quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

E AGORA, LUÍS?

No passado dia 16, Luís António Santos editava um postal no seu blogue Atrium sobre a capa do jornal Público desse dia. Razão: o destaque dado à estreia do filme King Kong, e que eu aproveitei para escrever um texto no dia 21.

dn29122005.JPGHoje, coube a vez ao Diário de Notícias, que aposta, no corpo central da primeira página, no filme português Odete. Parece-me que, em discussão, estão os mesmos pressupostos que os desencadeados por Luís António Santos há quase meio mês. Porquê tanto espaço na primeira página a um filme? Ocupa o espaço central e tem uma fotografia a toda a largura da página (12,4 x 25,3 centímetros). Aqui, aplica-se o emprego da perspectiva e da regra de ouro da pintura renascentista: o nosso olhar vai directo para a rapariga sentada, dentro de uma casa de banho, e calçada com uns patins. Do trailer passado nos cinemas, percebe-se a angústia de Odete, "a princípio, uma personagem leve, meia pop. E o filme vai enegrecendo" (da entrevista de João Pedro Rodrigues a Nuno Galopim, no jornal de hoje).

Só depois do impacto da leitura visual da imagem em si, é que o nosso olhar se prende nos outros destaques: a perda do poder de compra dos quadros do Estado e os bebés portugueses que nascem em Badajoz. E um pequeno destaque em baixo e à direita remete-nos para o tema do dia (o mercado dos livros, o boom das pequenas editoras e as vendas pela internet), que ocupa duas páginas, mais do que a análise ao filme português (quase página e meia).

Há, nitidamente, uma vontade de preencher a primeira página com outros temas que os habituais (futebol, campanha política para as presidenciais), numa altura em que a frequência anual das salas de cinema está a baixar e também caem as vendas de jornais, como o próprio Diário de Notícias (neste caso, por aumento dos gratuitos, o que obrigará a reorientações do negócio).

O filme, pelo que é possível ver no trailer, aborda um tema complexo a nível do relacionamento de jovens casais envolvendo os dois sexos. Aliás, o título do destaque, para além do nome do filme, é "O cinema português em versão hipersexual" (não sei muito bem o significado último desta palavra). Tal poderá quer dizer da importância dada pelo jornal em termos de discussão de mudanças de comportamentos (gostemos ou não deles). Ou seja, estamos para além da leitura do simples entretenimento que um filme como o King Kong nos proporciona, e que o Luís António Santos expressou com muito calor.

1 comentário:

luis santos disse...

Rogério,

Sendo que a pergunta me é dirigida, tento uma resposta.
A capa do DN de hoje – que ainda não tinha visto porque os dias são diferentes nesta época do ano – merece, de facto, uma reflexão. Acho, por isso, bem oportuna a chamada de atenção aqui feita e concordo, no essencial, com o que se escreve.
Por comparação com o King Kong de que falámos, a aposta no filme em causa para tema de destaque visual da primeira página pode sugerir um olhar mais atento às mudanças de comportamentos. Tem, além disso, a seu favor o valor-notícia da proximidade e poderá ainda perceber-se uma eventual intenção de ruptura com os temas habituais.
Porém, também neste caso penso que a decisão editorial é questionável (partindo, naturalmente, do entendimento do DN como um jornal diário informativo de qualidade, apontado a uma audiência específica).
Para além de questões de estética ou de peso jornalístico relativo, esse questionamento envolverá, forçosamente, um olhar retrospectivo à política de sinergias de grupo que o DN integrou durante os últimos anos e uma ponderação sobre a sensatez do acto em conformidade com esse enquadramento.
Precisamente porque – como tão a propósito se refere no post – os ‘gratuitos’ já são mais de 70 por cento do total de jornais em circulação no país é que estes problemas se tornam vitais para as publicações com preço de capa.
Sobreviver num ambiente hostil é possível por aproximação a outras lógicas ou por demarcação relativamente a elas?
Sobreviver num ambiente hostil vai continuar a ser possível só ‘sendo’…ou será necessário (de forma mais transparente e continuada) também ‘parecê-lo’?
Não creio que haja respostas definitivas para estas perguntas, mas vejo no debate um possível caminho de progressão.

Um último apontamento: ainda que anote com muito apreço o facto, não creio que merecesse ser chamado a título num blog reconhecidamente tão influente. Foi, estou certo, generosidade a mais.

Um grande abraço.

luis