27.11.16

O silêncio e os intelectuais


Reconheço que não dei o devido valor ao livro de Tito Cardoso e Cunha, Silêncio e Comunicação. Ensaio sobre uma Retórica do Não-Dito, saído em 2006. Comecei a lê-lo e, mergulhado em aulas, leituras e obrigações burocráticas - passara a coordenador científico da área da Comunicação da Universidade Católica -, deixei-o sob outros volumes à espera de tempo. Agora, lembrei-o, ao ouvi-lo na conferência organizada por Mário Mesquita, Os Intelectuais na Democracia, com Maria Inácia Rezola, Tito Cardoso e Cunha e Luís Filipe Castro Mendes.

Os temas de Tito Cardoso e Cunha, de que guardo boa memória de aulas suas no mestrado da Universidade Nova de Lisboa, pela atualidade e humor fino na análise da contemporaneidade, mantêm-se atuais face ao livro. Escrevia ele sobre a dicotomia entre o silêncio - expresso, por exemplo, na leitura reflexiva de um livro - e a sobreabundância de informação no audiovisual tornada ruído, entendido como medida da perda de sentido. De uma forma mais específica, o autor compara o recolhimento silencioso que a (suposta) observação religiosa permite com o materialismo da modernidade e da industrialização. E, um pouco mais à frente, refere Platão, no Górgias, que opunha a retórica, arte que opera pela palavra, à pintura, cuja imagem se nos mostra silenciosa. Tudo isto está, conclui, ultrapassado pelas tecnologias multimedia. E cita M. Picard (The World of Silence, 1952) sobre a rádio, "máquina que produz ruído verbal absoluto. O conteúdo já pouco importa; a produção do ruído é a principal preocupação".

Na sua comunicação, Cardoso e Cunha entende que a democracia precisa do uso da palavra e do discurso. Enfatiza: a presença do intelectual faz-se pelo uso da palavra. E suporta-se em George Steiner (The Retreat from the Word). O retraimento da intervenção pública do intelectual torna-se evidente no tempo da televisão, ritmada pelo soundbite, meio eletrónico apto para a retórica patética e para excitar as comoções. Hoje, há falta de tempo. Pierre Bordieu (Sobre a Televisão) concluía que a televisão não é favorável à expressão do pensamento. Na urgência não há tempo a perder. Ora, a democracia tem como regra a circulação livre da palavra, ao passo que a não democracia é da ordem da silêncio e da censura. Cardoso e Cunha falaria ainda da distinção entre o intelectual - cuja linguagem tem dificuldade de chegar a sua intervenção e compreensão não redutíveis à linguagem comum - e especialista - aquele que fala para pares especialistas. Ou técnico do saber prático, como diria Sartre.

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