Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

22.1.15

Marco Paulo

Não gosto do género musical interpretado por Marco Paulo mas não pretendo fazer uso dessa minha apreciação nas linhas que se seguem. O sociólogo ou o historiador deve olhar para os factos ou estruturas de forma mais objectiva. O importante é compreender como os fenómenos e as tendências ocorrem e as suas razões.

Marco Paulo é nome artístico, pois o cantor nasceu como João Simão da Silva. A primeira vez que ele cantou na televisão foi num programa de Cidália Meireles ainda com o seu nome de nascimento. Nesse programa, a antiga membro do trio Irmãs Meireles dizia defender a música portuguesa. Simão da Silva teve êxito na actuação, o que levou a editora Valentim Carvalho a procurá-lo.

António Calvário, figura do cantor romântico de então, transferira-se para a Belter, com condições que a Valentim de Carvalho não podia oferecer [na mesma altura, Madalena Iglésias também foi para a etiqueta Belter]. Ficando sem o crooner de maior rendimento, a editora viu potencialidades em João Simão da Silva e começou uma operação de lhe arranjar repertório. Em dois sentidos, através de originais de Manuel Paião e Eduardo Damas e das versões de cantigas internacionais com letra adaptada em português. O primeiro disco do novo cantor foi um grande sucesso: Vorrei.

O cantor dos cabelos encaracolados cantaria canções dedicadas a mulheres, com os nomes delas: a Joana, que acabaria por casar com o rival, a Isabel, que jurou amor mas também se afastou, Nina, de tranças morenas, Anita, com os seus blues jeans, a morenita, que ia namoriscando os rapazes e se divertia a dar-lhes falsas esperanças, Susana, altiva que fingia não o ver na rua. E o estrondo veio quando cantou Eu Tenho Dois Amores, uma loura, outra morena. Isto é, histórias de amores fracassados mas igualmente de promessas nem sempre muito duradouras.

Se a mudança de regime político em 1974 acabou com a maior parte dos artistas do nacional-cançonetismo, Marco Paulo ganhou sucesso nos anos seguintes, uma espécie de voz popular rural e semi-urbana face à música urbana de intervenção e politizada. Agora, na semana que fez 70 anos de idade, ele foi motivo de recordação. Cantores de idade mais jovem ocupam o seu lugar de outrora, caso de Tony Carreira. Sobre este, um dia, fiquei admirado: um grupo grande de fãs suas vestiam t-shirts com o seu rosto estampado. Um concerto por ele dado no Campo Pequeno levara essa multidão de mulheres, algumas já de idade madura, a percorrer alegremente os corredores do centro comercial.

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