Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

16.4.11

O ÚLTIMO BAILE DO SR. JOSÉ DA CUNHA

O texto é de Júlio Dinis (nome literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, escrito em 1857), a encenação de Humberto Pereira, os actores do Grupo de Teatro Amador do Órfeão da Foz do Douro (Porto), colectividade fundada em Janeiro de 1906.

Uma comédia divertida num acto, em que os amigos Alberto e Ernesto procuram revelar-se às suas amadas num baile de máscaras. Texto de uma época onde os códigos sociais e simbólicos eram bem demarcados e obedeciam a regras muito rígidas de honra e relacionamento. Dois pares amorososos (um já constituído com solidez, o outro à espera de aprovação), os sentimentos expressos de modo claro e sem subterfúgios, a necessidade de autorização do pai para a filha namorar (e a ausência significativa da mãe em tal decisão), o galã a querer seduzir uma mulher casada, cujo marido era muito ciumento, são alguns ingredientes psicológicos de uma peça ainda muito popular no conjunto de grupos de teatro amador.

Os actores da peça estreada em Maio de 2010 e cujo ciclo de representações chega ao fim são, por ordem alfabética, Álvaro Cardoso, Isabel Cardia, Francisco Silva, Esmeralda Rocha, José Agostinho, Humberto Pereira e Conceição Luz.

A colectividade insere-se numa zona simultaneamente popular e de classe mais elevada. A zona habitacional e a data de origem indicam isso. Hoje, pelo que percebi, além do teatro e da participação em festas populares como o S. João, o que levou o presidente da associação a pedir voluntários, o órfeão tem uma banda e outras actividades como futebol de mesa.

A assistência ao espectáculo conhecia-se entre si, o que ilustra a proximidade habitacional e gostos próximos daquilo a que João Teixeira Lopes e Bárbara Aibéo (Os públicos da cultura em Santa Maria da Feira, 2007) chamaram de activismo popular (esfera da criação sem autor, como teatro amador e cantar-dançar-tocar um instrumento, público jovem na transição para a vida adulta e em contexto de menor capital cultural), por distinção de ecletismo cultivado, doméstico convivial e doméstico audiovisual. Aqui, há uma diferença face ao que os dois sociólogos indicam, pois o público é mais velho, identificado na linha Jordi López e Ercília García (El consumo de las artes escénicas y musicales en España, 2002), quando se referiam à cultura espanhola da zarzuela e do flamenco.

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