Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

17.6.10

A LUFA-LUFA VISTA POR JOSÉ MACHADO PAIS

O livro Lufa-lufa quotidiana. Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, de José Machado Pais (2010, Instituto de Ciências Sociais, 227 páginas, 14,4 euros) é um olhar sociológico sobre a vida quotidiana na cidade, antes caracterizada pelo paradigma da indolência e da lentidão e hoje palco do encontrão, da falta de tempo, da lufa-lufa, regime dromocrático onde tudo é feito a correr. Escreve o autor: "É esta percepção dinâmica que convém exercitar ao estudarem-se os tempos do quotidiano: tempos que se deslocam e desmembram ao percorrerem os espaços, numa dispersão e difusão de detalhes, numa fragmentação e justaposição de modos" (p. 16).

São páginas de sociólogo mas igualmente de escritor, dado o modo como capta o leitor com a sua narrativa, frequentemente divertida e mordaz. Para José Machado Pais, a cidade é palco do "dar nas vistas e não dar ouvidos", pelo que ele analisou a vida quotidiana através de objectos menos comuns de estudo, verdadeiras metáforas da vida urbana. Aqui entram o recenseamento de autocolantes de automóveis ("meu outro carro é mais potente", "o que levanta a cabeça do pobre é avião", "não me dê conselho; sei errar sozinho", "tá com pressa? Vai de bicicleta", "mulher de mini-saia é o mesmo que cerca de arame farpado; cerca a propriedade, mas não tapa a visão"), as mensagens que acompanham os pacotes de açúcar ("um dia ponho a mochila às costas e vou conhecer o mundo", "um dia pergunto o teu nome", "um dia levo para casa um cão abandonado"), o siglagês (mundo das siglas), o uso ou não de gravata (o autor informa possuir duas gravatas, a das bolinhas e a azul das riscas) - um ritual de arrumação, como lhe chama -, as fantasias sexuais das leitoras de revistas cor-de-rosa (pp. 107-109). Mas também as culturas juvenis, urbanas e quase marginais, como skaters, breakdancers, ravers e grafitters, artes de musicar (repentes e improvisações), o projecto Batoto Yetu e o modo como se fazem os estudos culturais, suas fontes documentais e mudanças de atitude [pena não ter incluido um capítulo sobre as mensagens nas t-shirts (camisetas, no Brasil)]. No conjunto do livro, concluo que o corpo do texto é de sociólogo mas a essência é de escritor.

Os capítulos tiveram uma vida anterior em forma de comunicações que o autor retrabalhou, e onde desenvolveu conceitos como metodologia das isotopias, globalização cronotópica, presenteísmo, modernidade reflexiva, espaço sedentário como estriado e espaço nómada como liso e aberto, escola formal e temporalidade monocromática e espaços fora da escola e com temporalidades policromáticas, cultura hegemónica que é mais de exclusão do que de inclusão (nomeadamente em grupos minoritários étnicos). Trabalhou afincadamente autores como Georg Simmel, Paul Ricoeur, Nestor García Canclini, Jesus Martín-Barbero, Anthony Giddens, Ulrich Beck, Gilles Deleuze e Felix Guattari, Manuel Castells, Arjun Appadurai e Jean Baudrillard.

Deixo algumas reflexões do autor. A primeira é das trajectórias de vida, em que o autor destaca a de um jovem (pp. 160-161), que vivera na Pedreira dos Húngaros, zona de Lisboa fustigada pelo tráfego de droga: "aprendi [lá] muitas coisas que sei hoje e se calhar foi de lá ter morado é que penso como penso hoje que esta vida é fuck, quantos mais problemas temos mais aparecem, e queremos resolver cenas mas mais se complicam". A segunda é sobre a diversidade cultural (e económica), quando cita o romance de cordel, o chamado património cultural imaterial (pp. 183-184): "O rico chega numa festa/De uniforme ou gravata/Com namorada bonita/Loura, morena ou mulata/O pobre é com uma feia/Que parece uma sucata". Há uma identidade que repousa sobre a diferença, uma cultura que não é erudita mas popular mas igualmente de reconhecer. A última é sobre os estudos da juventude (p. 138), tradicionalmente dominados por paradigmas que reflectiam a forma como ideologicamente os jovens eram representados: dependentes, não autónomos. Hoje, devido à exposição dos media e às tecnologias da informação, os jovens passaram a dispor de um poder não usufruido antes. Acrescenta José Machado Pais que se passou de uma época em que para se ser produtor eram necessárias aprendizagens específicas enquanto para se ser consumidor basta ter-se preferências.

José Machado Pais (1953-) é sociólogo no Instituto de Ciências Sociais e e escreveu nomeadamente A Prostituição e a Lisboa Boémia do séc. XIX aos Inícios do séc. XX (1985), Artes de Amar da Burguesia. Os Rituais de Galantaria nos Meios Burgueses do Séc. XIX em Portugal (1986), Culturas Juvenis (1993), Ganchos, Tachos e Biscates. Jovens, Trabalho e Futuro (2001), Sociologia da Vida Quotidiana.Teorias, Métodos e Estudos de Caso (2002) e Nos Rastos da Solidão. Deambulações Sociológicas (2006).

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