Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

3.10.11

OS MEDIA EM PORTUGAL NOS ÚLTIMOS CINQUENTA ANOS

O capítulo Media e entretenimento, assinado por Teresa Líbano Monteiro e Verónica Policarpo, no último volume da História da vida privada em Portugal, é pequeno (32 páginas) mas muito gostoso, no sentido de interessante e com uma boa narrativa.

Os subcapítulos versam sobre a rádio, a televisão e o modelo de vida privada no Estado Novo (p. 308), marcelismo, família e televisão (p. 316), o 25 de Abril de 1974 (mudança de regime político) e os media, com a vida privada em tempos políticos (p. 320), media e entretenimento e o regresso ao privado (p. 324), invasão da vida privada pelos media (p. 330), vida privada e entretenimento em rede (p. 333) e do uso colectivo à apropriação individual dos meios de comunicação (p. 338). Há um equilíbrio ou economia dos subcapítulos em termos de dimensão, com o texto apoiado em muitas imagens de arquivo dos jornais e bibliotecas, o que torna ainda mais atraente a sua leitura.

Fixo três tópicos tirados da leitura do capítulo, o primeiro dos quais a televisão. As autoras destacam apropriadamente o impacto do meio, no início com variedades, séries filmadas e noticiários, depois, após 1974, com a entrada de temas novos e sociais, casos da nacionalização das fábricas e da banca e da sexualidade e do privado, com a telenovela Gabriela como marco (1977), e a Visita da Cornélia, um programa que aliava o lado pedagógico e artístico com o entretenimento, a emissão a cores a partir de 1981, a par da vulgarização do videogravador e do comando a distância, e, mais perto de nós, a privatização do espectro televisivo com o arranque dos canais SIC e TVI (1992-1993) e a erosão de um modelo televisivo de serviço público.

Outro tópico que considero importante da leitura do capítulo é a dimensão dada às publicações femininas, em especial as orientadas para públicos de classes baixas mas com muita popularidade, como a Crónica Feminina (imagens retiradas do sítio A Agência Portuguesa de Revistas, de João Manuel Mimoso). Nas revistas, as mulheres lêem conselhos de beleza, anúncios a electrodomésticos (em especial durante as décadas de 1960 e 1970), sugestões de decoração e partilha de dúvidas através das cartas às directoras da publicações. Teresa Líbano Monteiro e Verónica Policarpo realçam igualmente o fenómeno da fotonovela, que sucedeu à radionovela e antecedeu a telenovela. Escrevem as autoras: "A fotonovela: tal como acontece com os romances de cordel, as fotonovelas proporcionam às leitoras momentos de evasão e identificação com as suas heroínas" (p. 315).

O último tópico é o relacionado com os pequenos programas que marcavam o considerado período de deitar dos mais pequenos espectadores. No começo da década de 1970, eram os Meninos Rabinos, em que a representação infantil reflectia a existência de famílias numerosas típicas do Estado Novo e com uma centralidade da religião católica na educação das crianças (p. 318). Já o Vitinho, sucesso na década seguinte e com uma empresa a patrocinar o pequeno programa (Milupa), dava conta do filho único que vive com os pais num andar de prédio em meio urbano (p. 328).

História da vida privada em Portugal, dirigido por José Mattoso, tem Ana Nunes de Almeida como coordenadora do volume, numa edição de Temas e Debates/Círculo de Leitores (2011). Teresa Líbano Monteiro e Verónica Policarpo têm doutoramento em Sociologia e são docentes na Universidade Católica Portuguesa.

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