Jean-Pierre Esquenazi tem um pequeno mas significativo livro sobre Sociologie des publics, editado há dois anos atrás por La Découverte.
O autor divide em seis grandes concepções a sua definição de público, as quais obedecem a lógicas distintas.
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Vou-me ficar pela sua apresentação da crítica das indústrias culturais (pp. 38-44). A origem da teoria reside no texto de Adorno e Horkheimer A produção industrial de bens culturais, texto violento porque assente em duas pressões sobre os autores: o refúgio nos Estados Unidos devido à violência nazi e a incompreensão da cultura americana (cinema e jazz). Os autores vislumbram uma identidade nas duas civilizações, apoiadas por monopólios. Ambas se organizam em torno da "racionalidade técnica [que] é a racionalidade da dominação". Todos os elementos da cultura subordinam-se aos fins das indústrias culturais, que fabricam produtos desprovidos de surpresa. Mesmo os produtos inovadores são recuperados pelos mecanismos de produção. A fusão da cultura e do divertimento significam a morte da arte.
Há um excesso no texto, considera Esquinazi. E ele vai em busca de dois autores que, embora com uma matriz referencial próxima, se afastam do texto fundador. Um é Armand Mattelart, que na crítica de Adorno e Horkheimer vê o eco do protesto burguês e letrado contra a nova cultura mediática. Assim, a cultura de massa surge como um meio de controlo social. A outra referência autoral é Walter Benjamin que, no seu texto A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, formula uma base de análise das indústrias culturais. Para este, se a obra de arte significa exposição única, singularidade e originalidade, a sua reprodução ou multiplicação destrói a "aura" da obra. As artes modernas, como a fotografia e o cinema, são em si mesmas artes da reprodução. Daí, Benjamin nos propor uma série de reflexões sobre a recepção.
Esquinazi leva-nos a olhar mais profundamente a evolução da crítica das indústrias culturais, a partir de outras perspectivas. Ele faz a avaliação dos públicos face aos produtos realizados em série. A especialização das indústrias de conteúdo (software) leva-a à separação progressiva das indústrias de hardware, reorganizando a produção. Esta passa de edição (produção lenta e sem identificação de tempo de conclusão) a fluxo (produção contínua diária). Analisa-se o papel do programador: simultaneamente produtor, gestor e vendedor, ele gere o fluxo de programas em função de objectivos comerciais e estratégias que acompanham o interesse do público. O programador utiliza ferramentas estatísticas para adaptar a produção ao ritmo da sociedade. Nesse contexto, a inovação é principalmente tecnológica, o que permite adaptar conteúdos a produtos novos e às lógicas de uso massificado.
Há uma segunda linha de intervenção dos investigadores, que aponta para o estudo de obras particulares, como as séries. Ou, no caso apresentado por Esquinazi, os filmes-catástrofe iniciados nos anos de 1970. Uma terceira linha de trabalho da crítica das indústrias culturais é dada por autores franceses como Edgar Morin e Bernard Miège. Para o primeiro, a criação cultural não está totalmente integrada no sistema de produção industrial, pois um filme novo não é todo idêntico a um anterior, preconizando um ciclo de inovação e estandardização. Miège, anotando a existência de múltiplos canais de distribuição (televisão temática, internet, géneros musicais), salienta a diversificação de públicos, já não estando amarrados à hierarquia social mas sim à escolha no interior de alternativas diferenciadas.
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