Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

6.1.13

Isto é que me dói

O actor José Tiago está doente com uma úlcera. Entra no hospital e contesta os regulamentos: quer a porta fechada (para evitar ruídos do exterior), quer afixar na parede o quadro de um casal nu, quer um analgésico mais forte. Discute com os enfermeiros, a enfermeira-chefe (uma religiosa), o médico, o director do hospital, com argumentos imbatíveis.

O médico é a personagem que mais se opõe ao actor. Para aquele, o seu saber é científico, ao passo que o actor tem um saber feito de empiria, é um mero produtor de enunciados. Ele critica a anterior vida desregrada do actor (fumo, bebidas, sexo). Acusa-o e diz que o problema dele é um pulmão infectado pelo consumo de tabaco e drogas ilegais. O controlo do corpo em duas perspectivas antagónicas segundo o médico e segundo o doente. Em jogo, está um saber contra um poder, como escreveu Michel Foucault.

Tudo muda quando o actor revela ser licenciado em medicina mas não se intitular médico por não exercer a profissão. Agora, a discussão centra-se em torno do problema físico de um colega. Perversidade ocasionada pela alteração da renomeação de um saber superior, se voltarmos a Foucault.

A comédia de Paulo Pontes, Isto é que me dói, fora interpretada em 1977 por Raul Solnado, actor que fundara o Villaret. José Raposo, que veste a pele do actor num hospital, presta-lhe homenagem antes da peça começar. Outro palco de teatro e outros espectadores, muitos anos depois, apreciam a mesma peça. Apesar de ficção, a história podia ser real. O hospital, assim como a escola, a prisão e o quartel são formações disciplinares, em que regras e punição estão sempre presentes, ainda para regressar outra vez a Foucault.

Além de José Raposo, a peça conta com Sara Barradas, Fátima Severino, Miguel Raposo, Ricardo Raposo, Joel Branco e Joaquim Nicolau, e é encenada por Francisco Nicholson. Sala a precisar de mais espectadores, apesar da graciosidade e leveza da comédia, com o actor principal, no final da representação a saudar Ada de Castro (1937), a fadista e actriz que estava ao nosso lado mas que nós não identificáramos.