20.11.10

AUSCHWITZ


Auschwitz mostra evidências, embora muitas delas sejam apenas imagens fotográficas, o que a olhares mais cépticos pode representar exagero ou manipulação. As duas toneladas de cabelo rapado às mulheres antes de estas serem mortas, os milhares de sapatos numa montra e as dezenas de próteses noutra montra são evidências materiais que não se pode ignorar mas poderiam ser recolhidas de hospitais ou prisões. O ambiente simétrico das casas, as câmaras de gás (visível uma), as celas dos prisioneiros na solitária (isolados), os dormitórios e as latrinas fornecem evidências mais vivas. O modo claro e pormenorizado como o guia conduziu a visita retirou qualquer suspeita, mesmo quando um de nós, mais curioso, quis saber se foram apenas judeus a morrer. O holocausto incluiu patriotas polacos, checos, ciganos. Na verdade, a história é mais completa quando nos fala dos horrores dos judeus ou dos comunistas e socialistas perseguidos, mas é mais opaca quando se refere aos roma (ciganos). Aqui, há na verdade falta de um grupo de pressão internacional, forte e poderoso, que fale e dê o devido relevo a essa tragédia.

Mais tarde, quando em Varsóvia, outro guia completou a imagem. O percurso que segui engloba os locais de combate que os polacos tiveram ao longo das múltiplas guerras. Peso significativo é o da visita ao gueto judeu e ao espaço onde está a ser construído o museu da memória judaica, a inaugurar em 2012 e cuja arquitectura revela o holocausto mas lembra igualmente as imagens que temos das torres gémeas de Nova Iorque destruídas em Setembro de 2001 (última imagem, acima). Claro que os edifícios do gueto já não existem, pois a cidade ficou arruinada em 1944, quando alemães e russos se confrontaram junto ao rio Vístula, com os insurgentes polacos no meio de dois fogos inimigos. A área foi reconstruída entre as décadas de 1950 e 1960, assim como toda a antiga cidade, o que permite oferecer uma notável unidade arquitectónica para o visitante. A cidade tem avenidas largas, e o comércio das lojas de marcas internacionais é evidente. Vi, como em Cracóvia, livrarias americanas vendendo livros em inglês.

Uma viagem entre Cracóvia e Varsóvia ajuda a perceber melhor a "condição" polaca – a enorme planície do país propicia um fácil avanço de tropas de infantaria e cavalaria. Encravada entre dois países poderosos – mesmo que tenham mudado de nome (Prússia para Alemanha, Rússia para União Soviética, regressando a Rússia) –, a Polónia é um espaço de potencial ocupação quando há beligerantes em confronto.

[texto escrito em 31 de Outubro de 2010]

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