio de parentesco (p. 29) - do bilhar passa-se ao taco de bilhar, deste à sua incrustação de metal prateado, às iniciais de quem comprou o bilhar e o taco. Há, comenta Foucault, uma segunda navegação em torno dos objectos, uma narrativa repetida indefinidamente (p. 43), encarregada de restituir aos signos o significado (p. 44), com o labirinto ligado à metamorfose (p. 74). Os efeitos do duplo não deixam de se multiplicar (p. 47).


Além disso, há antifrases, como o desenhador que não reproduziu regularmente as malhas da rede sobre a escama do peixe, como se a função da linguagem duplicada estivesse no pequeno intervalo que separa a imitação do que imita (p. 20). Em Chiquenaude, um espectador que conta a peça compôs um poema que um dos personagens vai recitar várias vezes no palco, mas sucede que este último fica doente pelo que é o seu substituto que lê (p. 22). Fala de objectos nunca vistos ou de máquinas nunca pensadas ou de plantas monstruosas (p. 39). O papel dessas máquinas é fazer passar: transpor obstáculos, atravessar reinos, derrubar prisões e segredos, vencer memórias adormecidas (p. 63). O teatro, os amantes surpreendidos, as substâncias maravilhosas, as personagens mascaradas, os objectos minúsculos, tudo faz parte do repertório de Roussel (p. 23).

Já em Nouvelles Impressions, escreve Foucault, o autor emprega comparações, aproximações, distinções, metáforas, analogias, através de coisas e palavras, com repetições sem fim (p. 19). Nos textos de Roussel, há assim repetições, substituições, retorno do mesmo, diferenças imperceptíveis, desdobramentos, falhas fatais, meticulosidade e concisão, unir e reencontrar (p. 66). Melhor: imagens invisivelmente visíveis, perceptíveis mas não decifráveis (p. 48), em que há lugar privilegiado para a imitação (p. 67). A obsessão de máscaras, disfarces ou duplos e desdobramentos poderia encobrir o talento de imitador que desde cedo se notara nele (p. 141). Talvez por isso, Roussel aconselhasse os seus leitores a lerem a segunda parte das Impressions d'Afrique antes da primeira, de modo a tornar legível o seu conto (p. 64).

Sobre a edição portuguesa Impressões de África, publicada pela Relógio d'Água, retiro o que escreveu Eduardo Pitta (Da Literatura), romance que passou despercebido quando saiu em 1910: "Roussel, que influenciou os surrealistas, os dadaístas, os autores do futuro Nouveau Roman, bem como os artistas e poetas da Escola de Nova Iorque (Kooning, Ashbery e outros), era de opinião que o livro podia, e talvez devesse, ser lido de forma arbitrária, embora aconselhasse os amigos a começar pelo décimo capítulo". 

Roussel vivia à espera de um reconhecimento pela sua obra que acreditava estar injustamente privado. Entende Foucault, em Raymond Roussel, que este, na altura em que redigiu o seu primeiro livro, experimentou uma sensação de glória universal, não um desejo de celebridade mas de constatação física (p. 139). Pierre Macherey, o apresentador da obra de Foucault, lança uma hipótese sobre o que fascinou este ao escrever sobre Roussel, aliás a única obra sobre um autor, um comentário sobre alguém que produziu, contrário ao que ele próprio se dispusera (como se observa em O que é um autor?, a que talvez eu um dia dedique algum espaço aqui). A hipótese é que Roussel consagrou-se a uma obra com tal disciplina, em que cegueira e lucidez parecem conjugar-se em obstinação, excesso e desmedida (p. XIX). Vigiar e Punir (1975) vinha ainda longe, mas a disciplina dos corpos já andava na cogitação de Foucault. E o tema da sexualidade aprisionada fazia também parte do programa de Foucault, como a História da Sexualidade confirmou.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

ASSOCIAÇÃO ALAGAMARES PROMOVE ENCONTRO DE ESCRITORES

No dia 14 de Abril, pelas 21:00, a associação cultural Alagamares promove um encontro com escritores sintrenses no Espaço Reflexo (Rua Heliodoro Salgado, Sintra, pedonal). Apresentados por Jorge Telles Menezes, estarão para falar da sua obra e autografar algumas delas os escritores Sérgio Luís Carvalho, Marta Amado, Augusto Carlos e Gonçalo Nuno Neves.


A Alagamares é uma associação cultural com sede em Galamares (Sintra) fundada em Março de 2005 e promove o debate e a acção cultural nas áreas da história, património, artes e ambiente (ver mais informações aqui).

domingo, 13 de dezembro de 2009

ALICE VIEIRA


Sessão de homenagem a Alice Vieira no dia 16 de Dezembro pelas 17:00 no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz (Lisboa).

Alice Vieira nasceu em 1943 em Lisboa e é licenciada em Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1958, iniciou colaboração no suplemento "Juvenil" do Diário de Lisboa; em 1969, passou a dedicar-se ao jornalismo profissional. Desde 1979, tem vindo a publicar regularmente livros. Tem programado para 2010 um curso de escrita criativa.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

CLUBE LITERÁRIO


"Numa época em que todos podemos estar a qualquer momento em qualquer parte do mundo sem, efectivamente, haver uma deslocação física, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, em parceria com o Clube Literário do Porto, convida-o a participar no ciclo de Conversas sobre viagens e outras deslocações. Neste ciclo contaremos com a presença de viajantes, ensaístas e críticos, de modo a que possamos dialogar sobre a viagem/deslocação efectiva e a escrita de viagem. As conversas iniciam já dia 22 de Maio no Auditório do CLP. Na sessão de abertura estará presente o escritor Miguel Gullander" (blogue Clube Literário, Rua Nova da Alfândega, 22, Porto).

domingo, 1 de março de 2009

sábado, 24 de janeiro de 2009

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

LUÍS MIGUEL CINTRA A LER POEMAS DE MÁRIO DIONÍSIO

Hoje, ao fim da tarde, na livraria Círculo das Letras.

POESIA DE MÁRIO DIONÍSIO POR LUÍS MIGUEL CINTRA

Hoje, 13 de Janeiro, pelas 18:30, a poesia de Mário Dionísio será lida por Luis Miguel Cintra.

Eduarda Dionísio, filha do escritor e poeta, dará uma breve informação sobre a Associação Casa da Achada -Centro Mário Dionísio.

Na livraria Círculo das Letras, à Rua Augusto Gil, 15 b, em Lisboa.