23.5.10

OLÁ E ADEUZINHO

Olá e Adeuzinho é uma peça de Athol Fugard (África do Sul, 1932), encenada por Beatriz Batarda e interpretada por Catarina Lacerda e Dinarte Branco, apresentada no Teatro da Cornucópia (Lisboa).

Ester e Johnnie são filhos de um antigo ferroviário, Joahnnes Cornelius Smit, que teve um acidente e ficou inválido para o trabalho. Os Smit faziam parte da população branca pobre da África do Sul, com a história a narrar o regresso de Ester a casa paterna após doze anos em Joanesburgo, na esperança de receber parte da herança do pai (que estaria a morrer), composta essencialmente pela indemnização que a empresa de caminhos de ferro pagara ao velho Smit.

Enquanto abrem as malas do pai em busca desse dinheiro, os irmãos vão narrando as suas vidas complicadas e quase sem futuro. Ele, sem emprego pois concorrera a um lugar da mesma empresa do pai mas ficara pelo caminho, passando a vida a fazer de enfermeiro do pai, uma vez que a mãe morrera muito cedo. Ela, regressada de uma vida dedicada à prostituição, redescobre as fotografias da família, os vestidos da mãe e os sapatos que usara quando criança, tudo coisas velhas e sem sentido. No final, ela descobre que o pai já falecera e que o irmão mantinha a ilusão de ainda apoiar o doente. Ela parte, pois não há nenhum dinheiro para herdar, mas ele ganha uma história pessoal: usa as muletas e fala da empresa de caminhos de ferro, uma transferência de pai para filho, útil para quem não via sentido na vida.

A representação é muito segura e convincente. A encenação é minimalista, mostrando bem um quadro de família disfuncional e indigente num contexto social mais geral de pobreza e de depressão económica. A peça passa-se quase toda no lado direito do palco, dando mais intimidade à relação dos irmãos, sempre em desacordo (valores, Deus, o dinheiro), num texto muito denso e dramático (gostei muito do monólogo inicial interpretado por Dinarte Branco). É a primeira encenação de Beatriz Batarda. A peça de Athol Fugard, crítico do antigo regime vigente na África do  Sul, o apartheid, já foi representada em Portugal por Zita Duarte e Luís Miguel Cintra em 1983, para a televisão.

Catarina Lacerda fez o papel de Laurinda no filme de António Ferreira, Deus não quis (2007). Dinarte Branco tem uma carreira mais longa, participando nomeadamente em televisão, com Os Contemporâneos (2008-2009) e Mistérios de Lisboa (2010).

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