segunda-feira, 27 de novembro de 2006

AUMENTA NÚMERO DE VISITANTES NOS MUSEUS


A notícia saída no Público do passado sábado é muito positiva acerca do comportamento dos museus, dado o aumento anunciado de visitantes nos dez primeiros meses do ano. Cerca de um milhão e trinta e cinco mil visitantes passaram pelos museus nacionais (25 museus do IPM), valor que se aproxima dos números de 1998, considerado na peça o ano de maior valor na história dos museus. A autora da peça, Lucinda Canelas, recolheu a informação a partir de uma conferência de imprensa dada pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, e pelo director do Instituto Português de Museus (IPM), Manuel Bairrão Oleiro.

Diz ainda a peça sobre a actividade dos museus, com destaque na primeira página, que a estratégia de crescimento se deveu a exposições internacionais (O olhar fauve, no Museu do Chiado; Grandes mestres da pintura europeia, de Fra Angelico a Bonnard, no Museu Nacional de Arte Antiga) e à noite dos museus e dia internacional dos museus. Pela peça jornalística, fica a ideia de que há novos públicos conquistados.

A notícia, não pela ordem que eu dou nesta mensagem, veicula outras três informações: o ano de 2007 será difícil, dado o corte orçamental (23,2% de quebra face a este ano); os eixos fundamentais passam pela oferta de mais exposições internacionais e pela implantação de projectos novos (colecção Berardo no CCB, passagem do Museu dos Coches para outro edifício, pólo do Ermitage em 2010, ampliação do Museu do Chiado, criação do Museu no Palácio de São João Novo, no Porto, construção do Museu do Douro e do Côa e criação do Museu da Língua/Centro de Interpretação das Descobertas, no lugar do actual Museu de Arte Popular, cujas colecções serão guardadas no Museu de Etnologia); possibilidade de cada museu gerir as suas receitas.

Exceptuando a redução do investimento nos museus, o que se compreende dado o orçamento de rigor por parte do Governo, todo o resto da informação é útil e positiva. Contudo, e fazendo um exercício de metajornalismo, há coisas que precisavam de ser mais bem tratadas (ou melhor contadas). Antes de tudo, tenho de escrever que a informação diária do Público é-me muito importante para conhecer o que se passa no mundo e formular juízos sobre ele, e nisso incluo os trabalhos de Lucinda Canelas. No caso da peça em causa, a jornalista deixou-se conduzir pela fonte de informação, chamada primeiro definidor num texto clássico de Stuart Hall e colegas. Numa conferência de imprensa, quem a promove controla o que é dito (e pode esconder o que não quer dizer). O jornalista fica sempre sujeito ao que lhe é dado, pois não tem tempo de contrastar a informação do primeiro definidor. E, tratando-se de informação positiva, mais fácil é seguir a definição dada pela fonte.

Assim, detecto um conjunto de questões que deixo neste espaço público. Primeiro, num ano de rigor financeiro, a promessa de tantos projectos novos é possivelmente exagerada - ou há processos que vêm de trás e, logo, existe continuidade de investimento. Ainda dentro deste primeiro ponto, confesso que fiquei perplexo ao ler que ia haver um novo museu no Palácio de São Novo no Porto. Ele já existe há dezenas de anos, pois o frequentei amiudes vezes quando era adolescente. O que aconteceu foi o seu fecho devido a problemas de segurança (humidade, entre outras coisas).

Em segundo lugar, a ideia de exposições internacionais é um ponto interessante. Contudo, engrenar em circuitos internacionais de exposições custa muito dinheiro (seguros, por exemplo), o que invalida a hipótese em ano de magro orçamento. No CCB, a exposição de Frida Kahlo teve muito êxito pela mesma razão - a pergunta é: e vai continuar? A resposta é não, pois o espaço vai ser ocupado pela colecção Berardo. E tenho dúvidas da continuidade da afirmação do Museu Nacional de Arte Antiga como espaço de passagem de exposições internacionais.

Em terceiro lugar, a possibilidade de gerir receitas próprias de cada museu, ainda depende de uma autorização do ministério das Finanças. A mensagem de Isabel Pires de Lima é endereçada a um só leitor, o ministro das Finanças. Diz ela: "É uma reivindicação justa dos directores [dos museus]. Gostava de ver isso acontecer. Talvez esteja para breve". E se o ministro das Finanças disser que não, que é melhor a distribuição das receitas ser feita numa lógica central e não em cada museu?

Quando a jornalista escreve haver 1.035.158 visitantes dos museus do IPM este ano, até Outubro, fui ver o livro do Observatório das Actividades Culturais, O panorama museológico em Portugal (2000-2003), editado o ano passado, e em que Manuel Bairrão Oleiro é o responsável da parte do IPM neste livro (presente na conferência de imprensa de sexta-feira ao lado da ministra). No livro, na página 61, há referência a 11.829.479 visitantes em 2000, 12.963.695 em 2001 e 13.609.609 em 2002. Eles são diferentes dos apresentados na conferência de imprensa (ou confundidos pela jornalista) - ou eu não percebi bem os números indicados no livro.

Em quinto lugar, tenho dúvidas quanto à formação de novos públicos por causa de um acréscimo de visitantes em 2006. Os serviços educativos dos museus (como ainda no caso do CCB ou da Culturgest) devem já funcionar há anos, pelo que a evolução é feita gradualmente como os números contidos no parágrafo anterior demonstram. A Festa da Música também atraiu muita gente, mas isso nada significa em termos de novos públicos. Poderemos dizer que os públicos displicentes - os que têm possibilidades sociais e culturais mas não aparecem regularmente - se conquistam e se perdem se as iniciativas não continuarem. O Porto 2001 teve públicos fantásticos, mas bastou uma política camarária desastrada para que eles desaparecessem.

Claro que isto conduz à minha sexta observação, a mais dura. A conferência de imprensa ocorreu após semanas horríveis para o ministério da Cultura - orçamento reduzido para 2007, anúncios do fecho do Museu de Arte Popular (para dar lugar ao museu virtual da Língua) e da Festa da Música no CCB, com muitos artigos de jornais contra. Vem nos livros que, após acontecimentos terríveis, se deve dar uma conferência de imprensa com informação positiva para apagar a má imagem - e os resultados do número de visitantes é um admirável pretexto. Daí, enquanto cidadão, me ficarem muitas dúvidas quanto à bondade da marcação da conferência de imprensa. Pena que o jornal não tenha reflectido sobre isto. Deixo a sugestão.

1 comentário:

isabel victor disse...

Que questões tão pertinentes !_________________________________

É completamente ilusório e mistificador reduzir o impacto dos museus na sociedade a uma mera contabilidade de públicos !

A Qualidade em museus mede-se, cada vez mais, pelos resultados obtidos através da participação das pessoas (cidadãos - clientes)no reconhecimento dos valores patrimoniais (materiais e imateriais)e nas aprendizagens que daí advêm. Trata-se de interagir com as pessoas, grupos e comunidades em prol do desenvolvimento e da inclusão.São processos longos de crescimento/maturação/mudança social que implicam a aplicação continuada de meios no terreno. Mas para estes ...raramente existem os meios ! São processos lentos e pouco vistosos !

Cremos que a aplicação das ferramentas e conceitos da Gestão da Qualidade aplicadas criteriosamente aos museus podem ajudar a dar visibilidade a estas questões e a criar uma cultura de auto-avaliação mais pedagógica, socialmente responsável e menos ostentatória !

Informo que se realizou recentemente (em 2006) um encontro nacional dedicado ao tema " A QUALIDADE EM MUSEUS ", no Instituto Português da Qualidade, promovido pela Universidade Lusófona e parceiros, que versou estas questões.

Mais informações na página " A Qualidade em museus "
http://www.aqualidadeemmuseus.net/