9.4.11

ELIHU KATZ

Só agora li o texto de Elihu Katz (אליהוא כ"ץ) sobre a leitura da recepção a partir da teoria dos efeitos limitados de Paul Lazarsfeld (original de 1989).

Nascido em 1926, o primeiro livro de Katz foi feito em co-autoria com Lazarsfeld (Personal influence: the part played by people in the flow of mass communications, 1955), sobre o fluxo da influência e das interseccções da comunicação de massa e interpessoal. Depois, entre aulas, nomeadamente na Annenberg School for Communication da Universidade da Pennsylvania, presidência da televisão de Israel (1967-1969) e livros, escreveu sobre o sociólogo francês Gabriel Tarde (pode ser lido no livro La réception, como o texto que indico em primeiro lugar), analisou o impacto da televisão com autores como Michael Gurevitch, escreveu Media events com Daniel Dayan (em português: A história em directo. Os acontecimentos mediáticos da televisão, Minerva, 1999), e participou no primeiro congresso da SOPCOM em 1999, com o importante texto One hundred years of communication research, onde falaria do seu "herói" Gabriel Tarde.

Lazarsfeld, nas suas investigações em especial no seu Bureau of Applied Social Research, criado em 1937, ocupou-se da comunicação de massa no processo de decisão: votar, comprar, ir ao cinema, mudar de opinião. Os efeitos dos media, até então profundos e duradouros sobre as audiências, eram temperados com os processos selectivos de atenção, percepção e memória. Estas, escreveu Katz, dependem de variáveis de situação como idade, história familiar, pertença política. O jornal, a rádio e os outros media partilham com o grupo primário um duplo papel: rede de informação, gerador de pressão social. Katz considera ainda aplicável, hoje, a teoria do fluxo de comunicação em dois passos, corrigindo algumas perspectivas como a substituição da influência pela informação, a partilha de influência de vários líderes, etapas múltiplas em vez de apenas duas.

Katz apresenta três perspectivas discordantes do modelo de efeitos limitados: institucional, crítico e tecnológico. O mais sedutor e o mais atacado por Katz é o crítico, centrado nos textos de Todd Gitlin. Curiosamente, o livro organizado por João Pissarra Esteves, Comunicação e sociedade. Os efeitos sociais dos meios de comunicação de massa, 2002, publica um texto de Katz e outro de Gitlin, onde este segundo autor evidencia a polémica). Gitlin, segundo Katz, releva a ambiguidade e liberdade de público e a escassa influência do líder de opinião, exactamente o oposto dos autores dos efeitos limitados. Para Gitlin, na leitura de Katz, o poder dos media é grande, com estes a construirem a realidade política e social, a decidirem o que é politicamente legítimo ou desviante, a fazerem a imagem dos movimentos sociais.

A leitura do texto de Katz permite-me reconstituir a visão sobre o paradigma dominante ou administrativo ou teoria dos efeitos limitados, como se chamou à linha de investigação de Lazarsfeld, já no final da década de 1970 e anos seguintes. A sua compreensão pode ter apenas um interesse histórico, mas leva-me a olhar a querela público-audiência de outro modo.

Leitura: Elihu Katz (2009). "Lire la réception à travers le modèle des effets limités. Actualité de Lazarsfeld". Em Cécile Méadel (coord.) La réception. Paris: CNRS Éditions, pp. 47-67

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