23.8.15

Hermínio Martins

Em 2000, Carlos Leone organizou um livro com o título Rumo ao Cibermundo?, onde me juntou a um notável grupos de intelectuais: Rui Bebiano, Carlos Vidal e Hermínio Martins.

Hoje, dia em que se soube da morte de Hermínio Martins, vale a pena recordar o que ele escreveu então, um texto pujante de cerca de 25 páginas sob o título "Tecnociência e Arte". Com pouco espaço para parágrafos distintos, ele começou por identificar o conceito de sociedade científico-industrial em França entre 1815 e 1820. Depois, convoca-nos para olhar as visões saint-simonianas e positivistas, tornadas menos obsoletas que antes da onda do discurso do inevitabilismo ocidental liberal tecnocientífico nas democracias de mercado e de igual inevitabilismo do Estado socialista (p. 13). De passagem, Martins critica os modernistas, como Yeats, Pound, Joyce e Eliot, que rejeitaram o mito do progresso e da revolução mas se comprometeram com movimentos fascistas ou para-fascistas.

E também olhou para os fuuristas, para quem as máquinas se associavam ao belo e ao sublime. Os futuristas legaram-nos a palavra neolatria ou tecnolatria (p. 20). Tal, no fundo, queria significar o carinho pelo novo, pelo produzido pela novidade (o nosso António Ferro pode pertencer a este grupo, acrescento). Glorificar o novo é destruir os bens sobejantes, os modos de sentir antigos, em que se incluem os planeadores urbanos modernos.

No seu caminho, Hermínio Martins elucida-nos da nossa situação presente, a do estado da natureza cibernético, de natureza-como-informação, de estado de cultura cibernético (p. 25). O filósofo comparou a ciência militar e o desenvolvimento de instalações computacionais (com frequência, com o nosso desejo de elogiar os computadores e a internet, esquecemo-nos desta origem, acrescento). O autor quase acaba o seu texto, identificando um revivalismo do platonismo científico (p. 27), com espaço para a experimentação mental e para a crítica, empregando o termo re-uso, signifique ele o que significar, mas suficiente para permitir a liberdade de pensar, julgo eu.

Hermínio Martins nasceu em Maputo, Moçambique, em 1934. Na década de 1950, exilou-se no Reino Unido, onde ensinou nas universidades de Leeds e Essex e no St. Antony’s College da Universidade de Oxford. Publicou Classe, Status e Poder e outros Ensaios sobre o Portugal Contemporâneo (1998) na editora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, coordenou a obra Dilemas da Civilização Tecnológica (2003), em que o seu discípulo José Luís Garcia desempenhou um papel importante, escreveu Hegel, Texas, e outros Ensaios de Teoria Social (Século XXI, 1996) e Experimentum Humanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana (Relógio D’Água). Tinha quase pronto um volume com Rui Feijó, em que tratava o 5 de Outubro, o 28 de Maio e o 25 de Abril na perspetiva comparativa, histórica e sociológica. Nos últimos anos, a sociologia e filosofia da ciência e da tecnologia ocuparam parte substancial das suas reflexões (dados recolhidos no texto do jornal Público).


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