30.12.13

A etnomusicologia em Salwa Castelo-Branco

Tenho uma imensa admiração intelectual por Salwa Castelo-Branco (Cairo, 1950). A Enciclopédia da Música Em Portugal no Século XX (2010), em quatro volumes, é a face mais visível do seu trabalho como investigadora e como coordenadora de equipas, "obra decisiva pela sistematização daquilo que foi a música, em todas as suas vertentes (os intérpretes, os instrumentos, os letristas, os compositores, os géneros), no século passado", como se lê na entrevista no jornal Público de hoje. Para a enciclopédia, a "etnomusicologia é uma disciplina científica que estuda a música nas suas múltiplas dimensões, nomeadamente a social, a cultural, a política, a cognitiva e a estética”. Outros trabalhos com a sua assinatura incluem Portugal e o Mundo: Encontro de Culturas na Música (1997), Vozes do Povo: A Folclorização em Portugal (2003; com Jorge de Freitas Branco) e Traditional Arts in Southern Arabia: Music and Society in Sohar, Sultanate of Oman (2009; com Dieter Christensen) [imagem retirada daqui].


Retiro uma fatia da entrevista de Salwa Castelo-Branco dada a Mário Lopes (Público): "O que havia era um trabalho de colecta, meritório e importante, mas não havia o ensino da etnomusicologia, nem a pesquisa verdadeiramente etnomusicológica, que assenta na música enquanto fenómeno social. Giacometti fez um trabalho meritório, mas que se centrou no som musical. Ele queria registar, e fez isso muito bem de norte a sul do país, mas não tinha formação nem interesse no estudo das problemáticas. Por exemplo: desde o período em que começou o trabalho dele, em 1959, que se prolongaria até final dos anos 1980, Portugal passou por várias mudanças. Nos anos 1960, a época da grande mudança, houve a emigração para o estrangeiro e a imigração com o início da guerra colonial. Isso, quer num contexto rural quer urbano, afectou a música de forma extremamente aguda. Por outro lado, havia o movimento folclórico apoiado pelo Estado Novo. Eu teria gostado de saber qual foi a vivência das pessoas nas aldeias em que Giacometti gravou. Vou evocar um contexto que conheço muito bem, Cuba do Alentejo. Que diferença havia entre o cante nas tabernas e o cante num grupo? Olhando para hoje, vejamos a globalização. O que é que o estudo da música nos pode ensinar sobre ela? O que é que a música nos pode ensinar sobre as identidades dos grupos migrantes na área metropolitana de Lisboa, ou nos migrantes portugueses que vão para fora"?

Pode ler-se uma curta entrevista que fiz a Salwa Castelo-Branco em julho do ano passado aqui.