13.9.15

Imobiliário e arrendamento nas cidades

O texto publicado ontem por Marisa Antunes no Expresso (papel) compara Lisboa e Porto em termos de lojas que abrem e lojas que fecham. Os dados e as conclusões (tendências) merecem aqui reflexão. Dados oficiais indicam que, por semana, há um decréscimo de uma loja em Lisboa e um aumento de cinco no Porto. A questão essencial é o custo dos arrendamentos, na altura em que se cumprem três anos da atual lei do arrendamento. Na avenida Almirante Reis (Lisboa), praticam-se preços de rendas que atingem 3 a 4 mil euros, quando o preço de uma renda acima de 1500 euros se torna incomportável. O preço a juntar a ordenados e impostos acaba rapidamente com os negócios. Isso explica a razão pela qual aquela zona mas também as avenidas de Roma e de Guerra Junqueiro estão a perder lojas, visível, por exemplo, nas lojas de sapatos na avenida de Roma. Há uns dez anos, contei mais de vinte ou quase trinta lojas de sapatos (fiz aqui um álbum fotográfico delas); hoje, o número é diminuto.


Ao invés, escreve a jornalista, o Porto está a atrair mais lojas, com reconversão de atividades, do comércio a retalho para serviços de hotelaria. O turismo parece ser uma tábua de salvação. O texto elenca zonas como a praça dos Poveiros e praça D. Filipa de Lencastre (que Marisa Antunes designa como túnel de Ceuta), onde lojas desocupadas se transformaram em zonas de gastronomia.

Eu tenho uma perspetiva diferente, assente em dois pontos. Por um lado, a minha visão é pessimista sobre o crescimento atual. Ele é baseado numa única indústria: o turismo. Os habitantes estão a afastar-se desses locais, deixando as cidades de ter pessoas que alimentam diversas atividades comerciais. Os locais passam a ter uma dupla situação: muita gente durante o dia, desertas à noite.

Por outro lado, o artigo é esquemático. Dou exemplos: em Lisboa, junto ao campo Mártires da Pátria, nomeadamente na rua Gomes Freire, nascem pequenos restaurantes temáticos que atraem uma clientela diferente, visível no presente fim de semana com o programa Todos. Com o programa de Moda no Chiado, esta semana, as ruas daquela zona tornaram-se quase intransitáveis. No Porto, as ruas 31 de Janeiro e Sá da Bandeira perdem muitas lojas. A não ser a hipótese de revitalização do mercado do Bolhão, aquela zona terá uma ainda maior depressão. Isto é, acho interessante caracterizar as cidades, mas torna-se necessário estar atento a pequenos fenómenos locais que complexificam as situações urbanas.

[primeira imagem: Porto, traseiras do passeio das Cardosas; segunda imagem: Lisboa, campo Mártires da Pátria; terceira imagem (vídeo): Lisboa, descida da rua do Carmo]




Sem comentários: