Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

22.9.10

15 ANOS DE JORNALISMO ONLINE

"O jornal Público foi o pioneiro em Portugal do jornalismo na internet" (editorial de hoje do jornal Público).

Saúdo a comemoração. Contudo, a expressão acima citada deveria ser escrita do seguinte modo: "O jornal Público foi um dos pioneiros em Portugal do jornalismo na internet". Na realidade, o primeiro jornal a ter edição na internet foi o Jornal de Notícias, a 26 de Julho de 1995; seguir-se-ia o jornal Público, a 22 de Setembro do mesmo ano. Cito o texto de Helder Bastos, então jornalista do diário portuense precisamente na edição online, no texto que publicou no nº 42 da revista Jornalismo & Jornalistas:

"Antes dessa data [22.9.1995], o jornal já colocava online, de forma esporádica, artigos do jornal impresso. Mas, durante cerca de três anos, o site limitou-se a fornecer uma versão electrónica do jornal impresso. Foi em Setembro de 1999, em plena crise de Timor-Leste, que começou a produzir informação própria, com a introdução do serviço «Última Hora»".

Actualização (23.9.2010, 21:12)
1. A entrevista feita por João Pedro Pereira a José Vítor Malheiros editada no Público de 23 de Setembro de 2010 vem repor alguma da informação produzida acima. Reproduzo: "Não foi em 1995 [a criação do site]. Isto tem uma pré-história. A 22 de Setembro de 1995, lançámos a primeira edição diária integral na Internet. Fomos o primeiro jornal a fazê-lo. O JN fez algumas coisas antes, costuma apresentar-se como um pioneiro nesta área. Eles foram pioneiros em algumas coisas, nós fomos noutras, não vale a pena entrar nessa discussão. No entanto, começámos a fazer umas brincadeiras logo em 1994. Tínhamos um site, que não era visitado praticamente por ninguém. Publicávamos notícias, fazíamos coberturas online, a partir da redacção, de alguns eventos, mas foram só experiências. A compreensão de que a Internet ia ser muito importante para os jornais surgiu em 1994". José Vítor Malheiros, enquanto esteve como jornalista no Público, foi um profissional que muito admirei. Logo, tomo como verdadeira a explicação que faz, o que me leva a repensar o escrito ontem, dia 22 de Setembro.
2. Muitas vezes, penso como um blogue pode fazer serviço público. Quando escrevi a mensagem sobre a qual estou a reflectir, não dediquei toda a atenção ao texto de Helder Bastos, publicado na JJ, nem pensei no impacto que a minha pequena notícia teria (131 visualizações entre ontem e hoje). Helder Bastos, ao abordar a história do ciberjornalismo em Portugal, dividiu-a em três períodos: a) implementação (1995-1998), b) expansão ou boom (1999-2000), c) depressão e estagnação (2001-2010). O texto é, pois, um esforço notável ao condensar a actividade do jornalismo electrónico ao longo de década e meia, em que o primeiro período é o do registo das experiências e dos primeiros domínios oficializados, caso da RTP, em Maio de 1993. O segundo período é o da euforia e dos grandes projectos, com grupos de multimedia a apostarem em portais. Houve uma grande procura de jornalistas online. Mas a passagem de 2000 para 2001 foi dramática: demissão dos directores da Lusomundo.net, integração de redacções, dispensa de pessoal. A nova economia perdia impacto. O terceiro período, a que Bastos chama de depressão e estagnação, tem a ver com o período mais recente. Contudo, parecer-me-ia interessante desagregar esse longo período e encontrar outro, de 2004-2005 para a frente, fruto do aparecimento do Youtube e do desenvolvimento dos podcasts, conjunto de inovações que tem redimensionado e dinamizado os media electrónicos. Isto sem falar no jornalismo cidadão e na criação de redes sociais, como o Facebook e os blogues, muito bem utilizados pelos media de qualidade.

Actualização (25.9.2010, 21:50)

Paulo Querido, escreve no dia 22 sobre Os 15 anos do Público.pt e os pioneiros do jornalismo na Internet: quem conta um conto (com actualizações posteriores), onde narra outros pormenores da história dos 15 anos do online em Portugal. Conta nomeadamente: "Em Julho de 1995 já existia há alguns meses uma edição regular na Internet de um jornal português. O Blitz era divulgado, em versão full text, a partir de uma BBS tanto quanto me lembro desde 1994. A sua primeira edição web foi em Novembro de 1994 (c.f. obra O passado da Internet, Libório Silva, Centro Atlântico). Em Agosto de 1995 (ou seja: depois do Jornal de Notícias mas antes do Público), a Rádio Comercial teve a primeira emissão na web. Não recordo se foi um «conteúdo» jornalístico ou musical: algum dos leitores poderá lembrar-se? Se falamos de edições próprias para a Internet, que o Público passou a ter apenas em Setembro de 1999, então teremos de falar do Correio Informático/Computerworld, da Recortes, da Dígito, do Top 5% webzine e, se bem me recordo, do próprio Tek Sapo - tudo sites com jornalistas a produzir notícias originais, artigos e fotos, em contínuo, uns desde 1995, outros 96. Um deles, o Correio Informático/Computerworld, vazava também a edição que era publicada em papel, já desde 1995, e publicava notícias apenas na edição online, para exaspero do seu proprietário". Todo o texto dele merece ser lido com atenção. É que as memórias de várias fontes, caso de jornalistas que estiveram no começo da actividade, contribuem para um muito melhor conhecimento do que se passou.

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