6.4.10

MASON SOBRE A CULTURA DE ACESSO LIVRE

  • As gerações mais jovens encontram sempre uma forma de rebelião; agora é feita mais com os media e a tecnologia do que com o vestuário e a música. O grande factor de choque não está ali. A rebelião hoje reside em se ser mais esperto" (Matt Mason, 2008, The pirate's dilemma, pp. 225-226).
Matt Mason começou a sua carreira como pirata da rádio e Dj num clube de Londres, tornou-se editor principal na revista RWD e ganhou o prémio Prince's Trust London Business (2004). Na sua carreira, também escreveu e produziu banda desenhada e séries de televisão (como Booo Krooo) e gravações (corrente ou nanocultura, como escreve, grime). Em 2008, editou para o grupo Penguin este livro: The pirate's dilemma: how hackers, punk capitalists and graffiti millionaires are remixing our culture and changind the world.

Optimista, ou melhor integrado (na definição de Umberto Eco, a que se opõe o apocalíptico), Mason faz a apologia do mercado, do acesso livre, do punk como torrente inovadora e experimental. O pirata, segundo o autor, é aquele que nos últimos 60 anos se tem apropriado de ideias e privilégios que entraram no domínio público sem o controlo de ninguém. O pirata associa-se à cultura juvenil que partilha informação, propriedade intelectual e espaço público, concorre, colabora e coexiste num ambiente em que são banidas as velhas ideias sobre o tratamento da informação. Liga-se à cultura amadora DIY (Faça você mesmo) e cria valor para a sociedade (página 235).

Não sei se deva traduzir pirate's dilemma por dilema de piratas ou dilema pirata, mas o essencial é seguir o pensamento de Mason. A história começou com o movimento punk, diz ele. Mas, num momento de reconsideração, vai buscar a verdadeira origem ao realismo, ao impressionismo, ao dadaísmo e ao surrealismo, ao situacionismo e aos artistas radicais que nas décadas de 1950 e 1960 promoveram ideias sobre a arte, o graffiti, a prosa e o cinema - isto é, o détournement -, antes de entrar no punk. Os verdadeiros momentos criadores seriam os singles de música Anarchy in the U.K. e God save the Queen, dos Sex Pistols. Empresário: Richard Branson, o das lojas Virgin e dos aviões da mesma marca. Ao punk, Maton chama de furacão. Os músicos do punk não sabiam tocar, a verdadeira vantagem, pois bastava pensar em tocar e cantar para concretizar a ideia, a mudança cultural fundamental da sua geração (os dadaístas e os surrealistas já haviam feito o mesmo). Curioso: apesar dos seus ideias, os punks seriam recuperados pelo capitalismo e tornaram-se empresários e publicitários, fazendo o mesmo daquilo contra o qual se haviam rebelado, até a mudança de cor de cabelo. A marca (e o seu rendimento económico) torna-se o máximo.

Os melhores capítulos do livro The pirate's dilemma são aqueles em que Matt Mason escreve directamente sobre música, como o segundo (O Tao dos piratas), sobre a cultura Dj, e o terceiro capítulos (Inventámos a remistura), sobre a evolução musical e sociológica do disco e do hip-hop. A cereja em cima do bolo vem na página 141: "As histórias que surgem neste livro são sobre as fronteiras que se deitam abaixo. O punk democratizou os meios de produção. Os piratas ignoraram as velhas restrições sobre as ideias novas. Vimos como pode ser útil a remistura, e como os artistas de graffiti exigem os espaços públicos para os seus interesses privados. Todas estas ideias são sobre a partilha e uso de informação em novos sentidos". Garagens, experimentalismo, downloads, cultura do cut-'n'-paste, flash mobs, derrube de valores, livre acesso, (sub)culturas juvenis, comunicação viral, vídeos virais, tendências temporárias, marcas, graffiti, arte de rua (street art), empreendedorismo, liberdade, Dj, punk, hip-hop e capitalismo são palavras que percorrem todo o livro. Se o punk foi o começo de tudo, o hip-hop atinge a universalidade, como escreve na página 176: "O hip-hop não reconhece ou respeita a tradição no seu sentido tradicional. Ele cresceu numa comunidade a que tinha sido roubada a sua história, e enquanto muitas culturas definiram e confinaram a sua história há muito tempo, o hip-hop está além disso porque não se sobrepôs a nenhuma mas é o resultado de uma nova capacidade de nos falar por todas [as culturas]. O hip-hop tinha uma licença para operar no Bronx [...], agora tem uma licença para operar em toda a parte".

Leitura: Matt Manson (2008). The pirate's dilemma: how hackers, punk capitalists and graffiti millionaires are remixing our culture and changind the world. Nova Iorque: Allen Lane, 276 páginas; logo do livro por Ji Lee.

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