6.7.10

CIDADES - 1

O Grão Kublai Kan ouvia Marco Polo, primeiro por gestos, gritos ou presença de objectos, porque o viajante e mercador veneziano não conhecia a língua tártara. Mais tarde, Marco Polo já se exprimia por palavras nesta e noutras línguas. Ora, as palavras são símbolos que representam realidades. Daí Kan se dirigir a Marco: "No dia em que conhecer todos os símbolos - perguntou a Marco -, conseguirei possuir o meu império, finalmente?" Ao que respondeu "o veneziano: - Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos" (p. 26).

Marco Polo descrevia as cidades que conhecia ao imperador dessas terras. Elas davam pelos nomes de Adelma, Aglaura, Anastásia, Andria, Árgia, Armilla, Bauci, Berenice, Bersabeia, Cecília, Clarice, Cloé, Despina, Diomira, Doroteia, Ersília, Esmeraldina, Eudóxia, Eufémia, Eusápia, Eutrópia, Fedora, Fílias, Hipácia, Irene, Isaura, Isidora, Laudomia, Leandra, Leónia, Marozia, Maurília, Melânia, Moriana, Octávia, Olinda, Olívia, Pentesileia, Períncia, Pirra, Pocópia, Raissa, Sofrónia, Tamara, Tecla, Teodora, Trude, Valdrada, Zaira, Zemrude, Zenóia, Zirma, Zobaida, Zoé e Zora, num total de 55. Elas, as cidades, ligavam-se a céu, contínuas, desejo, memória, mortos, nome, ocultas, olhos, sinais, subtis e trocas, num total de 11 elementos.

Escreve Italo Calvino, através da personagem de Marco Polo: "Não é disto que é feita a cidade, mas sim das relações entre as medidas do seu espaço e os acontecimentos do passado" (p. 14), "O catálogo das formas é infinito: enquanto houver uma forma que não tenha encontrado a sua cidade, continuarão a nascer novas cidades" (p. 142), "A cidade aparece-nos como um todo em que nenhum desejo se perde e de que nós fazemos parte, e como ela goza tudo de que nós não gozamos, só nos resta habitar este desejo e satisfazer-nos com ele" (p. 16), "São as formas que a cidade poderia haver tomado se não se tivesse tornado, por uma razão ou por outra, como hoje a vemos" (p. 35).

Ou ainda: "O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo do caminho, pergunta-se como será o palácio real, o quartel, o moinho, o teatro, o bazar" (p. 36), "Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do arranca-dentes, a garrafa a taverna, a alabarda o corpo do guarda, a balança romana a ervanária" (p. 17). E também: "Para onde levam todos os dias a sua carga os varredores, ninguém quer saber: para fora da cidade, claro; mas cada ano que passa a cidade vai-se expandindo, e os depósitos do lixo têm de ir parar para mais longe" (p.116).
Concluia Marco Polo nas conversas com o Grão Kublai Kan: "Para distinguir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza. [...] As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se" (p. 90).

Fiquei a pensar em algumas dessas cidades invisíveis. Entusiasmado com Isidora, onde os prédios têm escadas de caracol incrustradas de búzios marinhos, amedrontado com Valdrada, onde os assassinos actuam duplamente (na realidade e na sua cópia ou espelho), conhecedor da história que se repete com Clarice, de esplendor à miséria e desta a novo esplendor, curioso com Bauci, onde as casas se elevam do solo através de finíssimas andas.

Leitura: Italo Calvino (2008, edição consultada). As Cidades Invisíveis. Lisboa: Teorema

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