5.10.10

NOTICIÁRIOS TELEVISIVOS

Durante alguns anos, ouvi o Joel Frederico da Silveira falar do projecto de análise de notícias de televisão com Pamela Shoemaker. Infelizmente, ele não teve tempo para ver a edição do livro.

Lê-se na introdução de Telejornais em Exame: "O presente estudo sobre informação televisiva nos canais de sinal aberto portugueses teve a sua origem num conjunto de debates sobre as características e conteúdos do telejornalismo português em anos recentes. Na sua qualidade de membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS), o co-coordenador do projecto [Joel Frederico da Silveira] teve a oportunidade de participar em discussões sobre a natureza da informação audiovisual".

A co-coodenadora do projecto [Pamela Shoemaker] participara em 2002 num seminário de investigadores de vários países onde discutira procedimentos metodológicos de análise de informação televisiva, e que se viriam a aplicar na investigação que resulta na presente edição. Assim, o capítulo teórico de Telejornais em Exame pertence a Shoemaker, que apresenta o conceito de noticiabilidade - porque é que um acontecimento tem mais probabilidades de ser notícia do que outro - e constructos teóricos relacionados: desviância (baseado na evolução biológica) e significância social (assente na evolução cultural). A desviância refere-se a assuntos noticiosos imprevistos, diferentes e raros, e incluem os que fornecem quer desvios positivos quer negativos. A significância social quer dizer que um assunto noticioso se refere a pessoas ou instituições consideradas importantes para uma determinada comunidade social.

A investigação seleccionou os noticiários televisivos do prime time emitidos em seis semanas de 2002 - Maio, Junho, Julho e Outubro, criando uma base de dados com 64 campos por cada notícia, num total de quase cinco mil notícias avaliadas em termos de análise de conteúdo. O trabalho ficou assim distribuído: Décio Telo e Gustavo Cardoso analisaram os noticiários da RTP1, António Belo e André Sendim os da SIC, Joaquim Trigo de Negreiros e Telmo Gonçalves os da TVI e Joel Frederico da Silveira e Nuno Brandão os da RTP2. O segundo capítulo, assinado por António Belo, esclarece convenientemente a metodologia empregue. Cada capítulo de análise aos noticiários por canal, além dos resultados, tem um enquadramento histórico e social, que permite ter uma melhor percepção do período estudado. Refira-se que, durante o período do projecto, quatro dos investigadores concluiram as suas teses de doutoramento: Gustavo Cardoso, Jorge Veríssimo, Nuno Brandão e André Sendin. Outros investigadores nacionais (caso de Francisco Rui Cádima) e internacionais (como Akiba Cohen) assinam outros capítulos do livro.

Uma segunda parte do livro apresenta tendências internacionais de noticiários televisivos em diversos países - Estados Unidos, Itália, Espanha, Finlândia -, o que ilustra a importância da obra agora editada, pelas possibilidades de comparabilidade. A obra resulta do trabalho do CIMDE - Centro de Investigação Media e Democracria, associada à Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa).

Algumas das notas que pude retirar da leitura indicam: 1) os principais noticiários desde meados da década de 1990 têm a duração de uma hora, ou até mais, 2) contaminações estratégicas da programação na área da informação [que se mantém, como se viu no último domingo com a promoção do novo reality show da TVI], 3) necessidade de se reforçar o princípio da cidadania, 4) percepção da lógica de alinhamento do texto do noticiário, 5) estratégias de captação e fidelização de públicos, 6) lógicas económicas.

Leitura: Joel Frederico da Silveira e Pamela Shoemaker (org.) (2010). Telejornais em Exame. Lisboa: Colibri, 354 páginas, € 14,40. O livro pode ser lido em comparação e complementaridade com o organizado por Manuel Pinto e Felisbela Lopes (2009). Os 50 anos do Telejornal: estudos sobre a informação televisiva. Ribeirão: Húmus

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