19.9.10

CRÍTICA LITERÁRIA

Para Nuno Júdice (ABC da Crítica, 2010), a literatura é tudo o que reflecte um universo pessoal, que transporta uma imagem do mundo, que converte o quotidiano, o efémero e o banal em arte (p. 68), com o tempo a ser o grande factor de autoridade na definição de um cânone (p. 16, p. 99).

Toda a crítica é exercida sobre um objecto, o texto (p. 11). A função do crítico é esclarecer sobre géneros, estilos, movimentos, o que constitui a diversidade e a plural coexistência de linguagens (p. 58), através de três momentos: interrogação, comunicação e compreensão (p. 87). A crítica não se deve afastar do texto, na tradição inglesa da close reading (p. 95), em que cada obra é única, cada autor é único (p. 59).

O autor tece críticas: em Portugal, acentua-se o divórcio entre a literatura e a linguagem ficcional imposta pelo meio audiovisual, construída de acordo com parâmetros de compreensão imediata e de consumo, barreira responsável pela criação do género editorial de best-sellers, fabricados de acordo com um receituário de género (p. 31). Ele explica melhor: há produtos de consumo feitos à medida de públicos limitados no tempo e no espaço (p. 44), dá-se a um clássico o mesmo nível do artigo jornalístico, sem qualquer hierarquia (p. 45). E continua: o zapping televisivo repercute-se no ensino universitário com a fotocópia, em que se lêem capítulos que interessam para o exame e não a obra toda, fenómeno que a internet levou ao ponto máximo (p. 48).

Há uma oposição. De um lado, parece existir um declínio de investimento em ciências humanas em função de critérios economicistas; de outro lado, assiste-se à disseminação de cursos de mestrado, pós-graduação e doutoramento (p. 50). A formação de um crítico literário passa pelo ensino universitário e pelos cursos de Letras, mas também pela especialização nos cursos de Comunicação (p. 105). Além disso, alarga-se o leque de leituras: 1) texto escolar, 2) prémios, recomendações de leitura, adaptações à televisão e ao cinema, 3) clubes de leitura, edição ilustrada (p. 74).

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