Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

29.12.13

A interactividade nos programas de rádio

A Construção da Ordem Interaccional na Rádio. Contributos para uma análise linguística do discurso em interacções verbais é um livro de Carla Aurélia de Almeida e repousa sobre a tese de doutoramento que a autora defendeu na Universidade Aberta (2005), universidade onde lecciona.

O texto faz a análise linguística de interacções verbais (p. 19), em cinco programas de rádio portugueses nocturnos (p. 20) claramente interactivos (p. 75) - Boa Noite, Clube da Madrugada, Estação de Serviço, Tempo de Antena e Bancada Central (p. 83) -, num universo de 479 ouvintes e participantes e num período de recolha de dados compreendido entre 1997 e 2001 (p. 80), considerando as estratégias discursivas específicas, em especial as de ordem interaccional e de alinhamento dos participantes (p. 76). Em suma, a autora analisa as vozes na rádio e a sua heterogeneidade no discurso, a amplificação do dito e o modo como os interactantes procedem à desconstrução do sentido e à intercompreensão do que é dito e implícito (p. 77).

Alguns conceitos e autores que o livro abrange são quadros interaccionais e falar autêntico (Erwing Goffman), fala corrente (Harold Garfinkel), máximas conversacionais (Paul Grice), ligados ao interaccionismo simbólico e à teoria da acção linguística, estúdio como espaço discursivo público (Paddy Scannell), ligado aos media, e contrato comunicativo (Patrick Charadeau). Alguns títulos de capítulos ou tópicos centrais na investigação de Carla Aurélia de Almeida são: a linguagem em acção, práticas discursivas, processos de construção de sentido, aberturas e fechos da comunicação entre o locutor e animador e o público que usa o telefone ou o email e as redes sociais. A autora observa a constituição de elementos essenciais na produção do discurso radiofónico: controlo do tempo de emissão, voz e dicção do locutor, conteúdo e público abrangido no programa e condições de emissão (directo e diferido, diurno e nocturno) (p. 72). Ela acentua a importância da voz e do estúdio, em que aquela é uma presença incorpórea mas vital para tornar a rádio um meio íntimo e quente (p. 74), mas também as interacções verbais estabelecidas entre o locutor e o ouvinte: regras constitutivas, estratégicas, tácticas, agonísticas ou de competição e miméticas ou consensuais. O livro é uma confluência de áreas científicas diferentes como a pragmática linguística, a análise do discurso, a análise conversacional, a análise interaccional, a sociolinguística interaccional, a comunicação a e sociologia e procura saber as estratégias discursivas instaladas em momentos cruciais no contacto telefónico entre locutor e ouvinte (abertura, desenvolvimento e fecho).

O tempo é uma marca da rádio, escreve Carla Aurélia de Almeida, com os programas rodeados por referências à hora, ao boletim informativo e à temperatura (p. 87) (e acrescento eu: ao movimento matinal e de fim de tarde do tráfego rodoviário na 2ª circular, em Lisboa, ou na VCI, no Porto). E o locutor, de novo, enquanto organizador do diálogo: ele, enquanto anfitrião, faz a gestão do tempo, distribui a vez da elocução (isto é, fecha a via a um ouvinte e abre a via para outro ouvinte falar), mantém e relaciona os temas do programa e estabelece o que a autora designa por coerências semântico-pragmáticas interdiscursivas (p. 92).

Para Carla Aurélia de Almeida, não foi fácil reunir um conjunto sistemático de informações respeitantes aos ouvintes participantes. Mas, apesar disso, com o enorme trabalho de recolha que o seu corpus demonstra - mais de meio milhão de palavras - ela conseguiu obter dados quanto a sexo, idade, região do país de onde falavam e profissão (p. 97). Assim, 2/3 dos ouvintes participantes são homens, a maioria geográfica provém da Grande Lisboa (29%) e do Grande Porto (14%), há um peso significativo do operariado da indústria (9%), a que se seguem intelectuais e cientistas (8%), sem conseguir identificar profissionalmente 31% dos ouvintes (p. 98). Olhando para os programas, ela destacou o programa Estação de Serviço, com um predomínio do operariado (50%), ao passo que Bancada Central tinha 10% de intelectuais e cientistas como ouvintes participantes.

Leitura: Carla Aurélia de Almeida (2012). A Construção da Ordem Interaccional na Rádio. Contributos para uma análise linguística do discurso em interacções verbais. Porto: Edições Afrontamento, 259 p., 16 €

Textos da autora sobre rádio e interacção:

2011 - “Aspectos semânticos e pragmáticos da co-construção de identidades discursivas em narrativas de experiência de vida produzidas por participantes de emissões nocturnas de rádio” in Costa, Armanda; Falé, Isabel; Barbosa, Pilar (orgs.) Textos Seleccionados, XXVI Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa, APL, ISBN 978-989-97440-0-4; também disponível em http://www.apl.org.pt/apl-actas/xxvi-encontro-nacional-da-associacao-portuguesa-de-linguistica.html.

2010a - «Então hoje pelos vistos o tema disse-lhe qualquer coisinha mais de perto, não?»:posições interaccionais e a co-construção de identidades discursivas em emissões nocturnas de rádio (“radio phone-in programmes”) in Silva, Augusto Soares; Martins, José Cândido; Magalhães, Luísa; Gonçalves, Miguel (orgs.) Comunicação, Cognição e Media, Braga, ALETHEIA, Publicações da Faculdade de Filosofia, Universidade Católica Portuguesa, pp. 3-15, vol.2, ISBN 978-972-697-195-5.

2010b - “(…) é um rapaz cheio de sorte, digo-lhe já (risos)”: o humor como estratégia discursiva de mitigação do conflito (potencial) em interacções verbais na rádio in Brito et al., Textos Seleccionados, XXV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Porto, APL, pp. 127-142, ISBN 978-989-96535-1-1; disponível também em http://www.apl.org.pt/apl-actas/xv-encontro-nacional-da-apl.html.

2010c - “«se à sua imagem corresponder a beleza da sua voz, é fácil imaginar a razão pela qual não nos dá o sono nestas duas horas»(ouvinte do programa ‘Boa Noite’): a co-construção do sentido em programas de rádio nocturnos”, in Ribeiro, José da Silva; Gonçalves, Ortelinda; Pinto, Casimiro (2010) Imagens da Cultura. Actas do VI Seminário Imagem da Cultura, Cultura das Imagens, Ebook, Edição Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais – CEMRI –Universidade Aberta, ISBN: 978-972-674-699-7, pp. 122-130; disponível em
 
2009 – “Processos de figuração e manutenção da ordem interaccional: estratégias de mitigação no quadro do sistema de delicadeza desenvolvido pelos participantes de programas de rádios específicos” in Fiéis, Alexandra; Coutinho, Maria Antónia (2009) Textos seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística,Braga, 20-22 de Novembro de 2008, Lisboa, Colibri, pp. 43-60, também disponível em
http://www.apl.org.pt/docs/actas-24-encontro-apl-2008.pdf. 
2008 - “O ‘envolvimento conversacional’ no momento de desenvolvimento de interacções verbais na rádio: sequências de actos ilocutórios e ‘estratégias de alinhamento’ em programas de rádio específicos”, in Frota, Sónia; Santos, Ana Lúcia (org.), Textos seleccionados. XXIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Évora, 1-3 de Outubro de 2007, Lisboa, Colibri, 2008, pp. 7-21; ISBN 978-972-96615-1-8; também disponível em http://www.apl.org.pt/images/docs/apl2008.pdf.

2007 - “‘Olhe estamos mesmo no fecho da emissão’:sequências prototípicas de actos ilocutórios, variações e estratégias discursivas no (pré-fecho) e fecho de interacções verbais na rádio” in Lobo, Maria; Coutinho, Maria Antónia, Textos seleccionados. Actas do XXII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Coimbra 2-4 de Outubro de 2006, Lisboa, Colibri, pp. 57-71; também disponível online no seguinte local: http://www.apl.org.pt/docs/actas-22-encontro-apl-2006.pdf.

2005 - Discurso radiofónico português: padrões de organização sequencial, actos e estratégias de discurso, relações interactivas e interlocutivas, tese de Doutoramento em Linguística, especialidade Linguística Portuguesa, Lisboa, Universidade Aberta, 2005, texto policopiado em 3 volumes (Tomo I: texto principal; Tomo II e III: Anexos).

2005 - “‘Não foi pela arbitragem que o Boavista perdeu’: a construção do sentido numa interacção conversacional com três participantes” in Carvalho, Dulce; Vila Maior, Dionísio; Teixeira, Rui de Azevedo (orgs.) Des(a)fiando discursos. Volume de homenagem a Maria Emília Ricardo Marques, Lisboa, Universidade Aberta, pp. 5-16; ISBN 972-674-456-3; disponível também no seguinte local: http://repositorioaberto.univ-ab.pt/bitstream/10400.2/331/1/Des%28a%29fiando%20Discursos5-16.pdf.pdf.

2004 - “‘Eh pá, pere aí, mas pere aí um pouco...’: a dinâmica das trocas interlocutivas em interacções verbais na rádio” in Oliveira, Fátima; Duarte, Isabel Margarida (orgs.), Da Língua e do Discurso, Porto, Campo das Letras, pp. 157-193; ISBN 972-610-902-2.

2003 - “Algumas questões teórico-metodológicas levantadas pela análise de um corpus de interacções verbais na rádio” in Actas do XVIII Encontro da Associação Portuguesa de Linguística (Porto, 2-4 de Outubro de 2002), Lisboa, Colibri, pp. 37-45; também disponível online no seguinte local: http://www.apl.org.pt/docs/actas-18-encontro-apl-2002.pdf.