Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

4.6.14

Cinquenta anos da Radio Caroline

 

Esqueci-me de escrever sobre os cinquenta anos da Radio Caroline, que entrou a funcionar em 28 de Março de 1964, no sábado de Páscoa. Caroline era o nome de um barco registado no Panamá e propriedade de uma empresa baseada no Liechtenstein e comprada pela Planet Productions, uma empresa registada na Irlanda e que pertencia à Planet Sales, entidade que vendia publicidade na primeira estação comercial de rádio na Grã-Bretanha. Logo à partida, um imbróglio de registos e empresas.

Um anúncio da estação seria: "Esta é a Radio Caroline em 199 [metros], uma estação que emite música todo o dia. Estamos no ar todos os dias das seis da manhã até às seis da tarde. A hora certa é meio-dia e um minuto e este é o programa de Christopher Moore" (Clark, 2014: 13). Além de Moore, o outro locutor era Simon Dee. O barco, com o capitão Baeker e da sua tripulação, tinha dois engenheiros suecos especializados em produção e transmissão de rádio.

O que se destaca fisicamente do barco como mostra a fotografia é a sua antena, de 51 metros de altura, o que o parece desequilibrar. O barco, ancorado fora das águas territoriais da Grã-Bretanha a nordeste de Felixtowe, atingindo Londres e todo o país mas também chegando à Holanda, Bélgica e França através dos dois emissores de 10 kW. Parecendo emissores de pequena potência, eles estavam sobre o mar, o que facilitava a propagação. O custo da transmissão era avaliado em 260 libras por semana, uma verba muito avultada para a época.

Em 1964, o monopólio de rádio na Grã-Bretanha, a BBC, era posto em causa. Como o barco estava em área internacional, a legislação e o poder militar a ela associado não podiam actuar. Mas também as associações discográficas procuraram impedir a transmissão de música, reclamando a cobrança de direitos de autor dos músicos. E os ouvintes da estação eram avisados pelos Correios de que não podiam ouvir estações ilegais sob pena de pagarem multas, o que se revelou paradoxal dado o número de cartas enviadas à estação em seu apoio. Os programas da BBC eram vistos como aborrecidos. E os anunciantes aproveitaram-se da novidade oferecida pela rádio pirata para colocarem aí muita publicidade, a necessária sobrevivência da estação. A locução era calma e informal, o que atraia quem a ouvia.

No dia do primeiro aniversário da Radio Caroline, quatro prémios especiais eram atribuídos pela estação: The Animals (House of Rising Sun), Petula Clark (Downtown), Tom Jones (It's not Unusual) e Beatles. Em 1966, Emperor Rosko entrava como dj na estação a ganhar 70 libras semanais e com um estilo próprio, tipo "Grande Cassaboo, eu tenho alguma coisa especial para o teu papá e a tua mamã, feliz por te ter no programa". Quando os Beatles foram aos Estados Unidos em Agosto de 1966, havia três dj de estações operando no mar da Grã-Bretanha. A música pop singrava muito devido às estações piratas de que a Caroline se tornou um ícone.

Leitura (apressada): Ray Clark (2014). Radio Caroline and the True Story of the Boat that Rocked. Stroud, Gloucestershire: The History Press, 256 páginas

Sem comentários: